quarta-feira, 17 de outubro de 2007

O maior da minha aldeia


No meu forçado retiro financeiro, o meu grande contacto com o mundo é através da minha janela. Vejo passar motas e carros, senhoras a passear os lulus, pardais que brincam nos algerozes e gatos que vêm fazer xixi na minha relvinha do quintal (cabrões! Agora tenho a certeza! Juro que vou matar um à paulada!).

Da minha janela da sala, onde entra a luz e a força do dia, vejo muita coisa. Todos os dias vejo o meu vizinho, do lado esquerdo se estiver dentro de casa, do lado direito se olhar para a casa desde a rua.

O meu vizinho Luís é a personificação pura do estilo. Eu vejo-o sair de casa e penso… tenho de escrever sobre este gajo porque tem mesmo muita pinta.

O meu vizinho passa todos os dias de manhã para levar o irmão pequenito à escola e regressa pouco depois.

Deve ter para aí uns 17 anos e basicamente não faz nada.

Sai sempre de óculos escuros, penteado para trás com gel, com um bruto cigarrão meio caído ao canto dos lábios e pisa o chão com uma técnica que só me faz lembrar o Clint Eastwood nos filmes do Dirty Harry. Ele não sabe onde fica São Francisco, mas ele é uma personagem do Dirty Harry.

Classe pura!

Deixou de estudar este ano. No ano passado, andava talvez no 6º ano e os colegas dele de turma pareciam todos seus filhos. Davam-lhe pela cintura.

Certo dia fui à escola ler uns contos, a pedido do Conselho Directivo, para implementar o gosto pela leitura e li umas historinhas duns livros antigos que para aqui tenho. Os putos todos de olhos arregalados e o Luís, sentado nas traseiras, com um sorriso maroto de quem pensava: “sim, sim. Conta-me histórias”.

Os colegas meteram-lhe uma alcunha: Farrapo. Não concordo. As crianças sabem ser cruéis.

O Luís tem pinta. Os pais são boa gente, trabalhadora. Saem de manhã e só regressam à tarde ou à noite. Entretanto, ele vive por aqui. Tem fama de às vezes se portar menos bem mas para mim, sempre foi uma correcção. Olha cá para dentro e diz, sorrindo: “vizinhança!”.

Às vezes dou-lhe boleia quando vou para Marvão e o vejo a pé pela estrada fora. Conversamos um bocadinho.

Há tempos disse-me que o sonho dele era ser DJ. Acho que tem estilo porque de vez em quando bomba um trance alternativo nas colunas da aparelhagem que me mete as loiças da cozinha todas a tremer. Depois eu às vezes assobio, ou grito-lhe: “LUUUUÍÍÍÍÍS!” e ele acalma-se um pouco.

Depois disse-me que quer ser mecânico. Está à espera que abra um curso no Centro de Formação que só estará disponível em Janeiro. “E entretanto, Luís?”, pergunto eu. “Na boa!”, responde-me ele. Presumo que isto quer dizer que está tudo tranquilo.

Anda sempre de telefone colado ao ouvido. Diz-me com ar matreiro que saca umas miúdas. Eu acho que elas não sabem.

O Luís é grande e acho que também ele não sabe.

Eu é que tenho montes de inveja quando o vejo passar, fumando uma bruta cigarrada, com o ar mais descontraído do mundo, como se aquele cigarro fosse a única coisa verdadeiramente importante nesse momento. Ele com aquela liberdade toda e eu aqui feito estúpido a bater com a cabeça nos calhamaços, 9 horas por dia.

O nosso Estado paga avenças chorudas e dá subsídios a artistas malucos que não fazem nada e só respiram. Se eu mandasse, o Luís tinha uma bolsa vitalícia, só para dar um ar da sua graça às ruas desertas de Santo António.

Ponto da situação


Eu gostava de escrever mais.

Eu gostava de ter tempo para todos os dias ter algo novo para dizer e até tenho.

Mas o tempo.

O tempo amola-me à força toda porque não estica e não nos deixa chegar a todo o lado onde queremos.

Encontro-me numa fase engraçada da minha vida profissional / pessoal.

Na Câmara, contam-se os dias para a Festa maior do concelho, a que consome mais tempo e mais dedicação.

Nas Finanças, fizeram o favor de me marcar a segunda prova para o concurso de subida de nível, no preciso dia de inauguração da Feira. Grande pontaria! Em 365 dias do ano, acertaram em cheio!

Assim, são 7 ou 8 códigos para estudar, que exigem um esforço extra-extra-suplementar para quem está há dois anos desviado do mundo sempre em mutação dos impostos.

Nos dias de férias que guardei para estudar, encontro-me agora retido em casa, enleado nos artigos e nos decretos e na papelada toda e o telefone e o Messenger e o mail que não param com novas situações da Feira da Castanha.

Nem num lado, nem no outro. Com um pé no Código do IRS e outro no mapa de artesanato.

Se me estranharem, não se espantem.

Nestas 3 semanas que se seguem, se precisarem de alguma coisa… passem cá por casa. Sempre ajudam a desanuviar.

A tasca do Tio Sabi


Meus amigos, meus amigos, meus amigos. Um ponto de ordem. Um abraço a todos, uma saudação e um bem hajam.

Sempre disse que este blog não era só meu. Sempre disse que ele pertencia a todos aqueles que o liam, que o frequentavam, que opinavam sobre o que aqui se passava.

É com satisfação que constato a quantidade enorme de “pardalada” (digo-o com carinho) que por aqui vem todos os dias fazer o “ninho”.

Falando em metáforas, dou por mim muitas vezes a pensar que este blog é uma taberna.

Uma taberna onde eu sou o tasqueiro que assiste à entrada e saída diária de muita clientela.

Há por aqui os clientes habituais, de todos os dias, que vêm duas vezes por dia beber café e que não perdem a oportunidade de dizer de sua justiça.

Há por aqui os que vêm ao fim do dia beber umas imperiais antes de jantar, para dois dedos de conversa com a malta.

Há os que vêm assim meio tocados e desertinhos de armar confusão.

Há os que entram e saem e nada dizem ou deixam para a posteridade.

Há os emigrantes que só vêm de tempos a tempos, na Páscoa, nas férias e no Natal.

Há os reformados que levam cá os dias.

Há os que falam, falam e… não fazem despesa.

Como alguns de vocês sabem, eu também já fui tasqueiro, nas férias da faculdade, para ganhar uns troquitos que tanto jeito davam. E sei um pouquinho do que é esta vida.

Um tasqueiro para ser bom tem de saber ouvir. Tem de comer e calar. Tem de ter o cuidado de ser certeiro quando opina.

E eu ouço-os falar.

Umas vezes apetece meter-me, outras nem por isso. Às vezes arrisco, outras entretenho-me a varrer a sala, a limpar os cinzeiros e os caixotes do lixo, a arrumar os jornais e a ordenar os canais da televisão.

Na maior parte das vezes, nada digo porque o tempo é sempre escasso e não me permite entrar nessas marés de opinião que tanto aqui gosto de ver. Mas leio. E sorrio.

Agora se me dão licença, tenho de ir ali arranjar as facturas que amanhã vem o contabilista.

Usem e abusem mas não me deixem a porta aberta que entram as moscas.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

O meio





Faz hoje precisamente dois anos, vivi uma das noites mais inesquecíveis da minha vida.

Faz hoje dois anos, ganhámos a Câmara Municipal de Marvão.

Hoje, ninguém se lembra. Ninguém parece lembrar-se. Eu sim.

Os meses que antecederam o dia 9 de Outubro de 2005 foram muito intensos, vividos numa dura e esforçada campanha política. Percorremos praticamente todo o concelho, acompanhados pelos nossos camaradas. Fizemos uma campanha limpa e de abertura. Ouvimos mais do que falámos. Evitámos as promessas e os facilitismos. Preferimos sempre a palavra ao choque.

Nessas semanas em que tive oportunidade de conhecer o concelho como antes nunca o tinha visto, vivi feliz por estar próximo das pessoas, por ver que tanta gente me reconhecia das Finanças (onde os tinha ajudado numa ou outra situação), por saber que sabiam quem eu era. O Sobreiro da Beirã. O filho do João. O filho da Alzira. O das senhoras da mercearia. O neto do Bota-Fogo. O genro do João Manuel Lança. O que está casado com a filha da Maria Jacinta. O das Finanças. O Pedro.

Cada casa era um posto, cada rua um desafio, cada localidade uma meta que era importante assegurar.

Conheci as pessoas quase todas. Comemos e bebemos com elas. Compreendemos e incentivámos.

Lembro-me que por ironia do destino, dois acontecimentos decisivos da minha vida coincidiram no mesmo fim-de-semana: o exame final das Finanças em Lisboa para subir de nível, no dia 8, sábado; e as eleições de dia 9, no domingo.

O estudo para o concurso final ficou inevitavelmente para trás, preterido pela vontade e pelo querer da mudança. O tempo para estudar era pouco ou nenhum, o cansaço e as saudades da família e de casa, do sossego do lar eram muitas. Animado pelas duas notas anteriores que me amparavam de alguma forma, confiei.

À medida que as eleições se aproximavam, sentimos que a nossa cotação subia. Passámos de chacota do poder instituído para séria ameaça a considerar. As apostas subiam. David parecia que ia outra vez derrubar Golias à primeira pedrada certeira.

Lembro-me de olhar para o calendário e pensar: as duas no mesmo fim-de-semana. Às tantas, nem uma nem outra. Quis Deus que fossem as duas. O exame com um 15. A Câmara com uma vitória retumbante por largas centenas de votos.

Desse domingo, recordo-me que acordei a meio da manhã, cansado da viagem de ida e volta à capital e do stress do exame. Andei tranquilo mas senti que o dia crescia e havia qualquer coisa no ar. Nos cafés e nas ruas, parecia que algo estava para acontecer. Lembro-me da cerveja no Carroça com o Bonito e dele sentir o mesmo.

Estava na Beirã quando começaram a abrir as urnas e por ali e pelas notícias que me chegavam pelo telemóvel, a mudança parecia certa. Quando soubemos que tínhamos a freguesia local, Marvão e o Salvador, segui para Santo António, onde o número de eleitores obriga a duas mesas e a uma contagem mais demorada. Pensei só dali sair quando fosse preto no branco.

Lembro-me de afixarem os papéis, lembro-me do silêncio de alguns e do sorriso aliviado de outros.

Embora mantivesse a calma e fosse o mais discreto possível, senti que não cabia mais em mim, que o meu corpo era limitado para conter tanta emoção.

Partimos para a Portagem onde quase todos nos esperavam na Casa Milhomens. Lembro-me de sair do carro quase em andamento, e lembro-me de tanta gente, quase uma pequena multidão a correr para mim, como se um mar de afectos estivesse pronto para me engolir. A minha Cris e a minha Leonor. As tias, sogros, cunhados, madrinha, primos, restante família, companheiros, amigos e camaradas num abraço do tamanho do mundo, maior do que o mundo pode conter.

Foi lindo de mais para ser verdade.

O trabalho começou logo nessa noite, organizando a caravana. Os carros eram mais que muitos, a rua entupiu, não tínhamos nada programado e queríamos ir a todo o lado. Agradecer. Agradecer. Fiz de sinaleiro e semáforo para que tudo rodasse como era suposto ser.

Lembro-me que na recta da Beirã, ainda havia carros na curva e já os primeiros regressavam, numa fila infinita que já tinha passado por todas as ruas. Quilómetros de carros, numa coisa que acho nunca antes vista.


Lembro-me de tantas bandeiras, tantos lenços, tantos braços abertos à janela e do discurso final às escuras, já noite longa, em Marvão.

Nessa noite ao contrário do que seria suposto, dormi mal. Acho que o fardo da responsabilidade já estava sobre mim.

Será que seríamos capazes de estar à altura de uma empreitada destas?

Digo muitas vezes em conversa que há miúdos que sonham em ir para o Benfica. O meu sempre foi chegar à Câmara. Não o nego. Para mim, seria a honra mais distinta que me podia chegar. Vice-Presidente aos 32 anos. Nem nos melhores prognósticos.

Foi um dia de muita, muita emoção.

O que se seguiu depois e até agora foi um processo que é público e notório, feito de muita ilusão e alguma desilusão, feito de grandes vitórias e algumas derrotas, marcado por um caminho que se faz andando.

Tenho como lema de vida o tentar tirar o melhor possível mesmo das coisas menos boas. A vida é uma aprendizagem contínua que não vem nos livros. Só se aprende quando a sentimos na pele. Que assim seja!

Hoje, passados dois anos, sinto que sou uma pessoa menos positiva, mais realista, menos sonhadora, mais madura e mais desencantada com as pessoas em geral. Estou mais homem, mais experiente, mais calmo e concentrado, com outro golpe de asa.

Perdi a visão naif de que no fundo, todas as pessoas são boas e acho que caí na real. Bem vistas as coisas, estou mais protegido aos golpes de rins.

Hoje sei distinguir o trigo do joio e sei o que quero de mim e do meu futuro.

Estamos precisamente a meio do mandato. A partir de agora, a contagem já é decrescente e impõe-se um balanço e uma análise ao trabalho realizado e ao que está por concretizar.

Enquanto escolhia as fotos para ilustrar este post, revi os rostos e as faces de tantos amigos que nos empurraram para cima e nos deram tanto de si e hoje estão irremediavelmente para trás. Foram ficando pelo caminho sem que lhe pudesse deitar a mão. Hoje estão longe para não saber até quando.

Há momentos em que a nossa consciência é o único bem que nos resta e é por isso que é tão importante mantê-la intacta.

Das imagens, fica já alguma saudade do frenesim que me corria nas veias.

Quanta emoção!

É pena que a vida não seja como nos filmes onde tudo se resolve e compõe.

Faltam dois anos de duro trabalho. Que nunca nos falte a força e a protecção. A bem de Marvão e de todos nós.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Inshalah!







Na descompressão do intenso fim-de-semana do 2º festival islâmico, vivo dias de profunda satisfação e de bem estar pessoal pelo êxito obtido. Mais de 7 mil visitantes, uma organização que funcionou ao milímetro e um evento que foi elogiado por quase todas as partes.

Os grupos de animação agradeceram reconhecidos a simpatia de todos os membros da equipa e foram unânimes em afirmar que foram recebidos como em poucos outros sítios no país. Gabaram a excelente cozinha local que deixou a anos-luz as cantinas manhosas e industriais de outros mega-eventos; a tranquilidade e a qualidade dos alojamentos e a beleza ímpar de Marvão.

Os artesãos deixaram bem claro no relatório final individual que a feira de Marvão é muito mais que apenas negócio. Agradeceram o respeito e a cordialidade com que foram tratados e alguns deles expressaram às técnicas que se sentiram aqui como em nenhum outro mercado no nosso país. Muita gente, bom negócio, hospitalidade e uma envolvente de encantar.

O Peter, que viajou por praticamente todo o mundo, que apresentou uma tenda belíssima e recheada de antiguidades de sonho, adquiridas nas suas viagens pelo Tibet, pela Índia e por toda a África, disse que Marvão é sem dúvida alguma, o sítio mais bonito de Portugal.

Habibi, o vivido negociante de pratas disse que ficou espantado por não conhecer “uma jóia assim” e que vai ficar para uma semana de férias, assegurou-me que vai querer voltar sempre.

Os visitantes, que chegaram aos magotes, expressaram as suas felicitações e a sua satisfação por tudo o que viram e experimentaram.

É certo que o tempo foi determinante e ajudou imenso e eu agradeço reconhecido a Deus ou a Alá ou a quem quer que seja, por essa dádiva dos céus. O meu amigo Hocein da Jaima dos chás, assegurou-me em conversa que essas entidades divinas são todas a mesma e eu não tenho porque não acreditar.

Começámos já a preparar a edição do ano que vem, tirando ao longo dos 3 dias notas dos acertos a fazer, apontando contactos de animação e novos postos, registando comentários dos nossos colaboradores.

Por falar em colaboradores. Sei que sou para muita gente, o rosto do êxito ou do fracasso nas iniciativas que coordeno. Graças a Deus e a muito trabalho, tenho recebido elogios que não quero só para mim porque dependem sempre da equipa que me apoia e sem a qual seriam absolutamente inatingíveis.

Por impossibilidade de o fazer de outra forma politicamente correcta, quero aqui expressar a minha profunda gratidão ao Hernâni (braço-direito na logística) e ao Barradas (braço-direito no terreno); à Felicidade, à Cris e à Ana Lúcia; à Lena, à Catarina e à minha prima Benvinda que se fartou de dar ao pedal e ao dedal na concepção das faixas tão bonitas e coloridas que decoraram todo o recinto; à Susana do Design (tens futuro!); ao Machado e ao Sr. João; ao meu vizinho Chaparro que materializou as portas que eu sonhei, ao Américo e aos pintores; ao Zé Henriques; ao pessoal da remoção do Lixo e em especial à Céu e à Maria João que fizeram um trabalho rápido e exemplar na limpeza do recinto.

Um agradecimento a todos, todos os funcionários que contribuíam para este sucesso, sejam eles motoristas ou operários, administrativos ou técnicos.

Um reconhecimento à minha equipa pelo voto de confiança.

Um abraço especial para o Márcio e para os seus motards que mais uma vez responderam ao apelo com simpatia e competência. È bom trabalhar com vocês.

Para mim, de tudo, tudinho, guardarei para sempre dois momentos que jamais esquecerei:

Os minutos antes do desfile inicial do primeiro dia, quando aguardava o final da conferência do Prof. Cláudio Torres e vi o Largo de Santa Maria completamente repleto de gente, com todos os grupos de animação, com as bailarinas, os músicos, os falcoeiros, os encantadores de serpentes, os artistas e os animadores infantis, num quadro vivo tão colorido quanto expressivo e incrível de poder viver ali; que terminou da melhor forma com um chá tal e qual como se bebe no deserto e um sol abrasador a bater de frente.

O espectáculo de fogo na entrada do castelo, no segundo dia, depois da magnífica actuação do grupo “Mirsalah”. Ninguém sabia ao certo ao que ia e ninguém estaria certamente à espera de assistir a uma demonstração daquela qualidade, com os demónios de outros tempos a saltarem de rocha em rocha com o fogo nas pontas das garras, com os cuspidores de fogo a pintarem as muralhas de labaredas e uma torre de menagem inundada pelos raios de luz e cor. Absolutamente inesquecível.

No último dia, já noite dentro, quando todos recolhiam a trouxa, apoderou-se de mim uma certa melancolia, uma irremediável tristeza por estar tudo a chegar ao fim. Depois de tanto trabalho, o som dos ferros a entrar nas carrinhas soa sempre a abandono. Consola-me saber que não serei certamente o único a sentir-me assim. Os sorrisos que diziam adeus e partiam pareciam dizer apenas até para o ano.

Já falta pouco, pessoal!

Cansados, mas muito, muito reconhecidos. E em paz.

Mapa do Desejo


No dia 4 foi dia de concerto em Portalegre. Confesso que a princípio a vontade não era muita. A ansiedade da véspera da “Al Mossassa” era grande, o dia tinha sido longo e de muita azáfama na montagem do mercado, as saudades de um serão em família no sofá eram muitas, sabia que os 3 dias e as 3 noites que se seguiam seriam vividas até à exaustão… mas não há nada que um bom banho, uma roupita lavada e um grupo de amigos não façam. Assim que fiz-me à estrada.

Os bilhetes tinham sido comprado há muito, pelo sim, pelo não, e fomos todos no mesmo carro, como fazíamos dantes, quando não tínhamos carta de condução.

Ah… para quem gosta de música, um concerto ao vivo é sempre uma emoção, uma adrenalina e este era especial, até para os Clã.

Disco novo, arranque da digressão nacional, regresso ao palco… muita coisa nova também para eles, a tornar tudo ainda mais único.

Embora nunca morresse de amor por eles, sempre gostei do seu som. Achei-lhes piada no “Luso qualquer coisa”, sobretudo pela frescura e pela novidade do primeiro disco. Gostei muito do “Kazoo”, muito mesmo, que creio me chegou às mãos pelas do meu irmão. No “Lustro” saltaram para um patamar qualitativo que os colocou na primeira linha nacional e os conduziu às “Afinidades” com o Sérgio Godinho. No “Rosa Carne” esmoreceram e depois dos registos ao vivo, era com grande expectativa que aguardava as primeiras músicas deste novo trabalho.

A sala não estava cheia, o que é sempre de lamentar por todos nós, portalegrenses, ainda para mais na noite em que a sala mais emblemática de todo o distrito reabriu as suas portas após obras de beneficiação.

Revejo alguns amigos do tempo do liceu, sou saudado com um toque no ombro por um outro dos meus tempos de iniciação na vida laboral, enquanto alguns dos mais recentes me saúdam ao longe com um sorriso cúmplice.

Quando as cortinas abrem de par em par, soam os primeiros acordes em palco, decorado como se de um cenário em obras se tratasse, onde sinais de trânsito e marcadores, placas e estrados coabitam com a banda.

Teclas de lado, bateria ao alto, baixo e guitarra ladeando a voz e… a Manuela Azevedo.

A Manuela Azevedo é assim algo de inexplicável.

Pensei muito nisto e em que tudo o que se seguiu e o melhor elogio que lhe posso dar é que a Manuela Azevedo dá-me vontade de ter nascido mulher.

Eu sei que isto pode dar vontade de rir e até levar a pensamentos menos claros mas peço que não me interpretem mal.

É que eu nunca vi um homem, fosse que homem fosse, fosse o maior playboy ou sex-symbol de sempre, viver a sua condição masculina da forma que ela exibe a sua feminilidade.

Para além de todo o gigantesco talento que tem, a Manuela Azevedo irradia sensualidade e graça de todos os poros do seu corpo. Na verdade ela É a mulher e a artista e a prova mais que evidente que não é preciso ser muito alta, ou muito bonita, ou muito fashion para se ser a mulher mais sensual do país.

Desde a maneira como canta, à forma como se move, ao jeito como sente a música, toda ela é uma graça sem igual. Na verdade, ela é uma mulher em permanente estado de graça e ali, só quem é cego é que não ficou enfeitiçado.

A transparência que a cobria, trespassada pela luz dos focos de fundo do palco, revelava as formas de um corpo que vibrava com a força da música e a tornava quase etérea.

Muito simples, muito humilde e quase envergonhada, na forma como se dirigia ao público, encantou com o seu trato doce e encantador.

E depois a música… a música que foi salva pelo espírito do Variações e pelo brilhantismo dos Humanos, colectivo que reuniu algumas das maiores estrelas da constelação da nova música portuguesa.

Nos Humanos, conviveram com a nata da nata (também eles o são!) e beberam do mestre e isso fez-lhes tão bem. Abandonaram de vez a estrada conceptual que os levava a lugar nenhum e renasceram em todo o seu esplendor com melodias tão simples quanto belas, com uma roupagem tecida por teclas sumptuosas e pelo baixo encorpado, adornada pela guitarra inteligente do Hélder Gonçalves.

Com letras de primeira água e com uma magia inebriante em cada tema, estou mais do que certo que um dos do ano na lista nacional está aqui.

Um bem-haja ao meu careca de estimação pela aquisição previa dos ingressos, e ao resto da turma pela noite bem passada.

Quanto ao disco, este é mesmo para comprar que bandas desta qualidade merecem mesmo muito ser ajudadas.

No dia em que escrevo, o David Fonseca, outro genial mágico da nossa praça edita o seu aguardado terceiro trabalho a solo.

Pelo que ouvi hoje no showcase da Antena 3, avizinham-se tempos gloriosos para a nova música portuguesa.

Que bem-vindos sejam!

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Classe e Saber



Recebo no gabinete uma carta de um jovem autarca de Baião. Finto a ignorância geográfica com recurso às novas tecnologias e em segundos, voilá! Tudo e mais algumas coisa acerca do município. O que há a reter? O autarca é mesmo jovem e quer reunir a rapaziada sub-35 nas lides autárquicas. Já se juntaram duas ou três vezes. Na foto do jornal reconheço colegas de faculdade e o Presidente de Óbidos, que imaginava mais velhinho e de cujo trabalho sou fã absoluto. Numero uno en Portugal! Começaram por juntar apenas os chefões mas depois estenderam o raio de acção aos vereadores e penso que essa abertura é benéfica para todos. Seria certamente um dia bem passado. A viagem de ida e volta, o mais difícil, mas dali até poderia sair um fim-de-semana alargado, uma vez que a reunião era sexta-feira e de certeza que o edil local pensou nisso. Tive sobretudo pena de não ir porque as reuniões e os debates seriam certamente proveitosos e a grande mais-valia destas coisas são os contactos que se fazem e as relações que se estabelecem.

Enfim… tive muita pena mas a minha consciência mandou-me estar noutro lado.

Badajoz inaugurava pelas 9 horas da manhã o seu festival islâmico e na impossibilidade da presença do Presidente, pareceu-me que seria de bom tom estar um representante do Município de Marvão, uma vez que são nossos parceiros na organização do evento e eu aprendi que nunca devemos esquecer quem se lembra de nós e nos ajuda. Lá estive, sempre muito bem recebido e creio que ficaram de facto felizes por me ver. D. Miguel, o Presidente, é uma personagem fabulosa, um mestre autêntico na arte de falar com as pessoas, os seus munícipes e a própria imprensa. Um charme e uma postura terra-a-terra que se torna encantadora. Quando me viu chamou: “Hombre, Pedro! E que tal por Marvao?” virando costas ao que estava a tratar, presumo que pela cortesia de me ver ali. Alguém perguntou: “D. Miguel: la prensa va por la frente o por detrás?”. Ele respondeu peremptório: “Por la frente! Por detrás, solo la Guardia Civil!”. E com isto está tudo dito.

Depois da inauguração, quando seguiram para o seu “pleno”, a sua reunião camarária, aproveitei a deslocação para seleccionar novos postos de artesanato para a edição deste ano em Marvão, para acertar detalhes com o responsável pela decoração e para dar um salto ao Museu Arqueológico local, junto ao qual estacionei. Quando entro, pergunto à senhora da entrada pelo preço dos bilhetes e responde-me que é gratuito. Perguntou-me de seguida se eu pertencia ao grupo e já não sei bem explicar como, mas acabamos por estabelecer alguma simpatia e trocamos impressões. Revelei-lhe na conversa que era de Marvão, que era o responsável pelo pelouro da Cultura e porque motivo me encontrava ali. Enquanto admirava o magnífico mosaico tardo-romano na parede da entrada chegou um outro funcionário, senhor de mais idade, barba e cabelo grisalho, com uns expressivos olhos azuis a reluzir por detrás dos óculos graduados. Saudou-me e eu acenei. Ouvi nas minhas costas a passagem de informação: “el Consejal de Cultura de Marvão”. Segundos depois quando se sentou na secretária e enquanto abria o livro que lhe fazia companhia quando tinha menos serviço, vi-o marcar um número no telefone fixo e falar em sussurro.

Avancei para a sala seguinte e cumprimentei-o em silêncio quando passei. O resultado da chamada que fez soube-o escassos minutos depois quando um senhor com ar jovem e bem disposto me pediu desculpa por me interromper, enquanto contemplava umas lápides tumulares do áureo período islâmico da fundação de Badajoz. Era o Director do Museu que desceu do Gabinete para se apresentar pessoalmente. Debaixo do braço trazia algumas publicações recentes do Museu como oferta de cortesia. Confesso que a princípio vacilei com a rapidez e a cordialidade do gesto mas tentei parecer o mais natural possível e saber retribuir a gentileza. Apresentei-me e falámos um pouco sobre a realidade dos nossos concelhos, na possibilidade de permutas de colecções e terminei convidando-o para visitar Marvão, para um almoço e para uma visita guiada pelo nosso património cultural. Depois, pediu desculpa por ter de se retirar por compromissos previamente assumidos e deixou-me a sós, contemplando o resto da exposição.

Esta agilidade, esta rapidez, este sentido de oportunidade, estes gestos tão simples e tão profundamente ricos e belos, fazem todas a diferença. Imaginem se fosse em Portugal... Quantos salamaleques não seriam precisos para obter uma fria audiência. É por estas e por outras que eu não tenho dúvidas que não há-de faltar muito tempo para…

Pensando neste episódio, recordei-me de um outro do mesmo género que aconteceu há precisamente um ano, em Marvão e me foi contado pelo próprio “platero” do norte de Espanha que participou na Al Mossassa pela primeira vez. Aproveitando a vinda a Badajoz, optou por fazer também a feira de Marvão e gozou uns dias de descanso hospedado na vila, com um casal amigo. Ficou fã de Marvão e ainda hoje faz um sorriso de orelha a orelha quando fala da nossa terra. Contou-me que a feira lhe correu mesmo muito bem e que a dada altura, já na última noite, duas jovens portuguesas se aproximaram do seu posto de venda. Uma delas apaixonou-se por um par de brincos. Negociaram, experimentou-os e no momento de pagar, reparou que não levava dinheiro suficiente. Deslocou-se ao Multibanco mas estava fora de serviço (para variar!) e afastava-se desconsolada quando ele a chamou. Pediu-lhe que levasse os brincos e deu-lhe a direcção para que lhe enviasse o dinheiro por correio. Ao ouvir esta história, pensei o mesmo que o leitor agora pensa: “Será que vais mesmo ver o guito?” e foi isso que lhe perguntei. “Claro que si, hombre. Su cara no engañava”, respondeu. Achei o gesto de uma nobreza tal que lhe assegurei:”Si no te paga ella, te pago yo”, pensando que assim lavaria a honra do convento em caso de desgraça.

Quando o revi meses depois, a pergunta veio-me logo à cabeça e antes que pudesse abrir a boca para a deixar sair, ele sorriu e disse-me logo: “três dias después, tenía yo el dinero en mi casa”.

Vá lá, vá lá, que a pequena se portou à altura. Mas estes dois episódios são para mim emblemáticos e a prova bem real que já é mesmo tempo de por a desconfiança de lado e de abrir de uma vez por todas os braços a uma União Ibérica com a qual todos teremos a ganhar.

O Sócrates bem podia por começar a dar o exemplo, não mudando a porra da hora que nos há-de deixar sempre trocados.

A música no coração

Carcacinha e Leonor na entrada para o estaminé


Domingo foi dia de excursão a Lisboa para o espectáculo “Música no Coração”, no Politeama. Colmata-se assim a velha lacuna: “se Maomé não vai à montanha…”. A iniciativa foi um sucesso e o primeiro autocarro esgotou em 3 dias. Recorremos assim a duas viaturas, transportando gente de todo o concelho, da Beirã aos Alvarrões, em alegre romaria. Há algo de romântico nestas viagens colectivas, com a rapaziada toda a coabitar na mesma furgoneta. Homens e mulheres, mais e menos jovens, fizeram-se assim à estrada para uma banhinho de civilização e cultura.

Os que fomos no autocarro mais novo, aliás, recém estreado, chegado há dois dias para dar resposta às novas obrigações legislativas dos transportes escolares, fomos cobaias deste primeiro grande teste ao maquinão. O Francisco, motorista de serviço, diz que uma folha de 25 linhas não chega para os acertos. As janelas abriam com o vento, metia água por baixo, o ar condicionado só funcionava a frio e nem sequer microfone havia para acalmar a tripulação. Mas bem, a coisa fez-se e a boa disposição nunca se perdeu, que isso é o mais importante.

Chegados à capital, foi momento de almoço, compras e reencontro com familiares e amigos que por lá fizeram vida. Avançados para o magnífico edifício do Teatro, aguardamos com expectativa a hora do espectáculo. Para mim foram momentos de delícia para admirar a desenvoltura do nosso Cabo Pereira, o Paulinho Cascavel, verdadeira estrela da companhia, a mover-se como peixe na água, na baixa pombalina. Metendo conversa com os junkies que pediam na esquina, interpelando os polícias de potentes motos que patrulhavam a área, admirando as montras, bebericando pelos balcões das cervejarias dos Restauradores, espalhou magia à minha frente, recordando os bons velhos tempos. Apesar de já terem passado muitos anos, reconheceu imensos conhecidos e amigos, uns que lhe ofereceram estadia, outros que lhe prometeram almoços, bem à minha frente. Este rapaz é grande.

No interior do Teatro tocou-me um lugar no galinheiro, na parte mais deslocada e tapada e atrasada de toda a plateia. Reconheci que os meus camaradas de viagem tinham ficado todos à minha frente e bem melhor que eu. Tudo isto seria natural se não tivesse sido eu próprio a distribuir os bilhetes mas antes assim, se alguém tem que se amolar, prefiro ser eu. Tenho é de escrever ao La Feria para lhe dizer que aquele candeeiro que ficou à minha frente pode sair dali já amanhã. O palco é magnífico e se dali se visse ainda melhor, digo eu.

Dois apontamentos.

O primeiro para três casais todos benzocas, muito jovens, muito cheios de filhos como agora é moda, todos a falar “à tia”, como se tivessem os narizes entupidos e o comentário da chefe da equipa para os mais jovens “os que viram o espectáculo mais de 3 vezes têm de dar vez aos papás”. “3 vezes???”.

O segundo para um senhor muito gordo e muito sozinho que se sentou na fila da frente, bem ao cantinho e que deve ter visto o espectáculo muito mais vezes que as miúdas de atrás. Sabia os tempos todos, batia as palmas com precisão sempre que terminava cada quadro, até abanava a cabeça para conseguir bater com mais força. Uma daquelas milhares de almas penadas que erram por Lisboa, ali agarrada à fantasia do espectáculo.

Espectáculo que é magnífico e está certamente ao nível do melhor que se faz lá fora. Cenários grandiosos, uma história que já é eterna, uns Von Trapp muito seguros, um grande Carlos Quintas, uma grande Joel Branco e uma Anabela a sonhar com a Brodway. O La Feria pode dormir com quem quiser e ninguém tem nada a ver com isso porque o homem não tem rival em Portugal. 5 estrelas! E depois o Teatro é a tal arte tão diferente do cinema e da pintura porque aqui é gente de carne e osso como nós que se supera e ascende ao Olimpo com a arte que vive dentro de si. Vale mesmo muito o bilhete e é coisa a não perder.

O regresso correu bem e a paragem obrigatória nas míticas bifanas de Vendas Novas, foi o elixir que nos retemperou para o resto da jornada.

Um dia MUITO bem passado.

E já estou como a vizinha: “ai gostei tanto… Quando houver outra vez digam-me sempre que eu quero ir outra vez…”

Eu também!

Dizem que o próximo é o Jesus Cristo Superstar. Huuum! Deve ser fabuloso. E nesse aposto que as minhas tias choram no fim, coitadinhas. Um beijo grande! Maravilhosas!

Aviso: a sua caixa de correio electrónico excedeu a quota


Nas funções que actualmente desempenho, o correio electrónico é uma ferramenta de trabalho indispensável. Nas três caixas que tenho disponíveis, caem diariamente umas largas dezenas de e-mails que perfazem umas centenas ao final da semana e ultrapassam o milhar no final do mês.

É certo que desses tantos, apenas uma parte residual verdadeiramente interessa. Muitos são reencaminhados de outros contactos, outros spams vindos sabe-se lá de onde, outros publicidade manhosa que voa directamente para a lixeira. Dos que importam, muitos são propostas de espectáculos, contactos de editoras, catálogos de material e livros escolares, convites de outras autarquias e solicitações da mais diversa natureza, mensagens de trabalho de colaboradores, de parceiros de eventos culturais e pedidos de mil e uma natureza que vão das visitas guiadas, aos pins e emblemas para capas de estudantes, enfim… muita coisa.

Um dos grandes problemas dos e-mails é que é muito difícil separar o trigo do joio. No correio convencional, por exemplo, há envelopes que se destacam logo pelo volume, pela caligrafia, pela qualidade do papel, pelo selo, morada de envio e importância. Nos e-mails não. Cada mensagem é apenas uma linha igual a tantas outras, com ou sem anexo, mas ocupando sempre o mesmo espaço. Uma linha preta que perde o “negrito”quando se abre e já está. Isto faz com que na enxurrada para limpar lixo electrónico, haja sempre a preocupação de estar a dar menos atenção a alguma mensagem que verdadeiramente interesse.

De todas as que recebo, muitas são de amigos que fazem o favor de se lembrar de mim. Geralmente são mensagens divertidas e humorísticas e eu tenho um truque: não as abro logo, guardo-as para os momentos em que estou triste / desiludido / aborrecido com algo ou alguém e são uma espécie de aspirina para levantar o astral.

De todas as que recebo, algumas são aqui absolutamente irreproduzíveis, outras têm alguma piada, outras pedem para reenviarmos a terceiros sob o pretexto de assim conseguirmos algo que queremos muito… outras são mesmo muito engraçadas.

Deixo-vos aqui 2 exemplos que me fizeram rir.

O primeiro vídeo é divertido por ser tão artístico e inusitado. Começa por uns desenhos que à primeira vista parecem… mas depois não são. Vem dar em parte razão aos detractores da banda desenhada e aos puristas religiosos que muitas vezes defendem que até por detrás do mais singelo dos rabiscos, pode haver uma perigosa mensagem subliminar para os leitores. Os traços que parecem mas depois não são, acabam por estar lá e o cérebro nunca deixa escapar o que os olhos às vezes não são capazes de captar. Fica é apenas registado no disco rígido. Mas esses puristas que são capazes de ver coisas onde elas não estão, que conseguem ver na relação do meu herói da BD favorito (Batman) com o seu protegido (Robin) muito mais do que uma protecção de pai para filho, até esses, não devem ser capazes de esconder um sorriso de soslaio a admirar a arte deste desenhador.

O segundo vídeo é hilariante porque é ridículo e por momentos fez-me mesmo voltar aos bancos do Ciclo e do Liceu, onde era conhecido pelas patifarias e diabruras que praticava diariamente. Só as boas notas e a capacidade de argumentação (e algum teatro à mistura) me safavam das represálias maternas. É, olhando para o gaiatão este, pensei para comigo: podia ter sido eu. É fantástico o poder que dá conseguir sacar umas gargalhadas vigorosas aos outros. A única diferença é que no meu tempo, os preservativos não eram oferecidos a pontapé em cada esquina e em boiões em tudo o que é evento para a miudagem. No meu tempo só comprados às escondidas, ou gamados, ou pagos a peso de ouro aos mais velhos. Lá estou eu a falar no meu tempo outra vez… pareço as velhotas do anúncio da televisão.

Mas já repararam bem como sobe o gorro só com o ar? Ehehehe.

Muito Merci!

Quando comecei o blog dos “Desabafos de Marvão” e pensei em publicar os textos para quem não ouvia a rubrica na rádio, estava longe de pensar que o caminho me havia de trazer aqui. Criei o blog na noite em que o pensei e nunca esperei chegar a tanta gente.

Quando terminei aquela missão e senti que me tinha de esticar para outro lado, para onde pudesse dar largas a esta paixão de escrever, nunca imaginei que fosse visitado e comentado por tanta gente.

Quem escreve, escreve sempre com o intuito de ser lido, mesmo que diga o contrário. Eu não escondo que o faço.

Um comentário (que eu leio sempre com tanta atenção e aos quais não respondo, um a um, por manifesta falta de tempo) publicado hoje, da autoria do Luís Bugalhão, fez-me pensar nisto outra vez.

E acho que é mais do que altura de agradecer, nesta nova versão, a todos os internautas que fazem o favor de me aturar e aos que chegam mesmo a colaborar com os seus comentários. Agradecer a todas as pessoas, mesmo aquelas de quem eu não esperava, que me interpelam na rua, me incentivam, me dizem que se emocionaram, que riram ou simplesmente discordaram ao ler aquilo que escrevi.

Agradecer a todos aqueles que me puseram a mão no ombro e me disseram: “quando te leio, penso sempre que devias de pensar em escrever um livro”.

Nem imaginam o que esse apoio significa para mim.

Bem hajam pela força e ao Luís, que elevou a minha escrita à qualidade de droga dura, que se comparou a um junkie e a mim a um dealer, só posso dizer que foi um dos elogios mais originais e inesperados que tive em toda a minha vida.

Ai rapaz, quando estiveres a ressacar, quando precisares mesmo muito e não tiveres produto, passa cá por casa que eu oriento-te uma linha da branquinha.

Nem que seja só pretexto para te conhecer.

Um abraço a todos. É também por vocês que continuo, noite fora…