Texto dedicado aos meus queridos António Parra e Isabel Barradas Ludovino, meus paladinos na luta do Bem.
O nosso povo português,
inquestionavelmente um dos mais bravos que já pisou este planeta, que já ousou
até dividir ao mundo com os espanhóis em Tordesilhas, numa era em que rasgava
mares sem fim para descobrir continentes... é por vezes também um dos mais
mansos, dos que se deixa levar, que adormece e não reage, que ainda hoje não
consegue explicar como se deixou hipnotizar e amordaçar numa ditadura de 48
anos (28/05/1926 - 25/04/1974, que nos cortou as pernas no século XX)
A crítica que fiz no facebook ao
comportamento vil e ultrajante dos deputados do Chega à vice-presidente da
Assembleia da República, Teresa Morais, há dias, gerou, como de resto era por
mim até já esperado, a manifestação de diversos amigos que não compreenderam
como o Diogo Saldanha, o Carlitos Amador, ou o Marco Barreto que se mostraram
solidários e apoiantes destas... criaturas
Não é que tenha a pretensão de
evangelizar as massas, até porque de pastor não tenho nada, mas palavra que dá
vontade de lhes responder, como irei fazer agora, apenas enumerando fatos
históricos, embora seja da opinião que o lugar certo para a emitir, não deve
ser num comentário de comentário, que se perca na voragem da espuma dos dias do
facebook, e por isso responderei no meu blogue, que tem perdido em favor do
imediatismo desta rede, mas onde gosto de continuar a "colar" os episódios
da minha vida cibernauta.
Pela importância do tema, e pela
relevância para as nossas vidas, peço que os “Cheguistas” mencionados façam o
favor de ler o que escrevi de seguida, e não me venham depois com a reação,
como têm tanta vez, "ehhhh paaaahhh... aquilo é tão comprido... 😱
que não tive paciência”... porque para se saber, tem de se ler!
Basicamente, muitos de vós,
apologistas do Ventura, o charmoso, o bem falante, o galã do Tik Tok; vêem no
Chega o fim de um sistema bipartidário (os governos há muito que são ou do PS,
ou do PSD... e as diferenças entre o dois são praticamente nulas, quando eram
muito mais óbvias quando era garoto), dizia eu que o sistema já está obsoleto,
marcado pela corrupção, lhe falta capacidade de resposta imediata aos problemas
do dia a dia, resposta para recuperar o poder de compra face à tenebrosa
inflação, mais habitação, mais emprego e... têm de haver culpados!!!
Como toda e em qualquer ditadura
ou tirania, os culpados são sempre os mais fracos! O bode expiatório são os
imigrantes, os que chegaram vindos de fora, ou que garantem que não falte mão
de obra nas estufas do Baixo Alentejo, nas entregas porta a porta, ou na
construção civil, mas que apesar de respeitadores e explorados, maltratados em
esquadras de rua por agentes mal formados, e anichados como ratos em garagens e
barracões que pagam a peso de ouro, são alvo de uma campanha discriminatório que
quer que passem por párias (excluídos sociais) quando na realidade são os
contribuintes líquidos muito importantes para a Segurança Social em Portugal,
pois pagam muito mais do que recebem em prestações.
As contribuições dos
imigrantes ultrapassaram os 4 mil milhões de euros, gerando mais de 3 mil
milhões de euros de “lucro” para a Segurança Social.
Representam pois uma fatia
crescente dos contribuintes (em alguns anos cerca de 9–20% da população ativa),
ajudando a compensar o envelhecimento e a quebra de trabalhadores portugueses.
Pois bem, essa é uma das grandes
falácias (erro de raciocínio que faz um argumento parecer correto ou
convincente, mas que na verdade é inválido ou não sustenta a conclusão) do
Chega, como aquela tormenta sempre constante de chamarem o abominável (adjetivo
em português que significa algo ou alguém que merece ser abominado, isto é,
detestável, execrável, horrível ou que causa forte repulsa e aversão) Salazar,
ditador que nos cerceou (cortou pela raiz ou pela base, limitou em sentido
figurado), que pedem em duplicado, (ainda por cima!!!), enquanto desfilam de
camisa branca, exibindo saudosas saudações nazis de braços esticados pela
avenida da liberdade abaixo.
Saberão eles, e vocês, jovens
meninos, meus doces petizes, que em relação a assuntos tão fundamentais, qual
era o estado da situação nesse então, que agora querem de volta?
Sendo a liberdade o valor que
mais defendo na vida, o poder decidir pela minha própria vontade e só essa,
para onde quero ir, por onde quero caminhar, com quem quis casar, o que ler,
ver, ouvir, ler e escrever, quem quero ter como Amigos, onde quero trabalhar,
onde, com quem e quando vou comer ou estar, isso seria impossível então porque
existia a CENSURA, um dos pilares fundamentais do Estado Novo
para garantir a sobrevivência do regime, que não se tratava apenas de uma
questão de "apagar frases", mas sim um sistema burocrático complexo e
omnipresente.
Existia o "Exame
Prévio", a principal característica da censura portuguesa, ao contrário de
outros regimes onde se punia depois de publicar. Em Portugal nada podia sair a
público sem autorização. Por isso, todas as provas tipográficas, jornais e
outras publicações tinham de ser enviadas para a Direção-Geral de Informação,
também conhecida como o "Lápis Azul", onde os censores riscavam
textos, frases ou até anúncios publicitários que considerassem perigosos.
O termo ficou famoso porque os
censores usavam literalmente lápis de cor azul para riscar os textos, um
símbolo de autoridade silenciosa que condicionou a mentalidade portuguesa
durante quase meio século.
Temas como a política (críticas
ao Governo, notícias sobre greves, movimentos operários, oposição política ou
problemas nas colónias); a moral (o divórcio, o aborto, referências sexuais
explícitas ou comportamentos que desafiassem a "família tradicional")
e a religião ou ordem pública (crimes violentos ou suicídios eram
frequentemente cortados para dar a ideia de que Portugal era um
"oásis" de paz e segurança), eram liminarmente proibidos!
Havia um total controlo das artes
e do espetáculo, uma vez que a censura não se limitava ao papel. Os guiões de
teatro e cinema tinham de ser aprovados antes da produção e o resultado final
era revisto antes da estreia. As letras de intervenção (como as de Zeca Afonso)
eram proibidas ou alteradas, e até o fado foi vigiado para garantir que não
transmitia mensagens de revolta social.
A PIDE (Polícia Internacional e
de Defesa do Estado) apreendia obras nas livrarias e editoras que fossem
considerados subversivos ou de ideologia comunista. Nessa ação era apoiada pela
"Propaganda" um complemento que rentabilizava a intenção.
Enquanto a Censura tirava o
"mau", através do Secretariado da Propaganda Nacional (SPN), o regime
colocava o "bom", usando a rádio e o cinema para promover os valores
do "Deus, Pátria e Família". Soa tanto a Chega, não é?
Já imaginaram bem o sufoco que
deveria ser viver dentro destas amarras, amarrado nesta gaiola?!???
Sabiam que quando a ditadura do
vosso Salazar, que agora querem de volta, começou, 6 em cada 10 portugueses não
sabiam ler nem escrever?!? Engraçado, não é?
E sabiam que quando a revolução
restaurou a democracia, em 74, essa taxa ainda era de quase 3 em 10?!?
Seria por pirraça, porque não queriam, ou… porque quem mandava queria que assim fosse?!?!?
Contudo, os ricos, esses,
garanto-vos que tinham, pagando, claro está, e bem!!!, a melhor educação
possível.
Será que tu Cárlitos, caso o
Chega que defendes, mandasse no país, poderias ter tirado o curso superior que te
permite ser um exemplo de cidadão do mundo, e um caso de sucesso?!? O Diogo,
por seu lado, sei que nunca investiu muito na área, e certamente o lamentará
todos os dias da sua vida porque se não o faz... tenho pena.
Naquele então que vocês defendem,
a escolaridade obrigatória era só até ao 3° e 4° ano, muito longe do 12º ano
(ou até aos 18 anos de idade) tal qual foi estabelecida em 2009. E neste período
de opressão, o regime valorizava uma educação controlada e ideologicamente
orientada, nunca investindo o suficiente para eliminar rápida e completamente o
analfabetismo. A falta de escolas, especialmente no meio rural era enorme e os
poucos professores tinham condições muito limitadas e rudimentares.
Os programas escolares tinham uma forte componente de propaganda ligada ao regime, usando uma cartilha maternal, de João de Deus, usada para ensinar a ler, mas que fomentava e criava vistas curtas, formatadas.
O Ensino Superior era limitado
para uma elite que se auto-protegia, composta por filhos de médicos,
professores e advogados, não para filhos de empregados ajudantes de serviços de
secretaria como eu, ou vocês, que nunca lá meteríamos o cú.
Tudo isto porque como se calcula,
claro, a população pouco instruída era mais fácil de controlar politicamente.
Quem não sabe, não lê, não pensa, encarneira com muito mais facilidade para
onde o mandam ir.
E que dizer da habitação e das
condições de vida? Existia um forte contraste, como é sempre nestes casos de
grandes clivagens (processos de divisão, separação ou fragmentação ao longo de
planos definidos) sociais, como existem, por exemplo, no Brasil. De um lado,
existia a propaganda de bairros ordenados e moradias unifamiliares; quando do
outro, havia uma realidade de pobreza extrema, falta de saneamento, com os
bairros de lata em expansão.
No Norte, era comum a subdivisão
de casas antigas em minúsculos quartos onde famílias inteiras partilhavam
poucos metros quadrados, muitas vezes sem janelas.
Vejam-me bem que os números do
final do regime, no dealbar (tornar branco, branquear ou clarear) da
democracia, há 50 anos atrás, ajudam a ilustrar a precariedade:
Eletricidade: Cerca de 42%
das casas em Portugal ainda não tinham luz elétrica. Às escuras, portanto, como
os desgraçados das intempéries agora em Pombal! Só que ali e então, era sempre!
Quase metade!!!!!
Saneamento: Apenas cerca
de 36% das habitações tinham instalações sanitárias (retretes ou casas de banho
completas). Traduzido: urinar ou defecar, para quase ¾ da população era no chão,
para um buraco, ou numa fossa.
Água Canalizada: Menos de
metade da população tinha acesso água corrente em casa, sendo o uso de poços e
chafarizes públicos a norma em grande parte do país.
No campo, a vida era ainda mais
dura. As casas eram frequentemente feitas de pedra ou adobe, com chão de terra
batida e onde o gado, por vezes, pernoitava em divisões contíguas para aquecer
a habitação. A falta de calçado e a desnutrição eram problemas comuns,
resumidos na expressão popular da época: "Uma sardinha para quatro".
A habitação foi, por isso, uma
das maiores prioridades dos primeiros governos democráticos após 1974, através
de programas como o SAAL (Serviço de Apoio Ambulatório Local) para erradicar as
barracas.
E para o fim deixei talvez o
assunto mais problemático mesmo de todos, e que no meu modesto entender, foi
aquele que acionou o rastilho de revolta dos militares, porque foram eles, de
longe, os principais sacrificados: a guerra colonial (1961-1974), que
gerou a ferida mais profunda aberta pelo Estado Novo na sociedade portuguesa.
O regime de Salazar, e mais tarde de Marcello Caetano, que se lhe seguiu após a sua morte quando caiu da cadeira, literalmente, insistiu numa solução militar para um problema político, o que resultou num esforço de guerra desproporcional para um país pequeno e pobre.
O impacto estendeu-se por várias
gerações e ainda hoje é sentido na memória coletiva e na demografia do país.
Realço o custo humano de ter uma
geração mobilizada: Portugal chegou a ter cerca de 150.000 homens em armas
simultaneamente nas 3 frentes de Angola, Guiné e Moçambique, os três países de
África que impulsionados por interesses externos nas suas riquezas, leia-se
soviéticos; rebelaram-se e lutaram pela sua independência, à qual tinham tido o
direito por natureza!
Ali foi obrigada a alinhar uma
geração de jovens que, na sua maioria, mal tinha saído da adolescência. O
recrutamento era obrigatório e abrangia quase toda a população masculina
válida. A idade padrão para a incorporação militar era aos 20 ou 21 anos. No
entanto, devido à necessidade crescente de tropas à medida que a guerra se
intensificava em três frentes (Angola, Guiné e Moçambique), o regime ajustou as
regras, criando o "Piquete", através do qual muitos jovens eram
chamados logo após completarem o ensino secundário ou os primeiros anos de
trabalho.
Atenção que o serviço militar não
era uma "passagem rápida", já que entre a recruta (treino), a
especialidade e a mobilização para o Ultramar (a "comissão"), um
jovem ficava preso às forças armadas, pelo menos, entre 3 a 4 anos para a
grande maioria dos soldados que estava na linha da frente, que tinha entre 21 e
25 anos.
O recrutamento era universal, bem
diferente de alguns exércitos modernos que são profissionais, e baseava-se no
Serviço Militar Obrigatório (SMO). Todas as classes sociais eram chamadas e em
teoria, todos os homens tinham de ir. No entanto, havia uma clivagem social
clara, aliás como o Chega que vocês defendem, apregoa:
Os filhos das elites frequentavam
a universidade e, por isso, entravam como oficiais milicianos, o que lhes garantia
melhores condições e comando. Já as classes populares, o povão, os camponeses e
os operários, muitas vezes com pouca instrução, formavam a base das companhias
de infantaria (os "praças") que eram os que faziam as patrulhas mais
perigosas no mato.
"Inaptos" só ficavam os
que tinham deficiências físicas graves (os "refugados") ou aqueles
cujas famílias tinham influências políticas para conseguir um adiamento ou uma
colocação administrativa em Lisboa.
Entre 9.000 a 10.000 soldados
portugueses morreram e mais de 100.000 ficaram feridos ou estropiados, quando do
lado africano, os números são muito superiores e devastadores. Isto para já não
falar nos milhares de jovens que regressaram com o que hoje chamamos de
Perturbação de Stress Pós-Traumático (PSPT), uma vez que na altura, não havia
apoio psicológico, e estes homens tiveram de reintegrar a sociedade em
silêncio, afetando as suas famílias e os seus filhos (a chamada
"transmissão intergeracional do trauma").
Estão a ver onde é que nós
iriamos parar, não estão? E será que viríamos?!?!?!?!?
Caso não quiséssemos arriscar a
vida, o salto seria a única opção, como foi a de milhares de portugueses que fugiram
clandestinamente para França e outros países europeus. Com este drama perdemos
grande parte da sua força de trabalho mais jovem e ativa, o que atrasou o
desenvolvimento económico do país durante décadas.
Enquanto a Europa vivia os
"Trinta Gloriosos" (anos de crescimento económico e criação do Estado
Social), Portugal drenava os seus recursos para o mato, havendo no auge do
conflito, cerca de 40% a 45% do orçamento do Estado destinado à defesa e segurança,
aplicando erroneamente dinheiro que não foi investido em escolas, hospitais,
saneamento básico ou infraestruturas industriais. Como já vimos, Portugal
chegou a 1974 com taxas de analfabetismo e mortalidade infantil muito
superiores à média europeia.
E prontos, portantos, como diz o outro, digam-me lá se prante isto tudo, ainda continuam firmes, fortes e convictos de cada vez que em vez de um Salazar, mais valia virem dois ou três?







.jpeg)
.jpeg)

Sem comentários:
Enviar um comentário