domingo, 8 de agosto de 2021

Shangri La - meu horizonte longínquo sobre carris - Parte II - A (minha) Raíz


Avô Leopoldo e avó Joaquina, sorrindo, à varanda, numa rara imagem assim, dos dois


Toda a minha família para aqui se deslocou chegada da zona de Segura, Castelo Branco, onde o meu avô paterno chegou a chefe da estação dos comboios, como culminar de uma carreira construída sempre por mérito.

Essa figura determinante e patriarcal que nunca tive o prazer de conhecer (faleceu em 71, com essa mesma idade, quando eu, apenas dois anos depois, haveria de chegar), foi, absolutamente central na história da família Sobreiro. Pelo que sei e me foi chegando, sempre pelo relato de familiares próximos que com ele privaram, o meu avô foi um verdadeiro trepador, um fura pasto que entrou nos caminhos-de-ferro portugueses por baixo para, graças ao seu empenho, e à sua capacidade de trabalho, ter escalado por aquela estrutura acima, até se ter reformado como inspetor, depois de ter sido responsável pelas estações da Beirã, e de Valência de Alcântara, onde chegou a residir com a sua família. Recordo-me bem, enquanto criança, de voltarmos religiosamente a Valência, todos os sábados de tarde, para ali ficar boquiaberto com a facilidade com que as minha tias falavam castelhano, conheciam toda a gente, e por todas eram cumprimentadas como se ainda ali vivessem.

    Tanto que eu lamento não conseguir andar para trás na minha árvore genealógica, mas duas gerações antes da minha, é o mais distante que consigo chegar. Concedo que possa nunca ter investigado tanto quanto podia, mas a verdade é que as tecnologias eram poucas naquele então, os recursos também, e as máquinas fotográficas, hoje banalizadas em qualquer telemóvel moderno, eram um caso muito raro.

    Os meus avós maternos sempre estiveram longe, em Idanha-a-Nova, terra de onde a minha mãe é natural. Não tendo viatura própria, e nunca tendo memória de me terem visitado aqui onde vivia, foram duas figuras que se foram formando no meu imaginário afetivo alimentadas apenas por duas ou três visitas anuais, pelas férias grandes, pelo Natal; e uma ou outra visita esporádica de fim-de-semana. O meu avô era alfaiate de grande categoria e minucia, tendo inclusivamente realizado muitos trabalhos para a conceituada marca Dielmar. Homem católico convicto, sempre muito atencioso e compenetrado, lia imenso. Apesar de ter sido um excelente aluno, nunca teve hipótese de prosseguir os estudos, por dificuldades económicas. Não consigo dizer quem foram os meus bisavós. A minha mãe certamente levará isto a mal, mas é verdade. Aliás, com os avós paternos, passa-se o mesmo.

Os “Cometas Negros”, de Castelo Branco, com o João todo de negro, lá atrás.


   E como é que que pegando em todas estas pontas soltas, os astros se conjugaram para que a minha génese fosse possível? Pois teve a ver com um baile de finalistas em Idanha-a-Nova, e a banda contratada para animar tal evento serem uns tais “Cometas Negros”, de Castelo Branco, que eram um sucesso na altura, porque interpretavam o rock que chegava rolando pelas rádios piratas das ilhas de sua majestade. Rádios “bravas”, não legais porque o chefe do governo de Portugal, um tal Professor Oliveira Salazar defendia que só o que era nacional é que era bom, e por isso o Fado, Fátima, e o Futebol, maioritariamente do Benfica, claro está, interessavam. Tendo ficado classificados em segundo lugar num concurso de “ié-ié”, realizado no Monumental de Lisboa, vencido pelos “Sheiks” do Paulo de Carvalho, os Cometas não eram assim um asteróidezeco qualquer, e batiam forte. A sua fonte eram os Beatles, os Shadows e outros que tais. Entre outros grandes músicos, lá atrás, na tarola de uma Ludwig igualzinha à do Ringo Starr, estava um rapazola cheio de monetes, com uns tiques que o transfiguravam em grande caretas, que eu não sei precisar (porque nessa altura, não estava lá), se já os tinha de nascença, ou foi ganhando pela vida fora.

Ora o bom do João Sobreiro tinha na sua folha de finalista do liceu, uma caricatura que deixava antever, com a ajuda das rimas que a legendam, a figura de que estamos a falar: música, mulheres, copos, e muita confusão por tantas vezes se meter em saraus que acabavam ao murro. Criado numa família muito matriarcal, rodeado por três irmãs mais velhas, uma delas quase com idade para ser sua mãe, a Maria; cedo mostrou que não teria aptidão para seguir as pisadas do pai, e de saber receber as muitas cunhas que certamente teria, mas que preferia… algo diferente, não tão… absorvente, digo eu.

Deixou de tocar nos Cometas Negros quando estavam a atuar no casino de Monte Gordo, e apesar de bem pagos, sobrava sempre pouco para o dia seguinte. Estando a família a passar férias em Armação de Pêra, o meu avô apanhou o autocarro, deslocou-se ali, e procurou por lá informar-se se lhe poderiam dizer onde estava a banda. Segundo me contou o meu próprio pai, quando se aproximou deles, perguntou pelo seu João, e não o conseguiu reconhecer, tais eram os penteados.

“Paizinho, estou aqui…”, foram as palavras que lhe conseguiu dirigir, temerário.

Com calma e sensatez, o Sr. Leopoldo chamou-o à parte, e colocando-lhe a consciência no sítio onde deveria estar, recordou-lhe que dentro de dias teria de se ausentar para outro continente, para lutar por essa terra contra os naturais dela. Ao saber que teria de arriscar a sua própria vida; que a mãe, as irmãs, e restante família estavam todos a passar um período de férias de Verão a escassos quilómetros dali, em Armação de Pêra, convidou-o a dar-lhes o prazer de voltarem a estar juntos, apesar de pairar sobre o reencontro, a angústia da dúvida de o poderem não votar a ver mais.

Gozaram assim de um reencontro saboroso que antecedeu um período duríssimo, que haveria de moldar o meu pai para sempre, em que deve ter vivido experiências absolutamente marcantes de companheirismo, beleza natural, medo, farra, festa e dor. Tantas noites, depois de tantos anos, continuava a acordar de noite, sobressaltado, a chorar, a suar, em sofrimento… Porque o estigma do stress pós traumático é uma realidade, embora invisível, quase sempre constante em quem arriscou a vida lá fora, muitas vezes por uma causa que nem sequer percebia, quanto mais querer que concordasse com ela.

Depois do regressado são e salvo, o João e a Alzira casaram-se em Fátima, a 19 de Dezembro 1971, e assentaram arrais na Beirã, nesta pequena aldeia movida por serviços, onde a 8 de Junho de 1973 receberam nos braços este seu filho, experiência de vida que iriam repetir 7 anos depois, em 25 de Janeiro, com a chegada do Miguel.


Casamento de João Sobreiro e Alzira Ereio,
a 19 de Dezembro de 1971, em Fátima


    
Sendo filho da revolução que estaria para acontecer no ano seguinte, não tenho memória alguma do que foi estar sob o Estado Novo, e do que foi viver sem liberdade. O que sim sei foi que o meu tio Lázaro trabalhava para a P.I.D.E., sobretudo na área do controle de passageiros e mercadorias da fronteira, mas que não era considerado como se fosse mais um dos maus, porque se limitava a bem exercer as suas funções, a ser profissional, e a defender o nosso país de ameaças externas. Mais assustado ficou o meu pai que na ânsia de conseguir destruir todos os vestígios de tempos sombrios que o cunhado teria em seu poder (livros e outro material), os queimou num grande lumaracho no quintal, para que não pudessem ser descobertos pelos revolucionários, sob pena disso poder ter consequências nefastas para a toda a família.

Por isso, não me lembro que me tenham mandado calar sem que me tivessem dado uma explicação, como não me lembro de não poder dizer, desde que houvesse educação, claro, aquilo que me ia cá dentro. 


Na Beirã, juntos por um evento qualquer, comigo menos bem disposto que a mãe.
Sou fã de tudo! (da camisa à Bee Gees do pai, das patilhas, dos óculos e do bigode; bem como da camisola e dos óculos da mãe!)

domingo, 25 de julho de 2021

(sobre Voltar...) O meu horizonte longínquo sobre carris (Parte 1)


Porra… 2 meses?!?!?!? 2 meses sem escrever e dar notícias aqui... é muito, muito, muuuuuuuuuuuito tempo. Nunca tinha estado tanto tempo fora...

(embora me tenha tranquilizado tê-lo deixado com uma homenagem a um Amigo, que provavelmente nunca ninguém lhe fez na vida, com mais de 1.300 visualizações. Se cada uma tivesse originado um pesar pela perda... )

 

Sempre disse que escrever, que tatuar numa folha em branco, mesmo que seja digital e virtual, os pensamentos que me vagueiam pelos pirolitos, é indispensável para que me possa sentir bem, a carburar, a respirar, e… pelo menos é esse dinheiro que não gasto nos psicólogos, o que é sempre bom porque:

1)    Faz sempre falta para outras merdas bem mais necessárias,

2)    Tenho mais que fazer e, aos anos que me conheço, já me vou conseguindo domesticar.

 

Mas sabem que se há alturas mais propícias para a escrita, o Verão (é mesmo com maiúscula! Como eu aprendi na escola! Que se amole o acordo ortográfico e essa trampa de se aprender a escrever com a quem ensinámos a língua!) não será seguramente uma delas, sobretudo para quem gosta de não se deitar de madrugada, para quem prefere, em vez de estar a noite inteira a escrever, de passar o dia na água, a recriar-se em ambientes aquáticos, como eu.

 

Depois, a vida também nem sempre se propicia a isso, sabem. Confesso aos leitores que estive envolvido num processo de tentativa de progressão na carreira, ainda sem fim à vista, mas que me ocupou mentalmente durante 2 anos!!!!!! 2 anos, repito!, desde Junho de 2019, até Julho de 2021, e foi de uma exigência, uma pressão (porque havia sempre trabalhos a fazer e a entregar com data limite) de 7 dias por semana, a todas horas todas em que estava acordado! Tinha um tempinho morto e… em vez de um simples jornal, uma revista, uma série, um filme… obrigava-me mentalmente a ir estudar. Sei que sou o meu mais duro crítico! Verdade!

Eu creio… não! Eu estou certo que em toda a minha vida académica de 17 anos de volta dos calhamaços, nunca tive de me submeter a uma prova de tal espessura, envergadura e dureza!

Só para dar um relance, na prova final, composta por 15 questões de escolha múltipla (de difícil interpretação, duras, extensas, cuja busca da resposta certa obrigava ao mergulho em mais que um código, com difícil opção porque por vezes, se diferenciava apenas por uma ligeireza semântica), um caso prático (que teve de ser sempre articulado com o código, cuja resolução, apesar de saber trabalhar com as fórmulas que sempre nos acompanham, tem um cálculo que é realizado, no dia-a-dia, mais pelo computador) e uma pergunta de desenvolvimento (toda baseada na lei e… manuscrita, por alguém que tem uma caligrafia que há 20 anos é… datilografada!!!… no pc e quando vai ao sabor da pena, sobe às maiúsculas, para os outros poderem compreender)… não foi mesmo nada fácil! Depois de 3 horas de luta intensa com o “bicho”, tive de me render e ceder ao colega vigilante que me disse, com complacência, quando o gongo tocou: ó colega…. já não dá mais.  Depois de 3 horas!!! 3 horas!!! E eu…a caminhar para os 50! e há pouco mais de 10 atrás… estava em coma induzido com um traumatismo craniano de grau 6 na escala de Glasgow (de 3 a 15, quando quem tem 3, em 10, safam-se 2!) Isto não é desculpa para nada!!!! Atente-se bem!!! Mas é só para desabafar e dizer que... não foi fácil!

 

Avancemos! Isto é mesmo muito da minha vida: envolvo-me naquilo que gosto mesmo (escrever), lançam um livro de memórias da minha freguesia (Beirã) e daquela onde resido há 20 anos (S. A. Areias), tenho a honra de me convidarem para participar (bem haja, Prof. Dr. Jorge de Oliveira), bem como para o seu lançamento, e eu… pelos motivos abordados nos últimos parágrafos, estou deslocado em Lisboa.

 

Seja como for, foi um prazer imenso. Como autor, tive direito a diversas separatas mas, vou passar a transcrever aqui, no meu blogue, nestes tempos mais próximos, os diversos capítulos da minha vida, devidamente ilustrados com fotos do arquivo particular.

 

Por último, mas não em último lugar, sai o meu pedido de desculpas e o meu total apreço, para os meus leitores que nunca deixaram de passar por aqui, para tentarem saber mais alguma coisa! Bem hajam! Um escritor, mesmo que seja de algibeira como eu, que não é lido, que não tem audiência, ele sabe que deixa registado, mas não é escritor. Para que a comunicação passe, para além do emissor, do objeto e do meio… tem de haver quem receba, ou então não acontece!

 

Os 14 anos deste blogue têm assistido a diversas mudanças na nossa sociedade, transversais, a todos os níveis, mas no cibernético, o facebook (no meu caso), bem como outras redes sociais e o relacionamento que delas advém, têm roubado muito espaço a este meu cantinho, pela facilidade de projeção através do smartphones, e pelo comodismo, confesso.

 

Se é verdade que grande parte da minha exposição pública é ali feita, gosto sempre que quando o assunto é de maior importância para mim, ou um com alguma regularidade (semanal, quinzenal) subam ao blogue.

 

O que eu prometo a quem faz o favor de ouvir este maluco a “falar”, é que vou passar a passar mais por aqui.

 

Desfrutem!

 

Beirã…

o meu horizonte longínquo (sobre carris)

Depois de Lost Horizon, de James Hilton (1933)  

Lugar paradisíaco situado algures, sede de panoramas maravilhosos, onde o tempo parece que parou, num ambiente de felicidade e saúde, com a convivência harmoniosa entre pessoas das diferentes classes


1.       (O) Mergulho



Desafiado a fazer aquilo que mais gosto na vida, sobre um dos temas que me é mais querido, vacilo. Hesito. Arranjo desculpas para ir deixando passar. Conheço-me ao ponto de saber que me vai doer.

Escrever sobre a Beirã, sobre a minha infância, sobre aquela aldeia ninho que me recebeu quando cheguei a este mundo, é reabrir a arca das memórias mais sagradas e preciosas de que sou feito. Ao mergulhar neste túnel do tempo que me há-de levar a esse lugar mítico, que se tem de cingir a uma viagem limitada pelas 20 páginas tabeladas pelo meu editor, sei que reencontrarei memórias, pessoas, lugares e espaços cujo relato não pode ter outra interpretação senão a minha. A história é sempre contada pelos vencedores, e neste caso, os olhos com que revisitarei todos estes arquétipos serão sempre os meus, os do Pedro, uma criança que vive no corpo de um homem de 46 anos, mas que nunca deixou de se sentir igual àquela que corria as ruas empedradas atrás dos seus amigos, em brincadeiras e jogos inventados por nós. É essa que vejo quando me olho ao espelho todas as manhãs, é essa que ainda estremece de cada vez que uma das suas filhas me trata por pai, e percebo que é de mim que falam.

Dito isto, tenho obviamente de começar por pedir desculpa, se porventura magoo alguém que ainda cá esteja a respirar no nosso mundo, ou acabo por ferir a memória de quem já tenha partido na viagem que se segue para todos, mas o facto de dizer a verdade à luz da minha consciência, do conjunto de valores que me foram sendo passados pelos meus pais, e que tenho aprendido ao longo da vida; descansa-me, serena-me, deixa-me ficar em paz. Por isso, o que digo daqui para diante, pode não ser bem a verdade para todos, nem para alguns, mas é a minha,

Tudo isto, e o facto de considerar, sem qualquer tipo de imodéstia, que sou uma pessoa naturalmente boa, que apenas busca o bem, o seu e o dos outros, fazem com que me tranquilize ainda mais. Sei que há gente que possa não ter esta visão de mim, mas, como costumo sempre dizer, Cristo, que foi Cristo, com toda a sua história, e até com a cunha do criador… com 33 anos, já estava cravado no barrote, por isso… quem não gostar….


(cont.)

terça-feira, 25 de maio de 2021

Bye, Robert... (see you, pal!) - a triste história do meu amigo António Joaquim Barradas

 
Assim te guardarei sempre...

Há textos que vêm ter connosco, e por mais que pensemos que não os queremos fazer, ou que nunca tenhamos equacionado que poderiam vir a acontecer… a verdade é que saem... acho porque têm mesmo de ganhar forma.

 

Lembro-me do Francês desde sempre. Um bom par de anos mais velho que eu, a sua cara sempre foi por mim associada a Castelo de Vide, que era a terra onde vivia, e para onde regressou depois de ter estado emigrado em França, com os pais. Associo-o muito àquela fase em que a vila viveu um boom de drogas duras, e foi muito martirizada pelo consumo desenfreado de estupefacientes, que levou duas ou três figuras que ficaram míticas pela tragédia, como o Reinaldo, o Boto e mais tarde, o João Saleiro, pouco mais velho que eu.

 

Rezam as lendas que regressou na frente dos velhos, com uma massas, fruto do trabalho destes, mas que muitas delas arderam na voragem do consumo, que o levou.

 

Perdi-lhe o rasto durante décadas e há um par de anos caiu por aqui, quando passou a viver numa casa dos pais ali para o Bolgão, à saída de Santo António, quando se vai para a Portagem. Começou a frequentar a minha boutique de eleição, o meu “Cheers, aquele bar”, a famosa pastelaria Caldeira, sede das babosas, e começámos a interagir os dois.

 

Destacava-se da vulgaridade porque se via que era um indivíduo vivido, rodado, com vistas largas. Na verdade, o francês sabia fazer um pouco de tudo, porque ele já tinha feito de tudo na vida: já tinha servido à mesa nos tempos áureos do Inatel da vila e no Daniel, já tinha sido caixeiro-viajante da Yoplait, onde tinha feito grandes brilharetes e vendas que me ia contando nas nossas muitas conversas de fim de tarde, no bar do Choca, quando ambos largávamos os serviços, e passávamos um bocadinho em tertúlia, antes de ir para casa. Gabava-se muitas vezes de quando tinha vendido livros aos professores, e de como tinha adorado essa fase: desde a forma como dispunha os manuais, a análise que ia fazendo das movimentações destes perante o espólio, como escolhia a altura certa para dar a “bicada” e a mim, divertia-me imenso, o poder aprender com aquelas vivências. Tantas tardes em que antes de nos encontrarmos, passava no Pingo Doce e comprava meio quilinho delas (gambas cozidas, maravilhosas, a 5 paus e pouco) que comíamos com grande deleite. Eu queria pagar-lhas, e muitas vezes lhe dava dinheiro de adianto porque ele nunca olhava a isso.

 

Eu gostava muito dele porque se via que era um gajo rodado, vivido e dava vontade de estar ao pé do Robert de Niro, com quem muita gente a achava parecido, E era, de facto. O fascínio passou para admiração quando me contou como se tinha deixado envolver pelas drogas duras, e se tinha conseguido livrar delas… sozinho!!! recorrendo unicamente a comprimidos… para o aborto!!! cujo consumo o levou a estar noites noites acordado, sem conseguir dormir. O Tonhe Jakim, le franciú, como eu o tratava e ainda tenho, e terei sempre, o seu número de telemóvel gravado, era gajo teso!

 

Contou-me montes de histórias loucas de consumo em Espanha, do que tinha feito, como, e como sempre se tinha serpenteado por entre as guardas daqui para não ser apanhado. As suas histórias da droga acabavam sempre da mesma forma: a lamentar-se de todo o mal que fez à sua mulher, uma jovem que nunca conheci, mas sempre descreveu como alguém superior, que tudo suportou até… não ter dado mais. Professora de música, perdeu para as drogas e também o amor que tinha a quem com quem queria ter contruído uma vida a dois.

 

"Mas tu mais alguma vez tentaste saber dela? Falar com ela? Pedir-lhe desculpa?!?!? Eu sei que ela agora já está novamente casada, e refez a vida, mas se te conseguisses reconciliar com o passado, isso faria toda a diferença, porque te tranquilizaria, certamente.”

Nunca consegui. Era o medo a falar mais alto.

 

O António era um gajo do caraças a trabalhar, hã? Grande artista com motosserras, e outros aparelhos de corte, foi conseguindo ter sempre mercado de trabalho, o que lhe garantia uma boa almofada económica. Na verdade, ele sabia tomar conta de um jardim (e era isso que fazia ao Dr. João Pires, que o tratava como família, e a quem ele adorava), fazer de pedreiro, ele sabia fazer um pouco de tudo, e fosse na lenha, na apanha da azeitona, ou noutra cena qualquer que desse guito, ele não tinha medo e estava lá! Para culminar, há tempos, a câmara abriu concurso para conseguir pessoal para as juntas, ele pediu-me ajuda e lá conseguimos fazer um currículo que enaltecesse todas as suas qualidades, e acabou por ficar, para grande alegria, não só dele, mas minha também.

 

Nessa altura, dizia-lhe eu em piada, “só te falta… uma Mulher que te oriente”, porque todos precisamos de uma!, e até lhe ia dando uma ou outra pista de companheiras interessantes, analisadas as questões desse prisma.

Que não! Que estava muito bem como estava, com as duas cadelinhas, a Violeta, que ele amava de paixão, e com a qual conduzia na sua Vespa, com ela montada no banco, numa imagem de grande estilo!; e a mais nova, seria (Panda?), que tratava como ninguém, e a quem nada faltava.

 

Sempre risonho e bem disposto, era um gajo que tinha apresentação e andava sempre barbeado e arranjado, com roupa que dantes era sempre de marca, como ele dizia, até que… se deixou enrolar pelo álcool. 

O álcool, a ele, como a todos nós, quando em excesso, só nos apequena, diminui, faz regredir, ser menor. O António, deixou-se levar, levar, foi caindo numa espiral de destruição, e mergulhou de cabeça no olho do furacão da desgraça. Foi-se desleixando ao ponto de ter perdido o norte. As conversas deixaram de ser interessantes e começaram a ser repetitivas, entediantes, a barba foi ficando por fazer, a roupa seria muitas vezes aquela com que dormia, e o asseio foi-se perdendo. As pessoas foram-se afastando mais dele, e eu, para o castigar, e lhe mostrar que no meu entender, aquele caminho também não era o certo, também deixei de lhe abrir o flanco. Muito me doeu, mas tinha de ser, para um bem maior.

 

Quando estávamos mais juntos, no passado, e havia uma comunicação de amizade sincera, que era mútua e profunda, e ele sempre me agradeceu muito o apoio que lhe dei para conseguir o seu emprego, chegámos a almoçar semanalmente n’“O Castelo”, do meu primo Jorge, com pagantes de “uma vez tu, outra eu”. Num dia destes, quando já estava em órbita (bagaço ao pequeno almoço não augura um bom dia, a ninguém), ligou-me para me convidar para ir beber café com ele, e eu, que tinha almoçado no serviço, agradeci mas recusei porque já tinha tomado, mas aproveitei a ocasião para lhe fazer um último pedido para que atinasse.

“Por favor, António! Eu recordo-me quando foi do confinamento, e dos bares estarem fechados, de tu me teres confiado que te sentias fantástico por não beberes! Eu recordo-me da tua cara de alegria por esses dias, da tua sensação, do teu alívio, até pelo que poupavas por não beberes. ÓPÁ, EU PEÇO-TE POR FAVOR: NÃO BEBAS!!! NÃO BEBAS!!! Vamos ver de um tratamento qualquer, vamos aos alcoólicos anónimos, vamos à merda, mas a um lado qualquer que te possam ajudar!!! Beber é um prazer da vida quando há regra, porque o álcool é uma víbora!”

 

A partir daí, o álcool que ia tendo sempre dentro dele, e o seu feitio muito pessoal e particular, que tinha a ver com o passado elitista dos dinheiros de França, dos consumos exagerados, de alguma fobia da perseguição; encostaram-me à boxe e eu passei de “Pedro Amigo”, para “Pedro Pressão”, e deixei de contar.

 

Quando decidi triocar o meu Caguincha, e me ofereceram um valor ridículo e uma pechincha por ele, o Francês que se mostrou sempre interessado no bólide, chegou-se à frente. Eu disse-lhe: “meu amigo, é assim: o que eu peço são os 100€ que a destruição me dá por ele, mais 200€ que investi para passar na Inspeção.” Ele, muito aprumadinho, no dia a seguir foi ter comigo à Conservatória, bateu a nota e ficou selado! Isto era como ele era! Sem espinhas!

 

Há dias, dizia-me ele que cansado, extremamente cansado (o que seria certamente natural porque dormia pouco, e trabalhava muito), mas se calhar já pouco sóbrio, foi contra um muro perto da sua casa e deixou-o ali com a frontaria toda escavacada, onde está ainda hoje, o que tem causado grande celeuma às pessoas que me conheciam no carro, e comentam; mas o Sabi espetou-se?!?!?!

 

O António não teve por aqui muitos amigos. Teve dois ou três bons amigos, que se preocuparam com ele e o queriam bem, mas sempre teve muitos anticorpos, muita gente que nunca o quis ver, porque ele também não era o mais fácil e dócil. Tinha a sua cena…

 

Há uns 5 dias, uma amiga mútua, a Teresa, companheira do saudoso Peter, que nos deixou também derreado ao álcool, ligou-me e estivemos durante muito tempo ao telefone a falar sobre o António. Perguntava ela, porque sabia do amigos que éramos, em conforme achava o estado dele. Eu contei-lhe tudo, agradeci-lhe imenso a chamada, e ofereci-me para ajudar no que fosse necessário, embora achasse que nessa conversa, talvez fosse preferível ir ela e a Tânia, outra amiga de sempre, para ambas, que ele muito considerava, tentarem usar o seu charme feminino e dar-lhe a volta.

Nessa tarde, fui ao Chocolate desenjoar o estudo tributário que estava a fazer, e soube que alguém tinha dado com o António mal em casa, em coma alcoólico, tinham chamado o INEM, e o tinham levado para o Hospital.

 

“OH! Porra! Tenho de lhe ligar, pensei! Amanhã vou ligar-lhe!”

 

Vim para casa, voltei aos estudos, e mais tarde nessa mesma manhã, a Teresa com quem tinha estado a falar no dia antes para se tentar encontrar uma solução, mandou-me uma mensagem pelo Whatsapp, que eu nem quero voltar a olhar para ela, mas falava qualquer coisa em lamentar por já irmos tarde.

 

MAS TARDE COMO, POR DEUS?!?!?!?!?

 

Infelizmente certo que estas notícias tão tristes, quando saem… têm sempre razão de ser, fiz dois ou três telefonemas e… sempre era verdade: o Francês fugiu do hospital, correu para uma árvore que sabia que seria suficientemente forte, e pendurou de vez todos os seus problemas.

 

A dor que me atravessa o coração é lancinante, dura, fria, e jamais desaparecerá. Eu quando sou Amigo, sou Amigo mesmo, não é apenas para aparecer a sorrir ao lado no facebook. Eu gosto de olhar para mim como sendo um daqueles amigos que deixam tudo para ir atrás do que precisam, mesmo que não precise de nada que nós possamos fazer, como aqueles que eu sei, foram atrás de mim para Lisboa, naquela madrugada de 30 de Julho de 2011, em que tive o acidente e ia morrendo.

 

Recebi esta notícia tão dura na quinta-feira, em véspera de ir para Lisboa para fazer um exame da Autoridade Tributária a que pertenço, e fiquei esbanzalhado, atónito, derrotado, sem chão! Nunca esperei! Nunca me passou sequer pela cabeça, que o desespero o pudesse levar a tal, sobretudo depois de saber do inferno de que ele já se tinha visto livre antes.

 

Completamente em baixo... jamais o esquecerei. O meu amigo.

 

O António era extremamente profissional e como tinha nível, atraia pessoas com categoria como a do Dr. João Pires, que o aperfilhou como capataz da sua finca; a Teresa do Peter; a Tania Martins do Trainspot que ele sempre elogiava porque dizia que trabalhava mais e melhor que dois homens, ou o Eng. Ricardo Sá, que comprou a sua casa na Água da Cuba, e de quem passei a ser amigo, também. Pessoas normais, mas absolutamente genuínas e boas, francamente boas.

 

Hoje, alguns juntámo-nos à conversa no final do funeral, ao qual eu já não esperava ter podido ir (porque me ausentei e soube de forma que me deixa a pensar, minutos antes de se ter iniciado), e todos concordámos que foi uma profunda depressão, potenciada com o inflamável combustível do álcool, que levou a este triste fim.

A minha dor, enquanto Amigo que falhou, não terá fim, e durará sempre tanto quanto eu. Não fui suficiente, não fui capaz, falhei!

 

Se eu ao menos lhe pudesse ter dito… que ao fechar o livro da sua vida desta forma abrupta… rasgando-lhe assim as últimas páginas que poderiam ser douradas, rendeu-se, foi fraco em toda a bravura que se necessita para se cometer um ato destes, e entregou-se… ao lado de quem o deveria ter ajudado e nunca lhe deu a mão… que poderia ter feito toda a diferença.

 

Ele… que me confessou tantas vezes, a revolta que sentiu por ter visto que a mãe não teria um funeral católico, se soubesse que as suas exéquias foram expressas com português do Brasil…

 

Mas na quarta-feira, meu irmão, a missa do nosso Amigo Padre Marcelino, com quem estivemos tantas vezes em tertúlia no final da eucaristia, vai pela tua intenção, te garanto.

 

Jamais esta data será esquecida no meu calendário.

 

Até sempre, Robert! See you, pal!

sábado, 24 de abril de 2021

E ainda... o Carlos (do Carmo)


Ocupado com outros afazeres mundanos muito mais sérios, profissionais, e de cuidado, tenho pena de não passar por aqui a respirar tanto quanto gostaria.


O mais que consigo é ir dando uns sopros ao facebook, até que, pelo menos esta fase mais exigente, assim o queira.


Quando o assunto é mais sério e merecedor de destaque, sobe aqui. Como este.


Nos dias que correm acho que já ninguém corre a comprar discos, pelo menos como era dantes. Quase toda a gente tem forma digital de aceder a eles, seja por subscrição de serviço (que ainda pode ser baratíssimo e com grande qualidade, quanto o meu youtube music), por acesso ao gratuito do Spotify, ou gamando (que isso nunca se há-de acabar, pois é?).


Acabei de ouvir a obra de edição póstuma do Carlos do Carmo, "E ainda...", que partilho legalmente abaixo.


Digo-vos que é assim qualquer coisa: extrema qualidade musical (na composição e execução), sublime leque de letras (com poesia também do nosso tempo! Atente-se ao tema Mariquinhas.com), e a assombrosa voz de sempre .


Nunca fui particular admirador da figura, embora claro que sempre lhe reconheci o enorme e assombroso talento vocal e musical, bem como o papel preponderante que teve na luta contra o fascismo, e o Estado Novo.


Hoje fiquei absolutamente rendido. Quando um disco fecha com o recentemente desaparecido a dizer: "Cantar, dizem, é um afastamento da morte. A voz suspende o passo da morte e em volta, tudo se torna pegada da vida."


Porra! Que forma de terminar um disco, uma carreira, uma vida. Façam um favor ao vosso tio, façam: cliquem abaixo para ouvir este bálsamo... de vida!


Carlos do Carmo - E ainda... (2021)

https://open.spotify.com/album/5TcBz0g04VD8Zhw1ulh8lR?si=TniHjnu7Q5yDOZEdygoy3w


sábado, 10 de abril de 2021

E a montanha pariu... uma minhoca!

 

Texto dedicado aos capitães de Abril, que apesar de serem patentes, e certamente não estarem assim tão mal na vida, em termos pessoais, a arriscaram pela liberdade de todos nós, para que possamos fazer isto: DIZER O QUE PENSAMOS!

 

Bom, então é assim: a estas horas já praticamente toda a gente opinou sobre aquilo que se passou ontem: os comentadores mais bem informados e influentes no ecrã, já escamotearam o assunto; os cronistas mais encartados já lavraram as suas retóricas, uma legião imensa de novos cibernautas, nesta vertiginosa era do facebook, já construíram as mais imaginativas piadas, mas… eu, o Pedro Sobreiro, não fico bem comigo mesmo se não deixar escrito o que me vai na alma:

 

Desilusão. Uma profunda e sentida desilusão é o que me assombra hoje.  Não por querer ver sangue, não por querer que role a cabeça de um suposto inocente, não por querer que aquilo que os jornais sempre acusaram seja, como disse o juiz Ivo Rosa, a sentença final; mas porque tudo me parece tão bizarro, estranho e inconsequente, que não consigo parar de me sentir indignado.










Regra geral, os comentadores manifestaram que, para a grade maioria da opinião pública, nada disto faz sentido, e esta é uma rude e violenta machadada sobre a visão que tem sobre a justiça. Pois bem, pelo meu passado e pelos anos de estudo que tenho na minha vida, mais de metade (porque ainda continuam), mentiria se não dissesse que me considero um pouco mais bem informado que essa opinião pública (com pouca escolaridade e acesso à informação) de que tanto falam, mas tenho de confessar que também eu… não percebo nada do que se passou.


Não precisamos de ler na íntegra as 6.728 páginas as que constituem a decisão instrutória da Operação Marquês, e cujo resumo o juiz Ivo Rosa levou mais de três horas a ler, para se saber que dos 189 crimes que constavam na acusação, apenas 17 vão a julgamento, repartidos por cinco dos 28 arguidos que chegaram a esta fase processual.

 


Para mim, basta-me as capas dos jornais e as paragonas dos noticiários de ontem. Com que então?

 

O que importa saber é que o juíz este, arrasou a acusação do Ministério Público, que considerou com "falta de coerência", "especulação, fantasia", e de 189 crimes, apenas validou 17, o que fez com que das 31 acusações, apenas considerou 6: 3 por branqueamento de capitais e 3 por falsificação de documentos.

 

E porque é que passou a ser este, e não o Carlos Alexandre, que levantou a lebre e a meteu a correr em campo aberto?

Tanta história, tanto crime, tanto dinheiro gasto em luxúrias em Paris, tanta mordomia e altivez, para cair tudo assim por terra??!?!?

Será que o homem se vai mesmo sair assim a rir?

Agora o Ministério Público vai voltar à carga e pedir recurso para o Supremo mas… nunca mais será a mesma coisa.

 

E que me dizem do caso Ricardo Salgado neste teatro de fantoches da operação marquês? É que o juiz Ivo Rosa considerou que os alegados crimes de corrupção atribuídos aos arguidos José Sócrates e Ricardo Salgado, ligados ao Grupo Espírito Santo prescreveram em 2015, citando o Tribunal Constitucional para afirmar jurisprudência em relação ao assunto.

PRESCRIÇÃO?!?!?!?!?!?!?!? Mas como assim, se andam nesta merda há tantos anos?!?!?!?!?!? Como é que o portuguesinho do povão poderá perceber isto, se  nem eu que toda a vida andei a marrar neles, e consumo tudo o que é notícia na rádio, tv, jornais, disco e cassete pirata, percebo um boi desta jangada…



 
O JURISPRUDÊNCIA DO TRIBUNAL CONSTITUCIONAL ajudou, ou seja, as decisões tomadas em casos passados congéneres ajudaram a que este juiz decidisse assim??!??!?!?!?!?!?

Porrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!!!!!!!!!!!

Agora, segurem-se bem para esta: Quanto aos 12 milhões de euros que circularam entre as contas de Ricardo Salgado e Carlos Santos Silva, o juiz referiu que “não há provas nem indícios suficientes” de que houvesse pagamento dessa verba a José Sócrates.

AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH

AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH

Esta é muito boa, mesmo! Reparem, não estamos a falar uma nota de 20 escudos tirada à socapa da carteira da mãe para jogar matraquilhos, flippers, jogos de arcada, ou para beber umas colas com os amigos! Não é 1, nem, 2, nem 3, ou 4,5,6,7,8,9,10,11………………..TTTTTTTTRRRRRRRRRRRRAAAAAAAAAAAAAAAAMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM!

São 12 MILHÔES DE EUROS QUE… se escapuliram! Épáh… os caramelos dos advogados do Ministério Público, ou seja, o braço jurídico do Estado que somos todos nós, não conseguiram provar que essa quantidade completamente absurda de dinheiro que rodava entre as contas desses senhores, chegou ao dito cujo!!!! POOOOOOORRRAA!!!!


Carros com envelopes cheios de dinheiro, escutas que eu ouvi com o cabrão a referir-se ao papel em linguagem figurada, a gozar à pála do Zé Povinho e agora isto... Ohhhh Deuuussssssss.....  


Olhem, depois da desilusão de que vos falava, a palavra é VERGONHA, salvo seja, André Ventura. É pá, mas é que é mesmo! Olhem, eu tenho de confessar que gosto de trabalhar para o Estado, por muitas razões e mais algumas. Foi um lugar que ganhei no maior concurso da função pública à data, por mérito próprio e sem qualquer tipo de facilitismos, ou alavancos, de que tanto me orgulho. Foi por mim! E acreditem que de cada vez que subo o monte para trabalhar, levo sempre em mim a consciência de um trabalho sério e honesto que é absolutamente imprescindível para que a nossa sociedade, livre, democrática, igualitária, funcione. Sem Autoridade Tributária e Aduaneira, sem os cabrões das finanças como tantos nos chamam (eu ouço…) não haveria escolas, hospitais, forças de segurança, um país a funcionar! Esta é a minha perspetiva diária, garanto. Gosto muito de dar um empurrão útil para que tudo funcione.

 

Estes casos causam-me profunda tristeza em ser português, e até aposto que vamos voltar a virar a chacota internacional dessa malta que olha para nós como os PIGS, (https://pt.wikipedia.org/wiki/PIIGS), os enjeitados, os atrasados do continente.

 

“Anda-me esta malta desde 21 de Novembro de 2014, quando apanharam o bízaro no voo chegado de Paris, para passados estes anos todos, e as humilhações das prisões em Évora e domiciliárias, o “deixarem assim sair quase a salvo”?!?!?!

 

Olhem, eu não sei qual é a vossa opinião, mas posso assegurar-vos que agora já não tenho dúvidas absolutamente nenhumas, que isto vai terminar com o caso do seu colega Lula da Silva, que andou para lá em trambolhões para o Brasil com o caso Lava Jato, e agora já aparece como uma fénix renascida da cinza, que alguns já apontam para o Palácio do Planalto.

 

Vale uma aposta que vai haver vida nova para o Sócras?!?!

Ai eu… 


Ver o vídeo... hilariante: https://www.facebook.com/pedro.sobreiro.14/posts/10208376560809267











domingo, 21 de março de 2021

90 anos de ti, Caly (21 de Março de 2021) - Parabéns!

 



90 anos de ti, Caly (como tu escrevias, quando escrevias… com “y” no final, para dar um toque de modernismo)

 

(suspiro… fundo)

Nem sei bem porque é que faço isto, mas tenho algo dentro de mim que me diz para o fazer. Não sei se será porque me sinto mais próximo de ti, porque sei que há quem leia e se identifique, se será porque me acalma, apazigua, me reconforta, mas a verdade é que me faz sentir melhor, como se tu pudesses ler, se tu pudesses compreender. Enquanto teço estas palavras, com o aquecedor a óleo a dar-me calorzinho nas pernas, nestes dias de sol mas ainda muito frios de Março, parece que estou de volta à tua casa, na Beirã, e aos longos dias que passei sentado à braseira de picão que a avózinha acendia para nos aquecer, contigo, ela e a Maria, a adorarem cada gesto que fazia. Acho que a minha busca incessante por atenção, a necessidade de retorno de afeto, vem daí. “Mal habituado” desde  início.

 

Muitos parabéns, Caly, pelos teus, hoje, 90 anos de vida. 90 anos, hã?!?!? Quem diria que assim haveria de ser? Nunca ninguém nesta família Sobreiro, que eu tivesse sabido, pôde chegar a essa data tão longa. A avózinha e a Ti Bia foram ambas com 86, a ti Mirene com muito menos, o meu pai com 49, menos 41 que tu. Como é isto da vida, hã?

 

O meu grande desgosto é saber-te cá mas… apenas em presença física, como se fosses uma estátua viva daquele ser que nos habituámos a amar tanto. O tal almoço de família em que certamente todos faríamos tudo para estar, não pode ser realizado porque as vítimas do Covid 19, não são só aqueles que infelizmente deixam de respirar, mas também aquelas que sofrem com tudo aquilo que se perdeu à volta, como o ritual do nosso convívio semanal, do qual já há um ano nos vimos privados.





Já há muito tempo que o brilhozinho dos teus olhos se vinha perdendo mas nós, que passamos a vida embrenhados no egoísmo sorvedor dos nossos dias, acho que fomos fazendo com que isso não se notasse, e dificilmente se notava, de facto, porque a Tia Bia, sempre atenta e espevitada, ia sendo a tua muleta que tudo ia amparando. Só quando ela cedeu, e me pediu ajuda dizendo que não se queria separar de ti, mas não conseguia mais sozinha, eu atendi. E foi então, quando te soube entregue e bem cuidada na Santa Casa, ela própria se deixou ir, não nessa noite, mas na outra seguinte.

 


Essa doença marada com um nome de cientista maluco, que pelos relatos da Ti Bia, já tinha assombrado uma familiar nossa mais antiga; é mais uma das que a genética muito provavelmente irá colocar como pedra no meu caminho, e é tão triste porque nos leva o que mais gostamos, e nos deixa cá o invólucro para adorarmos, como se fosse uma saudade eterna em vida.

Quando eu nasci… tinhas tu 42, e sendo o filho do teu irmão mais novo, ao qual levavas 14 anos, caí-te no regaço, na mesma aldeia onde todos viviam, como se fosse ouro sobre azul, não foi?

Solteira, ferida por um desgosto de amor que deixaste em Castelo Branco, com eles os dois a morarem ao fundo da tua rua, e a trabalharem todo o dia, todos os dias, sem creche nem infantário, deste-me o ninho de amor suplente, que muitas vezes se tornou o principal, porque era de noite, estava frio, e se o menino pudesse lá dormir, na tua caminha...

 

Não acredito que hajam preferências à partida, mas a vida e as suas circunstâncias, fazem com que assim aconteçam. O meu irmão Miguel, que nasceu 6 anos depois, quando vocês já estavam na loja, tem uma relação completamente diferente, como é natural. Com os primos, filhos da irmã “’(Pe)Canina”, que sempre viveram na Covilhã, e só estavam contigo 2 ou 3 vezes por ano, também assim teria de ser.



Para quem parte de repente, como foi o caso do meu pai, é um furacão na vida de quem fica, que nunca mais é o mesmo, mas para quem vai, é sempre melhor que seja assim, do que estar preso a uma cama, consciente, a sofrer, a definhar...

O teu caso é diferente, porque graças a Deus encontrámos um lugar na Santa Casa onde não te falta amor, atenção, e muito carinho. Não tenho dúvidas absolutamente nenhumas que são elas, as funcionárias; e eles, todos os profissionais e responsáveis, os principais responsáveis por ainda cá estares rodeada de afetos. Se assim não fosse, nós que todos temos uma vida ocupada, como é que poderíamos?

 

Também é bom que não te apercebas como a tua casinha, o teu quintal que tão bem cuidavas… estão ao abandono, e como aquela que era a nossa Beirã já quase não existe mais. Se não fosse a Anta, e mais um ou outro café, já não haveria nada, comparada com aquela Beirã em alta roda dos anos 80, com muito comboio internacional e de mercadorias, com muitos alfandegários, guardas fiscais, ferroviários, ajudantes despachantes, turistas e crianças da terra, onde a mercearia das manas Sobreiro era um dos pontos de encontro para aquisição de bens, cantina para buchas, bar de copos, e convívio.



Estarás cá, querida, como estamos todos, até que Deus queira. A minha grande tranquilidade é que nessa redoma de vidro onde te encontras, não te falta nada para que te sintas bem tratada e amada, como sempre foste toda a vida.

 

Gostei muito de estar este bocadinho contigo.

 

Beijinho grande, de parabéns do teu,

 

Pedro