
Anteontem de manhã, depois do jogging matinal debaixo de chuva miudinha e furando um nevoeiro 100% natalício, dei a habitual volta ao meu bairro para descomprimir. Tudo isto antes de entrar na Piscina Municipal para quilómetro e meio de estilos. Para o triatlo completo, só faltou mesmo a volta na bicicleta. Já vislumbro os Jogos Olímpicos do próximo ano e sinto, sem qualquer tipo de imodéstia, que para ser a Vanessa Fernandes, para ser invencível nestas modalidades, só me falta o aparelho nos dentes e… outra coisa que agora não interessa nada para o caso.
Nessa volta em que os níveis corporais se restabelecem, enquanto caminhava e observava o bailado da condensação da minha respiração quando encontrava o ar frio da rua, bem na frente dos meus olhos, uma placa despertou-me a atenção. Era uma placa estrategicamente colocada, bem na frontaria de uma vivenda das mais recentes e eu estranhei.
Dizia “VENDE-SE” e a constatação de que era de facto aquilo que dizia, em letras garrafais para que todos pudessem ver, partiu-me o coração.
Não consegui evitar suster a respiração, um longo e profundo suspiro e um sabor amargo na boca que teimava em não sair.
Aquela placa soube-me a derrota.
Porque para além das letras e dos números de telefone, há ali muito mais escrito nas entrelinhas. Há agora uma família onde antes só houve um casal, um jovem casal que atracou neste porto cheio de sonhos e esperanças e agora atirou com a toalha ao chão. Desistiu. Disse basta!
A mina secou. A seara mirrou. Não há mais futuro aqui. É tempo de embalar a trouxa e zarpar.
Há dias, quando incumbido da missão de adquirir os presentes para as crianças, por motivo da festa de Natal da autarquia, tive oportunidade de conhecer o novíssimo Fórum de Castelo Branco. É um espaço muito agradável e moderno, cheio das lojas que a malta agora gosta, onde não falta praticamente nada. È um pequeno Colombo, como lhe chamou a Felicidade, a apenas hora e pouco de distância, mesmo a convidar para o passeio de fim-de-semana. Para ser tão bom como o Colombo, não são lojas que lhe faltam, mas sim a nossa gloriosa catedral a um passinho de distância. Se assim fosse, só faltava o metro de superfície até à minha porta para que não falhasse um joguinho em casa. Era bom era!
No Colombinho também não faltam os “restaurants” da berra, as marisqueiras, os burguers e as pizzas, o leitão da Bairrada e o rodízio. No “nosso”shopping não faltam os estacionamentos, os espaços verdes, as casas de banho com música de fundo e as escadas rolantes. Para mim… está perfeito.
A dada altura, depois de repostos os níveis calóricos, apeteceu mesmo o tal cafezinho. Dirigindo-me ao quiosque mais próximo, bem no “coração” do átrio central, chamo pela menina cujo rosto reconheço de imediato assim que se vira. Era a Cristina, a filha da Maria da Luz, beiranense de gema que conheço desde sempre lá da minha rua e da minha aldeia. Não consegui evitar um “olhá Cristina” sem disfarçar o meu ar de labrego que vem à cidade, que lhe arrancou um sorriso instantâneo nos lábios. É sempre engraçado quando a gente encontra assim alguém sem estar à espera e acho que ela também gostou. Perguntou-me ao que vinha e eu quis saber também dos seus. Disse-me que estava tudo bem, de saúde e “empregadinhos da Silva”. A sua família debatia-se desde há muito com a dificuldade de arranjar um emprego estável e duradouro por estas paragens até que decidiram emigrar. Sim, emigrar, não me enganei no termo porque mais parece que vivem num país diferente do nosso, tão próximo e tão distante. Não conseguiu esconder a satisfação quando me confidenciou que “males” de emprego já não eram com eles. “Eu gosto de estar aqui, a minha mãe está na cozinha da Portugália, o meu pai no Chimarrão e o meu irmão no Burguer King”.
“A sério, eh pá, e eu não o vi lá!”.
“Trabalha por turnos porque anda a estudar à noite. Só entra mais tarde. Mas está muito bem”.
Ainda dei uma volta lá por cima só para cumprimentar o “Chefe António” que há-de ser sempre chefe por ter sido um dos grandes mentores do Agrupamento 659 da Beirã. Quando me viu, sorriu satisfeito e disse-me “comecei ontem mesmo mas já me estou a sair em grande!”, enquanto passeava um espeto enorme com carnes suculentas. Eu respondi-lhe que “não há nada que meta medo a um escuteiro do seu gabarito!” e sei que é bem verdade porque enquanto escuteiros não somos apenas meninos de jarreteiras e lencinho ao pescoço como pensam alguns ingénuos menos informados que passaram ao lado dessa enorme realidade. Nos escuteiros aprendemos também a ser homens e mulheres e a dar sempre um pontapé no prefixo “IM” da palavra “IMPOSSÍVEL”. Ao longo da minha vida, tenho-me lembrado muita vez dessa imagem do escuteiro que tínhamos no “Manual do Lobito”, a chutar para longe a impossibilidade da possibilidade que me tem ajudado a superar muito dos desafios que tenho encontrado no meu percurso. Lembro-me sempre muito de quem muito me ensinou e o Chefe António nisso foi barra. Desde fazer um fogo em pleno mato sem riscos de incêndio, a aprender a guiar-me pelas estrelas, há-de sempre haver cá um cantinho para ele.
Já há dias, quando me desloquei a Évora para uma reunião na CCDRA e optei por um hambúrguer rápido no Mcdonald’s para não chegar atrasado, reconheci de imediato os olhitos verdes que me sorriram detrás do balcão. Era a Maria João Raposo que há-de sempre ser para nós, a Maria João “Salsinha”. Depois de muito por cá passar, reconstruiu o seu futuro e a sua vida com o Zé em Évora, onde ele já trabalhava e onde se sente como peixe na água. A sua cara transparecia um bem-estar tal que não enganava ninguém. Embora de farda e num trabalho que todos sabemos extenuante, transmitia uma onda tão boa, de quem tem o melhor emprego do mundo que até eu fiquei com pena de não ter um chapéu daqueles.
O companheiro felicíssimo por estarem todos juntos e o Fábio que já está mais do que integrado na escola com os novos colegas, contente como nunca. O pequenito Afonso, esse, já se há-de fazer gente naquele ambiente que será sempre o seu e tudo corre bem quando acaba bem.
Disse-me que “lhe custa muito quando volta… ver tudo tão parado… tão velho e na mesma” e eu fiquei com um nó tão grande na garganta que estava capaz de dispensar o sanduíche se não o tivesse já pago.
Em qualquer das duas situações, nas duas cidades vizinhas, fiquei a pensar. Pensar se serei mesmo este bicho raro como me senti, estranho a mim mesmo por insistir em ficar.
Quando acabei o curso regressei convicto, pela minha família, pela minha mulher e pela minha terra. No fundo, regressei por mim também.
Embora voltasse a fazer tudo de novo e mesmo que acredite profundamente que não sou só eu que comando a minha vida por haver tantas forças que não vejo, mas sinto, à minha volta, não consegui evitar sentir-me raro.
Tem-se apostado na habitação e na compra de terrenos.
Cada vez mais acredito, e jamais fugirei à minha quota-parte de responsabilidade, que se não acontecer depressa um milagre que gere empregos, e é melhor que sejam muitos, dentro em breve teremos mil promessas de futuro que se desvanecerão por falta de gente que lhe dê corpo.
E isso dói-me…
tanto.