quinta-feira, 20 de março de 2008

Dia do Pai

Marvão. 16.03.2008


No domingo, depois de arrumarmos a cozinha e passarmos pela pastelaria para uma bica e um chocolate, rumámos a Marvão para assistirmos à terceira peça de teatro do Festival Amador, desta vez um musical com crianças. Prometi-te que se chegássemos a tempo, ainda passávamos pelo recém-recuperado Parque Infantil de Marvão, para uma inauguração informal a dois.

Quando parei o carro à porta do Centro Cultural disseste-me, “então mas o que é que estamos aqui a fazer parados?”.

“Vou só ali acima ver se está tudo a correr bem e se é preciso alguma ajuda para que tudo esteja pronto a horas.”

“Ah, eu já sabia. Agora falas com um, e mais outro e mais outro e já não vamos ao parque como prometeste!”.

Respondi-lhe que não, que era promessa e ia cumpri-la e assim foi. Pelo caminho fui-lhe tirando fotos, admirando a cada uma, a graça desta turista acidental, de óculos amarelos e máquina fotográfica de brincar, de fato de treino da “Hello Kitty” e ar bem disposto.

Parámos no largo das finanças, “onde tu trabalhavas”, e “onde hei-de voltar a trabalhar” e sentamo-nos nos banquinhos de madeira junto à muralha. Olhaste em redor para a paisagem e disseste, “vê pai, parece uma manta…” sem saberes que na tua acutilante perspicácia, viste aquilo que muitos adultos já ali sentiram mas não conseguiram traduzir em palavras.

Ao entrarmos no portão verde que dá acesso aos baloiços, segui com atenção cada gesto e cada movimento teu, alimentando-me da alegria do teu sorriso despreocupado, tão radiante com tão pouco, como só as crianças sabem ser.

Vi-te saltitar do escorrega para o baloiço, do balancé para a casinha de brincar e no alto do cesto que fica no mastro do barco dos piratas que não se vê, captei-te a aura, a esfinge, o perfil, o narizito que vi pela primeira vez num monitor electrónico, no segundo ou terceiro piso de um velho prédio da Avenida da República, numa tarde quente de Julho. Já tínhamos feito diversas ecografias mas nenhuma como esta, na capital. Diziam que era a mais importante e eu acreditei porque nas outras, o mais que consegui ver foram umas imagens difusas de uma coisa que mais parecia o anticiclone dos Açores num boletim meteorológico do tempo do Anthímio de Azevedo. Nada!

Ali, assim que a primeira imagem surgiu, não consegui conter em mim a emoção que senti cair-me pela face em silêncio e a médica, mais que batida nestas histórias, perguntou à mãe, sempre mais calma, mais comedida, mais reservada:
“Mas o que é que ele tem?”.
“Ah… ele é mesmo assim…”, respondeu a Cris baixinho.

Quando revelou que era uma menina (que eu tanto queria!), a coisa agravou-se ainda mais, como é óbvio. Eu sei que um homem é um homem mas às vezes o nosso organismo tem limitações e não consegue acompanhar e velocidade vertiginosa dos sentimentos que nos assolam o pensamento.

Foi nesse preciso momento que saiu o teu nome porque eu disse: “chama-se Leonor”. Já havia várias hipóteses de nomes que andavam na baila mas o definitivo tornou-se dessa maneira ali.

“Mas Leonor porquê?”

“Porque tem cara de Leonor. Porque se chama assim. Não engana ninguém. Não vêem?”.

Seguiram-se meses de fascínio e de descoberta, de novidade e mil receios, de ansiedade e excitação. Cada batida do coração, cada pontapé, cada volta no ventre era uma festa. Colei na minha secretária um quadro que explicava o que acontecia em cada semana, um desses quadros que fotocopiei de uma revista de senhoras e andava sempre em cima daquilo.

Depois chegaram finalmente, o dia e a noite e o momento do nascimento e os instantes mais belos de toda a minha vida. Ainda hoje, se tivesse que escolher 5 de todos os minutos que já vivi, tenho a certeza de que seriam aqueles. Foram os mais intensos, os mais trágicos, os mais rápidos e os mais inenarráveis por serem ao mesmo tempo, um soco no estômago e o mais terno dos aconchegos.

A minha sogra perguntou-me ao telefone “é perfeitinha?” e eu disse-lhe “acho que sim”, porque ainda vinha encandeado por aqueles dois olhitos escuros que me fitaram a centímetros pela primeira vez.

Tremia por todo o lado, mas esforcei-me por descer as escadas sem cambalear. Acho que não me saí mal.

Eu quero que os lugares-comuns se amolem, porque o que apetece mesmo dizer e é verdade, é que a partir daí, a minha e a nossa vida nunca mais foi a mesma. Completou-se, preencheu-se, enriqueceu-se, fundiu-se, agigantou-se… passou para um nível acima.

Digo-o por mim, um filho quando é assim vivido não tem nada a agradecer a uma pai, por serem tão grandes as alegrias que nos proporciona no dia-a-dia.

E logo tu, filha, que me saíste este encanto de criança, doce e vivaça, tão esperta e tão feminina, tão dedicada e carinhosa, tão ao nosso jeito, como eu sempre te sonhei.

Graças a Deus, tiveste a sorte de nasceres e cresceres só com amor à tua volta, porque foi coisa que nunca te faltou, da parte dos teus mais queridos. Não houve ninguém que não tivesse toda a disponibilidade para te dar aquilo que de melhor leva dentro.

Eu sei porque é que nos muitos (tantos!) desenhos que fazes desde pequenina, (que eu guardo religiosamente com datas e títulos dentro de caixas), os bonecos, as flores e o sol aparecem sempre a sorrir.

Hoje não fui eu que me fui deitar na tua cama para te acordar com os beijinhos da manhã. Hoje foste tu que me vieste namorar com os presentes que guardavas às escondidas no teu armário e eu perguntei-te que dia diferente querias e foi assim que mudámos o que tínhamos previsto só para irmos às comprinhas e às pizzas e áquilo que te faz feliz. Estes dias também servem para estarmos mais atentos e pude ver como estás grande (“já chego às maminhas da mãe!”) e bonita. Reparei como o teu rosto está mais alongado, a expressão mais adulta e as calças pelas canelas.

Nem tudo tem sido fácil, Leonor, e eu aprendi agora que ao mesmo tempo que os filhos aprendem a crescer, nós aprendemos a ser pais e a ser adultos. É um processo contínuo, multi-multi-multifacetado e de 24 horas por dia e nem sempre corre como é desejado.

Dói-me no peio quando te tenho que dar um não, como nesse domingo, quando brigámos ao almoço e eu te tive que dizer que se não comesses o peixinho todo, não te ia dar de lanchar e o mais certo era morreres de fome antes da hora de jantar e tu olhaste para mim com ar de desespero, alarmada pela sentença e gritaste-me: “mas pai, por favor, todos os meninos lancham! Tu não podes fazer-me isso!” e eu respondi-te “posso… porque eu é que mando!”. E o peixe marchou todo.

Como me doeu na segunda-feira à noite quando não te deixei ver as fotos novas porque não quiseste ir sozinha à cozinha buscar a pen, com medo do escuro. Por mais que te explicássemos que não havia nada a temer, a coisa não ia e eu peguei-te na mão, olhei-te nos olhos e disse-te: “confias em mim?” e tu disseste que sim e percorremos no escuro cada escada, cada divisão, cada recanto e até o sótão, até que tu percebesses que não há nada a temer desse escuro quando estamos na nossa casa. Fizeste como se não tivesse sido nada mas eu sei que no dia seguinte, assim que entraste na Ludoteca, disseste à Idalina, “sabes, eu cá já não tenho medo do escuro”.

Vou tentar esconder de ti o mais que puder que há coisas que nós os crescidos também não sabemos, para que nos continues a ver como esse farol, esse porto de abrigo onde hás-de sempre regressar quando quiseres, por estar sempre aberto para ti.

Hoje no restaurante em Portalegre, vi meninas e meninos benzocas da cidade, com mais dez anos que tu, a revezarem-se em namoricos e olhares ali à frente de todos. Tenho que me ir preparando mas sei que não vou resistir a tamanho embate. A Cris leu-me o pensamento e disse-me entre dentes, “passa tão depressa, não passa?”.

Passa, passa. Ainda ontem te mudava as fraldinhas que te ajeitava no rabito gordo e agora já te escuto a somares as letras de todas as palavras que vês à frente, desde a marca da espuma de barbear aos pneus do automóvel.

Os anos passam e passarão, nossa querida Leonor, mas duma certeza nunca duvides: da incondicionalidade do nosso amor.

Os anos passam e o nosso desejo continua a ser o mesmo, o querer o melhor para ti… e que sejas feliz. Se a tua vida dependesse da nossa, sabes que não hesitaríamos por um segundo que fosse e esse há-de ser um segredo que levarás sempre contigo para te aquecer quando necessitares mais dele.

Partindo daí, se for essa a vontade, há ainda tanto por descobrir, tanto caminho por trilhar, tanta aventura para viver e tu farás sempre tudo valer a pena porque tu… és mesmo a razão de tudo assim ser.

No dia do pai lembro-me também do meu, de tudo aquilo que lhe dei e sobretudo, do que dele recebi… e do tanto que ficou por dizer. Os olhos estão postos no futuro e não vai haver flores, nem visitas… porque não há nada ali por visitar e porque te trago sempre comigo e a ti recorro quando posso. É pela vida que temos que pugnar, que lutar e que preservar. Aquece-me pensar que haverá um momento, em que teremos todo o tempo para meter a conversa em dia. Vai um daqueles apertados…

terça-feira, 18 de março de 2008

Por motivo da santa quadra pascal

Da esquerda para a direita, sem contar os que estão de costas e a partir do que está com a mão no queixo: Garraio, Bugalhão, o mestre (fiquei bem, não fiquei?), Bonito (sussurrando-me ao ouvido para estar caladinho...) e Luís Bugalhão (trocando impressões com um anónimo)


2º Encontro de bloguistas, blogueiros, frequentadores da Tasca do Ti Sabi

Caríssimos irmãos, pediu-me o meu fiel amigo Garraio que abrisse aqui um capítulo específico destinado ao nosso segundo encontro. Seja feita a sua vontade, assim na terra como no Pino.

Como parece que há por aí muitos comentários e inscrições perdidos noutros posts, cria-se então aqui por portaria governamental, o espaço próprio para todas as dúvidas e todos os esclarecimentos.

Será por aqui que vão entrar as mais recentes inscrições, como será aqui que vamos explicar tudo para que ninguém fique descalço: quantos quilómetros tem a caminhada, qual a roupa adequada, as referências para o GPS, quantas minis vai beber cada um, se podem pagar com Multibanco, quem é que vai calar o nosso Bugalhão (qual dos dois?), se sempre vamos acabar a noite na pastelaria brasileira que está no cruzamento para o Pino e mais importante ainda, a bolsa de apostas sobre se será desta que o taberneiro quebra a jura de não tocar numa gota de álcool durante 1 ano (365 dias!).

Isto está ao rubro.

Venham daí c*****o!

Vendo o Palma... no blogue Palmaníaco


Os fãs do Palma não perdoam… Têm um sistema inteligente de detecção de artigos sobre o mestre na net e caçaram-me em flagrante.

Bons rapazes…

Pediram autorização e tudo e foram de uma cortesia inexcedível.

O relatório do concerto foi publicado aqui.

A ceder assim os textos gratuitamente, vai ser difícil juntar os euros para a piscina insuflável que vi no catálogo de Primavera / Verão do Modelo mas…

nem só de pão vive o homem.

Está bem assim!

domingo, 16 de março de 2008

Voo nocturno



Estas sim, imagens exclusivas do "Vendo o mundo de binóculos do alto de Marvão",
captadas com um Nokia N70 já usadote mas que serviu bem para o efeito.
Os momentos que antecederam o início do espectáculo foram de expectativa.

Que Jorge Palma se apresentaria ali nesta noite? Em que estado e com que disposição?

Os relatos atribulados de anteriores concertos e os muitos episódios rocambolescos que ajudaram a criar uma aura mística sem par, digna desta figura icónica na música portuguesa, adensavam o mistério.

A sua fama de boémio, de ébrio, de libertino, a longa e pública relação de excessos com o álcool e com a vida deixavam no ar uma bruma de dúvidas sobre o espectáculo ao qual iríamos assistir.

Para mim, a excitação era ainda maior por ser a primeira vez que o via actuar depois de ter perdido algumas exibições por inusitados acasos sendo o mais flagrante o do concerto de Marvão, ao qual falhei por ser em vésperas de exame final de admissão às Finanças. Esse ficou-me atravessado e deixou-mas prometidas.

Felizmente, o Jorge Palma do CAEP na noite de 15 de Março de 2008, foi um Jorge Palma no seu melhor, ou por outras, um grande Jorge Palma.

As luz ténue que acompanhou a sua entrada revelou-nos um palco despido, onde apenas contava um piano, dando o mote para uma noite de récita solitária.

Todo de negro, com ar simpático e sorridente, apenas acompanhado por uma guitarra acústica, arrancou de pé a fundo para uma noite memorável protagonizada por um Palma em todo o seu esplendor.

Connosco esteve o poeta, o guitarrista virtuoso, o brilhante pianista, o grande músico, o animal de palco… o Palma entertainer, que conta piadas, quebra silêncios, interage com a plateia e reclama por um mais que merecido copo de vinho que teimou sempre em não chegar.

O bilhete dizia “Jorge Palma – Voo Nocturno” mas o que nós vimos foi muito mais que a apresentação do seu último e mui aclamado trabalho.

Após dois ou três temas novos onde passou com distinção provando que uma só guitarra pode ter tantos cambiantes, sentou-se ao piano e desfilou os obrigatórios “Frágil”, “Dá-me lume” e “Bairro do Amor” e os não tão óbvios “Disse fêmea” e “Estrela do Mar”, este último numa interpretação particularmente magnífica.

Sumptuoso e inesquecível o medley do poema musicado de Al Berto “Acordar tarde” e a “Valsa de um homem carente” de Carlos Tê.

Chamou então a si o seu filho Vicente, companheiro já habitual nestas andanças pelos palcos e a duas vozes (de timbres idênticos) e a duas guitarras contaram a história do “Jeremias, o fora-da-lei”, passearam pela “Terra dos Sonhos” (onde a gente trata a gente toda por igual) e terminaram numa cavalgada épica com uma interpretação bem esgalhada e quase western de “Dormia tão sossegada”.

Depois sentou-se, olhou para o line up na folha junto aos pés, sorriu e disse: “e agora é hora de ir-me embora” e saiu, fazendo graça à sua falta de atenção.

Regressou para o “já planeado” encore e saiu com a plateia de pé, rendida à sua hora e meia de encantos.

A magia não é negra, nem se esconde na manga, mas acontece de cada vez que um homem só, de tão pequena estatura, consegue sacar algo de dentro de si que o agiganta ao ponto de encher o palco, a sala e as nossas mentes e corações.

Louvor e distinção para o excelso trabalho de iluminação de Carlos Gonçalves que verdadeiramente roçou a perfeição. Genial na materialização dos cenários sonoros e no acompanhamento dos temas, ilustrando-os, imprimindo-lhes força e vida, ajudando-nos a compreende-los e a admirá-los em toda a sua magnitude. Notável!

Um serão de qualidade e as minhas óbvias e reconhecidas felicitações para o CAEP e seu staff, colega Polainas e Quim Zé, sempre, sempre brilhando na escuridão do backstage com um impressionante low profile.

Uma última palavra para o meu querido amigo Rui Pescada, de quem tanta vezes me lembrei durante a coisa. Há muito que eu ouvia o Jorge Palma, há muito que rodava e cuidava os seus discos, mas foi contigo que eu verdadeiramente me tornei fã, à pala também da tua devoção.

O lugar ao meu lado esteve vago. Continuo a pensar que era o teu!

Ainda o havemos de ver juntos!

Grande abraço!

Também extensível ao João André (pela lembrança do ingresso) e ao Hernâni e respectiva Fernanda, pela carona e companhia.

Foi bom, pá!

sexta-feira, 14 de março de 2008

Olhá Gazeta fresquinha!!!!

Clique para ver as gordas

Roupa velha "à Ti Sabi"

"Bon apetit?"


Nesta nova fase da minha vida em que estou mais ponderado, mais comedido, mais responsável, sempre sóbrio e saudável, há desafios que quero abraçar.

Aprender a cozinhar é um deles.

Há muito que o persigo e desta vez não me escapa.

De forma que nesta semana, num dia em que cheguei com tempo a casa para almoçar, disse à minha senhora que quem fazia o repasto era cá o Chefe Silva.

Assim, sob a sua orientação, saiu uma “Roupa Velha à Moda do Ti Sabi”:

1) Descasque umas batatas generosas logo para dentro do caixote do lixo para que não tenha que limpar duas vezes e lave dois ovos, se a refeição for para dois. Meta um recipiente ao lume meio de água e bote lá para dentro as batatinhas e os ovos e pode ser couve-flor também mas antes tire assim os raminhos que estejam menos bons porque já devia de estar no frigorífico há uns dias.

2) Enquanto aquilo coze, deite sal e vá ao frigorífico buscar um tupperware com bacalhauzinho já cozido e desfiado que fez a patroa.

3) Pegue nuns alhos e uma metade de cebola e lave-os. Deve lavar sempre por causa da ASAE. Corte os alhos assim aos bicadinhos como fazem nos programas de culinária da televisão e a cebola às rodelas.

4) Noutra boca do fogão, meta um recipiente com bastante azeite do bom. Lá dentro vai colocar os alhos e a cebola e fazer um refogado. Mexa com uma colher de pau. Quando o azeite estiver quente, introduza o bacalhau mas não meta sal porque este está um bocadinho salgado.

5) Toque de mestre: deite 3 ou 4 azeitonas lá para dentro.

6) Baixe o fogão do azeite porque as batatas ainda não estão cozidas.

7) Quando já estiver tudo cozinhado, tire as batas e os ovos. Meta numa bandeja de vidro assim as batatas no fundo e deite por cima o bacalhau e o azeite e os alhos e a cebola. O ovo é para ser cortado às rodelas, por cima, para decorar.

8) Leve à mesa e já está.

9) Bom apetite.

Apontamento 1: Isto com um tintinho, deve ser de estalo!

Dica do dia: Quando cortar os alhos, não lave as mãos com sabonete porque o cheiro não sai assim! Deixe antes só correr um fiozinho de água e meta lá as mãos quietas debaixo. Vai ver que sai tudo.

Agradecimentos: Cristina Lança, Pestana Hotéis, Manuel Luís Goucha, Restaurante Fialho - Évora.

Servimos ao domicílio.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Postalinho de Portugal 2 - "A alegria no trabalho"

Acordo invariavelmente com aquele sistema do rádio que dá logo música ou notícias ou outra cena qualquer que não dá para perceber porque ainda é muito cedo.

Carrego sempre num botãozinho preto que dá mais 10 minutos, mais 10, mais 10, mais 10, por aí fora até que a senhora que faz de esposa começa aos gritos e eu lá me locomovo…

Hoje começou mesmo com notícias e a primeira coisa que ouvi da boca do paquiderme do lado de lá da linha foi que 121 serviços de finanças iam ser encerrados e não sei quantos iam para os disponíveis, ou para a reforma, ou para a câmara de gás ou para a desgraçada que os pariu neste país de… cocó.

Ri-me debaixo dos lençóis e fiz como aquele coronel maluco do “Apocalypse Now” que gritava sob o som das hélices dos helicópteros: “Adoro o cheiro de napalm pela manhã!”.

Sim, não há nada como começar o dia recebendo a notícia que querem fechar o nosso serviço. O que não é nada mau, para os ambientes que por aí se vivem.

Se levasse com um barreno em cheio no crânio à queima-roupa quando fechasse o portão da garagem, como os desgraçados lá de Lisboa, ou se acordasse com uma bomba relógio enfiada no orifício anal, era bem pior!

Tá tudo bem!

Isto vai-se resolver…

Para comemorar a boa nova, lembrei-me de enviar um “Postalinho de Portugal” aos meus chefes, como sinal de gratidão.

A foto cacei-a há dias num jornal esquecido numa pastelaria cá da terra e fotografei-a com o telemóvel porque pensei logo: “há aqui um feeling tão grande que acho que isto ainda me vai dar jeito. Bem dito, bem feito”.

Ficaram bem, não ficaram?

À antiga! À tua maneira...


Vejo nas notícias que os alfaiates e os fatos por medida estão de novo na moda. Quando a produção já parecia definitivamente standartizada, eis que regressam em força os fatos desenhados para o corpinho de cada um, com pormenores, acessórios e assinatura personalizada.

Claro que tudo isto assim só para a malta mais endinheirada, que dar 200 euros por camisa não é para todos.

Pelo preço de um casaco feito à antiga, compra-se a indumentária toda ali na Modalfa e ainda se trazem os sapatos e com alguma ginástica orçamental, até um perfumezito para dar cheiro à coisa.

E eu lembrei-me do meu avô João Ereio, que já lá está na terra da verdade.

Lembrei-me da divisão onde tinha o seu estúdio em Idanha, depois de reformado, onde fazia uns biscates para quem o conhecia. Lembrei-me das fitas métricas, dos retalhos que se apinhavam geometricamente até ao tecto, da sua mesa, da tesoura, do sabonete azul que usava para riscar nos tecidos que era igualzinho ao do alfaiate que apareceu na televisão. Lembrei-me também dos caderninhos onde apontava tudo com tanto pormenor, onde escrevia sempre “meu netinho Pedro” antes de tomar nota das medidas. Lembrei-me de como usava o relógio ao contrário no pulso, com o 12 virado para fora. Lembrei-me das suas plantinhas, da pequena horta e dos provérbios e dizeres que tinha sempre na memória. Lembrei-me das suas leituras, dos livros e dos Bordas d’Água e do quadro que tinha com um louvor que recebeu na escola. Lembrei-me de como era tão sensível e atencioso connosco.

Quando vi estas notícias lembrei-me que se calhar, se ainda fosse vivo, talvez gostasse de ter essa alegria de ver o seu trabalho reconhecido como nos tempos áureos da sua arte.

Aposto que os fatos que ele faria agora seriam muito mais perfeitos do que os do senhor que apareceu na televisão.

Pelo menos para mim.

sábado, 8 de março de 2008

o Yoga e Eu



Maneiras que agora de há uns tempos a esta parte, resolvi meter-me no Yoga.

Há muito que eu queria conhecer mais sobre o Yoga. Lia tudo o que apanhava sobre a matéria, tentava investigar por todos os meios e do pouco que sabia, sempre achei que poderia ser uma onda muito positiva para mim, sobretudo naquela vertente do relaxamento e do auto-conhecimento.

Foi portanto com o maior entusiasmo que ouvi dizer ao meu colega Zé Garção que tinha acabado de vender uma propriedade a uma senhora holandesa que era professora de Yoga e se tinha fixado no concelho. Disse-lhe logo “epá, há muito que esperava por isso. Tenho já de a conhecer”.

Deu-me o número, marcámos uma reunião por telefone e antes de a receber, comecei a imaginar como é que a senhora seria. O preconceito falou mais alto e na minha ideia formou-se a imagem de alguém místico, excêntrico e exuberante. Quando soube da notícia que eu ia aderir, a minha filha perguntou-me logo se eu ia para lá “cruzar as pernas e dizer huuuummmmmmmm”. Foi esse estereótipo que me fez pré-conceber uma Liesbeth bem diferente da realidade, como de resto pude desde logo constatar.

Entrou-me então no gabinete uma senhora muito simpática e com um ar super natural. Muito segura, com um olhar expressivo e algo desconcertante por ser tão cristalino e apaziguador, mais parecia uma escritora ou uma governanta inglesa do que uma professora de Yoga. Muito clara e afável, falou-me do seu currículo e do seu querer e eu apoiei falando em nome do município, revelando as nossas possibilidades e onde achava que poderíamos ser úteis.

Fomos trabalhando à distância, trocando e-mails e opiniões, e calendarizámos as actividades, de forma que a expectativa foi aumentando há medida que se aproximava o dia de início das aulas. Que resposta teríamos por parte da população?

Penso que lhe disse algures nas nossas conversas que também eu queria participar como aluno mas não me inscrevi logo. Sabem como é… nestas terras, ir para o Yoga não é o mesmo que ir para o futebol, o judo ou para o kickboxing. Fui assim meio que assolado por um complexo Billy Elliot que me mantinha num controlo à distância.

Perguntei então ao Cristóvão da piscina, como quem não quer a coisa: “então o Yoga? Há muitas inscrições?”.


“Ai sim? E homens, já há algum inscrito?”.

“Já! Há um! Foi logo o primeiro”.

“Porreiro? Então aponta-me lá a mim que já somos dois”, mas não fiquei lá muito convencido comigo.

“Será que ia ser bem aceite? E aquilo seria só assim mais para senhoras e ia para lá eu feito gabirú? E se não gostasse? E se não me adaptasse? Será que a professora ficava aborrecida? Será que se ia embora?”

Durante as semanas que antecederam o arranque efectivo, andei pensando nisto.

“E se eu aparecesse lá normalmente vestido só assim estilo a ver como era e depois decidisse se ia ou não?”.

“Não! Não! Pensei eu para comigo mesmo. Isto ou vai ou racha!”.

E foi.

Meio a medo.

Hoje, passado talvez um mês, posso garantir-me a mim mesmo que o Yoga foi provavelmente a melhor coisa que me aconteceu nestes últimos tempos. Um bálsamo.

E estou em condições de dizer a quem não sabe que o Yoga, para mim, é a técnica, o método, a disciplina, a ciência(?) que ensina a nossa mente, o nosso ser, a nossa alma a viver nesta carcaça em que somos enfiados quando nascemos e nos há-de acompanhar ao longo de toda a vida.

Assim que caímos no mundo, somos obrigados, desde a primeira hora, desde que um gajo de bata branca nos bate nas nádegas desnudadas para que choremos e provemos que o sistema de som está operacional, a dar resposta aos estímulos do exterior. A complexidade do que nos rodeia é de tal forma absorvente que durante os primeiros dias, meses, anos, nada mais fazemos do que dar resposta às solicitações. Depois vêm os primeiros passos, o falar, os primeiros ensinamentos, os primeiros valores e a entrada na escola. A partir daí somos cilindrados. A concorrência e o grau de exigência é de tal forma intenso que pouco tempo nos resta sequer para respirar.

Desse mundo saímos com 15 ou 18 ou 22 ou 25 ou mais anos, conforme a inteligência e o percurso académico mas dali vamos direitinhos para a selva laboral, à procura do nosso lugarinho no mundo do trabalho. Se a coisa correr bem, arranjamos um, casamos e ao fim de uns tempos chegam os filhotes. Por esta altura, a máquina faz “reset” e volta tudo ao início que revivemos através da vida deles. E assim vamos andando, andando, andando, até à reforma e depois é a tal conta. Isto se tudo correr bem.

O que significa que grande parte de nós não vive, mas antes sobrevive.

O que quer dizer que há pessoas que nascem, vivem e morrem ser terem sequer consciência efectiva daquilo que são. Apenas existem.

A mim parece-me um crime escandaloso desperdiçar a inteligência e as potencialidades do organismo porque pura e simplesmente se é negligente, não querendo saber.

Em boa hora (digo eu que não poderia haver melhor) me apareceu o Yoga e a Liesbeth, para bem dos meus pecados.

No Yoga aprendemos princípios elementares que ninguém nos explica senão ali.

No Yoga aprendemos a utilizar esta máquina feita de carne, ossos, tecidos, sangue, água e sei lá mais o quê, para que a potencializemos e sejamos felizes.

No Yoga aprendemos a sentir o chão e o contacto com a terra, aprendemos os diversos tipos de respiração que temos (3!), aprendemos a sentir-nos relaxados nas posições que nos poderiam parecer mais inusitadas, aprendemos a sentir-nos confortáveis como nunca antes quando estamos esticados no chão, aprendemos que se pode fazer exercício duríssimo quase sem esforço e sem suor (os meus abdominais que o digam) e em qualquer sítio ou hora. No Yoga aprendemos a sentirmo-nos melhores e a sermos pessoas melhores.

No Yoga aprendemos também a colocar os pensamentos em nuvens que mandamos embora e deixamos o armazém do pensamento reorganizar os materiais e funcionar melhor.

E não sou só eu que o digo. Há dias, uma senhora confessou, antes da aula começar, que se sentia diferente. Mais calma, mais ponderada, sorria agora para os mesmos problemas que a enervavam e irritavam antes. Disse tanto com tão pouco…

A turma é de resto muito híbrida e simpática, com pessoas de todos os tipos e dos mais diversos sítios na contagem de perto de 25. Temos alemães que falam alemão e inglês, temos espanhóis e portugueses, temos estrangeiros e locais, temos casalinhos perfeitamente sintonizados, temos curiosos que vão e não voltam, temos alguns indefectíveis e temos toda a gente que se sente cada vez melhor.

O Yoga é uma onda fantástica.

Com apenas quatro lições, às vezes dou por mim a fazer qualquer exercício impossível e a pensar “eu não acredito que estou a ser capaz de fazer isto e a sentir-me tão bem!”.

Vou contar-vos um episódio: há dias, com a sua esforçada pronúncia espanhola a tentar falar português, Liesbeth disse-nos: “ahora de espaldas, en el mantón (de costas, no tapete). Levanta las piernas e cruzas los pies. Ahora, segura en los pies e tira para la trasera”, e eu, ao tirar para a trasera, fiquei literalmente de patas para o ar. Torci-me todo de costas, tocando com os pés no chão por cima da minha cabeça. Em contacto com o solo praticamente só tinha a cabeça e os ombros. E o mais incrível de tudo é que conseguia respirar bem e me sentia confortável naquela posição. Mais que confortável, sentia-me relaxado, como se estivesse a fazer uma massagem a mim próprio.


Depois a Liesbeth mandou voltar à forma normal e aí é que a “porca torceu o rabo” porque eu engatei de vez ali naquele estado. Nem para trás, nem para a frente. A única coisa que eu conseguia ver pelo canto do olho era a boca de uma mulher ao contrário a rir-se. E a professora dizia: “bien Pedro, vuelve” e eu a pensar “está bem, está!”. A coisa estava complicada porque com tanta volta, as tripas perdem o norte e a gente fica toda ao reviralho e eu a pensar que se fizesse muita força ainda me rebentava ali uma flatulência que me acabava com a reputação. Já viram a conversa que não seria na praça pública saber que o vereador andava aos pinotes e aos traques pelo Yoga fora?!?!? Não me dava jeito nenhum. Mas lá houve uma mão caridosa que me deu uma palmada nas pernas e a tartaruga virou-se finalmente.

Hoje, numa aula adiantada, motivada pela sua deslocação ao país natal, aprendemos a exercitar os olhos, a massajar as orelhas, a esticarmo-nos, a torcermo-nos para o lado e a fazer muitas outras coisas incríveis que podem parecer estranhas para quem está de fora mas que para nós são maravilhosas.

Ela diz “vê lo que sientes ahora”, depois de cada exercício e a diferença nota-se mesmo.

Bem me dizia a Fernanda da recepção no outro dia “eu não sei o que é que se passa lá na aula que as pessoas entram com uma cara normal e saem de lá todas a sorrir e bem dispostas”. Com a paz estampada no rosto, digo eu.

Quando relaxamos, na parte final, e só ouvimos voz da Liesbeth e os seus ensinamentos ficamos ali todos como que hipnotizados por aquela magia tão boa. Acho que se nos mandasse cacarejar e abanar as asas saímos todos pela avenida abaixo a pôr ovos no meio do alcatrão. É impressionante.

Nós, os humanos, somos realmente incríveis. Inventámos uma escola da porra, onde os miúdos matam a cabeça com mil e uma matérias que não lhe fazem falta para absolutamente nada, e de onde não retiram quase mais nada a não ser aprender a matarem-se uns aos outros e se um apanhar um choque numa tomada eléctrica ou se engasgar e asfixiar com uma peça de fruta no recreio, bem pode espernear que ninguém sabe como o socorrer.

Nós, que deveríamos primeiro aprender as coisas essenciais para o nosso bem estar, só aprendemos merda e sucata. Temos de saber a tabela dos compostos químicos de “trás para a frente” ou as declinações de verbos mas não imaginamos como fazer um garrote e estancar uma hemorragia ou até mesmo como ser simpáticos e amáveis com os nossos pares.

No meu entender, todo o sistema deveria ser revisto no sentido da sua funcionalidade e o Yoga deveria ser uma disciplina obrigatória desde a 1ª classe: a única disciplina que ensina o aluno a gostar de si, a amar o seu corpo e os seus iguais, a sentir-se bem na sua condição.

E dizem muitos: “ah sim, essa história do Yoga… maluquices, tonteiras”. Bem, há muitas formas de ver as coisas, mas se olharmos em volta e virmos que a maior parte do pessoal anda encharcado em comprimidos, álcool, stress, má alimentação e não faz qualquer tipo de desporto… E o burro sou eu?

No pensamento final, Liesbeth disse-nos que de manhã deveríamos começar o dia por agradecer: “Abrir os olhos e agradecer a vida, a casa, a saúde, o conforto, o bem estar…”.

Quando já quase todos tinham saído, perguntei-lhe: “Liesbeth, agradecemos a quem?”.

“Buena pergunta”, disse sorrindo, a espanhola ao lado.

Com o ar mais seguro e confiante do mundo, Liesbeth olhou-me e disse-me “agradece a ti. Tu também tens uma marca da divindade como todos nós, como todos os seres vivos”.

Eu saí a pensar nisso, sorrindo como sempre, quando passei pela Fernanda, que dentro em breve se vai juntar à turma.

Posso estar maluco. Mas nunca me senti tão bem na minha vida inteira.

Obrigado a ti, Liesbeth. Nem sabes o bem que nos fazes.

quinta-feira, 6 de março de 2008

As aventuras de Beltrão "Cabeça de Limão"




Há dias chegou-se ao pé de mim e disse-me, “sabes, lá na escola, a professora da biblioteca pediu para os pais irem ler um conto.”

“Ai sim?”.

“Tu podes ir?”.

“Claro que sim. Que conto queres que eu leia?”

“Hum, pode ser o Capuchinho Vermelho”.

“O Capuchinho Vermelho? Que grande seca! Já todos os meninos sabem esse de trás para a frente”.

“Pois”.

“E se eu inventar um?”.

“Boa, pai!”

E assim, enquanto fazia a barba, nasceu o Beltrão “Cabeça de Limão” e a sua aventura com o menino preto.

A história saiu numa sexta-feira à noite, assim em duas horas de catarse.

Queria inaugurá-la com ela e a prima Maria mas a pequenita adoeceu e falhou à Matança do Porco e eu fiquei com as folhas no bolso.
Depois li-lha numa tarde, os dois sentados na cama.

Enquanto a história prosseguia, estudei-lhe os movimentos e os bocejos.

No final, esperei um comentário.

Abriu a boca e disse: “ó mãe, onde é que está a minha camisola do Benfica?”.

Mesmo assim não desanimei.

A mãe trabalhou muito nos fantoches e ensaiámos a preceito.

Hoje de manhã, lá levamos a tralha toda para a escolinha e “montámos a tenda”.

Um dos miúdos saltou a graçola óbvia: “deve vir para aí algum Circo Cardinas!”.

Por acaso até nem foi, mas correu bem. Pelo menos estiveram atentos e responderam correctamente às perguntas da professora.

No final, quando os amiguinhos nos bateram palmas, agradeceu e olhou para nós assim com um sorriso que não se explica, nem se paga e jamais se apaga.

Deve ser por estas que me disse como ontem: “sem ti não era feliz”.

Valeu a pena, filhota.
PS: Para quem ficar curioso e tiver dificuldades em adormecer, basta clicar aqui e depois no ficheiro do word para aceder à história. O método é o dos Radiohead: cada um dá o que quer. Abraço!
Créditos: As fotos são roubadas daqui.