quinta-feira, 17 de abril de 2008

Serenata à Chuva


E se porventura alguém algum dia vos avançar aquela léria de não perceber o que é que os homens vêem no futebol e de que tudo não passa de 22 idiotas a correrem atrás de uma bola…

Expliquem-lhe que as coisas não são bem assim.

A magia do futebol e a razão porque é uma das mais belas invenções dos deuses (e não dos homens!) está bem viva em jogos como o desta noite.

Mostrem-lhe isto que é capaz de chegar.

Ganharam bem.

Não há coisa mais triste do que quando um homem ou uma equipa se acobardam, se reduzem, se encolhem até à humilhação. Deveriam ter sabido cair de pé, honrando a glória das camisolas que envergam e não como cobardolas atarantados.

Para mim, esfumaram-se as hipóteses de poder estar naquela que é a festa mais linda do futebol português e de acabar o ano com algum consolo clubístico, festejando na final entre os assadores de sardinhas e as sandes de barbela com pêlos.

Agora, já sabemos quem é a equipa que vai perder a taça para o Porto no Jamor.

PS: Ao intervalo, consolava eu o lagarto do meu irmão que desesperava via sms, dizendo-lhe que ainda faltava muito por jogar. Parecia que estava a adivinhar um desfecho deste calibre. Posso não ser o Rui Santos mas já vou tendo o cú russo…

Real Tertúlia do Camarão de Marvam – Acta de Abrile


Aos queinze dhias du mês de Abrile du ano do graça do sinhor de dhois mile oito, raeuniu nu senecke-bhar “O Adro” en Samto Amtónio das Areias, a Real Tertúlia do Camarão de Marvam que come é de habitude, congregou os comensais para degustarem os crustáceos vulgharmente daesignados por camarõns e beberricarem sumes dhe cevada.

Em sassão oerganizada por Dom Carlos Pereira, da fameília do próprio D. Nuno Àlvares e por Dom Faernando Andrade, da Casa dos fidalgos de Andrade, compareceram todos os membros à excepçam de Dom Juan Carlos Saulo que se encontrava em seu castillo comemorando mais um cumpleanhos, o treinta e quatro.

Não se registharam multas nem atrasus poreque todos eles os outros membros chigarham a horas e thodos se trajavam com a tixérte identeficativa e o que restava pagou a bula.

As hostilidades abrirem às sete dhepois do mediodia e encerraram perto da medianote.

Dos crustáceos se mamaram os cozidus, os fritus e os grelhadus.

Cada um desembolsou os habituais treze reais.

O serãm terminado foi com preces e amenas comversaçons.

Da esquerda para a dereta e de trás para avante: Barradas, Andrade, Adelino (convidado), Conchinha (convidado), Sabi, Carlos, Coelho. À frente, Bonito, Carpa, Bananitas e Carequinha.


Que sejam estas as balas que atravessam os nossos corpos.

O invólucro do pedido da Bula


A bula, ela própria.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Um domingo qualquer

Acordei às 7 e pouco, quando as primeiras claridades da manhã se infiltravam no quarto pelas frestas das janelas mal fechadas e no preciso momento em que a pequena mergulhava naquilo a que chama o leito conjugal, ou seja, bem no meio de nós. Os cães da vizinhança ladravam assustados em uivos agudos e aquele inusitado e desafinado coro matinal perturbou-me o descanso. Dei voltas mas tardava em dormir, até que de levezinho, peguei no sono e … que sono maravilhoso foi.
Aprendi com a minha treinadora mental e com os livros do Freud, muita coisa sobre os sonhos e guardei para mim que são uma espécie de trituradora Moulinex onde nós colocamos em pedaços os nossos medos, ambições, aflições e episódios mais marcantes do dia e depois do um, dois, três, saem essas visões nocturnas.

Doeu-me muito que o Rockfest tivesse sido cortado do orçamento camarário sem que eu pudesse proferir as alegações de defesa que vinha treinando ao longo do último ano. Acabou-se e prontos. Euros para isso, zero! Para isso ou para essa que era a única grande festa para os jovens realizada no concelho. Quando tanto se fala nos velhinhos, que tanto merecem, eu quero mas é malta nova que essa é que traz vida mas desta vez, ficámos sem pio. Jamais atirarei a toalha ao tapete e acho que neste último round, sou capaz de ter um “gancho” escondido que ainda poderá fazer possível a terceira edição do festival de música rock de Marvão. Pensando e mastigando e preocupando-me com isto, matutei tanto que a coisa chegou à almofada.

De forma que hoje, neste domingo qualquer, estava eu a querer dormir quando acordo mesmo em pleno Verão, numa encosta virada para a Portagem, a saber pela muita malta nova que chegava de todos os lados e mais algum, que havia mesmo um grande festival de Verão.

“Mas como? E onde?” perguntava eu atónito, alegando não ter visto um cartaz que fosse. Segui a fila da populaça que mais parecia um carreiro de formigas e cheguei ao recinto, enorme e cheio de pó, com um palco fabuloso à frente do qual descansavam os mais variados espécimes da juventude moderna. Aquilo era brincos, piercings e rastas, tatuagens e penteados de toda a maneira e feitio, numa boa onda incrível e eu completamente extasiado, sem conseguir descobrir como tudo aquilo tinha sido possível. Perguntei pelo campismo e vi magotes de jovens com grades de minis geladas a tiracolo e miúdas bem giras, semi-desnudas a montarem a tenda debaixo de uma pereiras. Ao canto, alguns jovens matavam umas cobras e uns lagartos que assustavam a vizinhança, mas não sem eu os ter avisado que isto era Parque Natural e não podíamos permitir maus-tratos aos bichinhos.

Um cheiro intenso a rosmaninho e a eucalipto anunciavam a festa. Perguntei quem eram os cabeças-de-cartaz e quase caí de cú quando me disseram que era o Jimi Hendrix e a sua “Band of Gypsys”. Brutal! Passei-me completamente e pensei logo em ligar para casa a dizer não só não ia jantar como também não ia dormir nos próximos sei-lá-quantos-dias, até aquilo acabar, vá! Ena meu, que alegria, a comer aquela euforia toda e a encontrar pessoal amigo e tantos desconhecidos que já haveriam de ser cá da casa quando tudo levantasse arrais.


Dizia para comigo, “eu sabia! Eu sabia que isto ia pegar”.

Foi então que decidi ir falar com a organização para os felicitar e colocar os préstimos da câmara ao dispor. As minhas demandas encaminharam-me para um quiosque no meio do mato, pintado de todas as cores, com muitos hippies à porta, todos eles com ar amigável. Lá dentro, apresentaram-me ao responsável que era um tipo muita grande que falava ao telefone sem parar. Eu a dar-lhe os parabéns e a dizer-lhe que estava tudo maravilhoso e que para mim aquilo vá, era um sonho… e o gajo nada! Vai de falar ao telefone, a marcar com este e a desmarcar com aquele e eram só grandes nomes (para quem consegue ressuscitar o pai Jimmy, nada é impossível!). Como a conversa não dava atilho, lembrei-me de ir beber uma mini (com álcool, claro!) na taberna que tinha nascido a uns metros dali de um dia para o outro. No caminho, tropecei num pedregulho e quando levantei a cabeça vi a cara da minha filha a um palmo de distância, a dizer “pai, acorda!” e quando olhei para o lado já só vi os cortinados. Ainda meti a mão no bolso do pijama, numa vaga esperança de encontrar os bilhetes que tinha acabado de comprar mas nada. Nem o troco, sequer! Logo agora que estava tudo tão bom…

Eu tiro o tubo!

Para me esquecer do desalento, dirigi-me para a cozinha onde lhe preparei o “pequeno-almoço-de-princesa-nº 2” que inclui duas torradas de pão de forma com manteiga de vaca e uma chávena de mokambo meio escurinha e bem quentinha. Quando estava meio da coisa, começo a ouvir um “cccccccchhhhhhhhhhhhhh” muito intenso e eu assim a pensar, “ena pai, o que chove!”. Confirmando pela janela, vi o céu limpo e nada! O “cccccccchhhhhhhhhhhhhh” tinha de ser de outro lado qualquer. Como me parecia água, fui ver se era do autoclismo mas não me pude demorar com as averiguações porque já tinha a torradeira aos gritos. Digo, bem, primeiro entrego a merenda e depois já vejo. Foram os minutos que demoraram esse “já vejo” que me amolaram. Seguindo o barulhinho, pensei num bicharoco dentro do armário, mas não, olha, tinha sido um tubo da água que rebentou e já me tinha o móvel com perfumes, pentes, lenços de papel e outras miudezas a boiarem como se estivessem a bordo do Titanic. Bem engraçado! Primeiro levo uma nega do festival e meia-hora depois estou armado em Super Mário 2, de cú para o ar a tentar estancar a hemorrogia aquela que eu nunca pensei que um tubo tão pequenino pudesse levar tanta água. A hora que se seguiu, a salvar o que pudesse como o Noé e a tentar retirar a torneira também foi uma maneira bem engraçada de começar o último dia do fim-de-semana. A bacia, ainda lá está, esventrada, à espera de levar a prótese que lhe falta.

Para mim, foi a prova que confirma um dos meus maiores medos, o de um dia sair da minha casa, deixar lá todos os meus pertences e não encontrar nada ao regressar. Estes acidentes naturais, tipo fogos, inundações e afins, trespassam a minha mente todos os dias, no milésimo de segundo em que rodo a chave antes de sair. Se em vez de ter sido agora, tivesse sido quando estivesse a trabalhar, o desfecho podia ser bem diferente e isto sim que assusta, só de pensar.

Sentinela!



Por falar em figuras bíblicas, ao chegar ao pé da viatura, reparei que as últimas mudanças bruscas de temperatura trouxeram não só a geada de volta, mas também os seus primos jeovás, como os que deixaram no vidro de trás, o último exemplar da “Sentinela”, datado de 1 de Abril de 2008. Bela publicação esta! Na primeira página perguntava a letras garrafais, “O que é o Armagedom?” e eu pensei para comigo que não sabia bem o que será mas que a minha manhã deveria de estar a ser bem parecida. Perdi algum tempo a ver aquilo e está engraçada. Nela aprendi as palavras sábias, “Procurai a justiça, procurai a mansidão”, exortadas pelo profeta Sofonias (Sofonias 2:3), numa altura em que o profeta perdia incompreensivelmente por 3 bolas a duas quando jogava em casa, perante os seus adeptos e toda a torcida local.

Agora que penso nisso, nunca compreendi porque é que estes Jeovás são tão perseguidos, os pobres, quando também gostam do Jesus. Estou capaz de escrever para a Rua Conde Barão, 511, P-2645-109 Alcabideche, a ver se me podem explicar. Isto se não incomodar muito, é claro.


A Pequim 2008


Na Beirã, no Torneio de Malha organizado pela Associação BTT “ Rota das Antas” e pelos Jogos Tradicionais, confirmo que a Malha deveria de ser um desporto olímpico, quanto mais não seja, pelo facto de cada vez que se avança numa eliminatória, vencedores e vencidos se deslocarem ao balcão do bar montado a escassos metros para juntos, malharem uma rodada de minis ou de calmeirões de vinho tinto e uma bifana com mostarda partidinha em 4. Não é adorável? Não consigo imaginar uma outra modalidade passível de conseguir ajudar a fazer as pazes entre a China e o Tibete. Os monges, depois de derrubarem o último “chito” com uma malha certeira, convidariam os soldados do território dominante a beberem “saké” e a comerem uma carpa crua esquartejada em pedacinhos. Às vezes, os grandes males, têm tão pequenas soluções…

No tapete…


Por falar em Jogos Olímpicos, gostei de assistir aos últimos combates do Europeu de Judo que decorreu em Lisboa, no Pavilhão Atlântico.

Não gostei foi de ver o Laurentino Dias a entregar as medalhas de uma cerimónia tão solene, assim em mangas de camisa. Eu que não sou propriamente um adepto de protocolos, não gostei de ver mas prontos, são modernices. O chefe dele, aquele que tem nome de filósofo e não gosta que a malta nova ande com acessórios metálicos, também não devida de permitir estas confianças, mas ninguém é perfeito.

Vi as senhoras a lutarem e prova final dos homens com uns bisontes que pesavam mais de 100 quilos e devem de comer para aí uns 300 papossecos com marmelada ao pequeno-almoço. Devem ter sido criados a peito até aos 9 anos porque se um daqueles me caísse em cima, eu tinha o ataque de asma do século e só saía de lá enfiado num saco preto. Mas é giro. Cada combate dura quatro minutos e tal, desses todos, gastam 3 agarrados, a rosnar um para o outro e de repente, há o que mete o pé e lá vai o outro de cangalhas. Pensei que a nossa sociedade é injusta. Castigamos os colegas da minha filha que andam na escola a rasteirarem os companheiros e damos medalhas de ouro a estes que levam o tempo todo a fazer o mesmo, ainda por cima de pijama e em público. Vá-se lá perceber…

No entanto, não há coisa que me comova mais que ver um atleta a ouvir o hino no pódio, de medalha ao peito, enquanto é hasteada a bandeira do seu país. Não é por nada mas se repararem bem, na expressão do olhar que fazem nesse instante, vêem-se as horas de treino e os sacrifícios todos evaporarem-se numa lágrima fugidia que transforma a expressão num sorriso de “valeu a pena!”.

É bonito.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Morreram gordinhos…


Os lagartitos já dançaram.

Faltou-lhes garra e atitude, genica para resolver o jogo nos primeiros 45.

É verdade que se podem queixar da falta de sorte, sobretudo no barrote de cabeça do “Levezinho” ao poste e nas 3 ou 4 bolas que rasaram a baliza escocesa.

Depois os outros, mais duros, mais trabucos, mais limitados, mais caceteiros, foram lá abaixo no contra-ataque e comeram-lhe os pintainhos. Hipnotizaram-nos, fizeram-se falsos lentos e na primeira oportunidade, roeram-lhe a corda.

Ao cair do pano, um perda de bola incrível, uma inacreditavelmente óbvia jogada individual e a estocada final.

Hoje, eu estava a torcer pelos lagartos e até acho que trabalharam mais que o Glasgow para vencer a partida.

Logo hoje, que eu torci por eles… perderam.

Também digo, não é grande mal que venha ao mundo.

Cheers!

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Toma lá, dá cá!


O nosso país é profícuo em gajos que se armam ao pingarelho, a pensarem que sabem tudo sobre todos.

É por isso que eu não gosto do Professor Marcelo. O gajo até pode saber muito, mas aquele ar de sabichão, de olhos esbugalhados, a falar aos gritos como se estivesse a ter uma síncope cardíaca, tira-lhe toda a credibilidade.

Se fosse da minha turma no Liceu… fazia questão de não lhe falar e jamais me sentaria ao seu lado. O gajo leva os dias a mandar gafanhotos.

Durante o meu curso, não raras vezes me ensinaram que a verdade dos factos até é bastante simples e facilmente desmontável.

Quero eu dizer com isto que é muito provável que ouçamos uma boa análise social ao balcão da Tasca do Papagaio, num bairro social qualquer, numa converseta de fim de tarde de um grupo de operários da construção civil, enquanto “malham” mais uma grade de minis e arrematam umas “punhetas de bacalhau”. É bem provável que os ouçamos dizer algo que é muito verdade e que faz todo o sentido. Às vezes até é mais provável ouvir ali verdade, que num desses programas de televisão onde alguns urubus vão passear as novas plumagens.

As coisas são simples e até uma criança as entende.

Na 1ª página do insuspeito Expresso deste sábado, diz assim: “Coelho deu à Mota-Engil os maiores negócios das SCUT.

Não há ilegalidade, mas há muita promiscuidade. A construtora passa a ter dois ex-ministros e um ex-secretário de Estado das Obras Públicas na direcção.

Jorge Coelho está a dias de se tornar presidente da maior construtora portuguesa, empresa com que negociou, enquanto ministro, concessões superiores a mil milhões de euros.

João Cravinho, também ex-ministro das Obras Públicas do PS, sem querer particularizar o caso, considera intolerável que quem define parcerias com privadas, vá depois gerir esses interesses. Mas a Mota-Engil é uma empresa de ex-governantes”.

Meus amigos, Portugal no seu melhor!

Já dizia o velhinho Lincon “Podes enganar todos durante algum tempo; ou enganar alguns, o tempo todo; mas não podes enganar todos, o tempo todo”.

Mistérios insondáveis dos nossos tempos: os japoneses


De quando em quando, em Marvão, surgem catadupas de japoneses.

Muito frágeis, muito pequeninos, muito pálidos, muito velhinhos e vestidos com cores garridas, surgem silenciosos assim aos magotes e espalham-se por cada recanto da nossa vila.

Já me apercebi que aparecem mais nos dias de nevoeiro.

Como nunca os vi chegar de autocarro, de táxi ou avião, sou levado a pensar que brotam assim do subsolo depois de atravessarem a terra inteira, só para visitarem a nossa vila.

E a minha pergunta é:

Se o Japão é um dos países mais industrializados do mundo, se é uma das maiores potências planetárias no que diz respeito às novas tecnologias, se é provavelmente um dos sítios onde se podem comprar os últimos gadgets aos preços da uva mijona, o que significa que qualquer um pode ter uma máquina fotográfica Nikon topo de gama em cada janela do apartamento…

PORQUE RAIO É QUE OS GAJOS LEVAM OS DIAS SENTADOS EM BANQUINHOS A DESENHAREM AS RUAS EM FOLHINHAS BRANCAS SEM DIZEREM NADA O DIA INTEIRO COMO SE FOSSEM ESTÁTUAS EM VEZ DE TIRAREM UM FOTOGRAFIA E PASSEAREM?!?!?!?!?!??!?!?

Se Cristo regressasse à terra… esta era uma das perguntas óbvias na conferência de imprensa, no novo aeroporto de Alcochete.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Glória e Devoção (no Paraíso do Rock)


Uma série de compromissos inadiáveis, de marcações há muito combinadas e de programas circunstanciais atrasaram este texto num total de horas suficientes para preencherem 3 dias.

Apesar do delay, prometi a mim próprio que esta memória não havia de me escapar e deveria sobreviver nem que fosse para plasmar para a posteridade a magnificência deste notável episódio que tive a honra de presenciar.

Tudo isto acerca do concerto de Sexta-Feira no Centro de Artes do Espectáculo de Portalegre, integrado na tournée nacional dos Wraygunn, promovendo o seu último trabalho, “Shangri-La”.

Para reencontrar o fio que me há-de levar a esta meada dourada, viajo no tempo e recordo o percurso de regresso a casa, ainda mal refeito das tantas emoções vividas.

Aqueles que fizeram a si próprios o favor de não perder este programa, compreender-me-ão certamente quando digo que aquele ovni que trespassou as nossas vidas não foi um concerto mas antes mais uma celebração da música em todo o seu deslumbrante e infinito esplendor.

Começo com um postulado incontornável: os Wraygunn são a mais diabólica e demolidora máquina de rock’n’roll que estas terras lusas pariram um dia e se algumas dúvidas restassem, dissiparam-se por completo naquela noite.

A sala estava envergonhada e longe de lotada o que me fez lamentar por saber que na minha cidade natal e na região circundante, nem sempre sabemos merecer aquilo a que temos direito.

Paulo Furtado, vocalista e mentor, fundador dos extintos e já míticos Tédio Boys, também conhecido como o “Lendário Homem-Tigre” (traduzindo o intraduzível), entrou sorrateiro e abriu caminho aos comparsas que se lhe juntaram numa entrada de luxo com “Gambling Man”. Dirigindo-se aos presentes, libertou-nos das amarras e da tortura de permanecermos sentados e convidou-nos a tomar a dianteira, quebrando o gelo e todos os protocolos.

Os bem esgalhados “Keep on Prayin’” e “Love is My New Drug” desfilaram já a escassos centímetros dos nossos olhos, com a respiração e a trepidação ao rubro. Os espasmos sónicos deram então lugar ao belíssimo “Hula Hoop Woman” que me foi dedicado num gesto que muito me honrou e se explica pela ligação que a banda tem a Marvão, onde compôs este seu último trabalho, numa resposta a um convite /desafio que lhes lancei quando foram cabeças-de-cartaz do primeiro “Marvão Rockfest”.

De seguida, Selma Uamusse disse “No more, My Lord”, numa interpretação de arrepiar, sobretudo quando assim tão perto, espalhando pela sala uma vibração gospel directa do delta do Mississipi. “Everything’s Gonna Be Ok”, “She’s a Go-Go Dancer” (o hit dançável) e o emblemático “Drunk or Stoned” incendiaram os mais renitentes e por esta altura, mesmo os mais envergonhados, mal podiam aceitar a sua condição sentada.

De seguida, desfilou “Lady Luck” e durante “ Work me Out”, o momento da noite… A rapaziada da organização não parava quieta porque a proximidade e a vibração do pessoal junto ao palco estavam a desconjuntar a parte da frente da boca de cena. Quanto mais teimavam em encaixar os suportes de madeira, mais depressa eles tombavam para a frente até que um mais afoito, foi encostando a malta aos assentos, interditando a presença na parte frontal. Furtado, como um verdadeiro mestre de cerimónias, interrompe a locomotiva sonora e questiona o excesso de zelo do funcionário:

“O que é que se passa?”, perguntou perante a gargalhada geral.

“Não podem estar aqui”, respondeu o moço, atrapalhado.

“Ai não? Então e porquê?”.

“Olhe, porque há aqui uns motores debaixo e isto está sempre a cair…”

“Ai sim? Não podem estar aí, é?”

“Não”.

“Então bute cá pra cima!” e lá vai a malta toda pró meio dos músicos dançar e cantar e gritar as “Love Letters From a Muthafucka” como eu nunca as sonhei.

No meio de toda aquela loucura, quando provavelmente já havia mais gente em cima do palco que nas cadeiras, Furtado pede um uísque que lhe sirvo sem gelo e partilha a garrafa de Jameson (patrocinador oficial), com o gang em volta. Por esta altura, pisando cabos, pergunto ao baixista Sérgio Cardoso se estou ali bem, ao que me responde “Tu? Estás! E eu? Estou bem?”, deixando-me mesmo sem resposta. Com órgãos, vozes, pratos, guitarras, congas e baterias em alta velocidade, sinto-me como um puto na entrada da Disneylândia e mal me consigo manter firme de tanto andamento.

Descemos de novo para uma “All Night Long” que foi mesmo de extensa desbunda com Furtado a saltar do palco, a dançar entre a maralha, a inventar solos dedilhados, a trepar por cima das cadeiras até à mesa de som e a regressar em voo ao palco para terminar em glória bem no alto do equipamento, onde emborcou de penálti o que restava na garrafa.

As palmas e os assobias pediram um encore que começou com umas fantasmagóricas e hipnotizantes “Rusty Ways”, desfiou o “Ain’t it Nice?” de abertura de “Shangri-la” e terminou em apoteose com “You Really Got Me”, um original dos Kinks, de 1964 que foi a cereja que coroou este delicioso bolo de creme e natas.

Fuckin’ Amazing!

Subi as escadas com as pernas ainda a darem de si mas a tempo de assistir à sessão de Dj de Furtado e Francisco Correia, o manipulador sonoro de serviço, na qual desfilaram glórias desta música tão velha mas sempre eternamente nova. Tempo para Cash, Chuck Berry e outras lendas já finadas que não entram nos gostos refinados das batucadas que agora tomaram conta das pistas de dança.

Notas soltas mas imprescindíveis para a fabulosa secção rítmica de Pedro Pinto (sempre simpático, afável e humilde) e João Doce (o meu muy estimado quinto, também nascido em 73 e que não esqueceu o champanhe que bebemos na Portagem, creio que no seu aniversário!); e “last but not least” para as poderosas Selma e Raquel Ralha com uma voz, um classe, um estilo e uma qualidade absolutamente esmagadoras. Talento e sensualidade de fazerem corar qualquer Bond girl. Delirantes!

E assim, fazendo aqui um pouco o papel de Victor Gomes, dos Gatos Negros, o cicerone para o vídeo de “Go-Go Dancer”… e assim, dizia eu, meninos e meninas, se escreve esta página gloriosa dos serões musicais da nossa cidade.

Meus estimados, valeu mesmo tanto a pena.

Aos Wraygunn, digo aquilo que escrevi há dias num sms ao Paulo, quando pela primeira vez tive o disco nas minhas mãos: “Muita força, muita luz e que a estrela-guia do Rock vos proteja sempre porque vocês merecem!”

Hell Yeah!


Nota: Só para verem o nível... a pérola que é o spot promocional da tournée 2008. Muito à frente!

terça-feira, 1 de abril de 2008

Caso “Dámutélémóbele!”

Olhá belha! A belha bai cair! Altamiente!

O país indigna-se com o caso da jovem aluna da Carolina Michaelis que não deixa a setôra sacar-lhe o telemóvel.

Hordas de indignados semeiam ondas de crispação por todo o país.

Eu cá… de quem tenho mesmo pena, não é da cachopa, nem da docente, mas sim da tia-avó da menina que lhe ofereceu no Natal passado, o dito aparelho que esteve na origem desta enorme confusão.

A senhora, uma solteirona que vive sozinha para os lados dos Olivais e trabalha como telefonista numa firma de pisa-papéis, andou a amealhar aquilo que não lhe sobrava do parco salário que aufere mensalmente para dar à afilhada aquilo que ela mais queria, e sai-lhe isto na rifa. Tantos meses de privação, tantas tardes sem lanchar o pastelinho de nata e o galão que tanto a consolavam (à falta de outra coisa mais… carnal) e rifam-lhe uma desfeita destas.

Inconsolável, imersa no desgosto que a sufocava de emoção, decidiu meter-se debaixo do eléctrico. Não um daqueles que ainda circulam, pitorescos, pelos carris das ruas da capital, mas antes do Sr. Eléctrico, o viúvo proprietário de uma drogaria que vive no andar de cima. Como pesa 135 quilos em cada pata… o resultado deve de ser o mesmo que se se metesse debaixo de um dos verdadeiros.

Paz à sua alma…

Nota do redactor: A mim, choca-me tanta hipocrisia. Não percebo o alarido. Há 20 anos atrás… há 20 anos atrás, em 1988, quando os Xutos lançaram um álbum com esse mesmo nome e eu contava 14 catorze Primaveras, já nós trancávamos algumas professoras nas salas durante a hora de almoço, para ver se acalmavam do stress dos últimos 45 minutos, as pobres coitadas…

Duas décadas volvidas, vejam só onde nós estamos.

Ai a vida, a vida…

Mas se já nos anos 50 assim era. Será que nunca ninguém viu o “Blackboard Jungle” na vida? Pelô amô di Deussss! Está lá tudinho!


Calma rapaziada…

O “generation gap” é o mesmo, só que desta vez é mais… tecnológico.

Como o choque do nosso Sócrates.

Sosseguem que isto, digo-vos eu, não é para tanto.
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Nota 2: O video sem cortes e censura, puro e duro, impróprio para cardíacos.
E para maiores de 18.
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Top Disco: Video Kids - Woodpeckers from space


A minha vida mudou desde que reencontrei o Engenheiro Sousa Veloso no anúncio da Compal.

O homem não me sai da cabeça e até em sonhos o revejo, caminhando por entre campos cheios de árvores de fruto, declamando-me palavras sábias que me ensinam, por exemplo, qual a melhor altura para plantar betenrrabas.

Eu sei que isto pode ser princípio de Alzheimer ou qualquer coisa ainda mais pior má, eu sei lá, mas isto deu-me a ideia de uma nova rubrica, o “Top Disco”, onde iremos recordar os vídeos que fazem a banda sonora da nossa vida.

Não imagino melhor item de abertura que o fabuloso “Woodpeckers from Space” dos Video Kids. Nos anos 80, a ganza era pouca mas de altíssima qualidade e de Marrocos. Só assim se explica…

Quem é que ainda se lembra disto??????????