domingo, 29 de março de 2026

A Paixão... no Domingo de Ramos










O Domingo de Ramos, que os cristãos celebramos no dia de hoje, é o "portal de entrada" para a Semana Santa, que marca o fim da Quaresma e o início da semana mais importante do nosso calendário cristão.

Nela, destacam-se o Tríduo Pascal, período de três dias que constitui o centro da fé cristã, celebrando a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo; que começa na tarde de Quinta-feira Santa (Missa da Ceia do Senhor) e termina no Domingo de Páscoa, focando na instituição da Eucaristia, sacrifício na cruz e vitória sobre a morte. 

Este domingo de hoje, tão cheio de simbolismo, celebra a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, quando já teria à volta de 30 anos, montado num burrinho (símbolo de humildade e paz), quando foi recebido por uma multidão que espalhava ramos de oliveira e palmeiras pelo chão, gritando "Hosana!".

Na nossa terra, foi marcado por uma cerimónia no Jardim do Largo Ricardo Vaz Monteiro, e uma pequena procissão até à nossa igreja.

Já há alguns anos a esta parte, tenho tido 
a enorme honra de ser convidado pelo meu querido Amigo Padre Marcelino a, com ele, e o meu querido Professor João Tavares, uma figura absolutamente tutelar na minha vida cristã, porque casou os meus pais, e me batizou a mim, no dia 19 de outubro de 1973, na Igreja da Beirã; ser o narrador do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (Mt 26,14 - 27), que retrata a Morte e Paixão de Cristo. 

Neste ano até não foi combinado, e surgiu de uma forma algo inusitada, tendo surgido a hipótese na eucaristia, e tendo-me juntando então aos outros dois leitores.

Nessa medida, agradeço muito à minha amiga Teresa Fernandes, dos Alvarrões, que também se voluntariou, quando já ia a caminho do altar, e, muito amistosamente, me deixou dar continuidade ao propósito. 

Agradeço também muito à minha filha Alice por ter feito o favor de captar o momento para todo o sempre... 🥹




 Leitura do Evangelho_ligacão: 


EVANGELHO - Mt 26,14 - 27,66

(Narrador - eu) Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

N Naquele tempo, um dos doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os príncipes dos sacerdotes e disse-lhes:

R (Outras vozes - Prof. João de Deus)«Que estais dispostos a dar-me para vos entregar Jesus?»

N Eles garantiram-lhe trinta moedas de prata.
E a partir de então, Judas procurava uma oportunidade para O entregar.
No primeiro dia dos Ázimos, os discípulos foram ter com Jesus e perguntaram-Lhe:

R «Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?»

N Ele respondeu:

Jesus (Padre Marcelino) «Ide à cidade, a casa de tal pessoa, e dizei-lhe: 'O Mestre manda dizer:
O meu tempo está próximo. É em tua casa que eu quero celebrar a Páscoa com os meus discípulos'».

N Os discípulos fizeram como Jesus lhes tinha mandado, e prepararam a Páscoa.

N Ao cair da noite, sentou-Se à mesa com os Doze. Enquanto comiam, declarou:

J «Em verdade vos digo: Um de vós há-de entregar-Me».

N Profundamente entristecidos,
começou cada um a perguntar-Lhe:

R «Serei eu, Senhor?»

N Jesus respondeu:

J «Aquele que meteu comigo a mão no prato é que há-de entregar-Me.
O Filho do homem vai partir, como está escrito acerca d'Ele.
Mas ai daquele por quem o Filho do homem vai ser entregue! Melhor seria para esse homem não ter nascido».

N Judas, que O ia entregar, tomou a palavra e perguntou:

R «Serei eu, Mestre?»

N Respondeu Jesus:

J «Tu o disseste».

N Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e deu-o aos discípulos, dizendo:

J «Tomai e comei: Isto é o meu Corpo».

N Tomou em seguida um cálice, deu graças e entregou-lho, dizendo:

J «Bebei dele todos, porque este é o meu Sangue, o Sangue da aliança, derramado pela multidão, para remissão dos pecados.
Eu vos digo que não beberei mais deste fruto da videira, até ao dia em que beberei convosco o vinho novo no reino de meu Pai».

N Cantaram os salmos e seguiram para o Monte das Oliveiras.

N Então, Jesus disse-lhes:

J «Todos vós, esta noite, vos escandalizareis por minha causa,
como está escrito: 'Ferirei o pastor e dispersar-se-ão as ovelhas do rebanho'.
Mas, depois de ressuscitar, preceder-vos-ei a caminho da Galileia».

N Pedro interveio, dizendo:

R «Ainda que todos se escandalizem por tua causa, eu não me escandalizarei».

N Jesus respondeu-lhe:

J «Em verdade te digo: Esta mesma noite, antes do galo cantar, Me negarás três vezes».

N Pedro disse-lhe:

R «Ainda que tenha de morrer contigo, não Te negarei».

N E o mesmo disseram todos os discípulos.

N Então, Jesus chegou com eles a uma propriedade, chamada Getsémani e disse aos discípulos:

J «Ficai aqui, enquanto Eu vou além orar».

N E, tomando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-Se e a angustiar-Se.

Disse-lhes então:

J «A minha alma está numa tristeza de morte. Ficai aqui e vigiai comigo».

N E adiantando-Se um pouco mais, caiu com o rosto por terra enquanto orava e dizia:

J «Meu Pai, se é possível, passe de Mim este cálice. Todavia, não se faça como Eu quero, mas como Tu queres».

N Depois, foi ter com os discípulos,
encontrou-os a dormir e disse a Pedro:

J «Nem sequer pudestes vigiar uma hora comigo! Vigiai e orai, para não cairdes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca».

N De novo Se afastou, pela Segunda vez, e orou, dizendo:

J «Meu Pai, se este cálice não pode passar sem que Eu o beba, faça-se a tua vontade».

N Voltou novamente e encontrou-os a dormir, pois os seus olhos estavam pesados de sono.

Deixou-os e foi de novo orar, pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras.
Veio então ao encontro dos discípulos e disse-lhes:

J «Dormi agora e descansai.

Chegou a hora em que o Filho do homem
vai ser entregue às mãos dos pecadores.
Levantai-vos, vamos.
Aproxima-se aquele que Me vai entregar».

N Ainda Jesus estava a falar,
quando chegou Judas, um dos Doze,
e com ele uma grande multidão, com espadas e varapaus, enviada pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos do povo.
O traidor tinha-lhes dado este sinal:

R «Aquele que eu beijar, é esse mesmo. Prendei-O».

N Aproximou-se imediatamente de Jesus e disse-Lhe:

R «Salve, Mestre!».

N E beijou-O.

Jesus respondeu-lhe:

J «Amigo, a que vieste?».

N Então avançaram, deitaram as mãos a Jesus e prenderam-n'O.

Um dos que estavam com Jesus levou a mão à espada, desembainhou-a e feriu um servo do sumo sacerdote, cortando-lhe uma orelha.

Jesus disse-lhe:

J «Mete a tua espada na bainha,
pois todos os que puxarem da espada morrerão à espada.

Pensas que não posso rogar a meu Pai
que ponha já ao meu dispor mais de doze legiões de Anjos?

Mas como se cumpririam as Escrituras,
segundo as quais assim tem de acontecer?».

N Voltando-Se depois para a multidão, Jesus disse:

J «Viestes com espadas e varapaus para Me prender como se fosse um salteador!
Eu estava todos os dias sentado no templo a ensinar e não Me prendestes...
Mas, tudo isto aconteceu para se cumprirem as Escrituras das profetas».

N Então todos os discípulos O abandonaram e fugiram.

N Os que tinham prendido Jesus levaram-n'O à presença do sumo sacerdote Caifás, onde os escribas e os anciãos se tinham reunido. Pedro foi-O seguindo de longe, até ao palácio do sumo sacerdote.
Aproximando-se, entrou e sentou-se com os guardas, para ver como acabaria tudo aquilo. Entretanto, os príncipes dos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam um testemunho falso contra Jesus
para O condenarem à morte, mas não o encontravam, embora se tivessem apresentado muitas testemunhas falsas.
Por fim, apresentaram-se duas que disseram:

R «Este homem afirmou:
'Posso destruir o templo de Deus
e reconstruí-lo em três dias'».

N Então, o sumo sacerdote levantou-se e disse a Jesus:

R «Não respondes nada?
Que dizes ao que depõem contra Ti?»

N Mas Jesus continuava calado.

Disse-Lhe o sumo sacerdote:

«Eu Te conjuro pelo Deus vivo,
que nos declares se és Tu o Messias, o Filho de Deus».

N Jesus respondeu-lhe:

J «Tu o disseste.

E Eu digo-vos:
vereis o Filho do homem
sentado à direita do Todo-poderoso,
vindo sobre as nuvens do céu».

N Então, o sumo sacerdote rasgou as vestes, dizendo:
R «Blasfemou.
Que necessidade temos de mais testemunhas?
Acabais de ouvir a blasfémia. Que vos parece?»

N Eles responderam:

R «É réu de morte».

N Cuspiram-Lhe então no rosto e deram-Lhe punhadas.
Outros esbofeteavam-n'O, dizendo:

R «Adivinha, Messias: quem foi que Te bateu?»

N Entretanto, Pedro estava sentado no pátio.

Uma criada aproximou-se dele e disse-lhe:

R «Tu também estavas com Jesus, o galileu».

N Mas ele negou diante de todos, dizendo:

R «Não sei o que dizes».

N Dirigindo-se para a porta, foi visto por outra criada que disse aos circunstantes

R «Este homem estava com Jesus de Nazaré».

N E, de novo, ele negou com juramento:

R «Não conheço tal homem».

N Pouco depois, aproximaram-se os que ali estavam. e disseram a Pedro:

R «Com certeza tu és deles, pois até a fala te denuncia».

N Começou então a dizer imprecações e a jurar:

R «Não conheço tal homem».

N E, imediatamente, um galo cantou.

Então, Pedro lembrou-se das palavras que Jesus dissera:

«Antes do galo cantar, tu Me negarás três vezes».

E, saindo, chorou amargamente.

Ao romper da manhã, todos os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo
se reuniram em conselho contra Jesus,
para Lhe darem a morte.
Depois de Lhe atarem as mãos, levaram-n'O e entregaram-n'O ao governador Pilatos.

Então Judas, que entregara Jesus,
vendo que Ele tinha sido condenado,
tocado pelo remorso, devolveu as trinta moedas de prata aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos, dizendo:

R «Pequei, entregando sangue inocente».

N Mas eles replicaram:

R «Que nos importa? É lá contigo».

N Então, arremessou as moedas para o santuário, saiu dali e foi-se enforcar.

Mas os príncipes dos sacerdotes apanharam as moedas e disseram:

R «Não se podem lançar no tesouro,
porque são preço de sangue».

N E, depois de terem deliberado,
compraram com elas o Campo do Oleiro.
Por este motivo se tem chamado àquele campo até ao dia de hoje, «Campo de Sangue».

Cumpriu-se então o que fora dito pelo profeta: «Tomaram trinta moedas de prata,
preço em que foi avaliado

Aquele que os filhos de Israel avaliaram
e deram-nas pelo Campo do Oleiro,
como o Senhor me tinha ordenado».

N Entretanto, Jesus foi levado à presença do governador, que lhe perguntou:

R «Tu és o Rei dos judeus?»

N Jesus respondeu:

J «É como dizes».

N Mas, ao ser acusado pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos, nada respondeu.

Disse-Lhe então Pilatos:

R «Não ouves quantas acusações levantam contra Ti?»

N Mas Jesus não respondeu coisa alguma,
a ponto de o governador ficar muito admirado.

Ora, pela festa da Páscoa,
o governador costumava soltar um preso,
à escolha do povo.

Nessa altura, havia um preso famoso, chamado Barrabás.

E, quando eles se reuniram, disse-lhes:

R «Qual quereis que vos solte?»

Barrabás, ou Jesus, chamado Cristo?»

N Ele bem sabia que O tinham entregado por inveja.
Enquanto estava sentado no tribunal,
a mulher mandou-lhe dizer:

R «Não te prendas com a causa desse justo, pois hoje sofri muito em sonhos por causa d'Ele».

N Entretanto, os príncipes dos sacerdotes e os anciãos persuadiram a multidão a que pedisse Barrabás e fizesse morrer Jesus.

O governador tomou a palavra e perguntou-lhes:

R «Qual dos dois quereis que vos solte?»

N Eles responderam:

R «Barrabás».

N Disse-lhes Pilatos:

R «E que hei-de fazer de Jesus, chamado Cristo?»

N Responderam todos:

R «Seja crucificado».

N Pilatos insistiu:

R «Que mal fez Ele?»

N Mas eles gritavam cada vez mais:

R «Seja crucificado».

N Pilatos insistiu:

R «Que mal fez Ele?»

N Mas eles gritavam cada vez mais:

R «Seja crucificado».

N Pilatos, vendo que não conseguia nada
e aumentava o tumulto, mandou vir água
e lavou as mãos na presença da multidão, dizendo:

R «Estou inocente do sangue deste homem.
Isso é lá convosco».

N E todo o povo respondeu:

R «O seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos».

N Soltou-lhes então Barrabás.

E, depois de ter mandado açoitar Jesus,
entregou-lh'O para ser crucificado.

Então os soldados do governador
levaram Jesus para o pretório
e reuniram à volta d'Ele toda a coorte.

Tiraram-Lhe a roupa e envolveram-n'O num manto vermelho.

Teceram uma coroa de espinhos e puseram-Lha na cabeça e colocaram uma cana na sua mão direita.

Ajoelhando diante d'Ele, escarneciam-n'O, dizendo:

R «Salve, rei dos judeus!»

N Depois, cuspiam-Lhe no rosto e, pegando na cana, batiam-Lhe com ela na cabeça.

Depois de O terem escarnecido, tiraram-Lhe o manto, vestiram-Lhe as suas roupas
e levaram-n'O para ser crucificado.

N Ao saírem, encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, e requisitaram-no para levar a cruz de Jesus.

Chegados a um lugar chamado Gólgota,
que quer dizer lugar do Calvário, deram-Lhe a beber vinho misturado com fel.

Mas Jesus, depois de o provar, não quis beber.

Depois de O terem crucificado,
repartiram entre si as suas vestes, tirando-as à sorte, e ficaram ali sentados a guardá-l'O.

Por cima da sua cabeça puseram um letreiro, indicando a causa da sua condenação:
«Este é Jesus, o rei dos judeus».

Foram crucificados com Ele dois salteadores, um à direita e outro à esquerda.

Os que passavam insultavam-n'O
e abanavam a cabeça, dizendo:

R «Tu, que destruías o templo e o reedificavas em três dias, salva-Te a Ti mesmo;
Se és Filho de Deus, desce da cruz».

N Os príncipes dos sacerdotes,
juntamente com os escribas e os anciãos,
também troçavam d'Ele, dizendo:

R «Salvou os outros e não pode salvar-Se a Si mesmo!
Se é o Rei de Israel, desça agora da cruz e acreditaremos n'Ele.

Confiou em Deus:
Ele que O livre agora, se O ama,
porque disse: 'Eu sou Filho de Deus'».

N Até os salteadores crucificados com Ele o insultavam.

Desde o meio-dia até às três horas da tarde,
as trevas envolveram toda a terra.
E, pelas três horas da tarde, Jesus clamou com voz forte:
J «Eli, Eli, lema sabachtani!»,

N que quer dizer:
«Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonastes?»

Alguns dos presentes, ouvindo isto, disseram:

R «Está a chamar por Elias».

N Um deles correu a tomar uma esponja,
embebeu-a em vinagre, pô-la na ponta duma cana e deu-Lhe a beber.
Mas os outros disseram:

R «Deixa lá. Vejamos se Elias vem salvá-l'O».

N E Jesus, clamando outra vez com voz forte, expirou.

N Então, o véu do templo rasgou-se em duas partes, de alto a baixo; a terra tremeu e as rochas fenderam-se.
Abriram-se os túmulos e muitos dos corpos de santos que tinham morrido ressuscitaram; e, saindo do sepulcro, depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos.
Entretanto, o centurião e os que com ele guardavam Jesus,
ao verem o tremor de terra e o que estava a acontecer,
ficaram aterrados e disseram:

R «Este era verdadeiramente Filho de Deus».

N Estavam ali, a observar de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galileia, para O servirem.

Entre elas encontrava-se Maria Madalena,
Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu.

Ao cair da tarde, veio um homem rico de Arimateia, chamado José, que também se tinha tornado discípulo de Jesus.

Foi ter com Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus.

E Pilatos ordenou que lho entregassem.
José tomou o corpo, envolveu-o num lençol limpo e depositou-o no seu sepulcro novo
que tinha mandado escavar na rocha.

Depois rolou uma grande pedra para a entrada do sepulcro, e retirou-se.

Entretanto, estavam ali Maria Madalena e a outra Maria, sentadas em frente do sepulcro.

No dia seguinte, isto é, depois da Preparação, os príncipes dos sacerdotes e os fariseus. foram ter com Pilatos e disseram-lhe:

R «Senhor, lembrámo-nos do que aquele impostor disse quando ainda era vivo:
'Depois de três dias ressuscitarei'.

Por isso, manda que o sepulcro seja mantido em segurança até ao terceiro dia,
para que não venham os discípulos roubá-lo e dizer ao povo: 'Ressuscitou dos mortos'.
E a última impostura seria pior do que a primeira».

N Pilatos respondeu:

R «Tendes à vossa disposição a guarda:
ide e guardai-o como entenderdes».

N Eles foram e guardaram o sepulcro,
selando a pedra e pondo a guarda.

Palavra da Salvação 

quinta-feira, 26 de março de 2026

Sobre voar...


Claro que é com grande Alegria e enorme satisfação que leio no consagrado Expresso, o meu querido colega estudantil, Amigo e Marvanense Fernando Gomes espetar uma sarabanda de alto a baixo no nosso governo por não se entender com a CGTP Intersindical, que tão bem defende. 

Claro que preferiria se pudesse haver um entendimento, e uma base comum favorável a todas as partes, que protegesse os trabalhadores e favorecesse a evolução da nossa economia, mas não sento possível, não consigo esconder a vaidade de o ver brilhar nestes palcos mediáticos! 

Bravo, Caríssimo! 👍🙏❤️

https://expresso.pt/opiniao/2026-03-26

18:00
A concertação social é um dos pilares fundamentais do regime democrático consagrado na Constituição da República Portuguesa.

Não é um mero mecanismo consultivo ou decorativo: é um espaço institucional de diálogo, negociação e compromisso entre o Governo e os parceiros sociais, onde se devem construir, na área laboral, políticas públicas para o desenvolvimento económico e social do país.

O que hoje se observa, com o afastamento da CGTP-IN das negociações sobre o pacote laboral, é um sinal preocupante de degradação desse modelo. Mais do que um conflito conjuntural, trata-se de um problema estrutural que levanta sérias dúvidas sobre o respeito do Governo pelo quadro constitucional e legal da concertação social.

A concertação social não é facultativa, é constitucional

O artigo 56.º da Constituição consagra um conjunto de direitos fundamentais das associações sindicais, afirmando o seu papel central na defesa dos direitos e interesses dos trabalhadores. Entre esses direitos, destaca-se a participação na elaboração da legislação laboral, a intervenção nos planos económico-sociais e a representação nos organismos de concertação social.

Este preceito constitucional garante ainda o direito à contratação colectiva, constituindo uma base essencial para o exercício do diálogo social e para a regulação das relações de trabalho num quadro democrático.

O artigo 92.º da Constituição estabelece a existência do Conselho Económico e Social (CES) como órgão de consulta e concertação no domínio das políticas económicas e sociais.

Neste âmbito, a Comissão Permanente de Concertação Social (CPCS), que funciona junto do CES, afirma-se como o espaço institucional próprio para a negociação entre o Governo e os parceiros sociais, nomeadamente as confederações sindicais (CGTP-IN e UGT) e patronais (CAP, CCP, CIP e CTP).

A Lei n.º 108/91, que regula o funcionamento do CES, concretiza o disposto no artigo 92.º da Constituição, atribuindo à CPCS competências específicas no domínio do diálogo social. Entre estas, incluem-se a discussão e negociação de matérias como as políticas laborais, os salários, as condições de trabalho e a legislação laboral, dando expressão prática ao quadro constitucional de participação das organizações sindicais na definição das políticas públicas.

Ou seja, a concertação social não é uma opção política do Governo do momento, é uma obrigação constitucional e legal. Ignorá-la, esvaziá-la ou instrumentalizá-la é, na prática, fragilizar a própria democracia.

Um Governo que simula diálogo, mas impõe decisões

O que está em causa não é apenas o afastamento da CGTP-IN, mas a forma como o Governo conduz o processo: apresenta propostas fechadas, limita o espaço negocial e, na prática, transforma a concertação social num ritual formal sem conteúdo.

Este comportamento contraria frontalmente o espírito e a letra da Constituição e da Lei. A concertação social exige negociação de boa-fé, abertura ao compromisso e respeito pelos parceiros sociais, independentemente das suas posições de partida.

Ao marginalizar a CGTP-IN, a maior e mais representativa Confederação sindical do país, que congrega centenas de milhares de trabalhadores, o Governo não está apenas a excluir um interlocutor, está a deslegitimar o próprio processo de concertação.

Enfraquecer os sindicatos é enfraquecer a democracia

O ataque à concertação social não pode ser dissociado do conteúdo do pacote laboral. As propostas em discussão apontam, em muitos casos, para uma regressão de direitos, desvalorização da contratação colectiva e maior desequilíbrio nas relações laborais.

Como tem sido afirmado pela Corrente Sindical Socialista da CGTP-IN, o trabalho digno assenta em pilares inseparáveis: direitos no trabalho, emprego de qualidade, protecção social e diálogo social.

Quando se enfraquece o diálogo social, está-se a minar um desses pilares fundamentais. E quando se enfraquecem os sindicatos, abre-se caminho a uma maior precariedade, desigualdade e insegurança.

A morte lenta da concertação social

O que está em curso não é um episódio isolado, é um processo de erosão. Primeiro, esvazia-se o conteúdo das negociações, depois, desvaloriza-se o papel dos parceiros sociais e, por fim, transforma-se a concertação social numa formalidade irrelevante.

Este caminho conduz a uma conclusão clara: o Governo está a matar a concertação social.

E fá-lo não apenas por omissão, mas por opção política, ao privilegiar decisões unilaterais, ao reduzir o espaço de negociação e ao ignorar o pluralismo que caracteriza o movimento sindical português.

Defender a concertação social é defender a democracia

Perante este cenário, torna-se urgente reafirmar princípios fundamentais:

· a concertação social deve ser respeitada como espaço real de negociação;

· todos os parceiros sociais devem ser envolvidos de forma efectiva;

· o Governo deve agir de boa-fé e com abertura ao compromisso;

· o diálogo social não pode ser substituído por imposições políticas.

A história do movimento sindical português demonstra que os maiores avanços sociais foram alcançados através da negociação colectiva e do diálogo social, nunca pela imposição.

Defender a concertação social é, por isso, defender a democracia, o Estado Social e os direitos dos trabalhadores.

Se o Governo persistir neste caminho, não estará apenas a romper com a CGTP-IN, com os seus sindicatos, estará a romper com um dos pilares essenciais do regime democrático construído após o 25 de Abril.
 

sexta-feira, 13 de março de 2026

Chegar de Chega! De vez...

Texto dedicado aos meus queridos António Parra e Isabel Barradas Ludovino, meus paladinos na luta do Bem.


O nosso povo português, inquestionavelmente um dos mais bravos que já pisou este planeta, que já ousou até dividir ao mundo com os espanhóis em Tordesilhas, numa era em que rasgava mares sem fim para descobrir continentes... é por vezes também um dos mais mansos, dos que se deixa levar, que adormece e não reage, que ainda hoje não consegue explicar como se deixou hipnotizar e amordaçar numa ditadura de 48 anos (28/05/1926 - 25/04/1974, que nos cortou as pernas no século XX)

 

A crítica que fiz no facebook ao comportamento vil e ultrajante dos deputados do Chega à vice-presidente da Assembleia da República, Teresa Morais, há dias, gerou, como de resto era por mim até já esperado, a manifestação de diversos amigos que não compreenderam como o Diogo Saldanha, o Carlitos Amador, ou o Marco Barreto que se mostraram solidários e apoiantes destas... criaturas

 

Não é que tenha a pretensão de evangelizar as massas, até porque de pastor não tenho nada, mas palavra que dá vontade de lhes responder, como irei fazer agora, apenas enumerando fatos históricos, embora seja da opinião que o lugar certo para a emitir, não deve ser num comentário de comentário, que se perca na voragem da espuma dos dias do facebook, e por isso responderei no meu blogue, que tem perdido em favor do imediatismo desta rede, mas onde gosto de continuar a "colar" os episódios da minha vida cibernauta.

 

Pela importância do tema, e pela relevância para as nossas vidas, peço que os “Cheguistas” mencionados façam o favor de ler o que escrevi de seguida, e não me venham depois com a reação, como têm tanta vez, "ehhhh paaaahhh... aquilo é tão comprido... 😱 que não tive paciência”... porque para se saber, tem de se ler!

 

Basicamente, muitos de vós, apologistas do Ventura, o charmoso, o bem falante, o galã do Tik Tok; vêem no Chega o fim de um sistema bipartidário (os governos há muito que são ou do PS, ou do PSD... e as diferenças entre o dois são praticamente nulas, quando eram muito mais óbvias quando era garoto), dizia eu que o sistema já está obsoleto, marcado pela corrupção, lhe falta capacidade de resposta imediata aos problemas do dia a dia, resposta para recuperar o poder de compra face à tenebrosa inflação, mais habitação, mais emprego e... têm de haver culpados!!!

Como toda e em qualquer ditadura ou tirania, os culpados são sempre os mais fracos! O bode expiatório são os imigrantes, os que chegaram vindos de fora, ou que garantem que não falte mão de obra nas estufas do Baixo Alentejo, nas entregas porta a porta, ou na construção civil, mas que apesar de respeitadores e explorados, maltratados em esquadras de rua por agentes mal formados, e anichados como ratos em garagens e barracões que pagam a peso de ouro, são alvo de uma campanha discriminatório que quer que passem por párias (excluídos sociais) quando na realidade são os contribuintes líquidos muito importantes para a Segurança Social em Portugal, pois pagam muito mais do que recebem em prestações.

 

As contribuições dos imigrantes ultrapassaram os 4 mil milhões de euros, gerando mais de 3 mil milhões de euros de “lucro” para a Segurança Social.

 

Representam pois uma fatia crescente dos contribuintes (em alguns anos cerca de 9–20% da população ativa), ajudando a compensar o envelhecimento e a quebra de trabalhadores portugueses.

 

Pois bem, essa é uma das grandes falácias (erro de raciocínio que faz um argumento parecer correto ou convincente, mas que na verdade é inválido ou não sustenta a conclusão) do Chega, como aquela tormenta sempre constante de chamarem o abominável (adjetivo em português que significa algo ou alguém que merece ser abominado, isto é, detestável, execrável, horrível ou que causa forte repulsa e aversão) Salazar, ditador que nos cerceou (cortou pela raiz ou pela base, limitou em sentido figurado), que pedem em duplicado, (ainda por cima!!!), enquanto desfilam de camisa branca, exibindo saudosas saudações nazis de braços esticados pela avenida da liberdade abaixo.

 

Saberão eles, e vocês, jovens meninos, meus doces petizes, que em relação a assuntos tão fundamentais, qual era o estado da situação nesse então, que agora querem de volta?

 

Sendo a liberdade o valor que mais defendo na vida, o poder decidir pela minha própria vontade e só essa, para onde quero ir, por onde quero caminhar, com quem quis casar, o que ler, ver, ouvir, ler e escrever, quem quero ter como Amigos, onde quero trabalhar, onde, com quem e quando vou comer ou estar, isso seria impossível então porque existia a CENSURA, um dos pilares fundamentais do Estado Novo para garantir a sobrevivência do regime, que não se tratava apenas de uma questão de "apagar frases", mas sim um sistema burocrático complexo e omnipresente.


 

Existia o "Exame Prévio", a principal característica da censura portuguesa, ao contrário de outros regimes onde se punia depois de publicar. Em Portugal nada podia sair a público sem autorização. Por isso, todas as provas tipográficas, jornais e outras publicações tinham de ser enviadas para a Direção-Geral de Informação, também conhecida como o "Lápis Azul", onde os censores riscavam textos, frases ou até anúncios publicitários que considerassem perigosos.

O termo ficou famoso porque os censores usavam literalmente lápis de cor azul para riscar os textos, um símbolo de autoridade silenciosa que condicionou a mentalidade portuguesa durante quase meio século.

 

Temas como a política (críticas ao Governo, notícias sobre greves, movimentos operários, oposição política ou problemas nas colónias); a moral (o divórcio, o aborto, referências sexuais explícitas ou comportamentos que desafiassem a "família tradicional") e a religião ou ordem pública (crimes violentos ou suicídios eram frequentemente cortados para dar a ideia de que Portugal era um "oásis" de paz e segurança), eram liminarmente proibidos!

 

Havia um total controlo das artes e do espetáculo, uma vez que a censura não se limitava ao papel. Os guiões de teatro e cinema tinham de ser aprovados antes da produção e o resultado final era revisto antes da estreia. As letras de intervenção (como as de Zeca Afonso) eram proibidas ou alteradas, e até o fado foi vigiado para garantir que não transmitia mensagens de revolta social.

 

A PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) apreendia obras nas livrarias e editoras que fossem considerados subversivos ou de ideologia comunista. Nessa ação era apoiada pela "Propaganda" um complemento que rentabilizava a intenção.

 

Enquanto a Censura tirava o "mau", através do Secretariado da Propaganda Nacional (SPN), o regime colocava o "bom", usando a rádio e o cinema para promover os valores do "Deus, Pátria e Família". Soa tanto a Chega, não é?

 

Já imaginaram bem o sufoco que deveria ser viver dentro destas amarras, amarrado nesta gaiola?!???

 

Sabiam que quando a ditadura do vosso Salazar, que agora querem de volta, começou, 6 em cada 10 portugueses não sabiam ler nem escrever?!? Engraçado, não é?

E sabiam que quando a revolução restaurou a democracia, em 74, essa taxa ainda era de quase 3 em 10?!?

Seria por pirraça, porque não queriam, ou… porque quem mandava queria que assim fosse?!?!?

 

Contudo, os ricos, esses, garanto-vos que tinham, pagando, claro está, e bem!!!, a melhor educação possível.

Será que tu Cárlitos, caso o Chega que defendes, mandasse no país, poderias ter tirado o curso superior que te permite ser um exemplo de cidadão do mundo, e um caso de sucesso?!? O Diogo, por seu lado, sei que nunca investiu muito na área, e certamente o lamentará todos os dias da sua vida porque se não o faz... tenho pena.

 

Naquele então que vocês defendem, a escolaridade obrigatória era só até ao 3° e 4° ano, muito longe do 12º ano (ou até aos 18 anos de idade) tal qual foi estabelecida em 2009. E neste período de opressão, o regime valorizava uma educação controlada e ideologicamente orientada, nunca investindo o suficiente para eliminar rápida e completamente o analfabetismo. A falta de escolas, especialmente no meio rural era enorme e os poucos professores tinham condições muito limitadas e rudimentares.




Os programas escolares tinham uma forte componente de propaganda ligada ao regime, usando uma cartilha maternal, de João de Deus, usada para ensinar a ler, mas que fomentava e criava vistas curtas, formatadas.

O Ensino Superior era limitado para uma elite que se auto-protegia, composta por filhos de médicos, professores e advogados, não para filhos de empregados ajudantes de serviços de secretaria como eu, ou vocês, que nunca lá meteríamos o cú.

Tudo isto porque como se calcula, claro, a população pouco instruída era mais fácil de controlar politicamente. Quem não sabe, não lê, não pensa, encarneira com muito mais facilidade para onde o mandam ir.

 

E que dizer da habitação e das condições de vida? Existia um forte contraste, como é sempre nestes casos de grandes clivagens (processos de divisão, separação ou fragmentação ao longo de planos definidos) sociais, como existem, por exemplo, no Brasil. De um lado, existia a propaganda de bairros ordenados e moradias unifamiliares; quando do outro, havia uma realidade de pobreza extrema, falta de saneamento, com os bairros de lata em expansão.

 Promovia-se a "Casinha" Portuguesa, em bairros de moradias unifamiliares com pequenos jardins, onde o objetivo era que cada trabalhador "de bem" tivesse a sua horta e se focasse na vida doméstica, longe da política o que promovia o controlo social porque eram atribuídas a famílias que cumprissem critérios morais e políticos rígidos. Os moradores viviam sob vigilância e não poderiam ser despejados se mantivessem uma conduta "exemplar"; enquanto que do outro lado da moeda, se amontoavam enormes aglomerados de barracas (feitas de madeira, zinco e cartão) nas periferias das cidades, sem qualquer planeamento, ou condição sanitária.

 

No Norte, era comum a subdivisão de casas antigas em minúsculos quartos onde famílias inteiras partilhavam poucos metros quadrados, muitas vezes sem janelas.

 

Vejam-me bem que os números do final do regime, no dealbar (tornar branco, branquear ou clarear) da democracia, há 50 anos atrás, ajudam a ilustrar a precariedade:

 

Eletricidade: Cerca de 42% das casas em Portugal ainda não tinham luz elétrica. Às escuras, portanto, como os desgraçados das intempéries agora em Pombal! Só que ali e então, era sempre! Quase metade!!!!!

 

Saneamento: Apenas cerca de 36% das habitações tinham instalações sanitárias (retretes ou casas de banho completas). Traduzido: urinar ou defecar, para quase ¾ da população era no chão, para um buraco, ou numa fossa.

 

Água Canalizada: Menos de metade da população tinha acesso água corrente em casa, sendo o uso de poços e chafarizes públicos a norma em grande parte do país.

 

No campo, a vida era ainda mais dura. As casas eram frequentemente feitas de pedra ou adobe, com chão de terra batida e onde o gado, por vezes, pernoitava em divisões contíguas para aquecer a habitação. A falta de calçado e a desnutrição eram problemas comuns, resumidos na expressão popular da época: "Uma sardinha para quatro".

A habitação foi, por isso, uma das maiores prioridades dos primeiros governos democráticos após 1974, através de programas como o SAAL (Serviço de Apoio Ambulatório Local) para erradicar as barracas.

 

E para o fim deixei talvez o assunto mais problemático mesmo de todos, e que no meu modesto entender, foi aquele que acionou o rastilho de revolta dos militares, porque foram eles, de longe, os principais sacrificados: a guerra colonial (1961-1974), que gerou a ferida mais profunda aberta pelo Estado Novo na sociedade portuguesa.




O regime de Salazar, e mais tarde de Marcello Caetano, que se lhe seguiu após a sua morte quando caiu da cadeira, literalmente, insistiu numa solução militar para um problema político, o que resultou num esforço de guerra desproporcional para um país pequeno e pobre.

 

O impacto estendeu-se por várias gerações e ainda hoje é sentido na memória coletiva e na demografia do país.

Realço o custo humano de ter uma geração mobilizada: Portugal chegou a ter cerca de 150.000 homens em armas simultaneamente nas 3 frentes de Angola, Guiné e Moçambique, os três países de África que impulsionados por interesses externos nas suas riquezas, leia-se soviéticos; rebelaram-se e lutaram pela sua independência, à qual tinham tido o direito por natureza!

 

Ali foi obrigada a alinhar uma geração de jovens que, na sua maioria, mal tinha saído da adolescência. O recrutamento era obrigatório e abrangia quase toda a população masculina válida. A idade padrão para a incorporação militar era aos 20 ou 21 anos. No entanto, devido à necessidade crescente de tropas à medida que a guerra se intensificava em três frentes (Angola, Guiné e Moçambique), o regime ajustou as regras, criando o "Piquete", através do qual muitos jovens eram chamados logo após completarem o ensino secundário ou os primeiros anos de trabalho.

Atenção que o serviço militar não era uma "passagem rápida", já que entre a recruta (treino), a especialidade e a mobilização para o Ultramar (a "comissão"), um jovem ficava preso às forças armadas, pelo menos, entre 3 a 4 anos para a grande maioria dos soldados que estava na linha da frente, que tinha entre 21 e 25 anos.

O recrutamento era universal, bem diferente de alguns exércitos modernos que são profissionais, e baseava-se no Serviço Militar Obrigatório (SMO). Todas as classes sociais eram chamadas e em teoria, todos os homens tinham de ir. No entanto, havia uma clivagem social clara, aliás como o Chega que vocês defendem, apregoa:

Os filhos das elites frequentavam a universidade e, por isso, entravam como oficiais milicianos, o que lhes garantia melhores condições e comando. Já as classes populares, o povão, os camponeses e os operários, muitas vezes com pouca instrução, formavam a base das companhias de infantaria (os "praças") que eram os que faziam as patrulhas mais perigosas no mato.

"Inaptos" só ficavam os que tinham deficiências físicas graves (os "refugados") ou aqueles cujas famílias tinham influências políticas para conseguir um adiamento ou uma colocação administrativa em Lisboa.

Entre 9.000 a 10.000 soldados portugueses morreram e mais de 100.000 ficaram feridos ou estropiados, quando do lado africano, os números são muito superiores e devastadores. Isto para já não falar nos milhares de jovens que regressaram com o que hoje chamamos de Perturbação de Stress Pós-Traumático (PSPT), uma vez que na altura, não havia apoio psicológico, e estes homens tiveram de reintegrar a sociedade em silêncio, afetando as suas famílias e os seus filhos (a chamada "transmissão intergeracional do trauma").




 

Estão a ver onde é que nós iriamos parar, não estão? E será que viríamos?!?!?!?!?

 

Caso não quiséssemos arriscar a vida, o salto seria a única opção, como foi a de milhares de portugueses que fugiram clandestinamente para França e outros países europeus. Com este drama perdemos grande parte da sua força de trabalho mais jovem e ativa, o que atrasou o desenvolvimento económico do país durante décadas.

Enquanto a Europa vivia os "Trinta Gloriosos" (anos de crescimento económico e criação do Estado Social), Portugal drenava os seus recursos para o mato, havendo no auge do conflito, cerca de 40% a 45% do orçamento do Estado destinado à defesa e segurança, aplicando erroneamente dinheiro que não foi investido em escolas, hospitais, saneamento básico ou infraestruturas industriais. Como já vimos, Portugal chegou a 1974 com taxas de analfabetismo e mortalidade infantil muito superiores à média europeia.

 

E prontos, portantos, como diz o outro, digam-me lá se prante isto tudo, ainda continuam firmes, fortes e convictos de cada vez que em vez de um Salazar, mais valia virem dois ou três?