domingo, 16 de novembro de 2008

Cruzando os céus de gerações (com os Cometas Negros)

Imagem de uma actuação em 1 de Agosto de 1964. Uma relíquia do arquivo familiar.
Com Ricardo Antunes no som; Blé na voz; Né Prata, Cristiano Semedo e Quim Barreto nas guitarras e Sobreiro na tarola


Vivi um dia muito feliz, sábado passado, quando me desloquei a Castelo Branco para representar o meu pai (conjuntamente com a mãe, mano, tias e demais família), na homenagem da cidade aos Cometas Negros. Quarenta anos depois, os jovens que foram autênticos porta-estandartes de uma geração reuniram-se para um reconhecimento público que mobilizou toda a cidade.

Com organização da Rádio Urbana e da Associação dos Antigos Alunos, devidamente apoiada pela Câmara Municipal e pela Junta de Freguesia local, a homenagem começou com uma simpática visita por uma cidade que cresceu de forma gigantesca e que parece a anos-luz da de então. Conhecendo um mundo novo através da vidraça do autocarro, os artistas e seus familiares, simpaticamente guiados pelo Eugénio “dos Vampiros”, puderam assim constatar o enorme salto de uma urbe que duplicou entretanto a sua população.

Seguiu-se uma simples mas muito sincera e emocionada sessão de homenagem no salão nobre dos paços do concelho da cidade, com a presença do presidente Joaquim Morão e toda a vereação, onde não faltaram a televisão, as rádios, os jornais locais e muitos, muitos amigos.

Na impossibilidade da sua comparência, tive aí então oportunidade de proferir algumas palavras de homenagem ao meu pai, e foi com muita alegria que soube que bateram fundo nos que ali estavam e o conheciam, pelos amáveis comentários que me dirigiram após o acto.

Depois do uso da palavra do sr. presidente, cada Cometa foi agraciado com duas obras literárias editadas pela Câmara e após o término da cerimónia, os agraciados reuniram-se num agradável almoço típico no restaurante Kalifa.

À noite e já com carácter público, mais de duzentos convivas juntaram-se num jantar-homenagem realizado no restaurante Varanda das Estevas. Sala composta com muita, muita gente que se percebia que não se revia há muito e depois do manjar, aconteceu o regresso glorioso aos palcos do colectivo, com todos os músicos das diversas formações num performance que levou ao delírio as muitas raparigas presentes no espaço, ao som de êxitos dos Shadows, Elvis Presley, Beatles e outros artistas de renome da época.

Aconteceu nesse jantar um dos pontos mais fortes da jornada, quando recebi, das mãos do próprio Joaquim Morão, a carteira profissional de músico do meu pai que foi guardada durante todos estes anos pelo seu empresário Pedro Rodrigues, com a particularidade de na mesma constar como “baterista de Jazz”.

Perguntou-me um jornalista que estava presente, o que é que este dia representava para mim e eu perguntei-me como é que consegui passar por tudo aquilo sem deixar que a emoção tomasse conta de mim. Foi mesmo muita emoção, de tão intensa e durante todo o dia, com o sentimento a galopar em cada minuto que passava.

Imaginei-o diversas vezes a entrar por aquelas portas no seu jeito único de andar, com os Ray Ban verdes a dançarem por cima do bigode. Imaginei-me ali a assistir aos beijos e os abraços, ao calor imenso que receberia. Os tantos beijos e abraços que me deram e que sei que eram para ele, que eu recebi em seu nome mas que sei que jamais poderei corresponder.
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Por não estar habituado, fiquei surpreso e extasiado por ter ouvido de tantas bocas que me achavam um decalque dele, pela fisionomia e pela forma de estar, que estavam a falar comigo e lhe parecia estarem perante o Sobreiro que conheceram na minha idade. Houve aliás diversas pessoas que nunca me viram e me saudaram de imediato tratando com a familiaridade de quem conheciam há décadas. Vai-me levar muito tempo a digerir tantos afectos. A todos eles, os que me fizeram sentir como se fosse filho de um próprio Beatle… bem hajam. Jamais vos poderei agradecer.

Modéstia aparte, acredito que os Cometas são um fenómeno que merece um estudo sociológico pela extensão do seu impacto. Os Cometas não foram apenas um grupo de jovens que tocavam êxitos da época. Os Cometas foram muito mais que isso e disso me apercebi bem neste dia tão intenso. Os Cometas foram um elemento aglutinador da juventude, foram uma semente de revolta num Estado policial e repreensivo, foram uma manifestação cultural que mudou a vida e a forma de estar no mundo de todos aqueles que os conheciam, foram percursores de um modelo de gestão musical inovador para a época, foram embaixadores de toda uma cidade e apenas não singraram numa carreira internacional porque lá fora havia um guerra que não compreendiam e foi fundamental na sua desagregação. Até nisso foram importantes, por serem o espelho de um sentir de então. Se a tudo isto juntarmos a vasta memorabilia disponível (muita dela exposta nas paredes do restaurante e inclui posters, fotos, cartazes, bilhetes, contratos e muitos outros elementos)… é ouro sobre azul.

E depois, gostei tanto de os conhecer e ouvir todas aquelas histórias que me contaram. São tão boa gente e senti-me tão próximo deles, sem nunca os ter visto… que não encontro explicação. Adorei saber como tinham um código interno de conduta que limitava os excessos e o grau de rebeldia; adorei conhecer os que nunca tinha visto sequer em foto; adorei saber como o meu pai foi aceite depois da saída do Pelejão, por andar sempre a tocar bateria nas mesas dos cafés com tudo aquilo que apanhava à mão; adorei constatar a veracidade de algumas histórias que hoje são para mim sagradas; adorei saber das loucas digressões algarvias repletas de música, jogo e namoradas inglesas; amei tanto tudo que parece que também estava lá.

A todos eles, pela emoção que lhes enchia os olhos de cada vez que falavam no Sobreiro, em nome dele… o meu bem hajam. Eu sei o quanto ele ia adorar tudo.

Não resisto a plasmar para a posteridade um desses episódios que me foi contado pelo vocalista Blé, uma classe de homem, assim que nos conhecemos. “Certo dia fomos tocar a um baile em Alcains. Chegámos lá e sentamo-nos na sala. O teu pai, com aquele ar dele, começou a observar tudo o que se passava em volta e em particular, numa miúda que parecia a princesa do sítio, toda prendada com um avental branquinho. Os da terra tratavam-na por “bébé”. “ò bébé para cá”, “ò bébé para lá”, era tudo e mais alguma coisa e ela a andar de um lado para o outro, bem à nossa frente, passeando-se. A dada altura o bom do Sobreiro abriu a boca e dirigindo-se a ela disse-lhe: “ò bébé… traz-me um tinto!”.

É uma história que se conta em 5 linhas mas que tem o espírito do Sobreiro todo lá dentro… irreverente, genuíno, granjeando estilo onde muitos não almejariam o banal e o brejeiro. Rápido, preciso, curto e conciso.

Saudades, meu velho! Vão por ti…

Grande beijo ao Miguel, à Alzira, à Cris, à Cali, à Bia, à Fatinha, ao Carlos. Estando juntos, estamos com ele.
Valeu!
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Da direita para a esquerda: com Né Prata, Cristiano Semedo, Blé e Camilo

Da direita para a esquerda: Blé, Né Prata, Cristiano, Quim Barreto, Cordas e Camilo

Imagem com Pedro Rodrigues (manager) e Jorge Sebastião (um dos fundadores)


Discursando no salão nobre da Câmara Municipal, durante a sessão solene presidida por Joaquim Morão, ladeado na tribuna pela Prof. Celeste Capelo da Associação de Antigos Alunos e por Ricardo Antunes da Rádio Urbana, os dois organizadores da homenagem

Admirando o Wall of Fame da memorabilia

Carteira Profissional do Sindicato Nacional dos Músicos do "baterista de Jazz" João Sobreiro

A formação entre 64 e 67






Cartaz da famosa Kon-Ti-Ki do Hotel de Faro. Passe uma noite agradável entre as 22h e as 4h, na companhia dos Cometas...








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Cometas Negros, ao vivo e em directo tocando cover do "Apache" dos Shadows
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Discurso proferido no Salão Nobre dos Paços do Concelho da Câmara Municipal de Castelo Branco, na sessão solene realizada a 15 de Novembro de 2008

Muito boa tarde. O meu nome é Pedro, sou filho do João Sobreiro, baterista dos Cometas Negros, entre os anos 64 e 67, e é com muita emoção que me encontro aqui em sua representação.

O meu pai nunca foi homem de saudosismos, quem gostasse de falar ou de olhar para o passado. Ainda assim, deixou, num ou noutro momento, escapar algumas histórias, alguns episódios que eu captei com o gosto e a atenção de um coleccionador dedicado. Dos Cometas soube sempre mais pelos amigos, por aqueles que o reencontravam e o brindavam com um “lembraste daquela vez em que…?”.

A procura de uma situação profissional mais estável fez com que a minha família tivesse seguido o percurso inverso de quase todas as outras que durante todo o século XX se deslocaram do campo para as cidades, em busca de melhores condições de vida. Paralelamente a essa movimentação singular, da cidade de Castelo Branco para a pequeníssima aldeia da Beirã, no concelho de Marvão, a 80 quilómetros ou cerca de 1 hora de distância, foi-se instalando um processo de luto mental, de mágoa silenciosa por se ter deixado para trás toda uma vivência, um rol de amizades, um passado e um estatuto construído em anos. Por ser tão difícil falar nesses tempos felizes passados na escola e no liceu, nos bailes e matinés adolescentes, compreendi sempre quando a vontade calou e procurei refrear a avidez da minha curiosidade.

Os Cometas Negros eram a pedra mais preciosa e reluzente deste legado emocional e para mim constituíram desde sempre uma autêntica entidade mítica com carácter de lenda, que acalentei com recurso a duas ou três fotos e um ou outro relato coleccionado religiosamente com uma devoção fervorosa. O solo de bateria durante o corte de energia no concurso do Monumental que conheci pelo Frederico, em Idanha; as noites loucas dos Carnavais da Serra da Estrela, as actuações e estadas no Casino de Montegordo, são achas para essa fogueira da memória com cuja veracidade nunca me preocupei, passando antes a chamá-las de minhas, com a fé de uma criança que pendura na lareira a peúga que espera por um Pai Natal, que sabe que dorme no quarto ao lado.

Eu sei que o Sobreiro foi sempre muito mais a atitude que o músico. Eu sei que o Sobreiro valia sobretudo pela pose, pela forma mágica como transformava a mais banal das coisas num motivo de gargalhada geral, pela graça natural, pelo jeito desengonçado, pelo generoso conceito de amizade, pelos timings acertados, por ser alguém ao pé de quem se estava sempre bem.

Não têm conta as vezes que lhe pedi que me ensinasse a tocar naquela guitarra que quase sempre o acompanhava e lhe granjeou fama e estatuto boémio em paragens alentejanas. Nos jantares e petiscos, em serões de amigos ou nos convívios da caça, nos saraus e nos compadres, cresci ao seu lado vendo-o brilhar e animar com arte os convivas que por ele se deixavam embalar. Haveria de perceber, anos mais tarde, que nunca me chegou a ensinar porque o que sabia nascia dele e para ele era, por não ter escalas, nem notas e por ser pessoal e intransmissível e ainda bem que assim ficou por ser irrepetível.

Não herdei a habilidade musical mas cresceu certamente dentro de mim a semente da música, sem a qual não consigo conceber a existência pela importância das melodias e das mensagens no meu viver. A música ajuda-nos a pensar, a crescer, a divertir, a socializar, a seguir em frente. Quantas vezes foi “aquela” música, que pensámos escrita só para nós, que nos ajudou a dar o salto, a arranjar coragem, a ser bem sucedidos? É por ela que estamos também aqui.

A vida levou-o cedo demais, ainda antes de cumprir 50 e destrocou-nos irremediavelmente a todos os que o amávamos, ao roubar-nos a alegria imensa da sua presença. Com ele partiu uma palheta de uma guitarra dos Cometas e nem aí se separaram…

Há dias dei por mim a pensar que se a morte, por absurdo e em abstracto, permitisse regressos precários à vida, como se praticam nas prisões de hoje em dia, gastaria agora certamente um dos créditos.

Apesar de tudo e por duro que seja, como diziam os Beatles no “Obla-di, Obla-da”… “life goes on” e para além disso… nada nos resta.

Gostaria de agradecer, em nome de toda a família presente, aos percursores que idealizaram e levaram a cabo este reencontro; à Câmara Municipal de Castelo Branco, na presença do seu ilustre presidente Joaquim Morão pela amável recepção desta manhã; a todos os Cometas, por se terem lembrado de nós e pelo esforço, de milhares de quilómetros, nalguns dos casos, para estarem aqui connosco, sobretudo àquele de quem me encontro mais próximo, pela via das novas tecnologias, o meu estimado Manuel Prata; e finalmente a todos vós, que estão aqui desfrutando connosco.

Acredito profundamente que a vida não termina quando o corpo morre. Os homens perpetuam-se enquanto houver quem os recorde, sobretudo quando acompanhados deste carinho e desta saudade. Obrigado por o manterem vivo. Eu sei que mais uma vez, não nos vai falhar, e vai estar lá atrás, em espírito, “malhando” na tarola, no bombo e nos pratos por todos nós, quando soarem os primeiros acordes.

Bem hajam, por me terem feito tão feliz.

Ao meu cometa, tão brilhante, quanto fugaz… eu sei que vais estar lá sempre por nós.

Grande abraço…

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Vidas…


Depois do reboliço da gloriosa 25ª edição da Feira da Castanha… segue-se o permanente acompanhamento institucional da comitiva dos irmãos brasileiros do Castelo do Piaui, durante 3 dias, no périplo que lhes preparámos pelos municípios amigos da vizinhança.

5ª e 6ª feira preenchidas com as Jornadas Internacionais de Arqueologia, organizadas conjuntamente com Valência de Alcântara.

Sábado em Castelo Branco com a reunião e homenagem da cidade aos Cometas Negros.



Cansado, mas muito feliz e realizado…



Com saudades dos meus (que mal vejo durante o dia…), do descanso da santa casinha… das minhas corridas… e sem tempo para me dedicar a este lar virtual que tanto prezo…

Aos leitores e frequentadores assíduos, as desculpas da gerência. No domingo voltamos ao horário normal de funcionamento e ao nosso convívio cibernético.

Darei notícias entretanto!

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

A mudança… (na qual podemos acreditar)


E sim… ele conseguiu.

Houve momentos em que temi que pudesse não ser assim. Os Estados Unidos da América são uma extensão gigantesca de território, um caldeirão de raças e credos com formas de ser e de pensar muito díspares mas muitos dos seus habitantes, sobretudo de áreas do interior profundo, estão ainda muito limitados por convicções do passado. De forma que sempre receei que esta mudança radical pudesse não se concretizar por esse receio de corte abrupto com a tradição.

Hoje já ninguém duvida que Obama é especial. Não conheço a fundo o seu programa eleitoral nem nunca li qualquer um dos dois livros que escreveu. Conheço as políticas que defende pelo que vi, ouvi ou li na comunicação social e o que sei da sua vida soube-o pela brilhante banda-desenhada que foi lançada nos States no calor da campanha e distribuída em Portugal pela Visão. Foi aí que descobri que é filho de um economista queniano e de uma antropóloga americana, que nasceu no Havai, onde foi criado pelos avós maternos e que viveu também na Indonésia, após o segundo casamento da mãe, o que o ajudou a compreender melhor o mundo como um todo.

Graduou-se com louvor em Harvard, foi professor de Direito Constitucional e mais tarde licenciou-se em Ciência Política. Apesar de se mover nas altas esferas das mais prestigiadas firmas de advogados de Chicago, nunca deixou de olhar pelos mais pobres e desfavorecidos, realizando trabalho comunitário de proximidade e defendendo os direitos civis dos que nada têm.

Obama é um desalinhado, um homem que não renega as suas raízes, que saiu do nada, que não teve problemas de confessar que andou por maus caminhos e esteve perigosamente próximo do álcool e da droga. Em 2000 não conseguiu um lugar como delegado na Convenção Democrática de Los Angeles. Foi barrado à porta e viu-se obrigado a assistir os discursos pelos televisores do Staples Center. Quatro anos depois foi convidado a fazer o discurso principal na Convenção para a nomeação de John Kerry e em 17 minutos passou de desconhecido candidato a senador do Illinois a estrela mediática. 8 anos depois venceu as eleições e faz história ao ser o primeiro afro-americano a chegar à Casa Branca, com apenas 47 anos.

Os seus discursos arrebatadores e quase proféticos apaziguam qualquer um por dentro e há nele uma fé, uma confiança, um “à vontade”, uma sinceridade e uma honestidade que nos tranquilizam. Eu acredito e por esta altura, milhões de americanos também. Eu não sei, mas dá-me sempre a sensação que podia ficar ali a ouvi-lo a vida inteira. Tudo aquilo faz sentido e acabamos sempre por ficar com vontade de fazer algo mais, de sermos pessoas melhores.

A serenidade com que fala, caminha e vive, prova que é feito da massa do grandes líderes como Kennedy ou Luther King. Oxalá não tenha um fim semelhante. A sua forma de estar, de tão pacífica e visionária torna-se perigosa para os grandes grupos de tubarões que controlam a economia e a sociedade e se sentem assim ameaçados. No espaço de um mês foram já identificadas três tentativas de assassinato. Essa é uma das duras realidades com que vai ter de aprender a lidar.

Aquela de dizer que sabe que não vai ser um presidente perfeito mas que vai sempre dizer a verdade e aquilo em que acredita, tem porras. É preciso muita coragem e muita audácia política para poder descer àquele patamar.

E depois, tudo isto só é possível na América e prova, de facto, que o sonho ainda vive: em quarenta anos, os negros passaram dos bancos de trás dos autocarros e das áreas descriminadas nos restaurantes, de um tratamento ao nível da condição de animais inferiores, para a cadeira mais poderosa da nação.

Eu compreendo a emoção e as lágrimas do Reverendo Jesse Jackson ontem na plateia de Chicago. Ele viveu o suficiente para ter visto todo o duro caminho que se teve de trilhar até aquele cimo de monte, um percurso escrito com sangue e dor, com sofrimento e luta, com o esforço de gerações. O discurso da vitória é absolutamente notável e um marco histórico incontornável.

Porque este é um momento de viragem, não só para a América, mas para todo o mundo. Acredito de facto que hoje vivemos num planeta mais pacífico. Barak é pai de duas meninas e fala em daqui a 100 anos, uma perspectiva bem diferente da do seu antecessor que parecia meter o dinheiro e o petróleo à frente de qualquer outro valor e que parecia viver para o minuto. Novos tempos se avizinham. Esperança…

A América ganhou um novo Presidente e eu um novo herói. Como todos os outros, espero que me sirva de modelo, luz e guia.

Que Deus o proteja. Ele vai certamente precisar e nós já precisamos tanto dele.
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Nota: Porque acredito que estamos perante uma nova linguagem, um novo espírito, uma nova forma de estar na política com a qual me identifico profundamente, não resisti a traduzir três momentos do discurso de vitória proferido ontem em Chicago:

“Eu vou ouvir-vos. Sobretudo quando estivermos em desacordo.”

“A todos os americanos cujo apoio tenho ainda de conquistar: posso não ter ganho o vosso voto, mas ouço as vossas vozes, preciso da vossa ajuda e serei o vosso Presidente também.”

“Esta eleição teve muitos estreantes e muitas histórias que vão ser contadas por gerações. Mas há uma que está bem clara hoje na minha mente e é sobre uma mulher que votou em Atlanta. Ela é muito parecida com milhões de outras que esperaram na fila para fazerem ouvir a sua voz nesta votação, apenas com uma diferença: Ann Nixon Cooper tem 106 anos de idade.


Ela nasceu uma geração depois da escravatura, tempos em que não existiam carros nas estradas ou aviões no céu; quando alguém como ela não podia votar por duas razões: por ser mulher e pela cor da sua pele.

E hoje, penso acerca de tudo aquilo que ela viu durante este século na América: o desgosto e a esperança; a luta e o progresso; os tempos em que nos diziam que não podíamos, e as pessoas que pressionavam com uma crença americana: Sim, podemos.

Nesses tempos em que as vozes das mulheres eram silenciadas e as suas esperanças se dissipavam, ela viveu para vê-las erguerem-se, falarem e pegarem no boletim de voto: Sim, podemos.

Quando havia desespero e depressão por todo o território, ela viu uma nação conquistar o medo com o “New Deal”, novos empregos e um novo sentido de objectivos comuns: Sim, podemos.

Quando as bombas cairam no nosso porto e a tirania ameaçou o mundo, ela estava lá para testemunhar a ascenção de uma geração à excelência e à salvação da democracia: Sim, podemos.

Ela estava lá pelos autocarros de Montgomery, pelas mangueiras de Birmingham, pela Ponte de Selma, e por um pregador de Atlanta que disse às pessoas que “nos devemos superar”: Sim, podemos.

Um homem pisou a lua, um muro caiu em Berlim, o mundo ligou-se pela nossa ciência e imaginação. E neste ano, nesta eleição, ele tocou com o seu dedo num ecrã e votou, porque 106 anos depois, passados os melhores tempos e horas mais escuras, ela sabe como a América pode mudar: Sim, podemos.

America, nós chegámos tão longe. Nós vimos tanto. Mas há tanto mais para fazer. Nesta noite, vamos perguntar-nos: se os nossos filhos vivessem para ver o próximo século, se as minhas filhas fossem tão sortudas e vivessem tantos anos quanto a Ann Nixon Cooper, que mudanças iriam elas ver? Que progressos teríamos alcançado?

Esta é a nossa oportunidade de responder a essa chamada. Este é o nosso momento. Este é o nosso tempo: de colocarmos as nossas gentes de volta ao trabalho e de abrirmos as portas da oportunidade aos nossos filhos; de restaurarmos a prosperidade e promovermos a causa da paz; de reclamarmos o sonho americano e reafirmarmos a verdade fundamental – que de muitos, somos um; que enquanto respirarmos, teremos esperança; e quando nos confrontarmos com o cinismo e a dúvida e com aqueles que nos dizem que não podemos, iremos responder que a crença intemporal que resume o espírito de um povo: Sim, nós podemos.

Muito obrigado. Que Deus vos abençoe e abençoe a América.”

O discurso na íntegra em:

http://elections.nytimes.com/2008/results/president/speeches/obama-victory-speech.html##

http://www.huffingtonpost.com/2008/11/04/obama-victory-speech_n_141194.html

http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2008/nov/05/uselections2008-barackobama


E uma celebração destas tinha de meter música… esta, escrita como homenagem para aquele que sonhou, assenta que nem a uma luva ao que o concretizou: In the name of Love.





domingo, 2 de novembro de 2008

Eles andem aí (Parte II)

(clica para veres o beijinho em grande)

Na sempre actual e moderna “Nova Gente”, reportagem exclusiva sobre o que se diz no nosso Alentejo sobre a relação tumultosa de Carolina Salgado e Francisco Rolo, profusamente ilustrada com a foto de um beijo apaixonado junto à piscina. Bem glamouroso!

No interior, histórias de armas, agressões, drogas e sexo num cocktail bem explosivo, onde não faltam pormenores sobre as conquistas do nosso conterrâneo a quem apelidam de “D. Juan do Alentejo”. Como isto só visto e contado ninguém acredita, é de correr às bancas e largar o euro e 25, já com Iva incluído à taxa legal em vigor, e adquirir esta edição de coleccionador com uma capa também digna de tal epíteto, com Rita Pereira e Isabel Figueira em trajes menores.

Nem falta a foto do Tabarin, livra!
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A reprodução desta imagem é posterior à revisão pela censura domiciliária...

Eles andem aí! (Parte I)

(Carrega para veres o relato em grande)

Fernando Bizarro, um cantoneiro de Nisa que não acreditava em ovnis, mudou recentemente de opinião quando uma luz amarela suspensa no céu lhe fez uma espera à porta do casarão da sua exploração agrícola. Na notável peça do jornalista Luís Maneta para o não menos notável “24 Horas”, encontramos todos os detalhes do mais recente “ficheiro secreto” do nosso distrito e nem sequer faltou a perda total de energia da bateria do telemóvel para confirmar o avistamento.

Perfeito, perfeito tinha sido se o relógio de pulso também tivesse parado mas esse já é um apontamento que só mesmo um viciado nos “X-Files”, com todas as temporadas gravadas em VHS devidamente arquivadas por sequência numérica no sótão, se poderia lembrar.

A gente acredita no Ti Fernando. De estranhar era se a malta que estava no tasco a malhar umas minis ao fim da tarde tivesse comprado a história. Ele não vai levar a mal…

Eu, pelo sim, pelo não, vou passar a olhar mais para o céu quando correr de noite. Vai na volta…

Acreditar


A atitude em campo.

O lance épico do primeiro golo, do passe mágico de Aimar à finalização magistral de Suazo.

A maturidade e a sofrida gestão do jogo na segunda metade após a expulsão de Reyes.

A força de toda a equipa, personificada no treinador Flores (todo eu tremo quando vejo a garra deste homem).

Meu Deus, eu acredito tanto!


PS: Xistra, meu ladrão! Só tu para não veres aquele penálti claro. Sei bem o que merecias… Nem assim!

No fio da navalha






Comprei-o no primeiríssimo dia em que foi lançado em dvd.

Esteve meses à minha espera na prateleira, desafiando-me, num namoro quase diário de cada vez que lhe metia os olhos em cima…

Houve sempre outras coisas que fazer, até hoje… finalmente.

E como são momentos da mais pura felicidade, estes, quando meto os auscultadores, carrego no play, me desligo de tudo à volta e mergulho de cabeça neste universo onírico do cinema.

Desta vez, um dos meus realizadores favoritos (Tim Burton), um dos meus actores de eleição (Johnny Depp), a Inglaterra cinzenta e lúgubre do século XIX e mais uma obra-prima absoluta: Sweeney Todd.

Ninguém filma como este homem que pinta cada cena como se fosse um magnífico quadro, ninguém mais consegue criar um mundo assim tão belo quanto negro e irreal, ninguém mais representa assim… Aqui, tudo é perfeito: da banda sonora aos cenários, do guarda-roupa à gestão da narrativa…

O musical que conta a história do barbeiro de Fleet Street, caído em desgraça por ciúme e inveja, que regressa dos confins do mundo para se vingar dos seus carrascos, é um dos mais populares de sempre. Nenhuma outra versão, porém, foi tão violenta, tão dramática e tão brutalmente sangrenta (quase “gore”) quanto esta. São litros e litros de um sangue espesso e vermelho-vivo a jorrarem das gargantas victorianas dos lordes da época, cujas carcaças são magistralmente aproveitadas como matéria-prima para as melhores empadas de Londres.

O genial universo burtoniano está todo aqui, em duas horas de pura magia cinéfila. O que eu gostei mais foi de tudo, mas a cena final, cristalizada numa “pietá” trágica que cruza o destino e o amor às portas do inferno, é digna de figurar nas mais belas da história desta grandiosa arte a que chamaram de sétima (sendo que para mim, há-de ser sempre a primeira, por congregar todas as outras!).

O que eu dava para ver este homem rodar o “meu” Peter Pan de sonho…

Pode ser que lá para Hollywood ouçam as minhas preces…

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Out of Time




O último post levou-me a uma viagem maior, a mergulhar nos álbums de fotografias e a rever tudo o que ficou para trás.

Para último tema, lembrei-me do belíssimo “Out of Time” do novo dos Oasis, dos quais tenho sido contemporâneo e fiel admirador. Como a música não tem vídeo e o post era sobre momentos, pensei pegar em pedaços do meu percurso e musicá-los desta forma.

Como deu tanto trabalho, como foi um processo que mexeu tanto e envolveu tanto… decidi deixá-lo respirar antes do rever.

E vale por isso, por ser uma janela aberta para o que passou… tão depressa.

domingo, 26 de outubro de 2008

My Way (musicando uma vida)

Há dias, no blogue da Marisa, soube do desafio que um amiga lhe fez para encontrar as 7 músicas da sua vida e isto não me tem saído da cabeça, como os jingles dos filmes publicitários que nos hipnotizam, se colam aos nossos ouvidos e nos perseguem de noite e dia.

Quase sem perceber, fiz o desafio como se fosse meu e tenho pensado que músicas, que bandas, que sons são esses que têm marcado a minha vida e… cheguei a um consenso interno, quase impossível de tão difícil. Há tantas músicas, tantas recordações que ficaram de lado que é quase doloroso repensar o alinhamento.

É importante clarificar o conceito e dizer que esta não é a lista das minhas bandas, canções ou vídeos favoritos. Esta é antes a lista das músicas que me remetem de imediato para um determinado momento da minha vida. São verdadeiras máquinas do tempo que aos primeiros acordes despertam automaticamente uma parte da minha memória.

Sendo 7 (e que bom que era se pudessem ser 10 ou 20 ou 30), dividi a minha própria existência nesses períodos e deles saquei a banda sonora chave.

Eu sei que isto pode não servir de nada a muita gente ou se calhar a ninguém, mas a mim deu-me um gozo do caraças. E assim sendo, cá vai:

Infância (0-10 anos)

Banda - The Beatles
Disco - Let It Be (1970)
Música – Get Back

Os meus pais tinham um Renault 5 branco com um leitor de cassetes junto do qual me habitei a ver uma caixa preta com a cara de 4 gadelhudos bem dispostos que pareciam gostar muito do que faziam. Recordo-me que ainda não andava na escola e adorava ficar ali a ouvir aquelas melodias, aquele casamento perfeito entre vozes, ritmos e guitarras. De tanto rodar, até quase à exaustão, acabei por memorizar as letras que desfiava no meu inglês macarrónico, feito só de sons que imitava. Depois deles, nada seria igual.

Os Beatles eram e são definitivamente, os maiores.

Adoro o vídeo, a ideia do concerto final no telhado da editora Apple, a pose, o look, os casacos de peles, o amplificador que não funciona, os dedos gelados do Lennon, o impermeável do Ringo Starr, o fim de tudo. Mal sabia eu que este “Get Back”, também o último tema do último disco de estúdio, haveria de ser premonitório do meu percurso… “getting back to where I once belonged”.




Ciclo (11-15 anos)

Banda - Guns’n’Roses
Disco – Appetite for Destruction (1987)
Música – Sweet Child O’ Mine


No final dos anos do ciclo, com catorzes e quinzes, a malta começou a ter pêlos na fronha, a esbajear umas cigarradas, a olhar para as miúdas com outros olhos e a curtir outro tipo de sons. Eu, o meu amigo Bananitas e o Bitche da Póvoa andávamos numa de hard rock e consumíamos muito AC/DC, muito Xutos e Pontapés (na altura do 88) e os Guns saíram-nos em cheio. Bebendo de uma linhagem dourada do rock e de nomes como Led Zeppelin ou Black Sabbath, os Guns souberam fazer a leitura dos seus tempos e abrir um capítulo à parte. O disco de estreia é todo maravilhoso e está cheio de hinos intemporais como “Welcome to the Jungle”, “It’s so Easy” (when everybody is tryin’ to please me), “Mr. Browstone”, “Paradise City” e este fabuloso “Sweet Child O’ Mine”.

Adoro o vídeo e adoro a pandilha original que nesta altura ainda estava toda reunida: o indomável Axel Rose, o virtuoso Slash, o estiloso Izzy Stradlyn, o Duff Mckagan e o Steven Adler, ainda antes de ser empurrado borda fora pelos seus consumos excessivos de tudo o que era droga. Lembro-me de ver o clip na MTV e ficar fascinado, a sonhar que podia entrar por ali adentro e ficar a curtir com eles. O máximo!




Liceu (16-18 anos)

Banda – The Smiths
Disco – The Smiths (1984)
Música – This Charming Man

O Liceu faz-me lembrar os Smiths, muito Smiths, sempre os Smiths. Poderiam ser tantos outros mas esta é definitivamente a Minha banda. Nunca a pop foi tão perfeita e genial. Nessa altura, todos os que usávamos óculos de massa e passávamos mais tempo a armar a poupa de manhã com laca do que a vestir-nos, andávamos com esta Manchester, esta Inglaterra, esta paixão no coração. A poesia sublime de Morrisey e a minha guitarra favorita de sempre, pela mão do genial Johnny Marr, embalaram os meus melhores sonhos de adolescente. Tenho todos os discos religiosamente guardados e considero-os um dos tesouros da minha vida. Sei que estarão sempre lá por mim quando eu quiser, quando eu precisar deles.

Os Smiths fazem-me lembrar o meu primo Quim, o meu grande companheiro e melhor amigo nesses anos fantásticos. Os Smiths ajudaram-me a conquistar a minha primeira namorada do Liceu e o Quim também deu a sua forcinha: esteve um dia inteiro a copiar os discos para as cassetes TDK que serviram de declaração de amor. Quando olho para os avanços tecnológicos desde então, parece que foi há séculos. Os Smiths, esses, continuam tão actuais como sempre.

Escolhi o segundo single do primeiro disco porque este dedilhar na Rickenbacker ainda hoje me maravilha e está tudo lá: a pose, a atitude, a ambiguidade das palavras, a vida transposta para uma rodela de vinil. Mágicos!




Faculdade (19-22 anos)

Banda – Suede
Disco – Suede (1993)
Música – Animal Nitrate

O “So Young” poderia ser a escolha mais poética mas esta guitarra que corta traz-me tantas recordações… Lisboa, princípios dos 90 e muita, muita solidão. Muito trabalho, muita pergunta e sobretudo mesmo muita solidão.
Comboios e autocarros.
Estradas e carris.
Milhares de quilómetros…
Longe da família, longe dos amigos, longe da terra, longe de uma cidade que nunca soube compreender, refugiei-me na música, nesta música que ainda hoje me comove.
Os Suede são pura filigrana.
A capa do disco revela-nos um beijo entre duas figuras andróginas como o próprio Brett Anderson e abre as portas para um amor incondicional desde que seja sinónimo de entrega.
É um disco genial, belíssimo e poético, com uma musicalidade que me enche as medidas. Um dos meus favoritos de sempre.

O video está aqui.


Regresso. 1ºs Empregos (23-27 anos)

Banda – The Verve
Disco – Urban Hymns (1997)
Música – Sonnet

Aos primeiros acordes desta música, fecho os olhos e estou sentado no chão da minha casa de Marvão numa sexta-feira qualquer em que estávamos os dois de folga, de janela aberta, a olhar o céu por entre os telhados e as palmeiras. Os primeiros tempos de casamento. A primeira casa a que chamámos nossa. As primeiras compras e as primeiras refeições feitas por nós, brincando às famílias. A paisagem a perder de vista. As noites na muralha. O nascer do sol na janela da cozinha. Os medos e as vitórias. As descobertas. Os empregos como professor de Inglês na GNR, no Programa Agir, na Opel, e depois nas Finanças. A chegada da Leonor e a vida que ganhou outro sentido. Para sempre.




Nisa (28-31)

Banda – The Strokes
Disco – Room on Fire (2003)
Música – Reptilia

Em Nisa tive a sorte de encontrar camaradas da minha estirpe e ainda hoje, quando recordo esses tempos, me pergunto como era possível o trabalho aparecer feito e nós passarmos os dias a rir. Cada um de nós, cada colega era uma personagem de banda desenhada. O Serviço local parecia um estúdio onde era gravada uma sitcom, com a água a fazer cascata no quadro da luz quando chovia muito e o chão armadilhado com baldes para apanhar o que o velho telhado não conseguia conter. Tive dias em que pensei que era mesmo actor numa série marada.

Ali vivi tempos de felicidade e cumplicidade. Foram anos que passaram como se fossem dias.

No final das tardes de sexta-feira, preparávamos a entrada em grande no fim-de-semana, rumando ao bar Ka-lips que o nosso velhinho Ti João Fazendas baptizou de Kaisbeques porque o inglês nunca foi o seu forte. Ali dávamos dois dedos de conversa, batíamos umas cigarradas, arrematávamos umas fresquinhas e saíamos de regresso a casa. No meu corsinha TD preto, pela estrada da Póvoa, abria os vidros e respirava o ar puro dos campos, com os Strokes a bombarem nas colunas…

“I said, please don’t slow me down, if I’m going too fast…”

O video está aqui.


Finanças de Marvão. Câmara Municipal (32-35)

Banda – Artic Monkeys
Disco – Favourite Worst Nightmare (2007)
Música – Fluorescent Adolescent

Os Artic Monkeys são para mim um mistério. Continuo a perguntar-me, de cada vez que os ouço, como é que um grupo de miúdos de um subúrbio de Sheffield, com mais acne que barba na cara, consegue fazer música assim, com esta densidade lírica e este brilhantismo instrumental. Simplesmente arrebatadores.

Os Arctic fazem-me sempre lembrar a casa com que tanto sonhámos que se fez de verdade, fazem-me lembrar a entrada para a Câmara, fazem-me lembrar a minha vida em Santo António e as muitas, mesmo tantas vezes em que corri já noite fora, com eles a fazerem-me companhia no ipod, por essas veredas e caminhos de terra batida.

Como ainda rodam com frequência, a par da nova reencarnação do génio Alex Turner nos Last Shadow Puppets, são a banda sonora destes dias.

Do brilhante “Fluorescent Adolescent”, a minha tradução não literal, que fecha da melhor maneira este post,

“O melhor que tiveste,
É apenas uma memória e esses sonhos,
Não são tão vagos quanto parecem,
Quando os sonhas outras vez.”



A caça pela nova banda favorita tem uma lista de candidatos recém-chegados que nunca mais acaba e está em constante renovação…

Não é isto da música uma cena tão mágica?

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Berlim (ainda não foi desta que quebramos o enguiço!)





A função multidisparo do telemóvel funciona mesmo...
E é sempre bom ver que a vacina deu resultado. Esta já não muda!
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Hertha - 1
Benfica - 1

Com a patroa fora de casa, preparei com a pequena o cenário para mais uma grande noite europeia do nosso glorioso. Equipados a rigor, com a bandeira hasteada no 1º andar, o tridente na varanda para afugentar os lagartos e os dragões (coitaditos!) e as luzes do estádio acesas, a coisa prometia.
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"Ó pai, eu vou para a sala e fecho a porta para tu gritares à vontade, ok?".

Ainda por cima Berlim… essa enigmática cidade pela qual me apaixonei na tarde em que despertei para o cinema, voando com os anjos naqueles céus tristes e cinzentos, pelas mãos do mago Wenders.

Entrámos bem, quase marcámos, entregámos o ouro ao bandido e saímos para o intervalo a suplicar um interregno ao sufoco.

Depois Suazo trouxe outra garra, o argentino trapalhão marcou, não interessa como, mas marcou e após, recuámos demais. Sofremos a bom sofrer naquela perspectiva actual de que Benfiquismo rima sempre com dor. O óbvio golo alemão aconteceu e mais não se seguiram por milagre. Katsouranis enganou-se e quando saiu levou a chave do galinheiro.

Dei por mim, a dada altura, a pensar que o Bynia é futebolista mas podia ter outra profissão qualquer.

Martins entrou mal, Urreta ainda pior.

Lá nos fomos arrastando até depois do 90 e pena que não soubéssemos aproveitar uma ou outra oportunidade menos flagrante.

No final, eu e muitos outros benfiquistas suspirámos certamente: “do mal o menos!”.

Estava então capaz de me deitar com este pequeno reconforto dentro de mim quando vejo o que resta do segunda parte do Braga, que imponente, espetou 3 secas nos ingleses arrogantes do Portsmouth. Bela lição, sim senhor, e sem espinhas!

Muito e bom futebol de belíssima qualidade com o nosso Cruyff da Reboleira, o inimitável Jorge Jesus, a provar porque é indiscutivelmente um dos grandes treinadores portugueses. Gostei de o ouvir na “flash interview”, quando respondeu à fanfarronice do treinador Redknapp que alegou que não conhecia o Braga, dizendo que “ele, como todos os treinadores ingleses, não conhecem as outras equipas porque não conhecem o futebol moderno. È por isso que a ilha está cheia de técnicos estrangeiros”. Lindo! Ao seu melhor nível! Ainda por cima, andou enrolado com os suplentes do time inglês no túnel de acesso ao balneário. Jorge, sabes o que te digo? És grande, pá! Viva tu!

Quanto aos meus, recebemos agora a 6 de Novembro os turcos loucos do Galatasaray que lideram neste momento o grupo. Por falar nisso… para os meus companheiros de luta nestas viagens de devoção: não será uma bela oportunidade para mais uma das nossas romarias?

Eu cá ando deserto de rachar a cabeça a um bandido daqueles…

Nota do tasqueiro: e agora para finalizar, um bombomzinho… li na Visão uma reportagem sobre o nosso treinador. Meteram lá a bucha para este video e eu não resisti a dar uma vista de olhos. De facto, diz muito sobre ele e merece a atenção. Estamos servidos…