quarta-feira, 19 de novembro de 2014

XXXI Feira da Castanha - A reportagem pelo enviado especial tio Sabi

Post dedicado à Dona Maria do Céu Roque (e companheiras, sem as quais ainda estaria tudo desarrumado), jardineira do Município de Marvão que me perguntou mais que uma vez pelo blogue. Se já estava pronto… Hoje fica, miga. 

"Ah... até que enfim! Estava a ver que não... Nunca mais acabavas isso, Pedro"

Constatação de uma realidade e reconhecimento para deixar na mesa do editor: este texto está atrasado. Ponto. Noutra altura (na era A.A.- antes do acidente) estaria pronto na noite seguinte à feira porque o material (fotos e notas cerebrais) já estava todo na redação. Apesar do ordenado ser parco, o brio profissional mandaria, ainda que em regime de voluntariado, ser profissional e mesmo que dormisse apenas 4 ou 5 horas, estaria pronto para entrar nas rotativas, a tempo de sair no dia seguinte.
Mas vivemos na era D.P. (depois do acidente) na qual o cansaço acumulado ao final do dia faz com que as pálpebras pesem quilos e a sonolência ganhe terreno à consciência. Este repórter do quotidiano sente-se agora assim, naquela hora sempre esperada, quando as damas recolhem aos aposentos e fica com a noite toda para ele, (entre as 10.30h e as 2h/3h); infeliz e sem capacidade de a aproveitar. Mudam-se os tempos… limitam-se as vontades.
Sinto-me muita vez e cada vez mais como um super-herói que começa os dias com a carga de energia sempre no máximo para depois, à medida que o dia se aproxima do fim, vai-se esgotando. Mas deixemo-nos de lamúrias e avancemos, que há muito para contar


Pois a mim pareceu-me naquela conversa de família pós um almoço convívio qualquer que estavam a colocar a minha pouca vontade em colaborar com preguiça e isso não me pareceu bem. De todo. Não gostei, prontos. E como tenho um feitio difícil (um mau feitio por demais conhecido por todos), amuei. Prendi o burrinho porque nunca foi esse o caso, de todo. Baldas não sou e nunca fui. Acontece (e a verdade é) que um gajo é uma autoridade que anda sem pistola e sem cacetete mas pertence à Autoridade Tributária e Aduaneira e por isso é uma. Maneiras que o que dizia eu é que não podia habitualmente andar a trabalhar para servir o fisco, o Estado e as pessoas de bem; mas depois meter-me atrás de um balcão a vender porque não joga. Não fica bem.

Mas… fiquei a pensar na coisa uns dias, com a pulga atrás da orelha. A verdade é que a ir, eu iria apenas ajudar. Não mexeria no dinheiro que esse estava guardado ao caixa / co-sócio gerente, santo sogro, João Manuel Lança que estava incumbido das massas, das senhas na registadora e da escrita que sempre foi a vida dele. Eu seria apenas um amanuense, uma garota de balcão da lanchonete, uma carinha laroca incumbida de bem servir para a satisfação da clientela o que não é crime nem vai contra código algum. A aventura seria desenvolvida sob a égide da actividade independente das “Delícias da Avózinha” (santa sogra), a bem saber fabricar sabores de antigamente (doces, escaldados, licores e muitos afins) na avenida 25 de Abril em Santo António das Areias, desde 2004, devidamente coletada e em dia. Nesta investida castanheira seria destacada num espaço pré concedido e acordado na feira. Onde contaria com o prestimoso apoio do grande carteiro/padeiro meu santo vizinho Mário Guedelha, que bem conheci quando era miúdo e ele desempenhava essas funções na padaria do Sr. Maridalho, na Beirã, quando ele ainda tinha os dez dedos na mão, antes de ter inventado os cachorros quentes quando se esqueceu de um dedo indicador dentro de um.

Foto de família de 2014 dos empresários com os artistas
Pois eu cá enchi-me de coragem e deitei-me às brasas. Como descaramento nunca tive, foi só um passinho e em menos de nada, estava no filme. Entrei logo no turno da manhã que durou todo o sábado e se prolongou por todo o domingo com cerca de 8 horas a pé por dia. 16h no total do fim de semana num tratamento verdadeiramente aconselhável para um bacano que foi duas vezes à faca pelas hérnias discais. Fez-se. Sem dor, muito movimento e boa disposição que tristezas não pagam dívidas e era preciso chamar a clientela com animação.



O espaço era verdadeiramente simpático, num sítio de passagem embora eu tenha a opinião que desde que o produto tenha qualidade, como o nosso, e haja simpatia no atendimento (por demais evidente), resultaria em qualquer lugar desta feira. Desta e em qualquer outra se a gente se metesse a jeito de fazer vida disto. Mais trabalhosa mas de certeza que seria mais rentável e mais feliz.

Se me ia meter na empreitada, teria de meter o meu toque na coisa. Toque controlado pelos patrões mas um toque a la Sabi. A parte gráfica seria extraordinariamente importante, como é sempre, e nisto aqui, como em tudo, quando nós não sabemos, temos de nos rodear de quem sabe. Contatei assim o meu amigo Miguel Patrocínio de Nisa, um camba que vem já dos tempos de liceu e é artista na arte. Nesta e em muitas outras. Animador, agitador e músico, é um companheirão da melhor estirpe nisorra e onde ele está, está-se sempre bem. Pois o Miguel e eu trocámos mails, fizemos provas pela net e ajustamentos por telefone até que resultaram duas lonas que chamavam e davam um ar de sofisticação ao trabalho e um preçário que acabou por ser um importante chamariz, também.




Sendo uma especialista em doces (e eu acho é em tudo o que faz mas como sou suspeito…), a sogra optou neste ano depois da experiência feliz do ano passado, por ter dois espaços abertos: um destinado à doçaria e aos licores, e um outro onde se lançou em força às pizzas de castanha que não eram mais que pizzas comuns mas feitas com ingredientes diversos (quadrado grande com seções vegetariana / chouriço / fiambre e cogumelos) mas cuja massa era realizada com farinha de castanha e pequenos pedaços das mesmas para lhe dar o típico sabor, numa massa de criação exclusiva. Antes dos espanhóis terem trazido a batata da américa latina para a dieta europeia no século XVI, a castanha, um fruto local, era utilizada com esse propósito e de acompanhamento. Foi um regresso ao passado e às origens que marca um ano de lançamento e onde o segredo primou como sendo a alma o negócio. Podem vir outras atrás mas nós fomos os primeiros e isso marca.






 
Se os doces metiam vista... as assistentes de venda Célia e Paula Lança, não destoavam na envolvência e convidavam a um docinho













Bolsinhas de cheiros por carinhas lindas: Matilde Costa, Leonor Sobreiro e Maria Dias


Com os mestres atrás do bonito armário antigo que estabelecia a divisória para o público, fiz parelha de balcão com meu cunhado Bonito e formámos uma dupla que parecia talhada para o sucesso. Até parece que Deus nos junto como cunhados por causa disto. Correu muito bem mesmo e a Dona Rosa provou que sabe muito mais que dedicar-se aos cabelos e se a coisa continuasse, as bifanas de Vendas Novas que se preparassem porque eram capazes de ter os dias contados que as dela eram demais.

Os genros garçons
Ó Dona, olhó pão de castanha com chouriço. Acabadinho de sair e vai esgotar...


No sábado o tempo esteve terrível e foi um dos piores anos de que me lembro. Muito frio, muita chuva e muita gente de guarda chuva em punho e malinhas às costas, que não havia dinheiro, nem vontade de comprar. Ainda assim e apesar de tudo, muita gente que as excursões estavam previamente marcadas e pode faltar dinheirinho para tudo mas a barriga não tem culpa e está habituada a comer de 4h em 4h. Ou menos.







A hora de ponta começava bem cedo, pouco passava do meio dia e ia até depois das 3h / 4h. Incrivel como os hábitos dos humanos os faz sempre mover em carneirada e bastaria uma antecipação ou um atraso para fugir às filas que chegaram a ser no nosso caso de muitos metros. Filas muito grandes mesmo mas que não intimidaram e antes se desfizeram à medida que os clientes iam saindo satisfeitos. Já queriam um Mc drive de pizas no pelourinho mas as obras começam só para o ano.

Pelourinho que esteve visivelmente desaproveitado e foi vítima da má gestão autárquica de quem distribui as animações pelo espaço. Um espaço nobre e central da vila onde o artesanato/animação deixou muito a desejar. Vivemos em democracia: manda quem pode, critica quem quer. Eu nunca deixei nada assim à balda quando comandavas operações e custa-me o desleixo mas…







Um dos herdeiros do império pizzeiro está bem entregue em termos de fervor clubístico, como todos os outros.
Assim até dá gosto.


No domingo, o sol rompeu para reinar e a alteração climatérica do mau tempo de sábado para o reerguer das esperanças no domingo fez-me até pensar que poderia ser/ter uma alusão política, de um fim de ciclo que se está a fechar e de uma novo amanhã que nos pode devolver as esperanças a todos os que acreditam na nossa terra. De resto, sabem como sou muito místico e um gajo que vai muito nesta do acreditar.  E o domingo foi muito trabalhinho e apenas alguma animação quando pude ir visitar a tenda e me apercebi da extraordinária performance dos Voodo Marmelade que me conquistaram à primeira audição de uma cover do “Ring of Fire” do Johnny Cash, arrematada pelo “Dirty Old Town” dos Pogues (Um beijo Franciscus Serôdius). Muito bom. Parabéns Hernâni.






Foi um fim de semana daqueles à antiga portuguesa, quando andava em alta rotação nas lides artísticas, em que chegamos à porta do serviço na segunda de manhã e suspiramos por termos a certeza que vamos encontrar um ambiente calmo onde podemos estar sentados e a trabalhar sem filas e sem ouvir barulho.

Foi bom. Ajudei e senti-me bem. Venha o próximo!

E para fechar este post de elaboração muito trabalhosa mas que vale a pena para ficar registada para a posteridade, quatro apontamentos musicais com duas bandas residentes deste espaço de venda de produtos locais que se destacava de todos os outros criados propositadamente para a feira por ter bandas ao vivo: os Mimo´s Dixieland Band de Águeda e os grande Domingos e Dias Santos, da vila de Nisa, o centro do mundo (qual fronteira, qual quê!

Malta, para o ano vai haver fundos europeus para um dvd ao vivo e o mesmo deste ano: comida e bubida pra todos!

Ó patrão: serves mais uma gulodice dessas, pões-me a falar e até digo uma asneira.

Tocando o clássico "When the saints go marchin' in"

Tremenda jam session das duas bandas residentes nas Delícias d'Avózinha em total delírio, união sentimental e musical

Eu vou, eu vou, lá prás Delícias d' Avózinha...

Muito boas noites, senhoras, senhores...  ( e até à próxima!)

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Eu dou, tu dás, ele dá?!? Não?!?!? Ingoístico!

(o cartaz está desatualizado mas vai ser agora. É o que há... Desde que haja vontade... há-de saber-se o dia)


Minha mulher é dadora e me pediu para divulgar. Eu sou dador e divulgo onde posso. No mural do facebuq, no blogue e nas conversas de café. Dar sangue não custa. É combustível de vida do qual temos 5 litros sempre a serem bombados pelo motor que ainda por cima, miraculosamente, se regenera. Como se um gajo tivesse um carro onde pudesse emprestar gasolina a quem precisa dela e quanto mais andasse, mais nascia no seu depósito. Isto o mundo está cheio de coisas incríveis e esta é uma delas. Pois eu acho que dar sangue deveria ser obrigatório. Dar sangue e votar deveriam de ser condições indispensáveis para por cá andar. Eu dás… ou votas… ou não podes cá andar. Isto é sine quo non!
Tudo perceptível, tudo entendível mas agora… há aqui uma situação que é uma porra: eu quero dar sangue, como sempre dei durante muitos anos mas… como já recebi, já nunca mais posso dar.

- Como é que é ?!?!? (perguntei incrédulo)
- Ah pois é, bebé! Recebeste sangue… danou-se. Acabou-se. Já não podes votar a dar.

E eu pergunto onde é que tinha a cabeça quando tive aquela porra daquele acidente que não me matou mas deixou marcas para sempre. Não poder mais dar sangue, não poder nunca mais apanhar uma bubedeira de imperial… Coisas que amolam um gajo. Olha… o que vale é que se vai cá andando por cá com a cabeça entre as orelhas e ainda se vai podendo fazer outros episódios alternativos na vida como fumar um cigarrinho enrolado sem aditivos, beber um café, socializar, conviver, amar. Viver é o melhor que há mas esta do não poder dar sangue porque já recebi é que não me entra.

Então mas o tipo de sangue que me meteram não é o mesmo? Não é o meu?!? Então porque não posso voltar a dar? O organismo já não repõe? Porque é que me tratam como se a minha gasolina sem chumbo 95 se tivesse tornado gasóleo depois da trasfega?  

Nesse dia acho que me vou sentar na escadaria com cara de chorão para ver se me deixam dar. Eu não tenho medo.


Se alguma vez tive, isso é que eu já não tenho. Nunca mais.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

(poder) Saber Morrer


A morte, enquanto passo inexorável da vida de cada ser vivo pode ser assim tão bela, quando consciente e lúcida. Assumi-la desta forma não a isenta da dor imensa da perda, mas dá-lhe uma dignidade transbordante. Neste caso, tanto amor, tanto entrega, tanta comunhão. Uma vida começada a ser construída, com o sonho de filhos, de muitos projetos a dois e vem um dos mais letais dos cancros no cérebro e tudo arrasa, demolindo os alicerces desta casa que estava apenas nas suas fundações. Uma vida tão jovem, tão bela, com tanto ainda pela frente vê-se assim obrigada a ceder. Não a baixar os braços numa derrota, mas antes a celebrar o largar dos laços numa vitória comovente do que é estar vivo. E o amor tão grande de querer ver amar outra vez quem amamos e não podemos mais?


Foi mais um episódio nas notícias destes últimos dias mas não foi apenas mais uma notícia. Esta deve ser uma que nos faz pensar. Deve ser A notícia que nos faz pensar. Que nos tem mesmo de fazer pensar.





E morrer assim, num sítio escolhido, rodeado das pessoas que mais se teve o prazer de amar nesta vida, a ouvir a música de que se gosta deveria ser, nas sociedades que se dizem civilizadas, a forma certa para o fazer sempre que por ela se pode optar. E esta é mesmo a grande questão de fundo. Para quê prolongar a dor, sem qualidade nenhuma de vida? Para quê os hospitais, as baterias de químicos, os fios, as máquinas, os conta gotas, o isolamento, o sofrimento de todas as partes quando pode ser assim, com DIGNIDADE. (escrito em maiúsculas de propósito). DIGNIDADE. É tão mais compreensível que seja assim…


Os Estados Unidos, que tanto são criticados e tanto têm de criticável, também devem ser louvados por englobarem alguns estados onde este tipo de assistência é permitida. Assim e uma vez que o estado natal da Califórnia, sua primeira escolha, não o permitia, optou por se mudar para uma pequena casinha amarela em Portland, a cidade das rosas, para tomar uma mistura letal de água, sedativos e depressores do sistema respiratório que lhe permitiram fugir às fases finais do cancro no cérebro, às febres altíssimas e às dores de cabeça excruciantes.


Pois eu, encosto-me no sofá e penso que não odeio ninguém. Como penso que ninguém me odiará a mim. Pode haver pessoas das quais não gosto. Não muitas, mas algumas. Como certamente haverá muitas que não gostam de mim. Não muitas, mas algumas. Mas essas diferentes perspectivas podem ser limadas e limpas de naturais confrontos passados. Contudo, o nosso tempo de vivos já é tão pouco, na melhor das hipóteses, e há tanta gente e tanto sítio para amar que é capaz de não valer a pena chorar sobre o leite derramado e reatar o que nunca foi fértil. E… o orgulho também conta muito. Quem estica a mão? E merecerá a resposta? Até quando? E para quê? (se a coabitação no planeta não é nada pacífica). Há gente que não presta. Almas que estão num processo de evolução num estágio muito embrionário, com tanto a aprender…

Nestes impressionantes relatos, a lição que a Brittany nos quis deixar quando soube do veredicto ditado pelo mais agressivo dos tumores cerebrais foi… CARPE DIEM. SEIZE THE DAY. Aproveitem o dia! A mesma máxima que o recentemente, tragicamente desaparecido Robin Williams nos quis ensinar nesse filme mágico que é o “Clube dos Poetas Mortos”. Aproveitem cada dia como se fosse o último, antes de serem alimento para os vermes que na natureza, nada se perde, tudo se transforma, como ensinou o sábio Lavoisier. Sejam felizes, façam quem amam e vos ama ser feliz porque a vida são umas férias que a morte nos dá. Passa tudo muito rápido.




Lembremo-nos da Brittany todas as noites e todas as manhãs. Para que saibamos saborear melhor a graça de estar vivos.

Tudo e sempre assim o farei.


Obrigado pelo teu contributo, minha querida. Tocaste. Vai em paz.