segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Em espera...


Esta parte da fisioterapia é… para mim, particularmente difícil e dolorosa. Não em termos físicos, entenda-se bem, mas em termos mentais e psicológicos. O retorno, o retrocesso ao que nós queremos parece tão difícil que por vezes mais parece impossível. Eu explico… calma! Na quinta-feira, à tarde, dei uma caminhada de 9 quilómetros. Na sexta, seguiu-se outra caminhada de 9 quilómetros que por sua vez foi repetida ao sábado com mais 9 quilómetros. Estamos a falar de uma distância que não é coisa despicienda e que custa muito a fazer, sobretudo a mim, neste estado que sinto e me apercebo de cada passo que dou. Mas bem, como parado nunca fui e não quero ficar, lá fui a ver de forças para levar a água ao moinho, pensando que estava a fazer bem. Não foi isso que eu ouvi hoje da boca de quem me treina o físico e me disse que por aquilo que lhe era dado hoje a ver, o fim-de-semana me tinha feito mal porque eu vinha num estado em que “trancava” muito as pernas cá atrás para me dar segurança a nível de equilíbrio. Difícil de ouvir, não é? Um gajo esforça-se, faz tudo aquilo que é capaz para ficar melhor mas é levado a concluir que nem sempre a vontade e a força de querer se compreendem e se explicam. Ou seja, nem sempre o que se investe e aposta tem tradução no papel. Duro… Eu acredito piamente no que me foi dito e compreendo mas lá que custa a quem tanto fez… custa! Eu vou continuar na minha, continuando a fazer a minha recuperação e caminhadas, tentando voltar a sentir-me fisicamente como estava, nunca baixando os braços nem deitando as coisas a perder. Ficar em casa a ver programas do Baião não faz (nem nunca fez!) parte dos meus planos, de forma que não me resta outra alternativa que mexer-me e aplicar tudo aquilo que me ensinam. Com muita dedicação e muito esforço eu tenho mesmo de lá chegar. Tem de ser!

(Faz parte da mesma crónica mas não tem nada a ver. Não comecem a pensar e a teorizar coisas. Faz parte porque sim, porque aconteceu assim).

A minha mãe, Alzira Sobreiro, regressou hoje ao hospital de Montemor para voltar a ser operada à perna pelo último médico que tinha operado. Esta que é a sua ladainha, parece ser uma caminhada difícil demais para uma pessoa só. Caiu num domingo de manhã quando se encaminhava para a missa na igreja da Beirã e desde então tem sido um suplício ao ponto de nunca mais ter ficado com a perna como a tinha, apesar das muitas operações. Foi operada logo aqui em Portalegre quando se pensava que a cirurgia resolveria logo tudo mas voltou a ser operada diversas vezes (já nem sei precisar quantas…) depois disso. O resultado é que a perna continua a não funcionar, a prótese continua a não estar bem, continua a coxear, continua a sentir-se mal, continua a ter dificuldades. Espero que desta vez fique com o problema resolvido e consiga retomar a sua vida que bem merece. Por muito já passou ela.

Eu sou católico mesmo. Eu acredito em Cristo, nas suas palavras e ensinamentos. Já não acredito tanto na igreja católica e muito menos nas atrocidades que se têm cometido à sua luz ao longo dos tempos. Mas como católico que sou, há uma série de perguntas que gostaria de formular a quem de direito e ver respondidas. Oxalá que ainda falte muito tempo porque a minha ideia é só vê-las respondidas no dia final, mas ainda assim gostaria de lhas fazer porque me parecem da mais elementar justiça. Eu sei que temos de dar graças pela nossa vida e existência (eu faço-o todos os dias), mas parece que há vezes em que tanto azar é demais, tanta coisa má também chateia e deixa tudo por compreender. Não concordam? Gratos por estar vivos (é um facto inquestionável do qual ninguém duvida), mas com tanto azar porquê? Já merecíamos outra sorte…

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

You only live twice...


Hoje de manhã, a fisioterapia em Portalegre levou-me para a rua, no largo de entrada do hospital onde fiz alguns exercícios relacionados com a marcha e o equilíbrio. Subi e desci a rampa e as escadas, andei para trás, caminhei para cada um dos lados, fiz uma série de trabalhos que para mim são de todo pertinentes (e difíceis!) mas que podem parecer estranhos para quem observa. Só de pensar…


Imaginem que eu estava do outro lado, detrás de um daqueles vidros altos do edifício a observar a situação e o que não me passaria pela cabeça a ver tudo aquilo… “Coitado do rapaz… O que era e o que é…”. Caminhando lentamente, sem equilíbrio, receando falhar ou dar passos em falso… lá fui avançando, a pouco e pouco. A dado momento, numa das muitas manobras, vislumbrei a minha silhueta no vidro de um dos carros que por ali estava estacionado e pude mesmo constatar o meu aspecto. Apesar de me aprimorar bastante e sinceramente, me arranjar sempre muito bem tendo em atenção as vestimentas e os pormenores, pareci-me mais velho, muito parado, pareci-me algo abatido até. Foi um choque até para mim ter oportunidade de me poder ver, poder ter um soslaio da aparência. Foi importante porque eu ali não tinha um espelho, uma vista narcisista só para mim. Tive uma visão do Pedro “de fora”, de como é que alguém de fora me pode ver, se é que me consigo explicar. É estranho mas ali no reflexo, na rua, no meio de tudo e de nada, eu consegui-me colocar “no exterior de mim” e ver-me como se fosse apenas mais um. Pareci-me uma versão limitada de mim, redutora, uma visão aproximada daquilo que eu sou efectivamente hoje, em recuperação, como eu gosto de me ver, como alguém que luta e caminha para o seu regresso em força.


Na entrada principal do hospital, um segurança do meu tempo, brincou comigo e perguntou-me quando é que “jogamos à bola outra vez?”.


“Bola? Pedro", perguntou-me a fisioterapeuta. “Mas também jogava à bola?”.


Eu respondi que sim, que tudo o que fosse desporto, eu estava lá! Para além de ser muito bom fisicamente, era também mentalmente estimulante e sendo assim, não perdia uma! O que é que eu fazia? Tudo! Fazia muito atletismo (incluindo meias maratonas), muita natação, muito ciclismo (em btt), tudo!, de forma a ocupar sempre os dias e ter uma actividade física constante e exigente comigo mesmo que eu não dava descanso!


É claro que esse meu tipo de postura foi fundamental até nestes dias tão difíceis, quando estava muito longe de pensar “cobrar” ao corpo aquilo que apostava nele. Não tivesse sido toda essa mais-valia, todo esse investimento… teria sido muito mais complicado e as consequências do acidente poderiam ter sido muito mais gravosas, como se temeu a princípio.


“Ele?”, comentou o segurança com outros amigos que chegaram entretanto, estavam próximos e com os quais comecei então a trocar impressões. “Vocês nem imaginam como ele aqui chegou… Eu estava aqui no hospital de serviço e foi um rebuliço. Ficou toda a gente (da parte médica) aflita a pensar no que fazer e em como fazê-lo. Até no transporte para Lisboa se pensou muito bem…”.


Eu depois fui juntando esta às histórias que me tinham dado a conhecer durante os últimos tempos e percebi… a dificuldade do transporte para a capital, o receio se resistiria à pressão craniana depois do traumatismo, o medo de ser transportado em helicóptero… enfim… tudo!


Às vezes, por melhor e mais científica que seja uma explicação, é assim, nestes pequenos momentos e instantâneos que se compreende realmente a profundidade das coisas. Foi assim, neste acto inusitado e nesta conversa inesperada e breve que eu fiquei realmente a compreender a extensão e a densidade de tudo. Foi grave, foi mesmo muito mau e eu tenho de dar muitas graças a Deus por ter sido tudo assim e ter tido tudo um desfecho tão bom e tão favorável para mim. De que me vale a mim se a imagem que o vidro do carro me reflecte está abatida, ou envelhecida, ou chateada, vá? O que importa, o que vale realmente a pena, o que tenho mesmo de guardar e agradecer é que o gajo está cá, está vivo, está na luta e a dar cartas. O homem está a jogo e em vez de queixumes e lamentações tem é de dar mais valor e olhar muito mais para o que tem, enaltecer tudo muito bem e agradecer. Agradecer tem de ser o que o que tem de prevalecer na minha mente. Saber viver, não lamentando mas alimentando o sentimento de agradecimento. Como disse o bom do Ian Fleming na sua maior criação James Bond: “You only live twice: once when you ‘re born, and once when you look death in the face” Realmente “só se vive duas vezes: uma quando se nasce, e a outra, quando se olha a morte de frente, na cara”. Que certo estava o homem!

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Por Lisboas...



Ontem foi dia de consultas em Lisboa.


Um duro dia de consultas em Lisboa. Dependendo da hora de entrada que geralmente até é bem cedo, o mais certo e o mais natural é ter que se passar por lá a noite anterior e aqui dá sempre jeito que se tenha onde pernoitar nas redondezas. É que Lisboa não é bem ali ao lado e sendo que se tem de percorrer mesmo muita distância, uma guarita ajuda sempre. As consultas em Lisboa, na capital do país, complicam-me sempre o sistema nervoso, ainda por cima quando são tantas como eram nesse dia. Logo 3! Comecei bem de manhã em São José com uma fotografia ao “corta-palha” que me fazia falta para a consulta ao maxilar. Depois de verificado por quem de direito, tive assinatura na guia de marcha e um “visto”na caderneta de formatura com marcação de dia para o regresso. Dali fiquei aviado! Avancei depois para uma consulta da médica que me analisou a “cremalheira” e se fartou de me dizer coisas que para mim são importantes e fundamentais. Nem sequer faltou um recadinho escrito com uma mensagem que eu hei-de sempre recordar e guardar: dizia que a evolução verifica-se mas é muito lenta e não há que desanimar com isso porque há-de haver um dia em que se olha para trás e se vê que tudo passou. Oxalá esse dia chegue mesmo e eu possa ver as coisas assim! Nem acredito que seja possível!


O dia não ficou completo sem uma visita ao hospital dos Lusíadas, bem próximo da catedral da Luz, para de tarde ter uma consulta em oftalmologia. Eu conheço bem o hospital onde fiz duas operações às hérnias discais que me resolveram o problema, mas desta vez, entrei a ver bem e saí “pitosga” com a dilatação que me tiveram de fazer às pupilas. Todo o caminho naquilo… Regressar de Lisboa já não é só por si fácil, agora… quando um mano se sente sem equilíbrio e ainda por cima “vesgo”, a ver os carros a passarem logo ali ao nosso lado e a vislumbrar a estrada e a paisagem como se fossem um borrão… piora! É uma jornada que é toda uma experiência à nossa integridade e resistência. Livra!


O que vale é que qualquer um dos 3 doutores me “traçaram” um quadro animador dizendo que a coisa está bem encaminhada ou a recuperar, que os retrocessos são pouco notórios mas resolúveis, enfim… disseram-me que estou bem encaminhado na minha perspectiva de regressar à minha vida que é o que eu mais quero e percebe-se!


Eu lá vim, todo contente e animado com o que ouvia, “agarrando-me” a tudo como se fossem verdade insofismáveis, tomando tudo como garantia, nem sequer questionando ou colocando em causa o que me diziam.


Eu até compreendo que a minha fisioterapeuta me tenha dito hoje de manhã que eu estava mais cabisbaixo, mais acabrunhado, sem tanta alegria. Eu compreendo mas não concordo com ela porque para mim eu estou sempre igual, bem disposto e animado com as coisas. Compreendo porque voltar a Lisboa não é fácil: regressar aos sítios onde tanto lutei com a morte, onde puxei tanto pela vida, voltar àqueles “campos de batalha” deixa-me sempre pensativo, a “olhar para dentro” e reflexivo. Veja eu os médicos que me salvaram, os outros doentes, ou até as paredes antigas daquele velho edifício centenário… fico sempre a meditar. Há coisas para mim que de agora em diante nunca mudam, ir a Lisboa… é sempre ir onde eu fui salvo. Aquela cidade que sempre teve tanta magia para mim, agora tem mais essa! E eu não esqueço!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Pé ante pé



Com esta idade ando a aprender a andar. Mesmo! Não se extasiem, não gozem com o gajo, levem mesmo a coisa a sério porque é de levar. Com quase quarenta anos… não esperava por uma destas! Ainda hoje de manhã, na fisioterapia no hospital de Portalegre, ia ouvindo e aprendendo a forma correcta de colocar os pés com a minha técnica e ela chamava-me a atenção para pormenores que passam despercebidos ao mais comum dos mortais na sua caminhada mas que para mim são agora estratégicos na recolocação do equilíbrio no meu corpo. Ter o cuidado de não esticar as pernas não iludindo assim a recolocação do tronco, ter a noção da transferência do peso do calcanhar para os dedos da frente, enfim… coisas que parecem pequeninas (e inatas…) aos demais mas que para mim são fundamentais porque é com o somatório de todas elas que eu volto a ganhar a minha autonomia, a minha independência, é com todas elas que eu volto a ser eu. A falta de equilíbrio é o que mais me custa agora. Braço que não dobra? Eu quero lá saber do braço que não dobra embora seja o primeiro a reconhecer que ter um braço assim não ajuda em nada. Não ajuda a fazer a barba que geralmente era cortada com esta mão; não ajuda nas refeições por causa de segurar nos talheres; não ajuda a vestir; não ajuda no banho; não ajuda sequer na posição em estar deitado para o lado… mas com ele posso eu bem! Hei-de adaptar-me ao gajo, embora a questão do equilíbrio seja a que custa mesmo mais a tragar. Como é que se volta a ganhar o equilíbrio? “Com o tempo… só deixando passar o tempo”, diz-me quem sabe. “Mas quanto tempo?”, pergunto eu. “Que posso eu fazer para que faça tudo mais rápido? Há alguma coisa?”.


Nada! Não há nada! Só gramar e deixar indo passar a coisa, o que constitui uma verdadeira guerra de nervos connosco próprios. Uma guerra invisível, mas ainda assim, uma guerra. Aparentemente quem olha para mim não consegue notar nada à vista desarmada. “Este Pedro é o Pedro de sempre!”, dirão. “Até está com óptimo aspecto” e “não faz nada pensar que esteve tanto tempo acamado, tanto tempo no hospital. Já está mais gordinho de cara e tudo”. Pois, eu compreendo e agradeço imenso que me digam tal coisa. Para mim é reconfortante mas faz com que a minha luta seja desigual. Eu explico: quando as lesões são óbvias e visíveis, ninguém se mete ao caminho porque o respeito fala mais alto. Se o gajo tem uma ferida que se vê logo à partida, se tem uma cicatriz, se o gajo tem uma fractura, se há algo que não engane o mal que ele está…. percebe-se logo. Avance-se! Agora… no meu caso que fisicamente passo despercebido, que tive um gravíssimo caso interno, que me falta o equilíbrio que tinha… é mais complicado! O mal está cá e nós sentimo-lo (e de que maneira!) mas é muito difícil de passar para os outros. Têm que fazer um grande esforço para se meter no nosso papel, para tentar compreender o que estamos a sentir. Por vezes é muito difícil conseguir explicar isto mas eu sinto que sou uma casa que foi toda desmantelada e reconstruída de novo. As peças estão cá mas nem eu as reconheço enquanto tal. Deixaram o sótão mas tudo o resto foi remodelado, mudado de sítio e eu agora estou a voltar a meter tudo no lugar. Fizeram-me um “reset” e a mim agora cabe-me o papel de voltar a meter tudo no sítio.


Imaginemos que, como sucedeu ontem, eu reencontro um indivíduo amigo de fora mais velho que não estava há muito tempo comigo e me perguntou, levado pelas conversas que eu ia mantendo, “que me tinha sucedido?”. Eu lá lhe respondi que tinha tido um acidente muito grave de vespa que me deixou em coma, e ele, olhando para mim, há-de com certeza ter pensado que “a coisa há-de recompor-se e voltar a ir ao lugar!”. Dito assim eu compreendo e até parece que foi… (não digo fácil porque parece mal) simples. Mas não foi nada. Fisicamente estive muito mal, estive mesmo do lado de lá (embora de nada me recorde). Os internamentos foram mais que muitos e todos eles pesados porque eu não acredito que haja quem goste de estar numa cama dum hospital onde o tempo custa mesmo muito a passar. Mas isso são histórias que eu guardo só para mim… Agora o que interessa é que eu estou na luta, estou de regresso, tudo faço para recuperar mas isso não depende só do quanto eu queira e do quanto faça força para ser. Depende de muito mais... Depende de muito mais porque é uma questão neurológica e por vezes, a força e o quanto se quer não é tudo…


Hoje na fisioterapia estava um cachopinho que era muito pequenino e estava a aprender a andar. Estava encantado comigo. Um homem tão grande a fazer exercícios tão simples como subir para uma lista telefónica e andar num só pé. Estava admirado. Eu compreendo-o. Na boca das crianças e no espanto deles está a verdade… “Mas que raio fará um homem a fazer isto?”. Não percebeu… E eu comentei com quem de direito: “Está assim e percebe-se… Eu sou muito maior mas a andar levo-lhe muito pouco e estando eu num estádio tão pouco à frente… tenho de aceitar, ser humilde, trabalhar e aguardar. Pode ser que um dia possamos dar uma caminhada os dois”.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Always look on the bright side of life




Feliz ano novo para todos! Mesmo!



Eu passei para este ano… a dormir! C-a-r-e-t-a! Dirão todos vocês em coro e eu compreendo. Eu também o faria! Não posso por isso recriminar. Se me tivessem dito há um ano atrás que eu passaria este a dormir, eu nem me acreditava, mas é assim e é verdade! Eu e a patroa deitadinhos no quarto com a mais pequena, que a mais velha queria era discoteca e os avós levaram-na. As voltas que a vida dá, meus bons amigos… O que parece ser verdade hoje e é-nos intocável, muda num instante, rápido! Eu passei o ano como nunca pensei que o passaria! Se me tivessem dito, eu não acreditava mas estava-se lá mesmo bem. Tãããão bem, no quentinho. Nem champanhe, nem gritos e urros, nem festas, nem cumprimentos, apenas passou. Também é verdade que nós tínhamos a pequenita para olhar, é verdade que a minha patroa não é dada assim muito a ajuntamentos e a festas, mas também é verdade que sendo eu um folião, nada fazia prever que tal pudesse acontecer. Mas aconteceu e eu não me arrependo nada de ter sido assim. Quanto ao ano que passou… eu não tenho nada contra, por incrível que isso possa parecer. Foi um ano duro sim, difícil, o mais terrível para mim e para a minha saúde, mas foi um ano que, ainda assim, me deixou cá, com vida, capaz de espernear e dizer das minhas. Apesar do azar todo, apesar do terrível acidente que me poderia ter levado… não me levou e eu tenho de dar graças a Deus por isso. Podia ter sido fatal, poderia ter sido de vez, poderia ter-me deixado a falar sozinho, num estado sorumbático, colado a uma cama, poderia ter-me feito tanto mal (muito, todo), poderia ter dado cabo de mim de vez… mas não deu e eu tenho de dar graças por isso!


Quando os Monty Python cantaram o “Always look on the bright side of life” no fabuloso filme “Life of Bryan” sobre a vida de Cristo, fizeram muito mais que uma canção, conseguiram corporizar a forma de se ser feliz porque deram o mote para uma existência… feliz: por muito má que seja, por mal que corra a coisa, há-de haver sempre uma maneira positiva de a ver. Esse é o grande segredo da felicidade! Já que não se pode ter tudo, vamos minorar aquilo que é menos agradável e nos faz mal, vamos deitá-lo para trás das costas e dar valor aquilo que realmente merece e vale a pena. A vida é muito curta, é apenas um “abrir e fechar de olhos”, é um repente, de forma que não vale (mesmo!) a pena dar valor ao que não merece e deixar-nos embalar. E vejam bem que isto não é a minha conversa de agora de alguém que está a recuperar e passou os últimos meses no hospital! Isto é a minha conversa de sempre que agora ganhou uma força interpretativa e uma lucidez extraordinária graças aos últimos acontecimentos. Não há nada de novo aqui, apenas a confirmação e o reforço de algo que foi sempre uma convicção minha: “vê a vida do lado correcto: o lado luminoso, o lado brilhante, o lado que deve e merece ser visto porque esse é o lado certo”!


Apenas para vos dar um exemplo das coisas, para terem uma noção de como este conceito pode ser aplicado na nossa vida das momentos mais importantes aos mais simples: ainda ontem me chamaram do hospital de Portalegre para uma terapia ocupacional, o que para mim, seria suposto de pensar que era algo que não se adequava. Eu sou um homem com a vida montada. Tenho emprego, tenho ocupação. Tenho um lugar de trabalho que me custou tanto estudo e tanto esforço e tanto, mesmo tanto a conseguir, para quê a coisa agora esta da terapia vocacional? Para descobrirem que eu afinal deveria de ter seguido as pisadas de pintor que não tenho? Para perceberem que afinal posso ser um mágico de renome? Que posso tentar algo de novo? Que errei na vocação? Que deveria tentar uma diferente? Tanta pergunta, tanta questão, tanta dúvida que o mais fácil mesmo era dizer que não ia e resolvia logo assim a questão. Mas o enorme respeito que tenho pela médica e pela fisioterapeuta que são profissionais exemplares e me trataram sempre da melhor forma, não me permitiu virar as costas ao que me propunham. Assim que da forma que me marcaram e tal qual era combinado lá compareci, bem comportadinho como sempre, para o que fosse. E que sucedeu sem eu ter dito nada? Sucedeu aquilo que eu queria, naturalmente, da melhor maneira possível. A fisioterapeuta percebeu logo que aquilo não era para mim, que o tipo de actividades não eram adequadas, que ali não ia melhorar em nada a minha situação, que o melhor era dar-me “alta” daquelas actividades e deixar-me seguir o meu caminho, a minha recuperação face ao que eu era. E decidiu bem, extraordinariamente na minha forma de ver porque eu subscrevo inteiramente tudo aquilo que opinou. Novas fisioterapias se seguirão. Era tempo de deixar para trás as minhas duas companheiras de trabalho naquela hora, duas senhoras com idade para serem minhas avós que trabalhavam na sua recuperação depois de quedas ou acidentes que as limitaram. Uma até era daqui do concelho… “O senhor é o Pedro Sobreiro? Lá da finanças de Marvão? Ai o meu filho e os meus netos conhecem-no muito bem e eu também o conhecia… da última vez até me ajudou muito a fazer o meu IRS… não sabia que era você! Olha… mas diziam que tinha a boca toda partida e sem dentes mas afinal até está muito bem… tem os dentes todos metidos no lugar e está normal como estava. Olhe, prazer!”. E eu, sorrindo e rindo e dizendo a “sim” que tudo, lá fui concordando, anuindo, respondendo com a cabeça, percebendo que até ali, no sítio onde menos esperava, era reconhecido da melhor forma e pelos melhores motivos porque eu sempre achei que nestes pontos rurais, do interior, o melhor papel das finanças é “esmiuçar” os assuntos para que possam ser compreendidos por estas pessoas, é “traduzir” o que é tantas vezes difícil à primeira vista, é tornar os assuntos inteligíveis. Aproximar o fisco dos contribuintes cumpridores e bem intencionados era uma das missões que me impunha moralmente que corria em paralelo com ser acutilante com os prevaricadores porque assim tinha de ser. Longe estava eu de ser reconhecido ali, desta forma. Afinal, fiz mesmo bem em ter ido porque tudo correu como eu queria com este bónus de extra. E que bónus!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Eu televejo... o mundo

Das notícias televisivas recentes, muito frescas mesmo (destes últimos dias), eu retiro a seguinte ideia:

Subindo para o morro?

Na Colômbia conseguiram o feito de instalar uma escada rolante dentro de uma favela em Medellin. Estranho não é só o facto de juntarem algo que está ligado ao “luxo” num ambiente que lhe é absolutamente estranho. Bizarro é só olhar e poder ver esta estranhas imagens…


Rei morto, rei posto…

Kim Young Un foi proclamado líder supremo da Coreia do Norte. Filho e sucessor do ditador recentemente falecido, aproveitou o facto da beleza não ser levada em linha de conta e fez-se à coisa, contando para tal com a ajuda de um valentão de um tio que de interesseiro não deve ter nada. O rapaz tem ar de quem passou a vida inteira a dormir a sesta, ó valha-me Deus… Estão bem servidos, estão!


Pessoa errada no sítio errado? Azar do catano…

Um ataque aéreo turco matou, por engano, 35 pessoas que estavam perto da fronteira com o Iraque. As vítimas eram habitantes de uma aldeia que se dedicavam ao contrabando e foram confundidos com rebeldes curdos.


Como é que disse?

Hugo Chavez fez o papel que é seu por natureza e no papel de louco de serviço achou que os Estados Unidos utilizaram o seu papel e influência na medicina para disseminarem uma onda de cancros pelos líderes sul americanos. Foi o Fidel, o Lula e ele também não se está a sentir nada bem…


Metiendo la mano...


A corrupção chega a todo o lado e até o genro do rei de Espanha não se escapa de ser agora acusado de ter “lavado” as mãos. Ao que parece, Iñaki Urdangarin, para além de ser um jovem rapaz, garboso e cheio de estilo que por acaso até se sabia agarrar às bolas de andebol, também era craque a dar “banhada” ao dinheiro e a fazer das suas. A comunicação social espanhola não o larga e já nem a realeza vai estando livre destas coisas dos comuns mortais… Que coisa esta? Quando começa assim…


Para um rapaz que esteve praticamente metade deste ano internado, hospitalizado, longe do mundo… que se quer agarrar à vida e ao que se passa, as notícias não são seguramente o ponto de partida mais indicado. Quando se pretende ser sério e saber o que se passou… mais vale tentar outro meio e ir a um oráculo porque por aqui, por aquilo que chega pela televisão… não se chega lá! Que confusão! Mas quem é que virou isto de pantanas? Ou já estava?

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Sabor a Brasil



Hoje tive o enorme prazer de ter sido convidado pelo amigo Marôco para almoçar com ele, seus convivas e familiares, em sua casa, na quinta situada perto de Castelo de Vide. Habituei-me a conhecer e a admirar o Marôco de toda a vida. Como homem mais velho, mais rodado que eu, a admiração que tinha por ele desde jovem foi crescendo sempre pela sua extraordinária postura perante a vida, pelo seu low-profile, pela sua calma e educação, por saber sempre estar em qualquer sítio. Cresci sempre assim, a aprender admirá-lo e a respeitar e a apreciar tudo o que fazia. Na altura era a paixão pelo fotografia, depois.. o matadouro, as escolas… e depois de tudo, o seu bar na vila tão bem conhecido de todos. O Marôco era e é um senhor e é assim que o vejo: alguém que sabe sempre escolher os seus amigos e que sabe estar. Assim juntou nessa mesa comensal amigos que foi conhecendo ao longo da sua vida e dos quais tive a felicidade de fazer parte. Pessoas ligadas às escolas, aos bancos, à câmara de Castelo de Vide, pessoas da sua família (pais, companheira e filhos), amigos que se reuniram para dar s despedida a este ano que passou e a desejar que este novo seja bem melhor. Foi uma enorme alegria para mim estar assim rodeado de gente tão boa, de volta à vida nesse ambiente tão acolhedor, tão informal e tão confortável. Almoçámos uma feijoada brasileira feita mesmo à moda de lá (por quem sabe) e mais parecia que estávamos no Corcovado, almoçando no areal junto à praia, desfrutando da brisa marítima carioca. Entre histórias e sorrisos, gargalhadas e brincadeiras, passou-se o tempo e fez-se aquilo que eu mais gosto: estar entre gente boa e passar um bom momento. Muito agradável! Muito bom! E eu assim regressei à vida, convivendo entre os meus amigos, sendo feliz na terra do lado, respondendo a tudo quanto me perguntavam, manifestando-me presente sempre que podia, estando vivo! Fui de boleia com um amigo, falando sobre a minha e a sua vida, regressando à naturalidade sem guarda e sem protecção, sentindo-me vivo. De tarde passámos pela Portagem, para um arranjo mecânico na oficina dos manos Mena (António e Zé Maria) e ali vimos a tarde a cair entre conversas com amigos que iam chegando. Valeu tudo muito a pena apesar do tempo que passei de pé(horas…), apesar do frio que caía tarde fora… porque o calor humano a que tive direito, o ânimo que fui recebendo por quem chegava foram enormes e fizeram tudo valer a pena. Depois, no final, fomos ao Zé Calha tomar um café e ver a alegria no cumprimento pessoal dos presentes foi para mim (cada uma sua maneira) arrebatador. Esta alegria imensa de estar de volta ao “meu” concelho, ao “meu” mundo, à “minha” gente… não tem preço! Eu sei que foi tempo a mais, eu sei que a minha patroa Cristina não ficou nada feliz de me ver entrar em casa já de noite, eu sei que ela até tem muita razão…. Mas será que ela (ou eu…) teria ficado tão feliz se tivesse ficado em casa e descansado, dormindo a sesta como me mandam os meus médicos? Pela minha parte, eu sei bem e a resposta está mais do que dada. Adivinhem qual é…


Ps: Eu sei que me comprometi perante a minha mulher que saberia negar todos os convites que me fizerem de almoço porque estou em recuperação, eu sei que os meus amigos compreenderão que eu lhes diga que não, eu sei que temos muito (todo) tempo pela frente, eu sei que teremos muitas oportunidades, eu sei que "há mais dias que chouriços", eu sei isso tudo mas desculpem... esta tinha de a fazer!

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Caminhando...



Cá continuamos na luta… porque… acreditem! Nem só convalescença, nem só recuperação, é mesmo uma luta. É mesmo uma grande luta! Acreditem que eu compreendo quem ache isto estranho ou raro. É natural! Mas para quem passou por aquilo que eu passei, quem cruzou estes caminhos tão incertos e tão inóspitos, quem regressou… é tudo muito estranho. O quê é estranho? Tudo! Só o sorriso de uma das nossas filhas é suficiente para nos encher o dia de uma forma que passa de longe o admirável. Só isso… que é uma das muitas coisas de que é feito os nossos dias. Só isso dava para escrever um tratado. Tudo, tudo, tudo é motivo de admiração. Eu sinto-me como seu fosse um alien, como se fosse um ser raro que foi largado neste mundo que era o meu e ao qual falta tudo para se afirmar! Difícil… é tão difícil! Regressar à vida, fazer esta remontada é tudo menos fácil. Hoje consegui ir a pé à Beirã. Neste manhã de sol, decidi que não ia ficar em casa e fiz-me à estrada. As conversas que fui apanhando ao longo da estrada, os amigos (tudo malta mais idosa, de terceira idade) que fui encontrando até lá… era tudo material digno de ser contado em livro. Gosto particularmente de analisar a reacção deles quando me vêem e os comentários após a minha passagem. Por aí vou “tirando” muita coisa também e fazem a análise que eu gosto de ouvir porque fica para mim. Antes da Ranginha deparei-me com um grupo de senhores que estavam a fazer a matança de um porco.


“Viva, bom dia! Como é que se está a portar o animal?”, perguntei.


Eles, depois de me responderem em uníssono e me cumprimentarem, ficaram a comentar sobre quem eu era, sobre o acidente, aquelas coisas do costume, até que ouve um mais afoito que me perguntou: “então agora já não corre?”.


“Está de corridas, está… Agora só andando, só a caminho!”.


E ele, que estava habituado a ver-me por ali passar tanta vez naquele que era um dos meus circuitos de atletismo preferidos da zona, comentou com os amigos após eu passar… “Este era terrível para isso! Nem imaginam a quantidade de vezes que ele por aqui passava a correr nesta estrada…”.


Pois… pensei eu suspirando em silêncio, passava a correr mas agora é difícil e mesmo conseguir ir andando já é muito bom! Aliás, estar cá e ouvi-los já é óptimo, é um extraordinário sinal para mim! Embora reconheça que é muito difícil conseguir que a nossa vida entre nos carris e ganhe a velocidade que pretendemos para ela quando perdemos tempo e não sabemos dar prioridade aquilo que realmente merece o nosso apreço. E há tanta coisa que merece…

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Feliz Natal! (pelos Pogues)



Este dueto entre duas figuras emblemáticas da música e da cultura inglesa é, há muitos anos, uma das minhas canções de Natal preferidas!



O Natal cantado por estas duas personagens ébrias em despique que se “picam”, que se desqualificam, que se “deitam abaixo” mutuamente é uma música linda porque tem na letra todo o espírito do Natal incluído: é uma noite única em que tudo pode acontecer, até a mais improvável história de amor entre dois improváveis numa noite em que não conseguem dissimular a paixão que os une. Shane McGowan (nascido na noite do dia de Natal de 1957) vocalista mítico da banda de música tradicional “The Pogues” e Kirsty MacColl que esteve casada com o produtor Steve Lillywhite, cantam. Ela, infelizmente desaparecida com 41 anos num acidente de mergulho no mar do México; ele, miraculosamente ainda vivo apesar da vida ébria que leva e de ser um empedernido dos bares de todo o mundo, cantaram este despique natalício que fica para a história como uma das mais belas e improváveis canções de Natal. Lindo demais e que nós, fãs dos Pogues que desde sempre os seguiram, que detêm os discos todos, que os viram tocar no Coliseu dos Recreios numa noite apinhada (lembras-te Chico? Foi há 22 anos…),nunca mais esquecem. A música fica para sempre!



A tentativa que fiz de tradução podem esquecer mas penso que vale para os que têm mais dificuldade com a língua de sua majestade e pelo esforço de digitação!




Festas felizes!




Conto de Fadas de Nova Iorque










Ele: "Era noite de Natal, querida,
No reservatório dos bêbados,
Um velho homem disse-me que: "não verá outro!",
Depois cantou uma canção sobre o raro orvalho da montanha velha,
Eu virei a minha cara e sonhei contigo.
Tenho uma sortuda,
Veio em dezoito para uma,
Tenho a sensação que este ano é para mim e para ti,
Que seja então um Feliz Natal,
Eu amo-te querida,
Consigo ver um tempo melhor,
Em que os nossos sonhos se tornam realidade".

Ela: "Eles têm carros do tamanho de bares,
Têm rios de ouro,
Mas o vento vai bem por dentro de ti,
Não há lugar para os antigos,
Quando pegaste pela primeira vez na minha mão,
Numa véspera gelada de Natal,
Tu prometeste-me que a Broadway estava à minha espera.
Tu eras bonito…"

Ele: "E tu bonita,
A rainha de Nova Iorque"

Os dois: "Quando a banda parou de tocar,
Eles urraram por mais,
Sinatra estava a cantar,
Todos os beberrões cantavam,
Beijámo-nos num canto e dançámos pela noite fora."

Ambos: "Os rapazes do coro da polícia de Nova Iorque,
Estavam a cantar o “Galway Bay”,
E todos os sinos tocavam pelo dia de Natal”.

Ela: “És um preguiçoso, um vadio,
Um monte velho de sucata,
Quando ficas aí, quase morto, uma farripa nessa cama,
És um saco de lixo, um verme,
Um reles maricas de terceira,
Feliz Natal meu rabo,
Peço a Deus que seja o nosso último".

Ambos: "Os rapazes do coro da polícia de Nova Iorque,
Continuam a cantar o “Galway Bay”,
E os sinos continuam a tocar pelo dia de Natal".

Ele: “Eu podia ter sido alguém,
Também podia ter sido qualquer pessoa,
Tu roubaste-me os meus sonhos quando te encontrei pela primeira vez…
Guardei-os para mim, juntei-os aos meus,
Não consigo fazer isto sozinho,
Fiz os meus sonhos à volta de ti”.

Ambos: “Os rapazes do coro da polícia de Nova Iorque,
Continuam a cantar o “Galway Bay”,
E os sinos continuam a tocar pelo dia de Natal”.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Feliz Natal (História deste Natal! conforme publicada no Alto Alentejo)

Por me ter sido solicitada pelo meu querido amigo Manuel Isaac, director do jornal, por via telefone, aqui procedo à publicação da minha crónica sobre este Natal conforme saiu no Alto Alentejo, colocada na internet apenas após de ter saído nas bancas, conforme mandam as leis jornalísticas!


Esperando que gostem, desejo a todos um Feliz Natal e um Santo Ano Novo! Mesmo!




História deste Natal


Para um rapaz (inho) nascido e criando por estas paragens, o nosso Alentejo, o nosso interior tem um papel fulcral na concepção da personalidade por mais voltas que se possam dar cá dentro e no nosso planeta. Por mais longe que eu fosse, por mais distante que fosse a viagem, nunca acabei verdadeiramente por sair de cá. Fosse ao topo da Europa, fosse a um continente ao lado, por onde fosse mesmo que fosse apenas na imaginação, nunca se deixava verdadeiramente esta paragem, este sentir, este tanto que nos vai cá dentro. Um alentejano nunca deixa de ser isso mesmo, de ver o mundo sob essa perspectiva única, intrínseca, exclusiva! Um dia, uma senhora do meu concelho que muito estimo e pela qual tenho imensa consideração ensinou-me que desde que sejamos iguais a nós próprios, fiéis ao que acreditamos, nada temos de temer seja qual for a plateia e a importância dos que nos ouvem. O valor dessa autenticidade foi-me explicado com exemplos e de uma forma que me há-de acompanhar sempre, desde então!


Para um menino que foi crescido na freguesia da Beirã, bem coladinho a Espanha, houve valores desde essa tenra idade que foram inculcados e estão vivos ainda hoje! Nos anos 80, sem parabólicas, sem internet, sem comunicação e mass media, com muita dificuldade em aceder aos grandes centros divulgadores, existiam forças e valores que se faziam sentir e se faziam ouvir como nunca. Nesse Portugal rural de então, em que a democracia se encontrava a sedimentar, a força da Igreja era muito sentida, ouvida e seguida a todos os níveis desde muito cedo. As palavras, os ensinamentos que eram passados graciosamente na missa dominical eram por todos escutados e existia um esforço efectivo por torná-los realidade. Fazer bem era uma das missões que aprendíamos em crianças e nos esforçávamos por cumprir porque sabíamos que a recompensa, nem que fosse apenas um sorriso ou um gesto afável, era bem mais reconfortante do que ouvir ralhar ou mesmo um castigo! Eles cumpriam a sua missão de espalhar a boa nova e nós, criancinhas, aprendíamos ali coisas que valiam mesmo a pena e nos esforçávamo-nos para guardar dentro e para todo o sempre.


Mais do que qualquer outro mês, mas até do que Maio, Dezembro era o mês por todos aguardado e muito esperado como sendo um mês em festa: a festa de Jesus, a dos seus ensinamentos para a vida e a de Natal. Festa de todos, festa dos amigos, festa da família, festa de união, uma verdadeira festa em unidade! O Natal começava para nós bem cedo com a apanha do pinheiro, a recolha do musgo nos campos, a decoração geral e minuciosa da igreja… o Natal não era só a festa de um dia… durava um mês todo a preparar e a celebração não tinha comparação possível no ano inteiro. O ar que se respirava e cheirava na igreja nesses dias não tem nem tinha comparação com o do resto do ano. Era um ar de gala.


O Natal que se vivia nesse então era passado para as nossas casas numa escala adaptada ao espaço e ao número de pessoas mas o sentimento era o mesmo! Em casa esforçávamo-nos por ser tudo convenientemente adaptado e aprendemos a saber a lição natalícia na ponta da língua. Há coisa, muitas coisas que guardamos em pequeninos e duram para sempre. O Pedro que se colocava então a ver as faúlhas do lume do galo a subirem para o céu estrelado ainda cá está! É o mesmo! Essa assombração, essa magia tranquilizante ainda hoje se mantém!


Eu acredito no Natal e na sua magia. Sempre acreditei! Vejamos nós o Natal como uma fábula de que o amor é grandioso, que se pode ser rei sem ostentação e luxos, que se pode ser íntegro e verdadeiro, que se pode triunfar valendo só por si, que somos todos iguais, filhos de Deus e a crescer… Tomemos nós uma das versões bíblicas verídicas ou uma das muitas adaptações… o enriquecimento que se obtém é imenso e vale por tudo!


Este Natal, guardou-se e trouxe-me a maior das prendas: o regresso à vida, à minha família, aos meus, a casa, à minha terra depois de um trágico acidente de motorizada que me deixou 3 semanas em coma e me fez lutar (sem eu me aperceber disso mesmo) pela vida. Não pensem que por ser um acidente deste género, teve origem numa mota de uma grande dimensão (afinal era apenas uma Vespa antiga de 50cc.) nem foi muito aparatoso (foi apenas uma queda junto a um cruzamento perto de casa) mas as consequências e o movimento do cérebro dentro do capacete, essas sim, foram mais complicadas. Desde Julho estive sempre internado até agora, Dezembro. Mas graças a Deus e por ser Natal, a altura do regresso não podia ser melhor!


Ainda falta muito movimento, muito equilíbrio a este Pedro recuperado que tinha um score de 6 numa escala de 0 a 20 (vim depois eu a saber e a apanhar nas conversas entre os médicos em Lisboa) mas ele está a recuperar nessa imensa caminhada para voltar a estar bem e em forma, disposto a tudo para aproveitar esta oportunidade, este renascimento único, esta nova hipótese na vida. Por isso, para todos os leitores que me seguem com atenção, eu tenho uma lição de vida para vos passar: nunca desistam, acreditem sempre, nunca baixem os braços, puxem sempre por vocês por muito que vos custe e ainda que não saibam qual vai ser o desfecho porque uma coisa é certa: se não forem vocês a puxar… Há que ter força e começar do zero, do nada, reaprender tudo! Só com humildade, só com muita honestidade e espírito de sacrifício se conseguem as coisas grandes que valem mesmo a pena. Aproveitem a força da família, dos amigos, de quem vos ama e vos quer bem para conseguirem potenciá-la ao máximo!


Há viagens, há experiências que valem muito mais a pena se forem assim: conseguidas por todos! Já agora, se não nos virmos até lá: desejo-vos um feliz e santo Natal repleto de tudo o que mais desejam. Que seja um óptimo Natal! Pensem e sintam isso!