Mostrar mensagens com a etiqueta O meu horizonte longínquo sobre carris. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta O meu horizonte longínquo sobre carris. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Shangri La - O meu horizonte longínquo sobre carris (Parte IX - Canastrões)

Depois de algum tempo de interregno, depois de uma paragem sem motivo aparente, mas que é apenas um sinal dos tempos que vivo, e vivemos, publico o último capítulo do meu contributo para as memórias das freguesias de Santo António das Areias e Beirã.

 

Segue-se um conjunto de memórias, das quais me vou lembrando quando quero escrever sobre o passado…

O mítico Raul

a)    Raúl

Numa galeria de figuras da minha terra, a primeira tem claramente de ser esta, que dos cromos, era o maior: o Raúl era um rapazinho, já homem, que nós achávamos não tão velho, embora soubéssemos mais avançado que nós, que andaria aí pela casa dos 40, quando nós ainda éramos pequenos. O Raúl tinha assim um corpo apequenado, de bracinhos pequeninos, e perninhas esquálidas. Andava sempre “bem” vestido, de camisinha, às vezes fato, por vezes gravata, mas sempre de chapéu. Provavelmente teria sofrido um ataque qualquer quando era mais novo, ou teria vindo assim de nascença, mas como era diminuído, o pobre, era muitas vezes alvo de gozo e troça dos miúdos, que nisto aqui, são cruéis. Não digo éramos, porque nunca o tratei mal, e até sempre nutri por ele, um carinho muito grande, porque nunca foi violento. O Raúl não articulava bem as palavras, ora as balbuciava, ora as murmurava, e quase sempre se babava, quando o fazia.

O Raúl era indissociável do seu carrinho de mão, que era como se fosse uma extensão de si mesmo. O carrinho estava sempre carregadinho de pedras, algumas bem grandes e pesadas, que ele acartava para o alto de um monte, ali para junto do ribeiro, para conseguir construir uma “câja” para ele e para a “Nina”, que era a sua apaixonada, mas de quem eu já não me recordo muito bem se sabia quem era. Dias inteiros, as vezes bem de manhãzinhas, e noite até, num trabalho incessante para a conquista de um sonho perdido que nunca conseguiu.

O que eu sim me recordo assim mesmo muito engraçado, e faz-me sorrir quando relembrei, era quando alguém o incomodava, importunava, lhe fazia frente, e ele prontamente ameaçava em ir a “Xantantônho” à “câsadaquexa”, traduzindo, a Santo António das Areias, à casa da queixa, ou seja, à GNR.

Lamento tanto que o seu desaparecimento não tenha guardado um lugar na minha memória, mas a verdade é que lhe perdi o rasto. Não me consigo recordar aquando se deu o seu fim, em que momento da minha vida de migrante da terra o perdi, mas a verdade é que se foi, e para mim, hoje que olho para trás, sinto que o hei-de sempre recordar assim, a beber um Sumol fresquinho, talvez de laranja (creio que não bebia álcool), para atenuar o calor, enquanto voltava a pegar no carrinho de mão cheio de pedras e se fazia à estrada sob um sol abrasador de Verão.

 

b)    O “Calcinhas”

O “Calcinhas”, figura mítica e a 3 dimensões desta galeria, era todo um figurão. Já homem de bem mais que meia-idade, de quem parece que estou a ver a sua cara, e ouvir o seu riso; vivia na Beirã mas creio que não era de lá. Tinha um emprego altamente conceituado na alfândega, e era um senhor muito bem remunerado que vivia bem, quer-se dizer, bem… em termos financeiros, porque… de resto, não tinha esposa, filhos e familiares mais próximos. Era um solteirão já bem avançado, que fazia as delícias da pequenada, quando nos ia contando as suas aventuras e desventuras nas visitas que fazia às casas das meninas de região. O seu Volkswagen carocha branco, com diversos pacotes de leite no tablier traseiro, para desintoxicar dos excessos da noite anterior, percorre todos os tempos da minha meninice.

Era baixinho, estava assim sempre meio vermelhote (?), e cheirava a perfume manhoso. Era calvo mas tinha o pouco cabelo sempre impecavelmente penteado, puxado para trás?


Mudo

Todas as terras tinham um mudo, e o da Beirã… era bem castiço. Não me consigo recordar de onde era oriundo, mas se o visse hoje ao longe, reconhecê-lo-ia de imediato. Não é que fosse mudo de todo, e fartava-se de nos dizer que mudez, não é surdez; e conseguia ouvir algumas coisas, como quando abria os braços esticados, emitia um som com os lábios a baterem como se fosse um motor, e olhava o céu, imitando um avião.

Mandava-nos à merda, quando gozávamos com ele, enrolando o dedo polegar à volta do nariz.

 

d)    Sr. Cardoso, “O Cardosão”

De todas, a mais erudita das figuras, era todo um cavalheiro. Calvo, sempre muito bem vestido e composto, natural do norte, tenho ideia que de boas famílias, vivia com a sua esposa, a D. Aurócia (?), e não tinha descendência. A sua casa, enorme, na rua da igreja, tinha um escritório na parte de baixo; repleta de livros em estantes, onde passava as tardes e as noites a ler. Fumador inveterado, adorava receber a malta nova que nos sentávamos no chão, boquiabertos, a admirar as suas preleções. Quem nunca fumou o seu primeiro cigarrinho com o Cardosão? Saudades imensas…

 

e)    Sr. Sabino

Alto, bonacheirão, com ar simpático e sempre bem-disposto, o Sr. Sabino trabalhava na alfândega, e era um companheirão mais velho do meu pai, que vivia no prédio (dos moradores) da alfândega, onde hoje funciona a Unidade de Cuidados Continuados d’ “A ANTA”. Ficarão para sempre eternas as enormes favadas (único prato que a minha mãe não cozinhava, por não gostar) que os dois comiam em conjunto, na casa deste, sempre extraordinariamente bem molhadas. De resto, toda a Beirã tinha um pedacinho de terra onde produzia favas, ou lhas davam, ou as conseguiam, e quando assim era… convidavam o João Sobreiro que, claro que aceitava, por ser o seu prato favorito. Até hoje eu as como, nem que seja por ficar a pensar nele.

 

f)     João Forte

De festa, mãe Alzira sorridente com Sr. Sabino, e o João Forte

O João Forte, figura ainda viva, personagem de sempre da Beirã, atravessa décadas e passou de século com a particularidade de, aos meus olhos, estar sempre igual. Com uma forma muito própria de vestir, sempre com o seu gorro de lã, e o seu estilo informal, ainda hoje, quando entra nas finanças onde trabalho, parece que se estabelece um túnel em direção ao passado, e a Beirã volta a ser o que era, com comboios e tudo.

Filho de famílias abastadas, que foram deitando a perder todo o seu património, nem eu sei muito bem porquê, creio que vive na mítica Broca, creio que sem grandes condições, mas ainda vai felizmente rodando por aí, como se fosse imune à passagem do tempo.

 

g)    O menino Augusto

Irmão do João Forte, ainda hoje vivo também, o “menino” Augusto, como ele próprio se batizou, e gostava de ser tratado, era, e é, uma figura absolutamente fascinante, fora de qualquer baralho. Tendo sido estudante no colégio de Tomar, uma escola de elite daquele então, cuja frequência atesta bem a saúde financeira da família, sempre teve de tudo, menos de parvo; embora muitos assim o achassem, e eu estou em crer que sempre gozou foi com eles, ao fazer-se passar por tal.

Sei que teve casado e tem filhas, mas eu entro no filme já muito depois, e sempre o conheci como uma figura… que não tem nada a ver com nada.

Não lhe conheci trabalho, qualquer zelo na apresentação e indumentária, mas sempre muito amigo da pinga, e a sua fama de sempre alcoolicamente bem-disposto, cruza tempos e gerações.

Lá está, houve quem nunca o compreendesse, quem o ostracizasse, quem o ofendesse, mas eu sempre nutri por ele enorme carinho, admiração, e estima sincera. Ainda hoje, quando o reencontro na Clínica Sanvimed, onde ambos somos clientes, me conta sempre como está da sua maleita que ainda não percebi bem se foi um ataque de sarampo que teve em criança, que agora, de vez em quando sai????; se foi um ”cobro”?!?!?, se foi lá o que foi. Ele diz sempre que o Dr. Vitoriano lhe salvou a vida porque os médicos do hospital de Portalegre não sabiam o que lhe haviam de fazer, como se isso fosse mesmo verdade.

Recordo com muita saudade, os discursos que fazia em plena Carreira de Cima, Castelo de Vide, nos anos 80, quando eu lá estudava, estando já num estado bem avançado, muito do meio para a frente, e começava a dar num tom bem alto, as suas fantásticas preleções sobre tudo e sobre nada, sempre com enorme eloquência, espírito argumentatório, capacidade de persuasão, e profundidade filosófica. Certo dia, há bem mais de 30 anos, mas que jamais me esquecerei, do nada, lançou para quem quis ouvir, esta dúvida existencial, onde equacionava toda a economia de mercado: Eu, Augusto da Mota Forte, plantei uma alface. Veio o coelho… comeu a alface. Veio o caçador… matou o coelho. Ora eu, Augusto da Mota Forte, tenho ou não tenho direito a uma pata desse coelho?


h)    Sr. Murta

     Nos anos do Zé Manuel Bonacho, na garagem dos seus pais, na rua onde eu vivia, que se enchia sempre de comida e amigos. Com o Sr. Murta a fumar, como era habitual nele, o Zé Manuel Dias, o Prof. Tavares, então padre da paróquia, que me batizou, lá atrás; o Zé Manuel, com a sua caraterística barba e o seu ar inocente, a minha tia Cremilde, rindo ao lado; a minha madrinha Fatinha e a minha mãe. Estou ao centro, a rir. A piada deveria de ser mesmo muito boa. 

Já conheci o Sr. Murta sempre assim, com este ar das fotos; ou pelo menos, já como homem de meia idade. Distinto Senhor e vereador da câmara, era dono de uma casa lindíssima, junto à igreja, com uma horta e fantástica tangerineira, cujos ramos deixavam cair os belíssimos frutos para o largo em frente desta, que nós devorávamos. Desconheço a sua ligação à terra, até em termos laborais, porque sempre me lembro de ouvir a sua ligação aos aviões (ou estarei a fazer confusão?).

O seu filho Luís Murta, quase que um ídolo para nós crianças, ou pelo menos para mim, o era; tinha numa casa anexa à dos pais, uma coleção de aviões em miniatura que montava, diversos desenhos, e ligações a tudo aquilo que adorávamos.

Após da sua morte, o filho mais novo, Zé Luís, partiu para a cidade; e o Luís explora há décadas uma casa destinada a artigos de caça e pesca, de altíssima qualidade, em Castelo de Vide.

 

i)     Bonachinho (José Manuel Bonacho)

O Zé Manuel Bonacho era para nós, rapazes dos setentas, uma espécie de irmão mais velho, que nos acompanhava e levava para todo o lado, sobretudo para a célebre discoteca “A Maluka”, nos Fortios, em alta nesse então, destino de quase todos os fins de semana, à sexta e sábado. Filho de pai soldado da Guarda Fiscal, mas de uma família com terras e abastada, era um solteirão inveterado, a quem creio que nunca foi conhecida nenhuma namorada. Licenciado, tinha uma profissão muito segura e credenciada na região de saúde do Alentejo. Foi-se deixando ficar. Também um fumador inveterado faleceu de doença súbita, inesperada, creio que de uma embolia cerebral, irremediavelmente cedo demais, ainda antes dos 50, tal e qual o seu vizinho de cima tinha sido, uns anos antes.

 

j)     Paulinho Cascavél, o Carcacinha

Oriundo de uma família de muitos irmãos, os Pereiras, chegada mais tarde à terra; creio que oriundos do Pereiro; o Paulinho Cascavél, ou Carcacinha, como nos habituámos carinhosamente a tratar, também merece um lugar de destaque nesta galeria. Tendo entrado muito novo para o serviço militar, ali fez toda a sua vida, tendo atingido o posto de cabo, acho eu. Figura muito caraterística, com uma piada natural incrível, adaptava-se a todas as situações e conseguia nunca cair em falso, porque era natural e nunca se armava ao pingarelho. Era o que era.

Memórias incríveis de quando vínhamos juntos de fim-de-semana no comboio da beira-baixa, e começámos a conversa que um tinha um chouriço, que seria tão bom de comer então: e outro trazia um barrrozinho daqueles para ofertar a alguém, onde se costumavam assar os ditos cujos; outro trazia álcool (já não me lembro de puro, se do outro), mas dali a estarmos a assar chouriços em pleno comboio foi um instante, sempre com um vigia em cada janela da carruagem, não fossemos nós ser apanhados e presos.

Essa e as aulas de ordem unida em plenos carris, numa noite de festa na terra, enquanto a banda tocava, e os níveis alcoólicos ferviam, são postais eternos para todo o sempre.

Também faleceu cedo demais, pagando de forma pesada, o seu comportamento desviante e libertino numa Lisboa dos anos 90 a escape livre, quando as doenças mortais com nomes pequenos de siglas, ceifavam vidas incautas, castigando-as  sem dó, nem piedade.

Muito amigo, do seu amigo, geria uma hortazinha de onde tinha muito prazer e alegria em dar.

Ficará sempre até sempre…

 

k)    Zé Maria da Graça

Pai de três belas meninas da terra, casado com uma senhora creio que dos lados de Nisa,  Montalvão, ou por aí; o Zé Maria da Graça personificava na perfeição a imagem-tipo dos guardas-fiscais, a tal franja considerável da população masculina. Homem muto correto, bom, e educado, dava-se bem com toda a gente, a todos queria bem, e por todos era querido. Não sendo de muitos estudos, que não eram necessários para aquela carreira, sabia estar, se posicionar, e bem parecer. Tinha nível. Conhecia-me de toda a via, desde gaiato.

Voltei a apanhá-lo quando já era homem, e nutrimos uma amizade boa, sincera e do melhor. Cliente habitual da Casa Nicau, da qual passou a ser ainda mais asssíduo quando o estabelecimento passou para a frente da sua casa, era um companheirão, e recordo com saudade imensa, as tardes de tertúlia que passsámos a beber cerveja e a comermos “meio quilinho delas”, sendo que elas eram deliciosas gambas fritas pela D. Teresa Nicau, com pãozinho torrado, e molhinho de muita margarina derretida com sumo de limão. Coisa tão boa…

Metia-se comigo, e gostava muito de na paródia, à frente de pessoas com as quais não estávamos habitualmente, dizer: “vá, dá cá um beijinho ao pai”, o que eu correspondia de imediato, com um repenicado na bochecha, para ele me dizer de seguida, às gargalhadas, “Ai… eu adoro este gaiato! Gosto mais dele do que se fosse meu filho!”

A sua morte súbita, quando caiu redondo para o chão, do nada, no quintal de frente da sua casa, consternou-me imenso, e deu-me um abanão tremendo por sentir que também o meu tempo se está a esvair, ao ver grandes da minha galeria de ídolos e amigos ir-se esfumando.


Tó Gonçalves

1-      Encontro de jovens na Beirã, com um grupo católico trazido pelo padre Fernando Farinha, ao centro da imagem, com o meu irmão às cavalitas, por volta de 82. Do lado direito do padre, em cima do muro estavam o Quim Carita (a fazer músculo), o Zé Dias (a sorrir), eu, e os primos Chico António e Chico Zé, alguns dos que habitualmente por lá passavam férias. Por debaixo de nós estava o Tó Gonçalves, de colete e crachás, muito em voga naquele então.


Os dois amigos, na Beirã, numa foto recente

A bem de ver, acho que nunca houve criança alguma na Beirã, que não tivesse ouvido dos pais dizer, certo dia, quando procuravam um exemplo a seguir: mete os olhos no Tó Gordo!

O Tó, para os amigos; gordo porque de magrinho nunca teve nada, era o António Manuel Vaz Gonçalves, uma criança e um aluno brilhante, que por todos era elogiado, e sempre foi identificado como um exemplo a seguir. Também filho de um guarda fiscal, um Senhor guarda, o Sr. Gonçalves, sempre muito calmo e correto, foi revelando desde muito novo, que era também uma carta fora do baralho. Seguindo um percurso académico notável, entrou para a universidade em Lisboa, para cursar Filosofia e… mudou. Os excessos da vida académica, citadina, e o afastamento das raízes, fizeram com que se tivesse transformado num barco à deriva que chegou a tocar os limites da sanidade. Meu amigo pessoal, por quem nutro uma enorme estima, carinho e admiração, chegou, depois desta fase mais difícil, de internamentos complicados, e processos muito difíceis; a escrever uma notável obra poética, tão clara e visual, que sempre admirei pela forma como as palavras cortavam o ar. Depois da tenebrosa travessia pelos infernos da perdição, nunca de problemas duros e pesados, segundo me contou; mas sim de uma relação proibida com o álcool; chegou a tirar um curso de Inglês na Escola Superior de Educação de Portalegre, e não estou já bem certo se não chegou mesmo a lecionar.

Ultimamente tenho notado, com grande mágoa, que o seu estado de saúde se tem estado a agravar, e de cada vez parece mais que vive num mundo isolado, só seu, que por mais que o queiram ajudar, se fecha sobre si mesmo, e fica impenetrável.

Não creio que no dia 5 de Dezembro, muitos mais se tenham lembrado de o abraçar para o felicitar pelo seu aniversário.

A alegria correspondida com que me olha sempre, comove-me sem chorar.

 

l)     João Sobreiro

Foto clássica do pai, com a sua companheira de sempre...

De figuras da terra, claro que não poderia passar por esta, que obviamente não poderia ter  outro lugar, senão este, o derradeiro. O João Sobreiro foi um verdadeiro cometa negro, como a célebre banda albicastrense a que pertenceu, que marcou a sua juventude e de toda a região. Escrever sobre o ser que me deu a vida, e sinto que me corre ainda hoje nas veias, é duro e doce ao mesmo tempo, é libertador e recompensador, é justo mas com sabor a injustiça, como foi o seu desaparecimento.

Figura muito popular em Castelo Branco nos anos 60, filho do tal ferroviário que chegou a chefe daquela estação, depois da Beirã, e até de Valência de Alcântara, onde se reformou como inspetor; nunca foi um apaixonado pela escola.

Viveu a década quente do século passado em alta rotação, quase com o estatuto de estrela pop/rock, estrelando nos bailes de finalistas da região, tendo tido o seu auge num concurso de música moderna portuguesa no Monumental, em Lisboa, que perderam apenas para os “Sheiks”, do Paulo de Carvalho. Abandonou a ribalta quando teve de partir para uma guerra ultramarina que não compreendia, e chegou a doar a sua estimada bateria Ludwig, que ostentava sempre como grande relíquia, por ser igual à do Ringo Starr, dos Beatles, um dos seus ídolos; não esperando regressar.

Nunca tendo brilhado nas aulas, apesar da belíssima caligrafia e da técnica de desenho que nunca explorou convenientemente, no meu entender, foi cumprindo os minímos para prosseguir. Quando voltou de além-mar, aceitou o convite de emprego do seu tio/padrinho João Dinis Carita, como ajudante de despachante, e fixou-se na Beirã, para onde trouxe a sua então namorada, depois mulher, a idanhense Alzira Ereio. A Beirã naquela atura era então uma terra de pleno emprego, onde se sabia que as pessoas que dependiam dos serviços viviam bem, se respirava saúde social, e se fomentava uma frondosa vida comunitária.

O João Sobreiro afirmou-se então, como um homem que sabia estar e, sobretudo, alguém ao lado do qual se estava bem, junto do qual havia boa disposição e alegria de viver. Sempre acompanhado com a sua viola acústica, que levava para todo o lado, e lhe permitia abrir alas em qualquer lugar, a confraternizar com os seus amigos (cartadas, sueca e truco; e matraquilhos, eram o seu forte), que eram sempre muitos; o João fazia a festa. Fosse depois de uma caçada, numa jantarada, numa tarde/noite de bola, a seguir o seu Sporting; ou noutra festa qualquer, poderiam haver muitos a dar nas vistas, mas nenhum com a sua forma exuberante e sincera.

Para quem não o conhecesse, poderia parecer um bom-vivant, talvez vago, até; mas quem soubesse bem como era, saberia bem destacar em si, os aspetos menos conhecidos de bom leitor, do amante de palavras cruzadas, de apaixonado de cowboyadas, em livro, ou cinema.

Dono de um coração puro que poucos conheciam (as farras e os excessos eram sempre um assunto muito mais apetecível), tinha gestos e pormenores que jamais esquecerei, como depois de a sua mãe, a minha querida avó Joaquina, ter falecido; após diversas idas ao hospital de Portalegre para tentar debelar o seu sofrimento, me ter vindo oferecer numa caixinha pequenina de plástico de ourivesaria, que sei que ainda tenho em minha casa algures, com alguns dos seus cabelinhos brancos caídos nas viagens, no banco do nosso Peugeot 205 vermelho.

Há 25 anos atrás não havia bombeiros, não havia VMER, não haviam prontos socorros imediatos, Portalegre ficava sempre longe demais, e aquela indisposição matinal, por vezes frequente, sempre recuperável, parecia que haveria de passar. Mas infelizmente não passou, e assim ficou uma viúva guerreira que teve de refazer a sua vida, começar tudo de novo na escola básica integrada de Santo António, reintegrada no mercado de trabalho por concurso, longe do seu serviço, que entretanto fechara, para assim conseguir que um filho universitário conseguisse terminar os estudos superiores; e que o outro, que ainda estava no início da sua escalada académica, conseguisse um lugar ao sol, terminando o seu também.

Do João ficou a saudade imensa, diária, dolorosa, enquanto eu durar; e a ânsia silenciosa de um dia conseguirmos voltar a dar um abraço dos nossos, daqueles que dávamos quando me queria premiar sempre que sabia que tinha alcançado um sucesso escolar, e onde ficávamos ali assim, colados, apertados, a suster a respiração, sem nada dizer, ambos a sentirmo-nos a transbordar de orgulho.

Tenho tentado ser um bom menino, pai.

Onde quer que estejas, um dia, que oxalá esteja longe, por haver sempre tanto a fazer por aqui, vou ver de ti.

sábado, 29 de janeiro de 2022

Shangri La - O meu horizonte longínquo sobre carris (Parte VIII - (Pequenos) Paraísos)

O Penedo da Rainha - espaço mítico da minha Beirã natal

 a)      Acácias

A zona das acácias situava-se por detrás da escola, e estendia-se até ao Penedo da Rainha. Sendo esta uma árvore que é considerada uma praga porque é resistente à seca, e se multiplica a grande velocidade; criava ali um espaço místico que não era zona de ninguém, altamente propícia para inúmeras brincadeiras e safadezas, onde parecíamos que estávamos longe do mundo todo.

 

b)      A murta

A murta estava localizada a uns 550 metros, não muito mais, da passagem de nível que se situava à entrada da aldeia, de quem vem do lado de Valência de Alcântara. Bem antes dos tempos de hoje, era ali, naquela casa privada, que eu ia buscar leite que me era encomendado pelas minhas tias.

 

c)       Ribeiro

O ribeiro que atravessa a Beirã, que nunca levou muita água, à exceção dos dias de grandes enxurradas, quando transbordava para grande festa nossa; era um ponto estratégico para as crianças da aldeia, por ser palco de inúmeras cenas e brincadeiras. Ali (tentávamos!) apanhar rãs (porque eu nunca apanhei nenhuma! Dizem que aquilo era muito bom mas…), fazíamos corridas de barquinhos (ou outra geringonça qualquer que flutuasse), e era sempre um ponto de atração e encanto.

 

d)      Penedo da Rainha

Grande bloco de granito que ficou famoso por D.ª Leonor de Áustria junto a ele se ter abrigado e descansado durante a sua fadiga quando, integrada num enorme cortejo dos mais distintos fidalgos e cavaleiros portugueses, partiu de Valência de Alcântara, atravessou os ásperos caminhos do concelho, passou por Castelo de Vide, e se dirigiu até à vila do Crato, onde era aguardada por D. Manuel, para o real casamento.

A aura mística deste espaço sempre foi enorme, tal como o fascínio que exercia junto das crianças da aldeia, por ser inexpugnável (não tinha qualquer ponto por onde escalar), e nele, as cegonhas habitualmente fazerem o seu ninho

 

e)      Campo de futebol

Espaço com menor dimensão que a de um campo de futebol real, mas que por ser direito e estar mais ou menos limpo, dava para jogarmos futebol à vontade, sem o perigo dos carros, ou outras coisas quaisquer, como os comboios, que eram sempre o maior medo de todos os pais. “Vê lá não fiques debaixo dos comboios!!!!”, era sempre ouvido até à exaustão na nossa, e em todas as casas, pelas quais passávamos perto.

Creio que era propriedade do Sr. João Forte, e hoje presumo que já seja propriedade da junta, ou do município, por já lá ter inclusivamente um balneário. Um dos problemas com que nos deparávamos de cada vez que lá íamos, eram as enormes bostas de vaca que as ditas cujas por lá deixavam quando passavam. Tinha sempre lacraus vivos debaixo das pedras que serviam de baliza, antes destas existirem lá.

domingo, 31 de outubro de 2021

Shangri La - O meu horizonte longínquo sobre carris (Parte VII - As casas (de todos nós))

As "Manas Sobreiro" que para sempre ficarão assim, gravadas na minha cabeça (e coração), captadas pela objetiva do responsável por esta revista cultural, Prof. Dr. Jorge Oliveira


A Ti Aurora

A (taberna da) Ti Aurora era um espaço muito pequenino no largo da igreja, bem ao lado da casa do Sr. Murta, uma outra figura muito popular da terra. Creio que tinha o marido por lá a acompanhá-la, mas a memória é muito vaga, o que fazia dela uma daquelas mulheres de negócios sem medos, que era capaz de dominar o seu ambiente.

Recordo-me que naquela altura, como todos os espaços comerciais da terra, vivia muito à custa da clientela que ali chegava através dos carris, e com isto incluía ferroviários, maquinistas, trabalhadores comuns da CP, e profissionais de outras atividades ligadas à linha do comboio.

Guardo uma imagem do Sr. Valentim, funcionário da alfândega, e pai do meu querido amigo Manuel Ventura, sentado junto a uma mesa redonda, a fumar um cigarro de enrolar e a beber o seu tintinho.

A melhor história que recordo daquela casa, tem a ver com a minha tendência em andar sempre com os miúdos mais velhos. Naquela altura, eu queria era ser grande, e se eles já o eram, nada melhor que com eles acompanhar, para ver se lhe conseguia pegar o jeito, e crescer por osmose.

Por querer sempre andar atrás, quase sempre sobrava para mim, o que fazia com que fosse alvo de chacota, e bulllying, como se chama agora, mas eu não me chateava nada, nem chateio hoje. A propósito, já aqui comentei que a ligação da família do meu pai a Valência de Alcântara era muito forte, e a visita aquela localidade estremenha no sábado de tarde, era passeio frequente. Pois se nunca omiti que sempre fui muito mimado pelas minhas tias, também é verdade que gostavam muito de me comprar em Valência, o encanto dos petizes daquela altura, os berlindes, sobretudo os lindíssimos “olhos de boi”, brancos, com linhas coloridas à volta.

A festa que era quando o Pedrocas lá aparecia com um saquinho novo, recebido da nova visita ao outro lado, com tantos, todos tão luzidios, dentro do saquinho de corda verde, para… os perder num ápice, mais depressa do que o diabo esfregava o olho! Assim que lhes dava o cheiro que eu tinha a nova mercadoria, todas as portas que estavam fechadas, se escaqueiravam de imediato para… se voltarem a fechar assim que se procedia à limpeza. ~

Bastava um “Jogo da Roda” (em que cada jogador poderia ficar com os berlindes estacionados dentro do círculo, que o seu conseguisse retirar de lá, apenas embatendo contra eles de uma assentada só), para a alegria se ir desvanecendo em aflição e tristeza, à medida que as esferas negras deles (com utilização proibida para os mais novos e… “se não queres assim, não jogas!”), entravam por aquele círculo adentro como se fossem bulldozers do Bolsonaro a devastarem a preciosa floresta Amazónica. Porca miséria! Da alegria da chegada, à desolação da partida, minutos depois, era sempre um ápice.

Completamente trucidado pela minha ineficiência, regressava logo após a casa mesmo à espera de novo ralhete mais que merecido mas… eis senão quando de lá vinha era um: “ai filho, deixa lá, não chores, não te aborreças… que a gente compra-te uns novos assim que lá voltarmos”, que era já na semana seguinte, se não houvesse nada em contrário. Pois isto me enchia tanto de consolo, quanto me impedia de crescer, verdadeiramente.

E a Dona Aurora, de quem tenho apenas uma vaga imagem da figura, mas já não do rosto, também foi testemunha destas sevícias a que era submetido. Um dia mandaram-me comprar “baba de cegonha em pó”, entre risinhos de chacota que eu, do alto dos meus 6 ou 7, ou menos, não percebi.

- Dona Aurora, eu queria baba de cegonha em pó, se faz favor (sem saber muito bem se sequer levava dinheiro para isso. Talvez me fiasse…)

- Ai filho… vai-te embora que já te enganaram outra vez… Não andes com eles! Anda com os da tua idade…

- Ora!!!!

 

b)    Clube

O Clube era, de longe, a instituição de recreio com mais peso naquela aldeia, segundo a minha visão. Não sei bem qual a sua origem, se tinha ou não, órgãos sociais; se tinha associados e qual era a composição da direção, mas como disse no início, isso tampouco interessa agora. O que sim interessa é que a sua localização era central na terra, bem por cima da linha do comboio, e o edifício era magnífico, sendo atualmente particular, dentro do qual se (con)vivia muito.

Quando se entrava, subiam-se umas escadinhas muito íngremes, e existiam diversas salas onde se poderia, por exemplo, jogar às cartas e outros jogos de mesa como o dominó, ver televisão (num tempo em que ainda muito poucos dispunham de uma própria, em casa) e… conviver, com uma vista lindíssima sobre a terra (com os comboios a passarem logo ali por baixo), o panorama, Santo António, um pouco acima; e Marvão, numa varanda que se debruçava sobre a linha. 

 

c)    Cantina do “Serras” da Estação

O Sr. Serras era um homem muito grande, encorpado, calvo, de barba branca, a quem a terra sempre ficou muito a dever, embora nunca lho tenha agradecido em vida, lamento-o; por ter sido uma das figuras principais na criação da associação “A Anta”, que ainda hoje presta serviços sociais à terceira idade e necessitados; é um dos principais empregadores, e motivo pelos quais a terra ainda não morreu. O Sr. Serras era casado com a Dona Zita, que trabalhava na Segurança Social ou noutro ministério público em Portalegre. Eram retornados de África, pessoas com uma visão abrangente e avançada para a época.

Na altura exploravam o espaço onde hoje está estabelecido o Train Spot, num edifício lindíssimo mesmo junto à estação, e era na pequena cantina que ladeava esta que acontecia muito do convívio entre os funcionários da estação, os da C. P., e os clientes da linha que por ali passavam nas ligações internacionais.

Às 3 horas da tarde, passava o T.E.R. e depois mais tarde do TALGO. Recordo-me daquela estação mais parecer um aeroporto em hora de ponta de chegadas, tal era a quantidade e qualidade de gentes, cores, roupas, linguagens e tamanhos, que deixavam qualquer um boquiaberto, ainda muito mais uma criança de menos de 10 anos, que por ali circulava ingenuamente.

O “Serras” era o sítio para se ler o jornal do dia, se beber um café e um bagacinho, se fazerem as palavras cruzadas ou jogar uma cartada. A cantina do “Serras” poderia ser um ponto de passagem à hora de almoço, ou um bom entretém para os homens, no final da tarde.

 

d)    Sr. João Viegas

Este era um espaço que também combinava a habitual disposição estrutural de então, que ainda hoje é presente nas grandes superfícies: um espaço para as senhoras fazerem compras para casa, ladeado por um espaço estilo taberna, para os machos conviverem, entretanto. Situada a escassos metros abaixo da linha do caminho-de-ferro, tinha um espaço central na aldeia e era por isso beneficiado em relação à concorrência.

O Sr. João Viegas era um homem baixinho, muito sério e nada de copos, que geria o espaço com muita sensatez e responsabilidade. A família ficaria muito marcada por um trágico acidente de viação, no qual faleceu a mãe da filha Nélita, uma jovem da terra que trabalhava nos telefones do escritório do Sr. Carita.

 

e)    Sr. Joaquim Ventura

Este espaço, na minha memória, era assim uma cena do tipo armazéns “Braz & Braz”, em Lisboa. Uma casa enorme, com um balcão comprido longitudinal que aos meus olhos de criança, teria dezenas de metros. Ali se vendia… de tudo, ao que me lembra. O Sr. Joaquim Ventura, que sempre me batizou por “Pedro, Penedo, da Rocha, Calhau, olho de vidro, cara de mau”, cognome que eu achava piada, mas altamente injusto, porque nunca me achei ser daquela forma, ruim. Parece que tenho na memória que caia sempre com um rebuçadinho, ou por aí. Acontece que o Sr. Joaquim Ventura era pai da Dona Mimi, que casou com o primo Manuel, filho do Sr. Carita, que era o padrinho do meu pai, cunhado da avó paterna, portanto. Quero eu dizer com isto tudo que o meu pai e o seu genro eram primos-irmãos, e eu sempre senti que o carinho ali era diferenciado. Gostava muito. Recordo-me que tinha óculos?

 

f)     Sr. António do carro de praça

O Sr. António, homem de média estatura, não muito alto, mas muito robusto, é provavelmente dono dos “apertos de mão” mais convincentes que me lembro. Sendo uma figura que conheço de toda a vida, claro que fico sempre feliz de o rever, mas… a pensar duas vezes depois de lhe ter esticado a mão. Já tenho reparado nos rostos, dele e dos outros intervenientes no mesmo ato, e… pelo ar, que me parece que a firmeza se repete, e não se verifica apenas comigo.

Recordo-me desde sempre dele como dono da mercearia cujo alvará viria depois a ser comprado pelas minhas tias, que sempre conciliou com o serviço de táxi. É bom de recordar que naquela altura nem toda a gente tinha carro (bem me recordo quando os meus pais compraram o primeiro Renault 5 branco), e aquele tipo de serviço era muito requisitado, então.

Quando trespassaram o espaço, mudaram-se para a parte de baixo da linha, e abriram um café com serviço de refeições, num prédio que construíram.

 

g)    Casa Nicau

Era incrível, e muito sintomático da vida que fervilhava naquela pequena aldeia, que se agigantava sempre que passava um comboio (de mercadorias, e sobretudo, internacional); a quantidade de espaços comerciais que nela existia. De todos eles, embora não fosse o que tivesse as melhores condições (a azinhaga ao lado, era o W. C., penso eu de que; porque nunca me lembro de ter puxado o autoclismo numa lá dentro), esta casa era, muito pelo carisma do proprietário, o Sr. Joaquim Nicau, aquela que para mim, mais se destacava. Condutor da camioneta da carreira da Rodoviária Nacional, comprou o alvará ao Sr. Batista, que nunca me recordo já de ver aberto, porque não é do meu tempo.

Tendo sido sempre colega de escola do seu filho mais novo, acompanhei sempre aquela casa que, enquanto o pai trabalhava fora, era assegurada pela esposa, a D. Teresa, que assumia a mercearia e a taberna, também. Sendo muito popular entre os jovens, e os homens por ter tido sempre as mais populares máquinas de arcada, flippers e matraquilhos; a casa vivia sobretudo do carisma do progenitor, que muito pelo trato interpessoal que tinha devido à sua atividade profissional (interagia diariamente com centenas de pessoas); e do toque para a cozinha da dona da casa.

O “estimado amigo” que era a forma como tratava os clientes, e se lhe colou como alcunha para sempre; era um verdadeiro barman de 1ª linha de aldeia, que sobre tudo sabia falar, opinar, não deixar ninguém indiferente. Sportinguista dos 7 viol(ai!) costados, pegou a devoção ao filho mais novo, e transformou aquela casa num núcleo daquela clube na aldeia. Bem-disposto, bem falante, e uma figura perante a qual ninguém poderia ficar indiferente, sempre viveu com esforço, devoção e glória as suas paixões sportinguistas e socialistas, o único campo em que o vermelho entrava na sua vida.

 

h)    Pastelaria “O Leque”

Foi fundada numa casa de raíz, construída nos anos 80 pelo Sr. João da Cunha Felino, antigo guarda-fiscal, um beirão natural de Monsanto, de extrema educação e cortesia. Extremamente carinhoso e afável, este Senhor, casado com uma outra figura da terra, a D.ª Conceição, funcionária de apoio das atividades na escola da terra, filha do antigo proprietário da casa onde foi fundada a Casa Nicau; idealizou criar ali mais um espaço para se poder ocupar nos tempos livres, talvez a pensar já na reforma.

“O Leque” tinha um caráter que a diferenciava de todos espaços concorrentes por ter um ar mais citadino, com um espaço específico pensado para as senhoras, com mesinhas redondas de camilas; uma zona para os homens mais parecido com um bar que com uma tasca, e um reservado idealizado para o petisco.

 

i)     Manas Sobreiro, da mercearia Sobreiro

Cartoon desenhado pelo pai na parede da taberna

 Por último, mas não em último, como dizem os ingleses; deixei a casa que me diz mais, pelas razões óbvias. Num momento muito particular da vida da nossa família, marcado pelo desaparecimento prematuro do meu tio Lázaro Duarte Gomes, com 60 anos de idade, apenas; as minhas tias, Maria que enviuvou, e Cremilde, solteira; que não detinham uma ocupação concreta, foram impulsionadas pelos meus pais, para comprarem em conjunto com eles, o alvará da loja no largo do fontanário, que pertencia ao Sr. António Sobreira, do carro de praça. Desta forma, estariam ocupadas mentalmente, durante toda a semana e, trabalhando, acabariam com dois problemas, numa solução só. A perspetiva económica nunca foi o intuito primordial, nem poderia ser numa terra, que embora tivesse uma população diária muito significativa à conta da atividade dos comboios, tinha tantas casas que… basicamente, vendiam o mesmo.

Haviam outros garantes diferenciadores, e o trato pessoal era sempre determinante para onde pendia o fiel da balança. “As manas”, até e sobretudo por não terem uma figura masculina por detrás do balcão, foram carinhosamente apadrinhadas pelos trabalhadores da C.P. (maquinistas, revisores, outros trabalhadores de manutenção das linhas) que por ali passavam diariamente a comer o farnel que as esposas lhe preparavam de casa. Por vezes, ali se faziam umas tortilhas de batata à espanhola (absolutamente divinais, como só a minha tia sabia fazer), e um ou outro petisco circunstancial, como um ovo estrelado à antiga em azeite, uma latinha de atum, sardinhas com tomate, ou anchovas, que eram comprados… na mercearia do lado, ou seja, ali.

O espaço ganhava outra vida quando o meu pai, saia do escritório, por volta da 18h, e reforçava o staff, dando um apoio suplementar na parte do bar. Nesse então, o público-alvo deixava de ser a dona de casa que vinha buscar o arroz para fazer com tomate, a fim de acompanhar os carapauzinhos fritos; para passar a ser o marido que vinha beber um tinto, conversar um bocado e, ouvir um ou outro fadinho, que a guitarra estava sempre detrás do balcão. Ficarão sempre na história, as tertúlias que muitas vezes se prolongavam noite dentro, e por vezes, até já à madrugada, quando os convivas, ou os motivos, eram especiais.

A morte prematura do meu pai, com 49 anos apenas, vítima de um enfarto do miocárdio, muito provocado pelos hábitos tabágicos absolutamente fora do normal (ninguém resiste a 2/3 maços diários por muito tempo), aliados a uma propensão genética a complicações cardíacas (a morte ainda mais prematura do irmão com apenas 14 anos, nas escadas do Sr. João Viegas; e a intervenção à sua irmã Irene numa das primeiras operações em Portugal de coração aberto, eram bem prova disso), ditou também o fim daquele espaço.



Com o passar dos anos, e o envelhecimento das minhas tias, ainda mais gritante no caso da Cremilde, que foi caindo gradualmente aos pés da demência, agora pomposamente chamada com o nome de um cidadão estrangeiro (Alzheimer); a loja foi definhando, até fechar. Deixaram de ser compradas as caixas de chocolatinhos da Regina, e de outros bombons bons; de chupas e toda a espécie de pastilhas elásticas com que se deliciavam as minhas filhas, e qualquer criança que por lá passasse, para se ir tornando cada vez mais um espaço comunitário, onde as vizinhas passavam a tomar um cafezinho, quase sempre de oferta, e para elas não estarem fechadas em casa. Voltando às origens, enfim.

Fazendo sempre um ponto de honra em nunca deixar de acompanhar a quem sempre me apoiou a mim, fiz questão de as ir visitando sempre que podia e confesso que me doía muito, quando dava com as duas a dormir, de cabeça deitada sobre a camila onde estava a braseira quentinha, enquanto o velhinho rádio baixinho debitava o terço na Renascença.

Nos últimos tempos já viviam as duas juntas na casa da minha tia Cremilde, de porta trancada por dentro, para evitar que esta acordasse a meio da noite, enquanto a Maria dormia, e saísse pelas ruas da Beirã, soluçando por vezes em choro compulsivo, por não conseguir encontrar aquilo que queria, mas nem sequer sabendo que jamais poderia reencontrar, porque o passado jamais volta assim.

Por saber, sofrer tanto devido a esta a sua ansiedade pela incapacidade de tomar conta da irmã; e sobretudo devido à degradação do seu estado de saúde (à causa de uma complicação de pele, na testa, que lhe obrigava a visitas frequentes ao IPO a Lisboa), muito a influenciei para que fossem para um quartinho particular para a Santa Casa de Marvão, que sabia que era esta a única possibilidade de as conseguir manter juntas. Depois da tranquilidade de o ter feito, descansei, por as saber sempre acompanhadas, bem alimentadas, bem higienizadas, com supervisão médica constante, em segurança.

Soube (muito tempo) depois pela minha vizinha da Beirã, esposa do Sr. Graça, que lá trabalhava (que pela terra ser tão pequena, éramos, somos e seremos, de cada vez que nos virmos, vizinhos), a primeira noite da minha tia Maria na Santa Casa foi de grande sobressalto, e pânico até, porque sentia que iria morrer.

- Ó Dona Maria!!! Que disparate tão grande, valha-me Deus! Então as senhoras estavam tão sozinhas e aqui estão tão acompanhadas, sempre com vigilantes a acompanharem o vosso descanso, sempre com uma equipa médica por perto, sempre com tanto gente para garantir o vosso bem-estar, e agora… diz-me que vai morrer? – disse a vizinha.

Não foi nessa noite, foi na noite a seguir. E não houve nada, nem ninguém que lhe valesse. Para mim, que a conhecia, estimava, prezava, amava como ninguém da mesma forma que eu (cada um, é como cada qual, e eu hei-de sempre ter a minha); morreu de desgosto. Morreu por depois de 86 anos de vida, não ter tido sítio algum para ficar nesse final da caminhada, senão aquela casa onde haverá sempre o estigma de serem despejados todos aqueles que não têm ninguém para lhes dar colo, quando eles deram tanto durante a vida.

Esta é uma dor que viverá sempre comigo.

Todos sabíamos que lutava há tantos anos com o problema cancerígeno, mas ainda hoje não sei bem o que se lhe sucedeu para se finar. Esfumou-se, e eu, que tinha ido a Algés para assistir ao Nos Alive com a minha Leonor, levei um choque tremendo, por ter sido inesperado, e sobretudo, por ter sido um interveniente crucial nesta situação. Sem remorsos, mas com algum, ou muito peso na consciência pelas circunstâncias, regressei praticamente sem dormir nessa noite deitada a altas horas, acordada em sobressalto pelo telemóvel, onde o choro lamurioso da filha me deu a notícia. Assisti à preparação do túmulo, numa das minhas duas campas de família no cemitério da Beirã, e vi a reordenação dos restos mortais dos que já lá estavam, para conseguir ser feita a deposição dos seus.

A Cremilde continua, graças a Deus, naquela casa onde seguramente nem sabe onde está, mas sei eu, que a visito com regularidade semanal, está como se estivesse num casulo, onde não lhe falta amor, compreensão, e até lhe é dada a comidinha toda triturada, porque até isso, até de mastigar se esqueceu já. Até que, como em todos nós, Deus queira.