segunda-feira, 14 de junho de 2010

África minha (sonhando contigo...)



Começou o Mundial. Dos 8 jogos já acontecidos apenas falhei um. Ando a papar 3 por dia.

Acho que não existe um outro evento que marque tanto o nosso tempo como um Mundial de futebol. Mais do que os Jogos Olímpicos, uma exposição mundial, as cerimónias dos Óscares, dos Grammies, dos Emmies ou dos Razzies, um Mundial espelha os tempos em que decorre.

Através dos Mundiais recontamos a nossa vida. Os Mundiais são marcos que nos ajudam a recuperar sentimentos e memórias de tudo o que estava à nossa volta então…

Argentina 78 e uma memória fugaz (concedo que pós-construída, afinal tinha 5 anitos) de um Maradona embalado em direcção às redes adversárias, num misto de Speedy González e bala de canhão…

A Espanha 82 do Naranjito e do meu Brasil de sempre com um elenco de luxo (Zico, Sócrates, Falcão…) a cair aos pés de um italiano anão (Paolo Rossi). Lembro-me de me ter trancado na casa-de-banho da minha avó a chorar convulsivamente, mas de tal maneira que ia morrendo engasgado com uma banana que ia mastigando para não desfalecer. A final já não interessou. O pior já tinha passado…

O México 86 de Saltillo e tudo à volta. Um motim na cabine e uma derrota com a Polónia que fez o favor de me estragar as vésperas da festinha dos 13 anos. ..

O Itália 90 e a sempre evitável festa alemã… de penálti, claro…

O Mundial dos States em 94 e o penálti falhado por Baggio. O Brasil de novo campeão. A alegria dos canarinhos e Taffarel rezando aos céus.

O França 98 em que a anfitriã se sagrou campeã e a euforia da consagração numa noite louca em que me encontrava em solo gaulês no regresso de uma visita ao Parlamento Europeu…

O Coreia/Japão de 2002 em que caímos de olhos em bico em homenagem aos da casa…

A Alemanha de todos os sonhos em 2006… quando cilindrámos holandeses e ingleses para nos prostrarmos de novo aos pés dos franceses, acabando por ser enxotados do 3º lugar pelos alemães. Saindo pela porta do cavalo…

Desta vez lá estamos de novo, dizem eles que dispostos a tudo mas o meu feeling… não é lá grande coisa. As dificuldades que tivemos em qualificar-nos, as mais que discutíveis opções de casting, a falta de chama e de poder de concretização, o poderio das selecções adversárias no nosso grupo… colocam-me no lado dos cépticos. Oxalá me engane, mas…

Aconteça o que acontecer, a verdade é que o Mundial não se esgota na nossa selecção. Se alguma coisa correr mal, a gente muda-se para outra selecção com que simpatizemos, seja porque tem jogadores do nosso clube ou pura e simplesmente porque delas sempre gostámos. Como digo, sejam canarinhos, argentinos ou ingleses, a malta quer é vibrar com o jogo porque é disso que se trata. Eu sou gajo até para torcer pelos espanhóis na final, se não tiver outro remédio…

O Mundial começou e eu vejo os jogos refastelado na minha sala, numa televisão que não é Full HD, nem tem 3D, nem nada dessas modernices mas dá para viver a coisa com paixão. Enquanto vejo os jogos vou-me entretendo com as minhas filhas, vou lendo, dando piscadelas ao computador, treinando violão sempre com os olhos no ecrã e fazendo muitas coisas boas mas o que eu gostava mesmo era de estar lá. Lá, na África do Sul, quase no fundo da terra onde os portugas dobraram o Cabo que todos temiam. Lá no meio da multidão, dançando com as pretas de fatos coloridos, fazendo macumbas, abraçando adeptos chegados de todas as partes do mundo, celebrando o futebol como fenómeno planetário que é muito mais que um jogo, muito mais que uma cultura, que é uma autêntica forma de vida.

E nem o barulho ensurdecedor dos milhões de abomináveis vuvuzelas me poderiam dali espantar. Eu gostava de correr de estádio em estádio, de ver os jogos todos, de estar na final e fazer uma festa independentemente do vencedor. Trocar camisolas e sorrisos, sentimentos e emoções, viver a magia de algo que é único e tremendamente belo.

A África do Sul pode estar longe demais para mim. Vale-me o consolo de saber que estou lá de cada vez que carrego no botãozinho do comando e à noite, quando fecho os olhos e faço por sonhar com estádios cheínhos de gente.
-
-
Já agora… não havia necessidade. Olha a foto que me foram tirar com o homem, o pobre, que está quase letárgico. Parecem putos do liceu no zoológico junto ao panda. Valha-me Deus...

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Desvia-te! Olhó Buraco!


Todos concordarão comigo quando digo que o Turismo é um sector estratégico para o desenvolvimento de Marvão.

É isso que me leva a ver com os melhores olhos toda e qualquer iniciativa que vise a promoção turística do concelho.

E é também por isso que me choca que haja quem não compreenda que o estado de desleixo em que se encontra a Estrada Nacional 359 (sobretudo o troço entre o Jardim e a vila) é todo propositado. Ora digam cá, o que é que tem mais piada? Trazer os miúdos para visitar um castelo de verdade chegando por uma estrada toda lisinha ou viajar por sua conta e risco, rumo ao desconhecido, numa toda esburacada, sabendo que se caírem num desses muitos buracos estrategicamente colocados correm o risco de morrer à fome no fundo de um sem que ninguém dê por nada? Pelo amor de Deus… Turismo de Aventura, rapaziada! Abram a pestana!

Se o tapete estivesse em condições e o asfalto fosse compacto, as crias adormeciam no banco de trás, aborreciam-se, pediam acção! Assim… é um gosto vê-los subir a encosta de olhitos arregalados, aos gritos de alegria de cada vez que o papá foge ao destino e finta mais um de boca escancarada.

Depois, há sempre a possibilidade da viatura sofrer um amasso… rebentar um pneu, lixar uma jante, fornicar um amortecedor… o que pode parecer algo aborrecido e dispendioso, sobretudo nestes tempos de crise, mas que depois causa grande frisson no regresso à urbe e ajuda a criar a aura de aventureiro à volta de todo e qualquer membro do agregado... dos mais piquenos no pátio da escola, dos papás no bar da empresa durante o coffee break, ou até mesmo do avôzinho durante os jogos de sueca na Alameda com os coleguinhas reformados. Coisa de VIP!

É certo que os indígenas, digo, os habitantes, nem sempre compreendem a eficácia da coisa mas esses também não têm que saber tudo. Olha… que vejam televisão e se entretenham com outras coisas.

Eu, que nem sou grande adepto de desportos motorizados, já dou por mim a sonhar acordado com uma etapa do Dakar com escala na Fonte da Pipa!

VVVVVVVVVvruuuuuuuuuuuuuuuummmmmmmmmmmmm!

Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

Saiam da freeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeennnnnnnteeeeeeeeeeeeeee!



Zona de espectáculo 1

2

3

4

Este desnívelzinho fica um pouco mais abaixo, junto ao Lagar da Abegoa, mas já é outra grande promessa do automobilismo radical do concelho. Está em testes há meses e já se pode dizer que funciona na perfeição, sobretudo quando se cruzam dois bólides ao mesmo tempo e o que vem subindo a encosta tem de abrandar bruscamente ou corre o risco de levantar voo. Espectáculo! Está genial! Muito bom! Requer grande perícia e vale 100 pontos caso a prova seja superada. Um must!

domingo, 6 de junho de 2010

E-mailando


Os e-mails são hoje uma das mais preciosas fontes de informação de que dispomos. Por serem de simples de executar, gratuitos e extremamente céleres tornaram-se num fenómeno comunicacional à escala planetária.

Envia-se por mail aquilo que jamais nos daríamos ao trabalho de redigir, enfiar num envelope, selar e pagar sabendo de antemão que só chegaria dias depois.

O electrónico do correio dos nossos dias coloca tudo à distância de um clique no botão. A mensagem que recebemos da Austrália pode chegar em segundos ao Brasil para instantes depois estar a cair numa caixa qualquer na Gronelândia.

É o nosso admirável mundo novo, no qual o ouro (informação) não se esgota mas antes se multiplica.

Os e-mails aproximam, divertem, questionam, fazem-nos rir e pensar.

É certo que também aqui não há meios perfeitos e há que saber seleccionar. Há muita palha, muita vigarice e muita mentira a circular. Mas se soubermos aproveitar bem, há documentos que se revelam notáveis.

Não resisto a publicar dois textos que recebi por separado, com alguns meses de diferença, mas que se encontraram numa pasta do meu computador apesar de estarem nos antípodas um do outro. Desconheço a veracidade do enquadramento e da origem mas sendo os dois tão verosímeis, custa-me a acreditar que não sejam autênticos. Lidos de seguida fazem uma mistura deliciosa que gostaria de partilhar convosco.

Para qual dos dois caminharemos nós?


Texto verídico retirado de uma prova livre de Língua Portuguesa, realizada por um aluno do 9º ano, numa Escola Secundária das Caldas da Rainha

REDAXÃO
-
'O PIPOL E A ESCOLA'
-
Eu axo q os alunos n devem d xumbar qd n vam á escola. Pq o aluno tb tem Direitos e se n vai á escola latrá os seus motivos pq isto tb é perciso ver q á razões qd um aluno não vai á escola. Primeiros a peçoa n se sente motivada pq axa q a escola e a iducação estam uma beca sobre alurizadas.
Valáver, o q é q intereça a um bacano se o quelima de trásosmontes é munto Montanhoso? Ou se a ecuação é exdruxula ou alcalina? Ou cuantas estrofes tem um cuadrado? Ou se um angulo é paleolitico ou espongiforme? Hã?
E ópois os setores ainda xutam preguntas parvas tipo cuantos cantos tem 'os Lesiades''s, q é u m livro xato e q n foi escrevido c/ palavras normais mas q no aspequeto é como outro qq e só pode ter 4 cantos comós outros, daaaah.
Ás veses o pipol ainda tenta tar cos abanos em on, mas os bitaites dos profes até dam gomitos e a Malta re-sentesse, outro dia um arrotou q os jovens n tem abitos de leitura e q a Malta n sabemos ler nem escrever e a sorte do gimbras foi q ele h-xoce bué da rapido e só o 'garra de lin-chao' é q conceguiu assertar lhe com um sapato. Atão agora aviamos de ler tudo qt é livro desde o Camóes até á idade média e por aí fora, qués ver???
O pipol tem é q aprender cenas q intressam como na minha escola q á um curço de otelaria e a Malta aprendemos a faser lã pereias e ovos mois e piças de xicolate q são assim tipo as pecialidades da rejião e ópois pudemos ganhar um gravetame do camandro. Ah poizé. Tarei a inzajerar?

Redacção feita por uma aluna de Letras, que obteve a vitória num concurso interno promovido pelo professor da cadeira de Gramática Portuguesa

Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador.

Um substantivo masculino, com aspecto plural e alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. O artigo, era bem definido, feminino, singular. Ela era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingénua, silábica, um pouco átona, um pouco ao contrário dele, que era um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos.

O substantivo até gostou daquela situação; os dois, sozinhos, naquele lugar sem ninguém a ver nem ouvir. E sem perder a oportunidade, começou a insinuar-se, a perguntar, conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado e permitiu-lhe esse pequeno índice.

De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro.

Óptimo, pensou o substantivo; mais um bom motivo para provocar alguns sinónimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeçou a movimentar-se. Só que em vez de descer, sobe e pára exactamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela no seu aposento.Ligou o fonema e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, suave e relaxante. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela.

Ficaram a conversar, sentados num vocativo, quando ele recomeçou a insinuar-se. Ela foi deixando, ele foi usando o seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo.
-
Todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo directo.

Começaram a aproximar-se, ela tremendo de vocabulário e ele sentindo o seu ditongo crescente. Abraçaram-se, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples, passaria entre os dois.

Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula.

Ele não perdeu o ritmo e sugeriu-lhe que ela lhe soletrasse no seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, pois estava totalmente oxítona às vontades dele e foram para o comum de dois géneros.

Ela, totalmente voz passiva. Ele, completamente voz activa. Entre beijos, carícias, parónimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais.

Ficaram uns minutos nessa próclise e ele, com todo o seu predicativo do objecto, tomava a iniciativa. Estavam assim, na posição de primeira e segunda pessoas do singular.

Ela era um perfeito agente da passiva; ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular.

Nisto a porta abriu-se repentinamente.

Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo e entrou logo a dar conjunções e adjectivos aos dois, os quais se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas.

Mas, ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tónica, ou melhor, subtónica, o verbo auxiliar logo diminuiu os seus advérbios e declarou a sua vontade de se tornar particípio na história. Os dois olharam-se; e viram que isso era preferível, a uma metáfora por todo o edifício.

Que loucura, meu Deus!

Aquilo não era nem comparativo. Era um superlativo absoluto. Foi-se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado aos seus objectos. Foi-se chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo e propondo claramente uma mesóclise-a-trois.

Só que, as condições eram estas:

Enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria no gerúndio do substantivo e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.
-
O substantivo, vendo que poderia transformar-se num artigo indefinido depois dessa situação e pensando no seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história. Agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, atirou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.
-
-
PS: Com um abraço e um agradecimento aos fornecedores dos ditos-cujos. Bem hajam!

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Nós fomos (ao Rock in Rio)! (e adorámos!)


Junte-se o sábio provérbio “o prometido é devido” e a expressão popular “o que tem de ser tem muita força” e facilmente se compreende como é que eu dei uma pequena fortuna pelos bilhetes mais caros que já comprei para realizar um sonho da vida da minha filha até ao momento.

Quando soube que a Miley Cyrus, a cachopinha que interpreta o papel de Hannah Montana na mundialmente popular série do Disney Channel, vinha a Portugal, a sua reacção imediata foi gritar com histeria e dizer, assim que recuperou o fôlego, “pai, eu TENHO de ir”. E eu sabia que este “TENHO” não era de birra ou de mimo mas antes a constatação de uma inevitabilidade. Eu admito que haja crianças que sejam tão fãs da Hannah Montana quanto a minha filha. Mais fãs do que ela já acho difícil. É que ela não falha nada! Vê e revê os episódios até à exaustão (sabe muitas das falas de cor e salteado), tem as músicas na ponta da língua (isto, claro está, num inglês técnico muito parecido ao do Sócrates), já viu o filme oficial, anda a ler a biografia (escrita aos 17 anos?!?!?) best seller do New York Times, não falha uma revista mensal que colecciona com fervor religioso, tem um poster 3d gigante no quarto e isto para não falar numa lista impressionante de merchandising onde se inclui por exemplo, o vestido oficial, as botas, a peruca (!!!), um relógio, malas, esferográficas… enfim… tanta coisa que dava para meter uma tabuleta de madeira à minha porta a dizer: “Visite o Museu não oficial da Hannah Montana em Portugal”. É certo que sou responsável pela aquisição de 90% desse material e esse é mais um dos motivos pelos quais não podíamos falhar ao concerto.

A vedeta americana era pois O motivo da expedição. Se fosse só ela a fazer playback em cima de um estrado iríamos na mesma pelo que tudo o resto vinha por acréscimo. Ditou a logística familiar que tivéssemos que deixar em terra a progenitora e a herdeira mais nova que ainda não puxa para estas coisas. Lá virá o tempo. Assim nos fizemos à estrada. As portas da dita cidade do rock abriam às 16 horas e eu fiz quase tudo bem para lá estar a essa hora mas as filas para comprar bilhetes para o metro recordaram-me que a partir dali não ia ser fácil.

A cidade do Rock, aterrada no território gitano da Bela Vista (onde os antigos dealers da Curraleira vivem felizes nas habitações sociais que todos nós oferecemos a quem, recorde-se, não paga um tostão de impostos) é um assombro megalómano. Depois de passarmos 3 barreiras de segurança, de sermos revistados e bombardeados com folhetos de toda a espécie passamos os portões e descobrimos um mundo onde tudo é grande, gigante, imenso. Coisa de brasileiros mesmo. Aquilo é uma espécie de paraíso da Igreja Universal só que numa versão Rock’n’Roll.


"Ó pai... as filas começam já aqui nos bilhetes do Metro? Medo..."


"Então mas esta coisa não pára?"




Assim que meti a vista em cima desta geringonça comecei logo a gritar: "INVENÇÃO DO SÉCULO! INVENÇÃO DO SÉCULO!" Uma máquina de imperial móvel ao estilo mochila? Com direito a geladinha com gás e copos incluídos? Disse logo para o jovem: "Quanto é que queres por uma?". "Dois euros". "Não tótó, pela máquina!". "Ui... isso é muito mais... 2 mil não chegam...". "2 mil? Então deixa-te estar. Não te incomodes. Dá uma pequenina e vai-te arrecadar à sombra que o sol está quente..."


As diversões são mais que muitas e há-as para todos os gostos. Não falta uma montanha russa, um downloader ao estilo elevador fantasma, uma roda gigante e mil uma mais atracções que polvilham o espaço todo e até poderiam ser uma proposta interessante se não fosse a fila pirilau de centenas (milhares) de cabeças que antecede toda e cada uma delas. Os grandes tubarões do consumo do nosso tempo, sejam eles do ramo bancário (Millenium BCP), das telecomunicações (Vodafone, Yorn), da alimentação (KFC, Pizzas), das bebidas (Pepsi, Licor Beirão) ou comunicação (RFM, Diário de notícias), também marcaram presença em stands gigantes que distribuíam brindes caso os interessados estivessem dispostos a digladiar-se por uma bagatela que tanto podia ser um anel que brilhava no escuro, uma guitarra insuflável, uma peruca rosa-choque ou um sofá insuflável que levou as gentes à loucura e as obrigou a horas à esturra para lhe poder meter as mãos em cima e chamar-lhe seu. Uma volta de reconhecimento pelo recinto foi mais do que suficiente para constatar a extensão interminável das “bichas” e levar-me a explicar à minha pequena que o melhor era “tirar o cavalinho da chuva”. “Viemos para ver concertos e concertos vamos ver. Vamos preocupar-nos em conseguir o melhor lugar possível para que tu possas ter uma boa perspectiva do palco e ficamos “contentinhos da Silva”. Se o que queres é passar horas em filas não era preciso termos feito tantos quilómetros. Íamos passar a tarde a um banco do hospital ou para um Centro de Emprego e já estava”. Acho que os argumentos foram suficientes porque ela concordou de imediato sem, pasmem-se, ripostar.
-
25 euros por uma t-shirt? Na Feira custam 25 cêntimos



Pois... está tudo muito bem mas quando falamos na montanha-russa dá nisto... Pena!



O palco principal fica no fundo de um vale, com duas encostas íngremes de cada lado e realmente não pode haver melhor local para se fazer um concerto. Para ser ideal só falta mesmo o ponto de água nas proximidades mas isso era ter o próprio paraíso na terra. Conseguir um ponto com visibilidade revelou-se ainda assim tarefa complicada. Era um dia para as crianças, que são pequeninas, mas as crianças são acompanhadas por adultos e aí a coisa complica. Se pensarmos que muitos deles têm o hábito de as meter às cavalitas para ver melhor, cedo descobrimos que temos um problema. Mas eu, que modéstia aparte não sou propriamente novato na coisa, percebi que as grades que protegiam as câmaras da SIC eram o spot ideal. Estavam a uns escassos 150 metros do palco, davam a possibilidade de a sentar lá para ver mesmo tudo (ficava mais alta que eu) e ainda por cima serviam de suporte para as costas e protecção da multidão em caso de algum imprevisto que temos sempre de contar com isso. Imaginem o que é aquela turba a mover-se em caso de incêndio ou acidente… Medo!

Depois de identificado o sítio e uma nesgazinha disponível, fui-me chegando, chegando, como quem não quer a coisa e pimba! Já está! Maravilha! Melhor era impossível. Depois foi só explicar à minha filha a lógica das necessidades da vida em festivais. Quem muito come muito bebe, quem muito bebe muito mija (eu disse urina mas mija fica mais engraçado) e quem muito mija não só não pára quieto como perde os espectáculos, o lugarinho bom e ainda por cima se pode perder dos pais (em criança) ou dos amigos (se for adolescente e estiver bêbado). A cachopa não passou fome, nem sede, nem fez nas calças mas basicamente aprendeu que concerto é também dureza.






Os D’zrt abriram as hostilidades com estrondo e bem, digo eu. São jovens, são bonitos, talentosos, cantam bem, dançam melhor, têm uma grande banda (monstruosos baixista, guitarrista e baterista), estão rodados e não dão hipótese. Aquele Angélico então é um escândalo. Aquele homem é uma ofensa a quem se preza e esforça por ter um físico em forma e sem gorduras. O jovem parece que foi esculpido pelo próprio criador… que inveja! E depois é mestiço, estava quase nú com umas asinhas de anjo nas costas, sempre a insinuar-se às cachopinhas… enfim… uma lascívia! Uma pouca-vergonha! Um escândalo! Fartei-me de assobiar mas quando percebi que era só eu… calei-me. Os D’zrt brilharam e mereceram a ovação.






Entrementes tínhamos de ir dando ao dente que a bucha aviada pela mãe veio mesmo a calhar e a jornada ia ser longa

Vocês nem imaginam o sucesso que estas botas fizeram. Quantas pessoas pararam só para lhes tirar uma foto... Realmente, se houvesse o número 44... até eu era gajo para ir montando numas destas prás Finanças. Classe!


A Amy MacDonald é lindíssima e faz uma folk actual fresca e pop que tem conquistado tops por toda a Europa mas se me perguntassem à partida, diria que tinha sido um erro de casting, que não fazia sentido surgir num cartaz de estrelas teenager produzidas pela e para a televisão. Enganei-me e apercebi-me disso quando vi os paizinhos todos a bailar e a cantar ao ritmo dos seus últimos hits radiofónicos. A Roberta Medina, para além de gatchinha sorridêntchi é muito sabida e enfiou ali uma bucha muito bem metida para calar a boquinha aos papás e mamãs. Espertalhona… Tirando os êxitos imediatos, aquilo é música que não aquece nem arrefece sobretudo num festival daquele género onde a malta quer é pedal, gritaria e maluqueira. Devo dizer-vos que a mim me agarrou pelos tintins quando sozinha em palco, se atirou a uma belíssima cover de “Born to run”, o épico de mestre Springsteen que ali conheceu uma versão em “flesh and bone” com sotaque das ilhas. Viu-se logo que aquela já lhe saiu milhares de vezes dos dedinhos e da garganta, primeiro no quartinho de adolescente e depois nos pubs da terrinha e arredores. She meant every single word and chord e isso foi, de longe, o ponto alto da sua actuação para mim.






Os McFly foram a grande surpresa da noite e isto a partir do preciso momento em que “voaram” para cima do palco e conseguiram dominar todas as atenções. Apesar de serem muito jovens são já bastante experientes e denotaram uma enorme vivacidade em palco que não deixou ninguém indiferente. O seu som é uma espécie de “Teenage Punk Pop” situado algures entre os Green Day e os Take That (aprimorados com harmonias vocais e melodias da escola Beatles) que deve tanto ao rock mais melódico e speedado como ao conceito das boys band. São todos muito bem apessoados, carinhas larocas, roupinhas da moda mas isso não quer dizer que sejam só bonecos e não cantem muito bem e sejam exímios executantes. É certo que a sua música tem tanto de orelhuda como de inócua, mas ali também ninguém esperava uma banda que quisesse salvar o mundo. É pop “pastilha elástica” mas cumpriu o dever com distinção. Como se não fosse suficiente já me terem convencido, ainda tiveram a cortesia de tocarem uma eficiente cover (mais uma… cota!) dos meus hinos favoritos de sempre… “Gotta fight for your right (to party!)” dos Beastie Boys, que é como quem diz “se queres curtir tens de bater pé e lutar por tudo aquilo a que tens direito”. Ora bem! É isso aí!






Os momentos que antecederam a entrada em palco da cabeça de cartaz foram de histeria total. Cada vez que entrava um roadie e se movia no escuro, os gritos eram tantos que mais parecia que estava no Shea Stadium em plena Beatlemania. Fartei-me de explicar à minha filha que não era a Hannah Montana que ia ver. Disse-lhe que a miúda tinha crescido… que estava farta da série e da personagem… que queria ir à vida dela… A minha dizia-me que sim… que sabia… que não havia problema… que ela adorava a Miley Cyrus e sabia que estava diferente.

Diferente sabíamos nos mas tããão diferente… acho que ninguém esperava. Entra-me aquele furacão pelo palco adentro e não deve ter havido um único paizinho que não tenha ficado de boca aberta. A minha disse-me (diversas vezes) “ó pai, fecha a boca que entra mosca”. Um body verde do mais justo que pode haver (mais explícito só se viesse toda nuazinha), parte de trás à meia canela a deixar ver metade das bochechas do rabo… Ai eu… Se a cachopa tem 17 anos, valha-me Deus!!!! Eu virei-me para uns pais que estavam ao meu lado, também eles à beira do AVC e disse-lhes: “a minha tem por hábito querer vestir-se como ela. Se continuar com a mania… acho que vamos ter problemas em casa…”. E não era bem só a fatioca… Era a pose provocante, os olhares, os trejeitos, as insinuações para os bailarinos e os músicos. E as pernas… as pernasssss… pernas até ao pescoço. Eu sei… é criminoso…

Quanto à actuação foi aquilo que eu e acho que toda a gente esperava: irrepreensível, ultra-profissional e só ao nível de uma jovem Madonna, de alguém que foi treinada desde criança-prodígio para um dia se sentar no trono de rainha da pop. Para mim merece-o muito mais que a outra que já está velha e cheia de peles, vá-se lá amolar!

Uma banda do melhor que pode haver, um corpo de baile que funcionava na perfeição, um aproveitamento genial do mega ecrã que servia de cenário com constante passagem de imagens que “ilustravam” cada tema e depois… uma grande voz, uma presença carismática que encheu todo palco, uma colecção de hits de primeira água… tudo do bom e do melhor.

Foi 1 hora e tal de delírio total que a todos soube a pouco. A minha ainda fez beicinho… “já acaboooouuuu…oooohhhhh”. Ainda bem que não chorou. É que eu ia atrás. Já tinha tantas saudades da piquena…

Ponto alto in my opinion: mais uma cover, tinha de ser. Outra grande malha: “I love Rock’n’Roll” da Suzy 4. Grande escolha! Tudo a ver com o novo fôlego da sua carreira. Hannah Montana?!?!? Mas qual Hannah Montana?!?!? Myley Cyrus, pá! Sou fã!





E prontos, como um fogo de artifício fica sempre bem nestes ajuntamentos, lá apareceu o Ti João Esteves para largar umas granadas de luzes que a malta curte é festa. Quando a mole humana se começou a mover em direcção à saída é que eu me apercebi verdadeiramente da quantidade de pessoas que ali havia. Diz que quase 90.000!!! Nunca pensei que houvesse tanta gente no mundo… Parecia uma cena do filme “Marabunta”, aquele o das formigas. Que coisa! Foge!

Agora estão a ver o que é aquela massa de gente a querer entrar para um táxi ou para o buraquinho do Metro. Giro, não é? A minha só reclamava e eu respondia-lhe: “Ai queres concertos? Isto é dureza, filha. Faz parte da coisa. Tens de sofrer também. Conforto é em casa, no sofá!”.

Quando já íamos no carro a caminho de casa, deixou-se dormir a cantarolar uma qualquer das que tinha ouvido. Acho que ia feliz.

Achando um roubo as t-shirts oficiais a 25 euros que diziam “EU FUI”, aproveito para me desforrar aqui…

“NÓS FOMOS!” e adorámos!
-
-