(ou
será que já lá estávamos?)
quinta-feira, 24 de julho de 2014
terça-feira, 15 de julho de 2014
A Ti Bia apagou-se.
(Deus,
como custa escrever estas coisas que são tão dolorosas... Vim de visitar a Cali
na Santa Casa de Misericórdia, onde permanece sem sequer ter dado por falta da
irmã e fechei-me no quarto. Liguei o ar condicionado, fui buscar o “meu puf” de
estimação ao sótão e sentei-me a escrever. Em silêncio. À minha Cris disse
apenas: “vou escrever…”. Ela já me conhece o suficiente para saber que entrei
no consultório do meu psicólogo.
Há
tempos encontrei o meu amigo Zé Manel Gavancha acompanhado da mulher com quem
foi alterar o cartão do cidadão e assim que me viu, abriu a boca e deixou sair
a emoção com espanto e em lágrimas. “Zé Manel, não faças isso”, dissemos alguns
e ela respondeu, mulher coragem, “deixem-no chorar, deitar cá para fora.” Assim
estou eu agora. A deitar cá para fora.
A Ti Bia adorava ler os meus textos. Dizia que ainda havia de ter um computador para os ler. Espero que este tenha ficado bem para ela. É quem interessa.)
| Com as florzinhas que lhe levámos no ano passado, no dia de anos. |
Morreu
a Ti Bia. Morreu o último bastião da família Sobreiro.
A
matriarca.
E eu
vejo-me assim, aos 41 anos e pelas atuais circunstâncias como sendo o na detentor
do ceptro da família. Uma família sem grandes posses, terras ou propriedades,
sem títulos ou historial mas uma família rica, com honra, valores e que sempre
trepou na vida por si, pelas suas capacidades.
Não
esperava por isto. Estava em Lisboa desnoitado, cansadíssimo da jornada de
festival de música que já não é para a minha idade, quase 20 horas a pé com apenas
4 horas dormidas quando o telefone toca para me dar a notícia assim a seco, de
rompante com a voz do genro e o choro incrédulo da sua filha por trás. Duro.
Coisas que nos marcam, que nos fazem subir um degrau. A vida é fodida e não
traz um livro de instruções a explicar como é que se faz. Tem de se passar por
elas. Felizmente sentei-me no chão da casa de banho para não acordar a Leonor e
tentar perceber o que me estavam a dizer. Devo ter estado uma meia hora
aparvalhado a olhar para o nada sem a conseguir encaixar. A velocidade com que
o nosso cérebro processa os pensamentos nestas situações é estonteante. Tanta
coisa e tão rápida… mas um enorme sentimento de culpa. Fui eu, fui eu, fui eu…
desejando que tivesse tudo acontecido antes, quando ainda as duas estavam
juntas na Beirã, quando eu não tinha sido chamado a intervir pelas circunstâncias
da vida. Na praia apercebi-me de que ia com regularidade ao hospital, até que
ficou internada; de como o genro Carlos estava sempre na retaguarda a orientar
os comprimidos para a duas irmãs; de como a filha servia de ama de companhia à
noite, dormindo separada do marido e na casa da tia; e eu sempre disse aquilo
que aprendi depois do acidente: uma coisa de cada vez. Quando chegar aí, eu
trato. E tratei.
O
ideal seria que as coisas continuassem como até aqui. As duas juntas, levando a
vida que queriam, continuando a ir para a loja todas as manhãs e tardes (só iam
a casa dormir) onde “A Anta” lhes levava as refeições, onde as vizinhas iam
passar horas na conversa e em tertúlias à volta do café e do rádio sempre
ligado no terço da Renascença, dormindo as duas juntas na casa da Cremilde,
vivendo já sem as condições, o asseio e a arrumação que sempre lhes conheci mas…
juntas! (e isso era tudo.)
Mas
a Maria já não podia mais e se morrer depressa é terrível, sobretudo para quem
fica, morrer assim, com a lucidez de sempre e a força dos 20 anos aprisionadas
num corpo de 80 já sem força, doente, a definhar e a precisar sempre dos
outros… não deve ser muito melhor. Não pode ser muito melhor. Não pode. Num
destes dias em que fui vê-la de manhã ao hospital, pediu-me que queria ver a
irmã.
“Se
queres, eu trago-ta cá”.
“Cali,
sabes quem vamos ver? A tua irmã. Sabes como se chama?”
“A
minha irmã? Sei. É a Maria”
No
carro, no caminho: “E quem vamos ver agora, menina?”
“Oh…
Agora… já não me lembro…”
Lá
chegados, ficaram as duas em lágrimas, assim que se avistaram. A Maria, de
saudade. A visitante, porque reconhecia as feições.
“Quem
é Cali?”
“A
minha mãe.”
Na
segunda-feira passada fui conhecer a médica que me fez o relatório e me disse
que lhe ia dar alta. “Como está, doutora? Mal? É para morrer? Diga-me, eu quero
saber o que aí vem.”
“Não.
A sua tia está bem. São 86 mas desde que tome o Lasix para colocar os rins a
funcionar, não lhe incham as pernas, não sobrecarrega o coração, fica bem.
Prova disso é que está normalizada e vai ter alta ainda hoje!”
Eu,
inocente e acreditando piamente no à vontade e não pensando na idade já tão
avançada, cheguei junto a ela, radiante e disse-lhe: “Maria, ainda não é desta.
És rija e vais-te aguentar.”
Ela
sorriu.
“Quando
fizeres 90, organizo-te uma grande festa de anos. Vou contratar a banda de
Castelo de Vide para tocar os parabéns e tudo. Vais ver.”
“Maluco!”
“Não
acreditas que sou capaz de fazer isso?!?”
“Ah,
maluco… tu és capaz disso e muito mais”.
“Como
é que te sentes, Ti Bia?”
“Cansada.
Custa-me a respirar e as pernas pesam quilos.”
“E
consegues dormir?”
“Há
noite dá-me uma grande ansiedade. Acordo e fico a pensar. Custa-me não ter
força.”
“Mas
os teus olhos são tão bonitos, tão espertos, tão lúcidos...”
“A
minha cabeça está sempre a pensar. Nunca estou parada. Se eu tivesse 20 anos…”
“Eu também sou assim. Nunca me sinto só. Gosto
de ter o meu espaço e estar sozinho a pensar.”
O
dia em que as fui levar à Santa Casa da Misericórdia de Marvão foi dos mais
difíceis da minha vida. Ainda bem que há estas casas mas… eu sei que há passos
que se dão com convicção e aceitam bem como quando as duas me foram levar de comboio
à universidade para gáudio dos meus amigos que as batizaram de pronto como as
tias do Vasco Santana. Mas este… A Ti Bia ia contrariada que eu conhecia-a bem.
Aceitou mas… Eu sentei-me à sua frente e expliquei-lhe antes de partirmos: “Ti
Bia, a ida para este lugar não é por ti. Não és tu que precisas porque ainda
tens a lucidez para seguir pelo teu pé. Mas tu és inteligente e compreendes que
já não tens força suficiente para tomar conta e tratar da higiene da Cali. Com
os amassos de saúde que tens tido ultimamente, já nem quase de ti consegues,
quanto mais… Ali podem ter tudo aquilo que me pediste: um quartinho só para as
duas, com muita categoria e higiene, acessível para as vossas possibilidades e
reformas, com um pessoal especializado a nível técnico para vos apoiar e uma
equipa de auxiliares de luxo, queridas e atenciosas. Ti Bia, não é por ti, é
por ela, para estarem juntas. Repara que nem sequer aquele estigma que existe
quanto aos horários tem fundamento. As horas fixas são para as refeições que
são normais, como em nossas casas e à noite podem ficar até querer a ver
televisão, por exemplo.
Perguntava-me
muitas vezes: “ai filho, o que vai ser disto tudo quando morrermos. Que vai ser
desta casa da Cali com tanto livro, tanto bibelot, tanto vestido, tanto
sapato…”
“Ti
Bia, depois logo se vê. Agora vamos para a Santa Casa e depois pensamos nisso.”
Mas
ela não percebeu quando se mudou. A vizinha Manuela confidenciou-me depois que
nessa primeira noite pediu-lhe que não a deixasse porque ia morrer.
“Ó
Dona Maria, disparate. Então a senhora está aqui tão bem. Já viu? É de não
estar habituada. Ande que eu levanto-lhe a caminha para que se sinta melhor.”
“Eu
sei que isto é tudo muito bom e a minha irmã ficará bem entregue. Eu posso ir
descansada sei que ela irá estar bem cuidada. Mas eu não quero a cama. É nela
que vou morrer.”
Não
foi nessa noite mas foi na noite seguinte. A equipa médica e a VMER ainda
acorreram mas já não estava lá, naquele corpo cansado.
Podem
dizer eu “ele há coisas” mas eu digo que os elefantes também pressentem a
morte. Se não houver caçadores furtivos ou outra morte súbita, atravessam a
selva para morrerem NO lugar. Se os outros animais a pressentem…
Não
se ficou na primeira noite, como temeu. Foi na segunda. Ontem vi uma senhora
que está lá a dormir, sem se mexer da cama há 18 anos. 18 anos. Não tem uma
única ferida. O destino… Sobreviveu a um cancro de pele, suportou a diabetes, a
dificuldade em e respirar mas…
Tinha
uma relação muito especial com ela. Sempre me senti muito mais próximo da sua
irmã Cremilde, na casa de quem fui quase sempre criado enquanto os pais
trabalhavam e não havia prés. Mas sempre me senti muito parecido com ela. O meu
lado rijo, duro, cerebral, obstinado, dedicado, certeiro. Ela achava-me
parecido com o seu pai, o avô Sobreiro. Ainda há dias me disse: “Tu és o avôzinho,
Pedro. Adoras ver-nos todos juntos e fazes tudo pela família. O avôzinho também
era assim. Quando lhe dava saudades do nosso pessoal da Covilhã, metia-nos a
todos no comboio e não descansava enquanto não estávamos todos à mesma mesa.”
Quando
eu era estudante, havia sempre uma notinha e um macinho de cigarros. Gostava de
me ver bem tratado e com coisas boas. Dizia-me que o meu pai (que foi quase seu
filho, pela diferença de idades) também era assim e andava sempre uma estampa
em Castelo Branco. Agora que as visitava com muita frequência, todas as semanas
diversas vezes, exclamava: “mas hoje com outra toilette?”.
“Ó
Ti Bia, temos de vestir diferente todos os dias… Agora é toda a gente assim…”
Ficámos
ainda mais próximos depois do acidente. Deixou tudo, a casa, a loja e foi atrás
de mim. Visitava-me todos os dias. Deu-me de comer na boca. Assustou-se da
primeira vez que eu, sôfrego,
comi peixe, cansado de tanto soro e tanta droga. Quis saber dos meus dentes que
tinham voado no acidente e afinal já estavam todos no lugar. Mais tortos, com
diferente inclinação mas os meus. Acidente que deixou marcas. Insisti depois do
hospital: “Ti Bia, estás fraca, anda para minha casa, com a Cris e as miúdas
até recuperares.”
“Para
a tua casa? Dar trabalho? Deus me livre! Eu e a Cristina já passámos muito
juntas (por ti) e não vou ser um peso. “
Não
adiantava dizer-lhe o contrário porque já sabia como era. E foi como queria.
Esforcei-me
ao máximo para que as minhas filhas bebessem dela e ela adorava isso. Adorava
os natais, as páscoas e as festas de anos em minha casa; adorava o asseio, a arrumação e a minha casa
toda que elogiava à exaustão. Queria a Cristina como uma filha que não teve.
A
Leonor frequentou muito a loja quando ainda funcionava. Adorava os ovos
estrelados com salsichas e as batatas fritas em azeite da Ti Bia, almoços que
repetiu muitas vezes. Andava a dizer que agora nas férias haveriam de recuperar
isso. Depois do choque da notícia, de conseguir andar, estive meia hora deitado
na cama com a cabeça a mil à hora. A Leonor dormia ainda extenuada. Tomei banho
em silêncio. Fiz a barba. Vesti-me e fui tomar o pequeno-almoço. Subi e
acordei-a com um beijo. Tinha consulta e disse-lhe que tinha de se despachar.
Desceu para tomar o pequeno almoço. Quando subiu, perguntei-lhe: “Então e essa
noite? Dormiste bem? Descansaste? Eu também…
(minutos)
“O
dia é que não começou muito bem”, disse.
“Então?”
“O
coração da Ti Bia… Não aguentou…”
“A
TI BIA MORREU?!?!?” e rompe num choro compulsivo de soluçar que eu tentei
compreender enquanto a abraçava porque percebi que nunca tinha perdido ninguém
assim tão próximo. Custou a passar, a entrar em si, a encaixar.
Na
viajem perguntei-lhe se queria ir ver o corpo e disse-me que preferia não. Eu
queria que percebesse que é normal, que é a coisa mais certa que temos todos na
vida e que o que estava em câmara ardente é o corpo onde viveu a sua alma.
Preferiu manter a imagem dela viva e eu aceitei. Seria como preferisse. A idade
pode ainda não ser a suficiente.
| Leonor na Beirã com 2 anos. Há 11. |
A
Alice está como a Cremilde. Ainda não se apercebeu. Quando der pela sua falta
há-de saber que foi para o céu, para junto do Jesus. Mas guardou muito da Ti
Bia e certamente não se irá esquecer de como iam as duas regar as árvores, das
bolachinhas com chocolate da Biá, dos lanchinhos de pão com manteiga com leite
e um bocadinho de café, dos geladinhos que comprava para si na carrinha do
Xinóni (Family Frost), do antigo expositor de batatas fritas onde afixava todos
os desenhinhos que ela fazia e de um quadro grande em papel da festa de
despedida do vereador Pedro feito pela Catarina Bucho onde apontava a
esferográfica todas as datas em que a íamos visitar.
Sinto
um luto cá dentro. Silencioso. Escuro. Que dói e custa a passar. Mas que já
começou. Aqui, no blogue.
Que
fique em paz. E olhe por nós.
| As manhãs que eu adorava passar agora, no Inverno, com sol e muita luz. Todos juntos. Ia sempre que podia. |
quarta-feira, 25 de junho de 2014
Zé Manel Gavancha
Soube
que estava menos bem de saúde, que lhe tinha dado “uma coisa qualquer”. Porque
sou amigo preocupei-me. Mas a falta de tempo fez com que houvesse sempre um…
mas. Ou o trabalho, ou as filhas, ou a vida me levaram a saber sempre mais de
mim e a não me preocupar em saber mais… dele. Depois, nesta terra pequena
sofre-se do mesmo que nas outras terras pequenas e o boato começa a ganhar
força de facto. Que estava melhor, que estava muito mal, que teve uma recaída,
que lhe tinha dado outra vez.
Há
semanas encontrei a mulher e a filha junto ao posto da GNR e pude saber mais ao
certo, em concreto. Que estava melhor e internado na Anta da Beirã. “E recebe
visitas? Hei-de lá ir vê-lo.”
Encontrei
durante esta semana nas finanças, uma empregada que me garantiu que poderia lá
ir a qualquer hora. “Assim que for ver as minhas tias à Beirã com tempo, hei-de
lá passar.” E foi no sábado.
No
caminho parei-me, sentei-me a olhar a estação e reencontrei uma beiranense com
idade para ser minha avó que comentou comigo o inevitável nestes casos: como
era e como está aquela que há-de ser sempre a nossa terra. Fomos andando e
voltei a sentar-me já a sós, para ganhar tempo e fôlego para o que iria
encontrar. Reparei que me tinha esquecido da net ligada no telemóvel e recebi um comentário do Brasil à
imagem de perfil que tinha acabado de meter no facebook, com uma camiseta do
Cachaçafest do Piauí de 2008, ano da minha visita lá. Se é verdade que a internet
é a maior invenção do meu tempo (a roda já lá vai há muito e os computadores já
existiam quando eu era puto) e transforma o mundo numa aldeia global, o
facebook faz dessa aldeia uma rua. O Brasil é logo ali, logo aqui no meu
telefone.
Mas
eu ia a outra coisa. Olhei o edifício de fora e pareceu-me enorme. Maior do que
o imaginava. Assim olhado de frente, e não de passagem de carro, parece que a
dignificação o tornou ainda mais alto, mais importante e imponente. Respirei
fundo e entrei. Uma senhora muito dócil de mais de meia idade perguntou-me o
que queria e mandou-me sentar numa salinha de espera, pequena, simples mas muito
confortável com poucos adereços. Olhei pela janela e fui pensando. Pensando que
curiosamente a Beirã de hoje parece ter sido abandonada pela Beirã saudável e
próspera do meu tempo mas aquele edifício que foi residência dos alfandegários
na minha meninice e abandonado na minha adolescência, renasceu agora fruto do
trabalho de uma associação à génese da qual a minha mãe esteve ligada porque
nasceu da vontade de um grupo esclarecido de amigos que hoje é o santo graal da
Beirã. Sem ela, provavelmente já não haveria nada ali.
Estava
expectante. Horas antes tinha ouvido ao balcão do Adro, onde bebi café que o Zé
estava mal. Quão mal estaria ele? Será que não conhecia mesmo ninguém como
comentavam? Aquela sensação que os segundos pareciam horas… O Zé chegou
acompanhado, numa cadeira adaptada à sua condição. Achei-o mais magro, com os
olhos salientes que sempre o caracterizaram a parecerem ainda mais esbugalhados
na cara esquálida. Os seus problemas com a visão, muito castigada pela diabetes,
amorteceram o não me ter reconhecido logo. Foi a voz.
“E
o senhor, o que lhe é a ele? Família?”
“Amigo.”
(com A grande… há muitos anos. O Zé Manel zangava-se quando eu o tratava por
você. “Epá não consigo que sejas tu, o que é queres? Acho que é do seu bigode.
Mete respeito.)
“E
o seu nome?”
“Pedro.
Pedro Sobreiro”
As
palavras surtiram nele o mesmo efeito que o “Abre-te sésamo” dos 40 ladrões. O
meu nome despoletou um efeito que lhe abriu a gruta das emoções. Ainda com
algumas limitações na mobilidade, foram os olhos ou a emoção que caiu deles em
catadupa que abriram o jogo. O Zé Manel estava lá, aprisionado naquele corpo
que o limitava mas com o mesmo cérebro, o mesmo sentir, o mesmo coração. A
amizade, o querer bem aproxima muito as pessoas. Às vezes, faz delas mais
próximas do que se fossem família. Cada lágrima era um grito de revolta por se
ver assim de um momento para o outro depois de ter sofrido tanto com a saúde,
um lamento, uma dor. E ficámos ali assim em silêncio, os dois, de mãos dadas.
Ele a gritar em silêncio com os olhos fitos no nada e eu a olhar para o chão,
para não interferir com aquele momento tão íntimo, tão seu. Muitos minutos
muito grandes.
Silêncio
e dor.
Quando
voltou a pouco e pouco a si, foi respirando mais e mais fundo.
Dei-lhe
espaço e vagar. “E então, Zé? Como te sentes?” foi a forma de entrar neste
mundo ainda novo ao qual se está a ambientar. Com um discurso completamente
lógico e compreensível, talvez um pouco limitado com a articulação das
palavras, disse que se sentia muito bem apoiado e instalado. Disse que o apoio
da família o motiva muito e que a mulher, a filha e o filho nunca o deixam
sentir só. Disse-me que está à espera de ser avô nos tempos mais próximos e no
rosto acendeu-lhe uma esperança que lhe fez brilhar os olhos. “É o meu filho…
está quase a ser pai.”
“Mais
um benfiquista, Zé! Tem de ser!”
Ele
sorriu, disse que sim e a bola tirou-nos dali, fez-nos ir um bocadinho ao campo
dos sonhos embalado pela paixão benfiquista que nos assola a ambos. Com a sua
maneira generosa e bondosa de ser, fiquei com a impressão que ainda me perguntou
pelas minhas pequenas mas a estrela ali era ele e não eu.
“Tratam-te
bem, Zé? Comes bem? Não te falta nada? Vês televisão? Ouves rádio?”
Disse-me
que perdeu muito o apetite e pela falta de visão não se sente muito impelido a
ler mas que a televisão é sempre uma boa opção embora os jogos do mundial sejam
a horas difíceis. Relembrou-me de cabeça os jogos do calendário desse dia e
afastou-me os fantasmas de que poderia estar menos bem de cabeça.
“Sabes
o que te aconteceu, Zé?” (fiz um esforço pelo tu de há umas semanas a esta
parte e tem resultado) e quando lho perguntei também eu não sabia ao certo.
Provavelmente já me deveriam ter dito o que foi mas a minha cabeça já não é a
mesma e quando perguntei, não sabia, de facto. Ele também não. “Achas que foi uma
coisa que te deu? Achas que foi a tensão?”
“Não
sei. Foi de tarde. Não sei o que foi mas acho que foi de tarde.”
O
seu quinto Machado esclareceu-me depois no regresso à aldeia que foram 3 AVCs
que fizeram mossa. Segundo soube, esteve no hospital já com sintomas e a
triagem pode não ter sido exímia porque se repetiram. Agora está a recuperar, a
apostar que a fisioterapia lhe consegue devolver alguma da qualidade de vida
que perdeu.
De
vez em quando olhava a janela e queria ver o que se passava lá fora. Mas senti-o
machucado, como se um comboio lhe tivesse passado por cima.
Eram
horas de jantar e ainda tinha de passar a ver as minhas meninas (de 84 e 86).
Mas hei-de lá regressar. Com muito mais frequência. É nestas alturas que os
amigos nos podem ajudar. E eu já estou a pensar no que lhe vou dizer em
próximas conversas, que há-de passar muito pela ideia que apesar de tudo, teve
uma nova oportunidade de ver as coisas que a vida ainda lhe pode dar, como um
neto.
Tem
58 anos. O meu pai tinha 49 e naquela manhã só queria acordar.
terça-feira, 17 de junho de 2014
Alemanha: 4 - Portugal: 0 / Uma entrrada nos mundial a matarr!!
![]() |
| - Pffffffffffffffffffffffff que calor... Na minha câmara de musculação está-se mais fresquinho - Ronas, vais a deixar cair a carteira do bolso de trás... |
![]() |
| Hum, Herrr Platinis, ests portuguesis bin sehr intersantzzz.Ich les din eres mas ils savoir que si ganhem se lhes acabem... |
![]() |
| A equipa de futsal dos Escalos de Baixo Pergunta para queijo: onde está o sósia do Variações? |
Era enorme
a expectativa,
Da estreia
no mundial,
Queríamos
conquistar o Brasil,
Como
fez o bom do Cabral (há 500 anos atrás.)
Tava
todo o mundo virado,
Prá nossa
seleção,
Já ninguém
se lembrava do BPN,
Dos
impostos e da falta de pão. (que afeta todos e aqui o pão pode ser tudo o que
falte)
Bem
dizia o velhinho Esteves (Esteve aqui, Esteve ali),
Mas
conhecido por Salazar,
Que
para a malta andar animada,
Fado e
muita bola não deviam de faltar.
Toda a
gente em cima,
A
acompanhar e a jogar por fora,
Que
mal nos distraímos uns minutos,
Já
estávamos a mamar uma tora.
Que o
penálti não o era,
Que
foi excesso do árbitro e do Pereira,
O
primeiro porque podia ter deixado passar,
O
segundo porque aquilo não são maneiras.
Dois
lances decidiram o jogo,
Uma
falta e uma expulsão,
Podiam
não ter sido marcados, é certo,
Mas
temos de acatar a decisão.
O Pepe
é um tuga naturalizado,
Com pouco
sangue de Viriato a bombar no coração,
Mas é um
verdadeiro catedrático das expulsões,
Que
quis dar um brilho da sua atuação.
(A verdade
é que já) Mandamos muito pouco no mundo,
Onde fala
alto a Alemanha,
(Por
isso) Temos de piar fininho e aceitar,
Esta força
ariana tamanha.
“Quem
se deve estar a rir é o cigano!”,
“Isto
é um jogo de treino para a Alemanha.”,
“Hoje passa da meia dúzia”,
“Temos
aqui outra Espanha”.
“Está tudo
roto, é só arames”,
“Já
podiam era fazer as malas”,
Foram
os comentários que se ouviram,
aos
meus colegas camaradas.
O que
eu vi foi a Merkel de rosinha,
a
desfilar na bancada,
Quanto
aos representantes de Portugal,
Não
apareceram mesmo nada.
Para
fazer frente aos Fritz,
Nem
Cavaco, nem Coelho,
O
alemão agigantou-se
E
mingou o nosso Paulinho.
Foi a
pior exibição de sempre,
Demos
uma imagem fraquinha,
Joga
com a imagem da economia, digo eu,
E assim
fica toda certinha.
Tivesse
entrado a borla,
Dada ao
Kedhira, pelo Patrício,
E a
desgraça não tinha sido só a derrota,
A
expulsão e tudo o resto, um suplício.
Quatro
foram muitos,
por
quatro é pesada.
Mas eu
digo que por 20 causa igual mossa,
Na nossa
lusitana armada.
Perder
por 100 ou por mil
Dá
igual, têm de pensar,
Não se
podem ir abaixo,
Não
podem mesmo traumatizar.
Agora
faltam 6 pontos a jogo,
E 6 temos
que ganhar,
Aos States
e ao (ma)Gana,
Se
quisermos lá ficar.
Vamos
já lamber as feridas,
Limpar
as armas, carregar o canhão,
Acreditar
que tudo é possível,
Com
muito esforço e união.
Ter o
melhor do mundo dá jeito,
Mas os
outros têm de ajudar,
Senão
ficamos a ver navios,
No
oceano a patinar. (perdidos, a naufragar…)
É já
no domingo que nos vamos a eles,
Os
yankees vamos trincar,
Vão
ver bem o que é os tugas,
Plenos
de força, a bombar.
Não
sabemos fazer isto doutra forma,
Senão correndo
atrás do prejuízo,
Só
assim conseguimos fazer contas de cabeça,
E
saber bem o que é preciso.
Se
acredito que podemos ganhar a copa,
Claro
que sim, como não?!?!?
Também
me acho é sério candidato,
A presidente
do Cazaquistão.
Copa é
sonho, Copa é querer,
Se o
Paulinho não a traz,
É
porque não é capaz__________________________________________FIM
Aluno:
Pedro Sobreiro
Idade:
41 anos
![]() |
| Ia batendo no poste. (de tão bem marcado que foi) |
![]() |
| Eu sou fã do Uri Geller e vou fazer desaparecer o Nani |
![]() |
| Cara, não brinqui. Eu só lhi vou dár uma cabeçada, valeu? |
![]() |
| A minha Cristina vai estar parada mais tempo e pode não jogar já este mundial |
Labels:
Futebol,
O nosso Portugal
quarta-feira, 11 de junho de 2014
O nosso fado, Aníbal
![]() |
| Se não se mexerem... é capaz de demorar... mas uma a um... vão! |
Hoje, com mais calma que os ânimos já
estão mais serenados, é altura de falar com o nosso tio-avô Cavaco. O homem não
pode estar bem. E não foi só de ontem. É certo que ter estado a querer cantar o
hino com aquela turba toda aos gritos não ajudou a sua (a)tensão em nada. Mas
ele já não andava bom. Há muito tempo. E eu já andava desconfiado só que não
disse nada para não assustar os credores que sei que são leitores assíduos do
meu blogue. Não há reunião da Troika que comece sem antes por aqui passarem
para saber se tenho novidades. O “Vendo o mundo…” e o facebook de Pedro
Sobreiro estão ao nível d’ “O Crime”, da “Nova Gente” e do “Dicas da Semana” do
Lidl. Obrigatórios para quem quer saber o pulsar do país.
Quando Cavaco disse que a 7ª avaliação
da Troika foi favorável por se ter sido a 13 de Maio e mais um milagre de
Fátima, achei que a coisa ia rebentar. Mas safou-se na autópsia. Depois disso
têm sido muitas e mais do que evidentes.
Quando se despediu dos jogadores, ao partirem
para o Mundial do Brásiu, pagou um almocito mas em vez da bela da feijoada, ou de
uma sardinhada que ali nos jardins de Belém, com tantas sombras para quem se
embezanásse (e se há lá gente com boa pinta para o fazer) poder dormir a sesta,
ou uma frangalhada assada bem regada com uns tintos que são bem tugas, mandou
servir uma “carne à bolonhesa”!?!?!? Desculpe? Se é bem verdade que os jogadores
precisam de comer hidratos, davam-lhe batata que estes pratos bem tugas têm
muita. Se não chegava davam-lhe supositórios de hidratos. O Veloso e o Meireles
têm ar de quem não se preocuparia muito com o negócio. “Carne à bolonhesa” não
lembra a ninguém. Pior só um “Arroz à Valenciana” servido à moda de Sevilha.
Pode estar bem? Não pode!
Por falar nos vizinhos, o rei de
Espanha tem mais um ano e já decidiu bater asa. É certo que o monarca toda a
vida se meteu em caçadas de animais de grande porte (do peito para cima)e da fama de Onassis não
se livra, enquanto que o nosso Aníbal venera a sua Maria que tem mesmo ar de
quem dá ordens lá na casa. Mas ele já tem idade, vá. E não vai ter tempo para
fazer muita coisa já. Há que definir prioridades.
Aníbal, eu se fosse a ti mudava o
hino, pá! Este é velho, está desatualizado e já não vai tendo jeito de nada.
Aníbal, o teu tio sabi explica:
Como sabes, o hino nacional é um
símbolo nacional, como tu, mas é mais antigo uns anitos. Tem a ver com o
ultimatum dos ingleses e como se tornou marcha dos revoltosos, até foi proibida
pelo regime monárquico. Só com a implantação da república é que se oficializou
e desde então, é presença certa em tudo o que é de Estado. Tem música de Alfredo
Keil que até nem está mal de todo mas o problema é a letra do Henrique Lopes de
Mendonça que está do mais destualizado que possas imaginar. Eu explico:
![]() |
| Alfredo Keil: antigo |
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| Henrique Lopes Mendonça: mais antigo ainda |
Senão vejamos e analisemos, os dois:
A Portuguesa
Heróis do mar(está
certo porque fomos mesmo, já dividimos o mundo ao meio com os espanhóis no Tratado de Tortesilhas), nobre povo,
(já não somos lá muito nobres, vendemos os dedos e foram-se os
anéis),
Nação valente (isso
sim! com eles no
sítio!),
imortal (isso não. Todos morrem e a gente também
não fica cá para semente),
Levantai hoje de novo (outra vez?!? Só com Viagra!)
O esplendor de Portugal! (tá correto e tá bonito)
Entre as brumas da memória (onde não se deve ver um palmo à frente do nariz),
Ó Pátria, sente-se a voz (sente-se a voz?!? Não ficaria aqui melhor o ouve-se?)
Dos teus egrégios avós (egr… quê?),
Que há-de guiar-te à vitória! (conduzir—te não ficaria melhor? È que guiar-te faz
lembrar um volante)
Às armas, às armas! (Isso já não se usa. Ainda se fosse Aos mísseis, Aos
mísseis)
Sobre a terra, sobre o mar, (todo o terreno, portanto)
Às armas, às armas! (ver duas linhas acima)
Pela Pátria lutar (lutar q.b. que isto não está para lutas. Há muita fome)
Contra os canhões marchar, marchar! (marchar contra os canhões? É capaz de dar barraca)
É certo que ficar sem hino não dá
jeito nenhum e eu já te arranjei um substituto. Uma música que verdadeiramente
diz e define o que é ser português: “Desfado”, cantado pela Ana Moura. A intérprete
é um exemplar belíssimo da raça lusitana (feminina… calma!) e impõe-se por si.
Enquanto estiver dentro do prazo (e ainda tem muitos e bons anos pela frente)
evitaria que ao hino se sobrepusessem outros temas que roubassem protagonismo ao
nosso tema nacional. Dou-te um exemplo: evitar que o Paulo de Carvalho fosse de
brinco para a Assembleia da República cantar o “E depois do Adeus” que serviu
de senha para os militares do 25 de Abril. Para já, o rapaz já não canta nada,
depois vai para lá fazer show-off e não dignifica nada em nada, pá. Apanhar a
Ana ali de vestidinho justo e de cavas, era outra música, dava outra solenidade,
não sei se estás a ver.
Se a interprete é do melhor e está a um
nível que a Amália nunca esteve nem mesmo nos tempos áureos porque sempre bebeu
muito, a estrela da companhia é a letra do tema. Nunca vi, nunca conheci, nunca
imaginei um tema que pudesse dizer tanto sobre o que é ser português em meia dúzia
de linhas. Um portento. Uma verdadeira obra-prima. O Pedro da Silva Martins é
conhecido como sendo um dos barbudos dos Deolinda. Aquilo é tudo primos e
família, mas não é nem o dos óculos que está casado com a donzela, toca
contrabaixo e é imberbe, nem o outro da guitarra. É um que parece o D’Artagnan
e o cachopo merecia uma medalha dessas que tu dás no 10 de Junho. Este ano já
vai tarde mas pensa nisso pró que vem.
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| https://www.facebook.com/pedrodasilvamartins2?fref=ts |
Vê o vídeo, lê a letra, pensa no poema
e diz-me lá se não tenho razão. Cada palavra tem um sentido, cada verso é
poderoso. Podes comentar utilizando a caixa do meu correio sentimental que vem
no cabeçalho do blogue para o fazeres. É sigiloso.
Aníbal, um abraço e lembra-te que há
coisas sempre piores que podem acontecer. Lembra-te do Relvas a cantar “o povo
é quem mais ordenha” quando foi interrompido por manifestantes numa
universidade qualquer onde estava infiltrado. Mais uma…
Admira isto:
E diz assim (e está tão perfeito que
nem toco em nada nem anoto):
Quer o destino que eu não creia no
destino
E o meu fado é nem ter fado nenhum
Cantá-lo bem sem sequer o ter sentido
Senti-lo como ninguém, mas não ter
sentido algum
Ai que tristeza, esta minha alegria
Ai que alegria, esta tão grande
tristeza
Esperar que um dia eu não espere mais
um dia
Por aquele que nunca vem e que aqui
esteve presente
Ai que saudade
Que eu tenho de ter saudade
Saudades de ter alguém
Que aqui está e não existe
Sentir-me triste
Só por me sentir tão bem
E alegre sentir-me bem
Só por eu andar tão triste
Ai se eu pudesse não cantar "ai
se eu pudesse"
E lamentasse não ter mais nenhum
lamento
Talvez ouvisse no silêncio que fizesse
Uma voz que fosse minha cantar alguém
cá dentro
Ai que desgraça esta sorte que me
assiste
Ai mas que sorte eu viver tão
desgraçada
Na incerteza que nada mais certo
existe
Além da grande incerteza de não estar
certa de nada
Já que chegámos à conversa e para
ultimar, Aníbal, sem te querer chatear, quero dizer-te que essa de entrares nas
selfies com a selecção é coisa que não te dignifica e que te deverias aplicar
mais na escolha dos rapazes que vão representar as nossas quinas. Para já,
todos deveriam de ter um bigode ou uma barba, pelo menos, para homenagearem o
Camões. Depois não deveria de haver por lá tatuagens a não ser como as minhas
que são andorinhas, tipicamente portuguesas e hábito de marinheiros. Nada de
tatoos: “Kátia Vanessa amo-te”.
Isto para não falar daquela coisa chamada
Raúl Meireles que parece um índio mohicano raçado de Variações que não lembra o
diabo. Mas que raio de cabelo é aquele?!?!? Tem cuidado nisso, Aníbal. O Ronaldo está bem. Alinha-os por aí. Tem
muito músculo. Mete-os a encher.
Adeus,
Dom Pedro
Alentejano marvanense beiranense
arenense
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