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quinta-feira, 23 de março de 2017

Carta a ti, Cali (Parabéns!)


Como tu eras, quando eras minha

Tenho bem presente que nunca poderás lê-la, ou sequer entendê-la, se porventura a lesse baixinho, devagarinho, para que te chegasse. Mas ainda assim, nem que seja para gáudio do meu egoísmo, sinto-me na obrigação, e no direito, de a escrever. Consola-me que, ao plasmá-la aqui, na minha janelinha virtual para o mundo, a eternizarei para memória futura, para as gerações vindouras. Não ficará num papel, numa gaveta, num dossier, num sítio onde se possa perder, ou esquecer, ou estragar. Aqui, ficará sempre… aqui. Quero assim que para os meus, para os nossos, para as gerações futuras que virão depois de nós, fique plasmada a nossa história de amor. A história de um sobrinho que amaste como um filho, que nunca pudeste ter; e te amou a ti, como uma segunda mãe, apesar da dele o preencher, o encher e estar sempre ao mais alto nível, nesse cargo.

Parabéns, minha querida… pelos teus 86 anos. Pelos tantos, tantos anos que já tens. Tantos quantos os da tua mãe (03.11.05 – 07.12.91), e os da Tia Bia (05.01.1928 – 11.07.2014), as recordistas. Hoje és, a matriarca da família Sobreiro. Por ironia do destino, uma matriarca vazia… de lembranças, de afetos, de memórias e vivências. Um corpo… apenas. Aquele mesmo corpo onde dantes vivia aquela senhora esmerada, cuidadosa, dedicada a tudo e todos onde se metia, minuciosa, impecável. E o que isso dói… Essa desmaterialização…

Agradeço à força que tudo rege e comanda, agradeço àquele que para mim é Deus, e para ti será também, que tanto gostavas de ir à missa, mas que hoje em dia, até essa devoção te passa ao lado. Agradeço por te ter, por neste dia te poder abraçar e poder estar contigo. Depois de sair do serviço, fui ter contigo à santa casa que te acolhe, onde tanto és querida e estimada. Estavas vestidinha com um dos melhores fatinhos que tens, aperaltada com esmero e o colar a preceito que a tia Bela da Idanha te tinha oferecido. Quem te arranjou, sabia que este dia era especial, mais para os que te amam que para ti, e preparou-te com amor. Com aquele que passa cá para fora, que se vê, se nota e se sente.

Eu sabia que um bolo de anos não seria uma boa escolha, porque a vossa alimentação está muito condicionada, é preparada com cuidado e tem de se levar com cautela; e sabia que as prendas são coisas que nada te dizem. Mas queria estar contigo, isso era o que eu queria. Na sala, disse às tuas colegas que te ia cantar os parabéns e perguntei se me ajudavam. Elas que “claro que sim”, e que bonito que foi. Com elas todas a levantarem-se, as que podiam, com um “ah, mas faz anos?!?!? E quantos faz? Dê cá um beijinho…”


Aquela senhora que é da família dos Casanova, que sempre me pareceu um pouco alheada, mas que agora percebi, tem o grande problema de ouvir muito mal (por isso vive quase à parte), que foi uma das que se surpreendeu com a efemeridade da data, dirigiu-se a mim (creio que das únicas vezes), para me dizer “ah, hoje esteve cá já aquela senhora que vem cá quase sempre, como você.”

- A minha mãe?
- Ai é sua mãe?!?!? Olhe, pensava que era sua irmã.
(Meus risos. Muitos) – Olhe, minha querida, das duas… uma: ou é ela que está muito nova, ou sou eu que estou muito usado (o que não deixa de ser verdade, e bem revelado pela careca).

A minha mãe sempre foi aquela cunhada que teve uma relação contigo de… irmãs. Difícil encontrar cunhadas que se dessem tão bem, que tu tanto nos ajudaste quando podias, mas que nunca te deixou, que nisso aí, saio bem a ela. Desta vez, a Dona Alzira creio que levou um miminho, não muito doce, para petisco da rapaziada. Perfumes, desodorizantes, aquele shampoo que te faz bem ao eczema que tens detrás das orelhas, atenções, relíquias, para mim, tesouros. Nunca te deixou a ti porque sabia que tu nunca, enquanto pudeste, a deixaste a ela, a nós todos.

Estou a aprender a envelhecer, sabes? Já tenho quase os 44, vê-me bem. Já não sou aquele puto traquina, terrível, sempre educado mas muito transgressor, em tudo. O que adorava meter o que fosse ao limite. A ver até onde é que dava. Sempre a caminhar na corda bamba entre o correto e o que poderia ser diferente. Já não sou o teu Pedro, o puto da Beirã, que tudo questionava e pensava. Agora sou um senhor de família com duas filhas, que tem um emprego de pessoas grandes, que tem se gerir um lar, ou melhor, co-gerir um lar. Como tive de aprender a viver, sem algumas pedras chave da minha vivência, que a vida me roubou num ápice; agora estou a aprender a envelhecer... a ter filhas já adolescentes, que amanhã vão ser mulheres, que seguirão o seu próprio caminho, ficando sempre eu no meu lugarinho, para trás.

O ir mantendo um contato regular, semanal, com a tua realidade, com o lugar onde vives, tem-me ajudado a ter uma verdadeira noção da efemeridade da vida. Tu, infelizmente, estás apanhada por essa maleita batizada com o nome de um médico estrangeiro, mas que na realidade é… demência. O cérebro é um computador que, quando berra, berrou. Nada há a fazer. Nem atualizações de software, nem placas adicionais, nem upgrades, nada lhe vale. É a vida, que é assim. Há pois que aceitá-la.


Se não estivesses assim, eu continuaria a fazer aquilo que fazia contigo ao início. Levar-te-ia a dar passeios para fora dali, iria mostrar-te e recordar-te o nosso mundo, levar-te-ia ao alto da torre de menagem do castelo de Marvão, à barragem da Apartadura, à Portagem para veres o restaurante Sever, onde me levavas tanta vez na infância, aos domingos com a restante família; ao Modelo, para veres como é uma mercearia de hoje, igual à que tu tinhas, só que muito maior.

Depois eu apercebi-me do vão que era isto tudo. Realizei, o nada que ficava. Consciencializei-me que o cansaço, era o que mais permanecia e, com muito custo meu, desliguei. Aceito-te hoje já como és, como estás, como tem de ser. E custa-me tanto ir ver-te, acredita, porque me apercebo de tanta gente que sofre de maleitas do físico, acossado pela idade; mas que vive com uma cabeça que pede tanto mais mas que… não tem. Porque não tem possibilidade. Porque as famílias, têm outras prioridades… onde elas não estão incluídas. Se fosses uma dessas…

E o que eu me lembro da Ti Bia, coitadinha, que partiu não na primeira noite, mas logo na outra a seguir. O tanto que ela ainda queria, sabia e podia. Mas apagou-se.

A vida, é mesmo um dar e receber. Não há nada mais valioso que a saúde, e nada é mais fundamental que o amor. O amor por ti, pela minha mulher, pelas minhas filhas, pela minha mãe, pelo meu irmão, pelos filhos deste e pela mulher, pela minha afilhada, pelos meus cunhados, pelos meus sogros, pelas minhas tias, pelos primos e primas, amigos e amigas verdadeiros. Verdadeiros. O amor ao próximo deve ser defendido mas… por vezes, é tão difícil de materializar. Que abandonamos. Os outros que não nos querem bem e só têm interesse em nós, seja porque motivo for, não merecem.

A vida é uma passagem. Se nada para cá trazemos, nada de cá levamos. Deveríamos pensar mais vezes nisso. Lembra-te que és pó, e em pó te hás-de tornar, ensinam eles.

Sei que me tenho esforçado para ser um bom rapaz, um bom cristão, um seguidor de Cristo, um menino à altura, que te haverias de orgulhar do teu Pedro ser assim. Não há ninguém no mundo, nem pode haver, que seja capaz de dizer assim: não gosto do Pedro porque o Pedro me fez isto de mal. Não pode! Se houver, que dê um passo em frente e abra a boca. Estou limpo, de costas seguras e nunca tentei prejudicar fosse quem fosse. Peco, por vezes, por me dar demais. Depois dói-me ter de tirar. Mas eu consigo suportar isso. Acho que é uma das maleitas do processo de crescimento. Crescer dói. Mas nisso aí também sou implacável: como quem não se sente, não é filho de boa gente… eu acredito que sou. E preso muito a minha memória.

Como queria estar a sós contigo, trouxe-te cá para fora e estivemos os dois ao solinho, tu com o meu casaco pelas costas. Soprava um vento frio. Parecia Inverno e não a Primavera que vem sempre com os teus anos, do tempo quente e das andorinhas no teu beirado de casa, que quis gravar no meu peito para sempre. Estivemos ali uns largos minutos, em que nos enfiámos numa máquina do tempo para a Beirã dos anos 70 e muitos, quase 80. Passou por nós a Dona Alzira, grávida do Miguel. Sentados ao sol nas escadarias da Rua Fernando Namora nº 1, tu coçavas-me a cabeça com os teus pentinhos com que ajeitavas o poupo, cá atrás. Olhei-te nos olhos e já não vi a luz, vida, vontade. Apenas uma claridade vaga e um fitar perdido, atordoado, sem saberes muito bem ao que ias e estavas.


Era capaz de estar ali tempos sem fim, assim encostado a ti, só a sentir-te. O teu calor na minha mão.

Fui-te levar à salinha para o jantar e passámos pela grande cá de cima, onde as coleguinhas se meteram contigo com um “ah, mas estou tão bonita hoje…”
- A minha tia faz hoje os anos!
- Ai sim?!?!?!? Então dê cá um beijinho de parabéns, e vieram todas, ou quase todas a beijá-la. Ela coitadinha, já nem isso sabe dar. Encosta a carinha.
- Então de quando é?
- Século passado, 31.Faz os 86.
- Então é minha quinta!!! Dá um beijinho.

Tão bom.

Foi a primeira a sentar-se. Ficou assim, no dia em que celebrou os 86 anos de vida. Sozinha. Assim chegamos, assim partimos, por muito acompanhados que estejamos. Não vale de nada a pergunta se: “valerá a pena, assim?”. Será conforme a vontade de Deus. A ele pedimos a força suficiente para conseguirmos aceitar a sua vontade. O mano João, meu pai, partiu com 35 anos menos. Nós nunca saberemos como é que será o nosso percurso de vida. Até ser.


Ao passar por algumas colegas, falavam entre si de voz baixa. A uma saiu-lhe um “ai… este sobrinho… vale ouro. Se não fosse ele…”

Sorri e fiquei a pensar que, não me interessa os outros todos, familiares, amigos, conterrâneos, mais ou menos próximos. Eu sei… de mim. E por mim, hei-de sempre estar e responder, até que Deus queira. Não há rankings aqui de afetos, não há pagamentos a serem feitos, não há aqui prestações de contas. É a consciência. O sentido do dever cumprido, ou não. Eu examino-a todas a noites, antes de me encostar, e deito-me sempre de paz com ela. Sei que sei pedir perdão, assim que me aperceba que falhei, porque falhar é humano. Mas fechar os olhos com a tranquilidade de ter estado bem, não tem preço.

Eu sei que a Cali foi feliz. Pedimos um de cada vez. Até que Ele queira.


Eu também fui feliz. Sou.

Obrigado

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Aos que já partiram (na minha frente)



O tropeção que dei na vida, sem estar nada à espera, e sem nunca ter sabido de onde e como é que realmente aconteceu, fez de mim um homem diferente. Este Pedro não é, definitivamente, o Pedro que era dantes. Tem muitas caraterísticas da sua personalidade que se mantêm intocáveis, porque são imutáveis e intrínsecas ao mais profundo do seu ser, mas este Pedro ganhou uma consciência diferente, uma maturidade e uma amplitude que não o conseguiriam fazer voltar para trás, para o que era até então, antes.

Depois deste intervalo brusco de mês e meio (em coma) no filme da sua vida, que chegou a meter em risco o visionamento do resto da fita, muitas coisas ganharam outra clareza, outros contornos, redefiniram-se estratégias e prioridades.

Depois da perda brusca e inesperada, em 2014, da tia paterna, que era, pela sua memória clara e espírito arguto, a matriarca da família, o repositório de todas as memórias que relatava e vivia com clarividência; o Pedro viu-se obrigado, aos 43 anos, a ser o fiel depositário da família Sobreiro. Filho do único filho varão que chegou a adulto de uma família só de mulheres, filho daquele que deixou tragicamente o mundo com apenas mais 6 anos que ele; aos 49, ele é hoje o ramo mais alto de uma família que não tem pais, avós, homens mais velhos a quem seguir. O Pedro é o Sobreiro mais alto deste montado, plantado no sopé da serra de Marvão.



O ter estado tão perto do fim, fez-me ganhar consciência de quão perto ele está e como é tudo tão efémero. Se pudéssemos parar a vida e levitar, se olhássemos para baixo e víssemos tudo o que passa na nossa vida e na dos outros, perceberíamos que muito do nosso tempo, no fundo, o que temos de mais precioso, é gasto em zangas, guerrilhas, quezílias, arrufos, desamores e chatices que não beneficiam ninguém. Ninguém ganha nada com o mal dos outros. Mesmo com aqueles que são nossos concorrentes… valores mais altos se levantam, sempre. Nem só de pão vive o homem. (e aqui pão pode ser traduzido como qualquer bem material, que aqui fica quando nós partirmos).

Vivi este dia de defuntos, dia 1 de Novembro, com uma emoção que nunca tinha experimentado antes do acidente me ter acontecido, nem nos anos depois, quando ainda estava a enturmar a minha consciência. Tendo tomado conta desta minha condição de mais alto dos Sobreiros, da falta que me fazem as ramadas que estavam acima de mim, percebi que teria de ser eu a honrar os que tinham aqui estado antes de mim.

No cemitério da Beirão estão todos os restos mortais dos que decidiram fazer vida nesta aldeia nascida do caminho-de-ferro, onde trabalhavam nos serviços associados, no transporte da ferrovia ou nos empregos dali nascidos. O meu avô, que nunca conheci (o chefe da estação que se reformou inspetor); a minha avó(zinha), que me coçava a cabeça em tardes sem fim e fazia gemadas do outro mundo, com ovos acabadinhos de sair do cú das galinhas que tinha no quintal e muito açúcar em cima; o meu Tio Gomes (padrinho do meu irmão, que trabalhava na PIDE DGS, mas segundo sei e ainda me dizem, apenas vigiava a fronteira e não fazia mal), a minha tia Maria de que já falei, e o meu pai, de quem passados 22 anos, ainda me custa falar, tal foi a influência que teve em mim.
Nesse cemitério, do qual a minha mãe costuma tomar conta das duas campas, ela já tinha orientado e falado com alguém que fizesse o tão difícil trabalho de as lavar, que para a sua situação física, se tornava quase impossível de realizar sem dor.

Na Beirã fiz questão que ficasse também gravado na pedra, o nome da última a desaparecer, a minha tia, para memória futura. Já passou mais de um ano e merece. Pelo tanto que nos deu.

O nosso sítio... (é) na Beirã


Descansado daqui, ficava apenas por manter viva a memória do meu tio paterno, que faleceu com apenas 14 anos, enquanto subia uma escadaria na Beirã, junto ao caminho-de-ferro, ao lado da loja do Sr. João Viegas e do Sr. Andrade. Segundo me contaram, a minha avó já teria perdido uma filha ainda bebé, mas esta morte do filho primogénito, de coração, assombrou não toda a família que o conheceu e acompanhou, como todos os outros que a ele se seguiram, nos quais obviamente me incluo. Na verdade, a minha tia Mirene, da Covilhã, faleceu desse problema depois de ter sido intervencionada a ele mais que uma vez; o meu pai também se ficou por ele não lhe ter valido e essa é certamente uma das falhas prováveis desta série de árvores, enquanto as outras tendem para outras maleitas. Há que encarar o que é indesmentível e fazer tudo para lhe conseguir fazer frente.

Manuel Bengala Lopes Sobreiro
N. 06.07.1923
F. 24.03.1937
Com apenas 14 anos

A sepultura do meu tio tinha sido oferecida pelo tio Bengala, como ficou expresso na lápide. Naquele então, os comboios ainda não tinham chegado, a freguesia ainda não existia e aquele cemitério foi o pouso mais certo.

Sempre me lembro dela assim, com um ar de abandono. Às minha tias tinha-lhe faltado força e discernimento para a poderem manter em condições e foi ficando.

Depois de sair do serviço, pensando nos ensinamentos que tenho tido com a minha Fernanda Cristina, fui ao Tapas e comprei 3 garrafões de lixivia que essa substância fantástica, limpa tudo e tudo luz após a abraçar. Menos a roupa, claro está. Por isso, passei por casa, vesti roupa velha e quando já caia a noite despejei os garrafões sobre a pedra, a lápide e deixei atuar. Não ficou perfeita mas ficou melhor e da próxima vez que a visitar, a ajeitarei melhor. Uma florzinha bastou. Sóbria, simples e de plástico, porque conserva melhor.

O antes...

E muita lixívia depois...
A paz e o silêncio do cemitério ao entardecer

Tenho outros Sobreiros, de sangue, cujos restos mortais estão sepultados na Covilhã, mãe e filho, mas estão… longe demais. Senão longe do coração, porque de certo que não estão, estão longe demais para que possamos equacionar uma ida ao cemitério, lá. E é incrível como o afastamento geográfico marca tanto a relação entre as pessoas. Bem diz o povo que longe da vista, terá de estar longe do coração. São gente nossa, nós viemos deles, somos feitos da mesma massa, mas se não há convívio, conversas, contacto próximo, se tudo se resume a um contato telefónico fortuito, duas ou três visitas nos anos, quando as há, não é a mesma coisa como se morássemos aqui, lado a lado. Lutamos por nos mantermos próximos deles mas… muitas vezes… é inglória.

Para além de Sobreiro, sou também Ereio, da Beira Baixa, tenho lá os meus, e o que resta dos que já foram, mas o estarem longe… sempre o estarem longe…

É por isso que me esforço tanto para que eu e o meu irmão nunca percamos, e os miúdos nunca deixem de sentir esta ligação tão umbilical que tínhamos.

A distância… acaba por definir tudo. É importante que quem pense nisto, pense sempre muito a sério nesta questão. Porque acaba por definir tudo.

Ainda hoje atendi um senhor que me disse ao balcão, com algum, muito lamento, que tinha pouca cabeça para este assuntos sérios como os que o tinham levado ao meu serviço. O filho tinha começado um negócio aqui mas… teve uma oferta melhor para a cidade grande e saiu… a filha está no estrangeiro, vem (brilhando os olhos) no Natal mas… vai ter que ir logo (fechou-se o sorriso), a esposa está a passar menos bem, muito menos bem e é ele que tem de assegurar…

Dei-lhe a mão e disse: “ânimo, força!”

Vi que estranhou e... percebeu.


Mas sei o difícil que deve de ser. As pessoas, os nossos, têm de estar sempre primeiro.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Caly (e/ou como o tempo passa por nós)

O antes (e a assinatura)

O hoje (e a assinatura)

Quando entro naquela sala, elas estão sempre nos mesmos sítios, na mesma posição.


Sei que ali, comprovo de cada vez que lá vou, há muita higiene, respeito, amor.
Ali estão bem.
Bem agasalhadas, com uma temperatura ambiente controlada e mais que devidamente climatizada, estão como os ovos numa incubadora. Só que em vez desses, que estão à espera de eclodir para a vida, aqui aguarda-se o movimento inverso, de saída.


Eu sei que têm o dia-a-dia ocupado com atividades triviais, comuns aos demais mortais, que as preenchem. Sei que têm animações culturais diversas, para ocuparem os tempos livres com técnicos especializados, mas sei que muitas; como a minha tia Cremilde (que será sempre a Cali, ou Caly; como ela escrevia, para dar um toque inglês e mais moderno ao anexim), isso passa-lhe ao lado. O Alzheimer foi o vírus malévolo que lhe assaltou o processador do computador central e nada nunca mais nada será como dantes. Aquela Dona Cremilde, aquela menina Cremilde que nunca conheceu um marido, esmerada, dedicada, sempre prestável, sempre simpática, sempre apaixonada por crianças, é hoje um escombro que vive no habitáculo corporal que nos habituámos a amar. Está lá o Cadillac dos nossos sonhos… mas sem motor.  



Por mais estranho, estrangeiro e difícil de dizer que seja o nome, a tradução é bem nossa e percetível, por muito que nos doa: aquilo é demência.


E naquela sala em que ela nunca está sozinha, também neste sofrimento não está só, que não há médicos que valham perante as leis da vida.


São 7 ou 8 colegas que estão num autêntico hotel (Santa Casa da Misericórdia de Marvão), e olham sempre para o eterno programa da tarde que lhes faz companhia. Cumprimento cada uma delas com um aperto de mão, um toque pessoal, um aconchego. Sorrio e olho-as nos olhos. Por vezes não me escapo ao beijo e ao abraço apertado, a quem se agarra a mim como se fosse um guindaste capaz de as tirar dali para fora, lhes pudesse devolver a força anímica e a vida que deixaram para trás com os anos, sem quererem. Cada uma tem a sua história de vida, a sua maleita, a sua consciência mais ou menos clarividente, o seu estado físico mais ou menos debilitado. Conheço-as pela posição que ocupam. Como as crianças na escola e o eterno retrocesso à meninice.


As que ladeiam a minha tia são as mais conscientes e por isso mesmo, as que mais sofrem com   a falta de condição física. Querem mas… não são já capazes. Pergunto-lhes, “e a minha menina? Como é que tem passado?”
E elas contam.
-Ui, ui… tem passado bem mas é muito teimosinha.
- (Isso eu sabia)
- Quando a querem levantar e ela não quer… parece que pesa chumbo e ninguém a consegue mover daqui.
- E de resto?
- Dorme bem, come bem, não chateia ninguém. É um doce.
- (Sempre foi.)



Lá a da ponta é muito engraçada. É uma autêntica grafonola sempre com um tema antigo que trauteia sem parar, noite e dia. Modas dos bailes de Santo António, da Ranginha, dos Barretos ou da Beirã, que deve ter visto nascer enquanto freguesia, com o comboio.
- Minha querida? Então qual é a moda de hoje, meu amor?
Ela ri-se muito e diz “vou bem, vou bem”. Rindo-se reforça, olhando para mim, quando me vê dançar à rancheiro perante as suas músicas, fazendo de palhaço (que eu adoro quando é de vontade. Detesto é que me façam quando não quero. Ai temos porras.) “ai que engraçado… ai que engraçado…”, que se transforma num “ai tão linda, ainda tão linda, ai tão querida”, quando faz festinhas na minha Alice.


Ao lado, em frente, está uma senhora de um extrato social que parece ser diferente, mais 
alto, com outros tiques, conversas e trejeitos. Deveria de estar numa casa com outros hábitos, porque lhe dá sempre muita lida quem é que vai fazer o comer para tanta gente (as colegas que ali estão.)


Há uma senhora que me trata muito bem e diz sempre que se lembra de mim quando eu era pequenino, na Beirã, e que eu ia muita vez para a sua casa. Não me recordo de nada, nem nunca vi ninguém da sua família que me pudesse fazer a “ponte” com esse passado; mas sorrio sempre e digo-lhe que sim.


Muitas de negro, de desgosto por terem perdido os seus maridos, que eram quem bebia e fumava lá em casa, na maior parte dos casos; nunca elas, gostam sempre de me ver, do meu trato. E eu fico feliz. Saio sempre a sentir-me rico.


Uma outra, já com a visão algo “apanhada” pela idade, está sempre com um olhito cerrado e é de poucas conversas. De vez em quando ralham entre si, ou porque uma se esticou nos comentários, ou porque a cantora se cansou do disco e ralhou com uma qualquer que lhe quis meter travão à matinée. Tão engraçadas de se ver. Aquilo é como uma turma de cachopinhas da escola primária, ou de mulheres presidiárias, porque têm entre si a sua hierarquia e cada uma goza de um status muito seu. Não a minha, coitadinha, que se ri para todas e fala para dentro uma língua imperceptível, que é oficial lá no mundo onde ela vive.


Tem dias que vou lá e venho escuro como a noite. De olhos baços, tristes, sem vida, olha para nós como nós para o abismo. Sem conseguir ver o que seja. Anteontem, escondi-me na porta e surgi de rompante, em frente à televisão, para onde olhava com atenção. Num momento de rara lucidez, riu-se para mim e disse: “ Olhó! Então?”
- Então… fui trabalhar! Saí agora. E tu? Está boa? Tudo em cima? Tudo legau?
Ela riu-se e disse que sim. Riu-se mesmo. Riu-se com aquele ar: “agora aparece-me aqui este gajo”. E foi bom. Estivemos de mão dada e fomos passear.


À primeira tentativa fez-se mula e fez força para baixo.
- Então?!?! Não queres vir comigo passear? Anda, senão qualquer dia, as pernocas não querem nada contigo. Anda daí…


As amigas ajudaram. “Vá, vá com o seu… é filho? (algumas ainda procuram)
- Não! É sobrinho, respondem outras. Mas é como se fosse filho. É muito amigo dela.


“Pois sou. Nessa altura não havia infantários. Os meus pais tinham de trabalhar e deixavam-me com ela, a minha avózinha (sua mãe), e a minha tia (que então ficou viúva).


Depois, por vezes, ao final do dia, com a noite, com o frio, dava-lhes pena levarem-me para a rua, e deixavam-me lá ficar a dormir com ela. Tão bem que eu me lembro disso…
Fui o filho que ela nunca teve (porque sempre foi solteira).
Habituou-se a ver-me enquanto tal e eu a ela, como mãe.

Por isso somos tão próximos. Não consegue dizer o meu nome mas, nem precisa. Eu sei que ela sabe quem eu sou. E isso chega-me.”


Como poder beijá-la tanto. Na testa. Quente. Com vida.

Junto do seu altar, da rainha Santa Isabel, na igreja de Nossa Senhora do Carmo, na Beirã,
que arranjavam com tanto esmero

terça-feira, 22 de março de 2016

85 anos de Cali


85 anos de Cali. Uma homenagem àquela que sempre considerei a minha grande Amiga, a que deu sempre tudo por mim, e em mim "encarnou" o filho que nunca teve. Não se explica. Sente-se. Sei que as minhas outras mulheres da minha vida (2× de propósito), Fernanda Sobreiro e Alzira Sobreiro me-o perdoam. Tantas vezes elas têm de domesticar o Pedro imaturo, sempre rebelde, teimoso e desalinhado. Tantas vezes... Muitas mais daquelas que eu queria. A Cali nunca me ralhou. Antes fechava os olhos, como fez hoje, e me abraçava.
Levou-me pela primeira vez ao Jardim Zoológico, de comboio, que não pagávamos por o meu avô Leopoldo se ter reformado com o cargo de inspector dos Caminhos de Ferro (ele que começou do zero, fez a carreira toda pelo seu pulso e cabecinha até lá a riba, servindo-me de grande exemplo de trabalho para a vida).
No incontornável comboio, foi-me levar à faculdade, com a ti Bia, quais tias do Vasco Santana, que foi aprender o que era o esternocleidomastroideu.
Já há uma série de anos que alimenta de vida o corpo cujo cérebro funciona, mas "morreu" há muito. Mais de 10 anos? ( que a Ti Bia a foi encobrindo, enquanto carregava acruz sozinha e "perdia" tardes a ensiná-la a reescrever e a ler.)
Vive na Santa Casa da Misericórdia de Marvão que lhe dá todo o Amor e compreensão que merece, por nós já não conseguirmos, presos pela vida absorvente que levamos.
Hoje que trabalhei até às 6h, liguei para pedir que me deixassem passar da hora para lhe dar um beijinho e um abraço. Deus quis que a apanhasse depois do jantar e pudesse ter estado a sós com ela, sentados na cama. Beijei-a tanto, afaguei-a e apertei-a tanto junto a mim, que acho que lhe passei o calor que queria.
Se tem dias em que parece que não me conhece, hoje falou comigo. Deu uma conversa longa e ininteligível com o ar de quem estava a fazer um grande discurso. Nos seus olhos, o último bastião da minha família Sobreiro, vi, em silêncio, a avózinha, a Ti Mirene, o meu pai e a Ti Bia. Naqueles olhos castanhos viveram em minutos, todos os mortos que amei desta família e são a minha génese.
Fui feliz.
Nasce a Primavera no dia em que nasceu a minha Cali, que há-de sempre viver em mim gravada nas duas andorinhas que tatuei no peito, em homenagem às centenas que faziam o ninho no telhado da sua casa da Beirã.
Assim, bem tratada, querida numa casa que é um autêntico hotel pelas excelentes condições que lhe proporciona, de conforto, atenção e companhia; que deram à irmã o descanso de partir em paz na segunda noite em que lá dormiram juntas, peço a Deus, 1 ano de cada vez, para que a possamos ir amar sempre que podemos. É raro o fim de semana em que não.
Quando saí e a beijei na testa com o calor que lá quero sempre sentir, uma companheira que não conhecia, muito mais jovem e consciente que ela, comentou com as colegas: "não há homem como este..."
Eu sorri. Oxalá ela também sinta assim. Que nunca a deixei a ela como nunca me deixou a mim.
Parabéns, minha querida Cali.


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Escrever (ou a entrevista a ti...)

Marvão. 23.02.2014

E porque é que escreves?
Não consigo explicar. Escrevo porque me liberta, porque me ajuda a expressar aquilo que não consigo dizer pela boca. Escrevo porque quando tocam as teclas, os dedos como que se transformam em línguas e ganham vida própria. É uma sensação de catarse que não consigo explicar. Eles vão onde querem, sabem por onde querem ir e caem exaustos sobre as letras quando sentem que o trabalho está feito. Nunca tem um princípio e pode ter mil fins. Mas há um momento em que tem um.

E como pode essa necessidade ser por vezes tão grande, manifestar-se com tanta força, quando há dias que essa guerra parece que não é a tua?
Não sei explicar. Se há coisas na natureza que são inexplicáveis, essa, para mim, é uma delas. Parece uma possessão. Uma força, um ser, um ente que entra em mim e tem de ser expelido aqui, ali, desta forma.

Se ontem foi o trivial que te trouxe por aqui, de fugaz passagem por este limbo cibernético, porquê hoje a necessidade deste mergulho tão profundo nas águas gélidas deste lago tão quieto?
Porque algo me atormentou profundamente há dias e ainda não tive oportunidade de falar com quem devia. O tempo é escasso, o tempo urge e os compromissos do dia-a-dia, da voragem dos dias multiplicam-se. Não só não tenho procurado quem me possa ouvir com a profundidade que quero, mea culpa, como as oportunidades para tal não têm surgido e o tempo vai passando. Já entrei em contato com alguém que me garantiu que ia transmitir a quem de direito a minha preocupação e estou tranquilo. Mas eu sei que tenho de ser eu a auto-inflingir-me este exorcismo para que possa dormir melhor, respirar melhor, pensar e viver melhor.

E porquê aqui neste espaço que é público, tão aberto a todo o tipo de gente, incluindo a que te quer mal e se regozija com a tua afronta?
Porque eu sou assim. Trilho o meu caminho e sigo sempre pela rota que traço. Não me torço, não me vergo e nada temo. Não tenho vaidades e não tenho segredos. Sou eu. Amigo do meu amigo, um ser que se acha bom por natureza porque é incapaz de querer mal e fazer mal, lidando bem comigo e com os outros. Bem sei que é impossível agradar a toda a gente, nem eu o queria. Não deve haver coisa mais chata. Mas sendo público e um homem que sabe que comunicar é uma das virtudes que possa ter, confesso-me aqui com grande paz de espírito e à vontade. Esta minha taberna virtual, com tantos anos quantos os gravados no mural aqui do lado, é frequentada por bons amigos que sei que nunca a abandonam. Bem podem abrir MacDonalds e Telepizzas em tudo o que é grande superfície das redondezas que mesmo que lá vão… acabam sempre por voltar para um tintinho do meu primo Vitorino e uns passarinhos fritos.

Mas que ganhas tu em passares o tempo assim?
Olha, para já, poupo imenso. Nãos me encharco com caixas de drogas e drageias, nem ando a caminho de Lisboa falar com um cachopinho pouco mais velho que eu para me dizer que o que me fazia bem era um acompanhamento prolongado para algumas afinações. Como se eu fosse um relógio que um acerto nas roldanas e nos mecanismos alinhasse o pêndulo.
Depois, liberta. Mal feita a comparação, liberta-me como liberta uma beata quando confessa ao prior da paróquia que cometeu adultério. Não ganha nada mas o mal sai de cima.



A Filipa, ou melhor, a Drª . Filipa, diretora técnica do Lar daquela casa que é a santa e de Marvão, ligou-me a perguntar qual era a minha opinião em mudar a tia de quarto.
Respondi que compreendia. Confessei até que me causava alguma surpresa como é que a proposta para que tal acontecesse não tinha surgido antes. Na verdade, a sua colocação naquele quartinho para apenas duas utentes, tinha surgido por muita força minha no pedido para não defraudar as expectativas da sua irmã que desapareceu deste mundo quando ainda mal tinha aquecido a cama. Não foi na primeira noite, como ela tanto temia e a levou a implorar às funcionárias que não a deixassem só, gerando confusão e mal estar porque aparentemente não estava doente; mas foi na noite a seguir. A segunda noite na casa grande.






A Cali agora estava como uma companhia que não conhecia. Mesmo que conhecesse, já não seria capaz de se recordar como, quando e de onde. Por isso, agradeci a lembrança de a levarem para uma zona com instalações mais modernas, utilizada por utentes volantes, não limitados pela aliança a um cônjuge ou um familiar que os confinasse à zona de quartos.

Fui visitar e pareceu-me, de facto, muito bem. Continua o muito carinho no interior, bem patente em toda a gente que ali trabalha, coisa comum a todas as profissionais do edifício que me fazem sempre ficar com a sensação que se recebessem 5 vezes mais, não seriam pagas em excesso. Depois as instalações são mesmo mais modernas, com os quartinhos sempre muito asseados, com muita luz e arrumadinhos, já com diversas camas por cada um. Aliás, toda a instituição é toda ela um primor, um verdadeiro tesouro sem o qual teria hoje uma situação bem complicada de resolver.

Sábado passado, fiz-lhe a segunda visita naquelas instalações. Acompanhado da minha Alice que me pediu para me acompanhar (!) para ire ver a Ti Cali, a Ti Cali, a Ti Cali!!!!
(Que estranho?!) - Por saudades, Alice?
- Sim! Mas também quero andar no elevador! Eu ADOROOO elevadores. E há lá um!



A entrada é algo labiríntica, como é toda a estrutura da Santa Casa. Mas esta seção tem uns portões e grades que lhe dificultam a livre circulação e evitam preocupações de maior. Anda livre mas não tão em roda livre. Mais circunscrita, talvez. Pareceu-me tudo perfeito, tudo a ganhar forma e a ficar no ponto. Mas na visita deste sábado assustei-me quando a vi. Não a encontrei tão tranquila e tão distante quanto dantes, a brincar com as suas duas bonequinhas oferecidas pelas sobrinhas a quem ela as pode ter oferecido no passado, como se fossem filhas. Estava ela própria assustada e ficou aliviada quando me viu.
Afinal tu, alguém que me salva; parecem ter dito os seus olhos.
- “Ai vocês, ainda bem que aí vêm. Venham cá, venham cá.”
- “O que foi Cali? O que te aconteceu?”
 - “É ela…”, apontando para o espelho

A funcionária que estava de serviço, avó de uma amiga da Alice, disse-me entre dentes: “tem estado a falar toda a tarde com a irmã, que ela por vezes diz que é a mãe. Olha para o espelho e vê-as a elas. A gente leva-a mas ela volta…”

Quem é que me havia de dizer a mim que uma parte tão bonita, com uns roupeiros com espelhos, haveria de constituir assim um obstáculo tremendo à razão? Eu vejo as outras velhinhas sentadinhas, tranquilas, a verem televisão ou a fazerem crochet, e penso porquê não assim? Porquê esta inquietação, este desassossego, esta busca incessante do nada, do fio da meada que se perdeu no tempo?

Na estrada da vida, olho para trás e viro-me para a frente. Perdi um elo com apenas mais 7 anos que eu. Ou por aí, ou por aqui. E sendo certo que por aqui é muito mais fácil para quem está e ali pode rever a estrutura física que sempre amou, matando saudades do que ela já foi a cada reencontro; não consigo comparar qual das duas será mais dolorosa para a pessoa que a sofre.

Neil Young cantou "it's better to burn out than to fade away,". Kurt Cobain transcreveu as palavras na sua última nota em vida. Ele também pensava assim e certamente que ela prefere este doce apagar. Doce como sempre foi.

À Santa Casa de Marvão, a todos os órgãos diretivos e funcionárias quero deixar bem claro e bem expresso o meu profundo agradecimento. Agradeço por tudo, que é o que há para agradecer, do mais ínfimo detalhe a tudo o resto. Manter uma estrutura destas é um esforço diário monumental. Mas que resulta e é feliz.

O problema de que falo aqui é nosso, é com a doença, com uma guerra silenciosa em que uma pessoa se torna refém de si própria, de quem lhe tomou os comandos da aeronave sem dizer por onde ou para onde vai.

Há que fazer ajustamentos mas sei que com o tempo, e a boa vontade de ambas as partes, haveremos de conseguir acertar agulhas. Não tendo nunca tempo para coincidir convosco, desabafei aqui e de certeza que vou dormir melhor.

Chamam-lhe Alzheimer e até é assunto de Óscares e do dia.

Para mim, é demência. Ponto.

Seletiva. Mas demência. 



quarta-feira, 10 de setembro de 2014

8 do 9. O dia de Marvão. O dia do concelho. O meu dia




O 8 de Setembro é o dia grande do meu concelho e claro que tinha que estar presente. Como munícipe, atendendo à caça que hoje em dia há a tudo o que não seja central, era uma obrigação, em muito reforçada pelo facto de ser feriado por isso, sublimada pelo cargo que já ali desempenhei naquela casa.


Fui como eu gosto de ser. Outsider, desalinhado de tudo, vi e vendo as coisas sempre pelo meu prisma. Não sou assim tão livre quanto isso porque durmo com a censura, com quem partilho a cama e a vida, e por mais que me explique que cada um é como cada qual… não dá. Mas quem me lê/conhece sabe que eu não sou de mentiras, rodriguinhos, salamaleques. Para mim, o que é, é. A verdade acima de tudo. Quem não deve, não teme e sempre que posso, corto a direito. Nisso sou da cepa do general sem medo. Quando lhe perguntaram o que fazia ao velhinho Esteves se ganhasse as eleições, tiveram um “obviamente demito-o” como resposta. Infelizmente pagou com a vida por isso mas também, as eleições estavam mais que cozinhadas e nunca as poderia ganhar, enquanto que por aqui, sempre foi tudo jogado às claras e nunca houve promessas de empregos em “situações estranhas” ligadas à autarquia. Ou…








Os Discursos

O do Alcaide que habitualmente abre as hostilidades (?) foi na linha do que já nos tem habituado nestes últimos anos e diga-se de passagem que tem sido mais que suficiente para as absolutamente esmagadoras maiorias que tem vindo a obter. Em Roma, sê romano, por isso… quem dá o que tem e não lhe pedem que a mais do que isso seja obrigado… siga para bingo! Ou então façam como diz o bom do Passos: se não gostam, “que emigrem, emigrem.”


Infelizmente, por mais uma vez (acho que todas! Não! Pera aí! Ele nunca foi, foi ao 25 de Abril porque dizem as más línguas que é contra. Mas ao feriado municipal, não sei se já foi a alguma), o presidente da assembleia municipal não nos deu a alegria da sua comparência, o que por si só já é bastante revelador da enorme preocupação que tem vindo a revelar pela vida do concelho. Mais estranho isto se torna porque tem sido uma presença sempre constante em tudo o que acontece no burgo. Desde que foi eleito há quem diga que já foi visto por aqui quase que uma dezena de vezes (muito mais que o abominável homem das neves). Mas é a velha história… Chega para ganhar? Siga!



Confesso que sei que sou um pouco suspeito e talvez seja pouco credível, mas na minha modesta opinião, foi o deputado da assembleia que é enfermeiro e falou em representação do mais alto na hierarquia que fez o melhor discurso do dia. Leu, não vacilou, não se enganou, não perdeu ideias que abalaram com o vento, não foi derrotista, não enalteceu mais o trabalho das instituições que se dedicam ao apoio social como motor de desenvolvimento em detrimento da indústria ou outras mais construtivas, falou do concelho e da grandeza do dia. Citou Pessoa em qualquer coisa como “um copo de vinho com pouco vinho é meio copo de vinho, mas qualquer coisa com pouca dignidade é coisa sem dignidade alguma”. Porque será que ficou bem? O homem era da oposição? Porquê a citação? Não percebi. De todas as formas foi uma alocução irrepreensível. Não tivessem as folhas do discurso sido escritas em páginas de verso de gráficos desaproveitadas e teria sido perfeito. Esteticamente não foi a melhor opção mas de qualquer das formas, há-de ter sido bem visto pelos ambientalistas, à pala do aproveitamento e reciclagem. Duvido é que houvesse por lá algum ecologista encartado.



As medalhas de mérito

As medalhas de mérito para as quais tanto trabalhei (estudando regulamentos de outros concelhos e adaptando-os; aprendendo com quem faz bem, para conseguir fazer ainda melhor) para que dessem dignidade ao dia e enobrecessem a cerimónia que as antecedeu, transfiguraram-se. O regulamento definia 3 tipos de medalha diferentes que se destinavam a figuras cuja distinção estava perfeitamente tipificada: ouro, prata e bronze; e pela diferente natureza do material delas quase que se percebia logo tudo. Agora são de mérito e ponto.


Em primeiro lugar distinguiu-se o maestro Christoph Poppen, grande responsável pelo 1º Festival Internacional de Música de Marvão que longe e bem alto levou o nome da vila. A atribuição não poderia ter sido mais merecida. Humilde, de trato muito fácil, sempre simpático, tem uma forma de estar desarmante que nos deixa pequeninos por nos deixar tão à vontade. De cada vez que o contato, sinto tanto aquilo em que acredito que até me arrepio: quanto maior é o homem, mais simples se torna. Acho que por não ter nada a perder. Apaixonou-se por Marvão, por aqui comprou uma casinha e decidiu, num feliz momento de inspiração divina, unir o mundo erudito das grandes orquestras por onde se move com este lugar onde, segundo ele, é mais fácil sentir a presença de Deus na terra. Já é um marvanense também. Há dias disse-lho e deu-me 3 beijos. Creio que serem 3 é uma forma de afeto reforçada usada de onde é. Agradeceu num português perfeito e completamente percetível. Como germânico que é, não brinca em serviço e está já a preparar a edição de 2014. Disse que de todas as distinções que tem tido ao longo da vida (presumo que muitas) esta é uma das mais importantes. Temos casamento.

Não percebi porque é que foi mencionado que a decisão da atribuição tinha sido sugerida pelo senhor presidente. É que no meu tempo era uma decisão do município e ponto. Se não pode ir mais a eleições à cabeça, não percebo o porquê desta contagem de pontos. Porquê esta busca incessante de ser o faroleiro, o timoneiro, sempre o homem da frente?!?!? Será trauma? Quererá uma estátua na Escusa de onde não é, mas vive?



O segundo homenageado foi o meu querido amigo João Sequeira Carlos, que recentemente nos deixou. Há homens que deixam vazios que não são preenchíveis. Com eles vai um legado, uma vida de trabalho, um amor à terra como nunca conheci. O neto, ilustre neto doutor (aqui), como ele sempre fazia questão de referir, (que recebeu o galardão acompanhado da neta, também ela doutora) recordou essa paixão pelo Porto da Espada e por Marvão num pequeno discurso de agradecimento que mostrou bem que o nível da família não se perdeu e antes passa de geração em geração. Disse que os pais do homenageado (seus bisavós) sempre tudo fizeram para que o filho João seguisse a vida por Lisboa mas, o vínculo umbilical com Marvão era de tal forma forte que o puxava sempre para o ventre.
Belos tempos passámos no seu lagar e foi com ele, por sugestão do seu querido sobrinho e meu querido amigo  Dr. Sequeira Carlos, ilustre Presidente da Assembleia, que criámos juntos as Comidas d’Azeite. Foi ele que me ensinou como se fazia uma tiborna e lembro-me sempre bem da enorme alegria que sentia quando via o recinto das festas do Porto da Espada cheio de convivas bem alegres e em saudável convívio no almoço convívio de abertura desta semana gastronómica.
“Amigo Pedro: quando é que volta lá acima? Olhe que fazem cá falta homens como o senhor.”
“Amigo João, por agora fiquei vacinado. O casamento correu mal e deu divórcio ruim. Mas nunca poderei dizer que não voltarei a casar, que não voltarei a tentar ser feliz como eu quero. À política… nunca poderei dizer que desta água não beberei. O futuro a Deus pertence. Nós somos pedras num xadrez onde ele é que manda. Faça-se em nós a sua vontade. Maneiras que… se estiver no meu caminho, saberei ser homem e responder à altura. Se não… tenho tanto onde ser feliz e graças a Deus, sou tão feliz…”
Lembrei esses tempos de convivência com um homem de uma geração que já não se fabrica, que admirava muito e bateu saudades, muito por me ter lembrado do seu fim.



Homenageou-se também Vítor Caldeira que deve ser a figura mais elogiável e meritória, até porque tudo quanto leio sobre ele é do melhor que se possa imaginar. Foi reeleito presidente do Tribunal de Contas Europeu pela terceira vez, e tornou-se o primeiro presidente da instituição a cumprir um terceiro mandato, o que é prova por demais evidente das suas capacidades. Mas não só não é de Marvão, como não estava presente. Factos que no meu entender, desmontam qualquer tentativa de o “puxar” para Marvão, tirar partido de uma situação que não é nossa. Nasceu em Campo Maior. Tem ligações ao concelho por via do matrimónio mas nunca se envolveu na vida do concelho. Em tempos consultei nas finanças um livro onde era referenciado e há pouco tempo, apercebendo-me que estava em Marvão, desci para cumprimentá-lo. Apresentei-me, disse quem era e onde trabalhava (somos vizinhos) e foi simpático. Só. Quase mudo, muito tímido, não sei se consegui mais que um sorriso. Nós, os comuns mortais, temos cada ousadia... A razão desta medalha está para além do meu conhecimento. A seguir, poderia ser atribuída uma ao Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar a superfície lunar. Daqui também se vê a lua. Teria era de ser póstuma. He passed away 2 years ago. 


Mais uma tocata da banda seguida de um beberete aberto a toda a população onde os convivas se misturam entre os que tomam um drink e um canapé para celebrar o dia de festa; e aqueles que parece que fazem ali a última refeição antes de morrer, fação muitas vezes reforçada por malta turista das excursões que de passo se apercebe de um beberete e dali à festa rija é um passinho. Só falta o acordeão para ser o mega piquenicão do Continente. Ah… falta isso e o Tony Carreira.


Segui para a Igreja de Nossa Senhora da Estrela para assistir à missa da padroeira do concelho. Assim que cheguei à Santa Casa, falei com quem de direito e tive o desgosto de não poder ir almoçar com a minha tia, embora compreendendo a impossibilidade de cair no erro de se abrirem exceções. Mas a culpa foi minha. Já estive neste almoço noutro anos (onde levava sempre o meu filho Manuel Gira, aka Manél Bodes que faz anos nesse dia) e como as mesas eram tão corridas e havia sempre tanta gente que me encostei e pensei sempre que caberia mais um. Afinal, as mesas passaram a redondas, as marcações são limitadas e exclusivas a sócios. Assunto a tratar no próximo dia útil onde marcarei já (e se for preciso pagarei já) a inscrição de 2015.

A igreja estava repleta de gente vinda de todos os pontos do concelho e de fora. Lotação esgotada de prever. O homem de serviço era o próprio bispo Antonino, apoiado por diversos sacerdotes ligados ao concelho e na nave não cabia mesmo mais ninguém. Tivemos de nos sentar nos claustros, sempre reservados aos utentes, onde a visibilidade era reduzida. Curioso ter de ver dali, mas há sempre uma primeira vez. A partir dali já é sempre para a frente. Mas em 2015 também haverá ajustes a fazer: terei de vir para a apanhar antes, terei de…



 

Mas desta vez assistimos juntos e isso foi o que importou.



Incrível como uma senhora que era tão católica, tão cumpridora de todos os compromissos, sempre pontual aos domingos e aos terços, com o arranjo do “seu altar”, que não falhava a tudo quanto eram religioso e agora está ali… por estar. De vez em quando olhava para mim. Sorria. Fazia uma expressão com a cara como se não estivesse a compreender. Balbuciava qualquer coisa intraduzível. Sorria. E isso era o que importava.

E isso foi o que importou.


Manhã pesada com muita coisa para digerir. A minha preta sem chumbo e um american cigarette “olhando o mundo de lentes de contato da esplanada do café lounge em Marvão.” (Onde é que eu já vi este título?) 

Enfim, coisas de rico...