quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Roadbook Pessoal


Começou como se fosse uma brincadeira mas a verdade é que correr se está a tornar em algo que é muito mais do que um hobbie. Pode até estar a tornar-se numa verdadeira paixão. Actualmente é uma das actividades que me faz sentir melhor, que me dá mais prazer, que me faz sentir mais vivo. Correr purifica o corpo, tonifica a alma, liberta-nos. E não há nada como quando chega aquela hora da tarde em que me desligo do mundo, me ligo a um bom novo disco no ipod e saio por aí fora montado nas sapatilhas.

Há tempos havia um anúncio publicitário da Nike em que diversas pessoas, de ambos os sexos e de todas as idades, corriam nos mais diversos ambientes, sob diferentes condições climatéricas. A câmara captava-os sempre a correr, no campo ou na cidade, em alcatrão ou estradas batidas, ao sol e à chuva. Sempre em silêncio. No final do filme, apenas uma pergunta: “You did a run today? Or you didn´t?” (Fizeste uma corridinha hoje? Ou não?). Extremamente simples e eficaz, com uma poderosa imagem de marketing por trás, como se uma corrida fosse a única coisa que verdadeiramente interessava fazer durante o dia. Se a nossa resposta fosse negativa, ficava um certo sabor a derrota na boca.

Correr é muito mais do que apenas fazer desporto. Correr também pode ser uma terapia que funciona à medida das nossas necessidades. Nos dias em que o físico está mais em baixo e estamos mais cansados, corremos apenas para conseguir chegar ao final. Nos dias em que o stress e o nervosismo apertam, corremos para nos libertarmos das toxinas do mundo moderno, para aliviar a carga. Nos dias em que nos sentimos integrados e bem dispostos, com a moral em alta, corremos para nos desafiarmos, para estabelecermos novos limites, novos tempos. Corremos para nos pormos à prova.

E depois, no final, há o duchinho retemperador, o jantarinho à maneira, um serão agradável e uma boa noite de sono.

Correr devia ser um acto de higiene pessoal, como tomar banho e lavar os dentes.

E o prazer, meus amigos, ou os simples prazeres da vida, como quando corremos ao anoitecer e umas gotas de chuva nos desafiam, enquanto ouvimos baixinho nos auriculares um dos discos do momento.

Nas minhas corridas invento circuitos e entretenho-me a dar-lhes designações. O circuito da “volta de casa”, com 6 quilómetros mais 750 metros, usualmente percorrido em 40 / 45 minutos, tem uma parte que eu gosto muito, à qual chamo “Pequeno Dakar”, lembrando o rally, por ser um troço sinuoso de terra batida, com muitos calhaus e altos e baixos. No final do “Dakar” há uma subida acentuada que é a parte mais difícil de todo o trajecto. Junto a essa subida há uma casa e perto dessa casa há um cãozito que vive num bairro de lata.

Eu digo que é um bairro de lata porque o animal vive literalmente dentro de um enorme bidon ferrugento, estrategicamente colocado com a entrada virada para a via de passagem. È um bairro de lata algo incaracterístico porque é unifamiliar e unipessoal. Só lá vive o pobre animal.

Terrível, o gajo! Não há uma única vez que por ali passe que não me ladre como se o mundo fosse acabar já amanhã. Tem uma corrente enorme presa à coleira que traz ao pescoço e esforça-se sempre por me alcançar, em vão. Não chega cá!

Nunca lhe fiz mal, mas o animal não se controla e salta enfurecido na minha direcção assim que me vislumbra. Quando ainda nem cheguei ao cimo da etapa de montanha, já ele se prepara para atacar, instigado pelo som dos meus passos. Às vezes vou bem disposto e meto-me com ele. Às vezes mostro-lhe a língua, outras faço-lhe uma careta. Outras apenas passo indiferente. Algumas vezes corro na sua direcção e faço-lhe uma finta bem apertada. Noutras iludo-o e volto-me para trás, fingindo persegui-lo só para o ver ir a fugir para o barraco com o rabo entre as pernas.

Juro que nunca lhe fiz mal e já faz parte do percurso saber que o encontro lá.

Mas a verdade é que o gajo é ruim e faz cara de mau e até estava capaz de apostar que de certeza que pensa na sua cabecita peluda, de cada vez que me vê, “o quanto eu gostava de poder ferrar uma dentada nas pernas carnudas deste cabeçudo que aqui passa todos os dias!”.

Nunca lhe fiz mal, caraças!, mas o bicho incomoda-se só de me ver e é incapaz de resistir e tem mesmo de ladrar de cada vez que me vê passar.

E eu penso cá para comigo: “é engraçado, como algumas pessoas que eu conheço, são tão parecidas com os animais!”.

O Santo


Depois da terceira audição, está mais que confirmado: um dos discos de 2007 está aqui! Vibrante e arrepiante, único e absolutamente precioso: Ben Harper. Se tiverem oportunidade e se cruzarem com este disco num Modelo, num Colombo, numa loja de discos ou num programa da net, agarrem-no! Façam o que quiserem mas não o deixem fugir. Façam este favor a vocês próprios. Este homem é um mito. Este homem é sagrado. Este preto que canta com a alma do mundo todo e toca como ninguém, vai arrebatar-vos por completo. Um disco que é uma autêntica missa cantada!

E depois não digam que o Tio Sabi não vos avisou.

Já liguei para a editora e a próxima edição vai ter um selo igual ao das rádios, com a imagem do cabeçalho do blog a dizer: “O Vendo o Mundo de Binóculos do Alto de Marvão recomenda esta disco a todo o pessoal”.

Muito bom!


Podem saber mais clicando aqui!

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

De casório


Sábado passado fui ao casamento de um amigo muito amigo e eu adoro ir a casamentos de amigos assim. Há sempre malta que se queixa que os casamentos são uma seca, que se gasta montes de papel a comprar ropitas novas para não destoar na foto da praxe, que se tem de andar todo o dia apertado (elas, nos pés, com os sapatos novos; eles, no pescoço, com as gravatas), que se tem de lavar o carro no dia antes, que se tem de ir para a cabeleireira de madrugada para apanhar vez, e depois há os fotógrafos e os cameramen que filmam tudo (incluindo as figuras ébrias do fim de noite!), mais o cheque-lembrança-prenda que espeta a estocada final no orçamento do mês. Enfim… Até compreendo que haja muitas razões do lado do não, mas eu… adoro ir a casamentos de amigos. E quando são amigos assim, ainda mais.

Ser convidado é uma honra, é sinal que gostam de nós e nos escolheram para estar presentes, junto a eles, neste dia tão especial. É claro que nós percebemos logo quando é que somos convidados por arrasto: ou porque somos primos afastados, ou porque somos colegas da mulher, ou por conveniência e para bem parecer e… esses sim, são mesmo uma seca.

Mas quando são da malta cá do peito… a gente desfruta.

E eu adoro aquilo tudo, da cerimónia aos rebuçadinhos e amêndoas que distribuem no final. Adoro ir no carro em fila pirilau a tocar feito saloio pelas ruelas das terras e a pensar quando vemos quem olha: “bem feita, tu não vens!”. Adoro os organistas que conheço quase todos (sobretudo o meu amigo Nuno Cantor, o único à frente dos campeões Fernando Alves e Mana!); adoro os snacks de entrada, os longos almoços à conversa, as tardes passadas com quem vemos pouco e gostamos tanto de ver; adoro os copos d’água, os bailes tardios, a dança do “Boa Sorte!”; adoro quando partem o bolo e bebemos champanhe; adoro tudo, tudo, menos vir-me embora. Ah! E também não gosto nada de encontrar a Brigada de Trânsito no caminho, mas como é sempre a patroa que vem ao volante, bem feita! E eu a fingir que durmo no banco de trás! Ehehe.

O casamento deste sábado teve duas nuances: foi realizado pelo civil e foi de tarde. A cerimónia ocorreu na Quinta onde tudo se passou e o noivo pediu, quando a noiva chegasse, que os convidados fizessem um cordão humano por onde a princesa passasse até ao altar. Óptima ideia, plena de significado. Pai e filha deslizaram pela passadeira, distribuindo olhares e sorrisos cúmplices à medida que avançavam. O cordão ia-se desfazendo detrás deles, acompanhando-os até à mesa da cerimónia. Eu fiquei bem próximo, para poder assistir a tudo e reparei, no momento em que o patriarca entregava a filha ao noivo, que o pai estava tão emocionado que chorava. Ela, não conseguindo esconder a emoção por o ver assim, encostou a cabeça no ombro do seu mais que tudo que num sorriso nervoso conseguiu manter a compostura. Ficaram ali assim, uns segundos abraçados, até se virarem de vez.

E eu pensei para comigo, não há prova mais linda de amor de um pai, do que quando chora assim quando vê partir uma filha.

Lendo as entrelinhas...


Os multibancos da minha terra têm a particularidade genial de nunca funcionarem quando mais precisamos. É lindo! Um gajo habitua-se ao cartãozinho e vai na volta, quando precisa de arame, recorre à maquineta e… nada!

Ou nos manda ir chatear a prima mais próxima, ou diz que não tem liquidez, ou está apenas fora-de-serviço, ou está a fazer manutenção, ou está mesmo de folga sem sequer ter luz.

Mas eu reparei há dias que na máquina de Marvão, na única que ali existe, que o botão que falta é onde se carrega para saírem 100 euros. 100 euros! Não 5, não 10, não 15, nem 20! 100! E eu pensei: “isto é o sinal mais evidente que eu já vi de que a retoma económica vem mesmo aí!”.

Estive para ligar ao Sócrates para lhe dar um abraço. Mas lembrei-me que só tenho o número dele num telemóvel que perdi.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Da Guarita On Line



Aleluia! E ainda não chegámos à Páscoa! O Boletim Municipal ressuscitou e reencarnou num blog onde a malta pode saber o que é que se está a passar em Marvão. Tem vídeos e fotos e notícias, tem ligações a outros blogues, e muitas mais coisas interessantes. Tem muita informação oficial e sobre a vida associativa da santa terrinha. É bom para quem está longe, mas também para quem está perto e não quer perder pitada. É pró menino e prá menina e é GRÁTIS! Mas não oferece enciclopédias, nem dvds…

Paciência! Não se pode ter tudo.

Está em http://municipiodemarvao.blogspot.com/.

O país a ferro e fogo!


Isto está a ficar lindo, está! E lá para o Norte então, de todo em todo! Não bastava já os gorilas das discotecas andarem aos tiros uns aos outros pelo controle dos dúbios negócios da noite, como agora deram para fazer assaltos de mão armada a estabelecimentos.

A mim, quando fui para Lisboa estudar, assaltaram-me 5 vezes num mês! Pudera, morava ali ao pé da Picheleira e andava sozinho à noite por onde queria! Tive de abrir a pestana. Nos outros 4 anos, assaltos: zero!

E a coisa é assim; roubarem a carteira, os óculos, o telemóvel, o carro, a mota ou a mulher, ainda vá que não vá! Agora, ourivesarias e bombas de gasolina assim à americana, não está com nada!

E eu, que era para ir ao Norte no mês que vem para comprar uma gargantilha toda em ouro, com pedras do mais caro que há, para usar em dias de festa, já não vou!

Vou ali antes à Feira das Cebolas. Diz que há lá umas imitações belíssimas e um gajo no meio dos ciganos sempre corre menos risco de levar um tiro do que num relojoeiro de Braga.

E neste Natal, já sei o que vou dar ao Júnior, quando ele for para o Millenium: um colete à prova de balas! Bem giro!

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

A aventura de aprender...


Passei a noite em sobressalto e sei que acordei mais nervoso que ela, neste seu primeiro dia de escola. O primeiro dia de escola. Ainda ontem me fitava com os seus olhitos castanhos encandeados pela luz branca da sala de partos, enroladinha na toalha, a deitar fumo e a cheirar ao ventre da mãe; e já hoje, de mão dada, me acertava o passo para se certificar que era mesmo o direito a ser o primeiro a pousar do lado de lá da porta de entrada da sala de aulas.

Por ter nascido em Dezembro, sempre nos convencemos que não seria por ter nascido 3 meses para além do início das aulas que iria ficar quase um ano à espera de entrar. Sempre pensámos que iria começar com 5 anos, um pouco mais cedo, portanto. Hoje estou convicto que foi uma decisão acertada porque assim acompanha os colegas de sempre da Pré e porque seria difícil aguentá-la ali mais um ano, presa a um modelo que já não era capaz de dar resposta à sua ávida curiosidade e ao seu desejo de conhecer as letras e os números, à sua vontade de saber ler e escrever.

Tivemos a sorte de apanhar um professora experiente e dedicada que muito provavelmente os vai acompanhar ao longo de todo o ciclo. No seu discurso de apresentação não escondeu que não concordava com o facto de alguns deles serem tão pequeninos e estarem já a entrar para um mundo onde têm que crescer à força e à custa das suas próprias responsabilidades.

Estremeci por dentro ao ouvir as suas palavras. Teria razão? E comecei a fazer contas de cabeça. Tendo nascido em Junho e entrado em Outubro, acabei por entrar quase 1 ano depois dela, e a verdade é que esse ano não me fez falta nenhuma quando acabei de estudar. Perdi-o em empregos onde tentei à força agarrar-me. Acabou por ser dispensável e antes de entrar para a escola, soube-me tão bem tê-lo do meu lado.

Acho que fui assolado por um certo remorso que só consegui acalmar à custa de pensar que está onde ela quer. A fazer o que ela quer.

Subi as escadas para a sala e deixei a mochila e a caixa com o material que a mãe preparou com tanto carinho, num lugar bem próximo da professora, onde a sua tagarelice pudesse ser vigiada e apaziguada.

A sala estava vazia e aquele cheiro a escola, que se entranha na roupa e nunca mais se esquece, recordou-me que a minha verdadeira e mais secreta vocação nunca saiu daquele local tão especial.

No pátio aguardamos a hora de entrada e segui-a ao longe com o olhar. Apanhei-a em plena ameaça quando se dirigiu a uma mais velha e lhe chamou “parva”, assim, com as letras todas. Corri para ela e perguntei-lhe o porquê de tão estranho comportamento. “Ó pai, ele disse-me que o meu vestido é curtinho e para mais, nós já discutimos no outro dia na Ludoteca!”. Nisto avança para a outra, impávida e serena e disse-lhe de dedo em riste “e eu não sou tua amiga, ouviste?”, virando costas no segundo seguinte. O riso amarelo e conivente na cara da visada fez-me pensar que haveria ali umas contas a ajustar e afastei-me.

Já na sala, foi altura de uma pequena reunião com os pais a tempo para os últimos conselhos. Como vinham da Pré, no piso de baixo, pareceram todos ambientados e não houve choros. As mães, sorridentes, confidenciavam entre si e preparavam-se para sair. Reparei então que era o único homem. Aproveitei para lhe dar o último beijo e lhe desejar boa sorte. Ainda bem que não repararam em mim. Segui no final da fila, atrás da conversada geral e só fui surpreendido na porta de saída pela responsável do 1º ciclo no Conselho Executivo, a Professora Guida, que sorriu quando olhou para mim, presumo que denunciado pelos olhos que não conseguiram esconder o que me ia por dentro. Experiente, disse-me: “Sempre é um marco, não é Pedro. É normal. É a vida”. Eu disse-lhe que sim e segui apressado para o carro. Tenho umas gotas para a alergia em casa que deixam os olhos branquinhos num minuto.

Não sei explicar muito bem mas acho que sei sentir quando este barco que é a nossa vida muda de rumo, roda as velas e entra em nova rota. Ao longo da minha, por diversas vezes tive a percepção que ia dar um passo sem volta atrás e que nada voltaria a ser igual.

Hoje senti-o por ela. Não quero ser dramático, mas acho que este é que é o primeiro dia do resto da sua vida. Até aqui, poucos passos eram dados sem nós. Presumo que a partir de agora, começa a depender só de si, a trilhar o seu próprio percurso.


Deve ter sido por isso que por incrível que pareça, me disse anteontem que tinha medo de falhar, de não saber. Por muito que lhe explicasse que a escola servia para isso mesmo, para ensinar e aprender, de nada lhe valeu.

A partir de agora e mais do que nunca, terá de saber por si.

Boa sorte, pequena! Boa sorte mesmo!

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

O Touro Enraivecido (versão brazuca!)

Banda desenhada a ser publicada pelos Livros do Brasil.
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No Brasil se diz “escanteio”, em Portugal, “canto”; no Brasil se diz torcida, em Portugal, “claque”; no Brasil se diz “zagueiro”, em Portugal, “defesa”… e “estúpido”, Sr. Scolari? Como se diz estúpido em brasileiro?

Eu nem queria acreditar nas imagens que via ali, bem à frente dos meus olhos e em tempo real. Uma confusão no final do jogo, uma troca de palavras e o “bornal” do nosso seleccionador nacional a tentar desferir um golpe certeiro no defesa Sérvio que estupefacto com o inusitado gesto, reagiu algo incrédulo.

É uma cena completamente incrível que estamos habituados a ver no futebol da América Latina, mas nunca tendo um seleccionador nacional como protagonista.

Eu sei que vou ser criticado pelo que vou dizer mas para mim, uma selecção é como o hino ou a bandeira, é um dos valores intocáveis da nossa nação e na minha opinião, os brasileiros nunca cá tinham metido o cú. Sim, eu sei, há diversas formas de obter a nacionalidade portuguesa, e se são portugueses para umas coisas, têm também de ser para outras mas se o Tio Sabi mandasse, na selecção não jogavam. Aquilo é para o puro e duro e já está.

Lá vem o coro: “hiiiiii, o gajo! Alto nazi, foge! Aposto que é do MAN!”. Nada disso, meninas. É apenas a minha opinião. Os Decos e os Pepes e os Scolaris, se querem, que vão jogar na canarinha que aqui é para os 100% nacionais. Aquela cena dos brazucas a cantarem o hino é uma cena confrangedora. Não precisavam cantar como os Lobos da Selecção de Rugby porque esses, se escapa um dia o pé a algum e cai para a frente, dá uma dentada na perna dum fotógrafo que o rapaz nunca mais volta a andar pelo seu pé. Parecem mesmo lobos! Se o tempo de satélite acabasse, o hino ouvia-se ali nas Castelhanas, de certeza! Não era preciso tanto, mas o Deco agarrado ao peito, de olhitos fechados a sentir a letra toda… Tá bem, abelha!

Mas uma vez que já cá estão e voltando ao Scolari, aquilo foi do mais tristinho que já vi.

Foi triste porque o Sérvio jamais quis atingir o Quaresma. O que se passou ali foi uma troca de palavras e nada mais.

Foi triste porque o gajo foi mesmo à “má fila” e quis “afiambrar” o meca.

Foi triste porque não soube ser homenzinho e em vez de pedir desculpa e assumir o erro a quente, veio armado em papagaio do Tijuca, com ar brigão, para cima dos jornalistas a dizer que só queria dar “um chega prá lá ao cara!”.

Foi triste porque o homem é seleccionador nacional, Meu Deus. E um seleccionador nacional que faz uma merda daqueles não tem outra saída senão colocar o seu lugar à disposição no preciso momento em que volta a si.

Um seleccionador nacional não é um empregado da Federação como ele diz. É muito mais que isso, é o treinador dos treinadores, uma espécie de Presidente da República dos treinadores e essas pessoas, essas figuras cimeiras do nosso país não podem, no meu entender, cometer erros desta natureza e sair impunes.

Imaginemos:

Imaginemos que o nosso Sócrates é apanhado numa casa de banho do Sasha a cheirar uma linha de coca;

Imaginemos que o Tio Cavaco é apanhado a fazer festinhas nas pernitas de um jovem mancebo dos Pupilos do Exército nos jardins de Belém;

Imaginemos que o nosso Jaime Gama decide acabar a noite mais tarde e entra de braço dado na Assembleia da República com as duas ucranianas que ganhou a jogar à lerpa num convés de Santos;

Imaginemos que o nosso Pinto Monteiro é caçado às 5 da manhã na auto-estrada do Norte, a 240 km/hora, com 5,5gr de álcool na espinha e uma garrafa de uísque no banco do pendura,

Imaginemos que a Directora da ASAE é apanhada de surpresa a copiar uns dvds da prima para a filha mais nova;

Imaginemos que o nosso seleccionador nacional de futebol decide expurgar os seus demónios e más tácticas com uma pêra das antigas a um jogador adversário.

Todas estas ridículas situações, (e faço votos que o SIS não me tenha já sob escuta) são definidas no vocabulário do Monopólio como “Casa Zero” que é como quem diz, “volte à casa de partida sem passar pelo banco”.

Perante qualquer um destes cenários fellinianos, não há outro remédio senão baixar a cabecinha, meter o rabito entre as pernas e “andor!”.

O brazuca, não! O gajo é muy duro! Primeiro resistiu e agora, como nosso país é uma verdadeira comédia em 3 actos, a RTP, fazendo um serviço público directamente ligado à ETAR do Lumiar, dá-lhe um tempo de antena em horário nobre para vir pedir perdão. A Judite, coitadinha (o verniz das unhas era horrível querida! Quem é o consultor de imagem?) ali a esticar-lhe a capa para o gajo passar. O carneiro aquele, que mal sabe falar e duvido muito que de bola também pesque algo que se veja, lá pediu desculpa.

E até aposto que a grande maioria dos portugueses até se emocionou quando ele confessou que “a mulhé e uz meninuz ficaram um pouquinho chatiaduz cumigo. É! Foi muito difizil!”. Ficaram com peninha do beicinho e a coisa vai andar.

Não é que o real artista chegou mesmo a afirmar que tem fé no bom senso da Federação, que depois de analisar as imagens lhe vai dar toda a razão podendo assim continuar o bom trabalho.

Somos um país de brandos costumes e de certeza que vai tudo ficar em águas de bacalhau. A Europa é que vai mais uma vez olhar para nós e dizer, “sim, sim, gente das barracas!”.

No mínimo, ia para o gelo no minuto seguinte. Nem saia da banheira de Alvalade.

Sr. Scolari, arranje outra! Eu não sei se há ciganos no Brasil, mas o meu amigo tem de perceber que os ciganos NÃO PRECISAM DE QUEM OS DEFENDA! ELES DEFENDEM-SE SOZINHOS, CARAÇAS! Ainda se fosse o Nuno Gomes…

O que foi pena foi que o Brassard, que também lá anda a lamber os nosso euros, tenha impedido o bardo de investir. Com o tamanho do menino… tinham sido umas molas bem untadas!

Ossos do ofício

Um dos grandes aliciantes das funções que desempenho actualmente tem a ver com a enorme abrangência e diversidade do raio de acção. Tanto posso estar a atender um telefonema da Delegação Regional de Educação como a negociar no minuto seguinte, o cachet de uma bailarina de ventre para o próximo festival islâmico.

Nestas andanças, o dia pode começar extraordinariamente bem e terminar irremediavelmente mal. Há mesmo dias perfeitamente arrasadores que se viram com vitórias que já se esperavam impossíveis.

Nestas andanças, as tristezas e as derrotas são sempre elevadas ao expoente máximo e por isso mesmo, as vitórias, mesmo que pequeninas, sabem sempre tão bem.

Nunca escondo que muitos dos melhores momentos têm sido com os miúdos, nas escolas, nos prolongamentos de horários, nos passeios e nos tempos livres. Quando os vejo entrar para o Judo com que eu tanto sonhei quando era miúdo; ou aprender Inglês na 1ª classe e perceber a língua dos cantores que mais gostam; ou dar os primeiros passos no ballet; ou serem campeões de escolinhas em futebol; ou aprender um instrumento novo e ler uma pauta; ou andar de barco a motor na piscina da Portagem; ou correr para mim para me cumprimentar quando entro numa escola (Eh Pedro!); sinto um calorzinho tão bom no coração que é ali que passo a ir buscar alento quando as inevitáveis nuvens negras se aproximam. Eles são os meus heróis.

Tenho tido comigo excelentes profissionais e o meu sucesso a eles se deve também. No caso das Ludotecas e uma vez que falamos em concreto, o Professor Filipe Ferreira e as incansáveis Dora e Idalina tudo têm feito para garantirem que as nossas crianças crescem felizes. Para isso, têm também contado com a ajuda de diversas pessoas, muitas delas voluntárias ou integradas em programas ocupacionais que deram preciosos contributos.

Na terça-feira foi o dia de encerramento das actividades de Verão e o Filipe não o fez por menos, preparou uma matinée na Discoteca “A Cave”e lá reuniu as crianças das duas ludotecas. Os pais levaram os sumos, as sandes e os rissóis; a equipa da discoteca cedeu o espaço, a Ana Maria e o Reis prestaram apoio e eu, como convidado, também levei os discos da pequena e fiz uma pequena sessão de dj.

Meus amigos, simplesmente inesquecível. Eu só queria que pudessem ver a genica daqueles índios, a correrem e saltarem e gritarem e dançarem até em cima das colunas. Mas coitadinhos, como não têm noção do que é uma pista de dança, andavam por ali a rodar em tudo o que é sítio. Falaram muito uns com os outros, de vez em quando sentavam-se nos sofás, bebiam laranjada e até pediram os hits favoritos. Muito, muito bom.

Que vontade de poder esticar a mão, abri-la, fechá-la e guardá-los todos para sempre, assim daquele tamanhinho delicioso!

Eu disse à minha, “então filha, vens já ou esperas que te venham buscar?”.

“Não pai! Tu não percebes! Eu vou ficar aqui a noitinha toda, toda!”.

Já faltou mais! (Para mal dos meus pecados!)


Que será dela?

Há dias, estava eu sentado na varanda quando ouvi a Leonor chamar: “pai, pai, depressa! Anda cá ver o que eu fiz!”. Quando cheguei ao quarto, reparei que tinha colado na porta do armário, algo que estivera a fazer de tarde e que não era mais do que:



Digam lá se os filhos não são de ir às lágrimas e não valem mesmo uma vida!