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quarta-feira, 7 de março de 2018

A forma... do amor




Neste mundo maravilhoso em que tenho a sorte de poder estar vivo, pode mesmo acontecer isto que nunca pensei que pudesse vir a ser possível, quando em criança, já vivia apaixonado pela magia da 7ª arte (porque essa é, de entre todas, a minha favorita): assistir ao filme vencedor dos óscares, consagrado há poucos dias atrás, estando deitado no meu sofá de casa, com ele a ser transmitido no portátil, no colo, à luz da lareira, tendo por companhia o Sr. Sizzle, que dormia no chão, ao lado. O Pedro menino, sabia, quando eram anunciados os vencedores, que só poderia ter a sorte de os ver num cinema, meses, talvez anos, depois. Assim foi com “O Padrinho”, “O Caçador”, “Kramer contra Kramer”, “Rocky”, ou “Gandhi”, alguns dos quais só consegui apanhar na televisão, anos depois…
A moda dos videoclubes ainda era um sonho para qualquer cinéfilo, quanto mais…

A tecnologia de hoje em dia, tornou a cultura, um fenómeno absolutamente democratizado, ao alcance de todos. Nem em ficção científica, poderia acreditar, há 30 anos atrás, que iria existir uma coisa chamada internet, que me possibilitaria assistir… a isto: ao filme vencedor de Óscar para melhor fita, em casa, à lareira, de forma gratuita, dias depois.



Esqueçam tudo o resto que há de pernicioso: este mundo, este tempo, são fantásticos para se viverem.

Quando terminou, quando a luz se apagou, a minha cabeça disse… sim.
“Primeiro estranha-se. Depois entranha-se”, como dizia o bom do Pessoa, sobre a Coca-Cola. Ele era mais absinto, mas… o refrigerante, afigurou-se-lhe assim.

Quanto ao filme… foi merecido. Trata-se de… cinema em estado puro. É uma obra digna de figurar ao lado de outras grandiosas, que figuram nessa galeria privilegiada dos melhores. Como amante que sou, não vou cometer nenhuma inconfidência de mau gosto, capaz de estragar o impacto a quem se sirva depois. Mas, de entre o que já se sabe, e já eu sabia também, posso adiantar que é uma história envolvente, enternecedora, envolta num ambiente de fábula, que me fez muito lembrar “O fabuloso Destino de Amélie”. Tudo se passa no cenário da guerra fria, onde há americanos, russos e israelitas; se estuda a ida ao espaço, e é aí (em belíssimos cenários e guarda roupas, no meio de muitas personagens carismáticas, que se desenrola uma história de amor bizarra, entre uma muda vítima da solidão, e um ser estranho, híbrido, um anfíbio com ar de humano.



O filme é um fresco impressionante, que mais parece um puzzle muito elaborado, onde nada está fora do lugar. Tudo ali é realmente bom, e bonito.
Eu quis espreitar se era um exemplar de boa qualidade, e espreitando… deixei-me arrastar para as águas profundas, e ali fiquei, com eles, nas duas horas seguintes, em total apneia.
Este momento que escolhi para ilustrar o fascínio que a fita teve em mim, recorda um momento da banda sonora original, que revela muito do que ali se passa, e retrata.


Digam o que disserem, por mais avançados que sejam os artistas de hoje em dia, por mais elaborados e virtuosos que sejam os reis do mainstream, não há forma de conseguirem suplantar esta maravilha protagonizada pela absolutamente estrondosa Carmen Miranda. Tudo ali retratado é harmonioso, simples, gracioso e perfeito.



E é neste ambiente onírico do filme, que se digladiam mundos, visões, conceitos e religiões. Que coisa é aquela?, perguntam os que o querem estudar, quem o quer amar, os que o querem roubar, quem o quer entender, os que viviam à margem da civilização moderna, que o idolatravam; que o seguiam e adoravam, pelas suas capacidades, e pelo seu pode regenerador, capaz de desafiar os limites dos demais humanos, dos filmes, e até da própria vida.  










Claro que recomento a visualização! Eu adorei viver, e crescer com ele.

E volto a reformular a minha vontade de não mais me deixar levar pela vida, ao ponto de me permitir viver tanto tempo longe dos filmes. Se eu mandasse realmente nela, duas, das 24h, eram dedicadas às imagens projetadas no escuro.

Tão bom…

Amei.











domingo, 5 de novembro de 2017

OS 8 ODIADOS E O (meu) AMADO


Este blogue instrói: clica nos links, e sabe mais... 

Se há arte que amo profundamente, é o cinema. Isto porque para mim, o cinema, ao contrário do que muitas mentes esclarecidas pensam, não é uma arte inferior à literatura, à pintura, à fotografia, ao teatro. Porque… no meu modesto entender, o cinema é, e pode ser, a conjugação de todas elas. O cinema pode ser a obra maior. Como neste caso de que vos vou falar.

Tudo isto porque ontem assisti, completamente embevecido, a espumar da boca a cada frame,  à última obra-prima do grande mestre Quentin Tarantino: os 8 odiados. Um filme de cowboys, que pretende ser uma homenagem aos westerns, mas que é muito mais que isso, porque os reinventa, e os consegue elevar a um nível, que nem os grandes mestres do género, alguma vez sonharam possível. O que eu adorava ter podido assistir a isto, sentado com o John Ford (o maior no género, atrás da câmara), e o John Wayne (o maior no género, à frente da câmara), ao meu lado.


A forma como é filmado, logo na abertura, um Cristo cruxificado, com a neve a cair, e a diligência (palco de grande parte da fita) a aproximar-se ao fundo, é um hino ao cinema, que abre as cortinas de ouro, para o que se vai passar a seguir.



O melhor de tudo do filme, é poder assistir. O vosso tio Sabi, aconselha vivamente todos vocês, distintos sobrinhitos e demais pequenada, a que disponham 2 horas e quarenta e um minutos da vossa existência, a fazerem-no. Se calçarem o MEO, comme moi, vale 3,5€. É um maço de Marlboro. E não faz tanto mal, garanto.

Todos os ingredientes de um grande filme estão lá, só que cozinhados de uma forma absolutamente magistral. Nunca mais, na minha vida, poderei assistir a um outro tamanho talento e devoção a esta arte. Esta obra (nele, sempre prima! Vai na 8ª! Devorei-as todas. Tenho todas as editadas), para além de realizada, também ela foi escrita pelo próprio Tarantino, que conseguiu aqui criar um fresco único.

Grande parte do tempo, a ação concentra-se numa diligência. É nesse espaço exíguo, onde quase tudo se começa a desenrolar, que aponto um dos únicos senãos, embora se compreenda devido às dificuldades de realização. Na viagem dentro de uma viatura destas, o barulho e a trepidação deveriam ser tantos, que mal se deveriam compreender as conversas, quanto mais.


Uma tempestade enorme de neve que se aproxima, um caçador de recompensas com dinheiro a haver, ainda com vida, a seu lado; e encontros com personagens diversas, todas mirabolantes, levam-nos a um mergulho profundo, naquilo que é a natureza humana. Com uma inteligência assombrosa, e um tato singular, Tarantino vai construindo uma filigrana de emoções, que são a mais pura delícia para um amante de cinema.


Eu cresci com os Westerns. Naquela altura, em que eu estava a aprender a crescer, e a viver, quando a televisão portuguesa viva em dois canais pobres, que encerravam com miras técnicas, em horários absurdos; quando a única animação era a do Tio Vasco Granja (toda ela estranha, algo absurda, e a cair para os países do leste da Europa), e os filmes eram poucos e maus; a televisão espanhola (que bom que foi nascer junto à fronteira!) que se captava “de maravilha!” (como eles dizem), foi um bodo aos pobres! Eram belíssimos concursos (“1,2,3”, com a simpatiquíssima Mayra Gomez Kemp), eram os programas de variedades (Aplauso!), era o entretenimento infantil digno desse nome (Bola de Cristal), e as enooooorrrrmes sessões de coboiada, tantas tardes e noites, sentado na sala com o meu pai, que os comia a todos.



Mas nesse tempo, a memória que tenho dos westerns, era que eram lineares. Tinham paixões, muito amor e ódio, mas eram fitas onde as personagens estavam tão tipificadas, à partida, que se conseguia logo perceber quem eram os bons, e os maus. Os rapazes das vacas, que as acompanhavam em busca de paragens mais férteis, de acordo com as estações do ano, faziam nessa transumância encontros com situações que faziam o coração do filme, muitas vezes ligados a uma rapariga, um mau, ou conjuntos deles. E muitas vezes, nem sequer eram os peles-vermelhas, esses desgraçados, sempre tão mal desenhados, quando na verdade, foram os primeiros povos naquelas paragens, vivendo num equilíbrio total, de respeito e cooperação, com a mãe natureza. Os filmes da cóboiada, bem como os livrinhos de bd, eram mais para passar o tempo divertidos.


Tarantino eleva o género como eu nunca imaginei possível. No meu tempo, nesses filmes, um bacano dava um tiro, e o outro caia. AAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHH… tarús, para o meio do chão, com uma nuvem de poeira a levantar-se. Fosse a que distância fosse. Daí as nossas brigas de miúdos, quando brincávamos nos canchos da Beirã, aos cóbóis, de um dizer, do alto de uma rocha:
- Estás morto!
- Não estou não! Passou ao lado!, respondia o outro.
- Isso foi à bocado! Esta foi mesmo em cheio!
E por aí fora, até se fazer de noite.
 Agora, com Tarantino, as coisas ficam como devem mesmo ter sido na realidade. Levar um tiro de pistola, a pouco mais de 1 metro da cara, deve mesmo meter tudo a dentro, ou fazer voar a cabeça, como ele mostra agora. Um banho de sangue, como já vai sendo nesta sua revisitação ao estilo, como já foi em DJANGO 


Depois, os murros são tão violentos… mesmo numa mulher!, que a atiram da diligência abaixo, com o caçador de prémios algemado ao seu braço. Eles escarram, eles arrotam, eles têm os dentes… não branquinhos, como os de um ator de Hollywood, mas como deveriam ser os dos cowboys: todos sujos, quando se riem, e deixam ver a boca.


Dos atores, todos de altíssima gama, muitos deles já habitués do mestre (PulpSamuel L. Jackson), Reservoir Dog Tim Rooth, Kill Michael Madsen Bill), os meus destaques vão para os que creio que estreantes, ou recentes na relação: fabuloso Kurt Russel, o veterano Bruce Dern (pai da sua Wild at Heart Laurinha Dern), e a absolutamente fantástica Jenniffer Jason Leigh.



No final, a gente recosta-se para trás e suspira. Porra! Que granda película!

Como o aluguer da minha operadora dura 48 horas… vou ter de rever algumas partes, sobretudo no final, para segurar algumas pontas, que tenho por aqui ainda sem estarem bem firmes, para tentar perceber a brilhante genialidade da coisa.

Tarantino: Obrigado por existires ao mesmo tempo que eu! És GIGANTE! Quais outros realizadores, quais quê! Há-os mas…




sábado, 11 de março de 2017

“Moonlight”, a crítica cinematográfica ao melhor do ano por Ti dROCAS Sabi

(óscar para melhor filme de 2016)

“À luz da lua” dizem que os pretos são azuis. É verem o filme, e confirmarem.


Importantes notas introdutórias:

1.    Sempre detestei os gajos que contavam o fim dos filmes, dos livros, ou das histórias, em geral. Se for esse o caso e ainda não tiveres visto a película, aconselho-te a bazar. Depois não digas que não te avisei. É aborrecido. Eu estou numa mesa de café, a contar, e só cá se senta a ouvir, quem quiser.

2.    Isto tem por aqui um linguajar que não se aconselha a jovens, ou a pessoal que leia as historinhas do Tio Sabi, em lares e instituições de solidariedade. Não mete muitas c******das, mas é ofensiva. Porque o filme também o pode ser.


Isto que vivi ontem, aqui no meu sofá, é mágico. Poder ver o filme que foi escolhido há semanas, como sendo o melhor do ano para a Academia, sentado em casa, é um prazer indescritível. Os computadores pessoais (que bem me lembro de aparecerem, como mais um eletrodoméstico), a internet, e o tanto que ainda estará para vir, não deixaram que nada fosse como dantes.

O vosso Tio Sabi não inveja quem tem o hábito de leitura, mas inveja muito quem tem tempo para ver filmes, porque ele não tem. E ontem não viu o filme nas condições que realmente gosta, no escuro, a assimilar e pensar, a curtir o que via. A luz estava acesa, uma tinha na televisão uma coisa de que gostava, a outra estava a namorar com o telefone, e a sorte foi que a terrorista nº 1 estava na reserva dos avós. Por isso, mesmo assim, vi.

Levava já um certo preconceito, devo confessá-lo. Sabia mais ou menos que o filme tratava de homossexualidade entre negros. Um amigo meu comentou na net que, na sua opinião, se tratava de uma grande obra, que merecia ser vista. E há aquela sobejamente conhecida história do fadista João Braga que, numa de marialva, aproveitou para criticar que para a academia, não bastava serem pretos, senão ainda por cima, paneleiros.

Chamo pretos porque também, e não lhes levo a mal, se me chamarem a mim, branco. Não é pejorativo. É a constatação de uma realidade. Cada um, é como cada qual. Não sou mais, nem menos. Sou assim.

O filme ficou marcado também, pela célebre troca de envelopes, em que, por longuíssimos minutos, o La La Land, lhe roubou o lugar (reposto de imediato, nos segundos seguintes), e por um discurso absolutamente trepidante da atriz Viola Davies, secundária, que estava a falar e parecia que estava a ler.

Começo a ver a fita e durante largos, longos minutos, custou-me a assimilar, absorver. Não se passava nada de extraordinário, que justificasse um enredo.

Miúdos muito miúdos, comparações entre sexos, típicas daquela idade e um pretinho com um andar assim pró esquisito, que se revelava diferente. Muito bullying dos colegas na escola e a constatação de ser um caso à parte.


Entretanto, é “apadrinhado” por um drug dealer que lhe acha piada e lhe dá o amparo que a mãe, drogadíssima de crack, não lhe consegue dar, de todo.


Por estas alturas, já eu tinha de fazer um esforço do catano, para conseguir ver até ao fim porque… o filme não prende, não puxa, não agarra. Aquilo é um arrastar de sofrimento sem explicação, por vício e desejos alternativos. Se a Academia, que é quem mais percebe da coisa, o escolheu, tens de o mamar, salvo seja.

Depois o puto, já na escola, topa um colega a afiambrar uma pequena. Colega esse que vai ser depois importante no seguimento da história. A dada altura, encontram-se os dois numa praínha à noite e percebem que se curtem. Que estão na mesma onda. Eu sempre a pensar: se começam aos melos, não estou para estar para aqui a aturar isto. Mas não. Foi só festinhas e, pelos vistos, acho que lhe tocou uma secóvia. Uma masturbação, vá! Pelo menos, limpou-se à areia. Uma cena muito poética.


Na escola, era os putos sempre a apertarem e a gozaram com o Little (quando era pequenino), ou Chiron, como o chamavam quando já era adolescente, por ele ser esquisito, mas há um dia em que lhe salta a mola, e se “amanda” para cima de um de rastas, que é reles como as cobras. Bem… espeta-lhe um tareião que o mete na prisa. Vai para o xilindró. Como não tem ninguém… está feito.


Depois o tempo passa e o gajo aparece já como sendo mano, o cota, um dude, um man. O que é que ele faz? Trabalha numa bomba de gasolina? Num supermercado? Não! Vende a droga, que é o mundo em que sempre se moveu. Tem um cabedalorro do camandro. Brinco na orelha, uma touca de estilo nadador e uns músculos do cacete. Mesmo muito musculado. 


Muda de cidade para cidade, conforme manda a rede onde está metido e eis que senão quando, já não me recordo bem como, o miúdo que teve uma cena com ele, lhe liga. Já o não sei bem meter de pé, salvo seja, nem sei bem como é que soube o número, mas falaram. Disse-lhe o amigo… colorido… que um gajo chegou ao café da beira da estrada onde trabalha, meteu uma moeda na Jukebox e tocou um tema que o fez lembrar dele.


Por isso quis saber dele, procura-lo. E o outro foi ter com ele. Na América, nos filmes, tudo é perto. Encontraram-se no café, jantaram e foram os dois para o quarto, onde ele morava. Aí, o Sabi pensou: “queres ver que é desta que mando isto abaixo?”


Mas não. Foi muito íntegro, só com os dois no quarto, e ele faz-lhe a revelação de que foi o único o homem que o tocou. E assim… encerra o filme.


Pergunta óbvia que me martela na cabeça: só isto?!?!?!? Mas ficou tudo doidão, ou quê? Mas sou eu que me tornei um calhau com olhos, ou a malta da academia, composta por mais de 6.000 membros, de 36 países, passou-se de vez?

Epá… se é só isto, eu também faço um comentário: cagou-se, Helena!

Ai tá de intelectual, tá!

Quando alguém muito evoluído me perguntar o que achei, responderei: chorei. Pra estudar a reação. Se for má, digo… “chorei mas de… de alegria!”

Maneiros que esta… quizomba… vai passar a figurar entre estes ilustres:

O Padrinho (icónico, um dos…)

Voando sobre um ninho de cucos (Milos Forman com o melhor Nicholson)

O caçador (fabuloso De Niro)

Gandhi (quando os filmes ensinavam. Enorme Ben Kingsley)

Amadeus (e a música clássica mudou de fugura)

África minha (romance épico de Meryl Streep e Robert Redford)

Platoon – os bravos do pelotão (Um Stone que se revela)

O último imperador (O oriente por Belucci)

Encontro de irmãos (Grandes Cruise e Hoffman)

Danças com Lobos (Costner rescrevendo a história da América)

O silêncio dos Inocentes (Jonathan Demme, Foster e Hopkins, nO hino)

Imperdoável (Eastwood reinventando os westerns)

A lista de Schindler (Spielberg fazendo contas com o passado)

Forrest Gump (A América revista pelos olhos de um puro)

Braveheart (Mel Gibson faz história, da Escócia e do homem)

Titanic (as bilheteiras e a história num casamento perfeito)

A paixão de Shakespeare (Quando a ilha abalroou o continente)

Beleza Americana  (retrato dos EUA, nesse então)

Gladiador (uma homenagem à escola clássica)

Uma mente brilhante (Biopic com Crowe, que volta a brilhar)

Million Dollar Baby  (Eastwoood volta a marcar)

Quem quer ser bilionário? (Pegando na realidade)

Estado de Guerra (Ela, em direto) 

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Contrabando na(s) Periferia(s)


Era a sessão de abertura do “Periferias”, o Festival Internacional de Cinema de Marvão e, agora, o de Valência de Alcântara também (já na sua 4ª edição). Eu tinha de estar presente. Não para aparecer no Jet 7 da porcalhota, mas porque o documentário inaugural que teria a sua estreia nacional, versava uma temática muito nossa, e por isso também muito apelativa: o contrabando.


Uma vez que iria só, pensei em convidar a minha mãe, que adora estas temáticas e por certo alinharia. Rumamos assim bem cedo e logo após o jantar para evitar atrasos e constrangimentos diversos que poderiam obstar a que fosse uma noite bem passada, como por exemplo, não termos um sítio confortável para sentar, pensando sobretudo nela.


Chegámos quando faltavam 10 min para as 9 h e deu tempo para sondar o terreno, fazer os cumprimentos queridos; um ou outro circunstancial e tempo ainda para virar a cara (o que dá o tal prazer especial) a quem tudo beija, mesmo que seja num funeral, que em tempo de guerra não se limpam armas.

Antes de dar largas ao teclado e à minha verve escorreita, que louva sempre o que é bem e zurze no que é mal, tenho de começar por dar os parabéns à bela, simpatiquíssima e doce Paula Duque Giraldo porque é ela a mola que faz tudo girar em torno desta mostra cultural. Quando se está à frente seja do que for, de vez em quando as pessoas têm a sorte de sem saberem ler, nem escrever, nem nada terem feito para algo acontecer, lhe aparecerem assim estes diamantes como ela a pedirem que lhe possam dar alguma margem para que possam brilhar por nós todos.

Pelo que conheço da Paula, das poucas vezes que tivemos possibilidade de trocar algumas impressões, já me apercebi que tem um background imenso nesta área de cinema, sobretudo o tipo curtas/documentários e de cariz independente. Vai daí, com os seus conhecimentos da arte e da área, tudo tem remexido e esgravatado para levar avante esta sua ideia quase que Quixotesca de ter uma mostra deste tipo em Marvão. A ela e antes mais que a nada, nem ninguém, os meus muitos parabéns!


Notem bem que as observações que irei fazer não são para criticar objetivamente nada, nem ninguém mas são… observações. Isso mesmo. Observações. Daquelas que visam o melhoramento e não para deitar abaixo seja lá o que for.

O festival seria para começar às 9h. Nestas coisas há sempre um ou outro atraso, normal. Ora entre discursos circunstanciais e agradecimentos diversos, perdemos 1 hora. Leram bem. 59 longos e eeeeeeexxxxtttteeeeeeeeeennnnnnssssssooooooosssssss minutos, mais um. Falou o alcalde de Valência, um cachopo novo mas com óbvio treino político e pareceu-me que com menos sinceridade e veracidade do que aquela que eu gosto mesmo.
Falou também um rapaz que não me consegui aperceber muito bem quem era, mas creio que era alguém ligado ao cinema ou aos fundos que suportam a iniciativa e depois falou o presidente da câmara de Marvão que, com o seu estilo absolutamente marcante nos abrilhantou a sessão em cerca de 15/20 minutos de estilo livre, isto é, sem recurso a qualquer cábula ou guia orientadora. O que se traduziu numa brilhante viagem pela temática dos “Direitos Humanos” que é a linha que une todas as obras que serão envolvidas no festival. Ou seja, enquanto toda a gente se preocupa em devorar os filmes, este homem vai mais longe e na sua visão clarividente, mergulha no verdadeiramente fundamental, sem sequer passar cartão aos relógios que isso é coisa para os comuns mortais que se preocupam com tudo o que não interessa.

Falou a Paula, que estava visivelmente satisfeita por, tudo aquilo em que há tantos meses tem andado a trabalhar, se ter tornado finalmente realidade, e Paulo Vinhas Moreira, o jovem realizador da obra que não a deu como sendo algo que esteja fechado, confinado, concluído, mas sim como uma narrativa permanentemente em construção num país com fronteiras tão extensas, onde a interação entre estes dois povos que estão dos dois lados da fronteira está em permanente reconstrução.

A projeção aconteceu no edifício da Alfândega dos Galegos e aquele sítio é, para mim, um sítio muito especial. Carregado de memórias de tardes em que a ida a Valência com as tias e os pais, aos sábados à tarde, era uma garantia de felicidade, não foi fácil lá voltar. Dá sempre medo quando a gente regressa ao passado. Parece que aquilo tem vida própria e ganha mais, perante nós. Do contrabando, recordo sempre os ralhetes que o meu pai nos dava e os pedidos que nos fazia para não trazermos nada que não fosse permitido, tal era o medo que tinha dos seus amigos guardas (fiscais e civis, porque trabalhava com ambos os lados no seu serviço de ajudante de despachante) o apanhassem. Medo vão, digo eu agora que penso nisso, porque os espanhóis nunca revistavam nada e diziam sempre “Halá Juan! Hasta pronto!”, e os portugueses, igual.


Sobre o filme, o documentário… a recolha de imagens é belíssima, a poesia visual muito por causa da fotografia é um portento. O som… foi miserável. Execrável. Inexplicável como é que se permitiu que aquilo acontecesse. Mas será que ninguém testou os aparelhos para ver qual era a qualidade sonora? Aquilo foi ao ponto de grande parte dos 45 minutos da projeção não terem sido audíveis. O que me safou foram as legendas em inglês para ir apanhando a coisa, nunca com a graça que teria a audição do original.

Mesmo que dissessem “ai mas a sala cheia, muda muito o som e só agora se poderia testar com essas condições…”
Tudo bem. Mas é que não se percebia peva! O Ti Manel da Relva já tem uma forma de falar muito própria e antiga mas ali… zero.

Muito difícil. Aquele documentário num bom ecrã, uma boa sala escura e um bom sistema sonoro, deverá ser uma experiência bem diferente.




O destaque vai inteirinho para o Zé Manel pedreiro dos Galegos, o irmão do João pequeno, que deu um verdadeiro show de bola quando contou as histórias do seu pai, um industrial do contrabando! Tal era a dimensão e a prosápia! O som aí, creio que por indicações da Paula, melhorou bastante. Porque houve uma altura em que dialogavam, um português e um espanhol que, não se percebia um cacete.

Nas estradas onde corro... sempre a pensar nisso...

E foi este homem Zé Manuel que, para fechar o documentário, dizendo que nem sequer conseguia explicar isso, abordou, à sua maneira, o fim do contrabando e a abertura das fronteiras, como uma coisa que nem se consegue explicar…

Como o espaço Schengen e a abertura das fronteiras, acabou-se com tudo, com aqueles negóciozecos em que numa viagem os duas daquelas se conseguia tirar, o que não se conseguia tirar em todo o dia de trabalho da terra.

Viagens loucas naquele jogo do gato e do rato, tão bem contadas pelo bom do Zé Manuel, naquela altura “em que um gajo tinha de andar tanto em forma que nem sequer havia colesterol”.

Para terminar, o fim da fronteira e o fim de tudo. O fim da minha Beirã, com imagens dela a serem as últimas a serem projetadas, e o escritório do meu pai, o escritório da minha mãe, e o fim do Pedro pequenino que teve de crescer para ajudar; e eu a ver aquilo sem conseguir chorar.




Deveria aliviar.