domingo, 17 de outubro de 2021

Shangri LA… - O meu horizonte longínquo sobre carris (PT VI) - Coisas a que brincávamos (naquela Beirã idílica)...

Com os óculos de ler do meu pai... tinha cá uma graça...

Para além de todos os jogos possíveis e imaginários de crianças que viviam numa aldeia situada no interior, no campo, existiam alguns inventados por nós, com regras muito próprias, que a existirem noutros lados, teriam pouco, ou nada a ver:

a)    Jogar aos castelos

Consistia basicamente num versão do jogo da apanhada, mas com regras muito próprias. Teriam de existir duas equipas com um número de participantes discutível e variável (dos 4 aos 20) que teria de ser dividido pelas duas, de forma homogénea. Uma equipa ficava de guardiã do espaço a conquistar (o adro da igreja da Beirã), e a outra equipa teria de fugir pela aldeia. Quando a equipa fugitiva dobrava a curva da Rua Vivas (a da igreja), a equipa que defendia o castelo poderia disponibilizar os membros que entendesse para os ir apanhar. Geralmente ficavam apenas dois, mais que suficientes, a guardarem o castelo (não mais que dois metros de entrada) para apanharem algum que chegasse ao último reduto.

O ideal seria, para um elemento da equipa fugitiva que queria conquistar o castelo, fugir a todos os caçadores, conseguir aproximar-se do castelo, e entrar nele sem ser apanhado, ganhando-o. Ou então, do ponto de vista da equipa que defendia, seria encontrar os fugitivos, e apanhá-los, um a um. Este jogo poderia ser muito rápido, como durar noites inteiras sem nunca ter sido resolvido. Acredito que ainda haja muitos nesta fase… há alguns anos.

 

b)    (Ir ao) Tanque da Broca

Nos anos 80, a Broca era já uma exploração decrépita e tenho ideia que pouca ou nenhuma atividade mantinha regularmente. Por vezes via o então proprietário, o Sr. João Forte, figura caraterística ainda viva, de grandes barbas longas, sempre de gorro de malha, fizesse frio ou calor, com duas ou três vaquitas pela estrada acima, mas a propriedade original fora fundada pelo seu pai, que faleceu centenário, e nunca cheguei a conhecer sendo eu já grande. Tinha diversas construções, uma das quais, um aviário; outra, uma vacaria, mas o encanto dos petizes da altura era o tanque, um espaço não muito grande mas que tinha sempre água a correr, onde os animais iam beber água. Era adornado com ervas, musgo, um ou outro inseto que se movia à tona da água; e os pais, não viam com os melhores olhos a atividade balnear dos petizes por lá.

Lembro-me que de uma vez, das muito poucas que o meu pai me meteu a mão em cima, trazia as cuecas molhadas na mão quase à hora de jantar, quando fui inquirido do porquê daquele preparo (não cheguei a tempo de as meter logo no saco da roupa suja, atrás da porta da casa de banho), e não consegui mais que uma desculpa esfarrapada que me valeu um açoite, porque revelei o motivo proibido que originou aquela situação.

Ir ao tanque da Broca era o máximo! Era a nossa Portagem.

 

c)    Corridas (de equilíbrio) em cima da linha (do comboio)

Conseguir manter o equilíbrio enquanto se caminhava rápido sobre os carris, era um desafio simples e que poderia ser um bom entretém. Atendendo a que junto ao depósito da água, existem diversas linhas, principais e acessórias, para que ficassem estacionados algumas carruagens que transportavam carros e mercadorias, poderia ser bem divertido num período de férias de verão, quando muitas crianças chegadas de fora, vinham visitar os familiares.

 

d)    Ir aos pássaros

Este era um passatempo claramente para os indivíduos mais velhos, já proprietários de uma pressão de ar, ou com a possibilidade de terem acesso a uma de um pai, irmão, primo, tio e por aí fora. Consistia em descobrir uma árvore onde os pássaros, habitualmente pardais, pernoitassem, para depois disparar sobre eles enquanto dormiam com recurso a uma lâmpada forte para os focar. Não só nunca gostei de pássaros fritos (não têm chicha! Aquilo é só ossos!), como sempre me pareceu da maior cobardia tal conceito, de matar enquanto dormem! Deus m’a livre! O meu coraçãozito de criança boa nunca me permitiu achar piada a tal entretém, e sempre me pareceu mais um exercício de cobardia, de luta desigual, que outra coisa qualquer.

Havia também a variável de “Ir às rãs”, mas também nunca gostei das suas patas fritas, como também sempre achei completamente absurdo andar aos tiros de pressão de ar aos animais. Sempre fui menina, aqui, ostracizado pelos demais machos que se queriam fazer grandes.


  Na minha festa do 3º aniversário, 1976, numa autêntica foto de geração, com (da esq. para dir., e de cima para baixo): Zé Luís Murta, “Bela” Carita, ladeados por uns olhos que não consigo identificar; a vizinha Paula, rindo, e outro rosto irreconhecível ao lado. Ao centro, os gémeos “Quim” e “Xana” Carita, com Rui da Paz no meio de ambos. Depois “Zé Fernando”, muito sério, e “Zé Manuel Pop” Dias. 

  Em baixo, Filipe Maridalho, rindo às gargalhadas; Vítor Felino, eu, a minha vizinha de Lisboa de quem gostava muito, muito (a São?), que nunca mais vi. 

 Ao lado temos outro roto que não consigo identificar, e claro que o Tó Manel Mimoso, com um sorriso único, presidente daqueila freguesia até agora.


e)    Polícias e ladrões / índio e Cowboys / Detetives e Espiões

Creio que faz parte do imaginário infantil desde sempre brincar aos bons e aos maus, no seguimento dessa luta ancestral entre o bem e o mal, seja no campo, ou na cidade. Qualquer criança da Beirã nos 70 brincava assim, como certamente se teria brincado desta forma nos anos 60, e se brincou nos 80. Não sendo, pois, um exclusivo da infância rural, e certamente também teria entretido muitos petizes pelas urbes desse país fora, o que eu sim posso garantir é que aqui assumia contornos verdadeiramente hilariantes Agora que penso nisso, recordo que a discussão “estás morto ou não” mantida entre dois contrários situados em cabeços contíguos, era coisa para demorar… muito tempo… e quem ganhava sempre era… o mais velho (claro!)

Diversos elementos, e equipamentos poderiam ser adicionados para adensar a trama, mas uma nova arma comprada algures, talvez em Valência de Alcântara de onde vinham muitas e frescas novidades (não se esqueçam que em Portalegre ainda não existiam grandes superfícies comerciais, e era tudo caríssimo), ou um recém-construído (um atira-chinas, por exemplo, que consistia num pau comprido aí com um meio metro, que levava um elástico dobrado pregado numa das extremidades, para poder projetar uma carica (china) espalmada que segurava numa mola de roupa pregada na outra ponta) seriam fabulosos para adensarem o mistério.

 

f)     Jogar ao alho

O “Lá vai alho” era um jogo dos antigos populares que foi muito bem integrado pela nova geração porque o tradicional, que consistia numa equipa de dimensão variável dependente da composição da outra, que saltava para as cavalitas da que por sorte ficava de cabeça baixa a suportar os colegas, a “levar com o alho”, portanto; foi adaptado numa versão hard em que o pessoal se mandava “à maluca”, e avacalhava a situação. Aí, dava diversão. E mazelas! Mesmo.

A versão do lenço foi abandonada porque precisamente lhe faltava esta componente radical.

 

g)    Visita aos vagões estacionados ao lado da linha

Os vagões estacionados ao lado da linha, que serviam de camarata para os funcionários que estavam longe de casa e ali pernoitavam, consistiam um festim para a criançada ávida de novos conhecimentos. Ali tínhamos muitas vezes o primeiro contato com revistas para adultos que por lá eram abandonadas, visivelmente utilizadas, de páginas coladas, e ficávamos deslumbrados com esta educação sexual alternativa hardcore. É bom que se note que ainda não estávamos nos 80, o Estado Novo só tinha terminado há um par de anos, e tudo era muito longínquo.

“Gina”, “Tânia”, “Weekend Sex” passaram a integrar o nosso vocabulário… e as nossas prateleiras escondidas em casa.

 

h)    Ir aos tortulhos

Sempre que as condições meteorológicas o permitiam, e o sol rasgava as nuvens depois de temporadas de chuva, os fungos por todos mais desejados conhecidos como tortulhos, brotavam da terra em lugares específicos, cujas condições morfológicas, de luz e exposição, os tornavam num el dorado a perseguir.

Havendo alguns destes sítios perfeitamente identificados, eram supervisionados por espertalhões que tomavam aquele espaço como se fosse seu, muito porque o proprietário da terra não se preocupava com essa prática, e asssim ninguém lhes fazia frente.

Este repasto que sempre adorei, era confecionado por alguns com ovos mexidos, de omelete, mas na minha casa eram habitualmente cozinhados apenas grelhados à moda do meu pai, sob uma chapa, ao fogão, com duas ou três pedrinhas de sal no chapéu, virado ao contrário, formando um molhinho delicioso e suculento. Claro que para evitar que esses míscaros fossem venenosos, e pudessem ser motivo de um final trágico, era sempre colocado sobre eles um anel de prata, que, caso não ficasse negro, conferia a validade do produto.

Nunca cheguei a saber se esta cautela era mesmo válida, e me poderia servir de descanso, mas até à data, graças a Deus, resultou sempre.

Certo dia, alguém me convidou para também eu “ir a eles”. Ou porque tinha chovido muito e haviam muitos, ou porque alguém soprou que sabia de um sítio, enchi-me de coragem… e fui!    

Quase que me recordo do ar de espanto e felicidade do meu pai, pela minha intrépida audácia, mas assim que os começou a tirar do saco e a olhar bem para eles (e se eu procurei sempre os branquinhos com a anilha branca à volta do pé), foi fazendo um monte maior e um mais pequenito, com muitos menos.

- Então pai? Estes poucos não prestam?

Olhou para mim com um ar de misericórdia, e disse baixinho: não filho, estes poucachinhos, são os únicos que são bons. Os outros… é melhor não comermos.

Agora gosto muito que mos possam oferecer… Só.

 

i)     Andar de Carrinhos de Rolamentos

Então era assim: os rolamentos vinham não sei bem de onde, mas a verdade é que se pegássemos em quatro, e lhe metêssemos dois paus redondos a unir, de dois em dois, com uma madeira em cima, tínhamos um carrinho de rolamentos. Atualmente, existe inclusive, uma corrida deles no Porto da Espada, que já vai sendo muito popular.

As viaturas poderiam ter diversos formatos, atendendo ao tipo e tamanho do rolamento utilizado. Muitas vezes, eram utilizados dois maiores no eixo de trás, o que sempre conferia um ar racé, e desportivo. A memória que tenho era que o meu pai era muito jeitoso para bricolages, e o meu era dos mais rápidos de então.

       De visita ao Cristo-rei e a Lisboa: Gina, Vítor Felino, Bela Carita, com Miguel Sobreiro à frente, eu e Paulo Varela, Zé Dias e os manos Carita. 

sábado, 9 de outubro de 2021

Já estás no teu lugar, agora!!! (a triste história do juiz "já foste!")

 


Este sujeito, já bem conhecido de todos nós, o juiz Rui Fonseca e Castro, destacou-se porque é dono da opinião que a pandemia Covid 19, provocada pelo coronavírus, que literalmente abalou o nosso planeta inteiro, que provocou 4,43 milhões de mortes em todo o mundo… não existe!

Se fosse o Zé da Calçada, um pobre desgraçado sem trabalho, família, escolaridade, eira nem beira, já seria estranho… mas como esta é a opinião de um juiz do qual se espera, no mínimo, que mantenha um comportamento social que seja digno de exemplo para com os outros concidadãos… a bizarria e estranheza aumentam.

 

 

O Conselho Superior da Magistratura, ou seja, a nata dos juizes, ou a entidade reguladora da sua atuação, moveu-lhe um processo disciplinar no sentido de apurar as suas responsabilidades, e definir punições.

 

 

O rapazinho este, quando foi ouvido, insultou polícias e magistrados quando seguia no caminho para ser ouvido, no processo disciplinar de que foi alvo. Ao longo de uma hora de alegações, o magistrado intitulou-se como o rosto dos injustiçados e reprimidos no que diz respeito ao combate a esta pandemia que, segundo garante, não existe nem provocou mortes, como se fosse uma auto-proclamada “mega-estrela anti-covid”.



https://sicnoticias.pt/pais/2021-09-07-Juiz-negacionista-agressivo-com-PSPO-meu-lugar-e-este-acima-de-si.-O-senhor-esta-abaixo-de-mim-5e142e6a

 

Como se para isso não bastasse, rejeitou a evidência científica que está na base das vacinas e ainda acusou os membros do órgão que tutela os juizes, de pertencerem a sociedades secretas. Não basta?

Enfim, bastou, embora tenha tardado tempo a mais, porque o plenário do Conselho Superior da Magistratura (CSM) deliberou, esta quinta-feira, dia 7, por unanimidade, a sua demissão, que pode ser alvo de recurso, mas tem efeitos imediatos, por  ter nove dias úteis consecutivas de faltas injustificadas e não comunicadas, as quais ocorreram entre 1 de março de 2021 a 12 de março de 2021, com prejuízo para o serviço judicial, já que tais faltas implicaram o adiamento de audiências de julgamento agendadas", como comunicou a vogal do CSM. No entanto, outra infração refere-se ao facto de "ter proferido um despacho durante uma audiência de julgamento no dia 24 de março de 2021, no qual emitiu instruções contrárias ao disposto na lei, no que respeita às obrigações de cuidados sanitários, no âmbito da pandemia de covid-19.”

No comunicado, lido pela porta-voz, foi referido que "a sanção de demissão implica o imediato desligamento do serviço do senhor juiz de direito Rui Fonseca e Castro, é recorrível para o Supremo Tribunal de Justiça, no prazo de 30 dias, mas não suspende os efeitos da deliberação do plenário do CSM". Portanto, mais e melhores capítulos vêm a caminho.

O prémio “VALENTIA E SABER GUARDAR O DEVER À CAUSA” atribuído pelo vosso Tio Sabi vai direitinho para os agentes da PSP que quando olharam de frente este martuto com ar de G. I. Joe Gingão, de t-shirt preta com os dizeres “habeas corpus” (que tenhas corpo) gravado na t-shirt preta, envergada sobre umas gangas velhas, a gritar-lhe “PONHA-SE NO SEU LUGAR!!!!!”, “VOCÊ ESTÁ ABAIXO DE MIM”; souberam manter um ar imperturbável, impávido e sereno, sem esboçarem o mínimo gesto, quando certamente o que lhes apetecia, como a mim, era enfiar-lhe com a cronha da G3 no centro dos cornos, e de lhe pisarem o focinho quando caído no chão, para lhe gritarem a ele então que para fazer cumprir a lei, estavam eles ali!!!

Peca por tardia, a decisão. Na minha opinião, deveria ser na manhã seguinte.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

À maneira dele (em Marvão, pelo feriado municipal) - Tim ao vivo (a crónica)


Esta vai pelo meu grande Amigo Pedro Silvério, o Chefe, o maior Marvanense a viver no degredo que eu me lembre, fora de Marvão que ele tanto ama, com quem troquei mensagens sobre a magnitude da cena, logo hoje de manhã! Foi como se estivesses estado cá, meu velho!


Epá, palavra que não estava nada à espera de passar uma noite do feriado municipal tão agradável assim. O nome que me levou lá era mais que apelativo: o Tim há-de sempre ser a voz daquela banda que tem sido a oficial nacional da minha vida, aquela que tem acompanhado o meu crescimento de puto que fui, a homem que sou, como os U2 o foram a nível internacional. Nenhuma delas é a preferida, mas são as que estiveram sempre lá, aquelas que cresceram comigo, as tais.

Se a essência era apelativa, as “&Vozes do Alto Alentejo” davam assim um ar suspeito à coisa, e deixava adivinhar o pior possível que… nada se assemelhou ao que por lá se passou… e à que pode assistir, quem teve resiliência para aguentar o tradicional arzinho (eu disse frio?!?!?) de uma noite de Marvão a dizer adeus ao Verão, e olá ao Outono, que há-de chegar daqui a uns dias.

 

Antes de mais, por esta altura, apetece-me felicitar o Município que teve a feliz ideia de convidar e trazer um artista digno desse nome, é certo que integrado numa oferta inter-municipal (e aí certamente foi influenciado a tal), mas que destoa da habitual gama de valores em que tem apostado, e que vão da intragável Rosita, ao inexplicável  (e inexplicavelmente desaparecido) Zé do Pipo, passando pelo abominável Toy “das Neves”, que tem patrocinado para gáudio das populações. Na verdade, ali, também não haveria muito a perder porque nestas festividades, tradicionalmente, nunca se aglomeram muitos populares, e se nunca chegam a mais de uma centena.



Se esteve bem por aqui, borrou a pintura toda quando “permitiu” que o espetáculo se iniciasse apenas uma hora depois das 21.30h anunciadas no cartaz, sem que um único dirigente do município, ou funcionário adido à área, pelo menos, se tivesse dignado a dar uma explicação aos potenciais espetadores presentes, o que levou a que muitos tivessem batido em retirada (porque o dia a seguir, hoje, era de escola), e não tivessem esperado pela justificação que até agora não chegou. Foi verdadeiramente lamentável, penoso, e deixou como que se uma carga negativa fosse tomando conta das almas presentes. Terá sido um problema com a luz, com o som, com alguém? A verdade é que o bom do Tim acabou por fazer esquecer a quem ficou, tamanho mau começo, quando entrou com aquele seu eterno de tipo fixe, de camarada à prova de bala, para todas as horas, sempre sorridente por detrás dos eternos óculinhos de proteção, para conquistar toda a gente, com o seu ar anti-rock star, terra a terra, enternecedor.

 

Quando as luzes permitiram vislumbrar os artefactos que aguardavam quem os manuseasse, percebi que os meus maiores medos eram infundados. Assim que os artífices foram tomando posições, todos fardados com um negro de gala, assim que chegou à boca de cena quem manuseasse as teclas, o violino, o violoncelo/braguesa, o contrabaixo, a bateria e o timoneiro se agarrasse à guitarra, com o seu clássico estilo de motard, de t-shirt negra e o lenço ao cowboy à volta do pescoço, percebi que o barco iria certamente chegar a bom porto.


E o que se passou foi muito bom, foi a revisitação de toda uma carreira sobre um prisma clássico(?), na medida do possível, porque embora nunca o tendo desvirtuado, o engalanou com um toque aristocrático, o enobreceu, o tornou ainda muito mais a ver com a essência de Marvão, que Tim confessou adorar, já ter visitado por diversas vezes, e querer poder ter uma casa, embora “não tivesse certamente guito para tal!”


Se olharmos para o line up do concerto, percebemos que, ou ao prestar homenagem às bandas de que sempre gostou, ao interpretar temas da sua eterna “casa mãe” Xutos e Pontapés, ou ao revisitar projetos icónicos que tem integrado como os emblemáticos Resistência (seleção de monstros nacionais à guitarra interpretando clássicos, do início dos 90), os clássicos Rio Grande (final dos 90), ou os seus sucedâneos Cabeças no Ar, onde se tem juntado à mais nobre estirpe musical portuguesa (Palma, Gil, Veloso, Vitorino, Monge) este homem é um verdadeiro crooner de espinha dorsal, porque todas as suas variações, ou mesmo o seu  trabalho a solo, têm revelado um valor lírico e musical verdadeiramente fora de série, para quem tem 61 anos, apenas mais 13 anos que eu!

 

Quem teve coragem para ir, e aguentou estoicamente até que começasse (porque depois, certamente aqueceu!) teve o mais puro e prazenteiro deleite de saborear:

- À minha maneira (belíssimo clássico dos Xutos! Um “My Way” do Sinatra num despique roqueiro de altas guitarras);


- Voar (tocante tema a solo de sonhos infantis. Sobre o poder da capacidade de sonhar, e onde nos pode levar);


- Postal dos Correios (a carta enternecedora de um emigrante, como devem ter havido tantos antes, para os pais, do projeto RioGrande


- Menina estás à janela (Popular que aprendeu a valorizar pelo seu “mestre” Vitorino)


- À noite (Viagem aos Sitiados, do malogrado João Aguardela)


- Tu não me digas adeus (tema que fecha o seu último trabalho a solo “20 20 20”, e foi caraterizado por ele próprio com, muita graça, “que é uma lamechice”);


- Por quem não esqueci (Clássico da Sétima Legião, em jeito de tributo);

 

- Chuva dissolvente (dos Xutos que eu mais gosto, do disco “Dizer Não! de vez”, de 92)


- Nasce selvagem (a fazer lembrar os Resistência e os Delfins)


- Casinha

 

- Contentores


- Circo de feras (Num tríptico de luxo!, de grande homenagem aos Xutos!)

- Para sempre (BSO do filme “Tentação”, de Joaquim Leitão)

E no encore:


~ Homem do leme (Clássico intemporal dos Xutos, do segundo álbum “Cerco”)


- Não sou o único (Para fechar, apresentada como a "Canção do Zé Pedro", por ter sido ele que a escreveu, logo o mais rebelde de todos, e o que mais cedo desapareceu, muito vítima das suas dependências do álcool e outras substâncias psicotrópicas, com a isca já desfeita)_com um bem haja muito especial à D. Isabel Bucho, por me ter ajudado a corrigir o lapso da publicação inicial, de ter chamado Maria ao Pedro! 👍) 

 

Olhem, valeu!

 

Para o ano há mais? Fix!


Só um cheirinho...



a) nota de rodapé de última hora: neste blogue, como sempre, quero aqui contar a verdade, toda a verdade (porque sou um homem dela e da palavra), pelo menos a minha verdade. Assim, quero sempre relatar o que os meus olhos viram, mas não quero, de todo, dizer inverdades ou falsidades. Digo isto porque logo na manhã seguinte a esta publicação, foi informado por fontes oficiais, por vias informais e mensagens pessoais, de amizade, que o pedido de desculpas pelo atraso no início do concerto foi de fato formulado no palco, mas logo por azar aconteceu quando eu já, vergado pela demora e com receio pelo que pudesse vir, me desloquei à casa de banho do Centro Cultural de Marvão, para verter águas. Apresento pois assim o meu pedido de desculpas pela crítica infundada que formulei.

Eu estava certo do que tinha acontecido, mas a versão oficial estava mais certa, e por isso a trago à luz do dia. Azares desses acontecem muitas vezes, mas o importante é que os eventos, sobretudo o de qualidade, como este, se repitam muitas vezes.

Como os direitos de autor não me cortaram capturas que fiz do evento, vamos lá fazer mais umas tentativas de divulgação desse bonito evento, para ver se passam...
Para os meus leitores habituais,

 



domingo, 5 de setembro de 2021

Shangri La... - O meu horizonte longínquo... - (Pt IV)_As famílias e (Pt V)_Ser criança ali

A Beirã tinha duas grandes famílias em termos de poderio económico, que se distinguiam de todas as outras, pela projeção e pelo impacto que tinham: os Vivas e os Caritas, tendo ambos os homens fortes de cada uma delas, chegado a presidentes da câmara de Marvão (Manuel Berenguel Vivas, 1945-1954 / João Diniz Carita, 1964-1973), o que é bem revelador.



 A história dos Vivas, mais antiga, confunde-se com a criação da própria aldeia, e teve nela um papel fundamental. Nem sempre por aqui estavam, mas por aqui passavam com muita frequência, quando pernoitavam num casarão enorme de belíssimos azulejos, frente à estação, com um jardim privado de grandes dimensões, que se estendia até à igreja de Nossa Senhora do Carmo, templo que mandaram construir como privado, em homenagem a Carmen Berenguel Vivas, mas que depois abriram e ofertaram à terra, sendo a padroeira da freguesia. Pais de muito filhos, que por sua vez tiveram vasta descendência, os Vivas são sempre muitos e ainda hoje, quando regressam à terra, pelo menos para os de lá, esta parece ter outro ar.

Os Caritas tiveram o seu apogeu mais tarde, muito relacionado com o caudal económico associado ao ramal de Cáceres, e os despachos alfandegários das mercadorias. Recordo-me que tinham um escritório na estação, onde trabalhava o meu pai, com mais 6 ou 7 colegas; e uns casões situados mais à frente, a 200 metros dali, onde estavam outras tantas funcionárias no escritório, com mais alguns funcionários nos casões, para o trabalho mais braçal.

O pai trabalhando no escritório, como ajudante de despachante

 A freguesia tinha a alguns quilómetros dali, na herdade do Pereiro, outra família muito influente de Marvão, daquelas que já não vai havendo nos dias de hoje: uma extensão da família Sequeira, com o filho Artur, que se fixou na herdade do pereiro, e ali chegou a ter, lá está, segundo a minha memória, uma min-aldeia de trabalhadores daquelas terras, com escola primária inclusive! Ali labutava diariamente um exército de homens e mulheres que se dedicavam desde apanha da azeitona, e a todos os trabalhos no campo, que implicassem cuidados, manutenção e extração de produtos.

A família Sequeira tinha o seu centro económico nevrálgico, a 4 quilómetros dali, em Santo António das Areias, com um enorme edifício onde exploravam a sua produção industrial de amêndoas, calçado, e demais produtos que vendiam para todo o país. Hoje, está há alguns meses para venda.


 Ser criança ali (o antes e o depois)

É certo que já virámos o século, e já passaram quarenta anos, mas tudo aconteceu… ontem. As crianças que viviam na Beirã nesse então, estão tão a anos-luz das crianças de hoje em dia, que mais parece que foi noutro milénio. Tudo passou tão rápido, que quase que nem nos conseguimos dar conta das pequenas grandes revoluções que se forma instalando nas nossas vidas.

Do meu ponto de vista, a internet, os computadores, e os recursos tecnológicos associados como os smartphones, mudaram radicalmente o mundo. Recordo-me perfeitamente quando comprei o meu primeiro computador pessoal, ou melhor, que os meus pais me compraram o meu primeiro pc, na loja COAL e Portalegre. Tratava-se de uma CPU com uma torre gigantesca, e um monitor que mais parecia um aquário daqueles das grandes marisqueiras. Era uma máquina muito lenta, muito vagarosa, que desenvolvia muito pouco.

A internet chegou num pequeno pacote da Telepac, que se tinha de ligar à ficha telefónica e ficava ali tempo sem fim a emitir uns ruídos estranhos (BBBBZZZIIIIIIIIIIIIIIIINNNNNNN, BBBBZZZZRRRRRRRROOOOOOOOOOOONNNNNNNNN,BBBBBBBBBZZZZZZZZZZZZZZZZREEEEEEEEEEEEEEEEEENNNNNNNNNNNNNNN, até se conseguir ligar a rede virtual mundial.

Nós hoje observamos uma criança de três ou quatro anos a mexer num smartphone, ou num tablet, e ficamos boquiabertos com a destreza com que os pequenos dedinhos interagem com o ecrã e os conteúdos. Por vezes, dou por mim a perguntar a mim mesmo se serão mais espertos que nós, mas acalmo-me dizendo que é capaz de não ser bem assim. O que se passa é que os recursos que têm são muito mais absorventes, e impulsionadores, do que eram os nossos. Depois, por acréscimo, ou em consequência, têm respostas como a que há dias me deu o filho de um amigo meu, que andará na casa dos 8/9 anos, e encontrei na piscina municipal, enquanto esperávamos cada um por sua coisa: eu pela hora de entrada e ele, que o viessem buscar. Entrei por baixo, de manso, de fininho, como que a experimentar. Fui tentando encontrar pontos comuns por onde desenhar uma conversa. Pronto descobri quem era, de onde era, e sabendo que era grande amigo de longa data da família, perguntei-lhe se me poderia dizer o que era para ele, o aspeto mais preocupante do nosso país.

Ele respondeu-me… “a corrupção!”

Atónito, pasmei: “A corrupção?!?!?” Comássim?!?!? Danou-se!” Eu com a sua idade, nem tampouco saberia o que isso era, quanto mais!

Fiquei assim para o… pensativo e sorridente.


Foto clássica da juventude da Beirã, na década de 70: o treinador João Sobreiro, sempre fumando, Paulo Varela com o remoinho caraterístico no cabelo, o craque Rui Felino, Paulo Jorge “Magafo”, Jorge Oliveira “Orelhas”; em baixo: o meu querido já falecido Paulo Marôco, Joaquim Carita, Vítor Felino, José Manuel “Pop” Dias, e, com clara cunha, Pedro Sobreiro.


Assim à partida, as crianças na Beirã tinham uma grande vantagem em relação às outras espalhadas pelo país fora, e não estou a falar agora na liberdade, na tranquilidade, ou noutra coisa óbvia qualquer; mas toda a gente sabe que nos anos 80, o grande divertimento presente em cada lar era… a televisão! Nós aqui, enquanto os que viviam longe da fronteira tinham de levar com a mira técnica, relacionada com os horários racionados de funcionamento, nós tínhamos a RTVE que nos salvava!

Pois fiquem sabendo que é pela televisão que tenho tão grande facilidade de falar e compreender castelhano, ao ponto de muitos me perguntarem, quando visitam o meu posto de trabalho na Autoridade Tributária, vulgo Finanças, se andei nalguma escola, e ficarem a rir-se quando digo que não, que aprendi em casa. A minha professora foi a “Alaska, dos Dinarama”, uma cyberpunk de cabelo cor de laranja, sempre vestida de couros e borrachas, que apresentava “La bola de Cristal”, um mítico programa matinal que preenchia os sábados até à hora de almoço, onde podíamos ver a “Família Monster”, os “Teleduendes”, e os vídeos roqueiros do “Loquillo y los Trogloditas”.

Nessa nossa televisão ibérica, aprendemos a sonhar com o “Verão Azul”, por exemplo, uma mítica série de televisão transmitida em 1981, com 19 episódios, dos quais creio que me lembro de memória de todos, sobretudo do inicial, do final, de quando a Beatriz passou a ser mulher, ou de quando o Chanquete faleceu. A música do genérico ainda me transmite um sentimento de felicidade e bem-estar que ecoa no meu passado.

Pela televisão víamos o “Aplauso”, uma revista de variedades como ainda não havia por cá em Portugal, e o “Informe Semanal”, um magazine de reportagens de grande calibre e profundidade, que me influenciaram muito a seguir na minha carreia académica de jornalista.

Por la tele también seguimos la copa del mundo de España ‘82, nesse famigerado jogo em que a minha seleção brasileira de sonho com o Zico, Éder, Sócrates, Falcão tombaram nos quartos de final com estrondo aos pés de uma Itália sanguinária que venceu por 3 a 2, comandada pelo maldito Paolo Rossi. O que eu chorei nessa tarde, deitado no meio do chão da casa da minha avó Joaquina, que teve de ligar para o escritório onde o meu pai trabalhava porque “tinha de vir que o garoto não estava bem!”

Pela televisão, sempre ela, que já entrou tarde porque me lembro de ir assistir à casa da minha tia, víamos o concurso “1,2,3”, depois trazido para Portugal pelo Carlos Cruz, mas que ali, apresentado pela fantástica apresentadora Mayra Gomez Kemp, e que era um regalo de bom gosto, comédia, e entretenimento de altíssima categoria.

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

NÃO ME CALES, PÁ!!!!!!!!!!

 A.K.A. "A fugir da P. I. D. F.!!!! (ou a nova P. I D E.)"

(Polícia Internacional de Defesa do Facebook)





AAAAAAAAAAAAhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh… Deixem-me respirar fundo!!!!!!!! Porra!!!!!! Porra que isto não se faz!!!!!

Ora quando se é um blogger há mais de 13 anos, se tem milhares de textos escritos na internet, ainda mais milhares de horas a criá-los, muitos seguidores e milhares de visualizações (só no blogue, sem contar o facebook já vão em 551.715, por estes dias), um gajo deveria ter um certo estatuto, não acham? Quando mais não seja, por ser artífice deste míster das palavras, penso eu de quê.

 

Mas não! Há mínima… o fdp do facebook (e eu insisto sempre em escrevê-lo com letra minúscula! BAIXA A BOOOOOLA!!!!!!!) bloqueia-me por tudo e por nada!!!



Desta vez foi uma semana!!!!! Uma semana inteirinha sem poder interagir, meter um gosto, sorrir, ou comentar! Desculpem, Amigos!!!!!! Isto foi tão deprimente ao ponto de eu nem sequer carregar no quadradinho do F azul, do telemóvel ou do pc, porque caso isso acontecesse, começaria a ver coisas que certamente me dariam vontade de opinar, e auto-estima ainda ficaria mais de rastos, ao me ver preso na gaiola!

 

Por isso e antes de mais, sai o meu enorme pedido de desculpas para todas as minhas amigas e amigos nesta rede, sobretudo aqueles dos quais sou mais próximo, e comigo tentaram interagir, mas isso não me foi possível de todo! Na verdade, até ontem, o bicho insistia que não poderia comentar até às 0 horas de hoje!!!!! Poooooorrrrraaaaaaaaaaa!!!!!

 

E que mal tão grande terei feito eu, para merecer tão pesada pena de ter de ficar 7 dias longe da xixa, sem lhe poder tocar, perguntam, e bem, vocês?

 


Pois diz o gajão este que publiquei fotos de nudez que feriram os padrões da comunidade, vejam bem vocês!!!!!! 

Toda a gente sabe que sou um bocad(ão) gozão, desbocado MESMO, que vivo intensamente e por vezes me estico! Mas a verdade é que sou educado e respeitador!!!!! Nunca iria por aqui meter-me a publicar fotos que me pudessem envergonhar à frente da minha mãe, da minha mulher ou das minhas filhas.

 

Publiquei sempre fotos (e vamos escamotear uma por uma), que foram todas elas aceites pela Sociedade Portuguesa de Autores, porque fizeram parte ou foram incluídas em obras certificadas por ela, e passíveis de serem vistas, tocadas e/ou adquiridas, em qualquer discoteca de província, em qualquer quiosque de uma cidadezinha do interior, e/ou vista num cinema mais próximo de si (agora não que creio que já saiu de cartaz!).

Ai mas ca granda injustiça, FDDDDDDDDDDDDDSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSS!!!!!!!!!

(Aqui o blogue é meu, e vou partilhar este texto nas tuas entranhas como se fosse um cavalo de Tróia que te há-de minar por dentro, porque se as tuas câmaras detetam formas, e algoritmos, não são inteligentes ao ponto de chegarem aqui. :P).

 


A última imagem publicada que deu a grande barraca foi porque publiquei num comentário!!!!, nem sequer foi numa publicação de raiz, uma foto da Bo Derek no filme “10 – Uma Mulher de sonho”, em que cavalga desnuda num corcel, numa imagem perfeitamente aceitável e nada explícita, em que não se consegue descortinar um mamilo, um pêlo púbico, um órgão sexual feminino explícito, obsceno, capaz de ferir suscetibilidades, ou ofender a moral. Por causa disto: cartão vermelho para o Sabi!

 

Então analisemos os meus pecados:




- A 19.10.2020, publiquei a capa de uma revista “Gina”, igualzinha às que forravam as paredes dos quiosques em Lisboa quando por lá estudava, e não provocavam acidentes de trânsito! Olhem-me bem a escandaleira, isto acontecer 30 anos depois!!!! É apenas uma senhora com os seios à vista. Vai à praia, meu!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Antes de atirarem pedras e julgarem pelas fotos sempre escabrosas do interior, experimentem a folhear uma, e atentem à riqueza do português utilizado, de um vernáculo de altíssimo recorte, digno de ser elogiado! Isso sim tem valor!

 

- A 16.01.2021, saiu a foto da capa de um dos discos portugueses que mais ouvi e gostei: o lendário “És muita linda” dos Ena Pá 2000, do capitão Manuel João Vieira.

Procurem no Google as imagens da capa e contracapa, e analisem, pensando por vós próprios!

Ora o instantâneo que mostra uma atriz de harcore 1º Escalão, deixa antever que a piquena está a botar a boquinha na “botija…”  mas não se vê nada em concerto, e tem retângulos coloridos a esconderem as ofensas, para que a SPA a deixasse sair para o público.

Pois… eles safaram-se mas cá o Sabizinho… foi para o castigo!

 

- A 28.01.2021 os pidfescos do facebook deram com a contracapa do mesmo trabalho, publicado na mesma altura e… PIMBA!!!!!!! Lá vai o Sabi outra vez!!!!!

 

- Para culminar, no domingo passado, num comentário a uma publicação (que nem sequer foi para o centro das atenções), sai a tal foto da Bo Derek e… foi mau!!!

 

O que eu vos digo é que estes gajos, “os pcs que tudo controlam” são maus e… se nós lhe damos a saber tudo sobre as nossas vidas, lhes revelamos as nossas casas, dizemos tudo sobre nós”, se os deixamos que nos tirem o pio porque publicamos hoje uma foto que foi aceite pelas autoridades para ser publicada em 1979, 5 anos depois do 25 de Abril!!!!! Se atingem o cúmulo de em 2021, tirarem o pio a um tipo da net, por colocar uma foto nada escabrosa, de uma mulher a cavalo, retirada de um filme de 1979, quando ele tinha 6 anos apenas… Algo está podre no reino da Dinamarca!!!!!!! Daqui às armas… É UM PASSINHOOOOO!!!!!  

 

 

Mas… espera aí!!!! Sem net, como é que falamos uns com os outros?!? (desde casa… tão longe…?!?!?!)






domingo, 15 de agosto de 2021

Shangri La - O meu horizonte... Pt III - O pote (no fim do arco íris)

O embrião...


Já vai sendo um hábito ouvirem-me dizer que aprendi a viver num lugar idílico, que num Alentejo dedicado maioritariamente à agricultura e pecuária, nasceu com o progresso e que, caiu por terra a seus pés. O comboio, esse cavalo de ferro como lhe chamavam os nativos norte americanos, esteve na génese da minha aldeia, na criação da freguesia, com a ligação ao ramal de Cáceres, e teve a morte num dia preciso, a 31 de dezembro de 1992.


No amanhecer seguinte, o primeiro da (des)graça do ano do senhor de mil novecentos e noventa e três, ocorreu a abolição das fronteiras fiscais, dos controlos aduaneiros relativamente às trocas intracomunitárias em resultado da concretização do mercado económico europeu único, o que veio trazer profundas alterações ao nível do sector aduaneiro.


Esta supressão das barreiras físicas, fiscais e técnicas à circulação de bens intracomunitários, as quais representavam uma percentagem elevada do comércio português, resultou numa redução da atividade dos despachantes oficiais, com as inerentes consequências para as empresas e para os trabalhadores do seu serviço, que eu passei a ver de um dia para o outro, como almas errantes que deambulavam pelas ruas sem terem nada para fazer, sem um motivo concreto que os animasse a viver (quando não ganhas sentes-te vazio, um verbo de encher, um errante, um ser inútil), e muitos deles não duraram muito mais tempo. É certo que a forma de viver do meu pai influiu de forma determinante na forma como veio a falecer, com apenas 49, mais 3 que eu hoje, mas a derrota moral de se ver sem emprego, foi uma machadada que pesou muitíssimo, e nunca mais o deixou endireitar.


Nesse Alentejo amarelo, seco e atrasado, a Beirã destacava-se por ser essa aldeia dedicada aos serviços; onde as alfândegas, os despachantes, a guarda-fiscal, os caminhos-de-ferro, faziam girar toda uma atividade que se estendia às mercearias, aos cafés, aos alojamentos, à restauração, à panificação, e a toda a atividade da terra. Quando digo que nunca vi ninguém passar dificuldades, que nunca vi alguém passar fome durante a minha meninice, não brinco. Quem porventura tivesse uma profissão menos bem remunerada, teria certamente um pedaço de terra que cultivava, e meia dúzia de animais (galinhas, porcos, vacas) que garantiam, pelo menos, à subsistência da sua família. De tal forma assim era que na primeira visita que fiz a Lisboa com os meus pais, ainda me consigo recordar da angústia que senti, ao ver as pessoas sentadas de braço esticado e mão aberta, sentadas no passeio, clamando misericórdia, na esperança vã que os transeuntes que os ignoravam ao ponto de nem sequer os fitarem, lhe deixassem cair uma moeda. Recordo-me que queria ajudar tantos quantos pudesse, e pedia moedas à minha mãe, em sofrimento latente, até que me explicou a dureza das desigualdades do mundo dos crescidos, que me atormenta até hoje, por não conseguir compreender que hajam tantas desigualdades entre iguais. É certo que sou um apoiante incondicional da meritocracia, e compreendo que nem todos mereçam ter, porque nem todos se esforçam, e os párias desvirtuam a moralidade do sistema, mas há desigualdades atrozes que custam muito a digerir.


A conceção geográfica de uma terra, e de um concelho feita na cabeça de uma criança, é realmente muito particular. As fronteiras para mim eram: do lado esquerdo, a Espanha; em frente, Marvão, Portagem e Portalegre; do lado direito, Pereiro, Barragem da Póvoa, Nisa e Castelos Branco, e de trás, uns canchos que eu sei lá onde é que aquilo ia ter. Nunca cheguei a ir tão longe.


Tirando isto, o que saia assim fora de porta era o Algarve, para onde íamos uma vez por ano, dantes durante o mês de Setembro todinho, com as minhas queridas tias paternas a revezarem-se à quinzena (alguém tinha de ficar a tomar conta da loja), indo nós a buscar uma que vinha de comboio até à estação de Alcantarilha. Tudo isto antes de Armação de Pêra se ter tornado nos anos 80, a versão de Portalegre junto ao mar, em que pessoa sim, pessoa não, tínhamos de fazer cumprimentos na rua. A diferença era que eu me lembro de ir para lá desde que nasci, por o marido da minha tia Maria ser de lá natural.


 A caminho do Algarve, numa viagem longa, que demorava quase um dia…


O casario da Beirã dividia-se entre as que foram propositadamente construídas tendo em conta o propósito fundamental da terra (a estação, o edifício do clube/restaurante/alojamento onde hoje funciona o Train Spot, o edifício destinado às famílias dos alfandegários, os edifícios para acomodação dos ferroviários), os serviços (como a igreja e a escola), as casas mais ou menos comuns, com variável antiguidade destinadas aos outros trabalhadores, e as vivendas, de tamanho variável, proporcionais às posses dos proprietários. Durante o mandato do presidente da câmara António Moura Andrade, contruiu-se um enorme bairro de vivendas logo à entrada da aldeia, com valores de aquisição nada proibitivos e até aceitáveis, que foi prontamente vendido. A ele se deve também a construção da casa mortuária, já no final do seu mandato.