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terça-feira, 29 de março de 2011

Eu fui, eu fui, à Junta Médica eu fui (trala-la lala, trala-la lala, eu fui, eu fui)



Pois que recebi então uma notificação toda formal para me apresentar hoje mesmo na Junta Médica, em Évora, belíssima cidade alentejana, Património da Humanidade via Unesco.



“Na Junta médica?!?!?”, perguntei eu à minha entidade empregadora. “Mas se eu já estou ao serviço desde Janeiro! Não será excesso de zelo da parte deles?”.



Responderam-me que não. Que já tinham enviado um e-mail a explicar isso mesmo mas que ainda assim, os homens queriam-me lá e assim fui eu, que remédio!, de armas e bagagens a caminho de Évora.



Lá chegado pela mão do abençoado GPS (que grande invenção esta!), por ali estacionei, à espera que se fizessem as duas da tarde. Antes de me aventurar, cá da rua vislumbrei aquilo que me pareceu ser um Centro de Saúde com uma casinhola ao lado. Não avistando qualquer placa identificativa que me orientasse, procurei junto das piquenas do guichet do centro se me podiam indicar a dita junta e não é que era na tal casinhola da entrada? Comigo é sempre ao lado…



Mas ainda bem que lá fui, pensei depois. Deu para ver que o Centro de Saúde tinha uma enorme recepção com dezenas de cadeiras vagas e um televisor todo XPTO, um ambiente bem diferente da austeridade espartana da sala de espera da dita Junta. Se aquilo era um cubículo 6mx6m com uma dúzia de cadeiras obviamente ocupadas e outras tantas pessoas em pé… Estive, eu e os outros convocados que chegaram ao mesmo tempo, no mínimo, um quarto de hora à espera que alguém da casa nos explicasse como funcionava a coisa. Pois… funcionário, nicles! Senhas, nem vê-las! Indicações, népias! E assim aguardámos, em pé, claro está, por novidades.



Se vos disser que o ambiente é constrangedor certamente não estarei a surpreender ninguém. Se partirmos do pressuposto que quem ali está passou ou está a passar por uma doença incapacitante, creio que digo tudo. Os ares são sorumbáticos. Os rostos… carregados. Os olhares vagos e presos a pormenores sem sentido: um azulejo do chão, uma fissura na parede, um estore fora do sítio, um pormenor do parco mobiliário... Todos como se fossemos peças numa mesa de xadrez real, à espera da mínima movimentação de um dos pares para sintonizarmos nele as atenções. Era inevitável. Mesmo que não fosse essa a nossa vontade, a falta de assunto e de motivo de distracção levava-nos a isso. Olhando o semblante, o corte de cabelo, a forma de vestir e de estar cada um ia imaginando, fingindo sempre não o fazer, quem seria que estava do lado de lá: que faria? De onde viria? E por aí fora… até à derradeira questão: Qual o motivo que o (a) trouxe ali? Teria melhoras?



É triste mas nada ali ajuda a que seja de outra forma. Não há uma revista (mesmo que fosse de há duas semanas), um jornal (mesmo que regional), uma televisão (mesmo que no Baião), nem mesmo uma porcaria de um rádio que debitasse um rebuçadinho para a alma. Nada! De certeza que as altas instâncias da saúde do nosso burgo se fartaram de pensar no bem estar das pessoas que ali param e deve ser por isso que tudo fizeram para que não se sentissem como párias que andaram baldados ao trabalho. Não sei porquê mas dei por mim a pensar nos antigos sanatórios onde se encafuavam os tuberculosos à espera que o mal se extinguisse com o fim do infectado. Coisa de país do terceiro mundo. Enfim… coisa de Portugal.



Quando reiniciaram a chamada apercebi-me que a ordem não era a de chegada mas sim a alfabética, o que abriu para mim uma animadora hipótese de “bater dali asa” quanto antes. Tinha acabado de entrar um José. Jê-Lê-Mê-Nê-Ó----Pê!



Como já não havia senhoras de pé, nem nenhum outro senhor com ar de lhe apetecer estar sentado, e havendo 3 cadeiras disponíveis, aproveitei para dar descanso à costas que ainda se ressentem de duas horas de condução e muito tempo em pé. Foi então que me começou a entrar um nervoso miudinho no estômago. É que eu sou daqueles que acham sempre que há sítios melhores para se estar do que em consultórios, hospitais e afins. Esplanadas, por exemplo.



Que raio seria aquilo da Junta Médica? Seria uma sala assim ao estilo daquela onde dissecaram o extraterrestre descoberto em Roswell, cheia de luzes e vultos brancos aos quais só se reconheciam os olhos? E que me poderiam fazer eles lá dentro? Meter-me um termómetro digital pelo rabo acima para aferirem a temperatura da alma? Ligar-me a um maquinão que me sugasse a memória? Colocar-me um chip que passasse a dominar a minha consciência? Fazer-me uma lobotomia que me transformasse em vegetal…



“Senhor PEDRO SOBREIRO!”.



“Vou!”.



A sala era um cubículo com três sujeitos, dois sentados com ar inquisidor e outro de pé, agarrado a uma fotocopiadora. Suponho que seriam médicos mas até podiam ser electricistas. “O hábito faz o monge” e dele, nada! Nem um estetoscópiozinho para tranquilizar a malta. Mal feito: não há carpinteiro que não tenha, pelo menos, uma pontinha de lápis a dormir detrás da orelha.



O mais jovem, sentado à esquerda, parecia ser o único com sinais vitais e até me pareceu simpático. Os outros dois, para lá dos 60, mal me olharam. Podia ter ido com uma máscara do Darth Vader que nem iriam reparar. Só se fosse pela respiração metálica…



- Sente-se!



- Com licença…



- Trouxe o relatório?



- Desculpe?



- O relatório!



- Não trouxe relatório nenhum. Não tive indicação nenhuma para o fazer…



(Aqui lembrei-me taaaaanto do Kafka. E do absurdo d’ “O estrangeiro” do Camus…)



- Ah… Então… Já está a trabalhar!



- Isso! Desde dia 18 de Janeiro! (E aqui apeteceu-me dizer “Olaré!”, mas contive-me. Nestes sítios, como na vida, mais vale cair em graça do que ser engraçado…).



- Ah… Então assine aqui, leve este papel e pode sair.



- Muito obrigado. Passem bem e muito boa tarde.



Tempo médio estimado da “consulta”: 2 minutos.



E este é o momento em que alguns podem dizer “lá vem o gajo com a lengalenga” mas é que… que… que… FODA-SE! Vai um gajo daqui… quase duas horas para lá (com estacionamentos, xixi e cafezinho na estação de serviço)… quase duas horas para cá… para aí 30 euros de combustível… + almoço… mais um dia sozinho a cirandar… menos dia de trabalho… para dois minutos de conversa?!?! E eles não sabiam já que eu estava ao serviço?!?!?



O nosso país… olhem… já não digo nada… Façam vocês o fim da história.



Canta Jorge! Canta!


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terça-feira, 30 de novembro de 2010

Corte e costura (Parte 2)

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Nota do autor: Há uma fórmula, simples mas eficaz, para ler os meus textos que consiste em não olhar para a extensão. Se o fizerem, desistem porque há sempre outras coisas mais importantes para fazer. Compreendo... O conselho é começarem e deixarem-se levar. Acho que vale a pena. Dou tanto de mim a escrevê-los que me parece um desperdício, perdoem-me a imodéstia, deixarem-nos no prato, ao lado dos bróculos. A gerência agradece.

Tempo estimado de leitura (tendo como referência a capacidade de um jovem licenciado em engenharia, com um curso de inglês técnico tirado nas Novas Oportunidades): 10 minutos.



Bem…

Já que tanta gente (felizmente) se preocupa e pergunta…

Já que assumi, ao expor-me publicamente neste blogue, um estatuto de semi-figura pública (isto numa micro-escala, claro está!);

Já que já passaram quase 15 dias da intervenção, já se foram os pontos, já se ultrapassou a fase crítica…

E já agora… só porque sim, falemos então desta segunda operação.

Uma operação, sobretudo quando envolve anestesia geral (e atenção que isto é um leigo a opinar!), nunca é um acontecimento inócuo, sobretudo para os estreantes. Envolve tanta gente, tanto medicamento, tanto aparelhómetro, tanto químico, tanta perícia, tanto corte, tanta coisa que há sempre uma dose de risco... de algo que pode correr menos bem.

A intervenção a que fui sujeito no dia 20 de Outubro, para eliminar uma hérnia discal de proporções assinaláveis que me estava a esmagar a raiz do nervo ciático, correu bem. Na sala de operações tudo se passou conforme o guião e a recuperação parecia encaminhada. Logo no dia seguinte, consegui levantar-me e tomar banho sozinho. Assim que me ergui da cama, percebi de imediato (com grande alegria e alívio) que a dor tinha desaparecido. Tive alta no dia seguinte e assim rumei a casa, amassado mas ilusionado.

Passei bem a Sexta, o Sábado e no Domingo, ao final do dia, notei uma dor momentânea mas intensa que disparou ao longo da perna esquerda, precisamente a que era mais castigada pela hérnia. Ainda pensei que fosse uma inflamação num tendão ou um dano colateral da cirurgia, ou talvez até, o resultado de algum movimento mais esforçado (as operações a esta secção da coluna obrigam a que o acto de levantar e deitar sejam autênticos exercícios de ginástica, em que nos temos de “empinar” como se fossemos uma tábua de passar para a proteger, com recurso a muita força de braços e alguma agilidade).

Os dias sucederam-se, mais tristes do que o esperado. A dor não só persistia como aumentava à medida que o tempo passava. Como tinha consulta marcada em Portalegre na sexta-feira seguinte para retirar os pontos, decidi aguentar até então para falar com a médica e procurar explicações. As dores atingiram o limite máximo do suportável nessa tarde. Quando me tentei vestir, percebi que não era capaz de dar passo. Eram de tal forma insuportáveis que assim que tocava com o pé no chão tinha a sensação que tinha acabado de pisar um cabo de alta tensão que me desferia uma descarga pela perna acima e demorava minutos a desaparecer. Era o tipo de dores que eu imaginava que ser poderiam sentir com uma fractura exposta e com isto acho que digo tudo.

Arrastei-me literalmente até ao carro e dali até ao consultório. Não me lembro de ter sequer conseguido abrir os olhos durante a viagem. Senti, a cada curva do percurso, que a perna iria explodir a qualquer momento. As dores eram cem vezes piores que antes da cirurgia.

Se mal ia, pior fiquei quando percebi o ar de espanto da médica ao ver-me. O seu “mas Pedro?!?! O que é que se passa? Isto é tudo tão estranho… tão inédito...” não me animou por aí além. Saí de lá directo para uma injecção “de cavalo”, com acertos na medicação, indicação de repouso total e uma guia de marcha para nova ressonância magnética, o mais preciso dos exames a este nível.

Uma ressonância não é fácil. A ideia de ter de me enfiar de novo dentro daquele aspirador gigante, apenas vestido com uma bata e uns auriculares para me protegerem dos ruídos (imaginem…), durante meia hora sem me poder mexer, sob pena de se caso isso acontecesse, ter de começar tudo de princípio… não era animadora.

Assim que de lá saí, não podia ter tido “melhores” notícias. Disse-me o técnico: “ foi operado mas a perna ainda lhe dói, não é? É natural… há ali “algo” a comprimir o nervo. Vai ter de ser operado de novo!”.

Não me disse nada que não esperasse já, sinceramente, atendendo a tudo o que aqui vos descrevo, mas “levar” com a notícia assim de chofre… É dose!

A comparação com os exames anteriores confirmaram a necessidade de nova intervenção. Tenho, mais uma vez, de agradecer à minha médica, a Dr.ª Anabela Nabais, o cuidado e a preocupação que teve comigo, bem como a prontidão com que marcou a nova cirurgia.

“Quanto mais cedo, melhor” e assim regressei aos Lusíadas, disposto ao que quer que fosse. Dentro de mim, não conseguia deixar de ouvir em repeat, uma frase que ouvi na primeira consulta e que foi determinante para a minha opção pela cirurgia: “com a sua idade, peso, altura, físico e massa muscular, as possibilidades de ficar completamente bom são de 99,9%”. E eu só pensava: “Onde raio fui cair… logo no 0,1%”. Isto é tão típico em mim… para o bem e para o mal. “One in a million? That’s me!”.

E prontos… assim foi. No passado dia 17, foi mais uma anestesia geral e depois de quase 3 horas de operação, já estava cá fora, à espera de melhores dias.

Depois de aberto, e só então, lá se descobriu que afinal tinha sido um osso. Um osso?!?!? Sim, um osso com 1 centímetro (não é propriamente despiciendo) que se libertou sabe-se lá de onde e se foi alojar no espaço onde antes estava a hérnia, estando agora a castigar o nervo já magoado que, coitado, entretanto desenvolveu uma fibrose que o relatório de alta classificou de “exuberante”. Nem aqui me safo da excentricidade que alguns me catalogam…

Desde então aqui estou, desta vez já sem dores, rezando e esperando que este upgrade tenha sido o definitivo. Receitaram-me, pelo menos, mais 1 mês de cama (a juntar ao mês e meio que já cá canta), com levantes muito curtos e períodos sentado nunca superiores a 15/20 minutos. Por mais que mudem os lençóis, por mais banhos que tome e pijaminhas lavados que vista… acho que já estou a ganhar musgo. Com esta cacimba gelada que vai caindo pela manhã, já só falta que me comecem a nascer cogumelos selvagens detrás das orelhas.

Tenho tantas saudades da minha vida… de ser independente, de poder ir para onde quero, fazer o que quero, às horas que quero sem ter de incomodar ninguém… poder conduzir (saudades!)… estrear a minha bichinha… correr, nadar, andar de bicicleta, caminhar… estar com a minha família… com os meus amigos, cozinhar… até trabalhar… Quero!

Alguns (breves apontamentos) sobre mais esta experiência:

1) Nestes dias tenho pensado imenso. Não há como não. E foi assim que descobri que acho que a doença é um mecanismo que foi inventado por quem inventou o mundo (seja Deus, Alá, Buda, ou ninguém… de acordo com a confissão) com o objectivo de nos trazer de volta à nossa mera humanidade, à condição de reles seres mortais. É sempre um banho de humildade. Quem está doente sente-se sempre diminuído, esquecido pela sorte, deixado para trás (por mais carinho que tenha à sua volta). Porquê eu?, pergunta-se. E isso traz-nos de volta à estaca zero. Limpa-nos de algumas ideias e conceitos, de algumas impurezas que se vão colando a nós (tantas vezes inconscientemente..) e nos conduzem a uma imagem errada de nós, dos outros e do que nos rodeia. Eu acredito que nada acontece por acaso e espero, sinceramente, sair daqui como uma pessoa melhor.

2) Quero fazer um agradecimento que será sempre especial para todos os que trataram de mim, muitos deles ao quais nem sequer vi o rosto, tão somente os olhos, mas que tanto me estimaram e acarinharam. Do enfermeiro benfiquista que me foi chamar para a operação com um “atão pá, mas ainda não te vestiste? Olha que o gajo já tem a motosserra ligada e está-se quase a acabar a gasolina!”, à enfermeira que me acordou de mansinho já no recobro, passando, claro está, pela médica responsável. BEM HAJAM! Eu sei que é o vosso serviço, mas os serviços têm muitas formas de serem feitos.

3) Eu sei, porque se passou comigo, que um dos grandes medos de quem é operado está relacionado com a operação em si, com a anestesia, com o momento em que a luz se apaga e a gente vai para sei lá onde… “E se eu não acordo? E se me dói? E se desperto durante a coisa? E se acordo dentro de um caixão? E se acordo com o Malkovich e o Clooney à briga por um punhado de cápsulas Nespresso numa nuvem à nossa frente? E se acordo num caixão? E se, pura e simplesmente, não acordo?”. O medo da morte, sempre ele... o medo do nada, do deixar de existir, do deixar de ser… Vou-vos ensinar uma coisa: não se preocupem. Apenas deixem-se ir. Que será, será…

Da outra vez, como vos contei, já devo ter ido drogadíssimo para o “banco de ensaio” porque toda a gente à minha volta só se ria com as tarequices que eu dizia. Desta vez não! Entrei completamente lúcido para a sala das operações. Até pude comprovar, deitadinho na maca, que naquele trajecto é mesmo tudo como dá na televisão, nas séries do costume. Só vemos as luzes do tecto a passar, os caixilhos das portas e um ou outro olhar complacente que se cruza com o nosso por um segundo. Estranhei a lucidez e comentei com um camarada que por ali andava a passear de bata: “Veja lá… não se estão a esquecer de mim? Não falta darem-me qualquer coisinha? É que eu, da outra vez, a esta altura do campeonato já estava bem “do lado lá” e hoje estou aqui fresquinho da Silva. Vejam lá… não me abram para aí a sangue frio, ãh?”. Nisto surge-me por cima da cabeça, só que ao contrário, um senhor muito educado e bem falante, que se apresentou dizendo o nome todo e me disse com ar de prestidigitador e voz de João Chaves (o tal do Oceano Pacífico): “Agora esteja calmo, muito calminho... porque eu vou-lhe dar uma coisa que o vai acalmar muitooooo…” e nisto, vejo uma máscara amarela vir em direcção a mim e à primeira sorvidela… marchei para Morfeu. Coisa poderosa, aquela! Ainda senti o ar, uma dormência a entrar por mim adentro mas no segundo seguinte já tinham passado 3 horas, já tínhamos espetado 4 “secos” nos espanhóis sem eu ter sequer ajudado, e já me estavam a acordar.

Não temam. Não temam mesmo. Seja o que for que esteja para vir… é um ar que nos dá. Custam mais as dores que se seguem, o sentirmo-nos mexidos por dentro, mas isso são outras conversas…

E as últimas palavras vão para:

-
Os meus amigos, os meus leitores, quem me estima. Pelas visitas, pelos telefonemas, mails, sms, pensamentos e orações. Obrigado!

Os que me querem, os que me têm amado e amparado… a minha gente, a minha família, por me tomarem ao colo mais uma vez. Tenho poucas certezas mas uma delas, estou certo que bem certa será: sem vocês, nada seria.

E o último abraço vai para o meu primo Carlos que prontamente (mais uma vez…), se disponibilizou para abandonar tudo e ser meu chauffeur privado, e confidente nestes momentos sempre difíceis. Obrigado pela companhia, pelas conversas, pelos jornais e revistas que garantiste que nunca me faltassem, por tudo o que fizeste e te levou a que, por mim, estivesses longe no momento em que Deus chamou a tua mãe. Que esteja em descanso e em paz. A ti te digo que há favores que nunca se pagam.

A todos… um abraço!

Do vosso,

Tio Sabi

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Doente (Pensando em Nemo e em Pessoa…)


Prostrado no meu leito,
Aprisionado neste ninho,
Vejo os dias sucederem-se,
Sempre iguais, de mansinho.

Agrilhoado pela dor,
Submisso à clemência dos meus,
Liberto-me, sonhando acordado,
Imagino-me a cruzar os céus.

Sou um pássaro, uma nuvem,
Um astro, um foguetão,
Um cometa, uma avioneta,
Um relâmpago, um balão.

Do meu quarto saio voando,
Parto rumo ao infinito,
Sobrevoo campos e mares,
Desvendando segredos e mitos.

Quando me sinto mais só,
E a almofada me quer engolir,
Fecho os olhos e imagino,
Rompo os limites, saio a fugir.

Na minha cabeça não há limites,
Dores, febres, desilusão,
Só mil e uma aventuras,
À espera da minha intervenção.

Salvo donzelas,
Decapito dragões,
Descubro tesouros,
Resgato galeões.

Faço piratas reféns,
Instigo rebeliões,
Desbravo novos mundos,
Ajudo a criar nações.

Bruxas, ogres e feiticeiros,
De mim fogem com horror,
Com o meu sabre dourado,
Tudo enfrento sem temor.

E enquanto assim m’entretenho,
Neste faz-de-conta só meu,
Reduzo a minha sentença,
E caio nos braço de Morfeu.

O tempo é a minha salvação,
Mas meu inimigo também,
Por isso o quero como aliado,
Para o mal e para o bem.

Todos dias assim penso,
No momento da minha libertação,
Em que deixarei para trás de vez,
Esta tão pesada reclusão.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Sonhando acordado


Por incrível que pareça, ainda assim, há gente que me cobiça a condição.

Que “é só vida boa…”, que tenho “sorte de levar os dias deitado…”, que “agora é que é só descansar e ver televisão...”

Pois é… mas o que eu acho mais engraçado é vê-los responder que “nem pensar!!!” quando lhes pergunto se nesse caso, aceitam trocar de lugar comigo. Eles ficariam aqui “a gozar”… como dizem, e eu passaria para o lugar deles, podendo assim caminhar sem dores e limitações, ir para onde eu quisesse, à horas que quisesse sem depender de ninguém, podendo correr, nadar, andar de bicicleta, podendo tomar a minha Alice ao colo (ainda não percebeu que não dá… a pobre… ainda me estica os bracinhos…) podendo conduzir outra vez, podendo beber um belo dum tinto com uma posta de bacalhau cozido e podendo desfrutar de uma imperial no Choca, com um pratinho de tremoços, enquanto leio o Correio da Manhã fresquinho e admiro o jardim pela vidraça.

Coisas simples. A cada dia que passa percebo melhor o Peter Falk das “Asas do Desejo” do Wender que a primeira coisa que quis fazer ao cair dos altos ceús foi beber um cafézinho na primeira roulote que apanhou aberta. Coisas simples…

Realmente não me posso queixar. De todo…

Tenho televisão, portátil e internet, telefone e telemóvel, filmes, discos, revistas, jornais e livros, guitarra para ensaiar, comida, cama, roupa lavado e sobretudo… muito amor, carinho e compreensão. Tudo coisas que ajudam a quem tem de passar os dias deitado (sentado nem pensar!!!), com precárias de 10 minutos para ir à casa-de-banho ou tomar uma refeição.

Nestes dias sempre iguais tem-me valido o cinema, definitivamente, a melhor forma de sonhar acordado e uma das paixões da minha vida. As sessões triplas diárias têm-me ajudado a dar baixas na infindável lista de filmes “a ver” e assim consigo viajar tanto, no espaço e no tempo, sem sequer sair do lugar. Tanto posso andar pela América Latina a decifrar enigmas ancestrais, de chapéu e chicote na mão na companhia do meu amigo Dr. Jones, como na hora seguinte me mudo para uma Nova Iorque futurista para dar uma mãozinha ao Will Smith na sua luta desesperada para salvar a humanidade de um vírus mortal. Por estes dias, já andei com um Tom Cruise zarolho a ver se matava o Führer, já ajudei o Jake Gyllenhaal a apanhar o serial killer do Zodíaco, já passeei por uma Paris ébria pela mão de Gainsbourg, já me juntei a Robin de Locksley na sua luta desigual com o maléfico Rei João, já andei perdido em Las Vegas, depois da mais louca despedida de solteiro de todos os tempos… enfim… vivendo a vida de outros…

E cumprindo à regra uma das minhas máximas: “always look on the bright side of life!”

PS. Por falar em coisas boas: já viram a qualidade dos políticos que temos? Aqueles sujeitos nem assim conseguiram chegar a um acordo… mesmo sabendo que ao defenderem os interesses partidários, colocam em risco os supremos interesses do país. É o que eu digo sempre: estamos bem entregues, estamos…

domingo, 24 de outubro de 2010

Operando...

~
E prontos… Foi o que tinha de ser, como tinha de ser, como Deus quis que fosse, como estava escrito que haveria de ser (eu, como bom português, acredito no destino) ou então, foi como calhou. E foi bem. Correu bem. Está a caminho de ficar fino.

A médica disse-me que dentro da categoria das hérnias volumosas, não ganhou o 1º prémio mas atingiu uma posição cimeira e que o que mais a impressionou foi o estado da raiz nervosa, toda trilhada entre a dita cuja e o osso. Que as dores tinham de ser muitas e é tão bom quando nos compreendem, quando sentimos que foi mesmo assim e não tudo apenas produto da nossa imaginação. Foi sofrer a sério, foi ter privações, limitações e sacrifícios. Foi aguentar até não dar mais, até não ter mais paciência para tanta impaciência.

E eu estava naquela… Era a estreia absoluta em tudo. Primeiro internamento, primeira anestesia, primeira cirurgia… e estas são daquelas estreias que acho que ninguém quer ter. Abala daqui um gajo quando ainda o galo ressonava, atravessa o país, e vai assim rumo ao desconhecido, de mala aviada e sem sequer ter companhia para jogar uma bisca lambida. Não é fácil para ninguém. Para quem tem uma séria propensão para a hipocondria… pior.

Quando chego aquela zona da cidade só costumo ter olhos para as roulotes e para a catedral, de forma que nunca tinha sequer reparado que ali estava um hospital. A cegueira é tanta…

Situado no Alto dos Moinhos, o Hospital dos Lusíadas é uma estrutura ultra-moderna, recentemente inaugurada (2008) pertencente a um grupo privado que opera na área da saúde e que claramente se pode classificar como unidade de proa em Portugal. Tudo ali é, de facto, moderno e personalizado: da arquitectura aos interiores, da decoração à forma de atendimento. Tudo foi pensado ao mais ínfimo detalhe com o exclusivo intuito de agradar. À primeira vista, ninguém diria estar num hospital. Mais parece um hotel ou um spa. Nada de filas intermináveis, nada de camas apinhadas nos corredores, nem sequer vestígios do cheiro tão característico das unidades de saúde, a camas e medicamentos. Aqui as caras são sorridentes, as funcionárias são jovens, bonitas e vestem fardas, mais parecendo assistentes de bordo que outra coisa qualquer. Perante todo este cenário, o pensamento não pode ser outro: estou em boas mãos.

Por muito que nos consigam fazer pensar que o nosso bem estar é a prioridade e o objectivo último, todos nós sabemos que num negócio privado é o dinheiro que fala mais alto e assim sendo há que racionalizar, rentabilizar, lucrar o máximo… não há tempo a perder. Do programa constava comparência na quarta-feira para consulta com o médico anestesista, análises médicas (sangue, raio-x, electrocardiograma) e internamento ambulatório. O folhetinho Xpto disponível na sala de espera explicava que o internamento ambulatório é para os casos que eu designo de “tratar e andar”: sabemos o que tu tens mas não penses que vens p’raqui fazer sala. Fazemos o que temos a fazer e assim que provares que estás no bom caminho: “ala que se faz tarde” porque há outros que aguardam na fila. Pensando bem… até é bom que assim seja.

Depois de percorrer pelo meu pé as diferentes áreas onde haveria de obter os exames pretendidos, acabei por me instalar no quarto por volta da 1h e meia e às 15 h estavam a rebocar-me para o banco de ensaio. Presumo que no entretanto me foram ministrando uns pozinhos de perlimpimpim porque há medida que o tempo passava fui-me sentindo cada vez mais calmo, relaxado e com vontade de me deixar ir.

Numa das antecâmaras, umas senhoras de toucas plásticas na cabeça perguntou-me:

- “Então mas você não é atleta? Não corre? Como é que raio arranjou isto?”

- “Eu sei lá, senhora… Tenho pensado tanto… Excessos… Asneiras que a gente faz na vida. Pesos à toa… mochiladas de quilos quando era pequeno a caminho do ciclo, do liceu, da faculdade… alguns acidentes de mota e de carro e tonterias… bilhas do gás às costas… milhares de quilos de lenha de empreitada… e as corridas… o impacto do pé no chão que pode ter desencadeado esta reacção. Sabe que numa meia-maratona (fiz diversas…), o pé bate no chão mais de 35.000 vezes? Tanto corri que acabei por dar cabo do amortecedor…”

- “Ai ó (não sei quantas), ouviste o que este disse? Diz que deu cabo do amortecedor! (gargalhada geral). Esta está muita boa! Esta nunca tinha eu ouvido. Tenho de tomar nota e contar ao meu marido em casa.

A esta altura já eu me sentia como o E.T. do Spielberg quando os cientistas governamentais invadem a casa do Elliot. Tudo à minha volta eram tubos e contadores electrónicos, prateleiras metálicas e gente vestida de plástico da cabeça aos pés. Só via os olhos e tentava responder, o melhor que podia, às perguntas que me faziam.

- “Olha… que engraçado… tem duas andorinhas tatuadas. Muita giras! Quem fez?”

- “O Fontinha da Bad Bones, no Bairro Alto. O melhor tatuador de Portugal. São old school. Não se nota?”

- “Nota, nota! E querem dizer o quê?”

- “São as minhas filhas, a Leonor e a Alice” e nisto já respondia só com um olho aberto. Mais do lado de lá do que de cá…

Não sei que voltas mais demos à conversa que a última pergunta de que me recordo foi: - “e gostas mais da Ferrari ou da Porsche?”

-“Da Ferr…a…ri… é…ou..tr..a…cla…ss…e…”

- “Ai sim? Então boa viagem!”

E prontos. No segundo seguinte já estava no recobro, uma sala enorme com muitas camas onde diversas enfermeiras faziam ronda aos sinais vitais e ao estado dos pacientes. Foi num instantinho e de verdade que esta parte… não custou nada. Ainda me recordo da médica a sorrir, felicitando-me que tinha tudo corrido bem, envolta assim numa névoa como se fosse um sonho. Lembro-me de ter tentado balbuciar umas palavras mas a pedra ainda era enorme e não dava para muito mais.

Ao fim de meia hora já estava deitadinho no quarto, rondando as estações de rádio no telemóvel para ouvir o relato do meu Benfica com o Lion. Por incrível que pareça, parece-me que naquele estado de dormência em que ainda me encontrava, só consegui ouvir os dois golos que sofremos. Sendo assim… boa noite e até amanhã!

A 5ª feira foi dia para recuperar de toda esta aventura no meio de muito jornal, muita televisão, muita Praça da Alegria, muita Júlia Pinheiro, cházinhos de camomila e pacotinhos de bolachinhas Maria que estão para os hospitais como as bolas de Berlim estão para a praia. As funcionárias todas elas excelentes, as enfermeiras encantadoras, um asseio enorme, muita simpatia, as refeições belíssimas… Enfim… do melhor.

E eu, à custa de muito patuá, ainda consegui convencer uma das piquenas que prestavam assistência ao meu sector para me ajudar a encenar que estava instalado não ali mas no quarto do Benfica que não aluguei por me terem pedido mais 40 euros por dia. 40 euros?!?!? Para um sócio?!?!? Granda roubalheira! Com 40 euros estava uma semana a almoçar e jantar sandes de courato empurradas para baixo por girafas Sagres letra Z (de litro, as maiores que há!). Aquela malta não têm consideração por ninguém!

Ela disse-me que sim, mas ao fim de uma horas chegou-me lá toda aflita: “ó senhor, se quiser ver o quarto do Benfica tem de ser já porque vai entrar um inquilino”. Corramos, então! Por infortúnio já não tinha a cama, dado que gorou a sessão fotográfica, mas pelo menos deu para ver como é bonito e arejado e decorado com as cabeçorras dos nossos jogadores como se fossem gigantones do Minho. Não vale é o dinheiro, sobretudo depois da ensaboadela da noite anterior que não ajudava convalescença alguma mas isso aí…

Depois foi preparar o regresso e em menos de nada já estava de volta ao lar, com as minhas pequenas a fazerem-me companhia, que é como quem diz: melhor é impossível Tudo está bem quando acaba bem!

Espera-me agora um mês (ou mais…) de molho, sempre deitado, com autorização apenas para me levantar esporadicamente e nunca por um período superior a 15 minutos. Faço votos que depois de sexta-feira, quando tirar os 30 agrafos, possa ter uma alta mesmo que ligeira e guia de marcha para uma maior mobilidade que eu sei que isto custa a todos mas se há quem não foi feito para estar assim parado… fui eu.

Não gostaria de terminar este post sem fazer alguns apontamentos (até para minha memória futura) que me parecem oportunos:

Em primeiro lugar, agradecer a todas as pessoas, familiares e amigos, que se preocuparam comigo e com o meu estado. Obrigado aos que me ligaram, aos que rezaram, aos que enviaram sms, aos que aqui postaram as melhoras, aos que ligaram para minha casa, aos que estiveram comigo mesmo que apenas fosse em pensamento. OBRIGADO. MESMO! Eu ACREDITO que essa força toda junta foi indispensável para que as coisas tivessem corrido pelo melhor.

Um obrigado muito especial ao Carlos e à Fatinha que foram as primeiras caras que vi quando entrei no hospital. O conforto que se sente quando damos inesperadamente com rostos familiares num sítio que imaginamos inóspito, é indescritível. Eu tinha-lhes pedido para não irem e mesmo assim… foram. E ajudou imenso. Acreditem.

Outro obrigado às minhas tias que há quase 20 anos me fizeram companhia no comboio quando entrei na faculdade (levando o menino a Lisboa…), e passados estes anos todos (quem diria!) ainda têm força suficiente para me animar no hospital. Duas forças da natureza! Obrigado também à Rosa Maria e ao Manuel pelo fim de tarde tão agradável, em amena cavaqueira.

O meu óbvio obrigado à Dr.ª Anabela Nabais, com quem simpatizei de imediato e nas mãos de quem me senti tranquilo desde a primeira hora, pela sua simpatia e enorme profissionalismo. Obrigado a toda a equipa médica e a todos os profissionais do Hospital dos Lusíadas com quem privei.

Obrigado a todos os meus familiares que me apoiaram (mãe, sogros, cunhados, irmão, tias), às minhas visitas e sobretudo às minhas filhas (por me animarem) e à minha Cris, esta baixinha que é a mulher da minha vida, quase sempre calada e sorridente mas que é uma guerreira gigante, uma lutadora e uma valente que agora me leva ao colo e tem a casa às costas. Desculpa e mais uma vez, obrigado.

E para terminar, duas ou três notas:

1) Estar doente deve ser a coisa mais triste que há no mundo. Mais triste, só a morte. O doente fica debilitado e desanima. Vê a vida lá longe. Perde o ânimo e a vontade. Sente-se sozinho e esquecido, por mais acompanhado que esteja. Duas ideias me surgem daqui:
- Temos de aproveitar a vida o melhor que podemos, desfrutando de cada momento bom como se fosse o último e,
- Temos de ajudar mais que está doente e quem sofre nem que seja ouvindo, sorrindo, dando a mão. Sendo mais compreensivo. Eu prometo que vou fazer a minha parte.

2) Um conselho a quem padece de hérnias discais ou mal semelhante: não sofram mais! Não se deixem limitar pelo medo, não andem às cambalhotas de um lado para o outro a experimentar mil e um paliativos e mezinhas enquanto gastam rios de dinheiro, não se iludam e avancem! Eu também segui o conselho de outros antes de mim. Vale mesmo a pena! Para grandes males… grandes remédios!

3) Neste período em que tenho estado acamado tenho-me recordado com frequência de dois amigos, o César e o Henrique, que a estrada traiçoeira aprisionou para sempre a uma cama. Nesta minha reclusão momentânea tenho pensado, tenho tentado imaginar a extensão infinita do seu sofrimento e angustio-me só de o vislumbrar. É preciso ter uma força e uma coragem à prova de bala para conseguir seguir em frente. A eles também prometo que passarei a estar mais presente e a ajudar ainda mais.

Para finalizar, um abraço que jamais saberei se será entregue, ao meu companheiro de quarto, o Sr. João, a quem ainda consegui arrancar um sorriso fortuito na despedida quando lhe pedi desculpa por alguma coisa que tivesse corrido menos bem, desejando o seu restabelecimento e rápidas melhoras.

A vida é linda, é boa, é maravilhosa e eu tenho umas sapatilhas novas de corrida por estrear.

So help me God!

Beijos!!!!