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terça-feira, 29 de abril de 2008

São Marcos 2008


No domingo ao fim da tarde, enquanto bebíamos umas fresquinhas na pastelaria do Chocolate e assistíamos à humilhação caseira do Guimarães, ferido de morte por um Porto demolidor, um dos amigos, entre um amendoim e um tremoço, sai-se com uma tirada magistral.

Dizia ele que detestava o domingo de tarde de São Marcos porque tudo aquilo era triste. O anoitecer, o anúncio das derradeiras actuações, até o próprio arraial, eram mais que motivos de nostalgia porque anunciavam o fim da festa.

Não pude deixar de soltar uma gargalhada perante o seu pesar, mas na verdade, o que ele sentia não estava muito longe daquilo que ia dentro de mim, dos restantes convivas, da minha filha e de muitos arenenses, naturais ou adoptados, que assistiam ao encerramento dos festejos.

O engraçado é que as pessoas quando crescem desenvolvem mecanismos mentais para superar as pequenas tristezas da vida e para seguirem em frente. Foi por isso que o desabafo me caiu tão bem, por ser tão sincero e desarmante. Eu podia dizer-lhe que a festa acaba mas a vida continua; que dentro em breve vai haver mais divertimentos, que foi bom ter corrido tudo tão bem, que estamos aqui estamos na Festa da Relva; que até o regresso ao trabalho é bom porque é sinal que o temos… mas não. Calei-me porque o compreendo.

Mas se assim é, que raio há nestas festas de São Marcos para representarem tanto para os seus e as fazerem assim tão especiais?

Para quem vem de fora, podem não passar de 5 ou 6 barracas, de 2 ou 3 carrocéis, uns espectáculos manhosos e pouco mais.

Para nós, são as nossas festas.


No São Marcos há marroquinos e indianos que vendem “riloges” de imitação, óculos escuros da Channel, t-shirts do Wrestling e do Rock, cintos e cães electrónicos que ladram e abanam o rabo a 5 euros; há barracas de algodão doce, pipocas, gelados de gelo e massa frita ou “berronhol”; há a roulotte do Lino Bar, catedral móvel da imperial e das melhores bifanas do mundo; há uma pista de carrinhos de choque para crianças; há um carrossel que roda e mais roda sem parar; há uma barraquinha da quermesse onde as pessoas dão o que não querem e não conseguem já arrumar em casa; há barracas de rifas onde saem sempre peluches felosos; há carrinhos de choque para a malta de barba rija; há tendas de produtores de vinhos locais e de finalistas e há muita coisa por descobrir.

Acham pouco?
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Isto tudo numa praça e pouco mais.

No São Marcos o pessoal aperalta-se, veste ropitas novas, desfaz a barba e engraxa os sapatos, veste cuecas e meias por estrear, deita-se e levanta-se bem disposto.

No São Marcos as pessoas saem à rua e falam uns com os outros, bebem uns copos a mais, convivem mais e matam saudades dos que regressam à terra de propósito por esta altura.

Este foi o melhor São Marcos dos últimos anos, pelo menos para mim, porque foi caseirinho e feito com a prata da casa e foi assim quase que em família.
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Na quinta-feira, dia 24, perdi a “fashion night” organizada pelos finalistas da escola porque fizeram o favor de marcar mais uma Assembleia Municipal para essa hora. Quatro longas horas de debate afastaram-me de onde queria estar e de ver o primeiro desfile da vida da pequena em troca de quase nada. Começou mal.


Sexta-feira foi dia de comemorações, com a manhã hasteando a bandeira em Marvão, não faltando a banda, a música, muitos discursos e um beberete com a população. À tarde, houve missa e procissão fazendo gincana por entre os vendedores. O bezerro não apareceu, ou pelo menos não o vi, e os puristas torceram o nariz.



Antes do espectáculo da Escola de Música da Associação Cultural a que presido, no palco central, o Professor de Música propôs-me a actuação de uma banda “a precisar de rodagem” para animar os presentes enquanto os nossos alunos chegavam. Eu disse-lhe que sim, “mas ó professor, veja lá o que é que tocam! Olhe que aquilo a essa hora é assim pessoal da mais idade…”. “Ah, não tenha problema, ó Vereador, aquilo é assim música conhecida”. Eu fiquei tranquilo mas por pouco tempo, sobretudo quando vejo um jovem de cabelos pelos ombros a carregar com uns amplificadores. Assim que o vocalista se chegou à frente, anunciou uma cover dos Red Hot Chilli Peppers e eu vi logo que a coisa estava boa para assar! Eu a ranger os dentes na esplanada do Lino e o pessoal a bater em retirada assim para longe para não levar com um riff de guitarra dos Scorpions em cima, ó valha-me Deus.

Vá lá que aquilo não durou muito e a coisa acalmou com a chegada dos clarinetes a assobiarem o “Obla-di, Obla-da” dos Beatles. Aaaaaaaaaahh. Assim está melhor.

A noite foi de nervos e de glória com a primeira actuação dos dois grupos de teatro da Associação de Cultura e Acção Social de Marvão. A sala cheia e eu com um nervoso miudinho a tomar conta de todo o organismo. Estava pior que a bicha do La Feria neste papel de produtor. Foram muitos meses, muitas horas de trabalho e eu só me lembrava do único ensaio completo a que assisti, em que parecia que ninguém sabia o papel, numa autêntica cena para os apanhados. Aquilo perturbou-me de tal maneira que passei a noite a sonhar que lhes gritava os papéis e eles a rirem-se uns para os outros. Graças a Deus correu tudo bem e vivemos todos os presentes, uma noite mágica daquelas que havemos sempre de recordar. Os miúdos todos ao melhor nível e as pessoas a saírem no final com “aquele” sorriso que compensa tudo para trás.


Sábado foi dia de festa brava com o festival taurino e a noite de flamenco e sevilhanas. A Praça estava cheia, a tarde magnífica, os cavaleiros de primeira água, a banda certinha e redobrada em pasodobles… tudo 5 estrelas. Falharam as vaquinhas da ganadaria “Casa da Avó” que tem de lhes começar a deitar mais alpista porque assim com esta ração nunca chegam a marrar. Os forcados protagonizaram boas pegas e o que se evitava era a verdadeira cena de pancadaria final que quase transformou a praça num estádio de futebol. Após a última lide, quando o forcado da cara brindou a última pega à assistência, para gaúdio dos presentes, o médico da corrida fez sinal (e bem!) ao director para não autorizar a pega porque um ferro ameaçador, cravado bem no lombo do animal, ameaçava por em risco a integridade dos homens da jaqueta. A nega provocou a revolta dos mesmos e tudo se complicou quando dois ou três que estavam à paisana na bancada instigaram a revolta ao saltarem para o redondel, evitando a entrada do touro e das chocas nos curros. Armou-se a confusão geral com o pessoal de apoio da Casa do Povo e tudo descambou para uma cena de soco e empurrão que ninguém conseguiu conter, enquanto os resistentes tentavam pegar o cornudo debaixo de um coro de assobios. Foi a nódoazita no melhor pano e a segunda tourada da tarde.

A noite foi de consagração com umas sevilhanas de Barrancos, bem mexidas e bonitas a abrirem o espectáculo de José Lito Maia, memorável a todos os títulos. Desde os fados mais carnais aos ritmos mais ciganos, José Lito, o Elvis do flamenco, a todos tocou com a magia da sua arte. Eu, que já tinha há meses o “Vamos pra Barbacena” como toque no telemóvel, também não resisti aos ritmos bem esgalhados e tive de me conter para não chorar, berrar e arrancar os cabelos como se estivesse num concerto dos Beatles. Na sessão de autógrafos, prometeu-me os cds que aguardo com expectativa. “Po shôtore: do Jeselito, com amizádi!”.



O grande e único José Lito performa um medley bem gitano ao vivo no GDA


Domingo houve milha e caminhada com perto de 400 almas a fazerem desporto pelas nossas ruas e veredas. A coisa meteu almoço no pavilhão e serviu de ponte para o jogo com os infantis do Sporting que, depois de estarem a perder por dois a zero, ainda deram a volta ao marcador e nos pintaram a Taça do Município. Foi pena. Se tivéssemos ganho, a taça revertia para a instituição e já tinha que dar para o ano. Assim, há mesmo que comprar outra… Soube só depois que andava lá um escurinho que era filho do Jardel. Se me tivesse apercebido antes, tinha-lhe pedido o telefone da mamã Karen só para lhe dizer que gosto muito do “Futebol de Saltos Altos” e de mais alguns dos seus atributos…


Reparem só na pontaria do atirador...



A matinée da discoteca, ao contrário das noites antes, esteve fraca, a garraiada esteve animada e a noite fria mas com bons espectáculos: o Cantareias cumpriu e viajou pelo seu popular repertório com muita gente a acompanhar as letras e as melodias, o Rancho esteve certeiro e com muitos pares em palco num sinal de renovação e pujança. Nota muito positiva para o novo speaker, o Pedro Jesus, ainda com pouca experiência mas com muita alma. Foi uma prestação competente e animada dos dois embaixadores culturais do concelho.
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Os CantAreias cantam Santo António
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O famoso "Tacão e Bico" pelo Ranho Folclórico da Casa do Povo de Santo António das Areias

O arraial que fechou os festejos foi belo mas muito de perto. A cachopa ao meu lado dizia que mais parecia “a guerra dos Iraques” e tinha razão. Aquilo mandava faísca de tal maneira próxima que o pessoal correu todo para os cafés para se abrigar. No rescaldo que sempre faço, para o ano, levo uma proposta de lançamento a partir da Praça de Touros. Assim vemos todos e temos menos hipóteses de ir para casa com um morteiro enfiado no rabo!

Eu, para manter a tradição, ainda comprei uma massa frita que aqueci no microondas e acompanhei com leite morninho. Ai bom! Xixi, cama.

Foi um São Marcos a seco e foi tão bonito.

A gente quando não bebe tem menos alegria mas vê tudo tão mais nítido.

Tens razão Rui, isto no fim dá sempre pena.

Para o ano, se Deus quiser, há mais!
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Nota final de felicitações para todas as instituições da terra que se uniram para juntas, fazerem umas festas inesquecíveis. Parabéns à Junta de Freguesia, ao Grupo Desportivo Arenense e sobretudo à equipa da Casa da Povo, que felicito na pessoa da sua incansável presidente, Cristina Novo, sempre na linha da frente, somando sucessos que dignificam a localidade e o concelho.