sábado, 7 de junho de 2014

Eu, advogado do diabo, me confesso


Este país é um país a brincar e cada vez mais me convenço disso. Não tem ponta por onde se lhe pegue. Tá difícil, tá complicado e as previsões que as coisas relevem ou melhorem são escassas.

Há pouco no café, um cá da terra comentava as declarações de Passos Coelho  na televisão dizendo que a coisa resolvia-se “com um daqueles de dois cartuchos”, como se o primeiro tivesse sido o responsável pelo mal que vivemos.

Pois eu cá aprendi que num estado de direito (que normalmente anda menos torto que o nosso) existem 3 poderes que devem andar sempre separados e se auto-regulam entre si: o legislativo, o executivo, e o judicial. Há quem faça as leis, quem as aplique e quem as fiscalize. Se bem for, é bem assim.

Agora, pelos vistos e mais do que nunca, há que chefie estes 3 poderes que é o Tribunal Constitucional, que faz ouvir a “lei das leis” e aqui está o cerne da questão. Para mim, o Tribunal Constitucional é quem manda nesta merda toda e ai de quem se levantar a questionar que lhe cai a marabunta toda em cima e é apedrejado ainda sem saber bem o porquê de tanta calhoada. O 4º poder é que manda. Mais que o Presidente da República, que se cala.

Para já, na minha opinião, a constituição deveria ser um documento claro, curto e conciso que soubesse proteger o Estado de Direito mas que não esmiuçasse assuntos ao pormenor, retirando o raio de alcance a quem se esforça por governar. A lei das leis deveria ser assim. Governar não deve ser uma tarefa nada fácil e o Pedro Passos Coelho corre o sério risco de vir a ser considerado a cara de um dos mais difíceis momentos da história do Portugal recente. Ele é o que baila à frente das labaredas mas o responsável para mim, tem sido muitos, toda a classe política desde o 25 de Abril. Homens e mulheres que tendo lugares de destaque permitiram que a situação chegasse onde está agora. No fundo. Resgatados. A sobreviver com o dinheiro que nos emprestaram. A viver deles e de cada vez que vejo as notícias, lembro-me disto que é um documento único que me foi mostrado pelo meu amigo António Gonçalves no seu quarto, numa noite quente de Verão há muitos anos atrás. (e merece mesmo ser ouvido. São 25 minutos ao vivo de puro deleite histórico).


Fui anteontem a Lisboa e segui pelas estradas nacionais, para fugir às portagens como todos os outros fazem agora. E as auto-estradas para que são? E os estádios de futebol construídos para o Euro 2004, que agora estão às moscas? Explicações que se necessitam como a de como foi possível um caso BPN, que teve um mamarracho por sede, um mausoléu no coração da capital do Império... E a fiscalização?!?!? E quem ganhou com aquele “Alves dos Reis” do século XXI? E o Banco de Portugal? Onde estava?  
   

Falava o Pedro primeiro-ministro que os Juízes do Tribunal Constitucional deveriam ter noção das limitações que impõe a quem governa. Para mim, o que ele quis dizer foi que os juízes que são eleitos pelos partidos, (note-se!!! De acordo com a votação, pela Assembleia da República, mas escolhidos por eles) que ganham um absurdo, que têm um poder tremendo e regalias obscenas para os tempos tão duros que hoje vivemos, que se reformam com idades e condições pornográficas, correm o risco de ficar no desemprego se esta brincadeira berrar e deixarmos de ter um país. Querem ser mais papistas que o papa e podem comprometer, inviabilizar, estourar. Quando chumbam uma medida têm de a pensar no global, no estrago que faz a sua falta e nas consequências que podem daí advir. Chumbas aqui, papas com um aumento do IVA ali ou outra forma de qualquer de fazer dinheiro que ele não nasce nas curvas. Aqui não há milagres. Não há fábricas de dinheiro vivo.


Não vejo o governo como tendo prazer nesta escalada abrupta da carga fiscal e nas quebras de vencimento. É assim porque assim tem de ser. Esta fatura vai provavelmente levar toda a minha vida a saldar. A minha e a das minhas filhas. Por isso, sair há-de sempre ser uma hipótese a considerar, não no caso dos pais que ainda conseguiram encaixar-se, mas no delas.

O Partido Socialista bate porque no Constitucional ninguém toca. Mas e quando para lá for? Como será quando este impasse interno se resolver e Costa agarrar o país pelos cornos? O Seguro é um bom rapazinho mas insonsinho e licenciado nas juventudes partidárias. Foi o sósia esquerdino do seu congénere social-democrata. O Costa de acção que todo o país quer e necessita tem de esperar pelo fim de Setembro(!!!) para umas primárias que tardam demais. Ele diz que queria já e era já que faziam falta. Quem não teme não espera, pelo que...



Meanwhile como dizem os bifes e agora parece-me que fica aqui melhor que “entretanto”, vamos imaginando como será. Ele, que num artigo que li ao sábado no CM defendeu a Constituição como inatacável e pedra de toque deixa um bom augúrio sobre como será a sua governação.
    
Nós, mexilhões, vamos vendo e calando, sabendo de antemão que certamente seremos os únicos a ser lixados, levando pancada entre o mar e as rochas, ao sabor do vento e das marés, rezando para que nenhuma gaivota faminta nos descubra.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Voltar a "casa"


Este texto que enviei através de mensagem a amigos de toda a vida (alguns dos quais já não vejo há anos) no facebook, comecou a corporizar algo que parecia inimaginável até agora, de tantas forças que se tinham de conjugar para se tornar possível. Se há acontecimentos dignos da expressão “um sonho tornado realidade”, não estou a imaginar melhor caso. Ainda têm coragem para dizer que esta rede social não presta… Se a internet faz o mundo ser uma aldeia; o facebook faz o mundo ser uma rua. Está tudo cá dentro!

Amigos e amigas, muito boa noite. É um sonho meu de há muito tempo a esta parte mas deste ano é que não passa! Vou reunir pela primeira vez num almoço a juventude que foi feliz na Beirã nos anos 80. 

Num Alentejo rural e pobre, a nossa aldeia foi um caso raro que viveu dos serviços (despachantes, alfândegas, guarda fiscal) nasceu com o progresso (caminho-de-ferro) e morreu com o progresso (abertura das fronteiras na CEE). Isto tudo para dizer que fomos crianças e jovens felizes que cresceram sem saber o que era passar fome e o que era o desemprego.

Vamos celebrar isso!

Não deixemos passar o tempo e vamos reencontrar caras que não vemos há anos. Apenas porque a vida assim o quis. Não vamos deixar que aconteça como com as gerações antes da nossa que vêem os funerais como um fenómeno agridoce, por quem sabem que partiu e por quem sabem que encontram.

O nosso reencontro é o mais próximo possível da data da padroeira da nossa freguesia. Será um almoço no sábado, dia 12 de Julho, no restaurante Sabores de Marvão, na antiga Casa Nicau. Coincidirá com as festas de Verão, organizadas pela UJA, presidida por um filho da terra.

As coisas têm de começar por algum lado. Se neste ano podem vir uns, para o ano vão vir esses e muitos mais. Será todos os anos a 16 de Julho ou no sábado da festa.
Usem as novas tecnologias, o facebook, os mails e as antigas como a conversa e o telefone para trazerem os amigos que se lembram e que gostariam de rever. Chamem todos os amigos de fora, das cidades e de todo o país que não vêem há anos e que provavelmente nunca mais veriam se não fosse assim. Embora seja destinado a este público-alvo, a malta mais velha que já era viva nessa altura, pais e restante família também cabe.

O nosso António Manuel Pereira Mimoso preside a junta! O nosso Tóqué já manda lá! Liguem para a junta 245992314 para dar o nome de quantos vêem da vossa parte: companheiro, companheira, filhos, filhas e amantes. Ou digam-me a mim por aqui mas centralizado é melhor.

Passem palavra!!!!!! Vamo-nos ver!!!!!
PEDRO SOBREIRO



A ideia já vinha a respirar e a dormir comigo há algum tempo mas foi há dias, quando falei com um amigo dessa altura que não vejo há anos, o Nuno de Caneças cuja avó morava junto à rua da padaria, que pensei: deste ano não passa! Ou vai ou racha! Mesmo que sejamos apenas os dois, já vale a pena. Mas até somos capazes de ser mais… Vai uma aposta?

Falei com ele através do facebook no telefone porque tinha recebido um pedido de amizade de um Nuno Carrilho… Mas qual Carrilho?!?!? Sem foto? Com uma foto do Cardoso a beijar a medalha de campeão? Seria ele? E perguntei ao então desconhecido, sem foto identificadora, se a soma dos elementos levavam à pessoa que era ele, um dos maiores benfiquistas que conheço. E não é que era mesmo? Disse-lhe: “Grande Nuno! Que saudades… Sabias que estive quase a morrer?”

E ele, que sim, que o Tómané o tinha mantido sempre ao corrente de tudo. Disse-me que o seu primo Tó Zé (que já não vejo há décadas mas que me que recordo bem do ar tranquilo e da gargalhada surda que dava das minhas parvoeiras) também sabia e o informava e que esteve quase para me ir ver a Alcoitão mas… foi ficando.

Nunca perguntou ao meu irmão porque era mais puto que nós e não sabia se faria bem e foi ficando.

Mas de agora não passará. Daqui para afrente não podemos deixar que passe. Quero conhecer e beijar os seus dois putos, quero levar as minhas, quero que esta cena à “Amigos de Alex”, de pessoas tão próximas que a vida tornou tão distantes e só se reúnem por um acontecimento trágico, aconteça de verdade. Sem a morte de um, como o Alex. Onde andas?, O que fazes? O que é feito de ti? E os berlindes que me roubaste? (E não vamos falar nos livros de BD que te gamei… Pxxxiiiuuuu…)

Nos nossos tempos, tão próximos e tão modernos, com tantos meios de estarmos ligados temos de evitar a crueldade desta separação. Inexplicável, injustificável, inadmissível.

Os eventos depois da coragem intrépida que tem de estar na sua génese, crescem, multiplicam-se, requintam-se, adornam-se, embelezam-se.
Eu sonho viver a 12 de Julho um dos dias mais felizes e revigorantes dos últimos tempos. Espero reencontrar uma parte da minha infância… e de mim.

Ontem falei com a Mena Sacramento que ajudou a solenizar este evento, colocando ao serviço desta causa a sua enorme expertise nestas andanças facebookianas. Eu queria criar o que ela criou mas feito bornal L, criei apenas uma página. Página que se ela diz que é útil, pois que seja. Ficámos os dois os anfitriões, (eu nomeei-a a ela, ela nomeou-me a mim) e temos de a alimentar, pois por isso mesmo já lhe vou deitar esta saca de milho.


quarta-feira, 28 de maio de 2014

O Peri que pode haver em nós (porque a linha é tão ténue)




Uma reportagem única, de altíssima qualidade.

Um personagem digno de livro de aventuras e de romance. Romance tão grande como a família que tem e não conhece, fruto dos muitos amores que o consumiram e o deixaram na penúria.

Os excessos, o poder, a fama e álcool, mas também a compaixão e a camaradagem.

O esplendor de ser brasileiro, de saber cantar perante as adversidades e aproveitar esta bênção única de estar vivo.

De certeza que vai ver prémio(s).

Não perderei o regresso.

 


terça-feira, 27 de maio de 2014

The Wizard of Oz

 




Pois eu não estava nada à espera e tive uma muito agradável surpresa na Estrela quando soube que poderia assistir ontem à noite ao concerto em direto no Rock in Rio do Mr. Entertainment, aquele que é para mim, o maior performer vivo do nosso tempo. Um gajo de nível. Saído de uma execrável boys band na qual estava longe de ser o melhor Gary Barlow cantor, estreado a solo com uma “free” cover de George Michael, não dava um chavelho por ele. Mas o tempo, que amadura as pêras, mostrou que ele também canta, também compõe, tem uma presença e um saber estar em público que não tem quem lhe faça sombra e tem bom gosto. Este sacana dum bife, meses mais novo que eu, sabe estar, sabe gozar, sabe-se posicionar.

Tem um último álbum incrível recheado de swing e covers bestiais mas fez muito mais que tocar o seu repertório original. Brincou com ele próprio, chamou-se gordo e desarmou. Fez-se da casa. Nunca tirou o fato de gala mas aquilo foi um fato macaco durante mais de uma hora e meia de espectáculo.

Fez que ficou admirado por o espectáculo ser transmitido ao vivo, como se não soubesse. Disse que há 12 anos que não estava num festival e fez de tudo. Cantou a minha adorada Joan Jett and the Bleakhearts com o hino “I love Rock’n Roll”; o “Walk on the Wild Side” do Lou Reed; um medley com o New York de Alicia Keys e o do Sinatra; uma versão do “Back in Black” dos AC/DC; U2 em “Still haven´t found what I’m looking for” e fechou com duas cerejas no cimo do bolo da sua british irony: cantou “Wonderwall” dos seus arqui-inimigos, que destilam ódio por ele, Oasis (que também adoro) e como se não bastasse: Song 2 dos blur. Uma preciosidade que os tugas não conseguiram compreender porque cantaram em coro e gravaram tudo nos smartphones (gesto que só por si é ridículo porque as televisões estavam a gravar e a transmitir tudo. Em vez de ouvirem, cantarem e viverem… gravaram).


Eu vi e adorei. Fiquei satisfeito assim. Nem precisava de um cheirinho de Ivete Sangalo para não dormir melhor. Aquela mulher até canta bem, mas para um homem que tem uma esposa roda 28, ver aquela mula gigante que tem pernas até ao cú antes de dormir é coisa para até fazer mal. Impressionante. Realmente impressionante! Rainha do quê?!?!? Axé!!!!!!!!!!!!! Vixe Maria! Acho que fiz xixi na cama.






segunda-feira, 26 de maio de 2014

As eleições da Europa ou os como os votos, os peixes e as sanitas têm tudo a ver (segundo Alice Lança Sobreiro)

 

Hoje escolhe-se quem são os homens e as mulheres que nos representam no parlamento europeu e a coisa tem extrema importância.

Ontem perguntei à Alice se queria ir votar comigo e a mãe depois de almoço (quando já não corrêssemos o risco de ser apanhados pelas câmaras de Televisão à espera do Passos e do Seguro).
A resposta era esperada e foi inevitável: “o que é isso de votar?”
“Alice, votar é escolher quem queremos que mande nas coisas. Votamos para escolher quem queremos na Junta de Freguesia, na Câmara Municipal, para mandar nas coisas importantes do país e na Europa também. Para a Europa é a votação amanhã. Votar é escolher. É muito importante
Diz-me lá tu agora o que é votar? (apenas segundos depois)”
“Não sei, já não me lembro”

Hoje antes de sairmos para o café e o gelado prometido, sentei-a no muro e voltei à carga: “Ó menina, ainda te lembras do que vamos fazer agora?”
Um óbvio claro que não.

“Vamos votar para as eleições europeias. Se a Europa fosse um bairro, Portugal era uma casinha muito pequenina numa ponta, num bairro onde há casas muito grandes e poderosas como a Alemanha, a Finlândia, a Itália ou a Suécia. Nessa casa pequenina acabou-se o dinheiro porque se gastava mais do que se produzia e teve de se pedir emprestado a esses ricos. (Podia dizer-lhe que um homem que mandava muito no governo em Portugal quando entrámos para a CEE, ajudou a destruir a agricultura e as pescas, porque defendia que a Europa produzia e nós tínhamos de deitar fora, mas se dissesse isso à Alice tinha de lhe dizer que esse homem é o que hoje manda mais no país mas… se isso me faz confusão a mim que tenho 40, a ela também não deveria fazer nada bem pelo que me calei.   


E disse-lhe mais, com calma, “vamos votar que é uma coisa muito importante que podemos fazer no nosso país. Sabes que há países onde as pessoas não podem escolher quem manda. Quem manda, manda à força e obriga as pessoas a fazerem aquilo que ela quer. Aqui em Portugal durante muitos anos mandou um homem muito mau que obrigava os jovens a irem para a guerra; a dizerem, a lerem e a ouvirem só aquilo que ele deixava; permitia que as pessoas passassem fome e não aprendessem…”. Durante esse tempo não se podia votar e escolher quem se queria para mandar.”
- “E quem é que matou esse velho?”
(Entra a Mana mais velha que começou a ouvir a conversa) “Ninguém o matou. Ele morreu porque caiu da cadeira. Na altura quem mandava era o Marcello Caetano!”
- “Não foi preciso morrer, Alice", disse eu. Os militares juntaram-se, zangaram-se e fizeram que começasse a democracia na revolução do 25 de Abril, deixando que as pessoas escolhessem quem manda. É assim até hoje.”
Para saber como é isto também poderíamos fazer uma votação cá em casa para saber quem queríamos que mandasse. Em quem é que tu votavas?”
- (Não sei se foi para ser politicamente correta) Na mana!
(Eu votava na mãe, Cristina Merkel que é quem realente veste as calças cá no burgo. E bem. Quando está bem, não se muda.)


É bom de perceber que a criança compreendeu tão bem a solenidade do acto que passando pelos baloiços depois do gelado, se desmarcou logo com o Zeca e a Carla para ir ver o gatinho da Matilde.



Episódio 1 do Diário de Alice de 24.05.2014 (ontem) narrado hoje de manhã pela mãe

Quando saí com amigos para ver a final da Liga dos Campeões, a mãe foi entregar e trocar alguns cactos com a vizinha Rosa, mesmo na casa frente. A embaixatriz Alice, assim que viu a porta aberta, entrou por ali adentro como sempre e como se fosse tudo dela. Conversa puxa conversa e um pouco de tempo entre duas mulheres parece sempre uma eternidade quando se tem 4 anos e isso dá tempo para quase tudo. Até para uma dor de barriga! Como a cachopa não se acanha por nada (não faço ideia a quem sairá), ainda chamou pela mãe diversas vezes.
- “Rosa, olha que ela está a chamar", disse a Cris.
- “Deixa-a à vontade, Cristina. Deve querer mexer nalguma coisa. Deixa-a à vontade.”. Mas ela não parava de chamar porque limpar o rabo sempre é mais difícil que subir para uma sanita. Mandam as boas maneiras que esse tipo de necessidades se façam em casa e não numa casa que se visita por 5 minutos, mas o que são as boas maneiras para uma rebelde com tantas causas quanto as que arranjar chamada Alice Lança Sobreiro? É que esta cachopa não é como o James Dean que era “Rebel without a cause” e causas arranjam-se sempre. Assim o pensou, melhor o fez.




Episódio 2 do Diário de Alice de 24.05.2014 

A mãe entreteve-se a jardinar lá atrás e deixou-a sozinha na sala. Erro crasso. Quando se deixa uma criança destas, com 4 anos cheios de personalidade a deitar fora pelos ouvidos sozinha em casa é como se se desse a chave de um bar aberto a um alcoólico. Uma sala e tudo à disposição! A menina Alice sabe que os peixinhos são dela e até gosta bastante deles. Quando sozinha, pensou e achou que a cozinha não é sítio para ter o aquário, que ideia a dos pais!!!

Estes são sobreviventes como eu e safaram-se antes da autópsia.
Uma casa de resistentes...

Ligeirinha, foi-se a ele cheia de vontade de imitar os pais que estiveram toda a manhã a lavar e a aspirar a casa. O aquário até era levezinho e levava-se bem nos bracinhos tão pequenitos mas e a porra do armário da televisão que era mesmo onde eles ficavam vistosos e luzidios e dariam tanto prazer a olhar que é alto como o catano?
E não é que aquela porcaria é frágil como o raio e escavacou-se logo à primeira, assim que caiu no chão feito pieguinhas? Chatice!
E depois não dava para solucionar só por ela mesmo que quisesse e queria, porque o raio dos peixes não paravam quietos e basta não terem a água para ficarem logo difíceis de apanhar como o raio!

Bem lá teve que ser: “Mãe!” (tranquila), mãe!, aconteceu um problema.”



Imagino o espanto da narradora quando viu a sala como se o Titanic tivesse batido contra a arrecadação. O que vale é que as gargalhadas que deu hoje de manhã ao contar quando me acordou fizeram tudo valer a pena.

Alice, o escriba postou. Quando cresceres vais gostar de ler. J

terça-feira, 20 de maio de 2014

Crescer?




Alice Lança Sobreiro. 4 anos e 4 meses.

Os dois a sós em casa a ver o Muck no inevitável Disney Channel, com a mãe e a mana fora em expedição à vila por causa da matemática. Um personagem gabava-se de conseguir ler as mentes.

- “Alice sabes o que é ler as mentes? Tu sabes o que são as mentes?”


Esclarecida, “Sei. As mentes são as pessoas que são mentirosas.”




De tarde, na casa da avó Jacinta, entra zangada pela cozinha adentro:

- “Avó, a Leonor chamou-me insuportável!!!!!”

- “Ó querida, não fiques zangada, deixa lá que isso não é muito mau”.


Inconsolável, - “Diz-me lá que nome é que eu lhe hei-de chamar para a zangar!”  



Os dois na cama hoje de tarde vestidos a ver o Disney Channel e a jogar tablet enquanto a mãe e a mana (tão alta e tão bonita … como é que o tempo passa assim?!?!?) foram à ginástica…

- “Pai, já não tenho a bateria. Está-se mesmo a acabar! Já não a tenho! Depressa, depressa!!!!!”

- “Calma que o pai resolve já! (E gosta tanto de fazer o super-herói que desce as escadas a voar)”. Regressado com o cabo, diz triunfante, mostrando-o: “Alice, eis a nossa solução!”


Visivelmente satisfeita, repentinamente  se enche de preocupação por se ter lembrado da suposta falta de alimentação. 

“E agora pai? Onde é que ligamos?!?!? Não há aqui nenhum choque!!!!” 


Ontem à noite quando lhe lia pela enésima vez a história do Peter Pan, o meu herói de sempre, perguntou-me: “ó pai, onde é que ele mora?”
- “Ó filha, na Terra do Nunca onde está a baía das sereias, o barco do Gancho, o crocodilo Tic Tac, a aldeia dos índios, a rocha da caveira, os meninos perdidos, tu já devias saber isso. Já te contei tantas vezes...”
- “E como é que se chega lá?”
Enfadado pela repetição: “pó de estrela da sininho, segunda estrela à direita e sempre em frente até ao amanhecer”.
- “E ele conhece-te?”
- “Se me conhece?!?! Ele é meu amigo!”
- “E porque é que não veio aos meus anos?”


A capacidade de argumentação também se acaba. “Tenho de ir ali fazer uma coisa…”


quinta-feira, 15 de maio de 2014

A Liga



Foi uma final que o Benfica não mereceu ganhar porque não esteve à altura. É certo, que como eu disse antes das grandes penalidades, não estivemos mal até então e assim passámos à hora da roleta russa, depois do minuto 120, sem golos. Nas grandes penalidades, qualquer um pode ganhar. Mas eles mereceram mais a sorte que nós.

Foi uma luta desigual porque ao Benfica faltavam pedras fortíssimas que deixaram o tabuleiro a descair. Sem Enzo Pérez faltou-nos o cérebro no miolo; sem Sálvio, castigado, ficámos sem a experiência e o rasgo de génio nos arranques do meio campo; sem Markovic faltou o perfume e a magia de poder mudar tudo num lance.

Muito desfalcados mas ainda assim, soubemos aguentar a pressão inicial e gerir o jogo à distância. As melhores oportunidades foram nossas e Maxi não marcou porque o instinto de Beto falou mais alto. Tivemos 2 ou 3 lances que poderiam ter sido castigados com a sanção máxima a nosso favor mas o árbitro assim não o entendeu. O ranking espanhol é um bocadinho mais alto que o nosso.

Nos penalties fomos… portugueses. Num momento chave, num minuto em que é preciso dizer presente!, num pico em que não se pode vacilar, trememos. Afundámo-nos. Faltou-nos a força mental, a inteligência, a impetuosidade que haveremos de lamentar toda a vida. As que não se conseguem… ficam na história. Perdem-se.

Agora alguns cómicos que se dizem meus amigos (e até acredito que no fundo sejam mas nestas alturas é tão difícil perceber isso) gozam o prato e falam na maldição do Bela Gutman. Pois fiquem sabendo que eu quero é que o Bela Gutman e a sua maldição vão para a raiz da puta que os pariu e ardam no mais profundo dos infernos.

Para mim, o que amolou isto foi a nossa maneira de estar, jogar e pequenina de pensar aliada a uma Europa do futebol que não apita grandes penalidades a essa potência do futebol que se sagrou campeã do mundo e da Europa e do raio que os parta. Markovic foi proibido de jogar porque foi expulso contra a Juventus depois de já ter abandonado o campo para ser substituído, ao ter protagonizado uma confusão com Vucinic que veio a dizer que a confusão afinal não era com o sérvio mas com Artur. A UEFA ilibou o atleta e enriqueceu-se a partida, zelando pelo desporto-rei? É capaz de não.

Não durmo com azia. Durmo com pena e desgosto de uma oportunidade perdida e da maldade dos outros que não compreendo. Compreendo a insignificância. A maldade não.


Agora vem aí a Final da Taça de Portugal. É já ao domingo. E é para ganhar! (Coisa que os nossos rivais diretos não podem porque ficaram pelo caminho).



Unai Emery, um pintas com ar de chulo, dois anos mais velho que eu. Adorei a gravata vermelha e as cotoveleiras a condizer. Um must. Que cabron!

 

domingo, 11 de maio de 2014

Até Fátima





No Verão quente de 2011, num corredor frio, inóspito e distante de casa, enquanto aguardava a equipa médica por notícias minhas, a Cristina esperava e pensava. O que pensaria… só ela sabe. Mas poderia ser que estava em risco de perder o companheiro que um dia pensou ser para toda a vida, vítima de um estúpido acidente que lhe provocou um grave traumatismo craniano (7 numa escala 3/15); que caso isso acontecesse iria ser muito difícil criar duas filhas pequenas (uma com 10, outra com apenas 1) e motivá-las para a vida; que iria ser muito duro ficar viúva com apenas 36 anos, na flor da vida; que um lar assim desfeito, com apenas uma fonte de rendimentos ficaria muito difícil de governar… Estas seriam certamente ideias que a assolavam e lhe assombravam os dias nesse então.

Enquanto se esforçava por aguentar a ansiedade e o desgosto, recorreu e fez uma promessa. Pediu a Deus e à senhora de Fátima que caso eu regressasse à vida, saído daquele estado (quase) vegetativo em condições de a ajudar a educar as nossas filhas e a trabalhar no meu serviço outra vez,(algo que parecia impossível) iria a pé a Fátima. Se eu saísse com vida daquele coma pesado que me tornava morto de cada vez que os seus olhos me fitavam, iria a pé a Fátima. Por mim, pela minha recuperação, faria esse esforço.

Em conversa, dias depois, confessou essa vontade à sua irmã Paula, dias mais velha que eu e minha colega de escola de toda a vida. Curiosamente, ela disse-lhe que tinha feito o mesmo pedido. Por mim.

Quando estava longe de casa, longe das filhas, longe de todos os apoios mais próximos, a viver num apartamento pequeno da minha tia Maria na Amadora, a dormir no chão e a dividir esse espaço com os meus entes queridos que deixaram tudo para estar próximos de mim, sempre se agarrou a essa fé. A essa ideia que uma força divina superior iria puxar por mim.

Eu também já fui a pé a Fátima, para cumprir a vontade do meu pai e sei como é difícil. O João Sobreiro prometeu que se viesse com vida de África iria a pé a Fátima. Assim que cá se apanhou, foi deixando andar. Era para o ano, no outro é que era e nunca foi. Só quem não o conhecesse. O João Sobreiro era assim. Eu acho que ela até pensava que quanto mais tempo cá andasse para cumprir, mais anos de vida teria. Como partiu cedo demais para cumprir e eu tenho fé, parti da campa dele para sozinho, sozinho… ir a pé a Fátima. Foi uma experiência inolvidável. Com uma faca de mato na mochila para me defender e algum dinheiro na carteira fui dormindo por aí. “Walking the earth, like Caine in Kung Fu” como a tirada do Pulp Fiction, nunca me senti só. Sem rádio, sem smartphones, sem computador, sem documentos (estúpido!:(), nunca me senti só. Todo o dia a andar, todo o dia com a cabeça a trabalhar. Sempre acompanhado. Comigo. Com ele. Com ela. Com todos!

Há dias vi uma entrevista muito interessante da Helena Sacadura Cabral, a mãe dos Portas (Paulo, Miguel e Catarina) a dizer, dentro da sua inteligência e porte de grande mulher que rezava para ter fé. Nunca tinha rezado para ser bonita, alta, gorda, magra ou rica mas rezava para ter fé. Invejava as pessoas que acreditavam. Acreditar em algo. Acreditar numa força, numa entidade, numa pessoa. Ela pedia por isso. Por ser capaz de fazer isso.

É certo que ter fé não está nas mãos de qualquer um. É preciso ter uma força mental que não está ao acesso de todos.

Podemos ser alvo de troça, de riso, de chacota por parte dos outros que se acham intelectualmente superiores, que têm problemas e os ultrapassam na mesma. Que a Sra. de Fátima foi obra do Salazar e do cardeal Cerejeira, que a Sra. da Estrela foi forjada pela incultura popular, que a Sra. do Carmo é padroeira da Beirã porque esposa do Sr. Vivas também se chamava Carmem e a capela foi erigida na sua propriedade e era privada.

Pois eu acredito nas três. Agradeço-lhe todos os dias e peço-lhes proteção todas as manhãs. Para mim, os meus e os meus amigos.

Nestes dias tenho feito as orações muito direcionadas a quem pediu e vai pedir por mim. Cristina e Paula Lança. As manas Lança.

São provas de amor que não se pagam. Amor de mulher e amor de cunhada, ambos intensos como só eu sei viver e expliquei no facebook, agradecendo a foto do meu amigo Manuel Isaac, postada na minha página pela minha mãe.

Só falta um dia minhas queridas. Ânimo que só falta um dia. Se Deus quiser amanhã vou-vos dar um abraço do tamanho do mundo, na casa em Portugal da nossa mãe do céu.


Até lá. Que nos proteja. A nós e a quem acredita.


Banda sonora: “Dead sea” - The Lumineers – “The Lumineers” 2012

Banda que irei ver ao vivo no Optimus alive com a Leonor no dia 10 de Julho.
A banda Sonora que me acompanhou nesse dia em que ajudei a Cris a ir de Castelo de Vide, aonde já tinha ido sozinha num dia, até Gáfete, de onde partiu na sexta de madrugada com uma equipa de caminheiros de Portalegre. Depois de ter ficado para trás para tirar fotos a uma cegonha, passei por ela a correr numa subida e disse-lhe: “Nem nos teus melhores sonhos, Cristina, sonhaste que um dia haverias de me ver a passar por ti a correr assim, para te ajudar a caminhar até Fátima.”

Ela sorriu.

“Deus é grande!”, disse eu.