terça-feira, 10 de julho de 2007

O som dos The Sound

Nunca na minha vida fugi a uma boa briga e já andei nalgumas.
Ando com saudades.

E cada vez me sinto mais vezes como a malta de Montalvão, que ia aos bailes da Póvoa só para armar confusão.

No meu novo blog abri os comentários a anónimos. A ver como a coisa marcha.

Sei que corro o risco de me entrar pela casa digital adentro algum parvinho do género “hei malta, vejam bem, um vídeo no blog do vereador com uma cena em que se vê o top desnudado de uma pequena!! Que escândalo!”.

“Chapéus há muitos, seu palerma!” como dizia o Vasco Santana. Se até nos anúncios do gel de banho FA se vêm maminhas e rabitos com fartura! Andas a dormir na formatura, pá! Mas bem, que se amole!

A música dos The Sound merece a homenagem e no You Tube só apanhei a versão não censurada. Ouvi isto há dias e fiquei enfeitiçado. Muito anos 80, muito garage, muito indie, um ritmo e uma batida e uma voz e uma atitude tão retro e tão actual. E o refrão, meus amigos, o swing cantarolável, a mensagem, o movimento, tudo demais!

Só me dá vontade de ter 17 anos outra vez e poder voltar a partir a pista da nossa Cave ao som desta malha. Trepidante!

“ÓÓÓÓÓÓÓ tempoooo! Voltapatráááááss! Traz-me tudo o que perdi…”

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Recomeçar...


Num bucólico almoço de família, muito fim-de-semana, crianças no jardim, muita relva, muito boa onda, muito relax, muito stress-less, alguém me dispara que tenho um defeito enorme.

Um defeito enorme!!!!!!!!! (Que diacho! E qual poderá ser? Por Deus!).

“Gostas muito de falar, mas muito pouco de que falem!”.

Confesso que fiquei sem balas.








Custa-me a olhar para dentro, pá!

Sei que é verdade.



E tenho que confessar que às vezes sou meio aparvalhado.

Vou em cantigas.

Custa-me dizer que não.

Alinho na maré…

E neste caso, foi mesmo assim.

Conheço a Zita Seabra do 9º ano, quando comecei a comprar o Expresso.

A gaja era do tipo muy duro, uma espécie de encarnação feminina do próprio Cunhal, de garras e dentes afiados, sempre acutilante, pronta a rasgar.

De repente, vejo-a passar para o outro lado e não foi necessariamente para o partido vizinho do espectro luso.

Um dia a servir imperiais no Avante!, no outro em amena cavaqueira com o Portas…

Caraças, pá! Assim, não dá!

A gaja só podia ser uma vira casacas e isso é um rótulo que ninguém quer ter.

Aquilo agarrou-se a mim e cada vez que a via, num jornal, num telejornal, numa revista, num boletim ou na sua bem sucedida carreira como editora, dizia para comigo… a bicha esta!

Deu a volta ao prego!

Está aburguesada. Vendeu-se!

E chego a casa e enquanto janto, encontro-a na RTP1 com a Judite de Sousa.

A protagonizar a mais brilhante entrevista política eu vi em muitos anos.

E não foi pela Judite, a pobre, que se mete no meio e não deixa mastigar e não percebe que a estrela não é ela.

Foi mesmo a mulher. Que força! E que soco no estômago!

Falando do PCP como nunca, da voragem e da dura militância, da perseguição interna e das escutas, da manipulação psicológica e do ostracismo como nunca.

Gritou em silêncio que só queria ser livre outra vez.

Ter direito a duvidar daquilo porque lutou até à morte.

E isso é comovedoramente belo.

Contou desassombrada que quando rompeu de vez com o Comité Central fez um esforço brutal para não perder o tino mas não resistiu a esvair-se em lágrimas no primeiro táxi que apanhou.

“O homem reconheceu-me de algures e disse-me que vinha a ouvir na rádio aquilo por que estava a passar. Não me cobrou a bandeirada”.

“Adoeci profundamente. Tive hemorragias enormes e estive tuberculosa durante a gravidez. Espreitei o lado de lá”.

É preciso tê-los no sítio para se despir assim em público.



Do último encontro com Cunhal, duas frases.

Disse-lhe ele: “Nunca mais vais ser ninguém”.

A cachopa responde-lhe à letra: “Espero que dures o tempo suficiente para veres que estavas errado!”.

Eh pá! Temos miúda!

E muita coragem. “Há os que dizem que saíram em discórdia com o processo mas em consonância com os ideais. Pois eu saí em ruptura com tudo. Quando fui, fui e soube donde estive. Quando saí, saí só. Desacreditei-me e hoje sou capaz de ser livre outra vez”.

Sorriu.

O livro que acabou de editar, de memórias, intitula-se “Foi assim”.

Está na lista de Verão.

Deve estar tenrinho.

Vale pela ousadia e eu prometo que onde quer que a veja, lhe hei-de espetar dois beijos e louvar a frontalidade.

Mesmo que não concorde nada... mas há coisas que por muito que nós discordemos, nos temos mesmo assim de vergar... nem que seja pela coragem!

quinta-feira, 5 de julho de 2007

As novas oportunidades da malta


Eu sei que corro o risco de que me chamem elitista, mas tenho de dizer que não concordo com a cena dos RVCC ou lá como é que a coisa se chama. É do tipo, novas oportunidades.

Traduzido por miúdos, um tipo chega lá, a esta nova escola improvisada, diz o que fez na vida (só as coisas boas! As más não dão jeito nenhum), tipo fui à tropa, sei atar os sapatos de 3 maneiras diferentes, já fui ao Oceanário, sei fazer omoletes espanholas e assobiar a marcha de Alfama de trás para a frente e toma lá o 9º ano.

TOMA LÁ O 9º ANO?

Que cena!

Não tenho nada contra a malta que se adiantou assim, mas têm de concordar que não é justo. Na Fórmula 1, quando um mano daqueles faz um atalhozito, é desclassificado! Parece-me justo! E não há que relativizar as coisas porque elas são o que são.

Eu, para tirar o 9º ano, andei 5 anos da minha vida a bater a Carreira de Cima em Castelo de Vide, caraças! Não me amolem. Fui para lá com 10 anos, mal chegava ao balcão da cantina, levantava-me às 6.15 da manhã para apanhar o autocarro do Nicau, fartei-me de raspar frio e chuva e porrada com fartura porque era reguila e andava sempre metido em confusões. Não brinquem comigo! Até fome passei! Aquela cantina da escola e a comida da Lódi ainda hoje me assolam os mais negros pesadelos. Aquilo foi duro! Mesmo muito duro, tipo uma tropa antes do tempo e tinha que se estudar e agora estes artistas em poucos meses sacam o título com louvor.

Ai é assim? E a coisa vai por aí fora. Também já dá para o 12º e há-de vir o tempo em que até as licenciaturas são instantâneas como o cafezinho do nosso amigo Chaparro (é bom!).

Um gajo acorda naquela: “Hoje tou com a pica de sacar uma licenciaturazinha em Línguas e Literaturas Modernaças! Na boa!”. Chega lá, diz três ou quatro bazófias e enfiam-lhe o canudo… debaixo do braço!

E a gente diz ao vizinho: “então ó Quim Tó! Vais à bola?”. E o gajo responde, “para já o meu nome é Joaquim António e eu tenho o 3º ciclo completo! E não, não vou ao futebol, estou à espera da Biblioteca Ambulante. Ouvi dizer que têm um ensaio novo sobre a dialética Kantiana. Estou em pulgas! Nem me aguento!”

Engraçado, não é? Este país é como o Soares era dantes… FIXE!

Já estou na lista para o curso de diácono! Quando a Igreja se aliar à coisa, tenho a certeza que vou ingressar.

“Ratzinger! Põe-te a pau!”

A Real Tertúlia do Camarão


A Real Tertúlia do Camarão é uma das minhas paixões.

Esta sociedade secreta de fins maçónicos dedicada à devoção do célebre marisco é já um mito urbano da nossa aldeia, se é que as aldeias podem ter mitos urbanos (na Wikipédia não explica. O Fernando Ruas da Associação de Municípios diz que também não sabe!).

Composta por 11 elementos como os apóstolos, reúne sempre na mesma data secreta, num sítio secreto e com rituais secretos que convém não divulgar porque são secretos.

Por muito que se diga, o grande ingrediente é a amizade e o salutar convívio entre os convivas (perdoem-me a redundância mas gostei do som das duas palavras juntas).

Neste segundo ano de actividade sonhamos com a internacionalização e já andamos a recolher fundos.

Como li algures que houve um equipa de vólei em Itália que se desnudou para vender uns calendários e aquilo rendeu uma nota preta, lembrei-me também eu de fazer nos meus serões livres, umas brincadeirazitas com o Photoshop e todos os meses sai uma fotomontagem nova, para gaúdio da rapaziada. Os originais estão à venda por período limitado e não se demorem que o Berardo diz que os quer lá para a sala de jantar da casa nova.

Fica aqui o cartaz de Maio e o meu tributo à amizade.

Que Deus nos dê saúde que nós bem precisamos.

****-**!

Boletim Metereológico


O homem é um canastrão daqueles à antiga, mais parece saído de uma cóboiada do John Ford, descendente directo de ícones imortais na linha do John Wayne, do James Stewart, e mesmo do Ronald Reagan. Já não se fabrica fazenda desta. E é também o gajo a quem o filho do Bush roubou as eleições, com uma mãozinha do mano governador da Florida. Nestas cenas, dá sempre jeito ter a família pelo meio! Não há nada que o petróleo não pague!

Decidido a reposicionar-se no panorama político, agarrou-se à bandeira ambiental que é hoje das que mais rende.

Vai daí fez um documentário mesmo à americana, tipo Michael Moore, a dizer que esta cena está mesmo a rebentar pelas costuras: é a camada do ozono a desaparecer, as florestas tropicais a arder, os calotes polares a derreterem, a temperatura global a aumentar e a malta a assobiar para o lado e a pensar que são tudo cantigas.

E não é que este ano ainda não chegou por cá o calor a sério? Tá de estações do ano, está!

Nas notícias então é demais. No Reino Unido, água com fartura e os bifes a carregarem os botes com paletes de cerveja caminho do telhado mais alto do vizinho. Na Grécia, quarenta e tal graus à sobra e a malta não está com mais nem meias, inspirados na mais profunda filosofia helénica, pegaram nas tendas e marcharam todos a acampar para a praia. Lindo! Isto sim era um Prémio Nobel bem entregue. Todos estreichados na areia de latinha de refrigerante na mão, e como não havia luz no areal nem me perguntem onde faziam as necessidades de noite… A água também devia de estar um caldinho. Bem agradável!

Eu acredito no Al Gore. Com o andar da carruagem, qualquer dia vou abrir o portão da garagem e tenho um pinguim à porta!

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Trippin' Tripoli (aka Sócrates rules!)


Da maneira como as coisas andam ultimamente, sei que este post me pode levar de cana, mas mesmo assim arrisco.

O nosso Sócrates é uma máquina! Impagável, o rapaz. Sempre em grande estilo. Seja a fazer o seu jogging nos locais mais inóspitos, camisolinha da Adidas, em Luanda ou Moscovo, com meia dúzia de abetardas a fazer-lhe companhia; ou a ripar jornalistas de alto a baixo, irradia estilo.

Dá vontade de o adoptar para neto. Aposto que todas as avós queriam ter um assim…

Hoje nas notícias de quase todos os canais, vi-o a rir-se todo satisfeito para o Kadafi, um dos maiores terroristas, um verdadeiro carniceiro, uma das bichas mais loucas, tiranas e sanguinárias que o nosso planeta já viu nascer. Estavam todos sorridentes, como se fossem velhos amigos, com o ar de quem estava discutir o novo equipamento cor-de-rosa do Benfica.

Pensei: “Será que o rapaz sabe onde está metido?”

Ele todo numa boa e o outro meio dopado, com um traje folclórico lá do sítio, tipo cortinado. Parecia uma cena do Lion King 3.

Bem engraçado!

Ao contrário do que diz a minha filha, as notícias não são nada aborrecidas.

Eu até gosto. Às vezes…





Tripoli, Líbia (PANA) - O primeiro-ministro português, José Sócrates, encontrou-se hoje com o líder líbio, coronel Muamar Kadafi, durante a Cimeira da União Africana (UA), no quadro dos preparativos da Cimeira África-Europa, prevista para Dezembro próximo em Portugal, informou uma fonte oficial líbia.De acordo com a fonte, o primeiro-ministro português já tinha exprimido esse desejo durante a audiência que concedeu ao secretário líbio das Relações Exteriores e Cooperação Internacional, Abderrahmane Chalgham.Sócrates sublinhou igualmente a importância da preparação comum da Cimeira África-Europa e a criação dum mecanismo de acompanhamento da cooperação entre a União Africana (UA) e a União Europeia (UE) na execução do conteúdo da Declaração de Tripoli sobre Emigração e Desenvolvimento.O primeiro-ministro português acrescentou que o seu país coloca a Cimeira África-Europa no topo das suas prioridades durante a sua próxima presidência da UE.

Arte Modernaça


Li há dias, uma entrevista extraordinária com este caramelo.

Dizia então o gajo, que teve arte e manha suficiente para cravar um museu ao Sócrates lá para os lados de Belém (e não, não é o Belém da Palestina, é o outro, ao fundo da Junqueira, para onde vai o autocarro 19) que a maior parte das vezes, não se lembra do nome da mulher e eu fiquei para morrer.

Até então pensava ingenuamente que para um gajo ser esperto ao ponto de ter um império e ser estrela de anúncios da American Express e ter colecções de arte moderna sem par no mundo inteiro, tinha, no mínimo, de saber o nome da fêmea com quem acasalou.

Estava errado!

E não me venham com a história da dislexia e das outras tretas todas porque eu, quando andava na segunda classe, só pude escrever o meu nome a esferográfica quando a Dona Lourdes teve a certeza que dava menos de vinte erros quando escrito a lápis e nunca me queixei, excepto uma vez à minha mãe num almoço da catequese, mas ela não me ligou peva.

O Berardo, esse ícone do Portugal moderno, teve a ousadia recente de no seu novo dialecto, dizer que o nome da mulher não interessa para nada. Diz ele que ela não leva a mal.

E eu digo que no mínimo, se poupa a muitos equívocos inesperados e cada vez mais me convenço que não percebo nada mesmo desta história.

Eu… que nunca me esqueço que a mulher da minha vida se chama Cristina, esqueço-me muita vezes de meter dinheiro na carteira e é nessa altura que os meus amigos têm de pagar as datas.

Dá vontade de dizer: “You can’t have it all, Joe!

quarta-feira, 27 de junho de 2007

A gala... que não é!


O 7 do 7 de 2007 já se aproxima a passos largos e eu a ver a coisa ao longe. Sei que não me vou enganar. Às vezes, sinto-me como um garoto que já sabe que vai ter a prenda que não quer nos anos e finge que não sabe de nada. Bastaram 2 ou 3 cavadelas para perceber que esta cegada toda das maravilhas de Portugal era uma enorme negociata onde os dados estão mais que viciados.

E dá-me pena.

Dá-me pena porque ainda há quem acredite.

Dá-me pena porque a ferida do Património Mundial ainda não sarou no orgulho marvanense de muitas consciências locais. (nas quais me incluo).

Dá-me pena porque Marvão não merece.

Mesmo!

E o sabor da derrota sabe desta vez ainda mais amargo que o fel.

O meu amigo e agora colega Garraio, trouxe dobradinho, o orgulho embalado com um sorriso cúmplice.

Era uma página inteirinha do nacional “El País”, que está para os do lado como o “Público” para nós, fazendo propaganda à Lusitânia, obra do Turismo Nacional, ou seja, pago por todos.

Ali, numa só foto, numa soberba e majestosa foto, que vimos nós para nos representar, para representar todo um país? Um Marvão esplendoroso que mais parecia um navio encalhado num monte, quando as águas do dilúvio bíblico se esvaíram terra dentro, imponente e altaneiro, numa perspectiva rasante, quase inédita.

A mim, perdoem-me o bairrismo, só me deu vontade de fazer mil cópias para esfregar na fúcia de todos aqueles que escolheram votar noutros, naqueles que promoveram o negócio em vez da qualidade, naqueles que se hão-de rir a pensar que o seu é melhor que o nosso.

À fava! Que se amolem!

Porque nós meus amigos, nós que tivemos a bênção suprema de ter nascido destas pedras cinzentas, nós que ostentamos no B.I. o orgulho da origem neste concelho, sabemos cá dentro que não há jóia como a nossa. Mesmo!

Podem escolher as maravilhas que quiserem e que o dinheiro quer, que nós não vamos em carneiradas.

Podem eleger os outros. Nós por cá, sabemos que há-de ser sempre o nosso Marvão, quando tiverem que escolher a pedra mais preciosa para levarem ao pescoço nas galas internacionais.

Que lhes faça bom proveito!

terça-feira, 19 de junho de 2007

Sobe, sobe...


O ano de 2007 tem sido caracterizado por uma excelente colheita discográfica. Se acabasse agora, já havia na minha lista pessoal, 10 grandes discos para a posteridade. O sublime novo Arcade Fire, o potente novo Arctic Monkeys e a revelação dos The View, são exemplos mais que evidentes. Mas maior descoberta da temporada foram os Shins. Herdeiros de uma pop inteligente feita de guitarras dedilhadas e letras belíssimas, são os herdeiros mais improváveis dos saudosos Smiths, de quem eu tenho tantas saudades. Os gloriosos anos 80…

Pois o novo disco dos Shins, “Wincing the night away”, é de cortar a respiração.

Descobri há dias no “You Tube” que é cada vez mais o meu canal de televisão, o novo vídeo para o tema Austrália. Pop gloriosa e cheia de luz. No final do teledisco, como dantes lhe chamavamos, não pude deixar de sorrir.

Em primeiro lugar, porque o filme que criaram para a música nada tem a ver com o tema que lhe serve de base. À boa maneira independente. E depois, quando descobri o propósito do plano que nele tão bem engendram.

O Dia da Criança, é sempre para mim um dos dias mais felizes do mandato. Ver tantas e tão felizes, a cirandar de actividade em actividade, registando tudo naquelas sábias cabecitas e os sorrisos, aqueles sorrisos de orelha a orelha que nos aquecem e consolam e animam e preenchem. Eu acho que o Dia da Criança só o é se começar com muitos balões, de todas as cores, a voarem loucos pelo céu fora até serem apenas um pontinho colorido lá ao longe que de repente desaparece como por magia. Os meus colaboradores mais directos diziam-me que os balões eram dispensáveis, que o hélio era caro, que é difícil conseguir guardá-los para a hora certa, que no ano passado se esvaziaram, que temos que nos levantar muito cedo para os encher, que blá, blá, blá, blá, blá… E eu, que tenho a sorte de poder dizer como acho que deve ser, disse que sim. Sem os balões, não é a mesma coisa. E eles, coitados, que sim, vá lá o frete, ou semi-frete e os balões voaram e com eles, voei eu também agarrado a um cordelinho colorido. O dia da Criança só vale a pena se em vez de crescermos, voltarmos nem que seja por um dia a esse tempo. Foi lindo ver os balões a voar!

Os Shins, se cá estivessem… também haviam de ter gostado.



terça-feira, 12 de junho de 2007

Cinema Paraíso


Para mim só há uma grandeza maior que a própria vida e essa grandeza de que vos falo é o Cinema. Acho que a paixão pelos filmes já nasceu comigo. Com 9 anos ameacei imolar-me se não me metessem no raio do carro e não me levassem a Valência de Alcântara para a estreia castelhana do “E.T., o Extraterrestre”. Nessa altura era mais coisa de miúdos, tipo “Goonies”, “Karate Kid” e “Salteadores da Arca Perdida”. Digo que o Bud Spencer era então o meu actor favorito e acho que isto significa o fim de papo.

Aquele fascínio do escurinho da sala e a dança rasante do raio de luz mágico sobre as nossas cabeças sempre me fascinaram.

Mas a verdadeira revelação da minha devoção cinéfila haveria de me bater em cheio, com a força de um autocarro desgovernado, no agora remodelado Cine Crisfal, no ido ano de 87, durante uma mostra qualquer de fitas de todo o mundo. Numa tarde em que faltei às aulas, sozinho na plateia, recostado numa cadeira de madeira, deixei-me deslumbrar por uma fita de nome estranho, de um realizador desconhecido, daquelas pelas quais ninguém dava então um tostão furado. “Der himmel uber Berlin” no original, “Nas Asas do Desejo” na feliz tradução lusa, de Wim Wenders, encantou-me de tal forma com a beleza poética das imagens e soturna melancolia daquela paixão impossível que acho que a minha vida nunca mais foi a mesma. A história do anjo caído em desgraça que renunciou à confortável certeza da eternidade pela dúvida de um amor impossível, devastou-me por dentro. Perdido no inebriante vái-vem do trapézio dourado da musa mais improvável, hipnotizado pela silenciosa marcha negra dos anjos protectores, deslumbrado com a exuberância daquela Berlim cinzenta e oprimida, dormi com eles nas ruas, vivi a angústia das suas dúvidas e passei a dar valor ao muito que então passava despercebido. Passei a acreditar que o cinema pode mesmo ser a melhor escola de vida.

Com o passar dos anos fui ganhando o estatuto de inveterado que apenas ficou na prateleira com o nascimento da herdeira. Com os filhos, a gestão do tempo passa a ser fundamental e os filmes ficaram irremediavelmente para trás.

Para quem acha que era capaz de ver pelo menos três fitas seguidas todos os dias, passar a apanhar um ou outro de vez em quando já não é mau e vai dando para matar o bicho.

É tudo uma questão de selecção e de saber bater no sítio certo.

A última injecção tomei-a na semana passada, chama-se “Little Miss Sunshine” e entrou directamente para a galeria “não mexe!” o que corresponde ao intocável estatuto de culto, onde repousa já serenamente ao lado de “Sideways” e “As Confissões de Schmidt”.

Little Miss Sunshine é o nome de um concurso de talentos para pré-adolescentes que leva uma família disfuncional a atravessar os Estados Unidos em busca do sonho da benjamim da casa. Um avô cocaínomano, um tio gay e suicida, um pai obcecado por uma técnica de gestão do sucesso que é um frustrado nato, um filho fã de Nietzsche que fez um voto de silêncio até entrar para a força aérea, uma filha que sonha ser dançarina e uma mãe que se desunha para que tudo não se desmorone protagonizam o road movie mais inteligente e enternecedor das últimos anos. Grandes actores e actrizes, diálogos geniais, um enredo de excepção, uma câmara muito atenta e uma carrinha que só pega de engate são ingredientes mais que suficientes para nos fazerem sair literalmente deste mundo por hora e meia.

Se ainda não tiveram oportunidade de ver, podem dar uma espreitadela ao trailer aqui e depois por favor, por favor, mas mesmo por muito favor, não o percam e depois digam que sim. SIM!