
No meu forçado retiro financeiro, o meu grande contacto com o mundo é através da minha janela. Vejo passar motas e carros, senhoras a passear os lulus, pardais que brincam nos algerozes e gatos que vêm fazer xixi na minha relvinha do quintal (cabrões! Agora tenho a certeza! Juro que vou matar um à paulada!).
Da minha janela da sala, onde entra a luz e a força do dia, vejo muita coisa. Todos os dias vejo o meu vizinho, do lado esquerdo se estiver dentro de casa, do lado direito se olhar para a casa desde a rua.
O meu vizinho Luís é a personificação pura do estilo. Eu vejo-o sair de casa e penso… tenho de escrever sobre este gajo porque tem mesmo muita pinta.
O meu vizinho passa todos os dias de manhã para levar o irmão pequenito à escola e regressa pouco depois.
Deve ter para aí uns 17 anos e basicamente não faz nada.
Sai sempre de óculos escuros, penteado para trás com gel, com um bruto cigarrão meio caído ao canto dos lábios e pisa o chão com uma técnica que só me faz lembrar o Clint Eastwood nos filmes do Dirty Harry. Ele não sabe onde fica São Francisco, mas ele é uma personagem do Dirty Harry.
Classe pura!
Deixou de estudar este ano. No ano passado, andava talvez no 6º ano e os colegas dele de turma pareciam todos seus filhos. Davam-lhe pela cintura.
Certo dia fui à escola ler uns contos, a pedido do Conselho Directivo, para implementar o gosto pela leitura e li umas historinhas duns livros antigos que para aqui tenho. Os putos todos de olhos arregalados e o Luís, sentado nas traseiras, com um sorriso maroto de quem pensava: “sim, sim. Conta-me histórias”.
Os colegas meteram-lhe uma alcunha: Farrapo. Não concordo. As crianças sabem ser cruéis.
O Luís tem pinta. Os pais são boa gente, trabalhadora. Saem de manhã e só regressam à tarde ou à noite. Entretanto, ele vive por aqui. Tem fama de às vezes se portar menos bem mas para mim, sempre foi uma correcção. Olha cá para dentro e diz, sorrindo: “vizinhança!”.
Às vezes dou-lhe boleia quando vou para Marvão e o vejo a pé pela estrada fora. Conversamos um bocadinho.
Há tempos disse-me que o sonho dele era ser DJ. Acho que tem estilo porque de vez em quando bomba um trance alternativo nas colunas da aparelhagem que me mete as loiças da cozinha todas a tremer. Depois eu às vezes assobio, ou grito-lhe: “LUUUUÍÍÍÍÍS!” e ele acalma-se um pouco.
Depois disse-me que quer ser mecânico. Está à espera que abra um curso no Centro de Formação que só estará disponível em Janeiro. “E entretanto, Luís?”, pergunto eu. “Na boa!”, responde-me ele. Presumo que isto quer dizer que está tudo tranquilo.
Anda sempre de telefone colado ao ouvido. Diz-me com ar matreiro que saca umas miúdas. Eu acho que elas não sabem.
O Luís é grande e acho que também ele não sabe.
Eu é que tenho montes de inveja quando o vejo passar, fumando uma bruta cigarrada, com o ar mais descontraído do mundo, como se aquele cigarro fosse a única coisa verdadeiramente importante nesse momento. Ele com aquela liberdade toda e eu aqui feito estúpido a bater com a cabeça nos calhamaços, 9 horas por dia.
O nosso Estado paga avenças chorudas e dá subsídios a artistas malucos que não fazem nada e só respiram. Se eu mandasse, o Luís tinha uma bolsa vitalícia, só para dar um ar da sua graça às ruas desertas de Santo António.
Da minha janela da sala, onde entra a luz e a força do dia, vejo muita coisa. Todos os dias vejo o meu vizinho, do lado esquerdo se estiver dentro de casa, do lado direito se olhar para a casa desde a rua.
O meu vizinho Luís é a personificação pura do estilo. Eu vejo-o sair de casa e penso… tenho de escrever sobre este gajo porque tem mesmo muita pinta.
O meu vizinho passa todos os dias de manhã para levar o irmão pequenito à escola e regressa pouco depois.
Deve ter para aí uns 17 anos e basicamente não faz nada.
Sai sempre de óculos escuros, penteado para trás com gel, com um bruto cigarrão meio caído ao canto dos lábios e pisa o chão com uma técnica que só me faz lembrar o Clint Eastwood nos filmes do Dirty Harry. Ele não sabe onde fica São Francisco, mas ele é uma personagem do Dirty Harry.
Classe pura!
Deixou de estudar este ano. No ano passado, andava talvez no 6º ano e os colegas dele de turma pareciam todos seus filhos. Davam-lhe pela cintura.
Certo dia fui à escola ler uns contos, a pedido do Conselho Directivo, para implementar o gosto pela leitura e li umas historinhas duns livros antigos que para aqui tenho. Os putos todos de olhos arregalados e o Luís, sentado nas traseiras, com um sorriso maroto de quem pensava: “sim, sim. Conta-me histórias”.
Os colegas meteram-lhe uma alcunha: Farrapo. Não concordo. As crianças sabem ser cruéis.
O Luís tem pinta. Os pais são boa gente, trabalhadora. Saem de manhã e só regressam à tarde ou à noite. Entretanto, ele vive por aqui. Tem fama de às vezes se portar menos bem mas para mim, sempre foi uma correcção. Olha cá para dentro e diz, sorrindo: “vizinhança!”.
Às vezes dou-lhe boleia quando vou para Marvão e o vejo a pé pela estrada fora. Conversamos um bocadinho.
Há tempos disse-me que o sonho dele era ser DJ. Acho que tem estilo porque de vez em quando bomba um trance alternativo nas colunas da aparelhagem que me mete as loiças da cozinha todas a tremer. Depois eu às vezes assobio, ou grito-lhe: “LUUUUÍÍÍÍÍS!” e ele acalma-se um pouco.
Depois disse-me que quer ser mecânico. Está à espera que abra um curso no Centro de Formação que só estará disponível em Janeiro. “E entretanto, Luís?”, pergunto eu. “Na boa!”, responde-me ele. Presumo que isto quer dizer que está tudo tranquilo.
Anda sempre de telefone colado ao ouvido. Diz-me com ar matreiro que saca umas miúdas. Eu acho que elas não sabem.
O Luís é grande e acho que também ele não sabe.
Eu é que tenho montes de inveja quando o vejo passar, fumando uma bruta cigarrada, com o ar mais descontraído do mundo, como se aquele cigarro fosse a única coisa verdadeiramente importante nesse momento. Ele com aquela liberdade toda e eu aqui feito estúpido a bater com a cabeça nos calhamaços, 9 horas por dia.
O nosso Estado paga avenças chorudas e dá subsídios a artistas malucos que não fazem nada e só respiram. Se eu mandasse, o Luís tinha uma bolsa vitalícia, só para dar um ar da sua graça às ruas desertas de Santo António.









