No domingo, depois de arrumarmos a cozinha e passarmos pela pastelaria para uma bica e um chocolate, rumámos a Marvão para assistirmos à terceira peça de teatro do Festival Amador, desta vez um musical com crianças. Prometi-te que se chegássemos a tempo, ainda passávamos pelo recém-recuperado Parque Infantil de Marvão, para uma inauguração informal a dois.
Quando parei o carro à porta do Centro Cultural disseste-me, “então mas o que é que estamos aqui a fazer parados?”.
“Vou só ali acima ver se está tudo a correr bem e se é preciso alguma ajuda para que tudo esteja pronto a horas.”
“Ah, eu já sabia. Agora falas com um, e mais outro e mais outro e já não vamos ao parque como prometeste!”.
Respondi-lhe que não, que era promessa e ia cumpri-la e assim foi. Pelo caminho fui-lhe tirando fotos, admirando a cada uma, a graça desta turista acidental, de óculos amarelos e máquina fotográfica de brincar, de fato de treino da “Hello Kitty” e ar bem disposto.
Parámos no largo das finanças, “onde tu trabalhavas”, e “onde hei-de voltar a trabalhar” e sentamo-nos nos banquinhos de madeira junto à muralha. Olhaste em redor para a paisagem e disseste, “vê pai, parece uma manta…” sem saberes que na tua acutilante perspicácia, viste aquilo que muitos adultos já ali sentiram mas não conseguiram traduzir em palavras.
Ao entrarmos no portão verde que dá acesso aos baloiços, segui com atenção cada gesto e cada movimento teu, alimentando-me da alegria do teu sorriso despreocupado, tão radiante com tão pouco, como só as crianças sabem ser.
Vi-te saltitar do escorrega para o baloiço, do balancé para a casinha de brincar e no alto do cesto que fica no mastro do barco dos piratas que não se vê, captei-te a aura, a esfinge, o perfil, o narizito que vi pela primeira vez num monitor electrónico, no segundo ou terceiro piso de um velho prédio da Avenida da República, numa tarde quente de Julho. Já tínhamos feito diversas ecografias mas nenhuma como esta, na capital. Diziam que era a mais importante e eu acreditei porque nas outras, o mais que consegui ver foram umas imagens difusas de uma coisa que mais parecia o anticiclone dos Açores num boletim meteorológico do tempo do Anthímio de Azevedo. Nada!
Ali, assim que a primeira imagem surgiu, não consegui conter em mim a emoção que senti cair-me pela face em silêncio e a médica, mais que batida nestas histórias, perguntou à mãe, sempre mais calma, mais comedida, mais reservada:
“Mas o que é que ele tem?”.
“Ah… ele é mesmo assim…”, respondeu a Cris baixinho.
Quando revelou que era uma menina (que eu tanto queria!), a coisa agravou-se ainda mais, como é óbvio. Eu sei que um homem é um homem mas às vezes o nosso organismo tem limitações e não consegue acompanhar e velocidade vertiginosa dos sentimentos que nos assolam o pensamento.
Foi nesse preciso momento que saiu o teu nome porque eu disse: “chama-se Leonor”. Já havia várias hipóteses de nomes que andavam na baila mas o definitivo tornou-se dessa maneira ali.
“Mas Leonor porquê?”
“Porque tem cara de Leonor. Porque se chama assim. Não engana ninguém. Não vêem?”.
Seguiram-se meses de fascínio e de descoberta, de novidade e mil receios, de ansiedade e excitação. Cada batida do coração, cada pontapé, cada volta no ventre era uma festa. Colei na minha secretária um quadro que explicava o que acontecia em cada semana, um desses quadros que fotocopiei de uma revista de senhoras e andava sempre em cima daquilo.
Depois chegaram finalmente, o dia e a noite e o momento do nascimento e os instantes mais belos de toda a minha vida. Ainda hoje, se tivesse que escolher 5 de todos os minutos que já vivi, tenho a certeza de que seriam aqueles. Foram os mais intensos, os mais trágicos, os mais rápidos e os mais inenarráveis por serem ao mesmo tempo, um soco no estômago e o mais terno dos aconchegos.
A minha sogra perguntou-me ao telefone “é perfeitinha?” e eu disse-lhe “acho que sim”, porque ainda vinha encandeado por aqueles dois olhitos escuros que me fitaram a centímetros pela primeira vez.
Tremia por todo o lado, mas esforcei-me por descer as escadas sem cambalear. Acho que não me saí mal.
Eu quero que os lugares-comuns se amolem, porque o que apetece mesmo dizer e é verdade, é que a partir daí, a minha e a nossa vida nunca mais foi a mesma. Completou-se, preencheu-se, enriqueceu-se, fundiu-se, agigantou-se… passou para um nível acima.
Digo-o por mim, um filho quando é assim vivido não tem nada a agradecer a uma pai, por serem tão grandes as alegrias que nos proporciona no dia-a-dia.
E logo tu, filha, que me saíste este encanto de criança, doce e vivaça, tão esperta e tão feminina, tão dedicada e carinhosa, tão ao nosso jeito, como eu sempre te sonhei.
Graças a Deus, tiveste a sorte de nasceres e cresceres só com amor à tua volta, porque foi coisa que nunca te faltou, da parte dos teus mais queridos. Não houve ninguém que não tivesse toda a disponibilidade para te dar aquilo que de melhor leva dentro.
Eu sei porque é que nos muitos (tantos!) desenhos que fazes desde pequenina, (que eu guardo religiosamente com datas e títulos dentro de caixas), os bonecos, as flores e o sol aparecem sempre a sorrir.
Hoje não fui eu que me fui deitar na tua cama para te acordar com os beijinhos da manhã. Hoje foste tu que me vieste namorar com os presentes que guardavas às escondidas no teu armário e eu perguntei-te que dia diferente querias e foi assim que mudámos o que tínhamos previsto só para irmos às comprinhas e às pizzas e áquilo que te faz feliz. Estes dias também servem para estarmos mais atentos e pude ver como estás grande (“já chego às maminhas da mãe!”) e bonita. Reparei como o teu rosto está mais alongado, a expressão mais adulta e as calças pelas canelas.
Nem tudo tem sido fácil, Leonor, e eu aprendi agora que ao mesmo tempo que os filhos aprendem a crescer, nós aprendemos a ser pais e a ser adultos. É um processo contínuo, multi-multi-multifacetado e de 24 horas por dia e nem sempre corre como é desejado.
Dói-me no peio quando te tenho que dar um não, como nesse domingo, quando brigámos ao almoço e eu te tive que dizer que se não comesses o peixinho todo, não te ia dar de lanchar e o mais certo era morreres de fome antes da hora de jantar e tu olhaste para mim com ar de desespero, alarmada pela sentença e gritaste-me: “mas pai, por favor, todos os meninos lancham! Tu não podes fazer-me isso!” e eu respondi-te “posso… porque eu é que mando!”. E o peixe marchou todo.
Como me doeu na segunda-feira à noite quando não te deixei ver as fotos novas porque não quiseste ir sozinha à cozinha buscar a pen, com medo do escuro. Por mais que te explicássemos que não havia nada a temer, a coisa não ia e eu peguei-te na mão, olhei-te nos olhos e disse-te: “confias em mim?” e tu disseste que sim e percorremos no escuro cada escada, cada divisão, cada recanto e até o sótão, até que tu percebesses que não há nada a temer desse escuro quando estamos na nossa casa. Fizeste como se não tivesse sido nada mas eu sei que no dia seguinte, assim que entraste na Ludoteca, disseste à Idalina, “sabes, eu cá já não tenho medo do escuro”.
Vou tentar esconder de ti o mais que puder que há coisas que nós os crescidos também não sabemos, para que nos continues a ver como esse farol, esse porto de abrigo onde hás-de sempre regressar quando quiseres, por estar sempre aberto para ti.
Hoje no restaurante em Portalegre, vi meninas e meninos benzocas da cidade, com mais dez anos que tu, a revezarem-se em namoricos e olhares ali à frente de todos. Tenho que me ir preparando mas sei que não vou resistir a tamanho embate. A Cris leu-me o pensamento e disse-me entre dentes, “passa tão depressa, não passa?”.
Passa, passa. Ainda ontem te mudava as fraldinhas que te ajeitava no rabito gordo e agora já te escuto a somares as letras de todas as palavras que vês à frente, desde a marca da espuma de barbear aos pneus do automóvel.
Os anos passam e passarão, nossa querida Leonor, mas duma certeza nunca duvides: da incondicionalidade do nosso amor.
Os anos passam e o nosso desejo continua a ser o mesmo, o querer o melhor para ti… e que sejas feliz. Se a tua vida dependesse da nossa, sabes que não hesitaríamos por um segundo que fosse e esse há-de ser um segredo que levarás sempre contigo para te aquecer quando necessitares mais dele.
Partindo daí, se for essa a vontade, há ainda tanto por descobrir, tanto caminho por trilhar, tanta aventura para viver e tu farás sempre tudo valer a pena porque tu… és mesmo a razão de tudo assim ser.
No dia do pai lembro-me também do meu, de tudo aquilo que lhe dei e sobretudo, do que dele recebi… e do tanto que ficou por dizer. Os olhos estão postos no futuro e não vai haver flores, nem visitas… porque não há nada ali por visitar e porque te trago sempre comigo e a ti recorro quando posso. É pela vida que temos que pugnar, que lutar e que preservar. Aquece-me pensar que haverá um momento, em que teremos todo o tempo para meter a conversa em dia. Vai um daqueles apertados…
Quando parei o carro à porta do Centro Cultural disseste-me, “então mas o que é que estamos aqui a fazer parados?”.
“Vou só ali acima ver se está tudo a correr bem e se é preciso alguma ajuda para que tudo esteja pronto a horas.”
“Ah, eu já sabia. Agora falas com um, e mais outro e mais outro e já não vamos ao parque como prometeste!”.
Respondi-lhe que não, que era promessa e ia cumpri-la e assim foi. Pelo caminho fui-lhe tirando fotos, admirando a cada uma, a graça desta turista acidental, de óculos amarelos e máquina fotográfica de brincar, de fato de treino da “Hello Kitty” e ar bem disposto.
Parámos no largo das finanças, “onde tu trabalhavas”, e “onde hei-de voltar a trabalhar” e sentamo-nos nos banquinhos de madeira junto à muralha. Olhaste em redor para a paisagem e disseste, “vê pai, parece uma manta…” sem saberes que na tua acutilante perspicácia, viste aquilo que muitos adultos já ali sentiram mas não conseguiram traduzir em palavras.
Ao entrarmos no portão verde que dá acesso aos baloiços, segui com atenção cada gesto e cada movimento teu, alimentando-me da alegria do teu sorriso despreocupado, tão radiante com tão pouco, como só as crianças sabem ser.
Vi-te saltitar do escorrega para o baloiço, do balancé para a casinha de brincar e no alto do cesto que fica no mastro do barco dos piratas que não se vê, captei-te a aura, a esfinge, o perfil, o narizito que vi pela primeira vez num monitor electrónico, no segundo ou terceiro piso de um velho prédio da Avenida da República, numa tarde quente de Julho. Já tínhamos feito diversas ecografias mas nenhuma como esta, na capital. Diziam que era a mais importante e eu acreditei porque nas outras, o mais que consegui ver foram umas imagens difusas de uma coisa que mais parecia o anticiclone dos Açores num boletim meteorológico do tempo do Anthímio de Azevedo. Nada!
Ali, assim que a primeira imagem surgiu, não consegui conter em mim a emoção que senti cair-me pela face em silêncio e a médica, mais que batida nestas histórias, perguntou à mãe, sempre mais calma, mais comedida, mais reservada:
“Mas o que é que ele tem?”.
“Ah… ele é mesmo assim…”, respondeu a Cris baixinho.
Quando revelou que era uma menina (que eu tanto queria!), a coisa agravou-se ainda mais, como é óbvio. Eu sei que um homem é um homem mas às vezes o nosso organismo tem limitações e não consegue acompanhar e velocidade vertiginosa dos sentimentos que nos assolam o pensamento.
Foi nesse preciso momento que saiu o teu nome porque eu disse: “chama-se Leonor”. Já havia várias hipóteses de nomes que andavam na baila mas o definitivo tornou-se dessa maneira ali.
“Mas Leonor porquê?”
“Porque tem cara de Leonor. Porque se chama assim. Não engana ninguém. Não vêem?”.
Seguiram-se meses de fascínio e de descoberta, de novidade e mil receios, de ansiedade e excitação. Cada batida do coração, cada pontapé, cada volta no ventre era uma festa. Colei na minha secretária um quadro que explicava o que acontecia em cada semana, um desses quadros que fotocopiei de uma revista de senhoras e andava sempre em cima daquilo.
Depois chegaram finalmente, o dia e a noite e o momento do nascimento e os instantes mais belos de toda a minha vida. Ainda hoje, se tivesse que escolher 5 de todos os minutos que já vivi, tenho a certeza de que seriam aqueles. Foram os mais intensos, os mais trágicos, os mais rápidos e os mais inenarráveis por serem ao mesmo tempo, um soco no estômago e o mais terno dos aconchegos.
A minha sogra perguntou-me ao telefone “é perfeitinha?” e eu disse-lhe “acho que sim”, porque ainda vinha encandeado por aqueles dois olhitos escuros que me fitaram a centímetros pela primeira vez.
Tremia por todo o lado, mas esforcei-me por descer as escadas sem cambalear. Acho que não me saí mal.
Eu quero que os lugares-comuns se amolem, porque o que apetece mesmo dizer e é verdade, é que a partir daí, a minha e a nossa vida nunca mais foi a mesma. Completou-se, preencheu-se, enriqueceu-se, fundiu-se, agigantou-se… passou para um nível acima.
Digo-o por mim, um filho quando é assim vivido não tem nada a agradecer a uma pai, por serem tão grandes as alegrias que nos proporciona no dia-a-dia.
E logo tu, filha, que me saíste este encanto de criança, doce e vivaça, tão esperta e tão feminina, tão dedicada e carinhosa, tão ao nosso jeito, como eu sempre te sonhei.
Graças a Deus, tiveste a sorte de nasceres e cresceres só com amor à tua volta, porque foi coisa que nunca te faltou, da parte dos teus mais queridos. Não houve ninguém que não tivesse toda a disponibilidade para te dar aquilo que de melhor leva dentro.
Eu sei porque é que nos muitos (tantos!) desenhos que fazes desde pequenina, (que eu guardo religiosamente com datas e títulos dentro de caixas), os bonecos, as flores e o sol aparecem sempre a sorrir.
Hoje não fui eu que me fui deitar na tua cama para te acordar com os beijinhos da manhã. Hoje foste tu que me vieste namorar com os presentes que guardavas às escondidas no teu armário e eu perguntei-te que dia diferente querias e foi assim que mudámos o que tínhamos previsto só para irmos às comprinhas e às pizzas e áquilo que te faz feliz. Estes dias também servem para estarmos mais atentos e pude ver como estás grande (“já chego às maminhas da mãe!”) e bonita. Reparei como o teu rosto está mais alongado, a expressão mais adulta e as calças pelas canelas.
Nem tudo tem sido fácil, Leonor, e eu aprendi agora que ao mesmo tempo que os filhos aprendem a crescer, nós aprendemos a ser pais e a ser adultos. É um processo contínuo, multi-multi-multifacetado e de 24 horas por dia e nem sempre corre como é desejado.
Dói-me no peio quando te tenho que dar um não, como nesse domingo, quando brigámos ao almoço e eu te tive que dizer que se não comesses o peixinho todo, não te ia dar de lanchar e o mais certo era morreres de fome antes da hora de jantar e tu olhaste para mim com ar de desespero, alarmada pela sentença e gritaste-me: “mas pai, por favor, todos os meninos lancham! Tu não podes fazer-me isso!” e eu respondi-te “posso… porque eu é que mando!”. E o peixe marchou todo.
Como me doeu na segunda-feira à noite quando não te deixei ver as fotos novas porque não quiseste ir sozinha à cozinha buscar a pen, com medo do escuro. Por mais que te explicássemos que não havia nada a temer, a coisa não ia e eu peguei-te na mão, olhei-te nos olhos e disse-te: “confias em mim?” e tu disseste que sim e percorremos no escuro cada escada, cada divisão, cada recanto e até o sótão, até que tu percebesses que não há nada a temer desse escuro quando estamos na nossa casa. Fizeste como se não tivesse sido nada mas eu sei que no dia seguinte, assim que entraste na Ludoteca, disseste à Idalina, “sabes, eu cá já não tenho medo do escuro”.
Vou tentar esconder de ti o mais que puder que há coisas que nós os crescidos também não sabemos, para que nos continues a ver como esse farol, esse porto de abrigo onde hás-de sempre regressar quando quiseres, por estar sempre aberto para ti.
Hoje no restaurante em Portalegre, vi meninas e meninos benzocas da cidade, com mais dez anos que tu, a revezarem-se em namoricos e olhares ali à frente de todos. Tenho que me ir preparando mas sei que não vou resistir a tamanho embate. A Cris leu-me o pensamento e disse-me entre dentes, “passa tão depressa, não passa?”.
Passa, passa. Ainda ontem te mudava as fraldinhas que te ajeitava no rabito gordo e agora já te escuto a somares as letras de todas as palavras que vês à frente, desde a marca da espuma de barbear aos pneus do automóvel.
Os anos passam e passarão, nossa querida Leonor, mas duma certeza nunca duvides: da incondicionalidade do nosso amor.
Os anos passam e o nosso desejo continua a ser o mesmo, o querer o melhor para ti… e que sejas feliz. Se a tua vida dependesse da nossa, sabes que não hesitaríamos por um segundo que fosse e esse há-de ser um segredo que levarás sempre contigo para te aquecer quando necessitares mais dele.
Partindo daí, se for essa a vontade, há ainda tanto por descobrir, tanto caminho por trilhar, tanta aventura para viver e tu farás sempre tudo valer a pena porque tu… és mesmo a razão de tudo assim ser.
No dia do pai lembro-me também do meu, de tudo aquilo que lhe dei e sobretudo, do que dele recebi… e do tanto que ficou por dizer. Os olhos estão postos no futuro e não vai haver flores, nem visitas… porque não há nada ali por visitar e porque te trago sempre comigo e a ti recorro quando posso. É pela vida que temos que pugnar, que lutar e que preservar. Aquece-me pensar que haverá um momento, em que teremos todo o tempo para meter a conversa em dia. Vai um daqueles apertados…



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