quinta-feira, 14 de agosto de 2008

No reino da sardinha


Em termos de cultura e lazer, a Câmara de Portimão pertence àquilo a que chamo a Liga dos Campeões.

Qualquer um que seja menos distraído e se passeie por uma das principais artérias da cidade, cedo se aperceberá da enorme quantidade e variedade de riquíssimos produtos criados precisamente para atrair e agradar aos turistas.

Ele é concertos, ele é exposições, ele é eventos desportivos, ele é festivais de tudo e mais alguma coisa, ele é ballets, ele é musicais, ele é tanta coisa que até me falta o ar.

Tudo isto para além das praias belíssimas e de todo o encanto algarvio.

Em cada poste das avenidas centrais há um estandarte a anunciar eu sei lá o quê mas seja o que for, é muita bom!

Eu imagino o difícil que deve ser, ser-se vereador da área por estas paragens, sem saber onde gastar tanto dinheiro. Uns com tanto e outros com tão pouco… Como é que ainda há pessoas que não acreditam na vida depois da morte. Se não houvesse, isto era um grande fiasco. Onde é que Deus corrigia estas assimetrias todas senão aí?

Ah, já me esquecia que tudo isto deve mesmo dar tanto trabalho à Câmara que esta, à semelhança de Óbidos, até criou uma empresa municipal só para os eventos (http://www.expoarade.pt/). Ai mãezinha!

Bom, já que cá estou, a oferta é tão grande e a companhia não podia ser melhor, vamos lá então provar essas sardinhas que devem estar maravilhosas de tão fresquinhas e tão bem assadas por mãos sabedoras e a saberem a mar. Só de pensar nelas tenho logo de meter um babete que me emprestou o meu afilhado João Sobreiro. Aaarrrrrrrrrrhhhhhh. Boas!

Assim que chegámos à porta, o moço de serviço pediu-nos logo a cada um, 3 euros e meio só para entrarmos, como se faz de resto em todos os grandes certames do país. 700 paus em moeda antiga. Só no meu Marvão é que cobrar um euro para ajudar a custear as despesas da Feira da Castanha me provocou quase um linchamento público. Enfim…

A organização, como já seria de se esperar, simplesmente genial e ao detalhe. Para além da área dos enchidos, do artesanato, dos espectáculos, da doçaria e da muita animação, existe ainda a estrela do certame que é a área dos restaurantes. Eu estava curioso para saber como funcionaria mas a mecânica criada resulta e permite evitar as grandes filas e as esperas prolongadas. De um lado estão os restaurantes e do outro, as enormes mesas com uma capacidade total para 2 mil pessoas. O cliente escolhe a tasca e depois, por cerca de 6 euros e meio, tem direito a meia dúzia de sardinhas, batatas, salada e uma bebida. É pegar no tabuleiro e marchar.

A minha filha, coitadinha, que ainda não sabe o que é bom na vida, disse que queria entremeada e em boa hora o fez porque não a comendo toda, ainda me deu um fundo de maneio que negociei com o meu irmão, que também é mais carneiro, em troca de quatro sardinhas do menu dele. Eina pá, que boas estavam. Calhou mesmo bem. Aquele sal na pele, o molhinho…

Já satisfeitos, passamos pela barraca do Ti Nabeiro, malhámos uns cafezinhos bem alentejanos e ficámos contentes por termos ajudado o homem a arranjar dinheiro para caiar a adega nova que diz quem conhece que é um encanto.

Quem tiver filhotes e os quiser entretidos num sítio de onde não fujam com facilidade (os muros são altos!), é largar mais euro e meio para uma pulseira que dá acesso aos quatro insufláveis existentes. Só para judiar, ainda perguntei à senhora da bilheteira se tinha pulseiras para adultos e deixei a pobre a bater mal. Ao menos sempre tem qualquer coisa para contar aos colegas hoje.

Ainda passei pelo palco principal e espreitei o Camané que está a cantar cada vez melhor. Só não percebi porque é que o rapaz fazia questão de contrariar a brisa marítima que lhe baralhava as folhas do dossier que tinha a sua frente com as letras dos fados. Mas com aquela idade e com o disco já com meses, ainda não as sabe de cor? Ou será que a sua abstinência anda a levar umas facadinhas e a memória já não anda a 100% outra vez? Fiquei preocupado. Afinal, de todos os que emprestam a voz à causa, ele, apesar de ser o de mais baixa estatura, é para mim o maior.

Deu também para constatar, pela assistência presente numa noite destas, que a crise não foi inventada pelos jornais como o Sócrates nos quer fazer acreditar. A coisa está bera…

Regressámos à base antes que começasse o fogo de artifício que encerra todas, TODAS! as noites do festival. Lembrei-me do Ti João Esteves da Abegoa. O homem se vivesse cá estava multimilionário. Eu deu-me pena de não ver mas a minha filha criou esta aversão a tudo o que faça barulho que por mais que eu lhe explique que aquilo não faz mal, é escusado. Quando todos os outros olham maravilhados para os céus cheios de luz, ela suplica-me, horrorizada, que partamos quanto antes para qualquer sítio coberto, como se fosse a própria Al Qaeda que estivesse nos comandos da pirotecnia.

Bem diz o sábio povo que “quem tem filhos, tem cadilhos”.

E eu digo “Portimão me mata!”.

Má que jête, mosse: tássaqui tã bem!”.


A vasta e aprazível área de restauração
Ração de combate individual

Área de artesanato com palco principal ao fundo

Não resistimos a dar uma volta no carro dos Flinstones.
Destaque para a cara de felicidade do Júnior e para o pequenino João, de azul, à esquerda.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Al-Gharb


Aquela semana do ano...

na qual levamos o ano inteiro a pensar.

-


segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Edição Extra - Zézé Camarinha vs Cristiano Ronaldo


A SIC Radical é, desde que nasceu, uma das minhas estações oficiais. No meio de tanto lixo, de tanto estrume televisivo, este canal temático é um verdadeiro diamante na lama que nos traz muito do melhor do mundo, por exemplo em talk shows (Jon Stewart, o mítico Conan O’brien) e em séries. Os melhores humoristas portugueses estão lá e basta verem um episódio do “Vai tudo abaixo” para perceberem isso de imediato. Até os gatos lá começaram, o que é sempre bom não esquecer!

A “Edição Extra” que reeditava e transformava o panorama noticioso nacional com dobragens falsas e notícias inventadas era de partir a moca. ERA, porque o bacoco do Pedro Boucherie Mendes não deve ter aprendido nada nos tempos do “Independente” e decidiu descontinuar a série.

Bem me fartei de mandar mails elogiosos, a reclamarem a continuidade, mas nada…

A coisa estava mesmo de restos.

No entanto e faltando o programa de tv, sempre ficámos com o blogue, a outra vida da “Edição Extra”, que vai dando para matar saudades.

A última aparição é genial e dá perfeitamente para admirarem o recorte e o requinte desta filigrana do “fazer rir em português”: a guerra entre o Zézé Camarinha e o Cristiano Ronaldo acerca do último jogo de computador lançado pelo algarvio.

Façam-me o favor de clicarem e admirarem a forma perfeccionista como os autores manipulam os diálogos e imitam as vozes, fazendo-nos acreditar que é tudo de verdade.
-



Como os meninos não brincam em serviço, até o jogo criaram mesmo. Carreguem aqui e mudem de fraldas que isto é, como diz o meu amigo Rui, “de partir o côco a rir!”.

Fujam, fujam, que o Camarinha anda com ele feito.

Ma que jête!!!

Para quem quer saber mais, o blogue oficial está em: http://edicao-extra.blogspot.com/
-
Ah! E a SIC Radical está disponível online em http://xl.sapo.pt/. Basta clicarem no ícone. Quem é amigo, quem é?

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Dobrando o indómito



Hoje venci o meu Adamastor.

Hoje consegui o que sempre pensei ser impossível.

Hoje, correndo, dobrei a serra de Marvão.

Comecei namorando-a no sopé, agarrei-me às madeixas dos seus cabelos e trepei-a até ao cume, quando já só tinha o castelo à minha frente.

E pensar que precisamente hoje, nem me apetecia muito ir. Depois dos 7 dias sem treinar, decidi que quando regressasse iria duplicar o ritmo para recuperar o tempo perdido. Após dois dias de um jogging seguido e intenso, quando cheguei a casa, já depois das 7h, senti-me lazeirento e equipei-me meio contrariado.

Mesmo assim insisti e quando cheguei ao cruzamento com a nacional, em vez de cortar para os Barretos, segui em frente, encosta acima e fui seguindo, seguindo até onde nunca esperei chegar.

Já por 3 ou 4 vezes por ali me tinha aventurado mas ao chegar à Fonte da Pipa, o excesso de cansaço e a falta de fôlego fizeram-me virar para trás sem a sorte grande mas com uma pequenita terminação debaixo do braço. De cada vez que rodava e pensava em descer, os olhos iam-se-me por aquele alcatrão acima como que a dizerem… “quando é que serás capaz?”.

Calhou a ser hoje, quando tudo indicava o contrário.

No percurso lembrei-me de quando comecei a correr, há mais de 10 anos atrás, com umas sapatilhas Diadora que a minha mãe me ofereceu nos anos. Lembrei-me de quando fui morar para Marvão, das descidas que fazia e daqueles que me gozavam dizendo que para baixo, todas os santos ajudavam.

Foi preciso muita persistência, muita força de vontade, muito trabalho, muita abnegação, muito espírito de sacrifício, muita entrega.

Correr não é apenas dar à perna. Quando se corre por correr, pelo gosto de correr, há ali algo que nos faz mergulhar num propensão genética qualquer, como se fosse um desafio à nossa própria existência. O homem não foi feito para estar parado, amarrado a uma secretária. Quando um corre, liberta-se, põe-se à prova, sente-se mais vivo do que nunca quando o sangue bomba por todas as artérias e a respiração puxa ar e vida.

Depois, não há coisa que me dê mais prazer do que quando me supero, quando me transcendo e provo a mim próprio de que sou capaz.

Nestas minhas incursões pelo desporto e pelo jogging olhava sempre para o morro de Marvão como o meu Everest. “Ena pá, se eu ao menos um dia lá chegasse ao ciminho…” e continuava de olhos no chão, certo de que era um objectivo que estava para lá das minhas capacidades.

Tudo isto se torna ainda mais motivante e recompensador quando penso que foi transposto por um miúdo asmático que passou a infância e grande parte da juventude dependente de medicação regular e aerossóis e só à custa de muita natação e muito desporto conseguiu quase duplicar a capacidade toráxica e superar em muito a resistência.

1 hora e meia depois de arrancar, quando avistei a minha casa, já de noite, nem queria acreditar no que tinha conseguido fazer. Ver as luzes a brilhar lá bem no alto e saber que já não são mais intransponíveis… foi lindo!

Agora sim! Deixou de ser a brincar e já só penso nessa primeira meia-maratona de Lisboa que alguns colegas de esforço me incitam a fazer. Aí pessoal! Caraças, pá! Valeu!

Ai Sócrates, Sócrates… vais levar uma rabeta, bebé! Até te saltam os collants!

Espera pela demora…

Porreiro, pá!




Em Nisa, no centro do mundo (swingando com a divindade)

Fui de visita à Nisartes e não consegui evitar deixar de me sentir pequeno, diminuído por todo aquele aparato. Mais intimidante que aquilo não pode haver e para mim foi uma experiência bem reveladora. Dei por mim a admirar o entorno como um puto que passa as tardes a jogar ao pião e vê os amigos passearem de mini-aeronave.

Eu também tenho uma Gastronomia mas a minha tinha 4 mil euros de orçamento. Esta, segundo me confidenciaram, tem à volta de 510 mil, ou seja, 120 e tal vezes mais, o que sempre dá para mais qualquer coisita. Gastam numa feira o que eu não gasto num mandato.

É! São opções. Ele há executivos que arriscam, que acreditam e ousam meter os seus locais no mapa. Corra bem ou corra mal, eles lá estarão para justificar, em bloco. Ainda bem que assim é.

Só em artistas, de certeza que 40 mil contos não chegaram para todos.

E depois há os pavilhões gigantescos, as cozinhas do melhor que pode haver, belos estrados, belos palcos, belas luzes, belas aparelhagens.

Uf!

Por muitas críticas que possam haver, o que eu vi, e eu conheço bem Nisa, foi as pessoas felizes, passeando em famílias ou entre amigos, desfrutando de aquilo tudo porque tristezas não pagam dívidas e a vida são dois dias. Salero!

Fui ver a Mariza porque a minha senhora diz que gosta e não indo pelo artista, não podia ter saído mais impressionado.

Nunca fui gajo de modas. Eu sei que isto pode ser pancada mas quando os outros cantam em coro, eu desconfio e afasto-me. Exemplo claro disso são os Silence 4. Quando o “Borrow” começou a bater nas rádios e parecia que andava tudo hipnotizado pela melodia, eu não passei cartão e por pouco, se não tivesse ouvido a assombrosa “Angel Song”, estive em risco de perder uma das bandas mais talentosas dos últimos 20 anos da pop portuguesa e um dos génios criativos mais profícuos do nosso universo musical luso, o meu quinto David Fonseca que eu adoro e venero e ouço até à exaustão.

Maneiras que esta onda do novo fado e das Anas Mouras e “não sei quê” me cheira a esturro e tirando o Camané, eu como a xixa e deixo o resto ao lado no prato.

Mariza? Tá bem, abelha!

Mais uma vez, não podia estar mais errado.

O concerto foi extraordinário e aquela garça real de pescoço aristocrático é muito maior do que pode ainda sonhar. Dona de uma voz assombrosa, com um extraordinário sentido de tempo e com um carisma inebriante que nos obriga a segui-la por onde quer que pise, Mariza transporta o fado para outro nível ao cruzá-lo com influências e ritmos que o levam da Mouraria para o mundo. Nunca o conceito “world music” fez tanto sentido.

A Senhora Dona Amália que esteja lá em descanso que o que é dela ninguém lho tira mas aqui o tempo é outro.

Tal como não há forma de comparar o Cristiano com o Eusébio, por viverem em épocas e em estágios de evolução da modalidade diferentes, também esta Mariza merece ser admirada por si.

Classe, distinção, erudição e domínio mas também sinceridade, entrega, humildade e devoção.

Um pássaro raro com uma coroa dourada, em bailados mágicos e cantos de sereia.

Absolutamente notável.

Nota muito mesmo 5 estrelas para a banda que impressionava de tão jovem e competente, recriando-se com os instrumentos e deixando-nos a pensar como é possível atingir aquele nível excelso de execução quando ainda nem barba se tem. Coisas destes tempos. Estranhos tempos os nossos.

Quando se despediu e cantou junto ao público, banhada na luz dourada dos holofotes, tocando as crianças e acenando aos adultos que sorriam embasbacados, pareceu-me assim até a visão de uma outra senhora também tão querida de Portugal.

Foi memorável, pá.

Vamos lá sacar esses discos todos para ver se mais uma vez, sou contemporâneo de uma lenda e ando tão distraído que nem dou por isso.

A bênção, minha filha!
-

quinta-feira, 31 de julho de 2008

À descoberta do Brasil (em busca do irmão perdido na história)

Pescador ao pôr-do-sol quando os rios Parnaíba e Poty se abraçam

Palácio Karnak - sede do governador do Estado do Piauí

Reunião com os responsáveis do SETUR / PIEMTUR

Banca de venda de fruta numa rua da capital do estado, Teresina

Lançando as redes ao anoitecer

Cachoeira no Parque Natural das Sete Cidades

Atravessando o Brasil profundo

Sol mergulhando no Oceano. Uma bola de fogo que se apaga lentamente...

Praia virginal em Parnaíba. Sem mancha de pecado.

Um sósia do Cantiflas com a t-shirt de uma festa nos Barretos brasileiros

Ao encontro do Delta do Parnaíba, um dos três do mundo a encontrarem o Oceano

Praia deserta num dos locais mais belos do planeta

O nosso era particular e bem mais pequeno, eheh. Noblesse oblige!

O amor e uma cabana. Deve ser a isto que o José Cid se referia.

Uma venda tradicional. Tem chinelo, tem picolé...

Vai um chopp, sinhó?

Negociante de opalas em Pedro II

No palco do Cachaçafest com todas as autoridades locais

Momento de assinatura do acordo

Irmandade oficializada!

Uma bandeira que a 7.000 quilómetros de distância pesa toneladas

Assistência no momento protocolar. Um silêncio e um respeito notáveis.

Eu a fazer o papel de Cristiano Ronaldo, tirando fotos com os jovens que me abordavam na rua.

De visita à Casa-Museu do Tito. A experiência de viver entre memórias.

Moagem artesanal da cana-do-açúcar na fábrica da Mangueira, a cachaça líder do mercado

Com o meu querido amigo motorista, montado na bomba da Mangueira e rodeado de belezas locais

Com o Sr. Prefeito, Dr. José Ismar, e os autores do 1º livro sobre a história de Castelo do Piauí

Com toda a equipa, junto à Pedra do Castelo, um lugar muito especial

Com Rubens Luna, o grande responsável brasileiro pela geminação, que nos visitou no início deste ano. Para mim, o "professsor", um cara especial que vive num estágio acima dos comuns mortais. A serenidade encarnada num homem. Um místico.

Avistando o Rio Poty

Tomando banho numa lagoa natural no meio da vegetação.

Beleza de cortar a respiração

Descendo em rappel

Com um pessoal de Castelo que ouvia música e bebia numa esplanada na rua. Cheeese!
-
-
Bem certo estava quem disse que só há duas verdadeiras formas de aprender: lendo ou viajando.

Ainda mal refeito do jet lag (que sova!) e não recuperado das apenas duas horas de sono nas 48 em que percorri quase 7.00 quilómetros, não resisto à tentação de registar em traços muito largos aquilo que vivi nesta inesquecível viagem à terra de Vera Cruz. Sei que daqui a muito tempo vou gostar de aqui regressar para ler e recordar mas evito a todo o custo entrar na minúcia, porque isto bem espremido dava quase para um livro.

Perguntava-me um jornalista lá de uma das rádios locais, o que é que eu iria trazer de melhor na bagagem e eu respondi-lhe: as pessoas e os lugares.

Nestas funções que agora desempenho, como em muitas outras profissões, há coisas muito boas e outras nem por isso. A saber: não é nada bom ir comer um gelado com a minha filha num domingo qualquer e vir alguém tirar-me sarro dizendo que tem um cano roto à porta de casa; como não é nada bom as pessoas entrarem pela minha casa adentro quase que a exigirem um emprego só porque votaram em mim; como não é mesmo nada bom eu ir a uma festa ou um baile e correr o risco de apanhar algum otário já cacimbado que decide dizer mal só porque sim; como não é nada bom sabermos que na maior parte das vezes muito poucos dão valor pelo trabalho e pela dedicação que não poucas vezes me tira o sono.

Tudo isto para dizer que obviamente, a viagem ao Brasil para assinar o acordo de geminação, o primeiro da história dos dois municípios, foi das missões que menos me chateei de fazer e dizer o contrário era mentir com todos os dentes que tenho na boca ( que não são poucos!) e isso eu não gosto de fazer.

Mas o que eu gostava mesmo era, como disse também à comunicação social que nos esperava na entrada de Castelo do Piauí, de poder levar todos os marvanenses para que pudessem ver toda aquela alegria e a magnífica recepção que nos prepararam, onde fomos tratados como verdadeiras estrelas de cinema. Nem faltaram as faixas e as targas, o cocktail de boas vindas, a banda a tocar forró e todas as entidades civis e militares locais para nos receberem de braços abertos.

A viagem teve duas componentes que não podem ser dissociadas: uma claramente diplomática e institucional; e uma de reconhecimento das mais-valias turísticas, económicas e culturais desta terra com quem fomos casar do outro lado do Atlântico.

Na vertente protocolar, integram-se as reuniões com as instituições governamentais relacionadas com o artesanato e o turismo; bem como toda a dinâmica processual de formalização da geminação. A apresentação sobre Marvão aos castelenses; o acompanhamento das autoridades locais; as reuniões com os empresários e todo o contacto com as forças vivas da terra são aqui contextualizadas.

Na parte de reconhecimento integram-se todas as visitas e as actividades em que nos convidaram a conhecer as mais-valias daquela região incluindo o património natural, as praias, os museus, os sítios de interesse arqueológico, a gastronomia e as tradições.

Uma e outra foram fundamentais mas foi obviamente nesta parte de missão que vivi os momentos mais lindos e interessantes ao conhecer as pinturas rupestres e os singulares afloramentos rochosos do Parque Natural das Sete Cidades, ao descobrir num bote o delta do Rio Parnaíba, ao explorar o canyon do Rio Poty, a Pedra do Castelo e as quedas de água naturais; ou ao poder contactar com um litoral que foi conseguido através da troca de uma serra com um estado vizinho e que revela 66 quilómetros de uma costa quase virgem onde ainda tudo está a tempo de ser bem feito.

Depois trago comigo as pessoas e a sua forma de singular de verem a vida e de se entregarem aos outros sem concessões. Nestes dias conheci extraordinários profissionais, gente culta, boa e dedicada e toda, toda ela, com uma enorme ilusão neste projecto. Gostava sinceramente que todos aqueles que não conseguiram evitar a mesquinhez e a tacanhez de se oporem em Portugal a este passo histórico do nosso município, pudessem ali estar para sentirem a vergonha de verem o quanto estavam errados. Pensei então que seria bom se os pudesse ver ali no palco à frente dos muitos milhares de presentes que assistiram à assinatura do acordo, acompanhado por 5 ou 6 televisões (entre as quais a Rede Globo) e as outras tantas rádios e jornais.

Alguém me confidenciou então que em vésperas de eleições, a vinda dos portugueses para selar esta união constituía um trunfo sem par para a comunidade local e eu acredito porque só assim se explica a maneira ternurenta como todos nos trataram, pedindo constantemente para tirar fotos connosco e inclusive autógrafos!

Estamos já a trabalhar na organização da vinda da comitiva brasileira em Novembro para conhecer o nosso concelho e dentro em breve concluiremos o relatório que nos comprometemos a elaborar, para que fique registado para a posteridade o nosso diário de bordo.

De uma forma genérica, estou convicto que atingimos os objectivos propostos naquelas que defini como sendo os eixos prioritários de actuação:

- No eixo do Turismo acredito que teremos a muito breve trecho, duas propostas concretas para apresentar aos marvaneneses para que possam conhecer o Marvão brasileiro e toda a região a preços muito aliciantes e abaixo dos praticados no mercado;

- No eixo empresarial trazemos connosco intenções muito claras e precisas de empresários locais que querem colocar os seus produtos no mercado nacional através de parcerias com os empresários da nossa região;

- No eixo da cultura assistimos a diversas apresentações e inaugurações que nos aproximam, incluindo uma mostra de teatro lusófono e o lançamento do primeiro livro que conta a história do Castelo do Piauí onde se podem contemplar o escudo e o brasão do nosso concelho. Novas pesquisas estão já também a ser analisadas.

Boas perspectivas e a tranquilidade do sentido do dever cumprido.

Como dizia o pequeno grande Pessoa; “vale sempre a pena, quando a alma não é pequena”.

No álbum ficam muitas, muitas fotos e no coração já muitas saudades de todo aquele calorzinho humano e de todo aquele afecto.

Quando me perguntaram até onde poderia ir esta geminação, eu respondi que este acto é como um casamento e tal como os casamentos, requer companheirismo, respeito mútuo, trabalho e boa vontade. Oxalá o futuro da geminação corresponda às promissoras expectativas e possa ir mais longe do que eu alguma vez o fui capaz de sonhar.

Para já valeu a pena acreditar e ter sido responsável por mais um passo em frente no registo da vida da Câmara que as gerações futuras irão certamente recordar.

Mesmo que nada do resto de bom tivesse acontecido, só por isso…
-



Com os meus amigos que pediam um real para "comprá bola di fitxibóu" mas que o esturravam na primeira esquina em cachaça e eu fingia que não via. O de azul perguntou-me: "escuta daí cara, purque é qui você fala inrolado?"

-

Discurso da assinatura do Protocolo de Geminação com o Castelo do Piaui
25 de Julho de 2007

Há mais de 5 séculos atrás, Pedro Álvares Cabral deu novos mundos ao mundo, ao descobrir o Brasil. A partir de então e até aos nossos dias, o percurso dos nossos dois países não mais deixou de coincidir.

Quando há 4 anos atrás, descobrimos através de uma pesquisa na internet que existia um Marvão no Brasil e encetámos os primeiros esforços para estabelecermos contacto, estávamos longe de acreditar que os nossos melhores prognósticos se haveriam de tornar realidade e nos conduziriam ao tão desejado dia de hoje.

Para além das óbvias semelhanças de toponímia, há todo um rol de coincidências que nos unem ao nível das festividades, da gastronomia, dos usos e costumes, bem como da própria história que nos aproximam e passam oficialmente a unir depois da celebração deste acto solene.

Marvão é um pequeno município situado no centro de Portugal, junto à fronteira com a Espanha, que conta com cerca de 5.000 habitantes e que aqui se encontra representado por uma comitiva composta pela Dr.ª Catarina Machado (técnica superior de história que tem acompanhado o processo pela primeira hora); pela Dr.ª Madalena Tavares (vereadora em exercício à data dos primeiros contactos); pelo Dr. Carlos Sequeira (actual Presidente da Assembleia Municipal) e por mim próprio, Pedro Sobreiro que exerço actualmente as funções de Vice-Presidente; que irá assinar este acordo de geminação, este pacto de irmandade com o nosso elo perdido brasileiro.

Fizemos um longo caminho para aqui chegar: por carro e avião, atravessámos vales e planícies, serras, rios e todo um imenso oceano que nos une e nos separa, numa odisseia de mais de 20 horas de viagem para podermos ter a alegria de estar aqui junto a vós.

Nesta nossa estadia, não podíamos ter sido melhor recebidos por todos. Na realidade, quando se visita o Brasil, é fácil compreender porque razão o seu povo é mundialmente conhecido por ser tão simpático, generoso, caloroso e hospitaleiro.

Para municípios como os de Marvão e o do Castelo do Piauí que têm grandes aspirações turísticas e que apostam sempre e cada vez mais neste sector estratégico das nossas economias, esta geminação constitui a criação de uma ponte, de uma plataforma de união que nos irá desenvolver a ambos no âmbito cultural, empresarial e turístico.

É pois com enorme ilusão e com uma esperança redobrada que aqui assinamos o casamento entre os nossos municípios irmãos, abrindo uma nova página de cooperação na nossa história que nos trará um futuro certamente mais promissor.

O nosso muito obrigado a todos vós, em especial à equipa que está envolvida neste projecto desde a primeira hora, bem como a todos aqueles que tão bem nos têm acompanhado durante a nossa estada. Bem hajam pelo vosso esforço, pelo vosso trabalho e pela dedicação a esta causa tão nobre.

Lá vos esperaremos em Marvão, em Novembro deste ano, durante a XXV Feira da Castanha, para selarmos com a vossa visita este acordo de geminação e para daí em diante, trabalharmos em conjunto e crescermos de mãos dadas, sempre em prol do bem das nossas comunidades.

Viva o Castelo do Piaui. Viva o Brasil.
Viva Marvão. Viva Portugal.
Longa e próspera vida à nossa união!

Pedro Alexandre Ereio Lopes Sobreiro

Vice-Presidente do Município de Marvão

domingo, 20 de julho de 2008

A emissão segue dentro de momentos...


A gerência informa os estimados clientes que este estabelecimento comercial se encontrará meio encerrado nos próximos 7 dias, por motivo de deslocação profissional do proprietário ao estrangeiro.

Se as condições locais forem propícias, prometo dar novidades.

Um abraço aos que entram por bem e aos outros… até breve. O pai já vem.