
Muitos de vocês dirão certamente a estas horas… “Estavas desertinho… Estava mesmo a ver que não falavas nisso…”
Pois bem, a verdade é que apesar de já ter alguns dias, a controvérsia das obras apreendidas pela PSP na Feira do Livro em Braga chegou à conversa de um dos meus grupos de amigos.
Para os mais distraídos, a coisa resume-se a um livro, de título “Pornocracia”, cuja capa reproduz o quadro “A origem do Mundo” de Gustave Coubert.
E o que é que esse livro ou essa capa têm de mais? Resposta: A imagem em cima, que reproduz a obra e ilustra bem a questão.
E o que é que se passou? Houve alguns cidadãos que se sentiram incomodados por, ao passearem pela dita feira, terem dado de caras com a imagem. Vai daí, chamaram a Polícia de Segurança Pública e lá foram as cricas reproduzidas no livro todas para o xilindró.
A questão dividiu as opiniões num jantar de casais. Havia os que achavam que a polícia esteve bem e os outros, onde eu obviamente me incluo, que ficaram boquiabertos por ainda poder haver alguém, em pleno Século XXI, a levantar questões deste género.
Vai na volta e um desses amigos, defensor do não, endossa-me uma crónica do Sousa Tavares acerca do assunto, no qual o mesmo lhe dá razão. A coisa foi feita com pinta. Deixou-me na secretária uma folha A4 com o dito texto do cronista e um “Atentamente” manuscrito com a sua assinatura por baixo. (A crónica integral, clicando
aqui.)Após a leitura e assim que pude, enviei-lhe um sms de resposta:
“Não te safas assim tão facilmente. O Sousa Tavares não é dono da verdade. Por vezes, como neste caso, chega mesmo a ser ridículo e incompreensível. Aposto que era capaz de fazer um texto igualmente convincente, criticando a atitude Pidesca e descabida da PSP, o histérico excesso de zelo dos pais e a atitude burlesca do Ministério Público que se prontificou a agir com rapidez quando em casos bem mais gravosos nada faz.Volto a repetir o que disse ontem: esta tua atitude contra o livro não é dos nossos tempos. Não é do Séc. XXI. Beijinhos… na r**a!”Ele respondeu, à altura: “
Mas é tão reconfortante encontrar alguém com voz forte e que está presente nos órgãos de comunicação social do Séc. XXI…”
“
Uns fascistas do caraças, é o que vocês são! O pai dele que foi um acérrimo lutador contra o Antigo Regime, deve de estar orgulhoso do filho. Bandido!!”, retorqui ainda por via sms.
“Porra! Estás duro! Mas nós, os pidescos, até aceitamos as opiniões contrárias. Saudações democráticas”.E com esta me calou. Por ali.
A verdade é que os episódios mencionados por Sousa Tavares, o da reprodução do Magalhães com imagens eróticas no Carnaval de Torres Novas e este do livro de Braga, não podiam ser mais absurdos e vergonhosos e demonstram bem, no meu entender, a confusão que vai nalgumas cabecitas.
O do Magalhães então, é absolutamente ridículo e deixou-me de boca aberta. Então mas o Ministério Público português não tem mais que fazer do que andar preocupado com a reprodução de imagens de umas jovens com os peitos de fora? Mas esta gente não vai à praia? Não vê os anúncios publicitários aos sabonetes na televisão? Ainda por cima no Carnaval? Numa época de subversão e de diversão antes da entrada na Quaresma? Pelo Amo di Deussssss. É de levar à loucura. E depois, bem vistas as coisas, em vez de se remeterem ao silêncio, ainda dão o dito por não dito provando mais uma vez que andam a brincar com isto. Felliniano…
Quanto ao episódio da apreensão dos livros na Feira do Livro é do mais provinciano, inquisitório, medievalesco que consigo imaginar. Um homem como o Tavares, que eu até respeito imenso como opinion maker, vir-me defender a actuação dos agentes num caso destes? Vir-me falar em saloismo e falta de percepção do que é a liberdade?
Para já, a pintura que ilustra o livro é belíssima e consegue captar, no meu entender, de uma forma magistral todo o poder da beleza da mulher, seja pela perspectiva, pela inclinação e área visível do corpo desnudado, pela forma como está disposto. Depois, como todos os grandes quadros, pode ter múltiplas leituras. Pode ser uma homenagem e um hino à condição feminina, um testemunho da nossa própria existência (tal como o nome indica) como poder ser incrivelmente erótico e sensual. Depende da leitura que cada um lhe der e é aí, precisamente, que reside o busílis da liberdade: quem não quer, pode sempre virar as costas e andar.
E não me venham com a falsa e mentirosa questão que os livros eram atirados às pessoas que passeavam descansadamente pela Feira. Os poucos exemplares presentes estavam expostos e deve ter sido um desses puritanos beatos que deu com ele e se importunou. É certo que depende do livreiro o destaque a dar à obra, mas nem o número de exemplares, nem a colocação no expositor faziam antever o escândalo.
E logo o Tavares… o defensor dos fumos, de “vive e deixa viver”, dos prazeres da vida… Dá-me vontade de rir. Se não soubesse, quase que apostava que o texto não era dele.
O senhor Tavares e este meu amigo, no seu papel de talibans dos tempos modernos, não devem de saber que hoje em dia as crianças acedem à Internet quase desde que deixam de usar fraldas e basta um clique para entrarem num You Porn e terem acesso gratuito a milhões de vídeos hardcore, com milhares de actualizações gratuitas e a net está literalmente em toda a parte. Eu sei que há filtros. Eles também. E sabem dar-lhe a volta como ninguém…
Tapar o sol com uma peneira. Esconder algo que é a mais óbvia das evidências. Não saberão, por acaso, que foi por ali, pela via reproduzida na pintura que todos entrámos, de cabeça, neste mundo?
Só espero agora que sejam coerentes e passem a defender a proibição dos beijos na boca e do sexo na televisão, do Topless, da utilização da mini-saia, do uso de cosméticos, dos yogurtes magros, dos chocolates sem calorias…
E passem a defender que as senhoras só possam andar na rua com o rosto coberto…
Ele há cada um…