quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Devoções...


E nestes casos dá vontade de perguntar: e agora Vítor? Por qual dos dois vais tu torcer?

Pelo clube do coração ou pela equipa do patrão?

Quem fala mais alto: o fervor clubístico ou a fé que te emprega?

Torces pelo Bento ou pela Santidade?

Afinal não sou só eu que tenho dilemas…

O Tal Canal


A clausura de estudo fiscal em que me encontro está prestes a deixar-me plantado na berma da auto-estrada da loucura. De há 3 noites para cá, sonho em articulado e as imagens chegam-me divididas por capítulos, secções e sub-secções, artigos, alíneas e anotações. Impostos, estatutos, decretos e diplomas tomaram conta do meu ser e hoje eu não sou muito mais que uma publicação do “Rei dos Livros”: lombada grossa, 400 páginas vazias de alma e substracto. Dou por mim às vezes a namorar a tranquilidade da rua deserta que vejo à minha frente e a desejar ardentemente que haja um cataclismo nuclear qualquer que não mate ninguém mas devolva toda a humanidade ao verdadeiro sentido da vida. E já me imagino semi-desnudado, debaixo de uma árvore, a pentear a barbicha e a tocar flauta de pan enquanto guardo um rebanho de não mais que 20 cabrinhas. Não mais que 20 porque se mais forem, já tenho um rendimento acima dos 149.000 euros e passo a ser obrigado a ter contabilidade organizada. Isso não!

Penso muitas vezes que não nasci para isto, que estou metido numa história que não é a minha mas que fazer? O dinheiro faz falta a tanta gente e é uma profissão honrada como outra qualquer. O fisco. De gravata? O senhor das finanças. Mas se o Adolfo Luxúria Canibal, um dos meus heróis desde a adolescência, um dos únicos que nunca me defraudou, pode ser jurista de dia e estrela incandescente do Rock à noite, eu também tenho de suportar a barra. E no fundo, no fundo, se os heróis não servem para isso, para nos iluminar e orientar a existência, para que servem então?

Toda a gente sabe que saber fazer uma liquidação de IRS à mão nunca foi um dos meus sonhos de infância, mas segundo os meus projectos de adolescente, por estas idades eu já devia estar casado com a Brooke Shields e ainda nem sequer a conheci.

Meus amigos… o Tratado dos Tratados: a vida nunca é aquilo que nós queremos, mas sim aquilo que ela própria quer. Lixada, a gaja!

São muitas horas de estudo por dia. Das 9 à 13, das 14 às 17, das 18 às 20 e às vezes até depois das 21 ou 9, como queiram. São 7 códigos e muitos diplomas e brochuras e encadernações. É muita coisa mesmo… E são 3 provas, uma em cada ano e esta é apenas a segunda, o que significa que para o ano levo com eles outra vez. A dobrar, porque na prova final entram os impostos todos. O nosso país é uma injustiça pegada! Se os polícias tivessem de provar tanto quanto nós, os do fisco, para subirem de nível, não havia tantas barrigas e bigodes e os bandidos morriam só do susto de olhar para eles.

Não saindo de casa, resumindo a minha errática existência a dias inteiros de fato de treino (mas continuo a tomar banhinho todos os dias! Olé!), a única réstia de salvação é… a televisão.

A televisão, a televisão… eu amo a televisão. De vez em quando descanso os rins, sento-me no sofá e espreito. Que saudades dos tempos em que passava tardes inteiras a surfar pelos canais, saltando dos filmes para os documentários, das notícias internacionais para os canais de música, dos cartoon channels para os desportivos, dos históricos para os generalistas, num mundo fascinante, sem dúvida.

Os canais abertos, regra geral, venderam a alma ao diabo e estão cheiinhos de refugo de terceira mas ainda há coisas muito boas:

Numa destas noites, estando todo o agregado de 3 anichado no sofá, compondo um quadro familiar bucólico e enternecedor, assistíamos a um dos programas de eleição da pequena, um dos mais populares nas conversas de recreio da escola: os Batanetes, da TVI. Na primeira piada a que assistimos, uma jovem pergunta ao médico: “Ó Shôtor, o sexo anal engravida?”. Resposta: “Claro que sim. Como é que acha que nascem os advogados?”. Silêncio total. Troca de olhares. Segunda tentativa. Na mercearia: “Ó Dona não sei quantas, tem tofu à venda?”. “Não, tofu não tenho, mas tenho vibradores”. “Vibradores? E o que é isso tem a ver?”. “Simples, são os dois substitutos da carne!”. Fiz como o Gabriel, o Pensador: “achei melhor desligar!”. Ser pai hoje em dia não está fácil.

Nas notícias, uma história enternecedora: um bombeiro do norte foi apanhado pela Brigada a conduzir uma ambulância com a cabeça cheia de bebida. O homem, inconsciente ao ponto de transportar doentes estando completamente ébrio, teve a desculpa do juiz, apesar de já ser reincidente. Duas pérolas que destaco. A primeira é que o sujeito, num laivo de brilhantismo, alegou que a bebida não era desse dia, mas da bubedeira que apanhou no dia anterior nos anos de um amigo. Genial! A segunda, o Juiz perdoou mais porque parece que acusou 1 e tal e ali para aqueles lados, tudo o que for menos de 3 ou 4 é para esquecer. É nestas alturas que me dá vontade de mandar fazer umas t-shirts a dizer: "EU AMO SER PORTUGUÊS!”.

À noite vejo pelo canto do olho, um dos múltiplos programas de procura de talentos que inundam os horários nobres. Neste quem manda é a família, uma família superstar em que estão todos convencidos que vão daqui direitinhos para o Olympia em Paris, como o nosso primo Carreira. Uns melhores, outros piores e a Bárbara Guimarães com um decote que lhe mostrava até os tornozelos. Ainda está para nascer quem me vai explicar como é que o Carrilho se aguenta com um Boeing 747 destes. Onde é que a mulher tinha a cabeça quando para ali se virou? Que mezinha terá feito o gajo para a conquistar? Para mim, este é um dos mistérios insondáveis da humanidade, ao nível mesmo da origem das estátuas da Ilha da Páscoa. Mas bem, voltando aos concorrentes: aparece-me lá um cachopinho assim todo bem parecido, com um brinquinho no queixo e tudo, a cantar o “She” do Elvis Costello. Para já, para já, esta não é uma música qualquer, de um filme qualquer (magistral “Notting Hill”) e o rapaz até não se saiu mal. O mais bonito de tudo foi que dedicou a música à avó, que estava na plateia e eu fiquei louco só de ver a alegria da mulher a ver aquilo tudo. Estava num estado de êxtase tal que mais parecia uma das fãs do Elvis num dos concertos esgotados de Las Vegas, na fase final dos cocktails de drogas e lantejoulas. Que alegria aquela a da senhora, certamente à beira de lhe dar uma coisa qualquer ruim, mas deixando que ainda assim com um som péssimo, a televisão cumpra o seu propósito de fazer sonhar as pessoas.

Vou-me armar em Marcelo e destacar também a reportagem da SIC sobre as plantações de cannabis lá bem no norte do país. Um mimo autêntico. As respostas dos arguidos entrevistados são mesmo do melhor artesanato que já vi. Um deles tinha uma produção brutal de “erva” no quintal e disse que “achou piada às sementes”. Assim sendo, deitou-as a um canto e “via-as crescer todos os dias”. Só por isso não as cortou antes!!! Outro, que se dizia com fortes aspirações políticas e era inclusivamente membro da Assembleia de Freguesia lá do sítio, lamentou-se de se ver envolvido naquela história toda. Apesar de ter estado emigrado muitos anos, apesar de ter 3 brincos numa orelha e uma t-shirt dos “Cradle of Filth”, disse que não, nunca tinha ouvido falar em tal planta que por acaso lhe apareceu na horta. Estranho! Todos a fazerem lembrar a anedota do cigano que quando questionado pelas autoridades acerca do porco morto que levava ao ombro, o que tinha acabado de matar e roubar, respondeu: “porco!!! Qual porco, senhor agente?”. “Esse que leva aí ao ombro”. “Ao ombro??? Ena! O tonto do bicho. Que raio de sítio escolheu para vir pousar!!!”.

Na Argentina um artista qualquer levou um cão para uma exposição e deixou-o morrer à fome. Não sou nada adepto dos tontinhos que defendem os animais em detrimento dos homens mas esta ultrapassa todas as marcas. A este eu fazia-lhe o que disse o tal Talião: ia direitinho para uma gaiola e fazia-lhe precisamente o mesmo. Haviam de ver como se lhe acabavam logo os devaneios artísticos.

Tanta loucura e tanta tonteria só poderiam terminar da melhor forma, com a jóia da coroa, os “Sopranos” ou a melhor série de todos os tempos, agora na sua 6ª e derradeira temporada. Os “Sopranos” não são apenas uma série de televisão. Para mim, que a sigo com fervor e devoção desde o primeiro dia, esta série é o maior tratado de relações humanas, filosofia, sociologia, inteligência, família, estratégia, humor, gestão, prazer, risco e vida, que alguém pode um dia criar. Ainda faltam uns episódios. Já tenho saudades.

Agora se me dão licença, faço como o grande Tony, o único mafioso que teve coragem de fazer psicanálise: vou vestir o meu roupão branco e vou estudar finanças, com uma ligeira diferença, ele vai fazer as contas dos lucros que as porto-riquenhas lhe deram ontem no Bada Bing, e eu vou mergulhar nos benefícios fiscais da Zona Franca da Madeira.

Bem pior! Paciência! Quem é que manda a mim não ser mafioso?

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Até sempre companheiro!

João Paulo Neves Pereira (falecido a 25.10.2007)


As últimas notícias que tive tuas eram tudo menos animadoras. Chegavam-me através do teu irmão e falavam-me de um lento e longo arrastar, do teu estado letárgico, preso à pouca vida que te restava por intermédio das máquinas e de um tubo de oxigénio.

Foi tudo rápido demais.

Lembro-me que faz agora por estas alturas, um ano que tiveste a tua primeira quebra. Eu regressava de um exame das Finanças em Lisboa e soube pelo telefone que não estavas bem.

Liguei para o hospital, lá consegui o contacto do enfermeiro responsável e foi nessa conversa que soube que o cenário era pouco animador.

Não era fácil cumprimentar-te através das luvas… ouvir a nossa voz filtrada pelas máscaras que nos obrigavam a usar. Levei-te a “Bola” e a “Nova Gente” e pareceu-me que dificilmente voltaríamos a falar fora dali. Depois, com a força que era tão tua, arribaste e voltaste a levantar-te.

Saíste e surpreendeste tudo e todos.

Tornaste-te agricultor de mão cheia na horta que tanto estimavas. Trabalhaste os dias inteiros, na dura labuta da vida agrícola, e ainda arranjavas sempre tempo para desenrascar um amigo num biscate.

Montado no motocultivador emprestado, eras rei em trono de pleno direito, sempre sorrindo, com o ar de quem a tinha olhado de frente e lhe tinha conseguido escapar.

Quando vias um amigo por perto, não perdias a oportunidade de mostrares, orgulhoso, a tua produção: as couves e os variados vegetais, as tuas galinhas, os teus coelhos e restante bicharada, e até o porco, gordíssimo, belíssimo e já prometido ao nosso Tomané, Presidente da Junta, para a próxima matança da freguesia. A que não terás a felicidade de ver.

Ainda há dias te ajudei a desenrascar o escoamento da produção de cebolas, com uma cunha bem aplicada a um colega proprietário. A manobra de marketing resultou em cheio. Disse-me depois que eram enormes e de alta qualidade, que te tinha ficado com a mercadoria toda. Vi-o mostrá-las orgulhoso a alguns clientes, “a verdadeira produção do concelho de Marvão!”. Já não comemos é o tal almoço que prometeste se o negócio te corresse bem.

Como nunca mais trarei as tais alfaces que levavas à loja das minhas tias, de propósito para a Leonor, porque sabias que ela tanto as adora.

Nunca sabemos o dia de amanhã, mas na festa dos teus anos, tive a sensação que provavelmente seria a última. Foi por isso que me custou tanto quando viste que faltavam muitos comensais, que a quantidade enorme de comer iria sobrar e foste, na tua bondade, bater à porta de cada um deles para lhes pedires que não falhassem.
Tão feliz que te vi na despedida de solteiro do Manel Coelho, dando “Ordem Unida” a trinta e tal magalas já meio torcidos. Vestidinho de azul, com a t-shirt comprada no mercado de Santo António. “Havia lá mais baratas, mas eu vi logo a qualidade desta e que se amolem os euros!”.

Tenho falado muito em ti porque sou teu fã. Fã da tua maneira de ser. Falei em ti nos “Desabafos” e nunca pensei que pudesses ler as cópias que a Batistinha te arranjou, e gostar tanto do que sobre ti disse. “Tá porreiro, aquilo!”.

Tive ainda oportunidade de te levar à “Gala das 7 Maravilhas” ao Campo Pequeno e há um mês atrás, antes da última recaída, ao “Música no Coração”.

Bebemos a tal cervejinha na marisqueira ao lado e o camarãozinho em promoção que estava divinal.

Um senhor onde quer que pisavas porque em toda a parte te conheciam.

O polícia de Lisboa que tem família cá, parou a mota só para te cumprimentar e te oferecer dormida e estadia.

O empregado que nos serviu as bifanas em Vendas Novas, tinha sido um soldado teu colega e só por isso me segredaste ao ouvido: “para a próxima vimos cá que o gajo já disse que paga o jantar!”.

No autocarro confidenciaste, “dói-me o corpo da viagem. Amanhã durmo toda a manhã”, para te poderes livrar do aperto que te sugava as forças.

Agora dormes para sempre, livre da carga que cá deixaste.

Não sei se lá em cima haverá horta. Se houver, eles que se preparem para uma verdadeira reforma agrária. Não vai ficar pedra sobre pedra.

Que descanses em paz, Carcacinha.

Até sempre, companheiro!

sábado, 20 de outubro de 2007

A Cimeira e o Hardcore – Breve ensaio ou pequeno apontamento


Passava pouco da meia-noite, talvez uma meia-hora, quando me estiquei no sofá, rendido ao cansaço e ao silêncio da sala, com o código do IRS e as suas indomáveis manobras a latejarem nas têmporas. Tinha sido um dia duro de trabalho. Estiquei-me ao comprido e liguei a televisão para ver se desanuviava, não fosse eu ter pesadelos com os abatimentos e as deduções.

No ecrã, vejo os nossos Delfins (não, não eram os do Miguel Ângelo!) a sorrirem de par em par. “Olha que dois!”. O Durão e o Sócrates todos sorridentes, com o ar mais feliz do mundo, a fazerem lembrar a rábula do Sr. Contente e do Sr. Feliz, dizendo da sua graça. “A Cimeira de Lisboa é um sucesso. O Tratado já está e vai ser assinado em Dezembro. Nós os portugueses somos muita bons e viramos uma página da história da Europa e ta-ra-ta-ta, ta-ra-ta-ta…”.

E eu a imaginar uma manif de polícias ou enfermeiros a entrar por ali adentro. Era capaz de ser giro!

O quadro pareceu-me perfeito. O Sócrates com aquele olhar de vesgo, de quem está mesmo a precisar de umas gotinhas de Visadron, e o Durão com aquele ar de inchado que lhe meteram lá para Bruxelas… É impressão minha ou o homem parece mesmo que está soprado?

Só me deu vontade de ir ao sótão buscar a bandeira e correr para a rua aos gritos. Mas tentei-me acalmar, não me fosse rebentar uma veia qualquer.

Despedi-me deles e parti num zapping final por todos os canais da TV Cabo, uma das minhas maneiras favoritas de terminar o dia. Só parei na CNN, onde a malta do Paquistão resolveu dar as boas vindas à Benazir Bhutto com dois atentados suicidas. Um estrondo brutal mas parece que lá para aquelas bandas a coisa é mesmo assim.

Passei no XXL onde estava no ar uma fita softcore que mais parecia uma transmissão olímpica de ginástica.

E eu pensei: a Cimeira de Lisboa é uma boa oportunidade para eu falar de pornografia.

Não sei explicar bem porquê, mas parece-me que são coisas que ligam bem, como as ervilhas com o ovo escalfado.

A estas horas já está meio-mundo de boca aberta, outros a virarem a cara, outros a desligarem a CPU.

“Estará a falar a sério?!?!?!?!?!?! O gajo pirou de vez! Isso é coisa de estiva, de pedreiros, de chunguice, de ralé, de ciganos, de presos! Que falta de gosto, que falta de educação!”

Calma! Slow down, honey! Vamos descer ao nível do entendimento.

Sim, meus amigos. Porque não?

Nas aulas de Antropologia da Faculdade, não se cansavam de nos repetir que o homem é um animal com verniz cultural. Quando estala o verniz, salta o macaquinho que está cá dentro.

E é bem verdade! Todos concordamos que o ser humano é sensível à dor. Independentemente das convicções ou religião, custa-nos sempre quando vemos imagens de alguém a sofrer, alguém que passa fome, que está doente, que está mal.

Por outro lado, quase todos nós ficamos felizes quando vemos os outros sorrirem e estarem saudáveis e bem dispostos.

Indo um pouco mais fundo na minha maneira de ver as coisas, o ser humano é incapaz de ficar insensível perante o prazer, o sexo e em última instância, perante a sua exibição. Para quem estudou Freud e acredita no que o velhinho disse, a coisa pode ainda ser mais determinante já que quase tudo na nossa vida é condicionado pelas pulsões de cariz sexual que nos marcam desde o berço até à cova.

Despidos dos nossos tabus, sozinhos perante a evidência, compreendemos que a pornografia pode ser o derradeiro apelo à nossa condição primitiva.

O problema é que nós em Portugal ainda estamos muito condicionados por um século de repressão, em que vivemos oprimidos por um sistema social e educativo muito dominado pela Igreja, sempre rígida e manipuladora. Para nós, portugueses, o sexo ainda é tabu.

Seria bom se também aqui fossemos mais latinos, mais mediterrânicos, mais abertos e mais livres. Vivemos mal com a nossa sexualidade. Na maior parte do tempo, fingimos que não existe, faz-de-conta que não sabemos que é daí que todos vimos. Convencemo-nos uns aos outros que os bebés ainda chegam de França no bico de uma cegonha. Somos como os Teletubbies: sorridentes e assexuados.

E depois estranhamos quando os pais de família com posição e carreira saem de casa e do armário e rumam noite dentro à caça de meninos nas cidades…

É por isso que este pode ser um bom ponto de partida, um bom arranque para a educação sexual que nunca tivemos.

Há cautelas a tomar! Eu digo que este tipo de entretenimento é como o Jazz: cai-se facilmente na tentação de dizer que tudo aquilo é igual, que é sempre a mesma coisa, mas não é. É preciso educar… o ouvido.

E eu nem sou um particular entusiasta da modalidade. Digamos que sou um simpatizante e nada mais.

Não critico aquelas pessoas que passam as tardes a chorar à frente da televisão, a verem os filmes da tarde da TVI, dos coitadinhos, dos que sofrem e são encornados e depois ficam muito aliviadas porque carpiram no mal dos outros, os seus próprios males.

Mas para mim, há coisas bem melhores…

Descobri este mundo nos restos das revistas que os ferroviários deixavam esquecidas no chão, junto às camaratas estacionadas perto do depósito da água na Beirã. Eu e os meus amigos, ainda todos de calções, ficávamos pasmados a admirar o que seria aquilo. Os mais velhos faziam o favor de explicar e quase sempre confiscavam a mercadoria. Mas deu para fazer uma ideia. Nós a olharmos uns para os outros e os rufias a rirem-se enquanto caminhavam e nos deixavam para trás.

Na altura não havia Internet nem nada dessas modernices e nós contentávamo-nos com os calções curtinhos das Doce e o fato prateado da Super-Mulher.

No ciclo, ver representações de nus, só se fosse na “Enciclopédia do Corpo Humano” que não nos deixavam requisitar. A Professora de Biologia saltou o capítulo da Educação Sexual. Alegou que a turma era difícil. Os pais não falavam muito sobre isso. Eram os anos 80.

Voltei a apanhar esse andamento mais tarde, numa versão soft de edição portuguesa, a efémera “Élan”, que marcou a vida de Lisboa e a mentalidade do país. Naqueles anos loucos em que a cocaína e o champanhe marcaram o andamento da nossa capital, foi uma luz na escuridão que culminou com o escândalo do arquitecto Taveira e as suas incursões…à retaguarda. Por aquelas páginas passaram os novos valores da socialite do país, muitas carinhas e corpinhos larocas da rádio, tv e disco, que nos acompanham, algumas delas, até hoje.

O primeiro filme para maiores de 18 vi-o na mítica sala nº 1 do GDA, em Santo António, numa sessão das 11 e meia. Entrei à socapa, fiz-me passar por mais velho e antes que pudessem olhar para a minha cara para aferirem se era verdade a idade que dizia ter, já eu estava sentado no 1º balcão. O título era sugestivo, “Sexo na Selva” e a sala estava ao rubro. A fita era algo surrealista, a senhora que a projectava também, e havia uns cortes pelo meio onde apareciam umas pessoas num quarto que eu ainda hoje estou para saber quem seriam. Foi mau mas divertido. Foi tema de conversa entre amigos durante semanas.

Na altura do Liceu já se mostravam umas Playboy nas bancas, sobretudo a versão espanhola e a sempre excelente edição brasileira. As grandes divas das novelas revelaram-se ao mundo inteiro como Deus aqui as plantou, despidas mas com os bolsos cheios de dinheiro.

Depois veio o vídeo e o dvd e a net e a coisa tomou proporções à escala mundial e está para além do controlo de seja quem for. Sexo é a palavra mais digitada nos motores de busca e com isto digo tudo.

De todas as publicações, resta uma merecida menção à revista “Gina”, um verdadeiro ícone cultural do nosso país, autêntico rito de passagem que marcou gerações, quanto mais não fosse, pelas as suas pródigas prosas.

O bizarro mundo que gira à volta desta indústria parece estar agora a ganhar terreno e a instalar-se nas mentalidades cá do burgo. Já brilham as Feiras temáticas na capital e no Algarve, o negócio prolifera, parece haver uma maior abertura. Afinal, pornografia não é prostituição. Pornografia é legal e prostituição não. São coisas bem distintas.

Agora já há a FHM e a Maxmen e os homens não se envergonham de as comprar nas bancas à frente das mulheres até porque têm muitíssima qualidade e são dirigidas por dois dos meninos bonitos do extinto “Independente”, para além de serem dois jornalistas de gabarito: Pedro Boucherie Mendes e Domingos Amaral, respectivamente.

É preciso fazer um esforço para abrir as mentalidades. Na minha cadeira de “Seminário de Investigação” da Faculdade, quando disse que o meu tema era “A educação sexual através da imprensa cor-de-rosa”, um mergulho nos consultórios sentimentais da “Maria” e afins em busca das linhas orientadoras dos gurus de então, todos se riram. No final, se bem me recordo, foram 16 ou 17 valores para o grupo.

Porque é preciso desmistificar esta questão, vamos pegar nas pessoas que têm nojo e questioná-las perante a realidade. Provavelmente viram o “9 semanas e Meia”, o “Orquídea Selvagem”, o “Ultimo Tango em Paris”, o “Emmanuele”, o “Pato com Laranja” e até gostaram.

E eles respondem em coro: “Ah, mas isso não é pornografia!”. “Ai não? Mas está a um degrauzinho só!”.

E bem vistas as coisas, se calhar até viram “O Império dos Sentidos” e o “Garganta Funda” que agora até têm direito a documentários e a edições especiais e não ficaram chocados.

Há que saber ver as coisas com olhos de gente e ver onde está a qualidade. Um dos meus realizadores favoritos, Paul Thomas Anderson, autor do belíssimo “Magnólia”, estreou-se com o brilhante “Boogie Nights”, um filme que presta homenagem a esta específica indústria cinematográfica e ao seu anjo caído, John Holmes, e chegou a ter candidatos aos Óscares…

È importante que partam sem preconceitos e ponham os mitos de lado. Do género:

1) Os filmes para maiores de 18 são sempre a mesma coisa!
Resposta: Para além de não ser verdade e de existirem inúmeras sub-categorias, há imensas coisas na vida que são sempre iguais e isso não é necessariamente mau, certo?

2) Os filmes para maiores de 18 são uma nojice e uma pouca vergonha!
Resposta: Podem ser, mas para pouca-vergonha, já bastam algumas exibições do glorioso nesta época e as pessoas continuam a ir ao estádio.

3) Os filmes para maiores de 18 não têm história!
Resposta: Outra vez errado. Há belíssimas histórias de amor dentro do género. Mas realmente, se querem histórias a sério mais vale lerem o “Guerra e Paz” do Tolstoi ou o “Vermelho e Negro” do Stendhal. Histórias dessas não são para aqui chamadas.

4) Os filmes para maiores de 18 não têm grande aparato!
Resposta: Negativo. Há-os com tanques de guerra e até com aviões e helicópteros. É uma indústria profícua…. Tanto por descobrir!

4) Os filmes para maiores de 18 são maçudos e tecnicamente são vazios!
Resposta: A maior das mentiras! São inclusivamente estudados em escolas de cinema. Tudo ali é pensado ao pormenor: a música, os ângulos, a mise-en-scéne, a colocação da voz, os travellings… Basta prestarem atenção. Têm a sua arte.

Como vêm, tudo mitos! Para terminar e em jeito de conclusão, tenho de dizer que o Quentin Tarantino adora-os e eu também não desgosto, vá lá!

Da próxima vez que se cruzarem com um, não confundam puritanismo com hipocrisia.

Ou ao menos reconheçam… quantos de você, meus ratinhos da net, não recebem todos os dias uns exemplares desses ficheiros marotos terminados com um XXX? E aposto que não vão directos para a reciclagem sem uma vista de olhos, certo?

Sendo assim, e uma vez que já estou encostado ao muro, quem nunca tenha prevaricado… que atire a primeira pedra.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Artes do palco


Uma das minhas grande preocupações enquanto Vereador da Cultura e da Juventude é arranjar ocupação para os miúdos nos Tempos Livres. È por esse motivo que introduzimos o Judo, o Ballet, o Hip-Hop. É essa a razão porque duplicámos os alunos da Escola de Música. É por isso que divulgamos o Arenense, criámos uma aula específica de introdução à natação e fizemos no passado domingo um Workshop de Teatro.

É muito importante que os miúdos saiam de casa, larguem as Playstations e os Pcs, deixem os bares e os cafés e se recriem e convivam uns com os outros.

Porquê um workshop de Teatro? A vontade secreta por detrás desta apresentação era conseguir um número de pessoas suficiente e suficientemente motivadas para dar início a um grupo de teatro amador em Marvão.

Esta era uma que eu já tinha fisgada há muito tempo. Numa reunião que tive com a Susana Teixeira, actriz profissional do Teatro de Portalegre e residente no concelho, lancei-lhe o desafio e ela aceitou. Esperámos meses para a altura certa e esse momento foi no domingo passado.

Distribuímos folhetos por todo o concelho, demos um a cada aluno das nossas escolas e fizemos a divulgação possível, incluindo via net.

Mas nem ela, nem eu sabíamos ao certo para o que íamos e o que nos esperava em termos de aceitação.

Compareceram mais de 30 interessados, sobretudo jovens em idade escolar e uma rapariga que já é mãe e chefe de família e que eu não esperava nada encontrar ali.

A Susana, sempre simpática e bem disposta, mandou-os sentar à nossa volta e distribuiu uma ficha para colocarem os seus elementos pessoais e para responderem a uma pergunta: o Teatro porquê?

Uns responderam: porque sim. Outros: porque gosto. Outros ainda: porque deve de ser bom. A essa rapariga, a Susana perguntou pessoalmente: “porquê?”.

E ela respondeu que o teatro é a grande paixão da sua vida. Que já tinha feito cursos e estudado nessa área com actores da nossa região e depois engravidou e casou e veio para Santo António e o teatro ficou para trás.

A Susana quis ir mais fundo. “Gostas mesmo muito?”. E ela respondeu com os olhos a brilhar “mesmo muito”. E a Susana disse-lhe “não me digas isso com esse ar que eu comovo-me”. Ela respondeu: “eu já estou”.

E eu, que estava ali ao lado, senti um arrepio na espinha.

Aquilo fez-me lembrar “O Clube dos Poetas Mortos” e pensar que quantas pessoas não haverá aqui à nossa volta com paixões assim por resolver e vivem oprimidas e reclusas das vidas que se apoderaram delas.

O resto não ajudou muito. Os horários dos miúdos não batem certo com o dela e nós tivemos que nos adaptar à maioria. Mas a Susana tranquilizou-a e disse-lhe que ia arranjar maneira de ela não ficar de fora. Eu também fiquei mais descansado.

Só desejo mesmo muito que este grupo avance, se solidifique e cresça. Que venham ainda mais pessoas e que mostrem o seu trabalho assim que possível. Quero tanto que isto dê frutos e se possível que ela tenha o papel com que sempre sonhou, que brilhe bem alto e seja feliz como nunca a fazer o que mesmo gosta.

Assim vale a pena!

O maior da minha aldeia


No meu forçado retiro financeiro, o meu grande contacto com o mundo é através da minha janela. Vejo passar motas e carros, senhoras a passear os lulus, pardais que brincam nos algerozes e gatos que vêm fazer xixi na minha relvinha do quintal (cabrões! Agora tenho a certeza! Juro que vou matar um à paulada!).

Da minha janela da sala, onde entra a luz e a força do dia, vejo muita coisa. Todos os dias vejo o meu vizinho, do lado esquerdo se estiver dentro de casa, do lado direito se olhar para a casa desde a rua.

O meu vizinho Luís é a personificação pura do estilo. Eu vejo-o sair de casa e penso… tenho de escrever sobre este gajo porque tem mesmo muita pinta.

O meu vizinho passa todos os dias de manhã para levar o irmão pequenito à escola e regressa pouco depois.

Deve ter para aí uns 17 anos e basicamente não faz nada.

Sai sempre de óculos escuros, penteado para trás com gel, com um bruto cigarrão meio caído ao canto dos lábios e pisa o chão com uma técnica que só me faz lembrar o Clint Eastwood nos filmes do Dirty Harry. Ele não sabe onde fica São Francisco, mas ele é uma personagem do Dirty Harry.

Classe pura!

Deixou de estudar este ano. No ano passado, andava talvez no 6º ano e os colegas dele de turma pareciam todos seus filhos. Davam-lhe pela cintura.

Certo dia fui à escola ler uns contos, a pedido do Conselho Directivo, para implementar o gosto pela leitura e li umas historinhas duns livros antigos que para aqui tenho. Os putos todos de olhos arregalados e o Luís, sentado nas traseiras, com um sorriso maroto de quem pensava: “sim, sim. Conta-me histórias”.

Os colegas meteram-lhe uma alcunha: Farrapo. Não concordo. As crianças sabem ser cruéis.

O Luís tem pinta. Os pais são boa gente, trabalhadora. Saem de manhã e só regressam à tarde ou à noite. Entretanto, ele vive por aqui. Tem fama de às vezes se portar menos bem mas para mim, sempre foi uma correcção. Olha cá para dentro e diz, sorrindo: “vizinhança!”.

Às vezes dou-lhe boleia quando vou para Marvão e o vejo a pé pela estrada fora. Conversamos um bocadinho.

Há tempos disse-me que o sonho dele era ser DJ. Acho que tem estilo porque de vez em quando bomba um trance alternativo nas colunas da aparelhagem que me mete as loiças da cozinha todas a tremer. Depois eu às vezes assobio, ou grito-lhe: “LUUUUÍÍÍÍÍS!” e ele acalma-se um pouco.

Depois disse-me que quer ser mecânico. Está à espera que abra um curso no Centro de Formação que só estará disponível em Janeiro. “E entretanto, Luís?”, pergunto eu. “Na boa!”, responde-me ele. Presumo que isto quer dizer que está tudo tranquilo.

Anda sempre de telefone colado ao ouvido. Diz-me com ar matreiro que saca umas miúdas. Eu acho que elas não sabem.

O Luís é grande e acho que também ele não sabe.

Eu é que tenho montes de inveja quando o vejo passar, fumando uma bruta cigarrada, com o ar mais descontraído do mundo, como se aquele cigarro fosse a única coisa verdadeiramente importante nesse momento. Ele com aquela liberdade toda e eu aqui feito estúpido a bater com a cabeça nos calhamaços, 9 horas por dia.

O nosso Estado paga avenças chorudas e dá subsídios a artistas malucos que não fazem nada e só respiram. Se eu mandasse, o Luís tinha uma bolsa vitalícia, só para dar um ar da sua graça às ruas desertas de Santo António.

Ponto da situação


Eu gostava de escrever mais.

Eu gostava de ter tempo para todos os dias ter algo novo para dizer e até tenho.

Mas o tempo.

O tempo amola-me à força toda porque não estica e não nos deixa chegar a todo o lado onde queremos.

Encontro-me numa fase engraçada da minha vida profissional / pessoal.

Na Câmara, contam-se os dias para a Festa maior do concelho, a que consome mais tempo e mais dedicação.

Nas Finanças, fizeram o favor de me marcar a segunda prova para o concurso de subida de nível, no preciso dia de inauguração da Feira. Grande pontaria! Em 365 dias do ano, acertaram em cheio!

Assim, são 7 ou 8 códigos para estudar, que exigem um esforço extra-extra-suplementar para quem está há dois anos desviado do mundo sempre em mutação dos impostos.

Nos dias de férias que guardei para estudar, encontro-me agora retido em casa, enleado nos artigos e nos decretos e na papelada toda e o telefone e o Messenger e o mail que não param com novas situações da Feira da Castanha.

Nem num lado, nem no outro. Com um pé no Código do IRS e outro no mapa de artesanato.

Se me estranharem, não se espantem.

Nestas 3 semanas que se seguem, se precisarem de alguma coisa… passem cá por casa. Sempre ajudam a desanuviar.

A tasca do Tio Sabi


Meus amigos, meus amigos, meus amigos. Um ponto de ordem. Um abraço a todos, uma saudação e um bem hajam.

Sempre disse que este blog não era só meu. Sempre disse que ele pertencia a todos aqueles que o liam, que o frequentavam, que opinavam sobre o que aqui se passava.

É com satisfação que constato a quantidade enorme de “pardalada” (digo-o com carinho) que por aqui vem todos os dias fazer o “ninho”.

Falando em metáforas, dou por mim muitas vezes a pensar que este blog é uma taberna.

Uma taberna onde eu sou o tasqueiro que assiste à entrada e saída diária de muita clientela.

Há por aqui os clientes habituais, de todos os dias, que vêm duas vezes por dia beber café e que não perdem a oportunidade de dizer de sua justiça.

Há por aqui os que vêm ao fim do dia beber umas imperiais antes de jantar, para dois dedos de conversa com a malta.

Há os que vêm assim meio tocados e desertinhos de armar confusão.

Há os que entram e saem e nada dizem ou deixam para a posteridade.

Há os emigrantes que só vêm de tempos a tempos, na Páscoa, nas férias e no Natal.

Há os reformados que levam cá os dias.

Há os que falam, falam e… não fazem despesa.

Como alguns de vocês sabem, eu também já fui tasqueiro, nas férias da faculdade, para ganhar uns troquitos que tanto jeito davam. E sei um pouquinho do que é esta vida.

Um tasqueiro para ser bom tem de saber ouvir. Tem de comer e calar. Tem de ter o cuidado de ser certeiro quando opina.

E eu ouço-os falar.

Umas vezes apetece meter-me, outras nem por isso. Às vezes arrisco, outras entretenho-me a varrer a sala, a limpar os cinzeiros e os caixotes do lixo, a arrumar os jornais e a ordenar os canais da televisão.

Na maior parte das vezes, nada digo porque o tempo é sempre escasso e não me permite entrar nessas marés de opinião que tanto aqui gosto de ver. Mas leio. E sorrio.

Agora se me dão licença, tenho de ir ali arranjar as facturas que amanhã vem o contabilista.

Usem e abusem mas não me deixem a porta aberta que entram as moscas.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

O meio





Faz hoje precisamente dois anos, vivi uma das noites mais inesquecíveis da minha vida.

Faz hoje dois anos, ganhámos a Câmara Municipal de Marvão.

Hoje, ninguém se lembra. Ninguém parece lembrar-se. Eu sim.

Os meses que antecederam o dia 9 de Outubro de 2005 foram muito intensos, vividos numa dura e esforçada campanha política. Percorremos praticamente todo o concelho, acompanhados pelos nossos camaradas. Fizemos uma campanha limpa e de abertura. Ouvimos mais do que falámos. Evitámos as promessas e os facilitismos. Preferimos sempre a palavra ao choque.

Nessas semanas em que tive oportunidade de conhecer o concelho como antes nunca o tinha visto, vivi feliz por estar próximo das pessoas, por ver que tanta gente me reconhecia das Finanças (onde os tinha ajudado numa ou outra situação), por saber que sabiam quem eu era. O Sobreiro da Beirã. O filho do João. O filho da Alzira. O das senhoras da mercearia. O neto do Bota-Fogo. O genro do João Manuel Lança. O que está casado com a filha da Maria Jacinta. O das Finanças. O Pedro.

Cada casa era um posto, cada rua um desafio, cada localidade uma meta que era importante assegurar.

Conheci as pessoas quase todas. Comemos e bebemos com elas. Compreendemos e incentivámos.

Lembro-me que por ironia do destino, dois acontecimentos decisivos da minha vida coincidiram no mesmo fim-de-semana: o exame final das Finanças em Lisboa para subir de nível, no dia 8, sábado; e as eleições de dia 9, no domingo.

O estudo para o concurso final ficou inevitavelmente para trás, preterido pela vontade e pelo querer da mudança. O tempo para estudar era pouco ou nenhum, o cansaço e as saudades da família e de casa, do sossego do lar eram muitas. Animado pelas duas notas anteriores que me amparavam de alguma forma, confiei.

À medida que as eleições se aproximavam, sentimos que a nossa cotação subia. Passámos de chacota do poder instituído para séria ameaça a considerar. As apostas subiam. David parecia que ia outra vez derrubar Golias à primeira pedrada certeira.

Lembro-me de olhar para o calendário e pensar: as duas no mesmo fim-de-semana. Às tantas, nem uma nem outra. Quis Deus que fossem as duas. O exame com um 15. A Câmara com uma vitória retumbante por largas centenas de votos.

Desse domingo, recordo-me que acordei a meio da manhã, cansado da viagem de ida e volta à capital e do stress do exame. Andei tranquilo mas senti que o dia crescia e havia qualquer coisa no ar. Nos cafés e nas ruas, parecia que algo estava para acontecer. Lembro-me da cerveja no Carroça com o Bonito e dele sentir o mesmo.

Estava na Beirã quando começaram a abrir as urnas e por ali e pelas notícias que me chegavam pelo telemóvel, a mudança parecia certa. Quando soubemos que tínhamos a freguesia local, Marvão e o Salvador, segui para Santo António, onde o número de eleitores obriga a duas mesas e a uma contagem mais demorada. Pensei só dali sair quando fosse preto no branco.

Lembro-me de afixarem os papéis, lembro-me do silêncio de alguns e do sorriso aliviado de outros.

Embora mantivesse a calma e fosse o mais discreto possível, senti que não cabia mais em mim, que o meu corpo era limitado para conter tanta emoção.

Partimos para a Portagem onde quase todos nos esperavam na Casa Milhomens. Lembro-me de sair do carro quase em andamento, e lembro-me de tanta gente, quase uma pequena multidão a correr para mim, como se um mar de afectos estivesse pronto para me engolir. A minha Cris e a minha Leonor. As tias, sogros, cunhados, madrinha, primos, restante família, companheiros, amigos e camaradas num abraço do tamanho do mundo, maior do que o mundo pode conter.

Foi lindo de mais para ser verdade.

O trabalho começou logo nessa noite, organizando a caravana. Os carros eram mais que muitos, a rua entupiu, não tínhamos nada programado e queríamos ir a todo o lado. Agradecer. Agradecer. Fiz de sinaleiro e semáforo para que tudo rodasse como era suposto ser.

Lembro-me que na recta da Beirã, ainda havia carros na curva e já os primeiros regressavam, numa fila infinita que já tinha passado por todas as ruas. Quilómetros de carros, numa coisa que acho nunca antes vista.


Lembro-me de tantas bandeiras, tantos lenços, tantos braços abertos à janela e do discurso final às escuras, já noite longa, em Marvão.

Nessa noite ao contrário do que seria suposto, dormi mal. Acho que o fardo da responsabilidade já estava sobre mim.

Será que seríamos capazes de estar à altura de uma empreitada destas?

Digo muitas vezes em conversa que há miúdos que sonham em ir para o Benfica. O meu sempre foi chegar à Câmara. Não o nego. Para mim, seria a honra mais distinta que me podia chegar. Vice-Presidente aos 32 anos. Nem nos melhores prognósticos.

Foi um dia de muita, muita emoção.

O que se seguiu depois e até agora foi um processo que é público e notório, feito de muita ilusão e alguma desilusão, feito de grandes vitórias e algumas derrotas, marcado por um caminho que se faz andando.

Tenho como lema de vida o tentar tirar o melhor possível mesmo das coisas menos boas. A vida é uma aprendizagem contínua que não vem nos livros. Só se aprende quando a sentimos na pele. Que assim seja!

Hoje, passados dois anos, sinto que sou uma pessoa menos positiva, mais realista, menos sonhadora, mais madura e mais desencantada com as pessoas em geral. Estou mais homem, mais experiente, mais calmo e concentrado, com outro golpe de asa.

Perdi a visão naif de que no fundo, todas as pessoas são boas e acho que caí na real. Bem vistas as coisas, estou mais protegido aos golpes de rins.

Hoje sei distinguir o trigo do joio e sei o que quero de mim e do meu futuro.

Estamos precisamente a meio do mandato. A partir de agora, a contagem já é decrescente e impõe-se um balanço e uma análise ao trabalho realizado e ao que está por concretizar.

Enquanto escolhia as fotos para ilustrar este post, revi os rostos e as faces de tantos amigos que nos empurraram para cima e nos deram tanto de si e hoje estão irremediavelmente para trás. Foram ficando pelo caminho sem que lhe pudesse deitar a mão. Hoje estão longe para não saber até quando.

Há momentos em que a nossa consciência é o único bem que nos resta e é por isso que é tão importante mantê-la intacta.

Das imagens, fica já alguma saudade do frenesim que me corria nas veias.

Quanta emoção!

É pena que a vida não seja como nos filmes onde tudo se resolve e compõe.

Faltam dois anos de duro trabalho. Que nunca nos falte a força e a protecção. A bem de Marvão e de todos nós.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Inshalah!







Na descompressão do intenso fim-de-semana do 2º festival islâmico, vivo dias de profunda satisfação e de bem estar pessoal pelo êxito obtido. Mais de 7 mil visitantes, uma organização que funcionou ao milímetro e um evento que foi elogiado por quase todas as partes.

Os grupos de animação agradeceram reconhecidos a simpatia de todos os membros da equipa e foram unânimes em afirmar que foram recebidos como em poucos outros sítios no país. Gabaram a excelente cozinha local que deixou a anos-luz as cantinas manhosas e industriais de outros mega-eventos; a tranquilidade e a qualidade dos alojamentos e a beleza ímpar de Marvão.

Os artesãos deixaram bem claro no relatório final individual que a feira de Marvão é muito mais que apenas negócio. Agradeceram o respeito e a cordialidade com que foram tratados e alguns deles expressaram às técnicas que se sentiram aqui como em nenhum outro mercado no nosso país. Muita gente, bom negócio, hospitalidade e uma envolvente de encantar.

O Peter, que viajou por praticamente todo o mundo, que apresentou uma tenda belíssima e recheada de antiguidades de sonho, adquiridas nas suas viagens pelo Tibet, pela Índia e por toda a África, disse que Marvão é sem dúvida alguma, o sítio mais bonito de Portugal.

Habibi, o vivido negociante de pratas disse que ficou espantado por não conhecer “uma jóia assim” e que vai ficar para uma semana de férias, assegurou-me que vai querer voltar sempre.

Os visitantes, que chegaram aos magotes, expressaram as suas felicitações e a sua satisfação por tudo o que viram e experimentaram.

É certo que o tempo foi determinante e ajudou imenso e eu agradeço reconhecido a Deus ou a Alá ou a quem quer que seja, por essa dádiva dos céus. O meu amigo Hocein da Jaima dos chás, assegurou-me em conversa que essas entidades divinas são todas a mesma e eu não tenho porque não acreditar.

Começámos já a preparar a edição do ano que vem, tirando ao longo dos 3 dias notas dos acertos a fazer, apontando contactos de animação e novos postos, registando comentários dos nossos colaboradores.

Por falar em colaboradores. Sei que sou para muita gente, o rosto do êxito ou do fracasso nas iniciativas que coordeno. Graças a Deus e a muito trabalho, tenho recebido elogios que não quero só para mim porque dependem sempre da equipa que me apoia e sem a qual seriam absolutamente inatingíveis.

Por impossibilidade de o fazer de outra forma politicamente correcta, quero aqui expressar a minha profunda gratidão ao Hernâni (braço-direito na logística) e ao Barradas (braço-direito no terreno); à Felicidade, à Cris e à Ana Lúcia; à Lena, à Catarina e à minha prima Benvinda que se fartou de dar ao pedal e ao dedal na concepção das faixas tão bonitas e coloridas que decoraram todo o recinto; à Susana do Design (tens futuro!); ao Machado e ao Sr. João; ao meu vizinho Chaparro que materializou as portas que eu sonhei, ao Américo e aos pintores; ao Zé Henriques; ao pessoal da remoção do Lixo e em especial à Céu e à Maria João que fizeram um trabalho rápido e exemplar na limpeza do recinto.

Um agradecimento a todos, todos os funcionários que contribuíam para este sucesso, sejam eles motoristas ou operários, administrativos ou técnicos.

Um reconhecimento à minha equipa pelo voto de confiança.

Um abraço especial para o Márcio e para os seus motards que mais uma vez responderam ao apelo com simpatia e competência. È bom trabalhar com vocês.

Para mim, de tudo, tudinho, guardarei para sempre dois momentos que jamais esquecerei:

Os minutos antes do desfile inicial do primeiro dia, quando aguardava o final da conferência do Prof. Cláudio Torres e vi o Largo de Santa Maria completamente repleto de gente, com todos os grupos de animação, com as bailarinas, os músicos, os falcoeiros, os encantadores de serpentes, os artistas e os animadores infantis, num quadro vivo tão colorido quanto expressivo e incrível de poder viver ali; que terminou da melhor forma com um chá tal e qual como se bebe no deserto e um sol abrasador a bater de frente.

O espectáculo de fogo na entrada do castelo, no segundo dia, depois da magnífica actuação do grupo “Mirsalah”. Ninguém sabia ao certo ao que ia e ninguém estaria certamente à espera de assistir a uma demonstração daquela qualidade, com os demónios de outros tempos a saltarem de rocha em rocha com o fogo nas pontas das garras, com os cuspidores de fogo a pintarem as muralhas de labaredas e uma torre de menagem inundada pelos raios de luz e cor. Absolutamente inesquecível.

No último dia, já noite dentro, quando todos recolhiam a trouxa, apoderou-se de mim uma certa melancolia, uma irremediável tristeza por estar tudo a chegar ao fim. Depois de tanto trabalho, o som dos ferros a entrar nas carrinhas soa sempre a abandono. Consola-me saber que não serei certamente o único a sentir-me assim. Os sorrisos que diziam adeus e partiam pareciam dizer apenas até para o ano.

Já falta pouco, pessoal!

Cansados, mas muito, muito reconhecidos. E em paz.