domingo, 31 de outubro de 2021

Shangri La - O meu horizonte longínquo sobre carris (Parte VII - As casas (de todos nós))

As "Manas Sobreiro" que para sempre ficarão assim, gravadas na minha cabeça (e coração), captadas pela objetiva do responsável por esta revista cultural, Prof. Dr. Jorge Oliveira


A Ti Aurora

A (taberna da) Ti Aurora era um espaço muito pequenino no largo da igreja, bem ao lado da casa do Sr. Murta, uma outra figura muito popular da terra. Creio que tinha o marido por lá a acompanhá-la, mas a memória é muito vaga, o que fazia dela uma daquelas mulheres de negócios sem medos, que era capaz de dominar o seu ambiente.

Recordo-me que naquela altura, como todos os espaços comerciais da terra, vivia muito à custa da clientela que ali chegava através dos carris, e com isto incluía ferroviários, maquinistas, trabalhadores comuns da CP, e profissionais de outras atividades ligadas à linha do comboio.

Guardo uma imagem do Sr. Valentim, funcionário da alfândega, e pai do meu querido amigo Manuel Ventura, sentado junto a uma mesa redonda, a fumar um cigarro de enrolar e a beber o seu tintinho.

A melhor história que recordo daquela casa, tem a ver com a minha tendência em andar sempre com os miúdos mais velhos. Naquela altura, eu queria era ser grande, e se eles já o eram, nada melhor que com eles acompanhar, para ver se lhe conseguia pegar o jeito, e crescer por osmose.

Por querer sempre andar atrás, quase sempre sobrava para mim, o que fazia com que fosse alvo de chacota, e bulllying, como se chama agora, mas eu não me chateava nada, nem chateio hoje. A propósito, já aqui comentei que a ligação da família do meu pai a Valência de Alcântara era muito forte, e a visita aquela localidade estremenha no sábado de tarde, era passeio frequente. Pois se nunca omiti que sempre fui muito mimado pelas minhas tias, também é verdade que gostavam muito de me comprar em Valência, o encanto dos petizes daquela altura, os berlindes, sobretudo os lindíssimos “olhos de boi”, brancos, com linhas coloridas à volta.

A festa que era quando o Pedrocas lá aparecia com um saquinho novo, recebido da nova visita ao outro lado, com tantos, todos tão luzidios, dentro do saquinho de corda verde, para… os perder num ápice, mais depressa do que o diabo esfregava o olho! Assim que lhes dava o cheiro que eu tinha a nova mercadoria, todas as portas que estavam fechadas, se escaqueiravam de imediato para… se voltarem a fechar assim que se procedia à limpeza. ~

Bastava um “Jogo da Roda” (em que cada jogador poderia ficar com os berlindes estacionados dentro do círculo, que o seu conseguisse retirar de lá, apenas embatendo contra eles de uma assentada só), para a alegria se ir desvanecendo em aflição e tristeza, à medida que as esferas negras deles (com utilização proibida para os mais novos e… “se não queres assim, não jogas!”), entravam por aquele círculo adentro como se fossem bulldozers do Bolsonaro a devastarem a preciosa floresta Amazónica. Porca miséria! Da alegria da chegada, à desolação da partida, minutos depois, era sempre um ápice.

Completamente trucidado pela minha ineficiência, regressava logo após a casa mesmo à espera de novo ralhete mais que merecido mas… eis senão quando de lá vinha era um: “ai filho, deixa lá, não chores, não te aborreças… que a gente compra-te uns novos assim que lá voltarmos”, que era já na semana seguinte, se não houvesse nada em contrário. Pois isto me enchia tanto de consolo, quanto me impedia de crescer, verdadeiramente.

E a Dona Aurora, de quem tenho apenas uma vaga imagem da figura, mas já não do rosto, também foi testemunha destas sevícias a que era submetido. Um dia mandaram-me comprar “baba de cegonha em pó”, entre risinhos de chacota que eu, do alto dos meus 6 ou 7, ou menos, não percebi.

- Dona Aurora, eu queria baba de cegonha em pó, se faz favor (sem saber muito bem se sequer levava dinheiro para isso. Talvez me fiasse…)

- Ai filho… vai-te embora que já te enganaram outra vez… Não andes com eles! Anda com os da tua idade…

- Ora!!!!

 

b)    Clube

O Clube era, de longe, a instituição de recreio com mais peso naquela aldeia, segundo a minha visão. Não sei bem qual a sua origem, se tinha ou não, órgãos sociais; se tinha associados e qual era a composição da direção, mas como disse no início, isso tampouco interessa agora. O que sim interessa é que a sua localização era central na terra, bem por cima da linha do comboio, e o edifício era magnífico, sendo atualmente particular, dentro do qual se (con)vivia muito.

Quando se entrava, subiam-se umas escadinhas muito íngremes, e existiam diversas salas onde se poderia, por exemplo, jogar às cartas e outros jogos de mesa como o dominó, ver televisão (num tempo em que ainda muito poucos dispunham de uma própria, em casa) e… conviver, com uma vista lindíssima sobre a terra (com os comboios a passarem logo ali por baixo), o panorama, Santo António, um pouco acima; e Marvão, numa varanda que se debruçava sobre a linha. 

 

c)    Cantina do “Serras” da Estação

O Sr. Serras era um homem muito grande, encorpado, calvo, de barba branca, a quem a terra sempre ficou muito a dever, embora nunca lho tenha agradecido em vida, lamento-o; por ter sido uma das figuras principais na criação da associação “A Anta”, que ainda hoje presta serviços sociais à terceira idade e necessitados; é um dos principais empregadores, e motivo pelos quais a terra ainda não morreu. O Sr. Serras era casado com a Dona Zita, que trabalhava na Segurança Social ou noutro ministério público em Portalegre. Eram retornados de África, pessoas com uma visão abrangente e avançada para a época.

Na altura exploravam o espaço onde hoje está estabelecido o Train Spot, num edifício lindíssimo mesmo junto à estação, e era na pequena cantina que ladeava esta que acontecia muito do convívio entre os funcionários da estação, os da C. P., e os clientes da linha que por ali passavam nas ligações internacionais.

Às 3 horas da tarde, passava o T.E.R. e depois mais tarde do TALGO. Recordo-me daquela estação mais parecer um aeroporto em hora de ponta de chegadas, tal era a quantidade e qualidade de gentes, cores, roupas, linguagens e tamanhos, que deixavam qualquer um boquiaberto, ainda muito mais uma criança de menos de 10 anos, que por ali circulava ingenuamente.

O “Serras” era o sítio para se ler o jornal do dia, se beber um café e um bagacinho, se fazerem as palavras cruzadas ou jogar uma cartada. A cantina do “Serras” poderia ser um ponto de passagem à hora de almoço, ou um bom entretém para os homens, no final da tarde.

 

d)    Sr. João Viegas

Este era um espaço que também combinava a habitual disposição estrutural de então, que ainda hoje é presente nas grandes superfícies: um espaço para as senhoras fazerem compras para casa, ladeado por um espaço estilo taberna, para os machos conviverem, entretanto. Situada a escassos metros abaixo da linha do caminho-de-ferro, tinha um espaço central na aldeia e era por isso beneficiado em relação à concorrência.

O Sr. João Viegas era um homem baixinho, muito sério e nada de copos, que geria o espaço com muita sensatez e responsabilidade. A família ficaria muito marcada por um trágico acidente de viação, no qual faleceu a mãe da filha Nélita, uma jovem da terra que trabalhava nos telefones do escritório do Sr. Carita.

 

e)    Sr. Joaquim Ventura

Este espaço, na minha memória, era assim uma cena do tipo armazéns “Braz & Braz”, em Lisboa. Uma casa enorme, com um balcão comprido longitudinal que aos meus olhos de criança, teria dezenas de metros. Ali se vendia… de tudo, ao que me lembra. O Sr. Joaquim Ventura, que sempre me batizou por “Pedro, Penedo, da Rocha, Calhau, olho de vidro, cara de mau”, cognome que eu achava piada, mas altamente injusto, porque nunca me achei ser daquela forma, ruim. Parece que tenho na memória que caia sempre com um rebuçadinho, ou por aí. Acontece que o Sr. Joaquim Ventura era pai da Dona Mimi, que casou com o primo Manuel, filho do Sr. Carita, que era o padrinho do meu pai, cunhado da avó paterna, portanto. Quero eu dizer com isto tudo que o meu pai e o seu genro eram primos-irmãos, e eu sempre senti que o carinho ali era diferenciado. Gostava muito. Recordo-me que tinha óculos?

 

f)     Sr. António do carro de praça

O Sr. António, homem de média estatura, não muito alto, mas muito robusto, é provavelmente dono dos “apertos de mão” mais convincentes que me lembro. Sendo uma figura que conheço de toda a vida, claro que fico sempre feliz de o rever, mas… a pensar duas vezes depois de lhe ter esticado a mão. Já tenho reparado nos rostos, dele e dos outros intervenientes no mesmo ato, e… pelo ar, que me parece que a firmeza se repete, e não se verifica apenas comigo.

Recordo-me desde sempre dele como dono da mercearia cujo alvará viria depois a ser comprado pelas minhas tias, que sempre conciliou com o serviço de táxi. É bom de recordar que naquela altura nem toda a gente tinha carro (bem me recordo quando os meus pais compraram o primeiro Renault 5 branco), e aquele tipo de serviço era muito requisitado, então.

Quando trespassaram o espaço, mudaram-se para a parte de baixo da linha, e abriram um café com serviço de refeições, num prédio que construíram.

 

g)    Casa Nicau

Era incrível, e muito sintomático da vida que fervilhava naquela pequena aldeia, que se agigantava sempre que passava um comboio (de mercadorias, e sobretudo, internacional); a quantidade de espaços comerciais que nela existia. De todos eles, embora não fosse o que tivesse as melhores condições (a azinhaga ao lado, era o W. C., penso eu de que; porque nunca me lembro de ter puxado o autoclismo numa lá dentro), esta casa era, muito pelo carisma do proprietário, o Sr. Joaquim Nicau, aquela que para mim, mais se destacava. Condutor da camioneta da carreira da Rodoviária Nacional, comprou o alvará ao Sr. Batista, que nunca me recordo já de ver aberto, porque não é do meu tempo.

Tendo sido sempre colega de escola do seu filho mais novo, acompanhei sempre aquela casa que, enquanto o pai trabalhava fora, era assegurada pela esposa, a D. Teresa, que assumia a mercearia e a taberna, também. Sendo muito popular entre os jovens, e os homens por ter tido sempre as mais populares máquinas de arcada, flippers e matraquilhos; a casa vivia sobretudo do carisma do progenitor, que muito pelo trato interpessoal que tinha devido à sua atividade profissional (interagia diariamente com centenas de pessoas); e do toque para a cozinha da dona da casa.

O “estimado amigo” que era a forma como tratava os clientes, e se lhe colou como alcunha para sempre; era um verdadeiro barman de 1ª linha de aldeia, que sobre tudo sabia falar, opinar, não deixar ninguém indiferente. Sportinguista dos 7 viol(ai!) costados, pegou a devoção ao filho mais novo, e transformou aquela casa num núcleo daquela clube na aldeia. Bem-disposto, bem falante, e uma figura perante a qual ninguém poderia ficar indiferente, sempre viveu com esforço, devoção e glória as suas paixões sportinguistas e socialistas, o único campo em que o vermelho entrava na sua vida.

 

h)    Pastelaria “O Leque”

Foi fundada numa casa de raíz, construída nos anos 80 pelo Sr. João da Cunha Felino, antigo guarda-fiscal, um beirão natural de Monsanto, de extrema educação e cortesia. Extremamente carinhoso e afável, este Senhor, casado com uma outra figura da terra, a D.ª Conceição, funcionária de apoio das atividades na escola da terra, filha do antigo proprietário da casa onde foi fundada a Casa Nicau; idealizou criar ali mais um espaço para se poder ocupar nos tempos livres, talvez a pensar já na reforma.

“O Leque” tinha um caráter que a diferenciava de todos espaços concorrentes por ter um ar mais citadino, com um espaço específico pensado para as senhoras, com mesinhas redondas de camilas; uma zona para os homens mais parecido com um bar que com uma tasca, e um reservado idealizado para o petisco.

 

i)     Manas Sobreiro, da mercearia Sobreiro

Cartoon desenhado pelo pai na parede da taberna

 Por último, mas não em último, como dizem os ingleses; deixei a casa que me diz mais, pelas razões óbvias. Num momento muito particular da vida da nossa família, marcado pelo desaparecimento prematuro do meu tio Lázaro Duarte Gomes, com 60 anos de idade, apenas; as minhas tias, Maria que enviuvou, e Cremilde, solteira; que não detinham uma ocupação concreta, foram impulsionadas pelos meus pais, para comprarem em conjunto com eles, o alvará da loja no largo do fontanário, que pertencia ao Sr. António Sobreira, do carro de praça. Desta forma, estariam ocupadas mentalmente, durante toda a semana e, trabalhando, acabariam com dois problemas, numa solução só. A perspetiva económica nunca foi o intuito primordial, nem poderia ser numa terra, que embora tivesse uma população diária muito significativa à conta da atividade dos comboios, tinha tantas casas que… basicamente, vendiam o mesmo.

Haviam outros garantes diferenciadores, e o trato pessoal era sempre determinante para onde pendia o fiel da balança. “As manas”, até e sobretudo por não terem uma figura masculina por detrás do balcão, foram carinhosamente apadrinhadas pelos trabalhadores da C.P. (maquinistas, revisores, outros trabalhadores de manutenção das linhas) que por ali passavam diariamente a comer o farnel que as esposas lhe preparavam de casa. Por vezes, ali se faziam umas tortilhas de batata à espanhola (absolutamente divinais, como só a minha tia sabia fazer), e um ou outro petisco circunstancial, como um ovo estrelado à antiga em azeite, uma latinha de atum, sardinhas com tomate, ou anchovas, que eram comprados… na mercearia do lado, ou seja, ali.

O espaço ganhava outra vida quando o meu pai, saia do escritório, por volta da 18h, e reforçava o staff, dando um apoio suplementar na parte do bar. Nesse então, o público-alvo deixava de ser a dona de casa que vinha buscar o arroz para fazer com tomate, a fim de acompanhar os carapauzinhos fritos; para passar a ser o marido que vinha beber um tinto, conversar um bocado e, ouvir um ou outro fadinho, que a guitarra estava sempre detrás do balcão. Ficarão sempre na história, as tertúlias que muitas vezes se prolongavam noite dentro, e por vezes, até já à madrugada, quando os convivas, ou os motivos, eram especiais.

A morte prematura do meu pai, com 49 anos apenas, vítima de um enfarto do miocárdio, muito provocado pelos hábitos tabágicos absolutamente fora do normal (ninguém resiste a 2/3 maços diários por muito tempo), aliados a uma propensão genética a complicações cardíacas (a morte ainda mais prematura do irmão com apenas 14 anos, nas escadas do Sr. João Viegas; e a intervenção à sua irmã Irene numa das primeiras operações em Portugal de coração aberto, eram bem prova disso), ditou também o fim daquele espaço.



Com o passar dos anos, e o envelhecimento das minhas tias, ainda mais gritante no caso da Cremilde, que foi caindo gradualmente aos pés da demência, agora pomposamente chamada com o nome de um cidadão estrangeiro (Alzheimer); a loja foi definhando, até fechar. Deixaram de ser compradas as caixas de chocolatinhos da Regina, e de outros bombons bons; de chupas e toda a espécie de pastilhas elásticas com que se deliciavam as minhas filhas, e qualquer criança que por lá passasse, para se ir tornando cada vez mais um espaço comunitário, onde as vizinhas passavam a tomar um cafezinho, quase sempre de oferta, e para elas não estarem fechadas em casa. Voltando às origens, enfim.

Fazendo sempre um ponto de honra em nunca deixar de acompanhar a quem sempre me apoiou a mim, fiz questão de as ir visitando sempre que podia e confesso que me doía muito, quando dava com as duas a dormir, de cabeça deitada sobre a camila onde estava a braseira quentinha, enquanto o velhinho rádio baixinho debitava o terço na Renascença.

Nos últimos tempos já viviam as duas juntas na casa da minha tia Cremilde, de porta trancada por dentro, para evitar que esta acordasse a meio da noite, enquanto a Maria dormia, e saísse pelas ruas da Beirã, soluçando por vezes em choro compulsivo, por não conseguir encontrar aquilo que queria, mas nem sequer sabendo que jamais poderia reencontrar, porque o passado jamais volta assim.

Por saber, sofrer tanto devido a esta a sua ansiedade pela incapacidade de tomar conta da irmã; e sobretudo devido à degradação do seu estado de saúde (à causa de uma complicação de pele, na testa, que lhe obrigava a visitas frequentes ao IPO a Lisboa), muito a influenciei para que fossem para um quartinho particular para a Santa Casa de Marvão, que sabia que era esta a única possibilidade de as conseguir manter juntas. Depois da tranquilidade de o ter feito, descansei, por as saber sempre acompanhadas, bem alimentadas, bem higienizadas, com supervisão médica constante, em segurança.

Soube (muito tempo) depois pela minha vizinha da Beirã, esposa do Sr. Graça, que lá trabalhava (que pela terra ser tão pequena, éramos, somos e seremos, de cada vez que nos virmos, vizinhos), a primeira noite da minha tia Maria na Santa Casa foi de grande sobressalto, e pânico até, porque sentia que iria morrer.

- Ó Dona Maria!!! Que disparate tão grande, valha-me Deus! Então as senhoras estavam tão sozinhas e aqui estão tão acompanhadas, sempre com vigilantes a acompanharem o vosso descanso, sempre com uma equipa médica por perto, sempre com tanto gente para garantir o vosso bem-estar, e agora… diz-me que vai morrer? – disse a vizinha.

Não foi nessa noite, foi na noite a seguir. E não houve nada, nem ninguém que lhe valesse. Para mim, que a conhecia, estimava, prezava, amava como ninguém da mesma forma que eu (cada um, é como cada qual, e eu hei-de sempre ter a minha); morreu de desgosto. Morreu por depois de 86 anos de vida, não ter tido sítio algum para ficar nesse final da caminhada, senão aquela casa onde haverá sempre o estigma de serem despejados todos aqueles que não têm ninguém para lhes dar colo, quando eles deram tanto durante a vida.

Esta é uma dor que viverá sempre comigo.

Todos sabíamos que lutava há tantos anos com o problema cancerígeno, mas ainda hoje não sei bem o que se lhe sucedeu para se finar. Esfumou-se, e eu, que tinha ido a Algés para assistir ao Nos Alive com a minha Leonor, levei um choque tremendo, por ter sido inesperado, e sobretudo, por ter sido um interveniente crucial nesta situação. Sem remorsos, mas com algum, ou muito peso na consciência pelas circunstâncias, regressei praticamente sem dormir nessa noite deitada a altas horas, acordada em sobressalto pelo telemóvel, onde o choro lamurioso da filha me deu a notícia. Assisti à preparação do túmulo, numa das minhas duas campas de família no cemitério da Beirã, e vi a reordenação dos restos mortais dos que já lá estavam, para conseguir ser feita a deposição dos seus.

A Cremilde continua, graças a Deus, naquela casa onde seguramente nem sabe onde está, mas sei eu, que a visito com regularidade semanal, está como se estivesse num casulo, onde não lhe falta amor, compreensão, e até lhe é dada a comidinha toda triturada, porque até isso, até de mastigar se esqueceu já. Até que, como em todos nós, Deus queira.

domingo, 17 de outubro de 2021

Shangri LA… - O meu horizonte longínquo sobre carris (PT VI) - Coisas a que brincávamos (naquela Beirã idílica)...

Com os óculos de ler do meu pai... tinha cá uma graça...

Para além de todos os jogos possíveis e imaginários de crianças que viviam numa aldeia situada no interior, no campo, existiam alguns inventados por nós, com regras muito próprias, que a existirem noutros lados, teriam pouco, ou nada a ver:

a)    Jogar aos castelos

Consistia basicamente num versão do jogo da apanhada, mas com regras muito próprias. Teriam de existir duas equipas com um número de participantes discutível e variável (dos 4 aos 20) que teria de ser dividido pelas duas, de forma homogénea. Uma equipa ficava de guardiã do espaço a conquistar (o adro da igreja da Beirã), e a outra equipa teria de fugir pela aldeia. Quando a equipa fugitiva dobrava a curva da Rua Vivas (a da igreja), a equipa que defendia o castelo poderia disponibilizar os membros que entendesse para os ir apanhar. Geralmente ficavam apenas dois, mais que suficientes, a guardarem o castelo (não mais que dois metros de entrada) para apanharem algum que chegasse ao último reduto.

O ideal seria, para um elemento da equipa fugitiva que queria conquistar o castelo, fugir a todos os caçadores, conseguir aproximar-se do castelo, e entrar nele sem ser apanhado, ganhando-o. Ou então, do ponto de vista da equipa que defendia, seria encontrar os fugitivos, e apanhá-los, um a um. Este jogo poderia ser muito rápido, como durar noites inteiras sem nunca ter sido resolvido. Acredito que ainda haja muitos nesta fase… há alguns anos.

 

b)    (Ir ao) Tanque da Broca

Nos anos 80, a Broca era já uma exploração decrépita e tenho ideia que pouca ou nenhuma atividade mantinha regularmente. Por vezes via o então proprietário, o Sr. João Forte, figura caraterística ainda viva, de grandes barbas longas, sempre de gorro de malha, fizesse frio ou calor, com duas ou três vaquitas pela estrada acima, mas a propriedade original fora fundada pelo seu pai, que faleceu centenário, e nunca cheguei a conhecer sendo eu já grande. Tinha diversas construções, uma das quais, um aviário; outra, uma vacaria, mas o encanto dos petizes da altura era o tanque, um espaço não muito grande mas que tinha sempre água a correr, onde os animais iam beber água. Era adornado com ervas, musgo, um ou outro inseto que se movia à tona da água; e os pais, não viam com os melhores olhos a atividade balnear dos petizes por lá.

Lembro-me que de uma vez, das muito poucas que o meu pai me meteu a mão em cima, trazia as cuecas molhadas na mão quase à hora de jantar, quando fui inquirido do porquê daquele preparo (não cheguei a tempo de as meter logo no saco da roupa suja, atrás da porta da casa de banho), e não consegui mais que uma desculpa esfarrapada que me valeu um açoite, porque revelei o motivo proibido que originou aquela situação.

Ir ao tanque da Broca era o máximo! Era a nossa Portagem.

 

c)    Corridas (de equilíbrio) em cima da linha (do comboio)

Conseguir manter o equilíbrio enquanto se caminhava rápido sobre os carris, era um desafio simples e que poderia ser um bom entretém. Atendendo a que junto ao depósito da água, existem diversas linhas, principais e acessórias, para que ficassem estacionados algumas carruagens que transportavam carros e mercadorias, poderia ser bem divertido num período de férias de verão, quando muitas crianças chegadas de fora, vinham visitar os familiares.

 

d)    Ir aos pássaros

Este era um passatempo claramente para os indivíduos mais velhos, já proprietários de uma pressão de ar, ou com a possibilidade de terem acesso a uma de um pai, irmão, primo, tio e por aí fora. Consistia em descobrir uma árvore onde os pássaros, habitualmente pardais, pernoitassem, para depois disparar sobre eles enquanto dormiam com recurso a uma lâmpada forte para os focar. Não só nunca gostei de pássaros fritos (não têm chicha! Aquilo é só ossos!), como sempre me pareceu da maior cobardia tal conceito, de matar enquanto dormem! Deus m’a livre! O meu coraçãozito de criança boa nunca me permitiu achar piada a tal entretém, e sempre me pareceu mais um exercício de cobardia, de luta desigual, que outra coisa qualquer.

Havia também a variável de “Ir às rãs”, mas também nunca gostei das suas patas fritas, como também sempre achei completamente absurdo andar aos tiros de pressão de ar aos animais. Sempre fui menina, aqui, ostracizado pelos demais machos que se queriam fazer grandes.


  Na minha festa do 3º aniversário, 1976, numa autêntica foto de geração, com (da esq. para dir., e de cima para baixo): Zé Luís Murta, “Bela” Carita, ladeados por uns olhos que não consigo identificar; a vizinha Paula, rindo, e outro rosto irreconhecível ao lado. Ao centro, os gémeos “Quim” e “Xana” Carita, com Rui da Paz no meio de ambos. Depois “Zé Fernando”, muito sério, e “Zé Manuel Pop” Dias. 

  Em baixo, Filipe Maridalho, rindo às gargalhadas; Vítor Felino, eu, a minha vizinha de Lisboa de quem gostava muito, muito (a São?), que nunca mais vi. 

 Ao lado temos outro roto que não consigo identificar, e claro que o Tó Manel Mimoso, com um sorriso único, presidente daqueila freguesia até agora.


e)    Polícias e ladrões / índio e Cowboys / Detetives e Espiões

Creio que faz parte do imaginário infantil desde sempre brincar aos bons e aos maus, no seguimento dessa luta ancestral entre o bem e o mal, seja no campo, ou na cidade. Qualquer criança da Beirã nos 70 brincava assim, como certamente se teria brincado desta forma nos anos 60, e se brincou nos 80. Não sendo, pois, um exclusivo da infância rural, e certamente também teria entretido muitos petizes pelas urbes desse país fora, o que eu sim posso garantir é que aqui assumia contornos verdadeiramente hilariantes Agora que penso nisso, recordo que a discussão “estás morto ou não” mantida entre dois contrários situados em cabeços contíguos, era coisa para demorar… muito tempo… e quem ganhava sempre era… o mais velho (claro!)

Diversos elementos, e equipamentos poderiam ser adicionados para adensar a trama, mas uma nova arma comprada algures, talvez em Valência de Alcântara de onde vinham muitas e frescas novidades (não se esqueçam que em Portalegre ainda não existiam grandes superfícies comerciais, e era tudo caríssimo), ou um recém-construído (um atira-chinas, por exemplo, que consistia num pau comprido aí com um meio metro, que levava um elástico dobrado pregado numa das extremidades, para poder projetar uma carica (china) espalmada que segurava numa mola de roupa pregada na outra ponta) seriam fabulosos para adensarem o mistério.

 

f)     Jogar ao alho

O “Lá vai alho” era um jogo dos antigos populares que foi muito bem integrado pela nova geração porque o tradicional, que consistia numa equipa de dimensão variável dependente da composição da outra, que saltava para as cavalitas da que por sorte ficava de cabeça baixa a suportar os colegas, a “levar com o alho”, portanto; foi adaptado numa versão hard em que o pessoal se mandava “à maluca”, e avacalhava a situação. Aí, dava diversão. E mazelas! Mesmo.

A versão do lenço foi abandonada porque precisamente lhe faltava esta componente radical.

 

g)    Visita aos vagões estacionados ao lado da linha

Os vagões estacionados ao lado da linha, que serviam de camarata para os funcionários que estavam longe de casa e ali pernoitavam, consistiam um festim para a criançada ávida de novos conhecimentos. Ali tínhamos muitas vezes o primeiro contato com revistas para adultos que por lá eram abandonadas, visivelmente utilizadas, de páginas coladas, e ficávamos deslumbrados com esta educação sexual alternativa hardcore. É bom que se note que ainda não estávamos nos 80, o Estado Novo só tinha terminado há um par de anos, e tudo era muito longínquo.

“Gina”, “Tânia”, “Weekend Sex” passaram a integrar o nosso vocabulário… e as nossas prateleiras escondidas em casa.

 

h)    Ir aos tortulhos

Sempre que as condições meteorológicas o permitiam, e o sol rasgava as nuvens depois de temporadas de chuva, os fungos por todos mais desejados conhecidos como tortulhos, brotavam da terra em lugares específicos, cujas condições morfológicas, de luz e exposição, os tornavam num el dorado a perseguir.

Havendo alguns destes sítios perfeitamente identificados, eram supervisionados por espertalhões que tomavam aquele espaço como se fosse seu, muito porque o proprietário da terra não se preocupava com essa prática, e asssim ninguém lhes fazia frente.

Este repasto que sempre adorei, era confecionado por alguns com ovos mexidos, de omelete, mas na minha casa eram habitualmente cozinhados apenas grelhados à moda do meu pai, sob uma chapa, ao fogão, com duas ou três pedrinhas de sal no chapéu, virado ao contrário, formando um molhinho delicioso e suculento. Claro que para evitar que esses míscaros fossem venenosos, e pudessem ser motivo de um final trágico, era sempre colocado sobre eles um anel de prata, que, caso não ficasse negro, conferia a validade do produto.

Nunca cheguei a saber se esta cautela era mesmo válida, e me poderia servir de descanso, mas até à data, graças a Deus, resultou sempre.

Certo dia, alguém me convidou para também eu “ir a eles”. Ou porque tinha chovido muito e haviam muitos, ou porque alguém soprou que sabia de um sítio, enchi-me de coragem… e fui!    

Quase que me recordo do ar de espanto e felicidade do meu pai, pela minha intrépida audácia, mas assim que os começou a tirar do saco e a olhar bem para eles (e se eu procurei sempre os branquinhos com a anilha branca à volta do pé), foi fazendo um monte maior e um mais pequenito, com muitos menos.

- Então pai? Estes poucos não prestam?

Olhou para mim com um ar de misericórdia, e disse baixinho: não filho, estes poucachinhos, são os únicos que são bons. Os outros… é melhor não comermos.

Agora gosto muito que mos possam oferecer… Só.

 

i)     Andar de Carrinhos de Rolamentos

Então era assim: os rolamentos vinham não sei bem de onde, mas a verdade é que se pegássemos em quatro, e lhe metêssemos dois paus redondos a unir, de dois em dois, com uma madeira em cima, tínhamos um carrinho de rolamentos. Atualmente, existe inclusive, uma corrida deles no Porto da Espada, que já vai sendo muito popular.

As viaturas poderiam ter diversos formatos, atendendo ao tipo e tamanho do rolamento utilizado. Muitas vezes, eram utilizados dois maiores no eixo de trás, o que sempre conferia um ar racé, e desportivo. A memória que tenho era que o meu pai era muito jeitoso para bricolages, e o meu era dos mais rápidos de então.

       De visita ao Cristo-rei e a Lisboa: Gina, Vítor Felino, Bela Carita, com Miguel Sobreiro à frente, eu e Paulo Varela, Zé Dias e os manos Carita. 

sábado, 9 de outubro de 2021

Já estás no teu lugar, agora!!! (a triste história do juiz "já foste!")

 


Este sujeito, já bem conhecido de todos nós, o juiz Rui Fonseca e Castro, destacou-se porque é dono da opinião que a pandemia Covid 19, provocada pelo coronavírus, que literalmente abalou o nosso planeta inteiro, que provocou 4,43 milhões de mortes em todo o mundo… não existe!

Se fosse o Zé da Calçada, um pobre desgraçado sem trabalho, família, escolaridade, eira nem beira, já seria estranho… mas como esta é a opinião de um juiz do qual se espera, no mínimo, que mantenha um comportamento social que seja digno de exemplo para com os outros concidadãos… a bizarria e estranheza aumentam.

 

 

O Conselho Superior da Magistratura, ou seja, a nata dos juizes, ou a entidade reguladora da sua atuação, moveu-lhe um processo disciplinar no sentido de apurar as suas responsabilidades, e definir punições.

 

 

O rapazinho este, quando foi ouvido, insultou polícias e magistrados quando seguia no caminho para ser ouvido, no processo disciplinar de que foi alvo. Ao longo de uma hora de alegações, o magistrado intitulou-se como o rosto dos injustiçados e reprimidos no que diz respeito ao combate a esta pandemia que, segundo garante, não existe nem provocou mortes, como se fosse uma auto-proclamada “mega-estrela anti-covid”.



https://sicnoticias.pt/pais/2021-09-07-Juiz-negacionista-agressivo-com-PSPO-meu-lugar-e-este-acima-de-si.-O-senhor-esta-abaixo-de-mim-5e142e6a

 

Como se para isso não bastasse, rejeitou a evidência científica que está na base das vacinas e ainda acusou os membros do órgão que tutela os juizes, de pertencerem a sociedades secretas. Não basta?

Enfim, bastou, embora tenha tardado tempo a mais, porque o plenário do Conselho Superior da Magistratura (CSM) deliberou, esta quinta-feira, dia 7, por unanimidade, a sua demissão, que pode ser alvo de recurso, mas tem efeitos imediatos, por  ter nove dias úteis consecutivas de faltas injustificadas e não comunicadas, as quais ocorreram entre 1 de março de 2021 a 12 de março de 2021, com prejuízo para o serviço judicial, já que tais faltas implicaram o adiamento de audiências de julgamento agendadas", como comunicou a vogal do CSM. No entanto, outra infração refere-se ao facto de "ter proferido um despacho durante uma audiência de julgamento no dia 24 de março de 2021, no qual emitiu instruções contrárias ao disposto na lei, no que respeita às obrigações de cuidados sanitários, no âmbito da pandemia de covid-19.”

No comunicado, lido pela porta-voz, foi referido que "a sanção de demissão implica o imediato desligamento do serviço do senhor juiz de direito Rui Fonseca e Castro, é recorrível para o Supremo Tribunal de Justiça, no prazo de 30 dias, mas não suspende os efeitos da deliberação do plenário do CSM". Portanto, mais e melhores capítulos vêm a caminho.

O prémio “VALENTIA E SABER GUARDAR O DEVER À CAUSA” atribuído pelo vosso Tio Sabi vai direitinho para os agentes da PSP que quando olharam de frente este martuto com ar de G. I. Joe Gingão, de t-shirt preta com os dizeres “habeas corpus” (que tenhas corpo) gravado na t-shirt preta, envergada sobre umas gangas velhas, a gritar-lhe “PONHA-SE NO SEU LUGAR!!!!!”, “VOCÊ ESTÁ ABAIXO DE MIM”; souberam manter um ar imperturbável, impávido e sereno, sem esboçarem o mínimo gesto, quando certamente o que lhes apetecia, como a mim, era enfiar-lhe com a cronha da G3 no centro dos cornos, e de lhe pisarem o focinho quando caído no chão, para lhe gritarem a ele então que para fazer cumprir a lei, estavam eles ali!!!

Peca por tardia, a decisão. Na minha opinião, deveria ser na manhã seguinte.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

À maneira dele (em Marvão, pelo feriado municipal) - Tim ao vivo (a crónica)


Esta vai pelo meu grande Amigo Pedro Silvério, o Chefe, o maior Marvanense a viver no degredo que eu me lembre, fora de Marvão que ele tanto ama, com quem troquei mensagens sobre a magnitude da cena, logo hoje de manhã! Foi como se estivesses estado cá, meu velho!


Epá, palavra que não estava nada à espera de passar uma noite do feriado municipal tão agradável assim. O nome que me levou lá era mais que apelativo: o Tim há-de sempre ser a voz daquela banda que tem sido a oficial nacional da minha vida, aquela que tem acompanhado o meu crescimento de puto que fui, a homem que sou, como os U2 o foram a nível internacional. Nenhuma delas é a preferida, mas são as que estiveram sempre lá, aquelas que cresceram comigo, as tais.

Se a essência era apelativa, as “&Vozes do Alto Alentejo” davam assim um ar suspeito à coisa, e deixava adivinhar o pior possível que… nada se assemelhou ao que por lá se passou… e à que pode assistir, quem teve resiliência para aguentar o tradicional arzinho (eu disse frio?!?!?) de uma noite de Marvão a dizer adeus ao Verão, e olá ao Outono, que há-de chegar daqui a uns dias.

 

Antes de mais, por esta altura, apetece-me felicitar o Município que teve a feliz ideia de convidar e trazer um artista digno desse nome, é certo que integrado numa oferta inter-municipal (e aí certamente foi influenciado a tal), mas que destoa da habitual gama de valores em que tem apostado, e que vão da intragável Rosita, ao inexplicável  (e inexplicavelmente desaparecido) Zé do Pipo, passando pelo abominável Toy “das Neves”, que tem patrocinado para gáudio das populações. Na verdade, ali, também não haveria muito a perder porque nestas festividades, tradicionalmente, nunca se aglomeram muitos populares, e se nunca chegam a mais de uma centena.



Se esteve bem por aqui, borrou a pintura toda quando “permitiu” que o espetáculo se iniciasse apenas uma hora depois das 21.30h anunciadas no cartaz, sem que um único dirigente do município, ou funcionário adido à área, pelo menos, se tivesse dignado a dar uma explicação aos potenciais espetadores presentes, o que levou a que muitos tivessem batido em retirada (porque o dia a seguir, hoje, era de escola), e não tivessem esperado pela justificação que até agora não chegou. Foi verdadeiramente lamentável, penoso, e deixou como que se uma carga negativa fosse tomando conta das almas presentes. Terá sido um problema com a luz, com o som, com alguém? A verdade é que o bom do Tim acabou por fazer esquecer a quem ficou, tamanho mau começo, quando entrou com aquele seu eterno de tipo fixe, de camarada à prova de bala, para todas as horas, sempre sorridente por detrás dos eternos óculinhos de proteção, para conquistar toda a gente, com o seu ar anti-rock star, terra a terra, enternecedor.

 

Quando as luzes permitiram vislumbrar os artefactos que aguardavam quem os manuseasse, percebi que os meus maiores medos eram infundados. Assim que os artífices foram tomando posições, todos fardados com um negro de gala, assim que chegou à boca de cena quem manuseasse as teclas, o violino, o violoncelo/braguesa, o contrabaixo, a bateria e o timoneiro se agarrasse à guitarra, com o seu clássico estilo de motard, de t-shirt negra e o lenço ao cowboy à volta do pescoço, percebi que o barco iria certamente chegar a bom porto.


E o que se passou foi muito bom, foi a revisitação de toda uma carreira sobre um prisma clássico(?), na medida do possível, porque embora nunca o tendo desvirtuado, o engalanou com um toque aristocrático, o enobreceu, o tornou ainda muito mais a ver com a essência de Marvão, que Tim confessou adorar, já ter visitado por diversas vezes, e querer poder ter uma casa, embora “não tivesse certamente guito para tal!”


Se olharmos para o line up do concerto, percebemos que, ou ao prestar homenagem às bandas de que sempre gostou, ao interpretar temas da sua eterna “casa mãe” Xutos e Pontapés, ou ao revisitar projetos icónicos que tem integrado como os emblemáticos Resistência (seleção de monstros nacionais à guitarra interpretando clássicos, do início dos 90), os clássicos Rio Grande (final dos 90), ou os seus sucedâneos Cabeças no Ar, onde se tem juntado à mais nobre estirpe musical portuguesa (Palma, Gil, Veloso, Vitorino, Monge) este homem é um verdadeiro crooner de espinha dorsal, porque todas as suas variações, ou mesmo o seu  trabalho a solo, têm revelado um valor lírico e musical verdadeiramente fora de série, para quem tem 61 anos, apenas mais 13 anos que eu!

 

Quem teve coragem para ir, e aguentou estoicamente até que começasse (porque depois, certamente aqueceu!) teve o mais puro e prazenteiro deleite de saborear:

- À minha maneira (belíssimo clássico dos Xutos! Um “My Way” do Sinatra num despique roqueiro de altas guitarras);


- Voar (tocante tema a solo de sonhos infantis. Sobre o poder da capacidade de sonhar, e onde nos pode levar);


- Postal dos Correios (a carta enternecedora de um emigrante, como devem ter havido tantos antes, para os pais, do projeto RioGrande


- Menina estás à janela (Popular que aprendeu a valorizar pelo seu “mestre” Vitorino)


- À noite (Viagem aos Sitiados, do malogrado João Aguardela)


- Tu não me digas adeus (tema que fecha o seu último trabalho a solo “20 20 20”, e foi caraterizado por ele próprio com, muita graça, “que é uma lamechice”);


- Por quem não esqueci (Clássico da Sétima Legião, em jeito de tributo);

 

- Chuva dissolvente (dos Xutos que eu mais gosto, do disco “Dizer Não! de vez”, de 92)


- Nasce selvagem (a fazer lembrar os Resistência e os Delfins)


- Casinha

 

- Contentores


- Circo de feras (Num tríptico de luxo!, de grande homenagem aos Xutos!)

- Para sempre (BSO do filme “Tentação”, de Joaquim Leitão)

E no encore:


~ Homem do leme (Clássico intemporal dos Xutos, do segundo álbum “Cerco”)


- Não sou o único (Para fechar, apresentada como a "Canção do Zé Pedro", por ter sido ele que a escreveu, logo o mais rebelde de todos, e o que mais cedo desapareceu, muito vítima das suas dependências do álcool e outras substâncias psicotrópicas, com a isca já desfeita)_com um bem haja muito especial à D. Isabel Bucho, por me ter ajudado a corrigir o lapso da publicação inicial, de ter chamado Maria ao Pedro! 👍) 

 

Olhem, valeu!

 

Para o ano há mais? Fix!


Só um cheirinho...



a) nota de rodapé de última hora: neste blogue, como sempre, quero aqui contar a verdade, toda a verdade (porque sou um homem dela e da palavra), pelo menos a minha verdade. Assim, quero sempre relatar o que os meus olhos viram, mas não quero, de todo, dizer inverdades ou falsidades. Digo isto porque logo na manhã seguinte a esta publicação, foi informado por fontes oficiais, por vias informais e mensagens pessoais, de amizade, que o pedido de desculpas pelo atraso no início do concerto foi de fato formulado no palco, mas logo por azar aconteceu quando eu já, vergado pela demora e com receio pelo que pudesse vir, me desloquei à casa de banho do Centro Cultural de Marvão, para verter águas. Apresento pois assim o meu pedido de desculpas pela crítica infundada que formulei.

Eu estava certo do que tinha acontecido, mas a versão oficial estava mais certa, e por isso a trago à luz do dia. Azares desses acontecem muitas vezes, mas o importante é que os eventos, sobretudo o de qualidade, como este, se repitam muitas vezes.

Como os direitos de autor não me cortaram capturas que fiz do evento, vamos lá fazer mais umas tentativas de divulgação desse bonito evento, para ver se passam...
Para os meus leitores habituais,

 



domingo, 5 de setembro de 2021

Shangri La... - O meu horizonte longínquo... - (Pt IV)_As famílias e (Pt V)_Ser criança ali

A Beirã tinha duas grandes famílias em termos de poderio económico, que se distinguiam de todas as outras, pela projeção e pelo impacto que tinham: os Vivas e os Caritas, tendo ambos os homens fortes de cada uma delas, chegado a presidentes da câmara de Marvão (Manuel Berenguel Vivas, 1945-1954 / João Diniz Carita, 1964-1973), o que é bem revelador.



 A história dos Vivas, mais antiga, confunde-se com a criação da própria aldeia, e teve nela um papel fundamental. Nem sempre por aqui estavam, mas por aqui passavam com muita frequência, quando pernoitavam num casarão enorme de belíssimos azulejos, frente à estação, com um jardim privado de grandes dimensões, que se estendia até à igreja de Nossa Senhora do Carmo, templo que mandaram construir como privado, em homenagem a Carmen Berenguel Vivas, mas que depois abriram e ofertaram à terra, sendo a padroeira da freguesia. Pais de muito filhos, que por sua vez tiveram vasta descendência, os Vivas são sempre muitos e ainda hoje, quando regressam à terra, pelo menos para os de lá, esta parece ter outro ar.

Os Caritas tiveram o seu apogeu mais tarde, muito relacionado com o caudal económico associado ao ramal de Cáceres, e os despachos alfandegários das mercadorias. Recordo-me que tinham um escritório na estação, onde trabalhava o meu pai, com mais 6 ou 7 colegas; e uns casões situados mais à frente, a 200 metros dali, onde estavam outras tantas funcionárias no escritório, com mais alguns funcionários nos casões, para o trabalho mais braçal.

O pai trabalhando no escritório, como ajudante de despachante

 A freguesia tinha a alguns quilómetros dali, na herdade do Pereiro, outra família muito influente de Marvão, daquelas que já não vai havendo nos dias de hoje: uma extensão da família Sequeira, com o filho Artur, que se fixou na herdade do pereiro, e ali chegou a ter, lá está, segundo a minha memória, uma min-aldeia de trabalhadores daquelas terras, com escola primária inclusive! Ali labutava diariamente um exército de homens e mulheres que se dedicavam desde apanha da azeitona, e a todos os trabalhos no campo, que implicassem cuidados, manutenção e extração de produtos.

A família Sequeira tinha o seu centro económico nevrálgico, a 4 quilómetros dali, em Santo António das Areias, com um enorme edifício onde exploravam a sua produção industrial de amêndoas, calçado, e demais produtos que vendiam para todo o país. Hoje, está há alguns meses para venda.


 Ser criança ali (o antes e o depois)

É certo que já virámos o século, e já passaram quarenta anos, mas tudo aconteceu… ontem. As crianças que viviam na Beirã nesse então, estão tão a anos-luz das crianças de hoje em dia, que mais parece que foi noutro milénio. Tudo passou tão rápido, que quase que nem nos conseguimos dar conta das pequenas grandes revoluções que se forma instalando nas nossas vidas.

Do meu ponto de vista, a internet, os computadores, e os recursos tecnológicos associados como os smartphones, mudaram radicalmente o mundo. Recordo-me perfeitamente quando comprei o meu primeiro computador pessoal, ou melhor, que os meus pais me compraram o meu primeiro pc, na loja COAL e Portalegre. Tratava-se de uma CPU com uma torre gigantesca, e um monitor que mais parecia um aquário daqueles das grandes marisqueiras. Era uma máquina muito lenta, muito vagarosa, que desenvolvia muito pouco.

A internet chegou num pequeno pacote da Telepac, que se tinha de ligar à ficha telefónica e ficava ali tempo sem fim a emitir uns ruídos estranhos (BBBBZZZIIIIIIIIIIIIIIIINNNNNNN, BBBBZZZZRRRRRRRROOOOOOOOOOOONNNNNNNNN,BBBBBBBBBZZZZZZZZZZZZZZZZREEEEEEEEEEEEEEEEEENNNNNNNNNNNNNNN, até se conseguir ligar a rede virtual mundial.

Nós hoje observamos uma criança de três ou quatro anos a mexer num smartphone, ou num tablet, e ficamos boquiabertos com a destreza com que os pequenos dedinhos interagem com o ecrã e os conteúdos. Por vezes, dou por mim a perguntar a mim mesmo se serão mais espertos que nós, mas acalmo-me dizendo que é capaz de não ser bem assim. O que se passa é que os recursos que têm são muito mais absorventes, e impulsionadores, do que eram os nossos. Depois, por acréscimo, ou em consequência, têm respostas como a que há dias me deu o filho de um amigo meu, que andará na casa dos 8/9 anos, e encontrei na piscina municipal, enquanto esperávamos cada um por sua coisa: eu pela hora de entrada e ele, que o viessem buscar. Entrei por baixo, de manso, de fininho, como que a experimentar. Fui tentando encontrar pontos comuns por onde desenhar uma conversa. Pronto descobri quem era, de onde era, e sabendo que era grande amigo de longa data da família, perguntei-lhe se me poderia dizer o que era para ele, o aspeto mais preocupante do nosso país.

Ele respondeu-me… “a corrupção!”

Atónito, pasmei: “A corrupção?!?!?” Comássim?!?!? Danou-se!” Eu com a sua idade, nem tampouco saberia o que isso era, quanto mais!

Fiquei assim para o… pensativo e sorridente.


Foto clássica da juventude da Beirã, na década de 70: o treinador João Sobreiro, sempre fumando, Paulo Varela com o remoinho caraterístico no cabelo, o craque Rui Felino, Paulo Jorge “Magafo”, Jorge Oliveira “Orelhas”; em baixo: o meu querido já falecido Paulo Marôco, Joaquim Carita, Vítor Felino, José Manuel “Pop” Dias, e, com clara cunha, Pedro Sobreiro.


Assim à partida, as crianças na Beirã tinham uma grande vantagem em relação às outras espalhadas pelo país fora, e não estou a falar agora na liberdade, na tranquilidade, ou noutra coisa óbvia qualquer; mas toda a gente sabe que nos anos 80, o grande divertimento presente em cada lar era… a televisão! Nós aqui, enquanto os que viviam longe da fronteira tinham de levar com a mira técnica, relacionada com os horários racionados de funcionamento, nós tínhamos a RTVE que nos salvava!

Pois fiquem sabendo que é pela televisão que tenho tão grande facilidade de falar e compreender castelhano, ao ponto de muitos me perguntarem, quando visitam o meu posto de trabalho na Autoridade Tributária, vulgo Finanças, se andei nalguma escola, e ficarem a rir-se quando digo que não, que aprendi em casa. A minha professora foi a “Alaska, dos Dinarama”, uma cyberpunk de cabelo cor de laranja, sempre vestida de couros e borrachas, que apresentava “La bola de Cristal”, um mítico programa matinal que preenchia os sábados até à hora de almoço, onde podíamos ver a “Família Monster”, os “Teleduendes”, e os vídeos roqueiros do “Loquillo y los Trogloditas”.

Nessa nossa televisão ibérica, aprendemos a sonhar com o “Verão Azul”, por exemplo, uma mítica série de televisão transmitida em 1981, com 19 episódios, dos quais creio que me lembro de memória de todos, sobretudo do inicial, do final, de quando a Beatriz passou a ser mulher, ou de quando o Chanquete faleceu. A música do genérico ainda me transmite um sentimento de felicidade e bem-estar que ecoa no meu passado.

Pela televisão víamos o “Aplauso”, uma revista de variedades como ainda não havia por cá em Portugal, e o “Informe Semanal”, um magazine de reportagens de grande calibre e profundidade, que me influenciaram muito a seguir na minha carreia académica de jornalista.

Por la tele también seguimos la copa del mundo de España ‘82, nesse famigerado jogo em que a minha seleção brasileira de sonho com o Zico, Éder, Sócrates, Falcão tombaram nos quartos de final com estrondo aos pés de uma Itália sanguinária que venceu por 3 a 2, comandada pelo maldito Paolo Rossi. O que eu chorei nessa tarde, deitado no meio do chão da casa da minha avó Joaquina, que teve de ligar para o escritório onde o meu pai trabalhava porque “tinha de vir que o garoto não estava bem!”

Pela televisão, sempre ela, que já entrou tarde porque me lembro de ir assistir à casa da minha tia, víamos o concurso “1,2,3”, depois trazido para Portugal pelo Carlos Cruz, mas que ali, apresentado pela fantástica apresentadora Mayra Gomez Kemp, e que era um regalo de bom gosto, comédia, e entretenimento de altíssima categoria.