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Até ao último domingo, data em que aconteceram as eleições nas quais os marvanenses escolheram o elenco que nos há-de governar nos próximos 4 anos, coibi-me de publicamente expor opiniões políticas concretas para além daquelas que diziam respeito à minha esfera pessoal.
Falei da política, mas sempre da minha política, da política em que eu estava envolvido, escusando-me de opinar sobre os demais candidatos, programas e candidaturas, por me parecer que era:
a) Pouco ético;
b) Passível de ser considerado oportunista;
c) De mau tom;
d) Todas as alíneas acima.
Agora que o sufrágio passou, que os novos responsáveis foram escolhidos, que o meu cordão umbilical autárquico foi finalmente cortado, sinto que entreguei o bastão do poder que me foi confiado nos últimos quatro anos mas recuperei finalmente a licença que me permite ser verdadeiramente livre e poder dizer tudo aquilo que quiser tendo de prestar contas única e somente à minha consciência.
Eles podem ter-se livrado de um vereador incómodo mas ganharam uma consciência sempre presente e sempre atenta. Investi aqui a minha vida. Jamais abdicarei do meu direito à opinião e por consequência, à indignação.
O povo decidiu e está decidido. Contra isto, nada a dizer. O povo é soberano. O povo de Marvão vai ter, no próximo quadriénio, o presidente que merece.
As eleições foram claras, inequívocas e expressivas. O vencedor foi só um. A vitória tem o rosto de Vítor Frutuoso.
Resta saber a que preço e aqui entro eu.
Cada um tem direito e até o dever de ter a sua visão mas Frutuoso sabe a que custo obteve este sucesso.
Esta não foi uma vitória óbvia. Foi preciso muita pressão, muita manipulação, muita promessa vã, muito uso de poder para se lá chegar.
Quem sabe ler os dados, os factos e o quotidiano, sabe que esta foi uma vitória alicerçada sobretudo no voto dos mais idosos, nos que estão mais desprotegidos, nos que mais facilmente caem no engodo, naqueles que basta uma lâmpada à porta de casa; uma passadeira na rua; uns metros de alcatrão de uma carrinha branca que esteve permanentemente ao serviço do partido e dos votos; uns minutos de graxa; ou um favor, por fortuito que fosse, para os convencer. Foram eles, a parte mais significativa da nossa pirâmide demográfica, a facção mais expressiva do eleitorado que lhe entregou de novo o poder. “Ele fazer… não faz… Mas fala-nos tão bem, é tão meiguinho… é como se fosse da família e a gente gosta tanto dele…”. E assim… seja!
Depois, nestes quatro anos à frente da câmara, Frutuoso soube criar e consolidar uma forte base social de apoio conseguida à custa de pessoas que se encontravam fragilizadas pelo desemprego e passaram a ter uma ocupação fixa gerada pela criação de novas empresas dependentes da autarquia e da vontade do presidente (Marvãorur e afins). Mesmo que nunca alguém saiba dizer onde é que termina a promiscuidade, onde começa a câmara e acabam as afiliadas, vale tudo desde que se garanta um tacho, mesmo que temporário. Os tentáculos estenderam-se à Anta, à nova Unidade de Cuidados Continuados e continuaram por todos os campos e territórios (chegando até a Portalegre!), todos onde pudesse fazer valer o seu raio de influência. Dizia-se a viva voz, nas conversas de bastidores que “o Senhor Presidente meteu…”, “o Senhor Presidente encaixou” e todos eles bem sabiam que atrás de um emprego, vêm no mínimo quatro votos. Mais uma jogada certeira.
A vitória foi clara, mas na sua génese está também a fineza fria de quem se soube alimentar de falsas solidariedades e do sofrimento alheio para alargar a sua base de apoiantes, que nunca são demais! Se alguém na família adoecia e precisava de apoio, lá aparecia ele oferecendo o cartão e os préstimos “para o que fizesse falta” e só quem nunca teve um familiar nessas condições é que não sabe o real valor que esse gesto tem num momento de fragilidade. Ficaram também célebres os seus raides aéreos de beijos e cumprimentos nos funerais e quem é que verdadeiramente se importava se conhecia ou não o(a) infeliz que levou caminho? Há melhor maneira de arrematar uma vida do que com um adeus com o selo da autarquia? Votem então!
A guerra dos votos é crua e dura e nestes domínios vale tudo nem que seja fazer propaganda utilizando os dinheiros da autarquia. Editar dois boletins informativos a escassos meses das eleições, utilizando os recursos e as verbas que são públicas, não é jogada para todos. É preciso ter saber e arte e não ter um pingo de dignidade ou escrúpulos. O culminar deste processo chegou aos funcionários por correio, a escassos dias das eleições, através de uma carta em papel timbrado da autarquia onde Frutuoso bateu no limite da humilhação, dizendo-se amigo de todos, disponível para tudo, sempre ao lado de quem trabalha. Haver pessoas que ainda hoje acham o acto justo e legítimo, é algo que está para além dos limites da minha compreensão.
Todas estas são pistas para uma imenso desfile que terminou em grande, com a sua reeleição.
Episódios e exemplos são coisas que não faltam. Tomemos o caso da Fonte da Portagem, obra polémica e que tanto deu que falar. Uns concordam, outros discordam mas numa coisa estamos todos certamente de acordo: demorou muuuuuito, muito tempo a ser concluída. Não houve pessoa que por ali passasse que não comentasse a lentidão do andamento dos trabalhos, sobretudo num sítio central onde todos os dias passam centenas de pessoas. Que a obra dos Currais Martins tenha demorado anos e anos, já ninguém estranha. No ermo onde estava localizada, do mal o menos… agora ali, na Portagem? Não houve quem não reparasse, incluindo os próprios funcionários… E que decidiu Vitor Frutuoso perante o exemplar desempenho dos trabalhadores? Nada mais simples: uma bruta almoçarada para todos, paga com verbas do erário público, que o que é falta é animar a malta.
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Os funcionários, por muito que o neguem como Pedro ao cantar do galo, também votaram Frutuoso. Já diz o povo: "Antes burro que me carregue que cavalo que me derrube". Certo?
Isto para não falar nas sondagens informais sobre tendência de voto familiar feitas à revelia… as promessas fosse do que fosse… casas, empregos, apoios… convém não esquecer que em tempo de guerra não se limpam armas.
Foi, de facto, uma grande vitória. Indiscutível na forma. Muito pouco verosímil na legitimidade.
Escreve movido a rancor, dirão uns. É uma vingançazinha rasteira, alvitrarão outros.
Nem uma coisa nem outra, respondo eu a todos de uma vez só. Apenas um homem que em democracia, dando a cara, defende aquilo em que acredita e está disposto a não calar. Jamais!
Vão ser 4 anos muito duros. A andar para trás…
Eu conheço o Presidente da Câmara. Fui um dos que ajudei a criar o mito e o monstro. Sei o que (não) vale e daquilo que é (in)capaz e de cada vez que penso nisto, digo-vos com sinceridade, mais feliz e aliviado fico por saber que vou virar as costas a tudo e ver-me livre da incompetência e da falta de rigor com a qual me vi obrigado a lidar. Lamento pelos funcionários, sobretudo pelos exemplares, os mais competentes, os que dão de si pelo bem da instituição. Esses sabem que não vai ser fácil. Mesmo!
E ao Presidente deixo, apesar de tudo, um conselho: um pouco mais de trabalho! Fazer Marvão andar para a frente não é compatível com o part-time de chauffeur que entra às 10h e sai às 16h. Uma votação destas merece, no mínimo, um pouco mais de dedicação e de trabalho. Há que se aplicar mais!
Por falar em trabalho, uma palavra especial de apreço para o novo Vice-Presidente, Luís Vitorino. Atendendo às suas capacidades e ao seu extraordinário percurso pessoal, profissional e social, somos todos de esperar o melhor. As gerações de homens e mulheres que tiveram o prazer de serem seus contemporâneos nos tempos de escola da Beirã, sabem que desde bem cedo se afirmou como uma figura emergente, como um líder nato, uma pessoa que parece talhada para o cargo. Sem margem de dúvidas…
Valeu ainda a vitória para a concelhia do PSD que ganhou créditos na distrital e ao nível nacional ao conseguir reafirmar o candidato pelo qual todos lutámos há 4 anos. Cada vez mais presa aos barões do costume, cada vez mais limitada e caciquista. Uma mágoa… ver o meu partido assim… descaracterizado. Uns por protagonismo, outros por claro interesse, todos juntos e blindados para que nada lhes escape. Cá estaremos no palanque, para quando as promessas começarem a ser cobradas. A ver vamos… Será que dá para todos?
Mudando o baile…
O Partido Socialista foi, sem sombra de dúvida, o grande derrotado destas eleições. O erro de casting do candidato pagou-se caro e a aposta falhada da direcção da concelhia liderada por Vitor Nicau deveria, no mínimo, custar também a cabeça da actual liderança. Nuno Lopes pode ser um excelente técnico, faculdade da qual penso que ninguém dúvida, mas isso não chega para Marvão. Faltou-lhe o carisma, a popularidade, o saber estar entre as nossas gentes. O Nuno não é natural concelho e por muito que seja actualmente do Porto da Espada, não consegue disfarçar a costela citadina que amputa a sua livre convivência com o povão. Nem nos cartazes conseguiu disfarçar o seu ar de boxeur destemido que afugenta a clientela e faltando-lhe a oratória, como ficou mais do que provado na sua desastrosa prestação no debate da Rádio Portalegre, deitou tudo a perder. Seria um Presidente esforçado e certamente valoroso, porque o vejo preocupado com o futuro do concelho onde também investiu e reconheço-lhe a dinâmica e a vontade de fazer mais, mais isso não chegou.
O sufrágio para o PS saldou-se ainda por um puxão de orelhas à contratação de um médio-centro que nem para apanha-bolas deu. Ao candidato Raposo, não restam mais partidos para onde fugir.
Quanto ao Luís Costa, percebeu da maneira mais sofrida que muitas vezes não basta a simpatia, a boa vontade e uma imagem para singrar.
Os louros da vitória foram inteirinhos para o Presidente da Junta de Santo António, o já consagrado José Luís que foi o único a safar-se e volta a brilhar como um oásis num deserto… laranja.
Os Juntos por Marvão de Madalena Tavares ficaram aquém das expectativas mas conseguiram, ainda assim, uma votação expressiva e que deve de ser levada em linha de conta. Madalena foi corajosa e teve o mérito de contra tudo e contra todos ter conseguido orientar a sua vontade própria e sua determinação em direcção a um sonho que passou a ser de muitos. Passo a passo, com ponderação, reuniu à sua volta um conjunto de ilustres figuras da nossa praça que certamente seriam desdenhados por muitas outras listas e partidos. Muitos amigos, muita gente de valor, muita crença e um movimento que me fez recordar o nosso de há quatro anos, sobretudo quando me chegaram relatos da forma como foi elaborado o programa, em assembleias abertas e participadas, de ouvidos colocados em todos. Acontece que os programas são importantes… mas não para Marvão. Aqui, valores mais altos se levantaram… A vida continua.
Duas notas finais de apreço…
Uma para o Fernando Gomes e os seus românticos (sem nenhum sentido pejorativo, antes pelo contrário) do Movimento com Marvão, a candidatura que apresentou, de longe, a melhor concepção gráfica e a melhor imagem. Revelaram uma dedicação à causa e ao concelho que me chegaram a emocionar. Sinceros nos projectos e nos relatos, foram o David que se sabia incapaz de derrotar o agora poderoso Golias mas foram tão puros e tão bravos que mereciam o “Prémio Consolação”. Conheço Gomes desde os tempos de ciclo e sei que sempre foi assim… um animal político. Aquilo está-lhe na massa do sangue e quando assim é, há que dar largas à paixão. Tem aprendido muito nos campeonatos sindicais por onde se move lá pela capital e está mais refinado e eloquente. Ele, mais do que ninguém, sabia o risco desta aventura, como sabia que só por ter ido às urnas já teve a sua própria vitória. Soube chamar a si jovens de grande valor e futuro e pontuou. Parabéns, meu caro!
Contudo, a esquerda de Marvão aprendeu a lição,
Só reunindo os filhos perdidos, pode chegar a ser opção.
A nota finalíssima vai para o Dr. Brites. Goste-se ou deteste-se, é um enfant terrible e uma figura que conquista pela galhardia e irreverência. Só um homem como ele seria capaz de ir às urnas apresentando uns cartazes em que mais parece ter saído de Alcoentre ou Pinheiro da Cruz. É o último dos aventureiros e uma personagem digna de romance. Pode-se questionar o estilo, a pose, os métodos, a linguagem e as tomadas de posição mas… a inteligência e sobretudo, o amor pelo concelho, não!
Ao deixar cair o pano, um abraço reconhecido a dois companheiros de luta que me marcaram pela sua forma de estar na política. O meu muito estimado Presidente da Assembleia, meu querido amigo Dr. Carlos Sequeira e o meu cunhado e amigo de longa data, Dr. Fernando Dias (que esquisito que isto soa assim, pá! Bonito é mais fácil!). Um elogio sincero pela elevação, pelo altíssimo nível de intervenção política e pela notável representação do concelho e das suas gentes. Os nossos antepassados estarão certamente orgulhosos do vosso trabalho. Merecem tudo! O concelho vai voltar a precisar dos vossos préstimos no futuro. Disso não duvido.
E prontos, meus amigos, assim se faz política em Portugal e no concelho e eu aqui vos deixo, que o relato já vai longo.
E perguntam-me: “Ó Pedrocas, não tens pena?”
“Tenho!”.
“Não te custa que tenha sido assim?”
“Muito!”.
“Não fica mais difícil respirar num concelho assim dirigido?”
“Fica! Sobretudo para um asmático…”.
Mas digo, “Ainda assim… há coisas piores. Vamos vivendo!”
A vontade era atar uns balões à casa e fazer como o outro que se marchou para a Patagónia mas que fazer? Os alicerces da minha são fundos que eu sei lá…
Há que gramar o “prato do dia” mas sempre… de olho vivo e língua afiada.
Um abraço, do vosso,
Pedro Sobreiro