
Não há vez nenhuma que entre num hipermercado, e com isto digo uma coisa assim a sério, tipo de Jumbo para cima, que não tenha a sensação que vou fazer a compra de uma vida, tipo uma coisa que eu quero mesmo muito, a uma preço ultra-incrível.
Sim, sim, eu sei que pode ser influência da publicidade e da televisão e dessas merdas todas, mas isto está de tal maneira enfiado na cachimónia que não consigo evitar uma estranha sensação de que me vai acontecer uma coisa em grande de cada vez que passo nas portas automáticas.
E depois há sempre aquela cena dos livros do Tio Patinhas, do gajo que entrava na loja e era o milionésimo freguês e lhe saía uma ilha no Pacífico ou coisa que o valha.
Se fosse uma pergunta da Prova Geral de Acesso, eu dizia que para mim, hipermercado (dos grandes! onde os empregados repõe os stocks de patins em linha…) é sinónimo de boa compra.
Da última vez, foi mesmo.
Direitinho à prateleira dos dvds, procurei por uma pechincha, algo que merecesse os euros e não é que encontrei aquela obra-prima que persigo há anos?
Por estas alturas, já todos sabem que para mim, o cinema é mesmo a arte maior de todas porque quando é de excelência, casa mesmo os saberes de todas como nenhuma outra.
A felicidade estava escondida no meio de muita tralha, sob a comemoração de 100 anos do cinema, por 9.90€, a brilhar como um diamante na lama, chamando por mim, e dizia a letras douradas, “Veludo Azul”.
“Aaaaahhhhh. Sim, minha jóia preciosa… Vem ao paizinho, para nunca mais saíres da minha prateleira e podermos passar juntos muitas noites na companhia um do outro”.
Sou fã absoluto da obra de David Lynch e creio que nenhum outro realizador influenciou tanto a minha maneira de ver o mundo e o cinema, como ele. Sou dono de praticamente toda a sua produção e este “Veludo Azul” era peça-mestra que faltava no puzzle.
Apesar de terem passado muitos anos desde a primeira vez que o visionei, numa noite longa da RTP, nunca mais me esqueci do profundo impacto que teve em mim e da vontade que tive de o rever de imediato.
Nos documentários que recheiam esta edição especial, surge um Lynch bem mais novo a explicar como a ideia do filme lhe surgiu e como foi amadurecendo ao longo dos anos nos confins da sua mente mirabolante. E que viagem nos preparou…
Depois do reencontro, a mesma dúvida, o mesmo mistério e o mesmo sentido de arrebatamento. Brutal é a palavra para uma obra mais que perfeita. Ali, o domínio da narrativa, os timmings, a gestão das palavras, a genial banda sonora, toda a mise-en-scene é perfeita e inigualável criando um universo onírico que serve de sementeira para todo o legado que se seguiria.
Perturbador e sinistro, “Veludo Azul” é o bilhete para um reino fantasmagórico do qual ninguém sai ileso.
Não me vou armar aqui em linguarudo e desvendar o que quer que seja que possa estragar a surpresa do primeiro impacto, mas tenho que dizer que o mais interessante de tudo é que a acção se passa em Lumberton, USA, mas se podia passar em Santo António das Areias ou qualquer outro lugar pacato, pequeno e normal das redondezas.
Já em Twin Peaks, pequena cidade industrial, também assim era porque o que se trata aqui é o mergulho nessa ténue linha limite que separa o real do irreal, e nos transporta para mundos paralelos com os quais jamais imaginamos sequer sonhar.
Aos nossos olhos, a pacata e sobranceira normalidade de um lugar quase perfeito é quebrada por uma inusitada descoberta que levanta o véu para um vórtice de erotismo, violência e loucura capaz de conduzir qualquer um à paranóia.
Elegia do submundo, queda no lado negro da alma, sem ele, não teríamos toda uma geração de cineastas que ousaram desafiar os limites e elevar o cinema ao pedestal que sempre lhe pertenceu por direito, desde que os irmãos Lumiére assim o sonharam.
E depois, os actores, senhores, os actores… um Dennis Hopper num delírio constante e em registo genial a roçar a perfeição; um Kyle Maclachlan que se revela como actor-fétiche; uma Isabella Rossellini que honra com orgulho as suas raízes cinéfilas (filha da grande Ingrid Bergman e de Roberto Rossellini), uma Laura Dern em plena graça adolescente e um Dean Stockwell que rouba o filme em 5 minutos, numa prestação que marca o início de um voo picado face ao abismo.
Diziam os professores que o homem é um animal social e quando estala o verniz… sai a besta. Este poderia ser o resumo do filme de que vos falo.
E pode o pessoal dizer, “ah, há filmes de terror melhores, há filmes de acção melhores, há thrillers melhores e acho que não gostei”. Cada um é livre de ter a sua opinião. Os filmes do Visconti põe os críticos conceituados a ladrar em duas patas e eu não suporto 5 minutos da seca. Pode haver filmes melhores mas para mim não há. Este está no Olimpo do qual jamais poderá cair. Para sempre entre os 10 primeiros!
No caso de haver interessados. Alugo a 5 euros por hora, sob fiança e com caução do BI.
De repente, o filme entrou e a minha casa ficou mais cheia.
Sim, sim, eu sei que pode ser influência da publicidade e da televisão e dessas merdas todas, mas isto está de tal maneira enfiado na cachimónia que não consigo evitar uma estranha sensação de que me vai acontecer uma coisa em grande de cada vez que passo nas portas automáticas.
E depois há sempre aquela cena dos livros do Tio Patinhas, do gajo que entrava na loja e era o milionésimo freguês e lhe saía uma ilha no Pacífico ou coisa que o valha.
Se fosse uma pergunta da Prova Geral de Acesso, eu dizia que para mim, hipermercado (dos grandes! onde os empregados repõe os stocks de patins em linha…) é sinónimo de boa compra.
Da última vez, foi mesmo.
Direitinho à prateleira dos dvds, procurei por uma pechincha, algo que merecesse os euros e não é que encontrei aquela obra-prima que persigo há anos?
Por estas alturas, já todos sabem que para mim, o cinema é mesmo a arte maior de todas porque quando é de excelência, casa mesmo os saberes de todas como nenhuma outra.
A felicidade estava escondida no meio de muita tralha, sob a comemoração de 100 anos do cinema, por 9.90€, a brilhar como um diamante na lama, chamando por mim, e dizia a letras douradas, “Veludo Azul”.
“Aaaaahhhhh. Sim, minha jóia preciosa… Vem ao paizinho, para nunca mais saíres da minha prateleira e podermos passar juntos muitas noites na companhia um do outro”.
Sou fã absoluto da obra de David Lynch e creio que nenhum outro realizador influenciou tanto a minha maneira de ver o mundo e o cinema, como ele. Sou dono de praticamente toda a sua produção e este “Veludo Azul” era peça-mestra que faltava no puzzle.
Apesar de terem passado muitos anos desde a primeira vez que o visionei, numa noite longa da RTP, nunca mais me esqueci do profundo impacto que teve em mim e da vontade que tive de o rever de imediato.
Nos documentários que recheiam esta edição especial, surge um Lynch bem mais novo a explicar como a ideia do filme lhe surgiu e como foi amadurecendo ao longo dos anos nos confins da sua mente mirabolante. E que viagem nos preparou…
Depois do reencontro, a mesma dúvida, o mesmo mistério e o mesmo sentido de arrebatamento. Brutal é a palavra para uma obra mais que perfeita. Ali, o domínio da narrativa, os timmings, a gestão das palavras, a genial banda sonora, toda a mise-en-scene é perfeita e inigualável criando um universo onírico que serve de sementeira para todo o legado que se seguiria.
Perturbador e sinistro, “Veludo Azul” é o bilhete para um reino fantasmagórico do qual ninguém sai ileso.
Não me vou armar aqui em linguarudo e desvendar o que quer que seja que possa estragar a surpresa do primeiro impacto, mas tenho que dizer que o mais interessante de tudo é que a acção se passa em Lumberton, USA, mas se podia passar em Santo António das Areias ou qualquer outro lugar pacato, pequeno e normal das redondezas.
Já em Twin Peaks, pequena cidade industrial, também assim era porque o que se trata aqui é o mergulho nessa ténue linha limite que separa o real do irreal, e nos transporta para mundos paralelos com os quais jamais imaginamos sequer sonhar.
Aos nossos olhos, a pacata e sobranceira normalidade de um lugar quase perfeito é quebrada por uma inusitada descoberta que levanta o véu para um vórtice de erotismo, violência e loucura capaz de conduzir qualquer um à paranóia.
Elegia do submundo, queda no lado negro da alma, sem ele, não teríamos toda uma geração de cineastas que ousaram desafiar os limites e elevar o cinema ao pedestal que sempre lhe pertenceu por direito, desde que os irmãos Lumiére assim o sonharam.
E depois, os actores, senhores, os actores… um Dennis Hopper num delírio constante e em registo genial a roçar a perfeição; um Kyle Maclachlan que se revela como actor-fétiche; uma Isabella Rossellini que honra com orgulho as suas raízes cinéfilas (filha da grande Ingrid Bergman e de Roberto Rossellini), uma Laura Dern em plena graça adolescente e um Dean Stockwell que rouba o filme em 5 minutos, numa prestação que marca o início de um voo picado face ao abismo.
Diziam os professores que o homem é um animal social e quando estala o verniz… sai a besta. Este poderia ser o resumo do filme de que vos falo.
E pode o pessoal dizer, “ah, há filmes de terror melhores, há filmes de acção melhores, há thrillers melhores e acho que não gostei”. Cada um é livre de ter a sua opinião. Os filmes do Visconti põe os críticos conceituados a ladrar em duas patas e eu não suporto 5 minutos da seca. Pode haver filmes melhores mas para mim não há. Este está no Olimpo do qual jamais poderá cair. Para sempre entre os 10 primeiros!
No caso de haver interessados. Alugo a 5 euros por hora, sob fiança e com caução do BI.
De repente, o filme entrou e a minha casa ficou mais cheia.











