Mostrar mensagens com a etiqueta Obituário. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Obituário. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 27 de março de 2018

(Quando chegou) A vez do Ti Tó



A música de fundo tem de ser esta, porque é... a certa.

Algo morre na minha alma, quando um amigo se vai. Com ele, morre parte de mim.


Quando o telefone tocou, e vi no ecrã, a carinha do meu primo "Cadorin", cumprimentei-o com o "eh,meu irmão" de sempre, mas… do outro lado, não me chegou o habitual afecto
 alegre, mas antes uma voz séria e pesada... 


Claro que só pude deixar fugir um derrotado… "então... o que há?"


Do outro lado: "o Ti Tó".



Aí, meio que desliguei. O cérebro  continua a trabalhar, claro está, mas apenas no rés do  chão, em piloto automático, a fazer as perguntas, e a dar as respostas óbvias. O centro    das operações vai para o sótão, porque é aí  que se situam as recordações, a memória, ou seja, aquilo  que realmente somos. Para mim, é a memória,  e não a inteligência, que nos faz grandes. 


Quando não nos lembramos, sequer do nome de quem amamos, como é  o infeliz caso da minha Cali, a nossa existência resume-se à caixa da CPU, dos antigos computadores, sem motherboard, ou processador. Quem nos habituámos a tanto admirar, pela riqueza que     tinha dentro de si, já não mora mais ali.


Na altura do telefonema não percebi, ou não  consegui perceber, os contornos do que se  passou. Não  tinha ideia que estivesse doente. Creio que recordo qualquer coisa como uma operação, abrirem, e fecharem, de seguida. Não percebi. Na altura, apenas fiquei a       lamentar, muito, que tivesse acontecido. Mas a verdade é que aquela, é a certeza que 
nós temos mais segura na vida. Aquela é a que nenhum de nós poderá escapar.

Era assim... Os quadros ainda frescos na memória são estes...

O Ti Tó era um Homem bom. Tranquilo, Pai de família, de três filhos de quem sempre esteve muito próximo, extraordinário cozinheiro (tenho ideia que o Manuel Luís  Goucha,       quando se celebrizou por ser um grande e excelente  comunicador entre os tachos, ainda bem antes de ser esta bichona louca que só apresenta programas tarecos; chegou a fazer um   programa com ele, creio que na Barroca do Lobo, na Covilhã, onde vivia), um           enorme Socialista (militante de toda a vida, que bem conhecia e muito de cerca privou   com Sócrates e Guterres, que certamente se lhe dissessem, no olho do furacão, onde      estão, que faleceu o Galvão da Covilhã,  não  teriam corrido para o primeiro avião, para   terem podido vir ao seu funeral, mas, de certeza que o lamentariam); mas era também  um grande pescador (como recordo os dias que pareciam imensos, de tão grandes, com     ele, na barragem da Póvoa, do Poio, ou da Covilhã, na serra, a pescar. A pescar... bem... eu nem para enviar a porcaria do isco prestei, quanto mais...

Com o meu irmão Miguel, em 1980

O Ti Tó era também um enorme, ENORME lagarto (leia-se Sportinguista!)  Daqueles         mesmo... GRANDES! (que na minha família, eram... todos! Ele, os filhos, o meu pai, o    meu irmão, os filhos deste, a minha madrinha... Quanto a mim, alguém tinha de ser a
 ovelha         negra... ou o filho pródigo, capaz de ver a luz. Piada ruça, de gasta, mas 
enfim... é minha.)

Longas horas à mesa, em conversa, a confraternizar... recordo sempre assim

Apesar do seu indiscutível talento entre as panelas e os fogões, o Ti Tó nunca se conseguiu afirmar como empreendedor na área. Chegou a ter um restaurante com o vizinho e amigo Zé Prata, a "Ti Emília", que nunca chegou a vingar. Isto porque, creio eu, que ninguém mo disse, sempre teve uma visão despreocupada e distante com o vil metal. É bom recordar  que tudo isto são memórias, ideias do baú, que por este infeliz motivo, abri. Como de      resto, o baú  das fotografias que tenho guardadas numa caixa hermética, que trouxe da     casa da minha mãe. Aquando deste trágico acontecimento, sensibilizado por esta triste   notícia, subi literalmente ao sótão, para ir buscar estas fotografias que sabia que lá        estavam, a fim de ilustrar este meu texto,. Parece incrível,  não é?, mas eu lembrava-me de cada uma destas. Há anos que não  lhes tocava, mas entre muitas outras que não        pensava que tinha (seria tão  rico, caso tivesse tempo para arrumar aquilo), era estas que procurava. Estes olhares, estes sorrisos, estes momentos de alegria cristalizados, que nos fazem mergulhar no passado, e ir beber a essa felicidade implícita. Não há nada que        chegue ao poder de uma imagem. Nada!



A memória mesmo que guardo dele, é à mesa, quando íamos todos daqui passar o fim de 
semana à Covilhã. Sabíamos que não  poderia ser uma casa faustosa (a minha tia Maria     Irene, sempre foi muito doente do coração, nunca teve um trabalho convencional fixo, e sempre tomou imensa medicação), mas a verdade era que aqueles dias, eram plenos de   alegria. As minhas tias, Maria  e Cremilde, sempre atrás de mim, a fazerem - me            marcação cerrada, tiki-taka-tiki-ta: "filho, não  andes descalço que o chão está gelado;    filho, não   mexas na cadela que levas as mãos  à  boca e podes ficar doente; filho não  comas mais, que ficas mal disposto; filho,  vai vestir um casaquinho que está frio, e te podes  constipar; filho vai para a cama, que já  são  horas (eu fui criado assim, neste a
ambiente... com os pais a trabalharem, sem infantário, com estas duas jóias... Três!, com a minha avó Joaquina. COMO É QUE QUERIAM QUE EU NÃO FOSSE MIMADO?!?!?! Só se  fosse o Super-Homem. Perante esta pressão  tremenda, só  recordo a minha tia Canina     (diminutivo, o mesmo que pequanina, por ser a mais nova deles todos), aos gritos, de braços no   ar: OPÁÁÁÁÁ DEIXEM-ME ANDAR O GAROTO!!!!! A CASA É MINHA!!!!!"


Eu adorava-a. Aqueles filhos foram criados naquele ambiente e não se perderam. Talvez   tivessem inteligência para terem estudado mais, mas, seguiram a sua vida, geraram           outras,  formaram lares, educaram filhas, uma das quais, a minha prima Catarina, é        cidadã do mundo! Estudou chinês (?!?!?) e anda aí, pelo globo, a trabalhar. Coisa de alto    nível!

Eu e a Céu, no seu casamento


Com o meu Cadorin

O Ti Tó fumava, não compusivamente, mas saboreando o fumo, como eu faço. O Ti tó       tinha o rádio do quarto sempre ligado, e isso era algo que fascinava a minha ignorância    inocente de criança. Aquele conceito de rádio como som de fundo, de companhia, 24       horas por dia, foi algo que aprendi e tem sido uma constante da minha vida, desde os      tempos de estudante. Diariamente, ouço à volta de 16 horas de radio. Nunca me deixa.      Assim, tenho sempre companhia.


Nunca vi o Ti Tó zangado.  Bem, quando o chateavam, zangava-se, claro. Mas era um       homem, perdão, um Homem (com H maiúsculo), bem resolvido. Vivia de bem com a vida, apesar das contrariedades. Não  tinha carro  (vinham sempre de comboio, antes do carro do genro. Dantes tiveram um muita velho, que acabou), creio que viviam na casa da firma onde trabalhava (enooooooooorme, com uma varanda  com vista de cortar a respiração,    virada para a serra; uma cozinha gigantesca, corredores, e mais corredores, uma sala         enorme, 5 ou 6 quartos, mais o sótão que ocupava a área da casa toda.


Era um Homem bem resolvido mas… sofrido. Tinha perdido a companheira há mais de 25  anos, e também  o seu filho João, o benjamim, caiu há meia dúzia de anos atrás, quando tinha a minha idade hoje, traído por um coração que tem feito marcas na minha história  familiar. Quando os imans se perderam (o meu pai, de cá; a tia Mirene de lá), os              continentes foram-se também perdendo à deriva, no oceano da distância familiar. Quando a filha da minha prima Céu nasceu , a primeira do lado de lá, lembro-me perfeitamente de, na loja das minhas tias, da Beirã, ter ouvido um "vamos já vê-la", da boca do meu pai.
E  fomos!


Sábio é o povo quando diz que… longe da vista, longe do coração.


Hoje passam - se meses, anos, sem nos vermos. Há sempre muitas promessas, mas, a       distância... afasta. A última vez que nos vimos, foi no funeral da Tia Bia. Andamos assim, presos pelos resquícios do passado.


Depois do funeral, naqueles breves instantes de confraternização (compromissos me        chamavam do lado de cá, nessa tarde), fica sempre aquele saber agridoce, que em mim,  cria sempre um desconfortável mau estar. Sabemos que o fenómeno aglutinador não podia ter sido pior, mas não conseguimos esconder a alegria de nos sabermos família, do mesmo sangue, no mesmo barco. Se podiamos ter ficado ali mais tempo? Claro que sim!
Então, deixando para trás aquilo que já passou, porque já passou, há que fazer um          esforço, para se abra uma nova era, mais próxima.  


Bem sei que a Covilhã, não é já ali. Mas aquela epopeia de antigamente, de curvas, e       curvinhas, de uma Gardunha sem túnel mas com muitos Ssssss a subir e a descer, de        estradas secundárias e municipais, já lá vai.  Mas também, o motivo é forte demais para  não ser considerado: são os meus!



Posso ser mais tonto que todos, mas eu acredito que isto não acaba aqui, quando se morre neste mundo, e o que sobra do corpo que nos revestiu a alma, é devolvido à terra, para   um banquete dos vermes. Acredito que agora, os que já passaram a linha, estão juntos,   se encontram.


Posso estar errado, mas vivo tão mais feliz, nesta crença…


Até um dia, Ti tó!

Com a neta Adriana. Uma grande companheira...
Ele e o seu ar fantástico de crooner... sempre o conheci assim...
Deixas muitas saudades


Os dois que já foram (a Ti Mene e o filho João), com a cadelinha Laica, e o Miguel pequenino, a fazer-lhe
festas na cabeça.
À direita, as minha primas na moda, quais Salt and Pepa, de gofias enfiadas na cabeça. A fazerem pendant.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Porra, Dimássseee... Tava nada à espera desta... Até sempre, meu!

Foto do mural do facebook, do amigo Rui Caldeira


A notícia entrou em mim com uma força, de uma forma quase subliminal. Alguém entrou no meu serviço e disse:

- E aquela história do rapaz, ãh?

- Mas… que história?

- Do rapaz… que morreu…

- Mas que rapaz? Não ouvi nada, não sei quem é…

- O rapaz que morava aqui em Marvão.

- Em Marvão?!?!?

- Não, no caminho… ali por cima da Fonte da Pipa.

Lentamente comecei a juntar as peças. Quando subia apressado, para conseguir estar lá em cima às 9h, para abrir a porta à hora precisa (por mais cedo que me levante, e costumo sempre levantar-me quase 2 horas antes!!!, acabo sempre por deixar que o tempo se esgote, sei lá gasto onde, de forma a que chego sempre a correr contra os últimos 10 minutos), notei ali muita movimentação estranha na estrada, naquele sítio. Agora que me disseram, e penso nisso, creio que me lembro de ter visto por lá, forças de segurança, GNRs a pé, parados.

- E que idade tinha?, perguntei.

- Ah… 46… ou 48… Era novo. E da Beirã…

Com esta palavra fez-se o clique, e no meu cérebro, parou tudo.

O Leonel!

Mas como é que se chamava? (por descargo de consciência, que eu já sabia a resposta)

- Ai… não sei… (e já nem me consigo recordar com quem tive esta conversa…)

- O Leonel?

- SIM! SIM! Foi esse!

(“Porra pá!”, pensei.) - E foi…

- Enforcou-se! Fez tudo nas calmas, tinha lá o maço de cigarros que acabou de fumar, e pendurou-se.

E, naqueles instantes tão breves, mas que na minha cabeça tiveram uma amplitude tão vasta, pensei tanta coisa, tão de repente, que o mais natural é ter ficado sem responder a alguém que me fez alguma pergunta. Não ouvi.

Fui pensando… o Leonel, porra! Porquê?!?!? Para uma pessoa conseguir colocar termo à vida, tem de ter um sangue frio, uma coragem, uma determinação, uma força, uma vontade só explicáveis pelo desespero profundo, e mais do que isso, por não conseguir vislumbrar uma saída possível. É que, no meu modo de ver, por mais dramático que seja o cenário, pode sempre tentar-se algo diferente daquele fim, que sim é o definitivo, e sem volta atrás.
A única exceção que torna compreensível essa saída terrível, por mais incompreensível que ela sempre seja, é a doença profunda, dolorosa, galopante, que conduz inexorávelmente à morte, e leva para o sofrimento por arrasto, todos os entes queridos mais próximos.

Depois… pelo que soube, por enforcamento… ainda torna tudo mais bizarro, e obtuso.

Segundo aquilo que sei, e não sei nada (tudo ainda está muito fresco, e eu tenho de escrever, para ver se me resolvo), o Leonel era um homem saudável, com uma família bem formada que lhe dava enquadramento e amparo (mulher trabalhadora, sempre bem disposta e disponível, na Santa Casa da Misericórdia; uma filha pequenita, adolescente, que estuda aqui na escola, e que costumava encontrar na catequese), um emprego fixo e estável (na Câmara de Marvão, um porto seguro, num Alentejo seco de emprego)… tudo peças que encaixam bem, e não se enquadram neste puzzle macabro, que colocou termo a tudo.

Alguma coisa se irá saber?
Nada se irá saber, porque nada havia a saber?

Soube que ele tinha tido uns problemas de saúde há tempos, coisas ver com a tensão, coisas anormais, de base, mas creio que andava melhor agora. Poderia haver ali toques de um consumo por vezes a mais, mas nunca ouvi que fosse nada de completamente fora. Nada que conduzisse a este extremo.

O Leonel, para mim, era o “Dimássseee”, nome de personagem com que o tinha batizado há uns anos… quer dizer, umas décadas, quando ele costumava mostrar na discoteca “A Cave” de Santo António das Areias, o seu enorme cabedal. Quer-se dizer, o Leonel nunca foi assim muito cabedaludo. Era assim mais para o gordote.
De camisola de braceletes, abria os braços, como se estivesse a fazer um solo, ao som do rock’n’roll, tocando numa guitarra imaginária com a qual curtia, curtia, e fazia curtir, quem estava a gozar o prato. Um mimo!
Mas a dada altura, andou a levantar uns pesos, fazer umas cenas a puxar pelo físico, e a malta, na brinca, começou a gabar-lhe a estrutura.

Dizia-lhe eu:
- Ouve, Dimásssseee, tás com um cabedal, mano! Eu tembém quero! Coméquefaço? Conta aí!

E ele contava.
- Começas a levantar assim uns bichinhos destes (alteres) que eu lá tenho, e o que estava aqui (apontando para a barriga), passa todo para aqui (enchendo o peito de ar).

- Ouve meu, eu adorava… (Mas nunca lá cheguei! O melhor que consegui fazer foi uns abdominais com os pés presos no bidé, quando vivia no Espírito Santo, em Marvão, e o melhor que fiz, foi dar cabo dos tubos que levavam a água, onde prendia os pés; e rebentar com os meus discos na coluna, nas vértebras L5 / S1, que me levaram duas vezes à faca! Esqueceram-se cá de um milímetro de osso, as dores duplicaram e… pimba! Vais de vela, vais de vela, ai vais mesmo de vela!)

O Leonel sempre foi um puto, que se distinguiu de todos os outros lá na Beirã, porque era muito solitário, um engenhocas, que andava sempre a inventar as suas merdas. Ainda há tempos nos encontrámos no Adro, ao final do dia, e comentámos que ele também fumava tabaco de enrolar, como eu. Quando se fuma cigarros destes, o problema é sempre quando chegam ao final. Queima os deditos. Por precaução, poupo no tabaco, e deixo-lhe uma margem de segurança, uma caixa de ar, digamos assim, para poupar na substância, e não queimar os aivecos.

Ele, que tinha o mesmo problema, ripa-me de uma boquilha feita de uma bala usada, mesmo à medido do cigarro. Nível! Ainda lá devo ter o queixo no chão... Eina bem… eu fiquei todo mamado!

- Fónix, man. Granda pinta! Onde é que arranjaste! (para saber onde iria a correr, comprar uma, a seguir)

- Ah, fui eu que fiz! (Claro, pensei! Em silêncio, à espera que ele me dissesse: “ah, mas se gostas, eu arranjo-te uma)

Vai-se o Leonel, vai-se um contemporâneo meu. Fica assim uma cena esquisita, cá dentro. Nós somos também um pouco, aquilo, e aqueles que estão à nossa volta.

Ainda hoje, por outro motivo qualquer, tive esta conversa ao balcão. Lembro-me perfeitamente do dia em que senti, que não era mais o Pedro, mas sim o pai da Leonor. Ia a dar a curva aqui em Santo António, junto à antiga farmácia, perto do Grupo Desportivo, e um puto, de cabeça baixa, quase embate comigo. Quando vê as minhas pernas mesmo à sua frente, levanta cabeça, encara comigo, e exclama:
- IÔÔÔÔÔ… o pai da Leonor!!!!!!

E pronto. Já estás! Já foste! Ardeu a tenda. Tu és o pai, da menina que nasceu, e se Deus quiser, e a ordem da vida for respeitada (oxalá que assim seja, e eu peço tanto a Deus…), há-de durar muito mais que tu. Ciclo da vida!

Habituo-me, habituei-me a uma vida feita de pessoas minhas contemporâneas, que existem ao mesmo tempo. Quando desaparece uma, (e o meu tratamento com o Leóonidas Brejnev, outro nome que lhe dava, era circunstancial, que acontecia quando nos encontrávamos, fortuitamente), parece que desaparece também uma parte de mim. Nós somos feitos daquilo que está à nossa volta, também.

Tenho imensa pena do Leonel. Rezarei por ele, para que tenha encontrado a paz, e esteja em descanso. Como rezarei muito pela sua esposa e filha, que agora terão da minha parte, um tratamento, a todos os títulos, especial. Pela amizade que lhe tinha. E tenho! Tudo farei para que naquilo que lhes possa ajudar, não lhes falte nada. Sei que a pequena era muito apegada ao pai…

(Suspiro.)

Amanhã, mesmo que me seja muito difícil por estar a trabalhar, tudo farei para lho dizer pessoalmente, olhos nos olhos.

Dimásssssssssssss, fica em paz, companheiro.


Mais um…

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

A Beirã (sempre ela), para uma festa, e um adeus…


A Beirã é o centro nevrálgico da minha vida. Nela nasci, nela cresci, nela me fiz homem, e quando a vida terminar, é a ela que quero que os meus restos regressem. Dali parti, e ali quero regressar. Aquele que é o meu centro geodésico.

Hoje, dia 5 de Dezembro, a ela regressei, para celebrar uma vida, e lamentar a perda de outra.

O meu amigo, poeta, António Manuel Vaz Gonçalves, fez hoje 53 anos. E mesmo que eu me pudesse esquecer, coisa que certamente não aconteceria, ele fez questão de a assegurar.
Como?
O chefe disse-me: “Pedro… podes chegar ao telefone? É para ti. É o teu amigo António.”

- Alô? Quem falas-me?

- MAAAAAAAAANNNNNNNNNNNN… Crooner!

AMANHÃ FAÇO ANOS!!!!!!!!!!!

- Eu sei, bebé! Sei o teu dia de cor, e o do menino Jasus! Como é que me poderia esquecer?!?!?

- Ah… fixe! Faço 53!

- Graças a Deus. E que queres tu, que o teu tio Sabi te faça, meu amore?

- Nada, nada, man! Era só para saberes.

Claro que hoje de manhã, à primeira hora, lhe liguei. Cantando a minha canção dos amigos especiais (com voz de palhacito): “Hoje é dia dos teus anos, porisso estamos aqui, como ameguenhos que somos, acantare sóparati! Parabénsavocê! Nestadataqueri…da, muitas fe-li-ci-da-des, muitos anos de vida, hojeédiade festaaa, cantam as nossas almas, parao meu amiguinho António, uma salva de… palmas!”


E ele do outro lado, “eheheheheheheh”.


E disse-lhe: “MAN!!! Logo quando sair, vou ter contigo!” (para ele andar o dia todo contente, a pensar nisso)

- A que horas, man?!?

- Sempre depois de sair, mano! Lá para as 4 e tal… vamos lanchar, ok? Tu fazes os anos, mas sou eu que te convido.

- Iá, na boa.

Cheguei assim que saí. Deviam ser perto das 5, ou pouco faltava. Assim que parei o carro, 
toquei a buzina, à porta. Aparece-me de pijama e roupão, de braços abertos:


- “MAAAAAAAAAN!!! Agora já não dá! É quase hora de jantar! Às 6 e meia, é hora da Anta trazer o jantar!

- Ouve, mas… (disse eu, olhando para o relógio), são cinco e…

- Ah, iá, na boa! Podemos ficar aqui a fumar um cigarro. Queres entrar? Queres sentar-te aqui na cadeirinha do jardim? Ainda está sol. Olha vou-te fazer um café bom, na minha máquina de fazer café.


- Isso seria ótimo.

- Man… antes que os meus pais vejam, emprestas-me 5 euros? Paguei os cafés à malta toda dos Barretos, ao pessoal do bairro, da Anta, só recebo dia 20, e fiquei sem guito nenhum.

- (Abrindo a carteira) Não sei se tenho, mas… olha! só tenho 20. Não tenho destrocado…

- Ouve man… esquece o meu café. Vais ali ao Jorge, bebes um café, e trocas.

- Tó, a tua velocidade a pensar, impressiona-me sempre! É vertigionosa!
(rindo baixinho às gargalhadas) Eheheh, va lá, vai, que eu espero aqui (de perna trocada, no jardim).

Voltei com o troco na hora e trouxe-lhe o rebuçadinho que oferecem, de cortesia, no café.

- Olha-me bem o que te trouxe…

- Fixe! Esses de café, são ótimos.

- Ouve man… Agora quando receber, não vou lá a Marvão devolver-te estes 5 euros (como faz sempre. Bem cedo. Ainda antes de abrirmos ao público, Depois fica na rua, à espera.) Não vou porque está muito frio!

- Claro, man!!!!! Agora temos as contas saldadas! Pagas sempre os empréstimos, portanto, eu confio em ti, como não?

- Quando for lá um dia a Santo António, vou lá à tua casa, tu dás-me um cafezinho, um “S” daqueles belíssimos da tua sogra, bebemos, comemos e fumamos no teu quintal, como no outro dia, e pago-te.

- Já me estás a impressionar outra vez. Mágico!

Começámos a conversar, o que era para fazermos, afinal.

- Man… já faço 53, já viste? Uma cena... De vez em quando, acordo de noite para ir à casa de banho, venho beber um café, fumar um cigarro, e ponho-me a pensar. Na vida como ela é.


- Sabes, eu sempre fui uma criança muito solitária.

- Talvez por seres filho único.

- Iá… é capaz de ser por isso. Estás a ver aqueles canchos além? Eu passava os dias inteiros a brincar ali. Com o Fernando Belo, o Magafo, o Rui Felino…

- Qual Magafo? O mais velho, ou o mais novo?

- Com os dois. Mas por vezes ficava ali a brincar sozinho. Sempre passei, e gostei de passar muito tempo sozinho.

- Eu, estranhamente (porque sempre me relacionei muito com os outros), também. 


Quando vim do Júlio de Matos, vinha no Lusitânia (Expresso, comboio que passava aqui por volta da 1 hora da manhã). E cheguei aqui sem nada. Tinha apenas uma camisola vestida.

- Tens memória desses tempos, Tó?

- (Fumando, mastigando o fumo) Tenho, man. Aquilo comia-se muita mal. Não valia nada. 

E os enfermeiros batiam no pessoal…

- A ti?!?!? (que sempre foste enorme)

- Não, a mim, não. Nunca me bateram. Mas lembro-me dos gajos, a darem estalos nos pacientes. E nunca me davam tabaco. Naquele período em que lá estive (creio que dois ou três meses), fumei apenas um único cigarro, que me ofereceram.


E foste para lá porquê? Recordas-te?


Falou-me dos ataques de pênico, que chagavam a demorar horas, dias, em que tinha medo de tudo, gesticulava, e não conseguia tomar conta do corpo. Destruindo muitos mitos e conceitos acerca dele, assegurou que nunca tomou drogas duras injetadas, e ao contato com elas, se limitou a cheirar coca. Confessou que o seu grande problema sempre foi o álcool. Hoje em dia, disse-me firme, que a sua doença se resume à bipolaridade, muito atenuada pela injetável, que toma com regularidade, e lhe permite ter uma vida absolutamente normal.

- Man, não me falta nada!

- Que bom que é ouvir isso, Tó.

-Tenho televisão, internet, computador, telefone, boas refeições, casa, durmo muito bem durante 7 horas, e quando assim é… está tudo bem.

- Maravilha.

- Epá, não sabia daquilo que me disseste ontem, que o Zé Pedro dos Xutos tinha morrido. Não vejo televisão e notícias…

- É… chegou a hora dele. Mas, viveu bem a sua parte. Muito álcool, muita droga dura, muito aceleramento. Ainda era novo mas… com um transplante hepático… Teve honras de Estado. Saiu dos Jerónimos com o pessoal todo a cantar o “homem do leme”, às costas dos seus companheiros de sempre… Eu é que já não consigo chorar, porque, tinha sido uma lágrima muita bem vertida. Olha, eu mostro-te no telemóvel… (mas depois, não sei porquê… passou.)  


- Olha, bacano, temos que nos aconchegar que o sol pôs-se, e fica um frio do camandro.

- Pois é. Podes crer. Vou ali levar-te ao carro.
(E ficou a dizer-me adeus, de robe, todo sorridente, caminho do leitor de DVD, para ver o dvd do “Rattle and Hum”, dos U2, que lhe ofereci dos meus.)

- Este ainda nunca o vi. Deve ser demais.

- Os putos irlandeses a descobrirem o maior país do mundo (em termos culturais, para nós).
Mr. Teacher: it’s an hell of a ride!


Nesse mesmo instante passou a carrinha funerária, com o corpo do Sr. Joaquim Viegas, mais uma figura icónica da Beirã, que se vai. Colega de escritório do meu pai, sentado na secretária à frente da dele, conhecia o Jaquim de toda a vida. O Jaquim… maluco, como era tratado por quase por todos. A loucura aqui, era um cognome não depreciativo, de tonto, de menor; mas sim de arrojo, porque ele era um homem, ao qual ninguém ficava indiferente. Ou se adorava, ou não se gostava nada.


Inteligente (o meu pai estava sempre a gabá-lo), era um gajo de repentes, de convicções fortes, e expansivo. Grande lagartão na 5ª casa, tal e qual como o meu pai, vivia a paixão sportinguista de uma forma, absolutamente avassaladora. Lembro-me dele, quando o Sporting foi campeão, ao fim de muitos anos, de ter subido em êxtase a rua do Café Nicau, vestido com uma bandeira de manto, e um leão enorme debaixo do braço.


Viveu a vida, como quis, e os vícios, de forma muito convicta, também. Nisso, era tal e qual como o colega João Sobreiro, quer no que diz respeito ao álcool, quer no que respeita ao fumo. No auge das suas vidas, não eram alcoólicos, daqueles que nos habituámos a ver na televisão, na vida, nas séries e nos filmes, mas era raro o dia em que não bebiam um copito. E muitas vezes, tantas vezes, demais. Como demais eram os maços de cigarros que fumavam ao dia, que certamente, muitas vezes, passavam dos dois. Nunca menos, sempre para mais. Ora, 40 x 365, dá 14 600 por ano. A multiplicar por 10 anos = 146 000. Vezes 20… e por aí fora. Ou seja, muito cigarro, nada de bom. Mas… quem nada disso faz, também marcha, e eles, tiveram o prazer de terem podido fazer isso.


Ultimamente via-o mas, ficava sempre triste por o ver. Tentava encobrir isso, brincar com ele, meter-me por causa da bola, ou outra cena qualquer, mas… estava sempre com dificuldade de respirar, sempre com a malinha do oxigénio atrás, passava.


Soube há dias que estava muito mal nos paliativos do Hospital. Quando ali se entra… as pessoas sabem que o regresso à vida, pelo menos da forma que os que os amam, queriam, será difícil.


Falei há dias com a Carla Alexandra, que trabalhou no infantário, de quem gosto muito e tenho muito respeito e admiração (quanto mais não seja, pela forma como se tem adaptado às diferentes ocupações que tem tido depois do infantário, onde a conheci), e ela foi-me dando notícias dele.
Sabia pela minha mãe, amiga profunda, como família, que estava mesmo por um fio.


Pedi a Deus, tenho pedido há dias, que lhe fizesse o melhor.


Agora, espero, peço que esteja em paz.

Entre o esplendor da luz perpétua. (que é uma imagem belíssima, e me dá imensa paz).

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

O derradeiro Xuto (e Pontapé) nesta vida (de rock'n'roll... na terra)

Morreste-me… (também tu, Zé Pedro?) 
1956-2017

Escrito a ouvir as cassetes dos Xutos online. Já não lhes metia os ouvidos em cima há… pelo menos, 30 anos. As maravilhas da tecnologia… A net, hoje, é tudo. Ainda bem que a temos.


Descia a encosta de Marvão, ao final da tarde, com aquela glória estranha, um pouco impercetível, e inexplicável também, de ter fechado bem mais uma semana de trabalho. Sem stress, sem problemas, agigantada porque estava à beira de um fim de semana grande.


Na rádio, na minha rádio, o Diogo Beja lamentava a alteração da habitual orientação do programa, por uma notícia triste.
Morreu alguém, pensei. Para tanta consternação que passava nas ondas hertzianas, teria de ser alguém importante.


Ouvi mais um pouco e… o Zé Pedro, o Zé dos Xutos.


Porra… 61 anos.

Eu, como acompanhante destas andanças do rock, conhecia bem a sua debilidade física, da sua luta tremenda com a hepatite C, que contraiu numa fase em que dava duro no cavalo. Sabia, e tinha acompanhado o seu transplante hepático, mas… não estava nada à espera desta.


Sabia que ele continuava a tocar, que continuava a manter acesa a chama, a meter o povão a delirar, e a delirar ele também. O Zé Pedro era um amante do rock. Mais que um rocker, ele era um fã que… também tocava. Fazia programas de rádio, era DJ, não falhava a concertos cá, e ia lá fora, ver o que adorava.

T-shirts e memorabilia a lembrar... ídolos seus, e meus

O Zé não era um grande músico. Não era o virtuoso (solos, eram mais com o Cabeleira), não era o criador (sobretudo o Tim a escrever), mas era, sem dúvida absolutamente nenhuma, o corpo onde vivia o espírito dos Xutos e Pontapés (que não sei como é que resistirão sem ele). Sempre bem disposto (pudera! Fazia o que amava, onde amava!), boa onda, simpático, cortez, irradiava alegria e nisso aí, sim era um ser adorável. Passar a vida ao pé dele, deveria ser o máximo. Lembro-me, e lembrar-me-ei sempre, do Zé a rir. E a fazer aquele riff de guitarra, com a bichinha de lado.


Vi-o da primeira vez nas Carreiras, em 88. Quando os Xutos eram o Rock Português, e se vivia o boom dos “Contentores”, o vosso tio Sabi, com 15 anos, lá foi caminho das Carreiras, ver O concerto. Não guardo grande memória, a não ser um cheiro do catano a resmenga, que aquela malta das filas da frente acendia uns, nos outros. Foi fixe, foi bem, foi bem fixe.



Depois, fui acompanhando. Fui tendo outras bandas de eleição, outras ondas mais britânicas, mas as cassetes do “Cerco”, do “78-82”, e da “Aventura homossexual com o General Custer” (nome bizarro), nunca me deixaram. (links para os discos na íntegra)


Os Xutos foram crescendo, foram evoluindo, eu também, mas nunca os perdi de vista. Estavam sempre cá. Uma vez Xutos, os braços ficam sempre a fazer o X. Da última vez que os vi… (no CAEP, acústicos, em Portalegre)




Onde encontrei esta prenda... (da qual sou tão fã...)

O Zé foi-se, e caiu mais uma estátua da galeria dos ídolos de sempre, desde que me lembro de existir. Foi o Bowie, foi o Lou, foi o Cohen, vai o Zé, vão indo todos e, pela lógica da batata, ao vê-los ir, também nós somos levados a pensar, mesmo que não queiramos, que não ficaremos cá para semente.


Olha, não faço nada ideia onde é que isto tudo irá ter. Tenho fé que não acabe. Tenha esperança que isto continue, não sei onde e sob que forma, mas hoje gosto de imaginar que o Zé Pedro estará algures a conhecer todos aqueles que toda a vida adorou. Imagino-o num bar bem cool, a falar de riffs e acordes com o Jimmy Hendrix, de pose e atitude com o Kurt Cobain, de poesia e forma de viver com o nosso rei Morrisson. A rir, a curtir, como sempre fez em vida.









É bem melhor que o imaginar acabado, a ser comido pelo bicho, num buraco escuro, sem luz.

Até sempre, homem do leme! Fica bem. 
Fica em paz… 
Insubmisso!


domingo, 26 de novembro de 2017

A vida, como ela á... (your uncle Sabi, goes philosophical, this time)



Peça 1 do puzzle: Esperando o que não chega (e que nunca queremos que venha)

Quando vou fazer, a minha visita semanal à minha tia Cremilde, a minha querida Cali, à Santa Casa da Misericórdia de Marvão, a minha cabeça é um turbilhão tão grande de sentimentos e sensações, que nem os consigo bem explicar.

À media que me aproximo daquele edifício secular, gigante, imponente, labiríntico, sinto-me sempre pequeno. Mais pequeno ainda do que o seu corpo frágil, rígido, sem maleabilidade, sem controlo, duro.

Eu sei que ela não sabe dizer quem eu sou, não sabe o meu nome, não consegue dar resposta às suaves e subtis provocações das amáveis funcionárias, quando a tentam espicaçar com um “e este Cali?!?!? Quem é este homem? É meu? De quem é Cali?”

Ela sorri.
Sem um brilho no olhar que deixe antever qualquer emoção, qualquer sentir, qualquer saudade.

Mas, quando me aproximo da sala onde habitualmente a encontro, sempre sentada no mesmo lugarinho, vejo que o sorriso se acende, assim que o seus olhos tocam os meus. Olham-me como se, no mesmo vislumbre, me fizesse as perguntas “tu, tu… só agora?” e “onde é que andaste?”

Eu caminho para ela, sorrindo, como se estivesse estado sempre ali, e estivesse de volta ao fim de poucos minutos fora. Vou sentindo da parte das suas companheiras, sentadas em volta, reações pela minha chegada, que depois confirmo, quando as cumprimento, uma a uma.

Não estou muito tempo ali. Porque me dói.
A ver se me faço entender, que eu sei que muita gente vem espreitar, o que é que este jornalista que nunca o chegou a ser, tem a dizer sobre a vida.
Eu agradeço sempre muito, tanto, tudo, à Santa Casa da Misericórdia de Marvão, pelo serviço que nos presta. É a ela, mas sobretudo a mim, que sou o filho que nunca teve; e à minha mãe, sua cunhada, que sempre a amou como irmã, e por ela foi amada enquanto tal. A Cali, sempre solteira, sempre sem marido e sem filhos, tem-nos apenas a nós, para a supervisionarmos, nestes últimos tempos que passa na terra.

Dramático, não é? Eu acho que é. A vida… como contava o grande cometa António Variações, é DAR E RECEBER.


Quando não dás vida… é difícil que ela venha por ti. A Cali não gerou vida, e por isso, não tem perto de si, vidas que a acompanhem. Embora isto, não seja líquido, e certo. Porque há muitos filhos que viram costas a pais, nos seus últimos estertores; e muita gente que está acompanhada, por outros amigos e família.
Não quer dizer que tenha que ser assim, mas a verdade é que o Pedro e Alzira, são os que estão pela Cremilde. A vida levou os outros, os que sempre estiveram longe; ou que foram ver do ganha-pão; ou foram por opção, para outras paragens. Mas por nós, filho e mãe, ela está acompanhada.  Os outros sabem que podem estar tranquilos.

A verdade é que por muita atividade, por muito acompanhamento, encontro-a sempre ali. Sentada, a sorrir, com uns olhos que olham, mas não fitam.
Da dezena de colegas, umas dormem, outras mantêm conversas com mundos e entes só deles, outras estão. Apenas estão. Vivem porque respiram, têm os órgãos todos a funcionar, tem a centelha de vida a vibrar dentro deles. Mas só isso.

Uma delas, uma mulher que toda a vida me habituei a conhecer por vizinha, que sempre viveu na minha rua, mãe de um querido amigo meu de infância, que faleceu na flor da idade, a desmantelar um artefacto explosivo na sua profissão de GNR; está lá. Quando a vi, há dias, nem queria acreditar que ainda fosse viva. Fiquei tão feliz que tentei, pausadamente, chegar até ela, explicando-lhe quem era. A senhora é tao antiga, que os seus olhos, apenas parecem que nos vêem. A idade pode dar para nisto.

Quando lhe falei na rua, e na minha mãe Alzira (nome aqui estranho, que destaca), pareceu-me ter vislumbrado alguma reação. Mas… pouca.

Estas pessoas, muitas destas pessoas, estão vivas porque a vida continua agarrada a elas. Têm visitas fortuitas de familiares de quando em quando, ou talvez não. Mas estão lá. Até que Deus queira. Cumprindo o seu Masterplan, 



Porque é que estamos neste mundo?

O que é que cá fazemos?

O que é que nos falta fazer?

Porque é que não acabámos já?

Para onde vamos?

O que é que nos falta aprender?

Que portas nos faltam abrir, in life’s endless corridor? (no corredor infinito da vida?, como cantam os manos Galagher?)



Peça 2 do puzzle: Quando o fim nos surpreende



Pensava eu nisto, numa semana em que sou (eu, e todo o país) completamente atropelado pela morte, absolutamente absurda (como se pudesse existir essa tal coisa, de mortes com sentido) de dois jovens na flor da idade, com apenas mais 9 anos que eu, 53: o ator João Ricardo, e Pedro Rolo Duarte. Se o primeiro era bem conhecido pelas massas, muito por graça da sua graça em  em telenovelas de horário nobre; o segundo, era mais conhecido pelas minorias consumidoras da comunicação em geral, e por uma fasquia mais elitista da comunicação.

A verdade é que ambos eram jovens de mais para morrer. Quando assim é, parece que o livro é rasgado a meio, de forma abrupta, e nunca mais cabe na prateleira da vida.

Para quem perdeu o pai com 49, como eu, subitamente, muito pelas mesmas causas, estes desaparecimentos são sempre um vento ciclónico que abala as galerias da memória, e fazem tremer este edifício de que somos feitos. Manda a razão que consigamos encontrar um sentido para que tal aconteça, e no caso do Pedro, o seu modo de vida bom vivant, e sobretudo, a sua adição ao tabaco e à nicotina, conseguem explicar o porquê deste fim. Escreveu na sinopse do seu livro “Fumo , Deixar de fumar é lixado”, que “30 anos depois do primeiro cigarro - três maços por dia quando as noites não acordavam coladas aos dias seguintes…”. Assim,  meu querido, chegar aos 80 é que seria de espantar.
Depois, junte-se a esta morte lenta, um estilo de vida sempre em contra-relógio (entre as diversas atividades e publicações); uma alimentação apenas possível entre tanta solicitação; e um modo de vida completamente errático, sem qualquer tipo de atividade física regular, e… facilmente se percebe que não há sorte, nem providência que aguente tanta desfaçatez. Inteligente? Todos os que tiveram o prazer de o conhecer, juram a pés juntos que sim.


Com o seu grande amigo João Gobern. O "Hotel Babilónia" da Antena 1... já não aceita mais reservas.


Esteve sempre entre a nata da nata. Aqui, ladeado de Paula teixeira da Cruz, Miguel Sousa Tavres e José Eduardo Moniz

No caso do João Ricardo, que sofria de um tumor cerebral, tudo faz muito menos sentido. Até porque não se consegue encontrar nenhuma razão entre a forma de se viver, e este crescimento anormal de células, no cérebro. O tragédia assume aqui um caratér devastador.



Ambos levaram vidas que conseguiram, na arte que cada um abraçou, e se especializou (comunicar, ou representar), tocar os demais. Fazer com que as vidas dos outros fossem por si influenciadas, fosse através de uma gargalhada, ou um pensamento. Creio que isso fará, no final, muita coisa valer a pena.




Juntando as duas peças…

Percebo que este puzzle da vida não tem fim possível. Neste mundo, pelo menos.
A fé que me acompanha e alimenta, serve para, quanto mais não seja, me dar conforto, aconchego, e instigar a acreditar que um dia, tudo isto fará sentido. Chamem-me louco, naif, tonto, ou insensato, a verdade é que não me resigno a acreditar que isto é tudo tão efémero, que quando termina, termina de vez.

Haverá alguma lógica entre poder comparar, a vida de uma criança que nasce em berço de ouro, tem todas as facilidades e mordomias da vida, e vive, sem desgostos e com qualidade (a todos os níveis, sentimental, económico) até aos 85; e uma criança judia que nasce num campo de concentração, e nada mais conhece em vida senão dor, sofrimento, opressão e medo, sendo morta antes dos 12 anos, numa câmara de gás, agarrada à mãe?

Ou isto é mesmo para não ter lógica alguma?

Saber, não sei. Mas constato.
E asseguro que não tenho vontade nenhuma, de chegar ao dia em que perceba.

Mas entretanto… vou perguntando.