terça-feira, 17 de agosto de 2010

Quando és estranho (entre estranhos, numa terra estranha)


Assisto, estarrecido e deliciado, ao novíssimo documentário sobre os Doors que me chegou às mãos numa hora bendita por obra e graça do maravilhoso mundo tecnológico em que temos a sorte de viver. Tinha visto o trailer há tempos na televisão e lembro-me de ter ficado histérico. Estreado nas salas há apenas 5 meses, já seleccionado para Berlim e para o cotadíssimo Sundance (escrevam isto: tudo o que é premiado em Sundance é muuuito bom) deixou-me em ponto de rebuçado, derretidinho no meu sofá. Aahhhhhhhhhhh… Bom djimáis…

Vou fazer-vos uma confissão: eu tenho um desgosto enorme que os Doors sejam uma banda mainstream, da qual tanta gente gosta. Quando se fala nos Doors toda a malta diz que: “yá, man… bué de fixe… curto milhões” e nisto começam a fazer a linha rítmica do “Roadhouse Blues”, provavelmente, a música que melhor conhecem deles... Ta tana tana tananana na, tana tana tananana na… Ah, Deus meu, como eu odeio quando isto me acontece.

E digo isto porque os Doors são, também muito provavelmente, a minha banda favorita. Tenho tudo! Toda a discografia em vinil, toda a discografia em cd, todos os livros, os concertos, os documentários, os filmes, box sets especialíssimas só com raridades… TUDO! Ouvi-os de fio a pavio centenas de vezes. Acho que era capaz de cantar de memória os alinhamentos de todos os discos, reproduzir com a boca os solos de viola, bateria, tudo. Os Doors foram gigantescos, os Doors deixam-me em transe. Nenhuma outra banda no mundo, nem Beatles, nem Stones foram capazes de criar um universo tão único e peculiar. Os Doors são rock’n’roll mas também são blues e jazz e música de carrossel.

E se os Doors foram os maiores de sempre, o Jim foi O (com o maiúsculo) verdadeiro artista rock’n’roll. Único e irrepetível. Poeta, performer, visionário, músico, agitador-mor, xamã, foi um ícone sem igual algures perdido entre o céu e o inferno. Eu não resisto ao homem. Fico de joelhos de cada vez que lhe ponho a vista em cima. Mas há alguém na merda da história da música com tanta pinta como ele? NUNCA! Há-de estar para nascer e vai morrer na cesariana. Alguém usa um colar de contas, um cabelo à herói de tragédia grega, um cinto de conchas, umas calças de cabedal grenás (ainda por cima), umas botas à chulo como ele? NINGUÉM!

Bom, dito isto, estão a ver a catarse que a película esta provocou no escriba. Muito bem feito. Traça a história da banda, espelha o perfil dos intervenientes, estabelece ligação com a conjuntura histórica do período em que emergiu conseguindo assim um enquadramento sociológico de grande nível, enfim… Vale mesmo a pena. Foi feito por um fã e isso diz tudo. Só as imagens inéditas de arquivo pela primeira vez reveladas arrebatam qualquer um.

Questões avulsas:
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P: Se eu acho que o Jim está vivo?
R: Não. Mas deve de estar algures a beber um bourbon com o Elvis, a Janis, o Jimmy, o Kurt, o Dean e essa rapaziada toda bravia. Granda Jam Session!

P: Qual é o meu disco favorito?
R: Certamente o L. A. Woman, o derradeiro, aquele em que voltaram de mergulho às raízes.

P: Se é verdade que se ouvir os discos todos de penálti posso ter reacções secundárias como sair a dançar todo nú pelo quintal fora uivando à lua?
R: É!

Jim disse um dia que não há nada tão eterno como a música e a poesia. Concordo em absoluto. É por isso mesmo que daqui a trilhões de anos há-de existir algures no universo, um adolescente mutante com um poster do Rei lagarto colado na parede da sua nave espacial, que passa as tardes a dançar como um louco ao som do “Break on trough”.
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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Delírio tablóide (na edição de hoje do CM!)

Ai vocês, estimados leitores, são demáis! Então mas ainda perguntam porque é que quando entro numa tabacaria para comprar o jornal, percorro a vasta gama com o olhar e escolho o… claro está! inevitável Correio da Manhã?!?!?

Mas isso é óbvio, por Deus!

Cliquem que cresce
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É uma peça antológica. E reparem bem no requinte do grafismo e na forma como o paginador aproveitou a notícia de cima, de uma recriação histórica com um burro, para ilustrar a notícia em questão. Genial!
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Já agora, pensando acerca do conteúdo... o condutor ia grosso, é certo. Mas se levava o burro pela mão e se conseguiu provar que o jumento ia sóbrio, haverá, ainda assim, infracção ao código?


Outra pérola digna de um episódio da Twilight Zone.
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Tudo isto por um euro e dez cêntimos?
Está barato! Mas que é que disse que não se pode ser feliz com pouco?

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Laissez faire, laissez passer (que é como quem diz: "anda p'a frente e que se amole"!



"Yo bacanos! Tásse? Já mitraram a cena qu’a menistra dos setôres, aquela que escreve estórinhas pós queques, a que é parecida com a águia Vitória do Benfica… tão a ver? Sabem o que é que a gaja quer aplicar aí à chavalada? Quer ACABAR COM OS CHUMBOS! Man… Dasss! Show di bola! Não é uma invenção mêmo bué da tótil e do baril?!?!? Phónix! Não ma lixem! Demáis! Eu digo cá uma cena mesmo qu’eu próprio estive a mitrar, man: S’ eu votasse… punha a tia aquela a mandar nesta merda toda! Pensem cá com mangas: se não há chumbos, os nossos velhos não chateiam a gente com notas e outras cegadas e assim um gajo fica c’o dia todinho pa reinar… jogar playstation, sacar as pitinhas lá do liceu pa curtir atrás dos blocos e preocupar-se só com cenas que valem memo a pena como roupas, telemóveis, gajas, copos e outras cenas d’arraia. Esta super-setôra é a maior! Cá pra mim: A GAJA CHEGAVA A PAPA"!
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Pois é, meus amigos. Nestes tempos difíceis em que deveríamos todos primar pelo rigor e pela excelência, nada mais nos resta que assistir, incrédulos, aos planos cada vez mais mirabolantes dos nossos governantes. A palavra de ordem é só uma: facilitar.

No meu tempo, que não foi assim há tanto, nós tínhamos respeito aos professores, tínhamos mais medo de ir ao Conselho Directivo do que ir ao Posto da GNR e uma negativa era coisa a evitar a todo o custo, quanto mais um chumbo no final do ano.

Vejam bem a volta que a coisa levou... Salvo raras excepções, repito, salvo raras excepções…

Bastou década e meia para os professores perderem grande parte do estatuto que conquistaram a tanto custo. Hoje são mal pagos, estão reféns de concursos e horários diminutos que tantas vezes os obrigam a deixar para trás casa e família, enfim.. já não têm a autoridade, nem a posição de antigamente. Em vez de uma bofetada bem dada passaram a ter de saltar pela janela para não levarem com o apagador.

O ensino não se democratizou. Antes se banalizou. Hoje em dia só não tira um curso superior quem não quer. As escolhas e as opções estão ao alcance de todo e qualquer um, mesmo daqueles que têm uma média tão magra que não dá para a positiva. O resultado: uma legião de encanudados que mal sabem soletrar o nome. Desde que tenha o Dr. antes… siga!

A machadada final, digo eu, foi dada pelas Novas Oportunidades que permitiram equivalências ao desbarato e deram, literalmente, em meses e de mão beijada, aquilo que muitos antes conquistaram com esforço e sacrifício. Se foi um sistema justo em 5% dos casos, (digamos assim, vá!), que dizer dos restantes 95%? Eu até um curso de futebolista com equivalência ao 12º vi, quanto mais… Contem-me histórias.

E assim chegamos a este extraordinário ponto em que a ministra, certamente assessorada pelos consultores de topo e por estudos brilhantes que estão para lá do nosso entendimento, decide encartar a malta até ao ensino superior. Sempre a abrir!

Este país vale a pena! Ai vale, vale!

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Sons de Verão


E porque é Verão, porque estamos em plena Silly Season, porque o calor aperta e só apetece estar de molho, porque é preferível estar numa esplanada a desfrutar de umas fresquinhas em vez de estar agarrado ao computador, por tudo isto e muito mais, deixo umas sugestões musicais para o lazer dos estimados clientes:

O “Infinite Arms” dos Band of horses, sério candidato a disco do ano. Belíssimo, imenso, misterioso como o céu estrelado numa noite de Verão. E eu digo, nos tempos que correm, achava impossível ver nascer um disco assim. É de arrepiar. Perdê-lo? Um crime!



The drums - “The drums” - Pop pastilha elástica com receita dos anos 80. Mas quem é que disse que a música não podia ser só assim, leve e despreocupada? Está encontrada a banda sonora ideal para um gelado na falésia à beira-mar.



Para terminar... o novo disco do Slash que é uma locomotiva rock’n’roll. Sim, eu sei. Eu pensei o mesmo. Eh, um disquinho de colaboração só para não dizer que está parado. Surpresa! Ah, pois é! Um clássico instantâneo, uma obra-prima que vai marcar o seu lugar na colheita 2010, repleta de grandes malhas e hits a estalar. E depois, quem é que se pode dar ao luxo de ter consigo uma parada de lendas vivas? Tomem nota: Ian Astbury, Ozzy Osbourne, Iggy Pop, o mítico Lemmy Kilmister dos Motorhead, Kid Rock, Chris Cornell, mas também grandes vozes de outra linha como Adam Levine e Fergie (brilhante em “Beautiful Dangerous”). Comigo é assim: se ouço mais de 10 vezes de seguida e quero mais é porque temos disco. E que discão! METE MAIS ALTO, PORRA!!!


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E a pedido de diversos frequentadores, deixo o meu mail para quem quiser opinar em privado: sabisobreiro@sapo.pt. Abraço!

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Na terra dos sonhos


O terceiro e derradeiro (snif, snif…) capítulo da saga Toy Story vale cada um dos quase 200 quilómetros que tivemos de percorrer para podermos ter acesso a uma sala digna desse nome, capaz de nos propiciar todos os luxos e maravilhas que o 3D tem para oferecer.

Na verdade, os cinco minutos iniciais são mais do que suficientes para o fazer. O virtuosismo e o brilhantismo com que somos brindados na sequência de abertura são de deixar mesmo os mais prevenidos de boca aberta.

E é aqui que constato, mais uma vez, que se o cinema é a maior máquina de sonhos que o homem foi capaz de inventar, a Pixar é, de há mais de uma década a esta parte e na minha modesta opinião, dona e senhora dos comandos do melhor que se faz na dita sétima das artes.

É certo que é animação digital, mas este maravilhoso “mundo-novo” inventado por aquela que foi um dia uma pequena companhia independente, está povoado dos mais nobres valores e mais lindos sentimentos que um ser humano pode experimentar em vida.

Sou fã absoluto e incondicional da trilogia. Comprei e devorei (vezes sem conta…), a aventura original e a sua sequela quando foram lançadas em Espanha no formato dvd, ainda a minha Leonor não era nascida. Quando a sua atenção começou a despertar para este género de coisas, passei-lhe as fitas que herdou de imediato porque eu acho que se há legados que os pais devem deixar aos filhos ainda em vida, estas cápsulas de puro encantamento são uma delas. Tornou-se uma fã tão grande ou ainda maior do que eu. Até a mãe, que não liga tanto e vai vendo este tipo de filmes pelo canto do olho, também não resistiu e ficou derretida, sobretudo pelo segundo capítulo.

Pois este Toy Story 3, é todo ele perfeito. Pode um filme ser um clássico no dia da estreia? Pode! O Toy Story 3 é a prova mais do que evidente desta realidade.

E é perfeito porque tem tudo! TUDO! Uma narrativa belíssima, um ritmo estonteante que nos hipnotiza por completo, cenários deslumbrantes, as personagens que nos habituámos a amar e um rol de novas figuras que não são feitas de carne e osso mas que são tão realistas que tenho a certeza que todos nós seríamos capazes de identificar, de entre as gentes que conhecemos, alguém que se lhe parecesse.

O Toy Story 3 começa como um western vertiginoso mas tem momentos de drama e de comédia, pisca o olho a detalhes sci-fi mas a dada altura mergulha de cabeça nos filmes de espionagem e naquelas fitas dos anos 70 e 80 em que grupos de reclusos se evadem de estruturas de alta-segurança. Se tivesse de o caracterizar numa palavra diria… intenso.

Falo por mim. Quem me conhece de verdade, mas mesmo quem me lê por aqui, sabe como eu sou, que hei-de ser sempre (com muito orgulho nisso), uma criança aprisionada num corpo de gente grande. Garanto-vos que se em muitas coisas não cresci mais foi porque não quis, por opção, porque quero preservar em mim essa chama da infância. Hei-de querer sempre ver o mundo com esses olhos.

Eu sempre quis ter um Woody, uma Jessica, um Buzz e o resto da turminha toda mas estes 3 pelo menos, vá! Com uma filhota a legitimar a aquisição tudo se tornou mais fácil mas nesse então, Portugal não tinha loja Disney e não havia forma como. Numa tarde em que fomos visitar a minha mãe ao hospital, a minha filha chegou-me ofegante e de olhos a brilhar, correndo para me contar o que tinha encontrado numa caixa velha de brinquedos que tinham sido doados por outros meninos (Um golpe do destino! Quem vir este Toy Story 3 cedo perceberá porquê). Eu sei que não foi o gesto mais bonito mas aqueles dois estavam mesmo a pedir um lar que os conhecesse, compreendesse e soubesse amar. Ainda hoje, de cada vez que os arrumo, fico com a sensação que assim que se fechar a porta, eles ganham vida e saem casa fora.

Há dias trouxe-lhes o companheiro inter-galáctico, chegado dos confins do universo e mais-além e… imaginem a festa. Não se viam há anos…

Neste domingo quente de Agosto, a família saiu em peso para conhecer a última página desta história linda sabendo que se tratava de muito mais que um filme. Falei com a minha pequena e sei que o nosso sentimento era um só: devoção.

A dada altura, Andy, o rapazinho que cresceu entre estes bonecos referiu-se ao Woody com emoção e disse: “Sempre foste especial porque sempre me ensinaste que nunca se deixa um amigo para trás”. Já imaginaram como seria o mundo se assim fosse?

Aos pais peço que não deixem de passar aos filhos a lição dos “Toy Story”. Garanto que farão deles, seres humanos muito maiores.

PS: Mas há alguém que consiga assistir a isto sem que os olhos fiquem húmidos (digamos assim?). Eu não resisto… Parte-me todo...


quarta-feira, 28 de julho de 2010

Crime e castigo



As notícias dão conta que o país arde de norte a sul.

Na origem da grande maioria dos fogos estão mãos criminosas que passando impunes de ano para ano, continuam a semear a habitual desgraça que infelizmente caracteriza a época.

Nada a estranhar neste país de brandos costumes.

Em Portugal, o crime compensa. Compensa porque a justiça não funciona, porque é lenta, cega e nunca chega a apanhar quem deve e quem manda. Compensa e sendo assim, quem precisa… prefere arriscar.

Tudo seria bem diferente se nos deixássemos de modernices e tivéssemos ficado pala velhinha Lei de Talião, popularmente conhecida pela máxima: “Olho por olho, dente por dente”.

Fácil. Simples. Eficaz. Porque há crimes que não merecem outra sorte.
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Um pirómano que confesse a sua culpa sabe que “vai dentro” mas também sabe que há sortes piores. Ali vai poder comer à pala, beber à pala e ter acesso a um sem fim de mordomias onde se incluem a televisão a cores, literatura à disposição e o conforto a um regime de pensão completa. Se não entrar em avarias e for bom rapazinho terá ainda a possibilidade de passado ¼ da pena já estar prontinho para montar mais um arraial.

Mas alguém duvida que se o programa incluísse um banhinho a gasolina e uma faísca oportuna, a vontade era logo outra e a coisa mudava de figura? Talvez começassem a pensar duas vezes…

Prontos! Já sabia! É neste preciso momento que se levanta o coro de boquiabertos espantados por um rapazinho tão novo como eu ter ideias tão talibãs quanto estas. Pois… eu compreendo que a coisa possa ser elementar demais, mas que fazer? Quem diz o que pensa…

Passemos para outro “ramo”: pedófilia. Complicado? Naaaa. Simples até. Bastava a genitália ir fora. Querem apostar que a vontade era logo outra?

Tomemos o caso do suposto “Rei dos Gnomos” que se entretinha a “dar caminho” aos amigos mais próximos. E que tal dar-lhe sumiço a ele de vez só para provar o seu veneno? Seria despropositado?

E “ai que horror” que isto são só ideias fascistas, que o ser humano é recuperável, que todo o homem se pode arrepender e voltar a viver em sociedade. Mas o rapaz estará doido?

Está bem, abelha… Conta-me histórias…

Eu gostava de saber se essas pessoas que pensam assim continuariam a pensar da mesma forma se a casa engolida pelas chamas criminosas fosse a delas, se a criança abusada fosse a sua, se o jovem enterrado numa mata qualquer lhe fosse próximo.

Isto quando acontece aos outros…

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Nascer para a música

Depois de 7 meses a aprender viola é natural que um gajo se convença que já toca alguma coisinha e comece a alimentar em segredo dentro de si uma imagem do artista que gostaria de ser.

Eu forrei a capa do meu dossier das letras e músicas com os manos que me inspiram e guiam.

Eu gostava de ter um bocadinho da pinta do Marquinho dos anos 80,



A aura de crooner do bas-fond alfacinha do Tony,


O descaramento do Cid,


Os trinados e a bonomia do Demis Russos,


A pinta e a voz do Rod Stewart, (e já agora, o jeito para as bébés... Excelente conjuntinho!)


O espírito globe-trotter do Roberto Leal,


A categoria do Tom Jones,


A maneira de cantar e a pinta do Rodrigo,


A pose do Nel Monteiro,


E a musicalidade, a autenticidade e a excentricidade do Variações



Se eu tivesse isto tudo ficava contente.

Deus sabe como eu me esforço, como eu treino, como eu deliro de cada vez as coisas correm bem. Já tenho calos nos dedos, tenho as notas e as escalas memorizadas mas sei perfeitamente que ainda sou um bebé na coisa e que tenho que pedalar muito para poder chegar onde quero.

É o que eu digo: a gente pensa que sabe mas depois vai à net e dá de caras com um miúdo destes e… fica com uma cara que eu nem vos conto…
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Dá para acreditar?!?!?!? (Até parece fácil...)










terça-feira, 20 de julho de 2010

Posto de observação: Férias 2010

É capaz de ser a mais curiosa das mais de 500 fotos que tirei neste Verão. Os "Lazy Beggers" cairam-me no goto. Esmola para cerveja, para vinho, para charros ou para a ressaca. Tudo por categorias mas com a sinceridade acima de tudo. Um valor raro nos nossos dias pelo que contribuir é obrigatório. É óbvio que eu e o mano ajudamos estas almas errantes. E eles, perdoaram o cachet da foto... Uma simpatia...
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Do caderninho de notas deste Verão 2010:
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1) Eu na praia gosto de observar: uns lêem jornais, outros revistas do coração. Uns ressonam, outros dormem, outros assam ao sol e algumas ainda fazem crochet. Eu gosto de tentar ver. Hoje em dia, olhar o areal e a fauna que por ali desfila diariamente é como contemplar um quadro vivo do Botero. Percebe-se então, melhor do que nunca, olhando as centenas de corpos em estado de semi-desnudez (apenas tapados por um ou dois farrapos), porque é que se diz que a obesidade é o maior flagelo da saúde dos nossos tempos. Admirando os rabos, as coxas, os braços, peitos e as belas mamas, pasma-se um concluindo que mais de 90% dos exemplares transborda peso em excesso e faz mais do que isso: está-se pouco marimbando para o facto. Quando mais perto do porte de um urso polar, mais eles e elas correm a abalroar o pobre do homem dos bolos que arrisca a vida dia-a-dia no areal de cada vez que abana a sineta. Vê-los enfardar é um regalo!

Eu que já me exibi do lado de lá há não muitos anos atrás, percebo melhor que muitos a diferença de estar de um ou do outro lado da barricada. Um corpo com peso a mais engasga e mergulha para o colapso como para um abismo sem fim. A gordura entope os órgãos vitais, desorienta as células, faz de nós uma bomba relógio. A diabetes, os enfartes e as tromboses esfregam as mãos sentadinhas nas rochas como abutres que sorriem ao contemplar a chegada de mais uma caravana na linha do horizonte da pradaria.

É certo que pode acontecer a qualquer um, mas a possibilidade de uma alimária (daquelas que já oscila nos três dígitos da balança) rebentar em pleno areal ou sucumbir por combustão humana espontânea é gigantesca e imensamente superior a que algo similar aconteça às escassas starlettes que gingam no areal depois de um Inverno de privação e malhação no ginásio. Valeu a pena!

2) A praia estava cheia de idosos. Idosos e idosas, quer-se dizer, pessoas com muitos anos e fatos de banho que parecem sacos-cama às flores e contam a vida toda a cada meia hora. Pareciam os relógios que tocam os hinos de Fátima de 15 em 15 minutos. Pessoas de idade que no meu tempo de miúdo se chamavam velhos mas agora foram baptizados de séniores. E não me venham com a história que seleccionei mal o meu spot. Às 8 e meia da manhã já estava a correr todo o areal e o fenómeno estende-se pelos quase 5 quilómetros de costa. Das duas, três: ou os novos emigraram, ou foram de vacances para o estrangeiro ou estão todos trancados na arrecadação lá de casa com medo que o Sócrates e a crise os comam. Eu não tenho nada contra os velhinhos. Mas preferia, sinceramente, que a a areia estivesse polvilhada com beldades saídas dos reclames dos Corpos Danone. Era mais giro, sei lá! Não sei explicar, prontos.

3) As áreas concessionadas são cada vez mais. Já pagamos para quase tudo. Qualquer dia, quem quiser praia em Portugal tem de pagar e se quiser mesmo espetar o guarda-sol que herdou da família ou gamou na esplanada do café lá da esquina, terá de o enfiar no rabo e sair correndo. Camaradas, a luta armada já esteve mais distante. Resistiremos! Praia livre de merdas e concessões, já!

4)
Por falar em resistência… continua a saga das bolas de Berlim sem creme. Um flagelo! O grandessíssimo filho da puta que inventou esta medida absurda devia ser atado a uma traineira pelos tomates e rebocado até Marrocos a alta velocidade sem se desviar dos tubarões, orcas e outros mamíferos subaquáticos. Puta que o pariu! Há-de arder nos confins dos infernos para toda a eternidade. É o que lhe desejo por me ter estragado um prazer de menino!

Conversa real entre a minha pessoa e o mano que vendia as bolas na primeira tarde de praia deste ano:
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-“Boas, ó chefe! Tem bolinha? Sai uma com creme, então!”.
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(O gajo, rindo) - “Com creme? Naaaa… Estão proibidas!”
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-“Proibidas? Tcchhh, não sabia! Ande lá… você de certezinha que tem aí uma escondida para si debaixo do paninho de linho… Venha ela! Dispense-me isso! Eu vim hoje do Alentejo e sou assalariado. Só tenho uma mísera semana de praia por ano. Cheguei há pouco e tenho de comemorar, de preferência, antes que a minha filha nos apanhe…”.
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- “Não posso, amigo. Íamos presos… Sem creme não quer?”
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- “Não!”
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- “E com creme, queria?”
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-“Ouça… se você tivesse com creme eu comprava-lhas todinhas! Até lhe comprova a trotinete! Dava-lhe gorjeta e comprava-o a si só para ser meu amigo mesmo que gastasse até ao meu último cêntimo. Sem creme não quero. Embaçam!”

5) Quando chegava das minhas corridas matinais, de calções, em troco nú e de óculos de sol, cruzava-me com pessoas na entrada do empreendimento e se me antecipava, segurava sempre o portão para que pudessem passar, carregadas com o estojo da praia (o meu já lá estava). Muitas delas agradeciam-me em inglês: “Thank you”. Eu ficava sem conseguir responder, embargado pelo reconhecimento do meu ar cosmopolita, de cidadão do mundo, vá! Com a selecção a jogar assim e com este governo, quem é que tem orgulho em ser português?!?!? Assim como assim, ficar calado e apenas sorrir nem era muito mau da minha parte. Se respondesse “You’re welcome” teria sido bem pior, não concordam?

6) Na faculdade, os professores proibiram-me de ler o “Correio da manhã”. Péssimo jornalismo, diziam. Eu, que era fã assumido do “Jornal do Incrível” e da “Gaiola aberta”, estranhei a privação. Redescobri o prazer da sua leitura muitos anos depois, na Pastelaria do Choca, entre umas fresquinhas e tremoços. O “CM” é o único e mais fiel retrato do país real, do Portugal profundo. A actualidade não fica completa sem o seu estalo pimba. No Algarve era o primeiro jornal a esgotar. Voavam da banca e esvoaçavam depois pelo areal fora. Não há como começar um dia de praia sabendo de mais um assassinato, uma burla e um desaparecimento em parangonas. Para o ano, façam mais! Ou pelo menos, distribuam-nos melhor.

7) Este foi o Verão em que redescobri a magia sedutora de comer um Fizz limão sentado na esplanada de um bar da praia. A reedição deste mito da nossa infância já é uma das bombas do milénio! O fado é mentiroso. Pode-se voltar a ser feliz onde já fomos no passado. O céu é verde fluorescente, está fresquinho e espera por nós em qualquer ponto de venda da Olá.

8) Este foi o Verão de confirmação da minha geleira. Eu sei que a cor é horrível mas já não haviam azuis-bébé e eu queria mesmo uma da Camping Gaz verdadeira. Cor-de-rosinha desmaiado também não está mal. E serve o propósito na perfeição. Guarda os iogurtes da bebé, os suminhos da mais crescidas e as minis 25 cl. do papá! Maravilha! De revelação a confirmação! Uma das compras da minha vida!

9) As pequenas conseguiram convencer-me (dada a proximidade do apartamento) a não ficar o dia inteiro na praia e a ir almoçar com elas a casa. Foi uma boa concessão. Comecei a comer melhor e redescobri o prazer de assistir às “Tardes da Júlia Pinheiro” na TVI enquanto ensaiava violão. Como é que eu pude ser feliz perdendo este programa que já é o meu favorito da televisão portuguesa? Que burro eu era! Eu vivia na Idade Média e a Júlia marcou a viragem para o Renascimento televisivo. Para já, apesar de entradota, ainda gasta bem as solas. Tem o seu quê! Depois, quem mais tem o talento de fazer programas com títulos tão sugestivos como “Eu só casei aos 40” ou “Eu fui o melhor amigo da minha mulher durante a menopausa”? Júlia: Tu és grande e mereces o céu! Sabes o que arranjaste? Já tenho o Meo programado para gravar todinhos e não vou deixar de rever mais nenhum ao serão. Júlia… tu devias ser a nossa rainha! “Eu amo você!”.

E prontos! Apontei muito mais coisas mas as outras eram tontas e sem sentido. Não valia a pena contar… Envergonho-me!

domingo, 18 de julho de 2010

A banhos...


Ah, meus amigos (e amigas)… umas feriazinhas… Tinha de ser…

Pois, eu sei que não se fecha assim a taberna por quase 10 dias sem passar pano à clientela mas não houve mesmo oportunidade. Só houve tempo de armar a trouxa e zarpar. As novas tecnologias ficaram deliberadamente para trás. Foram dias dedicados em exclusivo à família. Mergulhos salgados, banhos de sol, petiscos e gelados (Muito Fizz limão!), sardinhas e excelsos jantares, mas também corridas, caminhadas e claro, minis geladinhas no areal magnificamente refrescadas com distinção pela minha geleira de eleição. Um mimo!

Já tenho saudades, mas enfim.

Como nos ensinaram os bons Python, temos sempre de fazer um esforço para olhar para a vida pelo lado mais brilhante.

Sendo assim, não chorem mais. O vosso velho Tio Sabi já está aqui de volta para animar a pequenada com as suas tarequices.

E para provar que não me esqueci de vocês, aqui vos deixo um artigo que li no Público da outra Sexta-Feira, dia 9 de Julho, que me deixou verdadeiramente emocionado. Tem dentro todo o poder revelador da música e vale mesmo a pena ler. Para o poder partilhar convosco vi-me obrigado a comprar a edição desse dia na loja digital do jornal pelo que nem que seja por isso, não me façam a desfeita. Percam lá 5 minutos e vão ver se não vale a pena.

Muitos beijinhos e até já!





Alzheimer
O que é que a música lhe faz lembrar, Marsha?

Um homem que parecia não ter memórias da sua vida acabou por lembrar-se que um dia tinha ido a um concerto de Frank Sinatra. Uma mulher que é incapaz de dizer o que comeu ao pequeno-almoço sabe de cor o Let me call you sweetheart. Pode a música ser uma forma de resgatar o passado enterrado pela demência? Por Donald Bradley
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Percebe-se a custo que o ténis branco está a bater no chão. Levemente, suavemente, regularmente. Como o bater de um coração. “O que é que a música lhe faz lembrar, Marsha?”, pergunta o enfermeiro de Villa Ventura, no Sul do estado do Kansas, Estados Unidos da América, num tom suficientemente alto para ser ouvido por cima do som dos auscultadores.

A mulher olha para cima, primeiro um pouco intrigada, depois responde: “De estar viva.” Os investigadores no campo da medicina não parecem ter conseguido até agora fazer muito pelos doentes com Alzheimer. Talvez Perry Como o consiga. Ou Patsy Cline. Ou até mesmo Mozart. Hospitais e casas de acolhimento ao longo dos Estados Unidos da América estão cada vez mais a utilizar a música para tentar alcançar áreas do cérebro encobertas pela demência. A doença de Alzheimer é degenerativa. Mas alguns especialistas pensam que canções antigas podem atrasar a evolução da patologia, e activando memórias e possivelmente até restaurando algumas funções cognitivas.

Concetta Tomaino, directora-executiva do Instituto de Música e Funções Neurológicas dos Serviços em Nova Iorque, afirma que os doentes com demência em estádios médios ou avançados tiveram valores mais elevados nos testes de funções cognitivas após dez meses de terapia musical.

Desde há muito se sabe que, mesmo depois de já não reconhecerem nomes e caras, os doentes ainda conseguem cantar a acompanhar a sua canção favorita. “O processamento auditivo parece ser a última capacidade a desaparecer”, avança Tomaino, que trabalha neste campo há 32 anos. E as pessoas, conscientemente ou não, associam canções a acontecimentos, como se fosse uma espécie de banda sonora da sua vida.

Canções para cada doente

Assim, nesta era de assombrosa tecnologia médica, uma canção como "Ain’t she sweet" poderá ser a melhor ferramenta para recuperar memórias de amor, família, um dia de neve ou o regresso a casa.

O lar Villa Ventura iniciou recentemente o seu programa de música em iPod. Sarah Miller, directora de assistência aos internados, não pode falar de nenhuma melhoria de funções cognitivas, mas pode falar daquilo que todos os enfermeiros desejam para os doentes com demência: um momento de alegria.

No período de confusão do fim da tarde conhecido como sundowning, uma residente pode ficar agitada e sentir-se ansiosa e perdida. Mas basta colocar os auscultadores do iPod nas orelhas e pôr a lista de músicas fornecida pela família a tocar, e ela acalma-se.

Conta Miller: “Ela pode não se lembrar do que comeu ao pequeno-almoço, mas consegue recordar toda a letra de Let me call you sweetheart.” Os investigadores sabem desde há muito que os sentimentos, as emoções e as memórias estão adormecidos no fundo das mentes – como caixas esquecidas no sótão – das pessoas com demência. Aceder-lhes tem-se revelado um grande desafio.

“Agora, estamos a aprender cada vez mais e mais acerca de como a música pode levar a uma melhoria das funções, que podem despertar mais a mente”, diz Michelle Niedens, directora para a educação e programação da secção “Coração da América” da Associação Alzheimer, sedeada em Prairie Village, estado do Kansas. O que já não acontece com uma cara ou uma fotografia. “A mente não consegue decompor a imagem”, explica Tomaino. “A música é neurologicamente mais enriquecedora.” E a razão para isso é o facto de o ritmo, a melodia e o volume da música a tornarem um estímulo complexo que não é processado por uma só área do cérebro.

Tomaino fala-nos acerca de um doente que raramente falava e parecia não se recordar de nada do que tinha feito ao longo da sua vida. Mas, após participar num programa de música, o homem contou como anos antes tinha ido assistir a um concerto de Frank Sinatra no Paramount Theatre [em Nova Iorque]. Sabe-se também de doentes que recomeçaram a alimentar-se sozinhos.

Outra vantagem é que o efeito calmante de música que é familiar pode diminuir a necessidade de medicar doentes agitados.

Estas investigações foram vistas – ou ouvidas – pelos responsáveis da Senior Star Living, a companhia sedeada em Tulsa que é proprietária de Villa Ventura. O programa de música da companhia está já a ser posto em prática em todas as suas instalações. As equipas de funcionários trabalham em conjunto com as famílias para criar listas de canções únicas para cada doente.

“Perseguir a felicidade”

Os estudos ainda não determinaram qual o efeito que a música tem na doença de Alzheimer, declara Letitia Jackson, a directora de serviços de saúde da companhia. “Mas temos ouvido acerca de regeneração de células cerebrais, melhorias ao nível cognitivo e de humor. Por isso tivemos que agarrar esta oportunidade.”

Marsha Snyder, de 66 anos, está sentada num sofá em Villa Ventura a gingar ao som de "I only have eyes for you", de Harry Connick Jr. “Ele está a cantar para mim”, diz esta ex-enfermeira, com um grande sorriso. Depois nota que está um homem sentado ao seu lado. Ele estala os dedos de ambas as mãos. A cabeça abana. Estão os dois com auscultadores nas orelhas. Ela bate-lhe com o cotovelo. “O que é que estás a ouvir?”, pergunta ela. Ele responde com uma canção. "My momma done tol’ me… Blues in the night". Ele até imita um trompete. Bob Ryan tem 88 anos e não sofre de demência. Apenas gosta de música. Canta até passar um empregado a empurrar um carrinho de comida. “Vou ter que lhe cobrar por esta versão”, diz Ryan ao empregado.

Em Villa Ventura está quase a bater as quatro horas da tarde. Tal como em lares e casas de repouso um pouco por todo o lado, é a altura do dia em que as actividades tendem a terminar e começa a agitação. Parte da confusão e ansiedade está relacionada com a mudança de turno dos funcionários. Outra parte está relacionada com a escuridão que se instala no exterior. Está na hora de ligar os iPod.

Marlene gosta dos Beatles. Fazem-na lembrar de quando os seus filhos eram pequenos. “Andamos a perseguir aquele momento de felicidade – quer seja de cinco minutos ou de cinco segundos”, diz Sarah Miller enquanto a observa.

Normalmente, os residentes querem ouvir Sinatra, orquestras de Glenn Miller, Benny Goodman e êxitos pop. Mas isso irá mudar com o passar do tempo.

Qualquer dia, esses pedidos deverão começar a incluir, também, os Rolling Stones e Michael Jackson.

Exclusivo PÚBLICO/ The Kansas
City Star

terça-feira, 6 de julho de 2010

De volta...

Foto daqui
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O trabalho levou-me de volta à cidade, à grande cidade. Por 5 dias estive de novo refém dela.

Eu também sou dos que acham que Lisboa é uma cidade magnífica, uma capital da qual todos nós portugueses nos deveríamos orgulhar. É castiça e autêntica, vaidosa na sua luz tão própria, secular e cheia de história(s), mas também sabe ser moderna e europeia quando quer. Lisboa não se deixa ficar mal. Eu adoro Lisboa mas é quando lá vou sabendo que me venho embora.

Já a deixei há muitos anos, quase 15, mas do muito que mudou, há coisas que permanecem precisamente iguais.

Entro no comboio e olho em volta. A carruagem vai cheia. Uns dormitam, outros fitam o betão pela janela com olhos baços e distantes. Nunca olham uns para os outros. Fazem como se quem viaja ao seu lado não existisse. Desviam o olhar quando algum se cruza com o seu. Levam headphones nos ouvidos por onde parecem receber as ordens que cumprem em movimentos mecânicos. São incapazes de um gesto que revele emoção. Estando lado a lado, conseguem estar a quilómetros de distância. Não falam da bola, do tempo, da família, do que lhes vai na alma. Apenas estão.

Às 8h e 30m da manhã de um dia de semana, a baixa está estranhamente deserta, como se fosse um domingo de há meia dúzia de anos atrás. Parece o cenário de um filme futurista. Estando com tempo, tomo o pequeno-almoço numa esplanada dos restauradores, sem filas nem pressas. Subo a avenida a pé e cruzo-me com dezenas de sem-abrigo que dormitam em frente às montras das lojas de griffe. Uns arrumam os parcos pertences em sacos de plástico, outros esperguiçam-se e caminham até ao jardim como se fossem ver as flores do quintal da casa que não têm, outro ainda esfumaça um cigarro de perna trocada, com a descontracção de quem está na suite presidencial de um Hilton. Um de mais idade pede-me uns trocos para comer e eu lembrei-me num flash de uma das primeiras vezes que visitei Lisboa com os meus pais e da aflição que me causou ver pessoas a pedir na Rua do Carmo por entre a multidão imperturbável. Era duro demais para uma criança de província. Corri para alguns e só parei quando me explicaram que não poderia ajudar todos. Devia ter uns seis anos. Nunca mais me esqueci. Desta vez também não pude ajudar todos, mas este à minha frente sim. Abriu a boca desdentada a custo e pensei que me iria agradecer. Antes perguntou: “que dia da semana é hoje?”.

Se eu vivesse numa cidade haveria de ir sempre ao mesmo café de esquina para que as pessoas me conhecessem e se metessem comigo sempre que o meu clube perdesse.

Se eu vivesse numa cidade, haveria de me sentar sempre no mesmo lugar dos transportes públicos para ver se conseguia meter conversa com o vizinho do lado.

Se eu vivesse numa cidade haveria de desmontá-la e fazê-la pequena para que se parecesse mais com a minha aldeia.

Acho que eles têm razão. Rato do campo não vive em cidade e se for assim, eu tenho orgulho em ser campónio.

As pessoas que vivem numa cidade e querem ser gente de carne e osso têm de ter muita coragem. Têm de ter alma de resistentes. Têm de ser uns heróis.