
Passei a noite em sobressalto e sei que acordei mais nervoso que ela, neste seu primeiro dia de escola. O primeiro dia de escola. Ainda ontem me fitava com os seus olhitos castanhos encandeados pela luz branca da sala de partos, enroladinha na toalha, a deitar fumo e a cheirar ao ventre da mãe; e já hoje, de mão dada, me acertava o passo para se certificar que era mesmo o direito a ser o primeiro a pousar do lado de lá da porta de entrada da sala de aulas.
Por ter nascido em Dezembro, sempre nos convencemos que não seria por ter nascido 3 meses para além do início das aulas que iria ficar quase um ano à espera de entrar. Sempre pensámos que iria começar com 5 anos, um pouco mais cedo, portanto. Hoje estou convicto que foi uma decisão acertada porque assim acompanha os colegas de sempre da Pré e porque seria difícil aguentá-la ali mais um ano, presa a um modelo que já não era capaz de dar resposta à sua ávida curiosidade e ao seu desejo de conhecer as letras e os números, à sua vontade de saber ler e escrever.
Tivemos a sorte de apanhar um professora experiente e dedicada que muito provavelmente os vai acompanhar ao longo de todo o ciclo. No seu discurso de apresentação não escondeu que não concordava com o facto de alguns deles serem tão pequeninos e estarem já a entrar para um mundo onde têm que crescer à força e à custa das suas próprias responsabilidades.
Estremeci por dentro ao ouvir as suas palavras. Teria razão? E comecei a fazer contas de cabeça. Tendo nascido em Junho e entrado em Outubro, acabei por entrar quase 1 ano depois dela, e a verdade é que esse ano não me fez falta nenhuma quando acabei de estudar. Perdi-o em empregos onde tentei à força agarrar-me. Acabou por ser dispensável e antes de entrar para a escola, soube-me tão bem tê-lo do meu lado.
Acho que fui assolado por um certo remorso que só consegui acalmar à custa de pensar que está onde ela quer. A fazer o que ela quer.
Subi as escadas para a sala e deixei a mochila e a caixa com o material que a mãe preparou com tanto carinho, num lugar bem próximo da professora, onde a sua tagarelice pudesse ser vigiada e apaziguada.
A sala estava vazia e aquele cheiro a escola, que se entranha na roupa e nunca mais se esquece, recordou-me que a minha verdadeira e mais secreta vocação nunca saiu daquele local tão especial.
No pátio aguardamos a hora de entrada e segui-a ao longe com o olhar. Apanhei-a em plena ameaça quando se dirigiu a uma mais velha e lhe chamou “parva”, assim, com as letras todas. Corri para ela e perguntei-lhe o porquê de tão estranho comportamento. “Ó pai, ele disse-me que o meu vestido é curtinho e para mais, nós já discutimos no outro dia na Ludoteca!”. Nisto avança para a outra, impávida e serena e disse-lhe de dedo em riste “e eu não sou tua amiga, ouviste?”, virando costas no segundo seguinte. O riso amarelo e conivente na cara da visada fez-me pensar que haveria ali umas contas a ajustar e afastei-me.
Já na sala, foi altura de uma pequena reunião com os pais a tempo para os últimos conselhos. Como vinham da Pré, no piso de baixo, pareceram todos ambientados e não houve choros. As mães, sorridentes, confidenciavam entre si e preparavam-se para sair. Reparei então que era o único homem. Aproveitei para lhe dar o último beijo e lhe desejar boa sorte. Ainda bem que não repararam em mim. Segui no final da fila, atrás da conversada geral e só fui surpreendido na porta de saída pela responsável do 1º ciclo no Conselho Executivo, a Professora Guida, que sorriu quando olhou para mim, presumo que denunciado pelos olhos que não conseguiram esconder o que me ia por dentro. Experiente, disse-me: “Sempre é um marco, não é Pedro. É normal. É a vida”. Eu disse-lhe que sim e segui apressado para o carro. Tenho umas gotas para a alergia em casa que deixam os olhos branquinhos num minuto.
Não sei explicar muito bem mas acho que sei sentir quando este barco que é a nossa vida muda de rumo, roda as velas e entra em nova rota. Ao longo da minha, por diversas vezes tive a percepção que ia dar um passo sem volta atrás e que nada voltaria a ser igual.
Hoje senti-o por ela. Não quero ser dramático, mas acho que este é que é o primeiro dia do resto da sua vida. Até aqui, poucos passos eram dados sem nós. Presumo que a partir de agora, começa a depender só de si, a trilhar o seu próprio percurso.
Deve ter sido por isso que por incrível que pareça, me disse anteontem que tinha medo de falhar, de não saber. Por muito que lhe explicasse que a escola servia para isso mesmo, para ensinar e aprender, de nada lhe valeu.
A partir de agora e mais do que nunca, terá de saber por si.
Boa sorte, pequena! Boa sorte mesmo!
Por ter nascido em Dezembro, sempre nos convencemos que não seria por ter nascido 3 meses para além do início das aulas que iria ficar quase um ano à espera de entrar. Sempre pensámos que iria começar com 5 anos, um pouco mais cedo, portanto. Hoje estou convicto que foi uma decisão acertada porque assim acompanha os colegas de sempre da Pré e porque seria difícil aguentá-la ali mais um ano, presa a um modelo que já não era capaz de dar resposta à sua ávida curiosidade e ao seu desejo de conhecer as letras e os números, à sua vontade de saber ler e escrever.
Tivemos a sorte de apanhar um professora experiente e dedicada que muito provavelmente os vai acompanhar ao longo de todo o ciclo. No seu discurso de apresentação não escondeu que não concordava com o facto de alguns deles serem tão pequeninos e estarem já a entrar para um mundo onde têm que crescer à força e à custa das suas próprias responsabilidades.
Estremeci por dentro ao ouvir as suas palavras. Teria razão? E comecei a fazer contas de cabeça. Tendo nascido em Junho e entrado em Outubro, acabei por entrar quase 1 ano depois dela, e a verdade é que esse ano não me fez falta nenhuma quando acabei de estudar. Perdi-o em empregos onde tentei à força agarrar-me. Acabou por ser dispensável e antes de entrar para a escola, soube-me tão bem tê-lo do meu lado.
Acho que fui assolado por um certo remorso que só consegui acalmar à custa de pensar que está onde ela quer. A fazer o que ela quer.
Subi as escadas para a sala e deixei a mochila e a caixa com o material que a mãe preparou com tanto carinho, num lugar bem próximo da professora, onde a sua tagarelice pudesse ser vigiada e apaziguada.
A sala estava vazia e aquele cheiro a escola, que se entranha na roupa e nunca mais se esquece, recordou-me que a minha verdadeira e mais secreta vocação nunca saiu daquele local tão especial.
No pátio aguardamos a hora de entrada e segui-a ao longe com o olhar. Apanhei-a em plena ameaça quando se dirigiu a uma mais velha e lhe chamou “parva”, assim, com as letras todas. Corri para ela e perguntei-lhe o porquê de tão estranho comportamento. “Ó pai, ele disse-me que o meu vestido é curtinho e para mais, nós já discutimos no outro dia na Ludoteca!”. Nisto avança para a outra, impávida e serena e disse-lhe de dedo em riste “e eu não sou tua amiga, ouviste?”, virando costas no segundo seguinte. O riso amarelo e conivente na cara da visada fez-me pensar que haveria ali umas contas a ajustar e afastei-me.
Já na sala, foi altura de uma pequena reunião com os pais a tempo para os últimos conselhos. Como vinham da Pré, no piso de baixo, pareceram todos ambientados e não houve choros. As mães, sorridentes, confidenciavam entre si e preparavam-se para sair. Reparei então que era o único homem. Aproveitei para lhe dar o último beijo e lhe desejar boa sorte. Ainda bem que não repararam em mim. Segui no final da fila, atrás da conversada geral e só fui surpreendido na porta de saída pela responsável do 1º ciclo no Conselho Executivo, a Professora Guida, que sorriu quando olhou para mim, presumo que denunciado pelos olhos que não conseguiram esconder o que me ia por dentro. Experiente, disse-me: “Sempre é um marco, não é Pedro. É normal. É a vida”. Eu disse-lhe que sim e segui apressado para o carro. Tenho umas gotas para a alergia em casa que deixam os olhos branquinhos num minuto.
Não sei explicar muito bem mas acho que sei sentir quando este barco que é a nossa vida muda de rumo, roda as velas e entra em nova rota. Ao longo da minha, por diversas vezes tive a percepção que ia dar um passo sem volta atrás e que nada voltaria a ser igual.
Hoje senti-o por ela. Não quero ser dramático, mas acho que este é que é o primeiro dia do resto da sua vida. Até aqui, poucos passos eram dados sem nós. Presumo que a partir de agora, começa a depender só de si, a trilhar o seu próprio percurso.
Deve ter sido por isso que por incrível que pareça, me disse anteontem que tinha medo de falhar, de não saber. Por muito que lhe explicasse que a escola servia para isso mesmo, para ensinar e aprender, de nada lhe valeu.
A partir de agora e mais do que nunca, terá de saber por si.
Boa sorte, pequena! Boa sorte mesmo!











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