Marvão. 23.02.2014 |
E porque é que escreves?
Não consigo explicar. Escrevo
porque me liberta, porque me ajuda a expressar aquilo que não consigo dizer
pela boca. Escrevo porque quando tocam as teclas, os dedos como que se
transformam em línguas e ganham vida própria. É uma sensação de catarse que não
consigo explicar. Eles vão onde querem, sabem por onde querem ir e caem
exaustos sobre as letras quando sentem que o trabalho está feito. Nunca tem um
princípio e pode ter mil fins. Mas há um momento em que tem um.
E como pode essa necessidade ser por vezes tão grande, manifestar-se com
tanta força, quando há dias que essa guerra parece que não é a tua?
Não sei explicar. Se há coisas na
natureza que são inexplicáveis, essa, para mim, é uma delas. Parece uma possessão.
Uma força, um ser, um ente que entra em mim e tem de ser expelido aqui, ali,
desta forma.
Se ontem foi o trivial que te trouxe por aqui, de fugaz passagem por este
limbo cibernético, porquê hoje a necessidade deste mergulho tão profundo nas
águas gélidas deste lago tão quieto?
Porque algo me atormentou profundamente
há dias e ainda não tive oportunidade de falar com quem devia. O tempo é
escasso, o tempo urge e os compromissos do dia-a-dia, da voragem dos dias multiplicam-se.
Não só não tenho procurado quem me possa ouvir com a profundidade que quero, mea
culpa, como as oportunidades para tal não têm surgido e o tempo vai passando. Já
entrei em contato com alguém que me garantiu que ia transmitir a quem de
direito a minha preocupação e estou tranquilo. Mas eu sei que tenho de ser eu a
auto-inflingir-me este exorcismo para que possa dormir melhor, respirar melhor,
pensar e viver melhor.
E porquê aqui neste espaço que é público, tão aberto a todo o tipo de
gente, incluindo a que te quer mal e se regozija com a tua afronta?
Porque eu sou assim. Trilho o meu
caminho e sigo sempre pela rota que traço. Não me torço, não me vergo e nada
temo. Não tenho vaidades e não tenho segredos. Sou eu. Amigo do meu amigo, um
ser que se acha bom por natureza porque é incapaz de querer mal e fazer mal,
lidando bem comigo e com os outros. Bem sei que é impossível agradar a toda a
gente, nem eu o queria. Não deve haver coisa mais chata. Mas sendo público e um
homem que sabe que comunicar é uma das virtudes que possa ter, confesso-me aqui
com grande paz de espírito e à vontade. Esta minha taberna virtual, com tantos
anos quantos os gravados no mural aqui do lado, é frequentada por bons amigos
que sei que nunca a abandonam. Bem podem abrir MacDonalds e Telepizzas em tudo
o que é grande superfície das redondezas que mesmo que lá vão… acabam sempre
por voltar para um tintinho do meu primo Vitorino e uns passarinhos fritos.
Mas que ganhas tu em passares o tempo assim?
Olha, para já, poupo imenso. Nãos
me encharco com caixas de drogas e drageias, nem ando a caminho de Lisboa falar
com um cachopinho pouco mais velho que eu para me dizer que o que me fazia bem
era um acompanhamento prolongado para algumas afinações. Como se eu fosse um
relógio que um acerto nas roldanas e nos mecanismos alinhasse o pêndulo.
Depois, liberta. Mal feita a
comparação, liberta-me como liberta uma beata quando confessa ao prior da
paróquia que cometeu adultério. Não ganha nada mas o mal sai de cima.
A Filipa, ou melhor, a Drª .
Filipa, diretora técnica do Lar daquela casa que é a santa e de Marvão,
ligou-me a perguntar qual era a minha opinião em mudar a tia de quarto.
Respondi que compreendia. Confessei
até que me causava alguma surpresa como é que a proposta para que tal
acontecesse não tinha surgido antes. Na verdade, a sua colocação naquele quartinho
para apenas duas utentes, tinha surgido por muita força minha no pedido para
não defraudar as expectativas da sua irmã que desapareceu deste mundo quando
ainda mal tinha aquecido a cama. Não foi na primeira noite, como ela tanto
temia e a levou a implorar às funcionárias que não a deixassem só, gerando
confusão e mal estar porque aparentemente não estava doente; mas foi na noite a
seguir. A segunda noite na casa grande.
A Cali agora estava como uma
companhia que não conhecia. Mesmo que conhecesse, já não seria capaz de se
recordar como, quando e de onde. Por isso, agradeci a lembrança de a levarem
para uma zona com instalações mais modernas, utilizada por utentes volantes, não
limitados pela aliança a um cônjuge ou um familiar que os confinasse à zona de
quartos.
Fui visitar e pareceu-me, de
facto, muito bem. Continua o muito carinho no interior, bem patente em toda a
gente que ali trabalha, coisa comum a todas as profissionais do edifício que me
fazem sempre ficar com a sensação que se recebessem 5 vezes mais, não seriam
pagas em excesso. Depois as instalações são mesmo mais modernas, com os
quartinhos sempre muito asseados, com muita luz e arrumadinhos, já com diversas
camas por cada um. Aliás, toda a instituição é toda ela um primor, um
verdadeiro tesouro sem o qual teria hoje uma situação bem complicada de
resolver.
Sábado passado, fiz-lhe a segunda
visita naquelas instalações. Acompanhado da minha Alice que me pediu para me
acompanhar (!) para ire ver a Ti Cali, a Ti Cali, a Ti Cali!!!!
(Que estranho?!) - Por saudades, Alice?
- Sim! Mas também quero andar no
elevador! Eu ADOROOO elevadores. E há lá um!
A entrada é algo labiríntica,
como é toda a estrutura da Santa Casa. Mas esta seção tem uns portões e grades
que lhe dificultam a livre circulação e evitam preocupações de maior. Anda
livre mas não tão em roda livre. Mais circunscrita, talvez. Pareceu-me tudo
perfeito, tudo a ganhar forma e a ficar no ponto. Mas na visita deste sábado assustei-me
quando a vi. Não a encontrei tão tranquila e tão distante quanto dantes, a
brincar com as suas duas bonequinhas oferecidas pelas sobrinhas a quem ela as
pode ter oferecido no passado, como se fossem filhas. Estava ela própria
assustada e ficou aliviada quando me viu.
Afinal tu, alguém que me salva;
parecem ter dito os seus olhos.
- “Ai vocês, ainda bem que aí
vêm. Venham cá, venham cá.”
- “O que foi Cali? O que te
aconteceu?”
- “É ela…”, apontando para o espelho
A funcionária que estava de
serviço, avó de uma amiga da Alice, disse-me entre dentes: “tem estado a falar
toda a tarde com a irmã, que ela por vezes diz que é a mãe. Olha para o espelho
e vê-as a elas. A gente leva-a mas ela volta…”
Quem é que me havia de dizer a
mim que uma parte tão bonita, com uns roupeiros com espelhos, haveria de
constituir assim um obstáculo tremendo à razão? Eu vejo as outras velhinhas
sentadinhas, tranquilas, a verem televisão ou a fazerem crochet, e penso porquê
não assim? Porquê esta inquietação, este desassossego, esta busca incessante do
nada, do fio da meada que se perdeu no tempo?
Na estrada da vida, olho para
trás e viro-me para a frente. Perdi um elo com apenas mais 7 anos que eu. Ou
por aí, ou por aqui. E sendo certo que por aqui é muito mais fácil para quem
está e ali pode rever a estrutura física que sempre amou, matando saudades do
que ela já foi a cada reencontro; não consigo comparar qual das duas será mais
dolorosa para a pessoa que a sofre.
Neil Young cantou "it's
better to burn out than to fade away,". Kurt Cobain transcreveu as
palavras na sua última nota em vida. Ele também pensava assim e certamente que
ela prefere este doce apagar. Doce como sempre foi.
À Santa Casa de Marvão, a todos os
órgãos diretivos e funcionárias quero deixar bem claro e bem expresso o meu
profundo agradecimento. Agradeço por tudo, que é o que há para agradecer, do
mais ínfimo detalhe a tudo o resto. Manter uma estrutura destas é um esforço
diário monumental. Mas que resulta e é feliz.
O problema de que falo aqui é
nosso, é com a doença, com uma guerra silenciosa em que uma pessoa se torna
refém de si própria, de quem lhe tomou os comandos da aeronave sem dizer por
onde ou para onde vai.
Há que fazer ajustamentos mas sei
que com o tempo, e a boa vontade de ambas as partes, haveremos de conseguir
acertar agulhas. Não tendo nunca tempo para coincidir convosco, desabafei aqui
e de certeza que vou dormir melhor.
Chamam-lhe Alzheimer e até é
assunto de Óscares e do dia.
Para mim, é demência. Ponto.
Seletiva. Mas demência.
1 comentário:
Assustam-me estas doenças que nos levam quem amamos ainda antes da morte.
Um abraço, Pedro.
Enviar um comentário