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quinta-feira, 21 de março de 2024

93...

 


Todas as semanas, com fé devota, certo da certeza do Amor de Mãe que sempre nutriste por mim, caminho para a tua cama para te afagar, te beijar, te pentear os cabelos, te recordar o assobio de família com que o teu pai, o meu avô Sobreiro, vos chamava a todos, para uma reunião de alcateia. O nunca teres tido um outro homem oficial na tua vida, a não ser uma paixão de juventude albicastrense que se perdeu na bruma dos tempos, o nunca teres gerado uma outra, depositou em mim, ao mesmo tempo que carregava nos meus ombros, uma aura de príncipe da tua existência, que a proximidade com que vivemos, ao fundo da rua, um do outro, me recordou a cada dia dessa feliz, e saudosa coabitação. 

 

Nessa Santa Casa onde estás, para a qual tive um dia uma luz que me iluminou o caminho, consegui arranjar-te uma alcofa de fim de vida condigna, como aquela que me garantias nos lençóis de flanela quentes da tua cama, quando o frio da noite aconselhava os meus pais a deixarem-me à tua guarda. Ali, onde estás, tens tido tanto Amor, tanto Carinho, tantas calor das funcionárias que se metem contigo de cada vez que se cruzam comigo, “Ai Cali… quem cá está hoje… o teu menino…” (risos), de mais de 50 anos, com já mais do que aqueles que o teu irmão, meu Pai, alguma vez teve, mas que ali, contigo, junto a ti, me transforma sempre naquele bébé gorducho, muito bem agasalhado em fatinhos de lã, com ar aburguesado, que sempre se sentiu o centro das atenções quando por ali estava, perto de ti.


Eu, com meses, tu com 42...

Se há horas felizes, essa que te encaminhou para ali, foi por certo uma delas, porque em mais nenhum lado conseguiria encontrar um berço onde te alimentem à boca, e te garantam sempre um cheirinho tão agradável, um ar tão satisfeito e descansado, mesmo que o suporte de oxigénio nunca te possa deixar.

 

De todos… fiquei eu, já viste como isto é...

Quis o tempo, e a distância, e a vida… como ela é, que fosse a lamparina que te acompanha sempre como último bastião da família Sobreiro, com o meu escapulário de Nossa Senhora do Carmo, a guiar-te de noite e dia.

 


93 já, Cali, ou Caly, como tu assinavas, num gesto clássico de modernidade. 93 anos, com os 10 últimos vividos aí, numa chegada conjunta com a mana Maria, que partiu na noite seguinte ao desembarque, quero eu recordar que não com o desgosto de ali estar, porque sempre quis foi estar contigo, mas com o descanso de sentir que já não era indispensável para tu estares assim, bem.

 

Já há muito, muito mesmo, que me fui apercebendo que a consciência ia abandonando o corpo que nos habituámos a amar, mas o teu jeito silencioso, elegante, cada vez mais calado, ia encobrindo as falências que só quem partilhava contigo os dias se poderia aperceber mais. Também eu estive “fora” por uns meses, por consequência de erros meus que apenas por proteção divina não me colocaram fora de jogo. Apenas quando regressei lentamente às minhas plenas faculdades, me apercebi realmente do “abismo de esquecimento” onde tinhas caído.







Saber que estás e continuas bem, é realmente a única grande certeza, e valência a que nos podemos agarrar todos os que te queremos tão bem.

 

As perguntas do “porquê assim?”, do “até quando?”, do “porquê ela, quando ele…?”, são aquelas interrogações dos mortais, naturais dos finitos, que apenas uma ordem divina poderá responder, e nesse domínio devemos continuar a manter, apesar de serem tão estranhas e absurdas como estas palavras que insisto em te escrever apesar de saber que nunca as irás ouvir, e servem apenas para saciar o meu egoísmo pueril, e ilusório, de quase tentar conseguir visualizar a tua satisfação se fosses capaz de percebe-las, como se isso fosse possível! (pode ser sentados na marquise das traseiras, no primeiro andar, a dar para o quintal do primo Zé Amieira, onde passámos tantas, tantas, tantas tardes sem fim, sentados à camila de picão… eu, tu, a Ti Bia e a Avózinha, enquanto ela me penteava os caracóis com a canoa que tirava da cabeça, quando eu tinha a minha pousada sobre o tampo, ao quentinho, enquanto (ou)víamos a chuva a cair, lá fora.

 

A fé, a religião, a relação com a divindade, são questões do foro mais pessoal de cada um, e não ter qualquer postura face a elas é também ela própria uma posição a considerar. Qualquer uma que tenhamos pode estar sempre sujeita a alterações, por estarem em constante mutação.

 

Não acreditando em tal coisa como o céu cheio de querubins a tocarem harpas num tom angelical, nem nos mais fundos dos infernos onde as labaredas de lava derretem as almas malignas. Sou mais pelas dimensões de existência, e pela evolução das almas, numa espécie de adaptação da reencarnação, confirmada pela simples constatação de que há algumas (almas) que se sentem tão experientes, vividas, sábias, enquanto que outras há que parecem que foram instantâneas, e acabadas de parir

Sendo assim, e nessa linha, as almas partem… ou quando não fazem cá falta neste mundo dos vivos, a elas, ou a alguém próximo; ou quando são chamadas para outro lugar.

 

Peço sempre para que não tenhas dor, não sofras, não te doa, porque não mereces, e que Deus reserve sempre o melhor para ti, minha Grande e Sempre Amiga, que esteve Sempre por MIM.

 

Parabéns, minha querida Caly. Oxalá tivéssemos uma hora, uma manhã, um dia de lucidez…

Tanto quem havia para contar…


domingo, 21 de março de 2021

90 anos de ti, Caly (21 de Março de 2021) - Parabéns!

 



90 anos de ti, Caly (como tu escrevias, quando escrevias… com “y” no final, para dar um toque de modernismo)

 

(suspiro… fundo)

Nem sei bem porque é que faço isto, mas tenho algo dentro de mim que me diz para o fazer. Não sei se será porque me sinto mais próximo de ti, porque sei que há quem leia e se identifique, se será porque me acalma, apazigua, me reconforta, mas a verdade é que me faz sentir melhor, como se tu pudesses ler, se tu pudesses compreender. Enquanto teço estas palavras, com o aquecedor a óleo a dar-me calorzinho nas pernas, nestes dias de sol mas ainda muito frios de Março, parece que estou de volta à tua casa, na Beirã, e aos longos dias que passei sentado à braseira de picão que a avózinha acendia para nos aquecer, contigo, ela e a Maria, a adorarem cada gesto que fazia. Acho que a minha busca incessante por atenção, a necessidade de retorno de afeto, vem daí. “Mal habituado” desde  início.

 

Muitos parabéns, Caly, pelos teus, hoje, 90 anos de vida. 90 anos, hã?!?!? Quem diria que assim haveria de ser? Nunca ninguém nesta família Sobreiro, que eu tivesse sabido, pôde chegar a essa data tão longa. A avózinha e a Ti Bia foram ambas com 86, a ti Mirene com muito menos, o meu pai com 49, menos 41 que tu. Como é isto da vida, hã?

 

O meu grande desgosto é saber-te cá mas… apenas em presença física, como se fosses uma estátua viva daquele ser que nos habituámos a amar tanto. O tal almoço de família em que certamente todos faríamos tudo para estar, não pode ser realizado porque as vítimas do Covid 19, não são só aqueles que infelizmente deixam de respirar, mas também aquelas que sofrem com tudo aquilo que se perdeu à volta, como o ritual do nosso convívio semanal, do qual já há um ano nos vimos privados.





Já há muito tempo que o brilhozinho dos teus olhos se vinha perdendo mas nós, que passamos a vida embrenhados no egoísmo sorvedor dos nossos dias, acho que fomos fazendo com que isso não se notasse, e dificilmente se notava, de facto, porque a Tia Bia, sempre atenta e espevitada, ia sendo a tua muleta que tudo ia amparando. Só quando ela cedeu, e me pediu ajuda dizendo que não se queria separar de ti, mas não conseguia mais sozinha, eu atendi. E foi então, quando te soube entregue e bem cuidada na Santa Casa, ela própria se deixou ir, não nessa noite, mas na outra seguinte.

 


Essa doença marada com um nome de cientista maluco, que pelos relatos da Ti Bia, já tinha assombrado uma familiar nossa mais antiga; é mais uma das que a genética muito provavelmente irá colocar como pedra no meu caminho, e é tão triste porque nos leva o que mais gostamos, e nos deixa cá o invólucro para adorarmos, como se fosse uma saudade eterna em vida.

Quando eu nasci… tinhas tu 42, e sendo o filho do teu irmão mais novo, ao qual levavas 14 anos, caí-te no regaço, na mesma aldeia onde todos viviam, como se fosse ouro sobre azul, não foi?

Solteira, ferida por um desgosto de amor que deixaste em Castelo Branco, com eles os dois a morarem ao fundo da tua rua, e a trabalharem todo o dia, todos os dias, sem creche nem infantário, deste-me o ninho de amor suplente, que muitas vezes se tornou o principal, porque era de noite, estava frio, e se o menino pudesse lá dormir, na tua caminha...

 

Não acredito que hajam preferências à partida, mas a vida e as suas circunstâncias, fazem com que assim aconteçam. O meu irmão Miguel, que nasceu 6 anos depois, quando vocês já estavam na loja, tem uma relação completamente diferente, como é natural. Com os primos, filhos da irmã “’(Pe)Canina”, que sempre viveram na Covilhã, e só estavam contigo 2 ou 3 vezes por ano, também assim teria de ser.



Para quem parte de repente, como foi o caso do meu pai, é um furacão na vida de quem fica, que nunca mais é o mesmo, mas para quem vai, é sempre melhor que seja assim, do que estar preso a uma cama, consciente, a sofrer, a definhar...

O teu caso é diferente, porque graças a Deus encontrámos um lugar na Santa Casa onde não te falta amor, atenção, e muito carinho. Não tenho dúvidas absolutamente nenhumas que são elas, as funcionárias; e eles, todos os profissionais e responsáveis, os principais responsáveis por ainda cá estares rodeada de afetos. Se assim não fosse, nós que todos temos uma vida ocupada, como é que poderíamos?

 

Também é bom que não te apercebas como a tua casinha, o teu quintal que tão bem cuidavas… estão ao abandono, e como aquela que era a nossa Beirã já quase não existe mais. Se não fosse a Anta, e mais um ou outro café, já não haveria nada, comparada com aquela Beirã em alta roda dos anos 80, com muito comboio internacional e de mercadorias, com muitos alfandegários, guardas fiscais, ferroviários, ajudantes despachantes, turistas e crianças da terra, onde a mercearia das manas Sobreiro era um dos pontos de encontro para aquisição de bens, cantina para buchas, bar de copos, e convívio.



Estarás cá, querida, como estamos todos, até que Deus queira. A minha grande tranquilidade é que nessa redoma de vidro onde te encontras, não te falta nada para que te sintas bem tratada e amada, como sempre foste toda a vida.

 

Gostei muito de estar este bocadinho contigo.

 

Beijinho grande, de parabéns do teu,

 

Pedro


sábado, 21 de março de 2020

Parabéns, Calyzita!



Uma foto do meu querido amigo Pedro Silvério, creio eu, da última vez que te levei à torre de menagem do castelo de Marvão. Hoje seria impossível.
E a tu cara? Ai meu Deus... que alto| 

Nestes últimos estranhos tempos de recolhimento e aprendizagem comum, tenho-me apercebido que muitas pessoas têm, de sua livre e espontânea vontade, iniciado diários digitais nas diversas redes sociais, que funcionam como um manual de sobrevivência ao isolamento, pois o convívio é, para nós, seres vivos, absolutamente essencial, por sermos gregários e necessitarmos uns dos outros como de ar para respirar. Perante esta manifestação, constato que o que está realmente ali de essencial, não é aquilo que mostram aos outros, os jogos que os entretêm em família, os ambientes onde vivem, mas o facto de combaterem a solidão, por mais acompanhados que estejam. Aquilo pode não chegar a ninguém, o que certamente não será o caso, mas a eles sabe-lhes como se fosse um maná dos céus: aquece, consola, satisfaz, tranquiliza, rejuvenesce, é um sinal de esperança e sanidade.

Sorrio por dentro e percebo que este blogue é também precisamente não mais que isso, e quem por cá costuma passar, ou o segue desde o início, há mais de 10 anos desta aventura que é, no fundo, a minha vida; sabe-o perfeitamente.

Hoje vivo um enorme dia de festa e aqui o quero partilhar, embora seja uma festa tão completamente diferente da festa que poderia ser se tudo fosse tão diferente, mas a verdade é que é festa na mesma! A minha Calizita completa hoje 89 anos de vida, no dia em que começa a Primavera. Eu, que de todos os seus tão amados sobrinhos, sinto que fui sempre diferente pelas contingências que rodearam a minha vinda a este mundo, quero felicitá-la como o filho que nunca teve, porque ela sempre foi uma segunda mãe para mim. Só não pariu, termo técnico utilizado pelos que sabem, mas sempre foi uma fonte de amor, de aconchego tremenda, que sempre me acompanhou ao longo da minha vida.

Calizita, falo-te como se percebesses o que estou a dizer, a conversa fosse percetível, e assim para ti, entendível. Faço-o porque para mim é mais fácil assim, porque é melhor.
Fazes anos e… não só não te lembras do que isso significa, como não te posso ir ver.



Gosto tanto de ti…
Quero-te tão bem. Amo-te tanto…
Não me consigo lembrar de uma única vez na vida que te tenhas zangado comigo! Das vezes em que tentaste, se é que o fizeste, porque não me lembro de uma só, antes te deixavas rir e acabávamos os dois sem saber porque tinha começado tudo.

Falam-me em ti, e eu… que passava os dias contigo na casa da tua mãe, a minha querida avózinha Joaquina, lembro-me de estar muito pequenino, deitado na tua cama à noite, resguardado do frio, embora morasse apenas a escassos metros dali, ao cimo da rua. Nunca ouve pessoa no mundo da qual recebesse um amor tão puro, tão benevolente, tão condescendente, tão sem pedir nada em troca. A mãe de verdade sempre exigiu, e bem (comportamentos, pessoais e cívicos, prestações escolares…), ralhava sempre que tinha de ensinar; a mulher sempre esperou um companheiro e tudo o que ele deve dar, em todos os campos da vida conjugal, e desde que há filhas, mais ainda; as outras tias tinham os seus próprios filhos, que obviamente lhe ocupavam a atenção; mas… sei que sempre fui o teu menino, que nasceu quando solteira como sempre foste, tinhas 42; e nem o meu irmão, que chegou 6 anos depois, mereceu a mesma atenção porque, lá está, as tuas contingências eram outras, a mercearia já estava aberta, e tudo era tão diferente nesse então.

Agora acatamos, claro, as orientações da Santa Casa da Misericórdia onde te encontras, que reduziu as visitas a um familiar, e é a minha mãe quem habitualmente te visita, mas quando assim não era, não passava uma semana sem que fosse ver como estavas, embora já não saibas o que é isso do tempo. No final de cada visita, em vez da felicidade do dever cumprido, ficava sempre antes com um sabor amargo na boca, e era incapaz de deixar de me sentir um canalha, por deixar a sós que tudo fez por mim.

Com as amigas da tua nova família, que tanto te tratam bem...
A mina gratidão não tem fim...

Depois das despedidas feitas fico sempre a olhar a sala onde costumas estar sentada, com todas as tuas colegas, tendo uma imagem da tua Nossa Senhora do Carmo colocada em cima do armário em frente, e respiro sempre fundo, pensando duas coisas: no bem que estás ali, e até quando cá te terei.

O facto de ter conseguido que entrasses para a Santa Casa foi o garante que fez com que pudesses estar ali mais 6 anos tão tranquilos, já desde 2014, quando entraste; tão bem vigiados, tão higienizados, tão bem alimentados, tão felizes.
O darem-te a comidinha na boca como aos passarinhos, muitas vezes passada, porque até de mastigar te esqueceste; o estares sempre asseada, a cheirares bem; bem vestida e aconchegada, bem vigiada medicamente, deixam-me estar tranquilo.

Das vezes que lá estou, sempre que entra uma funcionária com quem tenho mais proximidade, ou porque tem uma filha um pouco mais nova, mas da minha idade; ou porque tem um filho a quem já dei explicações, de quem sou amigo e vizinho; ou porque somos da mesma idade e mais próximos, diz: olha Cali…. Ai quem temos cá hoje? É o menino? É o Pedro da Cali? Derreto-me todo por ver a alegria nos teus olhos, com o ar de quem está mesmo a perceber e quase diz que sim, que o amor ainda está em ti.

Há muito que acredito que todos temos um plano a seguir nesta vida, e não somos só nós que o definimos. Tu que lês, pensa na tua vida, e cedo perceberás que para estares no sítio onde estás hoje, muita coisa aconteceu para teres essa família, esse emprego, essa situação na vida, e muitas delas não foram decididas por ti.

Não sou egoísta ao ponto de pedir a Deus que te mantenha por cá mais um ano nesta vida, embora isso seja aquilo que mais sonho e desejo. Não vegetas mas apenas estás. Eu adoro sempre ver-te porque és minha, e esse corpo onde vives, foi sempre o que me habituei a amar durante a vida toda. Esta situação é como se tivesse um Ferrari na garagem… sem motor, que sei que já não me pode levar a passear com grande estilo por onde quer que passe, nem dos 0 aos 100 km em escassos segundos, mas que me enche de orgulho e amor apesar de estar já  muito marcado pelo tempo, por ter de estar suspenso por um guindaste. Mas está!

Causa-me muita estranheza ver ao ponto em que podemos chegar. Como eras, meu Deus, que primor de elegância, sempre muito bem arranjada; com uma delicadeza sóbria de estar, uma perfeição nos trabalhos bordados que fazias (aprendidos na escola das máquinas Singer, em Castelo Branco, onde viveste durante tantos anos); e como estás hoje, na verdade, já de há muitos anos a esta parte, quando te foste esvaindo como as ligações do teu mapa cerebral que te permitiam estar à tona e ao nível dos outros.

As manas Sobreiro...

A tua mãe partiu com 86 num Dezembro azedo que me mostrou que assim do nada, podemos mesmo perder quem adorávamos que estivesse cá, e sempre pensámos que entre nós ficasse até que deixássemos de existir (embora soubéssemos que isso seria impossível). Com a mesma idade da mãe, partiu a tua companheira, a tua irmã mais velha, Maria, que descansou de vez, na segunda noite em que chegaram a esta nova casa, derrotada por já não poder mais tomar conta da mais nova, mas descansada por te saber tão bem. Os casos do teu pai (70), do teu irmão João, meu pai (49), da tua irmã Mirene (56), e do seu filho João (44), foram mais prematuros ainda, e até dói só de pensar no quanto poderíamos ainda desfrutar deles, e eles de nós.
Por isso, que eu saiba, tu que atinges hoje os 89, és a recordista da família. Obrigado por resistires, também!

Saudade imensa...


Se as coisas fossem como eram dantes, tu hoje terias vestido um tailleur daqueles clássicos que compraste numa loja qualquer em Barcelona, numa das tuas muitas idas a acompanhar a tua amiga enfermeira Teresinha, às suas consultas oftalmológicas; e terias nos convidado a todos, para irmos almoçar fora, ao Sever, que era onde gostavas tanto de ir.


Na última grande alegria que te demos, quando as primas da Covilhã, e a Belinha cá vieram...

Lembraste do nosso assobio? Pfui, pfu, pfiuuuuuuu. Na esquina, fosse a que horas da manhã fosse, e lá aparecias tu, a dizer adeus, e até amanhã.

De todas, serás sempre a minha Cali. Um amor diferente.

Quero-te tanto…

Enquanto eu cá estiver…

E te puder continuar a dar estas alegrias...

quinta-feira, 21 de março de 2019

Cremilde, os 88 do bastião da família Sobreiro

A minha Audrey Hepburn... quando me apaixonei por ela...
Nunca conheci mulher tão bonita...




Quando entrei na salinha onde costuma estar, fui de mansinho e tentei não assustar o sossego reinante. Algumas, das 10 ou 12, deram por mim e sorriram. Não estava sentada no seu sítio habitual, de costas para a televisão, e fiquei deveras feliz por o pedido que fiz na semana passada às empregadas, ter sido aceite. Não quis um tratamento diferenciado das demais colegas, mas apenas peeguntei se não seria possível que pudesse estar numa ou outra vez, numa cadeira em que pudesse ver a televisão. Não que eu acreditasse que ela ligasse, mas era uma tentativa de fazer com que ela estivesse, nem que fosse, uma vez, por outra, com algo que lhe chamasse a atenção. O que me custava mesmo era que ela estivesse sempre no mesmo sítio, e nunca pudesse ver, quando havia algumas colegas que não lhe prestavam nunca atenção nenhuma, e estavivessem sempre viradas para ela.
Hoje, quando a imagem dava movimento, luzes e cores, ela olhava.
Que bom.
A minha Caly, com “y”, como ela gostava de assinar, numa modernice muito avant-garde, faz hoje 88 anos.

Quando cheguei dormia. Muito. Estava com a cabeça tombada sobre si. Quando a fitei, as colegas murmuraram-me, “tem estado mal…“
“MAL?!?!? COMO ASSIM?!?!!?”
“Esteve a oxigénio. Tem estado a babar-se muito…”
Sem perguntar mais, agradeci, e fui ver da responsável, a Rosalina, se me podia acrescentar algo.
Tranquilizou-me. Disse que como tinha um pouco de febre, a tinham medicado, e colocado um pouco a soro.

Agradeci-lhe, e voltei, para junta dela, que entretanto tinha acordado.



“OLÁ!!!!! (baixinho…) QUEM FAZ ANOS, QUEM É?!?!?! (sorrindo com a tristeza avassaladora de perceber que vi que não fazia a mais menor ideia de que raio estava eu a falar.)


Cantei-lhe os parabéns, devagarinho, batendo palmas baixinho, e ela, olhando para mim como se estivesse sentado a 10 quilómetros de distância.
Que sensação tão estranha e dura esta, o estar tão feliz por estar a celebrar o aniversário da minha familiar direta mais antiga com vida (a mãe e a mana Maria duraram até aos 86, o pai Leopoldo partiu com 72, a tia Mirene não passou muito da meia idade; o irmão João, meu pai, foi com 49, e o seu sobrinho João da Covilhã, também não chegou aos 50…), e sentir que ela… já não está cá.
O que era esta mulher, meu Deus… ultra elegante, lindíssima, sempre bem arranjada e vestida, muito meticulosa em tudo o que fazia, os bordados, o pudim de ovos… e hoje…
Como é vã, esta sensação de estar vivo… Como se esvai tudo, como não somos nada…

Os olhos sem brilho, vagos, opacos, como se fossem janelas para um cérebro que, também ele, está a definhar, a esvair-se.
Sem conseguir balbuciar uma palavra, uma emoção, um laivo de vida… apenas estando.

A Caly... bebé

O avô Sobreiro, no início da sua carreira ferroviária, que o levaria a inspetor


O avô Leopoldo e a avó Joaquina, os meus avós paternos

A tia Maria, nos 80, quando enviuvou

O Shôr Ajudante de Despachante, João Sobreiro, com cartão válido até 16 de Janeiro de 1994.
Faleceria 6 meses depois, subitamente.

Afinal, está cá como todos estamos, por uma vontade superior a nós, mortais, que nos trouxe aqui, e nos fez fazer parte deste domínio. Ela está pelo mesmo motivo que eu não fui já, não conseguimos explicar porquê, que isso são compreensões que estão para lá do nosso entendimento.

A minha única e grande satisfação, é poder lidar com a angústia de não lhe poder retribuir todo o amor que me deu em vida, por a saber muito bem colocada, numa Casa, Santa, onde é amada, respeitada, tratada com carinho, bem lavada, bem alimentada com muita paciência, e bem arranjada, sempre bem vestida e condicionada.

Despedi-me com um cumprimento generalizado a todas, que passem o resto de uma boa noite, e um bom fim de semana, e sai, como sempre, derrotado, por não podermos estar a celebrar algures, todos juntos, num jantar num sítio qualquer, para depois a irmos levar à sua casinha, onde vivia sozinha com os seus tarecos, e o seu fogãozinho, onde ainda fazia a sua comidinha.


Perder um pai sem estar doente aparentemente, de um dia para o outro, com apenas mais 3 anos que eu, é um coice da vida do qual jamais conseguimos recuperar. Mas ver quem amamos tanto apagar-se assim, lentamente, e arder, estando sem estar…

Parabéns, Caly.
Gosto tanto de ti…
Sou tão teu…


De vacances na Armação de Pêra natal do tio Lazarinho, as beldades da família nos 70s:
a filha Maria de Fátima, João e Alzira Sobreiro, e Cremilde, junto ao palácio vermelho

Com o já desaparecido primo João, a banhos

A tríade das manas Sobreiro: Caly, Mirene e Maria, num jantar convívio de família

Quando os tempos eram magníficos, num carrossel das festas de Valência da Alcântara, e o pai chefiava a estação:
a lindíssima Tia Mirene, à esquerda; a prima Maria Isabel Carita ao centro, e a Cremilde, do lado direito.
Lá atrás, um galifão espanhol todo sorridente. Pudera...

Com o seu menino que nunca pariu, Pedro, o gorducho do irmão João.
Um seu filho para a vida
<3