quarta-feira, 9 de novembro de 2016

É o fim do mundo (como o conhecemos...)





But I don’t feel fine…

In fact, I feel terrible about it


Foi a minha filha Leonor, que nasceu no ano em que pensei que o mundo nunca mais seria o mesmo (quando a Al Qaeda atacou o coração da América, atingindo e derrubando o sonho americano, personificado em duas torres que quase tocavam o céu), que me deu a notícia quando se levantou para ir para o autocarro, e eu fui verter águas, ainda de madrugada:

- Pai, o Trump vai à frente! Pode ser o próximo presidente americano!

- ?!?!?!?!?!?∂∆∏∑?!?!?!?!?!?∂∆∏∑ ?!?!?!?!?!?

Resmunguei e voltei para o ninho. Pensei que ainda era cedo demais…. A gaiata podia estar a bater mal…. Podia estar a sonhar… e… ainda consegui dormir. Virei-me para o outro lado e… deixei-me cair nos braços de Morfeus. 


Até que o despertador acordou na minha rádio de sempre, e ouvi que afinal o pesadelo era… de verdade.

COMO É QUE É POSSÍVEL?!?!?!?, pensei. Afinal, os americanos são mesmo estúpidos. São mesmo estilo o Bush filho! Uns cowboys alcoólicos que não fazem a mais pequena ideia como o mundo é composto, do tipo quantos são os continentes, os oceanos, onde fica a Rússia, a China, e o que é África. Tirem-lhe o basket, o futebol americano, o baseball e a televisão… e tiram-lhe tudo.


Estes hillbillies de botifarras e esporas enganaram-se, enganaram-me, quando escolheram “a skinny man with a funny name” (um magricela com um nome engraçado. Hussein, ainda por cima. Tão familiar para os americanos…), como ele se auto caraterizou com tanta piada, preto ainda por cima. Mas isto foi porque os pretos lá também são muitos e até esses se querem agora virar para dentro, levantar cercas, renegar a sua condição de imigrantes e descendentes de escravos.



Depois Hillary carregou dois “fardos muito pesados”: o ser a mulher de um homem que manchou a sua anterior performance no cargo com muita mentira, até pessoal; e ser… mulher! que por incrível que pareça (e atenção que esta análise só pode ser feita, e tem o grande benefício de ser feita já no rescaldo) pesou contra. São as próprias americanas, que já devem ser muitas, como por cá, que acham que não têm condições para tanta responsabilidade. Pelos vistos preferem to do the laundry, and the cook, and take care of the kids.

O mundo nunca mais será o mesmo. Na verdade, o nosso planeta é muito grande, mas também é um grãozinho de areia no universo e é impossível que alguém consiga ficar descansado e consciente com este homem à frente dos destinos daquela que é, quer queiramos ou não, a nação mais poderosa do nosso mundo. Se pensarmos no tremendo potencial bélico dos Estados Unidos, na sua influência no nosso globo e no que se conhece da natureza deste homem que o representa ao mais alto nível…


Lembro-me de ouvir falar dele desde sempre. Que era um multimilionário, que tudo perdeu, conseguiu reerguer o império que criou e agora surge-me assim como uma assombração do passado que me vem assombrar a paz mundial. Tremendamente chauvinista, mulherengo, baixo nível, falso, quer levantar muros e construir barreiras, pensando que assim, consegue comprar a paz e gerar emprego.



Mas quem é, na verdade, o menino, este?


Mas com muitas fintas...



Ai isto está a ficar engraçado, está. De um lado, o maluco com carinha, e corte de cabelo! de anormal,


Mais a cima, o tonto com ar de psicopata, que costuma andar a disparar em tronco nú, a cavalo,


Ao meio, os malucos do Estado Islâmico que arrasam tudo e derrubam séculos de história com a mesma facilidade com que eu derrubo… uma mousse de chocolate às quintas feiras no Castelo, em Marvão. Sem pestanejar.


Mais abaixo, em África, na Guiné Equatorial, os nossos amigos da Comunidade de Países da Língua Portuguesa que não fazem ideia quem é Camões… nem os direitos humanos!




Agora esta do Trump...



Parece que muita gente famosa está a pedir para emigrar dos States para o Canadá. Não querem viver num país presidido por este… sujeito.

 Roberto: já ias experimentando a vender hot dogs, ias... 


Eu a ir, era … para Marte! Mas deve gastar-se imenso dinheiro em gasolina, deve estar lá um frio do catano e… as minhas mulheres e o cão não devem querer ir comigo…

E eu, sozinho não vou!


Depois disto, percebam todos, de uma vez por todas, que a DEMOCRACIA é o menos mau dos sistemas políticos. Mas que está muito longe de ser o mais perfeito! Cada cidadão valer 1 voto, apenas 1 voto… E 1 voto que é igual para o esclarecido, amante da terra, com provas dadas por onde quer que tem passado, íntegro, justo, reconhecido… ao de um borra botas vendido que lambe cús, que só diz que sim a tudo, maioritariamente come petiscos, paga tintos, bebe tintos, e anda lá só pelo guito que ganha… PELÛ AMORRRRRR DJI DEUSSSSSSSSSSSSSSSSS…

E que nunca mais se estranhem os resultados das eleições em Marvão!!! Nunca por nunca! É o povo quem mais ordenha e tantas vezes… ordenha tão mal… sem saber ler nem escrever, com os olhos cheios de ramelas dos trabalhos mal paridos, dos beijinhos nos funerais, de festinhas no dia dos velhinhos… sorrisos e festinhas na costas… comprometendo tudo tão bom que poderia ser, claudicando as gerações futuras…

Este realmente não é tão bom, não é tão esperto e bem falante (sério???) como o outro… mas é tããããão bom.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Aos que já partiram (na minha frente)



O tropeção que dei na vida, sem estar nada à espera, e sem nunca ter sabido de onde e como é que realmente aconteceu, fez de mim um homem diferente. Este Pedro não é, definitivamente, o Pedro que era dantes. Tem muitas caraterísticas da sua personalidade que se mantêm intocáveis, porque são imutáveis e intrínsecas ao mais profundo do seu ser, mas este Pedro ganhou uma consciência diferente, uma maturidade e uma amplitude que não o conseguiriam fazer voltar para trás, para o que era até então, antes.

Depois deste intervalo brusco de mês e meio (em coma) no filme da sua vida, que chegou a meter em risco o visionamento do resto da fita, muitas coisas ganharam outra clareza, outros contornos, redefiniram-se estratégias e prioridades.

Depois da perda brusca e inesperada, em 2014, da tia paterna, que era, pela sua memória clara e espírito arguto, a matriarca da família, o repositório de todas as memórias que relatava e vivia com clarividência; o Pedro viu-se obrigado, aos 43 anos, a ser o fiel depositário da família Sobreiro. Filho do único filho varão que chegou a adulto de uma família só de mulheres, filho daquele que deixou tragicamente o mundo com apenas mais 6 anos que ele; aos 49, ele é hoje o ramo mais alto de uma família que não tem pais, avós, homens mais velhos a quem seguir. O Pedro é o Sobreiro mais alto deste montado, plantado no sopé da serra de Marvão.



O ter estado tão perto do fim, fez-me ganhar consciência de quão perto ele está e como é tudo tão efémero. Se pudéssemos parar a vida e levitar, se olhássemos para baixo e víssemos tudo o que passa na nossa vida e na dos outros, perceberíamos que muito do nosso tempo, no fundo, o que temos de mais precioso, é gasto em zangas, guerrilhas, quezílias, arrufos, desamores e chatices que não beneficiam ninguém. Ninguém ganha nada com o mal dos outros. Mesmo com aqueles que são nossos concorrentes… valores mais altos se levantam, sempre. Nem só de pão vive o homem. (e aqui pão pode ser traduzido como qualquer bem material, que aqui fica quando nós partirmos).

Vivi este dia de defuntos, dia 1 de Novembro, com uma emoção que nunca tinha experimentado antes do acidente me ter acontecido, nem nos anos depois, quando ainda estava a enturmar a minha consciência. Tendo tomado conta desta minha condição de mais alto dos Sobreiros, da falta que me fazem as ramadas que estavam acima de mim, percebi que teria de ser eu a honrar os que tinham aqui estado antes de mim.

No cemitério da Beirão estão todos os restos mortais dos que decidiram fazer vida nesta aldeia nascida do caminho-de-ferro, onde trabalhavam nos serviços associados, no transporte da ferrovia ou nos empregos dali nascidos. O meu avô, que nunca conheci (o chefe da estação que se reformou inspetor); a minha avó(zinha), que me coçava a cabeça em tardes sem fim e fazia gemadas do outro mundo, com ovos acabadinhos de sair do cú das galinhas que tinha no quintal e muito açúcar em cima; o meu Tio Gomes (padrinho do meu irmão, que trabalhava na PIDE DGS, mas segundo sei e ainda me dizem, apenas vigiava a fronteira e não fazia mal), a minha tia Maria de que já falei, e o meu pai, de quem passados 22 anos, ainda me custa falar, tal foi a influência que teve em mim.
Nesse cemitério, do qual a minha mãe costuma tomar conta das duas campas, ela já tinha orientado e falado com alguém que fizesse o tão difícil trabalho de as lavar, que para a sua situação física, se tornava quase impossível de realizar sem dor.

Na Beirã fiz questão que ficasse também gravado na pedra, o nome da última a desaparecer, a minha tia, para memória futura. Já passou mais de um ano e merece. Pelo tanto que nos deu.

O nosso sítio... (é) na Beirã


Descansado daqui, ficava apenas por manter viva a memória do meu tio paterno, que faleceu com apenas 14 anos, enquanto subia uma escadaria na Beirã, junto ao caminho-de-ferro, ao lado da loja do Sr. João Viegas e do Sr. Andrade. Segundo me contaram, a minha avó já teria perdido uma filha ainda bebé, mas esta morte do filho primogénito, de coração, assombrou não toda a família que o conheceu e acompanhou, como todos os outros que a ele se seguiram, nos quais obviamente me incluo. Na verdade, a minha tia Mirene, da Covilhã, faleceu desse problema depois de ter sido intervencionada a ele mais que uma vez; o meu pai também se ficou por ele não lhe ter valido e essa é certamente uma das falhas prováveis desta série de árvores, enquanto as outras tendem para outras maleitas. Há que encarar o que é indesmentível e fazer tudo para lhe conseguir fazer frente.

Manuel Bengala Lopes Sobreiro
N. 06.07.1923
F. 24.03.1937
Com apenas 14 anos

A sepultura do meu tio tinha sido oferecida pelo tio Bengala, como ficou expresso na lápide. Naquele então, os comboios ainda não tinham chegado, a freguesia ainda não existia e aquele cemitério foi o pouso mais certo.

Sempre me lembro dela assim, com um ar de abandono. Às minha tias tinha-lhe faltado força e discernimento para a poderem manter em condições e foi ficando.

Depois de sair do serviço, pensando nos ensinamentos que tenho tido com a minha Fernanda Cristina, fui ao Tapas e comprei 3 garrafões de lixivia que essa substância fantástica, limpa tudo e tudo luz após a abraçar. Menos a roupa, claro está. Por isso, passei por casa, vesti roupa velha e quando já caia a noite despejei os garrafões sobre a pedra, a lápide e deixei atuar. Não ficou perfeita mas ficou melhor e da próxima vez que a visitar, a ajeitarei melhor. Uma florzinha bastou. Sóbria, simples e de plástico, porque conserva melhor.

O antes...

E muita lixívia depois...
A paz e o silêncio do cemitério ao entardecer

Tenho outros Sobreiros, de sangue, cujos restos mortais estão sepultados na Covilhã, mãe e filho, mas estão… longe demais. Senão longe do coração, porque de certo que não estão, estão longe demais para que possamos equacionar uma ida ao cemitério, lá. E é incrível como o afastamento geográfico marca tanto a relação entre as pessoas. Bem diz o povo que longe da vista, terá de estar longe do coração. São gente nossa, nós viemos deles, somos feitos da mesma massa, mas se não há convívio, conversas, contacto próximo, se tudo se resume a um contato telefónico fortuito, duas ou três visitas nos anos, quando as há, não é a mesma coisa como se morássemos aqui, lado a lado. Lutamos por nos mantermos próximos deles mas… muitas vezes… é inglória.

Para além de Sobreiro, sou também Ereio, da Beira Baixa, tenho lá os meus, e o que resta dos que já foram, mas o estarem longe… sempre o estarem longe…

É por isso que me esforço tanto para que eu e o meu irmão nunca percamos, e os miúdos nunca deixem de sentir esta ligação tão umbilical que tínhamos.

A distância… acaba por definir tudo. É importante que quem pense nisto, pense sempre muito a sério nesta questão. Porque acaba por definir tudo.

Ainda hoje atendi um senhor que me disse ao balcão, com algum, muito lamento, que tinha pouca cabeça para este assuntos sérios como os que o tinham levado ao meu serviço. O filho tinha começado um negócio aqui mas… teve uma oferta melhor para a cidade grande e saiu… a filha está no estrangeiro, vem (brilhando os olhos) no Natal mas… vai ter que ir logo (fechou-se o sorriso), a esposa está a passar menos bem, muito menos bem e é ele que tem de assegurar…

Dei-lhe a mão e disse: “ânimo, força!”

Vi que estranhou e... percebeu.


Mas sei o difícil que deve de ser. As pessoas, os nossos, têm de estar sempre primeiro.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Simplesmente Alice (sempre no melhor do seu mundo)


A minha Alice é uma criança especial. Acredito que todos os pais dirão o mesmo dos seus, e isso é mais do que legítimo. Quando digo que a sinto diferente, não é que a queira comparar com nenhuma outra, ou valorizá-la mais do que aquilo que ela vale. Só digo que é um orgulho enorme poder ser seu pai, acompanhar o seu crescimento embora… ela não goste muito que seja ajudada, tratada como a… pequena.

É bem diferente da minha Leonor mas… os tempos são outros, os gadgets que tem à mão para puxar pelas suas habilidades são mais avançados, os aparelhos que tem a jeito para explorar as suas potencialidades são bem diferentes e… tem uma irmã mais velha para seguir, admirar, imitar em comportamentos (por vezes, tantas vezes, maus! Adorava tudo o que a outra abominava, incluindo discos de sopa de tomate e agora já não come lá assim muito bem os verdes). Também… os pais que conheceu quando aterrou na terra já estavam nos trinta e muitos… e agora já têm longos, largos e mais que ultrapassados quarentas. Outros tempos…

Vê-la, comigo sempre em silêncio, a observá-la pelo canto do olho, a descarregar no tablet (que a irmã nunca sonhou que pudesse existir quando tinha a sua idade; e se a mim me tivessem dito que seria de verdade, no meu tempo, quando terminei o curso de jornalista há 21 anos atrás… rir-me-ia, incrédulo), e vê-la fazer um puzzle com centenas de peças, na íntegra, com a pontinha dos dedos, enquanto o tal dito cujo esfrega um olho é… todo um feito. De glória.

Privo pouco com ela. Não é que não tente e tento sempre tanto mas, há ali uma personalidade madura demais para a idade (acho eu que com aqueles 6 anos… estava a muitos anos-luz atrás), e tem um espírito inconformado, perguntador, sempre desalinhado, rebelde e… sim. Aqui acho que aí, tem a quem sair.

Na catequese, consigo chegar a ela. Sou o professor que lhe ensina Cristo. Na primeira sessão que tivemos, falámos em encontrar nessa comunidade que acredita e segue Jesus, nas pessoas que vão à igreja com regularidade, uma outra e nova família.

Na segunda aula, já mais enturmados uns com os outros, falámos no valor de um amigo, no importância desse irmão que não é de sangue, mas que nós escolhemos!, pode ter em nós, e nós nele. Aproveitei, claro está, para levar a brasa à minha sardinha.

Esclareci logo que Deus nos ama, acima de tudo, e sempre, sempre nos perdoa (como o nosso papa Francisco, homem bom, não se cansa de dizer. Nós é que nos esquecemos de lhe pedir perdão). Não existe tal coisa como o Deus castigador, o Deus que é mau para quem é menos bom, mas é um Deus que fica triste quando nos portamos mal. Porque nenhum amigo e nenhum pai gosta quando um filho não é obediente. Meti os outros dois colegas pequeninos, dissimuladamente, a jogarem do meu lado, como juízes. Isto mais porque o caso da minha é aquele que verdadeiramente conheço.

Amigos, vejamos, disse-lhes eu: os pais da Alice trabalham para lhe comprar comidinha, roupa, para ela ter livros, esferográficas, lápis de cor e cadernos. Dão-lhe um teto para dormir, mantinhas para ela estar quentinha e roupa linda para vestir (muita que já foi herdada da mana e da prima Maria mas isso não interessava ali para nada). Mas ela por vezes faz birra, chora e grita muito porque:
não quer acordar,
não quer dar e que lhe queiram dar beijinhos,
 não quer tomar banho,
 não quer vestir a roupinha que a mãe lhe escolheu,
não quer comer nada ao pequeno almoço,
não quer que o pai lhe tire as fotografias que ele tanto gosta, e ela vai gostar quando for mais velha, como a mana gosta das dela.

Isto para falar só nas (guerras) matinais. Mas à noite, e durante o dia, vai havendo mais. Ó se vai…

Como enxotar-me da casa dos avós João Manuel e Jacinta porque os quer só para ela, e não me quer lá a mim. Acham que ela a proceder assim está a ser nossa amiga?, pergunto-lhes Acham que ela está a fazer com que mereça prendinhas no Natal e coisinhas boas? Acham que Jesus fica feliz?

Claro que não! É o que eu sempre lhe ensino a ela. É muito difícil sermos como Jesus, que dava sempre a outra face da cara quando lhe batiam numa. Nós, gente de carne e osso, temos muita dificuldade em sermos bons para quem não é bom para nós.

Temos de ser amigos dos nossos amigos. Conseguem? Pode ser? Vamos tentar?

Então para a semana, quando tivermos a nossa lição e fizermos a análise conjunta inicial de como foram estes últimos 7 dias, vamos começar por falar um bocadinho nisto, está bem? A ver quem é que conseguiu ser amigos dos amigos e não se portar mal. A ver se conseguimos pelo menos uma melhoria para apresentarmos aqui. Vamos a ver quantas birras consegue a Alice evitar.

Nessa segunda sessão, falamos também na figura de Deus, que não é um velhinho de longas barbas como muita gente o viu, mas que para mim é uma força, uma luz que manda em tudo e tudo governa. Na falta de uma figura associada, o mais próximo que temos dele foi o seu filho, nosso irmão, Jesus Cristo. Expliquei-lhes que, tendo nascido no Médio Oriente, na Galileia, seria um homem parecido com os que nascem por aquelas terras. Não teria muito a ver fisicamente com os nórdicos, altos e louros, mas que deveria ser baixo, com uma pele escura, com barba e cabelos grandes como era a moda naquele tempo.

Como o sobrenatural Miguel Ângelo pintou na capela sistina, a mão de quem tudo criou, (como ele o imaginou) no momento em que dá vida a Adão

Mostrei imagens e chegada a casa, dona Alice sentou-se na escrevaninha, para fazer o seu retrato de Jesus. Não porque lho tivesse pedido. Foi porque quis.

Adoro tudo. Mas sobretudo, o pormenor da barba e... a pequena indecisão... no nome

Mas fez mais. Aproveitou para no seu português, nas letras que aprende na escola e sobretudo (que na escola ainda não deve ter aprendido tanta letra) nas suas leituras que faz com a mãe, na cama, à noite, da tanta vontade que tem de aprender a decifrar este mundo dos grandes; fazer este escrito à mana.


VAI PÓ MUCOATO
GOTÁVACTOFOSS
PÓ MUCATO

Tradução: Vai para o meu quarto
Gostava que tu fosses

Para o meu quarto

Com a melhor amiga Laura, num dia tão feliz que passaram juntas



sábado, 29 de outubro de 2016

Sport Lisboa e Benfica: Afirmação e superação


Post dedicado ao nosso grande presidente Luís Filipe Vieira, com votos (95,52%) de que consiga fazer todo o bem que sonha para o nosso clube, neste seu 5º mandato.
Post também redigido sem nenhuma clemência pela arrogância e altivez dos outros, que nem merecem que se diga o nome, pelos os que lá  têm a comandar

Escrito depois de um 3 a 0, em casa, ao Paços de Ferreira e dos coisinhos terem ido empatar à Madeira

Categórico! Como eu gosto. Como eu peço. Como eu quero. Limpinho, limpinho, como o outro parvalhão dizia. Tou cheio de inveja dele se ter ido embora. Eu, refundido, me confesso. Ohhhhh porquêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêê???????????

Uma exibição sem mácula.

Um 1º golo cheio de raiva, de afirmação, de querer, de benfiquismo, do miúdo Orelhas.



2º golo que é um hino ao futebol e neste, ao de ataque. A prova mais que evidente que o meu Barba de Chibo favorito é um avançado implacável, que deixa esse bazarouco do pontapé biqueirada Cardosão, a dimensões de luz de distância. Adoro! Era capaz de o ter a noite inteira sentado no meu colo, a cofiar-lhe a barbucha, o meu santo. Um túnel que vale um golo e mestre Sálvio… renascido! Finalmente.


Para finalizar, um rendilhado de Pizzi, a morrer como obra de arte nas malhas adversárias.

Esconde a língua, que é feio, e bate continência à malta!
Cereja em cima do bolo na televisão do Tio Inácio, já em casa, e tanto que estranho esta boa graça, que até tenho medo que seja demais… os outros coisinhos a virem da ilha… a nado! Perdendo lá dois preciosos pontos no mar alto.

Ai ca bom.

A carinha, o cabelo, o desânimo e a desorientação do que se diz “maestro”.

As trombas do pistoleiro que se pensa mais que tudo, que cai no tão grande ridículo de não deixar estacionar o Ferrari de um seu jogador, (que por desgraça até são vermelhos!) no sítio… dos jogadores!
  
O tareco do malvado cheio de urticária e bichos carpinteiros a rabear por ali abaixo.

- Jóta, esconde o que dizes que o cabrão está a ver tudo!

- Prési! Este Sabi devia ter levado caminho! O cabrão escapou-se ao acidente de mota que lhe provocámos... prontos! Portantes... só à bomba! Lá na terra, há forças contrárias que também o querem limpare! Tereremos de nos juntare ao maçude!

Ver as claques, as claques, os deles, a enxovalharem… “joguem à bola!!!!!” Opá, não chateiem o homem que ele parcebe é de lenguas! Olhem aqui ele a dizere "OCHENCHAEOCHO" de uma assentada só sem respirar.



Do nosso lado, graças a Deus, classe, qualidade, nível. Muito nível.


Os cães ladram…

Benfica sempre! (altivo!)



Assim tá bom

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Caly (e/ou como o tempo passa por nós)

O antes (e a assinatura)

O hoje (e a assinatura)

Quando entro naquela sala, elas estão sempre nos mesmos sítios, na mesma posição.


Sei que ali, comprovo de cada vez que lá vou, há muita higiene, respeito, amor.
Ali estão bem.
Bem agasalhadas, com uma temperatura ambiente controlada e mais que devidamente climatizada, estão como os ovos numa incubadora. Só que em vez desses, que estão à espera de eclodir para a vida, aqui aguarda-se o movimento inverso, de saída.


Eu sei que têm o dia-a-dia ocupado com atividades triviais, comuns aos demais mortais, que as preenchem. Sei que têm animações culturais diversas, para ocuparem os tempos livres com técnicos especializados, mas sei que muitas; como a minha tia Cremilde (que será sempre a Cali, ou Caly; como ela escrevia, para dar um toque inglês e mais moderno ao anexim), isso passa-lhe ao lado. O Alzheimer foi o vírus malévolo que lhe assaltou o processador do computador central e nada nunca mais nada será como dantes. Aquela Dona Cremilde, aquela menina Cremilde que nunca conheceu um marido, esmerada, dedicada, sempre prestável, sempre simpática, sempre apaixonada por crianças, é hoje um escombro que vive no habitáculo corporal que nos habituámos a amar. Está lá o Cadillac dos nossos sonhos… mas sem motor.  



Por mais estranho, estrangeiro e difícil de dizer que seja o nome, a tradução é bem nossa e percetível, por muito que nos doa: aquilo é demência.


E naquela sala em que ela nunca está sozinha, também neste sofrimento não está só, que não há médicos que valham perante as leis da vida.


São 7 ou 8 colegas que estão num autêntico hotel (Santa Casa da Misericórdia de Marvão), e olham sempre para o eterno programa da tarde que lhes faz companhia. Cumprimento cada uma delas com um aperto de mão, um toque pessoal, um aconchego. Sorrio e olho-as nos olhos. Por vezes não me escapo ao beijo e ao abraço apertado, a quem se agarra a mim como se fosse um guindaste capaz de as tirar dali para fora, lhes pudesse devolver a força anímica e a vida que deixaram para trás com os anos, sem quererem. Cada uma tem a sua história de vida, a sua maleita, a sua consciência mais ou menos clarividente, o seu estado físico mais ou menos debilitado. Conheço-as pela posição que ocupam. Como as crianças na escola e o eterno retrocesso à meninice.


As que ladeiam a minha tia são as mais conscientes e por isso mesmo, as que mais sofrem com   a falta de condição física. Querem mas… não são já capazes. Pergunto-lhes, “e a minha menina? Como é que tem passado?”
E elas contam.
-Ui, ui… tem passado bem mas é muito teimosinha.
- (Isso eu sabia)
- Quando a querem levantar e ela não quer… parece que pesa chumbo e ninguém a consegue mover daqui.
- E de resto?
- Dorme bem, come bem, não chateia ninguém. É um doce.
- (Sempre foi.)



Lá a da ponta é muito engraçada. É uma autêntica grafonola sempre com um tema antigo que trauteia sem parar, noite e dia. Modas dos bailes de Santo António, da Ranginha, dos Barretos ou da Beirã, que deve ter visto nascer enquanto freguesia, com o comboio.
- Minha querida? Então qual é a moda de hoje, meu amor?
Ela ri-se muito e diz “vou bem, vou bem”. Rindo-se reforça, olhando para mim, quando me vê dançar à rancheiro perante as suas músicas, fazendo de palhaço (que eu adoro quando é de vontade. Detesto é que me façam quando não quero. Ai temos porras.) “ai que engraçado… ai que engraçado…”, que se transforma num “ai tão linda, ainda tão linda, ai tão querida”, quando faz festinhas na minha Alice.


Ao lado, em frente, está uma senhora de um extrato social que parece ser diferente, mais 
alto, com outros tiques, conversas e trejeitos. Deveria de estar numa casa com outros hábitos, porque lhe dá sempre muita lida quem é que vai fazer o comer para tanta gente (as colegas que ali estão.)


Há uma senhora que me trata muito bem e diz sempre que se lembra de mim quando eu era pequenino, na Beirã, e que eu ia muita vez para a sua casa. Não me recordo de nada, nem nunca vi ninguém da sua família que me pudesse fazer a “ponte” com esse passado; mas sorrio sempre e digo-lhe que sim.


Muitas de negro, de desgosto por terem perdido os seus maridos, que eram quem bebia e fumava lá em casa, na maior parte dos casos; nunca elas, gostam sempre de me ver, do meu trato. E eu fico feliz. Saio sempre a sentir-me rico.


Uma outra, já com a visão algo “apanhada” pela idade, está sempre com um olhito cerrado e é de poucas conversas. De vez em quando ralham entre si, ou porque uma se esticou nos comentários, ou porque a cantora se cansou do disco e ralhou com uma qualquer que lhe quis meter travão à matinée. Tão engraçadas de se ver. Aquilo é como uma turma de cachopinhas da escola primária, ou de mulheres presidiárias, porque têm entre si a sua hierarquia e cada uma goza de um status muito seu. Não a minha, coitadinha, que se ri para todas e fala para dentro uma língua imperceptível, que é oficial lá no mundo onde ela vive.


Tem dias que vou lá e venho escuro como a noite. De olhos baços, tristes, sem vida, olha para nós como nós para o abismo. Sem conseguir ver o que seja. Anteontem, escondi-me na porta e surgi de rompante, em frente à televisão, para onde olhava com atenção. Num momento de rara lucidez, riu-se para mim e disse: “ Olhó! Então?”
- Então… fui trabalhar! Saí agora. E tu? Está boa? Tudo em cima? Tudo legau?
Ela riu-se e disse que sim. Riu-se mesmo. Riu-se com aquele ar: “agora aparece-me aqui este gajo”. E foi bom. Estivemos de mão dada e fomos passear.


À primeira tentativa fez-se mula e fez força para baixo.
- Então?!?! Não queres vir comigo passear? Anda, senão qualquer dia, as pernocas não querem nada contigo. Anda daí…


As amigas ajudaram. “Vá, vá com o seu… é filho? (algumas ainda procuram)
- Não! É sobrinho, respondem outras. Mas é como se fosse filho. É muito amigo dela.


“Pois sou. Nessa altura não havia infantários. Os meus pais tinham de trabalhar e deixavam-me com ela, a minha avózinha (sua mãe), e a minha tia (que então ficou viúva).


Depois, por vezes, ao final do dia, com a noite, com o frio, dava-lhes pena levarem-me para a rua, e deixavam-me lá ficar a dormir com ela. Tão bem que eu me lembro disso…
Fui o filho que ela nunca teve (porque sempre foi solteira).
Habituou-se a ver-me enquanto tal e eu a ela, como mãe.

Por isso somos tão próximos. Não consegue dizer o meu nome mas, nem precisa. Eu sei que ela sabe quem eu sou. E isso chega-me.”


Como poder beijá-la tanto. Na testa. Quente. Com vida.

Junto do seu altar, da rainha Santa Isabel, na igreja de Nossa Senhora do Carmo, na Beirã,
que arranjavam com tanto esmero