quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Viagem a Lisboa I - “Regresso na hora da partida”


Há uns tempos, por inerência das funções autárquicas, desloquei-me a Lisboa para uma reunião de trabalho no Centro Cultural de Belém com o Secretário de Estado da Justiça. O assunto relacionava-se com o objectivo governamental de agilizar, descentralizar e moralizar o já tão moribundo sistema judicial português. Para evitar mais entupimentos de décadas de pilhas de processos sem fim, pretendem agora dotar o país de um sistema de Julgados de Paz que se pretendem mais céleres e mais pragmáticos, no fundo, aquilo que os tribunais convencionais deveriam ser. Autarcas de todo o país, dos mais preocupados aos mais engalanados, dos mais curiosos e bem falantes aos mais taciturnos e aborrecidos, todos quiseram opinar e impressionar, dar nas vistas e ficar bem na foto. É claro que na sala havia de tudo, dos mais poderosos tubarões aos mais jovens nos campeonatos, nos quais obviamente me incluo, que apesar de menos participantes, não estavam por isso menos interessados em apanhar a sua vez, a vez de defender a sua dama.

Apesar do inegável interesse e actualidade das matérias, para mim, o grande assunto do dia não podia ser outro que o regresso a Lisboa. Mal a borracha dos pneus entra no tabuleiro da ponte, numa ruidosa trepidação que me faz sempre pensar que levanto voo a qualquer instante, sinto na pele o eterno retorno. Com a brisa húmida do rio a invadir-me as narinas e a toldar-me o pensamento, avisto a cidade prostrada na margem, imponente mas adormecida, banhada por essa luz tão imensa e tão sua, apenas desafiada pelo constante vai-vem dos incansáveis cacilheiros. A minha Lisboa é esta, a Lisboa de Santos, a de Alcântara, a do Calvário, da Junqueira e de Belém. Por aquelas ruas e vielas passeei quatro anos da minha vida, de muito trabalho e solidão, aos quais regresso sempre em pensamentos num misto de saudade e dor.

A minha história com Lisboa é a história de um amor mal resolvido. É um daqueles namoricos tão desejados, em que se quer tanto que tudo corra bem… que acaba tudo por terminar invariavelmente mal. O desejo era muito, o namoro foi de pico mas a coabitação pós-matrimonial foi de um desencanto profundo. Passei a adolescência a sonhar que só ali podia ser feliz. Entrei na idade maior a pensar que tinha de me raspar de lá o mais depressa possível.

Mas como em todos os namoros sentidos, há sempre algo que fica. Quando a vemos de novo, uma parte de nos estremece, sabe-se lá do quê e porquê.

Passados os anos de ruptura, saradas as feridas maiores de tanto serem lambidas pela memória, fazemos as pazes na certeza que dificilmente voltaremos a ser um do outro.

Agora já gosto de regressar… seja para um jogo do Glorioso na catedral, acompanhado de amigos; seja com a filhota e a família para o tal espectáculo infantil que nunca poderemos ver na província; seja para um concerto com o mano, seja para as compras de Natal, ou mesmo em trabalho ou para um exame das Finanças. Sebe bem cair nos seus braços.

O tempo passou e eu sei que Lisboa é única. Há uma parte da sua magia que hei-de trazer sempre comigo…

Viagem a Lisboa II - “Sinais dos tempos”


Na pausa para almoço, dou um giro em volta e afasto-me das luzes das câmaras. “De tarde é mais para a imprensa. Vem o Ministro e a televisão. Não haverá nada de novo, para além do que aqui foi debatido de manhã”. Interpreto as palavras do assessor como um convite ao desafio. Estar em Belém, no CBB e não espreitar a colecção do Berardo, parecia-me sacrilégio. O estômago reclama. O relógio confirma que é mais do que tempo para meter algo dentro. Dou uma volta pela área e caio num óbvio Macdonald’s, sim, porque eu sou dos que desfruta muito do menu. Situado num rés-do-chão bem antigo que conserva a traça da época, decorado a rigor, pareceu-me um espaço agradável. Sento-me ao lado de três espanholas, mãe e filhas que ficam surpresas pelo meu pedido em castelhano de licença para me sentar nos únicos lugares disponíveis ao seu lado. Nem eu sei bem porquê é que não falei em português. Acho que foi um reflexo condicionado.

Enquanto decoro as batatas com ketchup, dou por mim a pensar que eu sou do tempo em que abriu o 1º Macdonald’s de Portugal, ali ao Saldanha. Ainda me lembro de ver a fila para entrar, que dava voltas ao quarteirão. A voragem dos tempos é tanta que parece que estou a falar de algo que aconteceu há séculos. Na verdade foi só um.

Uma mensagem do telemóvel recorda-me que nessa altura, em 94/95, também estes aparelhos pertenciam ao exclusivo domínio da futurologia. A malta ia às cabines telefónicas e não dava jeito nenhum namorar com um marmelo atrás a rir-se dos beijinhos que seguiam pela linha fora em sussurro. Mas era o que havia…

Como não havia Internet. Se queríamos saber mais, íamos às bibliotecas, consultar os calhamaços cheios de pó, cujos ácaros faziam um festim quando descobriam a minha bronquite alérgica. Uma vez em plena Biblioteca Nacional, escarafunchando arquivos para encontrar as entradas certas para um trabalho sobre as Cruzadas, deu-me tamanha crise que tive de ser rebocado pelos colegas para um espaço com mais ar. Naquela altura saber muito não dependia apenas da sede de conhecimento. Dependia também de uma extraordinária compleição física! E era um autêntico desporto radical.

Nem Messenger, nem vídeo-conferência, nada! Nessa altura os discos não se sacavam da net, só se compravam nas lojas. Os jornais só se vendiam em papel e quem quisesse ir a correr e a ouvir música, tinha que levar um gajo atrás com um carrinho de mão para transportar o rádio. Mp3? Era ficção científica.

Nessa altura não havia correio electrónico. As cartas eram escritas em papel e levadas pelos carteiros ao seu destino, como aquelas que o meu pai me escrevia para contar três ou quatro mexericos cá da terra e para terminar dizendo que a conversa toda era só para distrair, porque o que me queria mesmo dizer era que tinha muitas saudades minhas. Essas eram aquelas cartas que mal as via chegar, esgueirava-me para a casa-de-banho, onde sabia que podia chorar sozinho sem ninguém me importunar. Ainda as tenho guardadas no sótão, mas ainda não sou capaz de lhes mexer.

Eu a falar de Internet! Nesse tempo nem sequer havia computadores. Era tudo feito à unha! À unha e com um lápis ou esferográfica. Na minha faculdade havia para aí 2 computadores que mais pareciam arcas frigoríficas e três máquinas de escrever.

Quando se queriam tirar fotografias, tinha de se meter um rolo e levar à casa para revelar. Isto é muito divertido de se recordar.

Olhando para a televisão, também me ocorre que foi então que Portugal passou a ter mais dois canais de televisão, a SIC e a da Igreja. Até aí era tudo muita cinzento, muito triste e apático. TV Cabo? Sonhei muitas vezes com ela antes de existir.

Saio para a rua e passa um carro com o GPS a dizer ao condutor qual o melhor caminho para chegar onde ele quer. Rio-me por dentro. Lisboa é a mesma, mas o mundo não tem nada a ver com o meu de então.

Viagem a Lisboa III - “Os Jerónimos e o Luís Vaz”


Entro no café da frente e recordo um jogo que fazia habitualmente comigo mesmo nesses tempos de estudante, para fugir da solidão. O tempo que passei em Lisboa foi de clausura auto-imposta quase total. Muito trabalho, muito marranço e solidão, num longo e lento crescimento interno sacado a ferros. Esse jogo consistia em olhar para as pessoas e imaginar quem eram, de onde vinham, o que faziam e no que estavam a pensar. Jogava-o nos cafés, no metro, no autocarro, no comboio e onde calhava. Jogava-o quando estava aborrecido. Acho que o jogava em toda a parte. Já estava destreinado mas voltei a jogá-lo com a rapariga que me serviu o café. Não devia ter mais de 20 anos. Pensei, “deixou a escola cedo demais”. Estava a fazer um frete do caraças e tinha na cara escrito em letras grandes que estava mais do que deserta de se pirar dali. Servia as bebidas com o ar de quem ia ser chicoteado antes de passar a noite na solitária. “Aposto que mora nos subúrbios, que o pai a trata mal e está ali a trabalhar por cunha. É sobrinha do dono, e há uma coisa para resolver entre os irmãos que foi paga com este emprego”. Tem um brinco no lábio e umas olheiras fundas. “Deitou-se tarde. Está grávida do namorado e…” Já não joguei mais porque um velho ao meu lado pediu mais uma ginja e eu pensei que tenho mais que fazer. Sendo assim, fiz-me à rua.

Os Jerónimos, o Mosteiro dos Jerónimos é um daqueles monumentos a que nos habituamos desde crianças e aos quais jamais seremos capazes de reconhecer o devido mérito. Parei-me a contemplá-lo e reconheci que é de facto algo de muito magnífico. Aquela bizarma respira Portugal por todos os poros. Um verdadeiro gigante que olha dali o Rio e avista o Oceano, para perpetuar a memória e a valentia dos portugueses. Construído no séc. XVI, por encomenda de D. Manuel I (Obrigado, Dr.ª Catarina Machado!), depois da chegada de Vasco da Gama da Índia, presta tributo aos descobrimentos, à era dourada do espírito português, quando mostrámos ao mundo aquilo que éramos capazes. Quais Ronaldos, quais Mourinhos, aqueles sim que eram rijos, para mandarem tudo às urtigas e “enfeixarem-se” de cabeça para o desconhecido. A porta lateral é notável e merece bem que se gaste a vista a admirá-la. Entro no interior da Igreja e pasmo-me com a sua altura e magnificência. As igrejas são sempre sítios especiais, pelo menos para mim. Esta é da primeira liga.

Olho para o lado e vislumbro o túmulo do Luís Vaz de Camões, o campeão aquele. Lá estava o túmulo, com o corpinho tal e qual só que em pedra. Descubro então que o gajo era mesmo muito parecido com o António Variações, ou o contrário porque este sempre nasceu primeiro, tem razão. É, a barbinha e o cabelo eram tal e qual. Até me imaginei a vê-lo a saltar lá de dentro e a cantarolar “a cabeça não tem juízo” mas desisti porque me pareceu de mau tom. Há, no entanto, coisas indecifráveis, verdadeiros mistérios da humanidade. Por exemplo, porque motivo meteram quatro leões agachados a suportarem a urna do homem. Sim, porquê? Não faz sentido e é feio. Quatro águias reais a içarem-no com correntes de ouro não era mais dignificante? Eu também acho que sim. Outra, porque motivo lhe colocaram uma almofada por debaixo da cabecita. Era a pedra que estava fria, era? Mas se estava morto, tanto lhe dava, não? Uma última observação: a julgar pelo tamanho dos sapatos, o bicho devia de dormir de pé! Calçava para aí o 44! Granda pata! Livra!

Descubro algures que o Fernando Pessoa também por ali está sepultado. Bem me tinha cheirado a bagaço e a absinto! É por estas e por outras que o nosso sistema de ensino falha. Se quando os jovens começam a estudar a prodigiosa poesia do génio, em autêntica catadupa, lhes fosse dito que o gajo era um dos bêbados mais empedernidos que já puseram as patas em solo luso, a malta começava logo a achar que o bacano era um 5 estrelas e a coisa marchava muito melhor. Não pensam, os governantes…

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Viagem a Lisboa IV - "De visita ao Comendador"


Avanço ávido de luxúria e saber para o Museu do nosso amigo. Começa bem: ou sou eu que sou muito patego, ou para quem gastou tanto dinheiro, bem podiam meter mais umas plaquinhas de sinalização a dizerem por onde é que se entra para aquela porra. Mas bem, lá estava eu, confirmando algumas das minhas expectativas. À entrada, uma escultura de garrafas que supostamente representa uma mulher. Bonito! Menos bonita é a enorme arca frigorífica no corredor de acesso que mais parece uma daquelas que o Filipe tem agora no restaurante novo do Sever. A placa diz que é uma obra de arte e quem sou eu para duvidar. Certo! As meninas sorriem quando pergunto “quanto custa?”. Por entre os dentinhos brancos e os lábios cheios de batôn deixam escapar um sussurro: “é grátis!”. Grátis? Ai sim? Boa!

Os ajudantes que por ali andam são simpáticos. Pelo menos esforçam-se. Vê-se que estão contentes. Pudera! Aquilo é solo sagrado. Quem pisa aquele chão, fica logo mais inteligente. A sério. Todo o mundo que ali mete o cú, fica logo com uns assomos de grandeza. Não sei, deve ser do ar ou do perfume do Comendador.

Cá o Tio Sabi, diz que para ele é assim: Não sei o que é que aquilo era antes. Não sei se era uma estrebaria, ou uma arrecadação, mas o espaço é magnífico e está estrategicamente colocado. Não percebo muito bem a orientação da disposição da colecção. Não há uma base cronológica, nem sequer lógica. As peças estão bem arrumadas segundo a sua natureza, mas andamos para trás e para a frente, subimos e descemos e saltamos no tempo mas se calhar aquilo é mesmo para impressionar. Há o espaço dos surrealistas, do vídeo, da cor, das esculturas, da Pop Art, está giro!

Eu, como sou Vereador da Cultura, também fiz cara de mau e um ar curioso para a malta não me apanhar nenhuma gaffe. E logo me esqueci dos óculos de massa, droga!

Mas avancemos, para mim há ali muita, muita, muita coisa de qualidade de que eu gosto muito. Muito mesmo. Mas também ali há muita coisinha que não lembra ao menino Jesus. Há que ter coragem para dizer que há por ali muita merda, mesmo! E tem que se ter cuidado, porque algumas demonstrações artísticas são de tal forma inovadoras que eu vi gajos mais incautos a olharem para os interruptores e para os sensores de incêndio e a dizerem que sim com a cabeça. “Génio!” sussurravam. Ai ó avó!

Gostei muito do Dali, do Picasso, do Miró, do Magritte, da Paula Rego que eu adoro tanto, do Warhol e do Vieira da Silva exposto numa das salas de baixo. Flipei com o Fischl, o Schnabel, a escultura do George Regal, o Lichtenstein (é sempre uma emoção vê-lo à nossa frente nas dimensões originais), a escultura do John De Andrea, o Mclean e o Monory. As imagens destes todos, apesar de serem de telemóvel, deixo-as em baixo para que também as possam contemplar.

Não gostei do resto quase todo. Há ali cenas que só dão mesmo para rir. Numa das salas de vídeo, vi dois homens e duas crianças a verem numa sala escura uma cena muito louca, um trabalho de vídeo, sobre uma viagem de negócios de uma gaja chamada Marina Abramovic. Era a preto e branco e a imagem, muito tosca e suja. E aquilo era uma viagem de carro, como se nós também lá fossemos. A malta seguia aquilo com a maior das atenções. Uma seca! Se desse no Canal 2 lá de casa, depressa faziam zapping, mas ali, ó amigos, qualquer um pode ser um expert em arte moderna! Vi lá uma caixa de ferramentas pintadas de cinzento e uns desenhos tão mal feitos que nem a Leonor com dores de dentes.

Gostei de ver as pessoas a olharem para as cadeiras disponíveis para quem se queria sentar a admirar as obras, como se fossem também elas uma manifestação artística.

O Berardo é como o Rei Midas, só que o outro transformava em ouro tudo o que tocava, e este transforma em arte.

Ele que se livre de tocar no nosso Rui Costa, coitadinho, transformado em estátua de resíduos sólidos. Ó Berardo, não mo estragues, que vai ser por ali que nós vamos ser campeões.

Ai! Desculpem! Já me estiquei! Futebol e arte não jogam juntos! Acho que me excedi!

Se puderem, não se esqueçam de passar por lá na próxima visita à Capital. Aquilo é purificador… sai-se de lá a falar francês!

Au revoirzinho!

Do que gostei muito:

Paula Rego - The Barn



Eric Fischl - Mother and Daughter (94)

Julian Schnabel - Portrait of Jacqueline (84) - Feito com restos de pratos partidos



George Regal - Flesh nude behind brown door (78)



Andy Warhol - Judy Garland (79)



Roy Lichtenstein - Interior with restful paintings (91)



John De Andrea - Arden Anderson and Norma Murphy (72)



Jack Monory - Velvet Jungle nº 10 - 1 (70)

Do que não gostei mesmo nada:


Sim, sim, conta-me histórias. Caixas destas tem lá o Arlindo muitas na oficina!


Já percebi porque é que não se paga bilhete!

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Alta Fidelidade



Eu acho que sou melómano. O dicionário remete para “melomaníaco”, o que assim a cru parece bem mais assustador. A definição esclarece: “aquele que tem paixão pela música”. Ah, claro está! Confirmo e confesso: “sou um melómano empedernido!”.

Nunca fui ao Conservatório. Não sei distinguir se uma pauta está de patas para o ar ou se está correcta. Confundo a clave de sol com o símbolo do Ltda. (&). Não sei um único acorde. Mas o meu pai foi baterista dos “Cometas Negros” e acho que a música foi herdada por via genética, ou pelo menos a paixão por ela, ao ponto de não podermos viver um sem o outro.

Já houve alturas na minha vida (muitas) em que a música foi a única coisa que me restou.

Parece cliché mas no meu caso é mesmo verdade: eu não consigo viver e ser feliz sem a música. E acho que isso nota-se. Não há dia que eu não vasculhe à procura do novo grande som, nos jornais que compro, no cabo, na rádio, na net. Tento todos os dias ouvir discos novos e envolvo-me com aquilo de tal maneira que faz parte de mim.

A minha vida tem uma banda sonora. A espinha dorsal tem o “Wickie” na infância. Os Beatles mais tarde, cujas cassetes consumia freneticamente no banco de trás do Renault 5 branco. Os Xutos no Ciclo. Os Smiths e os Janes’ Addiction no Liceu. Os Blur e os Oasis na faculdade. Os Verve quando comecei a trabalhar e me casei. Os Strokes quando trabalhei em Nisa. O Jeff Buckley quando trabalhei em Marvão. Os Radiohead, os Artics e os Arcade Fire nos tempos mais próximos.

A música bateu-me como uma enorme bigorna quando numa tarde no Liceu, levei para casa debaixo do braço, o “Tender Pray” do Nick Cave e o “London Calling” dos Clash.

Não há vez que ouça o “Viva Hate” do Morrisey, que não me lembre da minha viagem de finalistas do 9º ano.

O meu primeiro disco vinil para a minha primeira verdadeira aparelhagem, comprada com as poupanças da mesada foi o “Peepshow” da Siouxie & The Banshees.

Não há vez que ouça os Cure, ou os Bauhaus, ou os Talking Heads que não me lembre do meu primo Quim Carita e das longas tardes e noites que passamos hipnotizados, a ouvir as músicas da nossa vida. Não há vez que ouça os Doors que não me lembre do Zé Pop. Não há vez que ouça os Nirvana, que não me lembre das matinées da Cave.

A música é a minha bússola. A companheira que nunca me falta e que nunca me falha.

Quantas vezes fui roubar, à palavras e à melodias de outros, os ensinamentos necessários para seguir em frente. A música pode ser um estado de alma. A música pode ser uma filosofia de vida.

Há dias, quando fazia a corridinha matinal, ouvia no ipod o projecto Bright Eyes e dizia o gajo: “Então eu vou encarar os meus medos / ou vou agachar-me como um cão / Vou pontapear e gritar ou vou ajoelhar-me e suplicar / Ou vou lutar contra tudo para esconder que desisti”. Pode parecer estranho, mas neste preciso momento, o Conor Oberst parece que está a falar para mim. Há que dar a volta!

Voltando à música, a perfeita ainda está para vir, como a onda que o Patrick Swayze procurava no genial filme “Point Break”, “Ruptura Explosiva” no nosso portuga.

Eu sei que esta conversa toda da música não diz nada a muita gente que faz o favor de visitar este meu estaminé e acha que esta história são tretas. A este ponto, as minhas queridas tias, que chateiam meia-Beirã para que lhe arranjem as folhas com os textos que aqui publico, devem de estar a comentar uma com a outra: “temos que lhe dizer que o desta semana foi muito intelectual. Não percebemos nada!”. Eh, eh, descansem meninas, esta converseta é mais para a rapaziada nova que por aqui anda.

Para eles e como o blogue é meu e parece-me que é o único sítio do mundo onde eu digo o que me dá na gana sem ter de passar cartão ou pedir opinião a ninguém, vou-lhes fazer uma sugestões.

O grande Nuno Markl, cujo blogue visito diariamente, tem-me ensinado muita coisa, aberto muitas portas e revelado grandes bandas. Foi através dele que conheci a música da Regina Spektor e só isso já chegava para tudo ter valido a pena. Seguindo as suas pisadas, deixo aqui 3 pistas, 3 novas bandas, 3 grandes canções, 3 vídeos que são, para mim la créme de la créme do que tenho “ouvisto”, como dizem algumas velhinhas destas bandas (é uma mistura de ouvir e ver). Boa!

Sendo assim, deixem-me lá brincar e armar-me um bocadinho em Marcelo Rebelo de Sousa da música, vestindo por breves minutos, a pele de uma das minhas profissões de sonho – crítico musical! Pagos para fazerem o que eu faço nos tempos livres. C*****s!

1. Hard Fi – Suburban Knights
5 estrelas! Grande, grande, mas enooorme música, direitinha para a história. São os Clash escarradinhos! A mesma pose, a mesma atitude brigona, a mesma subversão a respirar por todos os poros, as guitarras aos pulinhos e em bicos dos pés, a declaração de guerra definitiva ao mundo inteiro. Nem vou ouvir o resto do disco para não me desiludir. Estes cavaleiros suburbanos, estes jovens belicistas, estes gritos de revolta são a razão porque o Rock jamais morrerá! Aposto que o Joe Strummer, esteja lá onde ele estiver (também foste novo demais!) possa ouvir isto. O seu legado jamais morrerá!



2. The Enemy – Away from here
Por falar em Sósias, o campeão este é a carinha do Paul Weller dos Jam, para aí com 20 anitos. Eu não sei o que dão a estes miúdos em Inglaterra para conseguirem fazer letras e melodias desta qualidade quando ainda nem barba têm na cara. No entanto, se o Rimbaud produziu a sua melhor poesia com 15 anos, acho que estamos falados. A mesma revolta, a mesma crítica à sociedade e aos valores de plástico, a mesma ânsia de viver. E eu tenho pena de não ter 15 anos também, senão mesmo agora ia ali acordar o meu vizinho Mário para fazermos uma banda de garagem. Tínhamos um problema: como lhe falta um dedo, só pode ir à bateria. Nas teclas, desafinava de certeza. Ele não se importa. É amigo!



3. Jack Peñate - Torn On The Platform
Este não engana ninguém: é mesmo fã do Jeff Buckley, com aqueles trejeitos na voz… As guitarras são maravilhosas, a lembrar o Johnny Marr e os Housemartins, a swinging London dos anos 80 e princípios dos 90. Muito bom e o vídeo, é uma delícia! Até a minha filha adora.



Meus amigos, é tudo por hoje nesta lição da Telescola sobre a música pop, retomaremos a emissão dentro de momentos.

Se tiverem mais um pedacinho livre, dêem uma espreitadinha a estes outros vídeos, bem mais antigos, mas todos eles com temas que fazem parte da Banda Sonora da minha vida, a editar brevemente pela Vidisco!

Vão em paz, e que o SOM vos acompanhe!


É só clicar,

Fastball – The Way

Jimmy Eat World – The Middle

Lit – Miserable (hum, a Pamela! Grrrrau!)

Weezer – Buddy Holly

Gnarls Barkley – Crazy (sim, esta todos conhecem, mas não é por isso que deixa de ser uma dádiva dos céus! E o vídeo, Meu Deus, o Vídeo!)

Nota do Bloguista de Serviço: o “Vendo o mundo de binóculos do alto de Marvão” gostaria de agradecer a gentileza do site You Tube pela disponibilização de imagens à revelia. E pensar eu que perdi anos da minha vida feito estúpido à espera do Top + ou lá como é que se chamava aquela cena, para ver quem estava em 1º lugar, na ânsia de ver algo novo e descobria que era o Stevie Wonder, pela milionésima semana, com o inenarrável “I just call”. Pois eu, só telefonei para dizer que a Internet é a maior invenção do homem, porque é a soma de todos os outros progressos e já não digo mais nada hoje. Boa noite. Bons sonhos e até amanhã.

domingo, 26 de agosto de 2007

Um domingo qualquer


Se tivesse um diário, escrevia lá para a posteridade e para nunca mais me esquecer que o mês de Agosto é horrível. Podemos falar neste Agosto, em particular, mas eu lembro-me bem do outro e do outro e do outro e é sempre assim. Os que não acreditam em bruxas, nem em videntes, nem em búzios, nem em canículas, nem em canículares, têm de se render à evidência: o mês de Agosto é outra coisa qualquer mas não é Verão porque o tempo é miserável. Dormi de janela aberta e acordei gelado, a meio da noite, com uma trovoada que mais parecia anunciar o fim dos tempos. Levei o que restava do descanso a sonhar que os sete cavaleiros do apocalipse me entravam montados nas suas bestas pela casa adentro para me dizer que por edital do criador, o mundo acabava nesse momento.

Acordei obviamente mal-humorado, apesar de ter descoberto que afinal tudo continuava dentro da normalidade, ou então a minha rua depois do mundo acabar era muito parecida a quando este ainda existia.

De manhã, na televisão assisto a uma prova de marcha olímpica e dei por mim a perguntar-me se este seria o desporto favorito dos gays. Se os participantes seriam todos gays. Se o homem que elevou a modalidade a olímpica seria também ele gay.

A verdade é que tudo aquilo é muito estranho. Um atleta da marcha olímpica não está parado mas também não chega a correr. Aliás, é penalizado por isso. Não é carne nem é peixe. Anda ali feita lombriga a espernear pelo calçadão fora.

Eu sei que temos a nossa Susaninha Feitor que é grande artista da modalidade mas também ela pode dar para o outro lado. Tenta correr rapariga!

Não sei. O que eu sei é que tudo aquilo… e peço desculpa… me parece mesmo muito estranho.

Só sei que se eu fosse atleta da marcha olímpica e perguntassem à minha filha na escola qual era a profissão do pai, compreendia se ela mentisse e respondesse: “cobrador da Carris”.

El calor del amor en un bar



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Há dias, num almoço de família num restaurante da nossa praça, olho em redor e constato que muito provavelmente devemos ser os únicos portugueses à mesa. Os espanhóis como sempre, enfeitiçados pela qualidade da nossa cozinha e sobretudo pela força do seu euro que vale bem mais que o nosso, comiam demais, bebiam demais e sobretudo, falavam alto demais. A Portagem é um enclave espanhol em solo luso. Dizia-me o meu querido amigo João José que “os gajos estão com uma força de alta escala”. Na sua imensa sabedoria de anos ganha trabalhando na actividade turística, sendo um dos grandes “embaixadores” locais nas terras vizinhas, afiançava-me que “o turista espanhol investe com prazer”. Para eles, o dinheiro mais bem aplicado é o que é traduzido em bens que lhes entram pela goela abaixo.

O portuguezinho, apertadito, leva vida de sacrifício para pagar a vivenda e o carro que se quer actualizado. Os gajos, os espanhóis, querem é boa comida e boa bebida e mucha marcha que a vida são 2 dias e o que se goza é o que se leva. A la madre que parío las casas e las viaturas! Buen bacalao, buen viño e a gozar!

São capazes de estar certos.

Quando vim para as finanças para Marvão, herdei o serviço do Imposto Sucessório, posteriormente transformado em Imposto de Selo e que era um tema particularmente difícil para quem vive desde sempre nesta comunidade e quem conhece praticamente toda a gente. Traduzido, sempre que alguém falecia, era eu quem atendia os herdeiros e os ajudava na condução de todo o processo de tributação dos bens transmitidos. Particularmente difícil quando os que partiam nos eram chegados e éramos confrontados com a emoção dos familiares no decorrer do processo.

Aconteceu algumas vezes ficar a pensar sozinho que há coisas que não valem mesmo a pena. Às vezes quando os “velhotes” partiam, luzia no olhar dos filhos chegados de todas as partes para o funeral e para tratar da papelada, a ganância de ficar com o melhor quinhão. Pressentia-se o conflito e tantas vezes, o fraco elo de familiaridade que restava partia-se então para sempre.

Nisso os espanhóis estão certos. Para a frente é que é o caminho e quem fica atrás que feche a porta. Sólo se vive una vez!

Voltando ao programa familiar, para desmoer o repasto, nada melhor que um passeio por Valência que celebra agora as suas festas populares. Num café de esquina, tomando una copa de média tarde, olho embasbacado e sorridente o ar febril que se vive na sala. Os clientes são maioritariamente trintões e quarentões acompanhados das suas respectivas. São mais de vinte. Estão obviamente e etílicamente bem dispostos, bem “do meio para a frente”, como eu costumo dizer. Aqui, também nos ganham aos pontos. Bastava o som que debitava das colunas e um cd manhoso de um flamenco qualquer e parecia, ou pelo menos para eles era, a melhor festa do mundo. Tinham na cara um ar de felicidade e companheirismo que fazia daquele local algo mesmo muito especial. Os homens abraçavam-se e cantavam. Elas, de pé, batendo palmas e os pés, desafiavam os machos num baile de antologia. Um mais afoito, mais tareco, furava por entre a multidão, com passes de maestria bem regada. Era um consolo, um prazer tão bom poder assitir a tudo aquilo sem ter de pagar.

E imaginava o cenário em Portugal, na minha Santo António das Areias, em alturas do São Marcos, e vejo como somos tão diferentes. Para já, por aqui, as mulheres e os homens não vão juntos aos bares. Quando muito vão beber café, mas para os copos não. A aficcion etílica nesta zona é reservada aos homens. Contam-se pelos dedos as mulheres que vão ao café dar dois dedos de conversa e beber umas imperiais ou umas cubatas. Longe disso. Só por aí já é impossível recriar o cenário que vi em Espanha. E depois, por aqui, está todo o mundo muito mais preocupado em reparar nos outros do que em divertir-se. Aquela malta estava toda na mesma onda e tanto se lhes dava como se lhes deu que estivesse alguém estranho a ver. Eram livres, estavam à vontade e desfrutaram do momento. E de certeza que não foi por isso que são menos homens ou mulheres, menos respeitados nos seus empregos e nas suas vidas.

O nosso mal é que nos preocupamos demais com a fachada e com aquilo que os outros pensam e vivemos tantas vezes no jogo da aparência, do “diz que disse” e não nos esforçamos para sermos felizes.

Alguma vez seria possível, numa tenda qualquer do São Marcos, ver os casais da minha terra assim, a comer e a beber e a brincar juntos?

Está bem abelha!

Também aqui voto neles.

Nos casamentos por cá, é frequente, depois do almoço tardio, os homens encaminharem-se para o bar para mais um digestivo. As mulheres, na retaguarda, põe a conversa em dia e depois criticam “as tristes figuras” dos que se adiantam no programa.

No único casamento a que fui onde havia espanhóis e portugueses, da minha querida amiga Ana Rita, em Elvas, ainda os maridos não tinham acabado a sobremesa, enquanto guardavam os filhos e já elas dançavam junto ao organista, de cubata na mão.

Será que as mulheres espanholas são menos sérias?

Isso eu não sei, o que eu sei é que mais uma vez, tive o pensamento recorrente de que se o nosso Afonso Henriques tivesse tido mais calma com a mãe, a conversa hoje podia ser outra…

A nossa cientista


Já tinha lido sobre ela há algum tempo atrás. Agora voltei a reencontrá-la num jornal da nossa praça. A Isabel é do meu tempo do Liceu. Estudámos juntos em Portalegre. Não na mesma turma, mas na mesma escola, só que ela era de ciências e eu, de letras. De qualquer das formas, conhecemo-nos, tínhamos amigos comuns e recordo-me que se ria muito das coisas que eu dizia. Recordo-me que fechava os olhos quando se ria e eu tenho uma teoria que as pessoas que fecham os olhos quando se riem são honestas porque mostram tudo o que têm, desfrutam do acto de rir como se o quisessem só para elas. Tinha um sorriso bonito e estava sempre bem disposta. Não éramos assim amigos íntimos, mas recordo-me de falarmos e convivermos. Era do meu tempo pois.

Depois, como a muitos outros, perdi-lhe o rasto. Nunca mais a vi, mas li algures que estava a fazer uma carreira brilhante que agora confirmei. Realmente, um artigo na revista Science, não é para qualquer um e para mais, parece que as suas pesquisas têm sido muito profícuas e importantes para a humanidade.

O seu sucesso enche-me de orgulho por ela. Por ser portuguesa, por ser alentejana, por ser do meu distrito, por ter sido minha contemporânea. Fico feliz pelo seu percurso e desejo que vá o mais longe que puder.

Se eu fosse o Correia da Luz, já tinha dado o seu nome a uma rua, ou a um jardim, que é mais apropriado.

A Isabel é grande. E vai um gajo às vezes pensar que vale alguma coisa…

Boa sorte!

Mundo cão


A Leonor sempre foi uma criança atenta e curiosa. Sempre gostou de saber o que se passava à sua volta. Sempre fez perguntas. Mas agora, à medida que se aproxima a entrada para a escola, o frenesim e as perguntas têm aumentado. Há dias, quando regressávamos a casa de carro, perguntou-me porque é que a lua às vezes era preta e crescia. Tentei dar o meu melhor e fizemos uma viagenzita pelo sistema solar, que agora tem menos um planeta que no meu tempo e não mais alguns como seria de esperar. No verso da folha, fez um desenho da lua com um extraterrestre e um foguetão à mistura. Bem composto.

Reparei também que presta cada vez mais atenção aos noticiários. Num jantar recente, pedi-lhe que me deixasse dar uma vista de olhos às notícias, no intervalo dos desenhos animados, para saber o que se passava no mundo.

Nos 3 ou 4 minutos seguintes, as notícias foram sobre um puto que morreu em Inglaterra enquanto jogava à bola na rua, vítima de um disparo de uma arma de fogo accionada por um adolescente; sobre uma família dos Estados Unidos que quase perdeu os 3 filhos no Iraque e sobre uma mãe francesa que matou os filhos e os guardava numa arca frigorífica na cave, para que o namorado não descobrisse.

Olhei para ela, ao meu lado e dei graças a Deus por estar distraída, a brincar com o comer.

Apressei-me a mudar para a 2: e para a “Ilha das Cores”. Pelo menos assim, o jantar assenta melhor.

Realmente, o mundo que vai herdar, não é grande coisa…

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Às minhas Rainhas!


Quem me conhece melhor já me ouviu dizer muita, muita vez que é na infância que reside a última e única centelha de divindade que há em nós. As crianças vivem ainda meio imbuídas pela magia do limbo que antecede a própria vida e do qual jamais nos recordaremos quando somos crescidos.

Apesar de tudo, de tudo, foi na infância que eu fui mais perdidamente feliz.

Tão livre, tão solto e tão sem-fim que por mim nunca de lá teria saído. Cabelos pelos ombros, calças sujas e rasgadas de tanta brincadeira, sem relógio, sem regras e sem ordem para chegar, ostentando no rosto cheio de pó, as pinturas da última batalha com os peles-vermelhas da rua ao lado.

È por isso que o Peter Pan é o meu verdadeiro herói… porque foi o único que teve coragem para dizer que não, para bater o pé aos crescidos e defender a sua idílica condição. Refugiado no seu exílio da Terra-do-Nunca, servirá para sempre de símbolo e sentinela aos muitos milhões que se recusam a deixar de sonhar por esse mundo fora.

Não há nada mais cruel que se possa dizer a uma criança que “faz isto ou aquilo se queres ser grande!”. Como se os “grandes” fossem uma “grande” coisa que valesse a pena imitar!

Houve um dia em que a Wendy chorou, na janela da sua casa, à luz da lua e dos seus cabelos brancos, porque já crescida, não conseguia recuperar da memória as histórias de encantar que viveu em aventuras sem fim com os meninos-perdidos.

A luta para não crescer, para manter viva essa luzinha que vem dos nossos primeiros tempos, é diária.

Só há um sítio no mundo dos crescidos, onde estes quase por instinto, renunciam à sua condição e aceitam regressar a onde nunca sairiam pela sua única e exclusiva vontade e esse sítio é a praia.

Na praia, o doutor e o trolha, o brilhante cirurgião e o escriturário de terceira, o pintor da construção civil e o diplomata, encontram-se ao mesmo nível. Os elementos identificativos do padrão social ficam lá fora e de calçonitos, fica tudo muito mais parecido. É certo que uns lêem o “Expresso” e outros o “Correio da Manhã”, uns fumam “Marlboro” ou “Camel” e outros “SG Ventil” ou “SG Filtro”, uns bebem sucos naturais e outros médias geladas, uns discutem os negócios e outros a novela da noite, mas há um momento, nesse enorme parque infantil, em que se cruzam e metem as mãos na areia. E aí são todos iguais

Desde que tenham filhos pequenos e queiram entrar na dança, o dia e o baile são por conta deles!

E é tão bom reparar na carinha de felicidade quando se recriam nesse jogos sem fim…

Seja a fazer uma piscina natural ou um castelo na areia; a jogar ao enterra (em que ganha quem fizer o buraco mais fundo!) ou à carica em pistas de Fórmula 1 inventadas no momento; a construir uma sereia em que os cabelos são algas e o soutiã feito de conchas; a brincar com um papagaio de papel ou a fintar as ondas à beira-mar; integrados em mil pesquisas científicas por espécies imaginárias nas rochas ou em missões de salvamento de estrelas do mar… há muito por onde escolher!

Neste ano, com duas princesas na minha expedição, brincámos que nos fartámos, embora houvesse sempre muito, tanto mais para fazer. Dialogando sempre num espanholês característico, indecifrável para os ouvidos mais incautos (Eh amigue! Que eztás a fazero?), trocámos experiências e diversões e nem eu próprio acreditei que conseguiria andar mais de 5 metros com as duas montadas nas costas, arrastando-me de quatro patas, zurrando e escoiceando, servindo de cavalo do Bastinhas com fôlego suficiente para continuara a respirar. Foi de rir até cair para o lado.

Nas toiradas improvisadas, era touro furibundo, ao ponto de numa só assentada, derrubar todo o grupo de forcadas dos Outeiros. Está bem, eram só duas, mas mesmo assim, a pega foi rija. Ainda tenho os calções entalados…

Para a história, fica a criação pelas duas cientistas do verdadeiro “Homem-Lama”, completamente coberto pelas areias do mar profundo, espectáculo de raridade onde nem a boca se conseguia discernir!

Para a história, ficaram as memoráveis actuações de equilibrismo das fabulosas irmãs Russas “Mariova e Leonorova”, capazes de encantar as assistências do areal inteiro com a destreza dos seus mortais encarpados, duplos e triplos voos para o abismo!

Para a história, fica a mutação do “Homem-Croquete e Sus Muchachas”, que só não resultou em pleno porque faltou o palito no tal sítio… ( e ainda bem que não havia ali nenhum à mão! Senão tinha sido mais que certo”).

Para a posteridade e memória futura, fica uma semana do tamanho de um Verão sem fim porque nunca ali regressarão com a ternura dos 5 e dos 4 anos e foi tudo tão bem passado entre nós 3 que eu digo, “bem hajam”, por me terem feito tão feliz...

Tão igual a vocês...