quinta-feira, 10 de abril de 2014

(Vitória na) Eurovisão

Rodrigo foi grande, mas Sálvio, o recém regressado de uma baixa demorada e inesperada, ainda à procura da plena forma foi GIGANTESCO!
Foi uma noite europeia de glória para mim, que Benfiquista e anti-portista me assumo.(ainda mais? Outra vez?!?!?)

A vitória (incontestável e tranquila) por 2 na Luz selou a nossa supremacia nesta fase da Liga Europa.

A derrota (humilhante para eles) do Porto em Sevilha foi também motivo de regozijo. Sabem como eu sou: claro e direto. O que é, é! E não há como fugir às realidades. Eu sei que é mau para o futebol português por causa dos rankings, do prestígio e dessas merdas todas. Mas dá prazer a mim. Eu gosto que o Porto perca. E porquê? Será que sou refundido? Será que não consigo lidar com o triunfo de um outro clube nacional? Será que penso que o sol quando nasce é só para o Benfica?

Nada disso e quem me conhece (bem) sabe que não gosto da maneira do Porto estar no futebol e na vida. Tenho amigos que são do Porto, é um facto, mas ninguém é perfeito e todos temos de ter algum defeito.

Tomemos o caso Quaresma que penso que ilustra bem aquilo que digo (e penso). Foi um jogador criado no Sporting Clube de Portugal onde se estreou com 17 anos e brilhou ainda antes de Cristiano Ronaldo. Ali se formou, ali aprendeu quase tudo e desenvolveu a sua técnica primorosa. Entrou para o Porto em 2004, mas renega por completo o seu passado sportinguista e refere-se sempre ao Porto como sendo a sua paixão (bem ao contrário do Futre). Teve uma atitude absolutamente lamentável no final do jogo em que o Nacional venceu o Porto e perdeu a cabeça sobretudo com Marçal que não afiambrou porque os colegas (de profissão) se meteram ao barulho. Reação do clube? O Papa do norte acusa os outros de xenófobos, defendendo o menino. Mesmo que lhe tenha dado uma reprimenda interna (o que eu não acredito), tudo isto é um comportamento do tipo camorra, do mais requintado estilo cosa nostra.

Aeeeeeeeeeeeeeeeeeeee ê vô chamá mê pai, mês primes e mês irmões e te façu a fôlha...

Isto não é salutar, isto não faz bem, isto não causa bom impacto nos outros. O que me choca no Porto e com o que não posso de todo concordar é com a arrogância, o ar de supremacia.  

Podem ter ganho a Liga dos Campeões há 10 anos com o Mourinho que foram buscar ao Benfica. Nada a dizer. Ninguém tem culpa das preferências etílicas do Vilarinho pelo Toni. Tudo legal, portanto. Mas a altivez que se seguiu é o que me enoja. Não há ali um pingo de humanismo. Vê-los agora cair… é bom.

O Benfica segue glorioso e merecedor do que vier amanhã no sorteio às 11h. Vamos lutar pela final que esperamos não perder de forma inglória como a do ano passado. Sei que eles nos desejam o pior. Eu compreendo. Sou um espelho, aqui.

A fratura de tíbia do Sílvio foi o único (grande) senão numa noite que tinha tudo para ser grande. É (tão) lamentável que o lance fortuito com um colega de equipa tenha colocado fatidicamente termo a época e rasgado os bilhetes de avião para o Brasil. Mas o futebol é tão imprevisível como a vida e há que aceitar que as coisas nem sempre são como queremos.   

Hoje, para mim, foram.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Nebraska



Com a primeira-dama a trabalhar na Tower of Marvão, a Leonor na piscina em competição de natação e a benjamim a passar a tarde com a prima na casa dos avós depois da aula de zumba no GDA, naquele que diz ter sido o seu “dia mais feliz de sempre” fiquei com a tarde… livre para mim! Uma coisa verdadeiramente extraordinária porque viver dá imenso trabalho. Como o meu smartphone indica onde gasta a energia (W no monitor, Y no android, Z na web), também eu gasto a minha energia em ser pai, ser marido, ser trabalhador do estado, ser chefe de redação do blogue, ser amigo, ser parente e… fico com pouco tempo para mim. Para mim sozinho. Para fazer o que me dá na bolha. Para ser egoísta.

Sou um apaixonado de cinema. Se há arte que me gala a gata, é a cinematográfica. Gosto muito de um bom disco, de um jornal, de um bom programa de televisão, não sou tanto de livros, mas não há nada, nada, que chegue a um bom filme.

Para a vida correr como eu quero que ela corra bem, um filme por semana deveria ser o mínimo. Sei que nem sempre me dou ao luxo de ter essa regalia mas desta vez foi demais. O último filme que vi com olhos de ver (dentro da cabeça) já foi há quase 2 anos: “Os Descendentes”. Deste mesmo realizador, Alexander Payne, do qual já vi todos os filmes.

Confesso que sou um cinéfilo atípico. Porquê? Quem percebe de filmes fala de fotografia, luz, planos e outras cenas técnicas. Para mim, um filme ou é bom e eu gosto ou não gosto e ponto. Se gosto é porque transmite alguma coisa ou porque dá prazer a ver. Os filmes bons podem ser de 2 tipos, portanto. E sou um gajo que funciona muito por realizadores. Há tipos dos quais sigo o rasto e não falho uma pegada. Quentin Tarantino, Tim Burton, o tal Alexander Payne, Darren Aronofsky. Depois há os clássicos que convém revisitar: Scorcese, Coppola, Kubrik e afins.

Outra prova que sou atípico é porque na faculdade levaram-me a ver “O Leopardo” do Luchino Visconti dizendo que era uma obra magistral muito recomendada por um professor e eu, devo ser muita burro porque achei aquilo uma real cagada. Bonitas imagens, bonitas cenas nos bailes mas… uma obra prima?!?!?! For god’s sake. Obra-prima é o “Reservoir Dogs” onde com um low budget, com recurso à sabedoria e experiência dos atores, à mestria do argumento e à sapiência de Quentin Tarantino em mexer nas câmaras e orientar a orquestra, se fez um hino ao cinema. Isto para não falar na bomba celestial que se seguiu em Pulp Fiction.

O Alexander Payne é muito bom. Tudo o que toca... é bom, ponto. O “About Schmidt” com um Jack Nicholson superlativo levou-me às lágrimas no final. E quando um realizador consegue fazer essa proeza, prova-me que vale a pena. Sempre.

“Sideways” é um road movie com humor muito próprio e gostoso. “Os Descendentes” recorda-nos aquilo que é realmente importante na vida e vi-o numa altura da minha em que também ela me tinha ensinado isso.

Antes de escrever sobre Nebraska, tenho de escrever como e onde o vi. Hoje os cinemas estão quase todos a fechar portas por falta de público e o MEO cobra caro por um filme no videoclube quando já pagamos tanto de assinatura. Pior que os 3 euros desembolsados na nossa própria casa, é o atraso inexplicável com que os filmes são disponibilizados que mais choca. Contra tudo isto e sem ter de fazer qualquer download ilegal, bastou-me pesquisar na net para poder ir ao tuga-filmes.com e ver o filme legendado em português com óptima qualidade. Os apoiantes no facebook já são mais de 15.000. Muita gente para se prender de uma assentada. Tudo poderia ser muito mais legal se cobrassem 1 ou 2 euros e disponibilizassem logo os filmes. Ça va? Ora tudo isto era o meu sonho de criança que queria tanto um cinema quando não havia um e teve de ir pela mão das tias ver a estreia do E.T. a Valência de Alcântara. Esta era uma possibilidade inimaginável num futuro próximo nesse então. È uma realidade hoje em dia. Admirável mundo novo, como eu costumo dizer.


O cartaz dava boas pistas. Chamava-lhe “o melhor, mais completo e satisfatório do realizador”; “um dos melhores do ano” e “uma obra de arte”. Quem o diz deve ser entendido apesar de desconhecido e deve saber da coisa mas eu apenas digo que Nebraska conta a história do idoso com um passado alcoólico e muito pouco crédito na família que se convence que ganhou 1 milhão de dólares numa publicidade enganosa que recebeu no correio. Decidido a ir levantar o prémio, contra o vontade da mulher e do filho mais velho, conta apenas com a determinação do filho solteirão, um perfect nobody que vive sozinho porque a namorada o deixou, farta de lidar com a sua total indefinição. Apesar de saber que o prémio não existia, David decidiu apoiar o pai e fazer a viagem que ele tanto queria para ver se o conseguia convencer do logro quando chegasse ao final. Uma viagem nada fácil porque o fantasma do álcool se foi atravessando no caminho de ambos e ao regressarem onde já tinham vivido, tiveram de lidar com problemas com a família e antigos “amigos” potenciados pelo drama da fortuna. Mais um caso que prova que o dinheiro e o poder que tudo transformam e tudo revelam.
  


Num preto e branco belíssimo, duro como o horizonte sempre nevado, vai-se desenhando um filme de afectos no qual o filho vai conhecendo melhor o pai e este se vai revelando pelas pessoas que foram povoando a sua vida como os sócios nos negócios falhados ou o grande amor perdido. A redescoberta pessoal do pai na viagem acabou por ser o milhão de dólares para o filho. Para o pai, bastou-lhe o chapéu de milionário de consolação e, no final, uma camionete nova como queria, carregada com o ar comprimido que tanto desejava se o dinheiro existisse mesmo. David fez-lhe a vontade, trocou de carro e deixou-o voltar a conduzir. Entrou assim para a minha galeria de heróis na tela, aqueles que conseguem dar um pouco de si para que os outros sejam felizes. Para fazer o pai feliz, deu de si e fez-lhe a vontade.






Pejado de grandes actores, Bruce Dern destaca-se pelo papel de pai que representa o culminar de uma carreira. Will Forte está muito bem como David.

7/9 no Internet Movie Data Base

8 em 10 para Pedro Sobreiro.


domingo, 6 de abril de 2014

Kumba. Iálá!


É com grande pesar que o blogue Vendo o Mundo de Binóculos do Alto de Marvão comunica a todos os seus leitores a triste notícia do falecimento do nosso colaborador na República de Guiné Bissau, Kumba Yalá. Quando realizámos as provas para admitirmos colaboradores deste blogue para Àfrica, foi o primeiro a apresentar-se a exame na 24 de Julho, logo pelas 5h da manhã, ainda nós não nos tínhamos deitado.

Presidente da República da Guiné-Bissau, porta-voz do continente africano e apoiante deste blogue desde a primeira hora, nunca cedeu às pressões políticas do PAIGC de Nino Vieira, nem do general Ansumane Mané e sempre nos defendeu, nem que para isso fosse preciso carregar a escopetas que os bolcheviques lhe regalaram em Moscovo ou afiar a catana que trazia sempre consigo para coçar um ou dois.


Homem de fortes valores e princípios, não foi por ter sido o vigésimo filho de um casal de agricultores que não tinham dinheiro nem para comprar a roda de um trator que se deixou intimidar. Chegou a ser presidente do seu país e foi um homem que apareceu muitas vezes na televisão. Mais de 10.

Singular e primando sempre pela rebeldia que nos caracteriza nesta redação da Manuel Pedro da Paz, nunca adotou um nome português e converteu-se ao islamismo quando toda a gente lá na sua terra acredita no nosso senhor Jesus Cristo. Poliglota, sabia falar muita língua para além de saber saborear língua viva de cachopa gostosa e de vaca estufada tenrinha. Sabia português, crioulo, espanhol, francês,inglês e podia ler em latim, grego e hebraico o que é uma proeza extremamente difícil quando não se é judeu.

Estudou Teologia na Universidade Católica Portuguesa de Lisboa que é uma das melhores do país a ensinar esta matéria nada fácil, depois estudou Filosofia e ainda Direito. Apesar deste currículo que deixa qualquer membro do governo a abanar (sobretudo o Relvas que já lá não está), toda a gente se lembra dele como o homem do barrete vermelho. E o burro, sou eu?


Barrete que ainda hoje me leva às lágrimas de tantas recordações. Aquela gofia vermelha foi tricotada pela minha tia Natércia e foi-lhe oferecido por mim no Parque das Nações de Santo António (aka. Mercado Municipal) quando assinámos o acordo de colaboração entre o blogue e ele, com Àfrica pelo meio.

Ainda me lembro desse momento como se fosse hoje:

- Kumba, para selar este ato tão solene e para que recordes esta ligação que hoje aqui estreitamos, gostaria de te ofertar este barrete vermelho porque te sei fã do glorioso, feito à mão, com muito amor para que nunca tenhas frio na cabecita quando dormes.


Ele, sempre simpático, agradeceu e, não percebendo nada do que lhe tinha dito porque o vinho tinto que bebemos antes era bruto, pensou que lhe tinha dito que se tirasse o barrete deixaria de ser colaborador do blogue. Nunca mais o tirou! Nem sequer para tomar banho porque as pessoas realmente asseadas não precisam de água. São como os gatos. Ele deu-me um dente de elefante que acho que anda ali para a garagem. Duma vez quis mete-lo no maxilar de cima como a minha tia Maria tem um de ouro e o dentista disse que não conseguia. Nunca mais lá voltei.

Kumba partiu. Mas há-de estar sempre aqui no meio da gente. E agente sempre com ele. Kumba foi para baixo da terra. Despido de pertences mundanos. Mas com o barrete enfiado.



Até sempre, camarada Kumba. Iá lá, camarada!

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Olhó carapau!



Tasca do Binóculo:

Hoje:
Entrada: Carapaus de escabeche

Na Assembleia da República, um deputado do Bloco de Esquerda no seu estilo cassete comunista/versão ipod reclama que a situação está de tal forma gravosa que até as licenciadas têm de se prostituir para conseguirem sobreviver.
O Pedrocas, no seu estilo agastado e esmorecido de tanto embate, contradiz o evidente  alegando que “o senhor deputado é que insiste em inverter as coisas. O prisma correto é que o nosso sistema de ensino está tão bom que até as putas são licenciadas.




Prato do dia: Lacão assado no forno (de primeiríssima água)



segunda-feira, 31 de março de 2014

O mundo (mágico) da Alice



Que nos regala todos os dias com a sua grande sabedoria. Saber que defende ser inato, ao responder ao nosso espanto perante o que diz e faz sempre com grande naturalidade, argumentando que aprendeu tudo… sozinha.
“Alice… que fantástico! Quem é que te ensinou?”.
De seco e sisudo do alto dos seus 4 anos: “Eu”! (com a mesma certeza de Jesus em tenra idade quando encantou os sábios no templo.)

I
A relva gastava muita água, criava muitas raízes que eram incómodas e dava imeeeenso trabalho a tratar e a cortar mas eu disso nem me queixei que o da faxina aí era eu. Mas vieram as ordens, não da Troika, mas da directora de espaços verdes (só?) cá do rancho que a relva era para substituir e fora com ela! À frente do portão ia passar a ser uma língua de cactos e pedras de granito. Os cactos têm sido alimentados em pousio em vasos diversos e vindo a ser há muito estimados e preparados para a grande transferência. A pedra foi recolhida numa regressão nómada a restos de calçada na mãe velha. Com a mais velha a estudar, saiu o Twingo em caravana com os Sobreiros e a chaparrita mai nova. Sacos do Pingo Doce na mala e um brilharete logo à saída.
- “Pai, eu gostava muito de ter um animal de estimação novo”.
- “Sério, filha? E qual era?” (depois dos recentes peixe Guilli Lala e da canária Kika).
- “Um camelo!”
- “Gostavas de ter o quê, Alice?”
- “Ah… uma Girafa. UMA GIRAFA É O MEU ANIMAL PREFERIDO!
- “Filha, acho fantástico e assim que vir uma a vender ali no mercado vou-ta logo comprar. Depois podemos ir passear todos com ela”- respondendo com ar moderado para ver se conseguia acalmar os ânimos que ficaram logo exaltadíssimos só de se imaginar de mão dada com o bicho pelo bairro dos Outeiros fora.



II
A caminho do local de recolha das pedras, falando em animais oriundos de paragens exóticas, de uma tirada só: “quando se faz cá de noite o dia vai para a Austrálica dos cangurus.”
- “Sério Alice?!?!?”

A A-u-s-t-r-á-l-i-c-a é muito bom. Dos cangurus ainda melhor. Já nem caí no erro de lhe perguntar quem é que lhe tinha ensinado isso mas a interjeição foi uma forma de conseguir ganhar ar para respirar, mantendo um ar composto. É que ela reage muito mal ao nosso riso quando acha que “não dá graça a mim”. Da última vez que isso aconteceu foi ao tirar-lhe esta fotografia no sótão com uma máscara que por lá encontrou. Ela de ar desconfiado e carrancudo com a mascarilha. Eu, a pedir-lhe para fazer um ar simpático e a sorrir, sorria também sem querer por trás do telefone. “Não te rias!”, mandou ela. Eu reajo da pior forma a estes seus ultimatos: rio-me ainda mais. Afiambrou-me cada chapadão com ar zangado e vingador que quanto mais me doíam, mais eu me ria. Nem ralhar consegui. Belo pai. Até fiquei com a tromba dormente.












III
Fez da mala do carro uma suite presidencial, uma piscina, um trampolim e a dada altura, quando tive que deixar descair o carro meia dúzia de metros para não andarmos com os calhaus às costas, deixei-a estar apenas sentada no banco de trás.
(Com ar MUITO satisfeito e convencido) “Isto é mesmo divertido. Ainda nunca tinha andado assim no carro sem ser na cadeira! É bom…”




Os arranjos decorativos foram esmerados e meteram muita mão de obra. O arranjo ainda está em andamento. Coisa de arte não é para se fazer. É para se ir fazendo. Aposto que vai demorar menos tempo que a Sagrada Família do Gaudí em Barcelona.







A reforma agrária era extensiva à vizinhança. Gente trabalhadora.Até o meu primo Sami andou com uma mini charrua a puxar a erva. 

IV 
Sábado à noite e o seu programa de televisão preferido. O show que gosta mais de ver. Não é o Big Show SIC mas deste gosta ainda mais que o “44” (Disney Channel), o “Jake e os Piratas da Terra do Nunca” ou a “Drª Brinquedos”: o sorteio do Totoloto. Adora ver as bolas a rodopiar e não admite que mais ninguém se meta à frente ou interrompa.

Leonor: - Ó Alice, mas tu não jogaste! Não te pode sair nada…
- Ai pode, pode. Hoje saiu-me a mim. (porque conseguiu ver o sorteio.)


V
Cris: - Estás com soninho, Alice? Queres que vá para a cama contigo? Estás cansadinha?
- Não! Estou só a bocejar.

Bocejar! 4 anos.


VI
Como se o dia não tivesse sido tão cheio, para terminar quis brincar às escondidas. Da primeira vez não me conseguiu encontrar e ficou zangada.
- Ó Alice, mais não que já brincámos muito hoje. Eu também já estou cansado.
- Ó pai… só mais uma vez. (com uma energia estonteante e esgotante)
- Tá bem. Mas só mais uma vez. Contas até 10 e vais procurar-me.
- Ó pai, qual é o número depois do 10?
- 11.
- Ah…


VII
Pra fechar?
- Agora eu sou a mãe e mando em vocês todos! Batam todos 3 palmadas!
- ?
- Assim, “um, dois, três”.
Dicionário Alicês - Palmadas=Palmas. Tá bom. 

sexta-feira, 28 de março de 2014

Weekend jukebox (a tocar a mando do vosso tio favorito)


Por esta Primavera outonal ou invernal é que já ninguém estava à espera. Quando já andava tudo de camisinhas de cores vivas, lá vem o bom do meu colega São Pedro a mandar toda a gente a ir ver do tal casaco ao armário ou ao saco da arrecadação. Um frio do catano, é o que é. De vez em quando ainda me ponho a olhar para a minha lareira tão linda, tão limpinha, com um recuperador tão novo que comprei no ano passado quando fintei a Troika e o orçamento. E se lhe deitássemos fogo? Eu sei que isto há-de passar, que estamos aqui, estamos no São Marcos a comer pipocas, a andar de carrinhos de choque, a ver a tourada e a beber com os amigos… uma preta sem álcool. Mas… mesmo assim, onde é que deixei as acendalhas? Ah... já está.

Mas ânimo que isto tem de melhorar porque ainda por cima neste fim de semana os dias crescem 1 hora inteirinha e a gente deixa de estar aprisionados neste horário estapafúrdio que faz anoitecer tão cedo. Eu quero lá saber se fica de acordo com o resto da Europa! Eu quero quanto a este assunto é que a Europa se amole. Tudo bem que mandem para cá o dinheirinho e a gente cumpre tudo muito bem mas quanto à hora, não me amolem. A nossa hora deveria ser sempre esta que vai passar a ser a partir de sábado. Mai nada!

Como estamos de fim de semana, frio mas fim de semana na mesma, sai um post sobre música para abrir o weekend. Um post que pode ser visto de forma rápida (como um cliente que pede um café e sai) ou degustado (como o cliente habitual da taberna que bebe os seus tintinhos das ordem e não falha o petisco). Traduzido: vê e sai; ou vê cada vídeo, amplia a imagem em full screen, admira o vídeo (porque todos merecem), percebe as letras, dá a visita por válida.)

O tasqueiro faz uma breve introdução a cada entrada, como se fosse um Disco Joker como já foi. Duma vez meti música na tenda da Portagem, ao estilo vereador DJ informal de braceletes apesar do frio da passagem do ano, e tive o meu amigo Paulo Furtado, mais conhecido por Legendary Tiger Man, a dançar de grande ao som dos Wraygunn. (a sua banda que compôs o disco em Marvão e me deu direito a ter o nome inscrito na lista de agradecimentos. Se isto não é coisa para a gente mostrar aos netos, digam-me lá o que é, ó fachavor?) 

Miguel Araújo e Inês Viterbo – Balada Astral


Este rapaz é um caso sério. Se no outro dia elogiei aqui o Tiago Bettencourt, este não se fica muito atrás. Se um é o Palma, o outro pode ser o Godinho versão anos 2000. A melodia é lindíssima de simples e tem as palavras todas bem metidas no sítio. O ter sido composta para ser cantada num casamento de amigos, por uma desconhecida nisto do canto, não sei se é verdade ou já é parte da lenda mas acho que ouvi algures que isto era mesmo assim. Se for, ainda melhor. Nota 4. Vídeo muito caseirinho e confortável. 

Shakira - Can't Remember to Forget You ft. Rihanna


Este vídeo é só porque sim e por as protagonistas serem quem são. Epá… eu sou homem, o que é que querem? Tive de ir espreitar. Imaginei, imaginei, mas tive de ir espreitar. A barriga e as ancas (que não mentem) da Shakira; o tom de pele e a cor dos olhos da Rihanna prometiam. Percebo porque é que é uma estrela global do facebook ou Twitter ou lá o que é. Seguidores? Não sei quanto milhões, mais um. Eu. Nota 5 pelo vídeo, pelas música e por tudo. “Eu não m’alembra de te esquecer” é muito bom. As duas semi desenudas a fumar charuto e a esfregarem-se nas paredes é coisa para ma dar uma dor de cabeça que nem vos conto. Forte demais para se conseguir descansar à noite. GGGGGGGGGGGGGGGrrrrrrrrrraaaaaaaaaaaaaaaaaaauuuuuuuuuuuuuuu.
- "Ladra, filho. Ladra!"
- "MIAUUUUUUUUUU!" (Ó Bitchi...)


George Michael - Let Her Down Easy


Já aqui disse que adoro tudo o que este homem cantou e escreveu depois dos Wham!. É um caso estranhíssimo de bom gosto que não sei explicar. Tentei aqui mas não sei se consegui. Uma das maravilhas da internet é que um gajo consegue aceder aos vídeos e aos discos com facilidade sem gastar o guito . Este disco (magnífico como sempre pelos arranjos e pela voz) revisita o passado e não traz nada de novo exceto esta versão soberba de outro mago que se esfumou como um cometa que me maravilhou: Terence Trent D’Arby. Dois magos.


Mónica Ferraz & André Indiana - Like a Legend


O que é nacional também é bom e isso vê-se aqui. Acho que o rapaz é um guitarrista exímio e ela, um docinho bom que sigo desde os Mesa. Tema interessante. Vídeo 5. Algo elitista mas estamos todos fartos de ser só pessoal de bairros degradados. Os meninos bem também têm direito e sabem inglês.  



Arctic Monkeys - Do I Wanna Know?


Para terminar uma banda que me deixa sempre assombrado e a pensar que o rock´n´roll é obra de Deus, ou do demónio que tem mais a ver com a coisa. Putos novos ingleses a meterem a máquina a trabalhar com o rolo compressor na carga máxima. Cada vez mais velhos, mais sabidos, mais experientes do que quando os vi. Um Alex Turner que está cada vez mais no ponto. Na minha geração já não há generation gap. A minha Leonor (que no outro dia em viagem de carro murmurou as palavras todas para grande surpresa minha,  e fiz um esforço para isso não transparecer) quer ir vê-los ao Optimus Alive neste Verão. Os sacrifícios que um pai tem de fazer por uma filha…
Música - 5 Vídeo - 5


Podem criticar e dizer que é misturada, que não têm nada a ver uns com os outros, mas o que é que querem? Sou eclético porque quando gosto, gosto. Seja quem for. Pedro Sobreiro. Cognome: o ecléctico. Eu quero lá saber se não se pode gostar dos Doors e dos Abba ao mesmo tempo. Pois eu cá gosto e estou-me pouco a c**** se acham isso estranho. Cada coisa no seu lugar, bebés. O vosso tio Sabi é que paga a luz da taberna. Ele é que sabe se o rádio é na Rádio Clube Monsanto ou na Renascença para ouvirmos o Sala. Cada nabo em seu saco. Bom fim de semana, valeu?.

segunda-feira, 24 de março de 2014

O Dia do Pai

O "altar" na minha secretária

Depois de ter batido com a cabeça, tenho alguma dificuldade em me lembrar que dia é, quando acordo. Tenho de ficar ali um bocadinho a pensar se é sábado, domingo ou outro dia qualquer da semana. Isso não aconteceu no dia do pai. Acordei naturalmente, sem despertador como agora é habitual, depois de 7 horas de sono. Despertei e fiquei logo ali a pensar, em silêncio, sobre o que significa este dia para mim.

Já aqui escrevi que ainda não me habituei a que este fosse o meu dia também. Já passaram 12 anos desde que me estreei na condição, tive a carta revalidada há 4, mas para mim, neste dia, lembro sempre o meu pai e não me lembro que o dia é meu também.

Comecei a pensar nele e desta vez o pensamento não me levou para a saudade avassaladora que deixou em quem o conheceu e amou. A angústia e a raiva foram-se instalando em mim e surgiram do nada. Calhou assim. Comecei a pensar que partiu com 49. Só mais 9 que eu, o que só por si dá logo um nó na garganta. Depois pensei que desfrutei dele apenas 20 anos (partiu 5 dias antes de fazer 21). Já estou sem ele há 20. Metade da minha vida.

Depois, fui por aí fora e pensei que se fosse vivo, teria 69. Uma idade bastante acessível. Nada inalcançável. Para se atingir, e sendo saudável (querendo com isto dizer que nunca foi traído por uma doença silenciosa que derruba qualquer gigante) apenas teria de mudar de hábitos de vida. Como a alimentação era frugal bastaria afastar o copo e sobretudo o cigarro sempre aceso. Se desse ouvidos a quem estava mais próximo, a quem acompanhava os seus sustos de dores no peito, más disposições e tivesse ido ao médico… provavelmente ainda cá o teríamos. A rir e a ver os filhos a serem bem sucedidos na vida, a construírem famílias e a darem-lhe netos.

Mas estamos a falar do João Sobreiro. Se há uma coisa que aquele homem fez foi percorrer o caminho à sua maneira. Ele até podia ter ido fazer análises, exames e não ter fugido dos médicos porque era fácil de imaginar o modo de vida saudável (e penoso) que lhe receitariam.  Mas nem ele, nem nenhum de nós imaginávamos que poderia ser assim. Tão rápida, tão certeira, tão lancinante.

Ficou a falta e há-de sempre ficar enquanto eu respirar. Não era grande músico, nem grande pensador, nem queria nada da política mas tinha uma maneira de ver o mundo (percebem a sucessão dinásticas?) que não deixavam ninguém indiferente. Ou se gostava ou…


Envolto nestas conjecturas “fui acordado” pelas minhas filhas que não têm culpa nenhuma do passado e queriam o pai delas. Mudei o cérebro do “Modo filho” para o “Modo Pai” e segui caminho. Patrocinadas pela mãezinha deram-me um jersey que estreei no dia no “Modo Pai Vaidoso” para mostrar a quem me perguntava. 



Das prendinhas delas, a Alice deu-me um bonito organizador “pra tu meteres os teus documentos lá nas finanças”. Adorei o desenho com uma frase escrita por ela. Deve ter sido igual para todos os meninos (e que difícil deve ter sido conseguir para todos) mas isso não interessa nada. Já sabe fazer o nome sozinha e esta é a primeira frase que tenho dela.








A da Leonor merece ser escamoteada, só pela delícia e pelo prazer. Meu prazer agora e dela quando for mais velhinha. O que escrevo aqui pode ser visto por todos mas é para elas que o faço. Para que leiam estre livro vivo online de como era a nossa vida. Como de vez em quando a apanho a ler a entrada dela para a escola primária, dias em férias e afins. O resto do blogue são desvarios meus, de um jornalista (que hei-de sempre ser, agora reduzido a relator da vida) vendido à vida normal (com mangas de alpaca).







O “gosto muito de ti e és o melhor pai do mundo” dou de borla. Percebo e agradeço mas são lugares comuns. O “és muito inteligente” agradeço mas não acho que seja verdade por aí além. “Querido” é bom, “preocupado” é verdade e “muito fotogénico” é uma delícia.
- “Isto do fotogénico é o quê, Leonor?”
- “Porque andas sempre a tirar-nos fotografias!”
São 12 anos. J

A frase chave é a seguinte, porque é mesmo dela. Quando foi para o quarto na noite antes para fazer a minha prenda, saiu-lhe isto. A minha Leonor é assim. O “Gosto tanto de te ter cá!” é assim uma coisa de arrepiar. Pelo menos a mim. Gosta tanto de me ter cá (neste mundo) porque se lembra bem do tempo em que o pai não esteve cá e correu o risco de não voltar. Ela, minha querida, há-de sempre viver com o trauma da noite em que a GNR veio cá a casa informar do acidente. O meu papel agora é mitigar essa dor e ajudar a apagar isso da memória dela e de quem tem ainda essa ferida aberta.

O “Adoro-te” é recíproco. Ela sabe-o bem.

Ainda bem que não mencionou os ralhetes, as discussões e as chamadas de atenção por os erros serem sempre os mesmos, mas realmente, não era dia para isso.



Qual é a minha missão diária de pai doravante? Esforçar-me, em cada dia, por ser um pai melhor. Antes do tropeção sei que era bom mas não tão com quanto poderia ser. As prioridades não estavam bem definidas e bem hierarquizadas. Naquela noite, sei pelo que me contaram, tinha ido jantar e ensaiar com A Grupa para uma atuação creio que em Campo Maior. Montado numa Vespa, de guitarra às costas, regressava com um copo a mais no alforge e alguma coisa se deu. O sangue disse que era 1,15 ou 1,20. Nada do outro mundo mas a mais para quem pega na estrada. A viver uma de rockstar ia ficando com o fim de uma. O choque foi violento e as repercussões também. Regressar demora muito. Mas o regresso faz-se.

Agora que domino mais o equilíbrio, é o o cansaço (físico e mental) que me ataca como nunca antes do acidente. É a diferença que agora noto mais. Dias em que não faço nada demais e caio por terra no final.

Uma coisa de cada vez. Também pensava que nunca haveria de voltar a correr.


Agora este post é para as minhas princesas. Dou porque me deram.

Dia do pai em 2014. Obrigado. Soube-me tão bem vivê-lo convosco.