segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Daddy cool(‘s gone)


Nestes dias não tenho dito nada porque estou de luto pela morte do Bobby Farrell, o neguinho dos Boney M que anda a abrasar as pistas de dança do além desde o passado dia 30 de Dezembro.
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Uma classe, este homem... O gajo mais cool do planeta e um dos meus ídolos de sempre… Só ele batia o Tony Manero, a inesquecível personagem criada por Travolta no Saturday Night Fever.
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Eu sei que pode não parecer. Mas sempre que piso uma pista de dança… são eles que quero imitar. Não se nota?
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Bobby Farrell não era cantor, mas ganhou o seu lugar na história da música pop enquanto tal. Natural de ilha caribenha de Aruba, viajou aos 15 anos para a Europa. Queria ser marinheiro. Falhou os propósitos iniciais, mas ganhou uma carreira quando, em 1975, se juntou aos Boney M de Rivers of Babylon ou Daddy cool. O "Rei do Disco" morreu ontem, com 61 anos, no seu quarto de hotel em São Petersburgo, onde actuara na noite anterior. Antes e depois do concerto, queixara-se de dificuldades respiratórias, mas as causas da morte não são ainda conhecidas.
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Nascido Roberto Alfonso Farrell em 1949, não gravou nenhum dos êxitos que tornaram os Boney M um fenómeno na segunda metade da década de 1970. No disco sound, música feita de artifício e exuberância, o extravagante Farrell, dançarino em fatos brilhantes onde abundavam as plumas e lantejoulas, surgiu como o seu representante perfeito para as massas. Que não fosse ele o cantor em estúdio (fazia-o apenas em concerto), algo assumido desde o início, era insignificante. Interessava a imagem que projectava: "Quero que a minha música faça as pessoas sentirem-se bem e quero deixar memórias felizes. A energia na minha música não tem limites", lemos na biografia do seu site oficial.
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Os Boney M foram uma criação do produtor alemão Frank Farian. Em 1974, gravou Baby do you wanna bump, a que deu voz e o sucesso da canção levou-o a procurar quem pudesse dar corpo à banda. Bobby Farrell, descoberto quando trabalhava en- quanto DJ numa discoteca, tornar-se-ia o único elemento masculino de um quarteto que estabilizaria com as jamaicanas Liz Mitchell e Marcia Barrett e com Maizie Williams, nascida em Montserrat. Deles, Daddy cool, em 1976, foi o primeiro grande êxito da banda. Nos anos seguintes, Sunny, Rivers of Babylon ou Rasputin mantiveram-nos em lugar de destaque nas tabelas de vendas europeias. Ao final de carreira, em 1986, seguir-se-iam reuniões e novas separações, com a banda a dividir-se por fim em várias ramificações.
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Desde Amesterdão, Bobby Farrell continuava a levar o revivalismo disco sound dos seus Boney M aos quatro cantos do mundo. Morreu em São Petersburgo. Hoje, tinha na agenda o réveillon de Rimini, Itália.
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E porque não resisto... Nível!



Sugada por uma ilusão



A anorexia passou de moda mas ainda faz vítimas como Isabelle
Por Francisca Gorjão Henriques
In Público 31.12.2010
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"Nenhuma rapariga quer parecer um esqueleto", disse uma vez a modelo francesa que morreu aos 28 anos e passou mais de metade da vida a lutar contra a doença

Na Internet há vários sites que defendem a anorexia como estilo de vida e é fácil encontrarem-se conselhos como este: "Lembra-te que às vezes tens de comer. Não muito, claro, mas tens de comer alguma coisa. Certifica-te que comes pelo menos duas coisas por dia". Ou: "Há comida no frigorífico, certo? Errado. Tudo o que está no frigorífico é um falhanço. É mesmo isso que queres?" E ainda: "Limpar coisas sujas pode fazer-te perder o apetite. A casa-de-banho, por baixo do lava-loiças, esfregar o caixote do lixo, qualquer coisa suja ou malcheirosa. A porcaria, misturada com o cheiro da limpeza, poderá afastar-te da comida por uns tempos". Outras recomendações: "Toma seis pequenas refeições por dia. Pega em duas maçãs e corta-as em pedaços para fazeres delas seis refeições. Assim, o teu corpo será enganado e levado a pensar que está a comer mais".
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A modelo francesa Isabelle Caro, que sofria de anorexia e cuja morte, a 17 de Novembro, só foi conhecida há dois dias (morreu com 28 anos), afirmou uma vez: "Nenhuma rapariga nova quer parecer um esqueleto... Não se acredita que alguém queira parecer assim." Mas era com todos os ossos à vista que a própria Isabelle Caro desfilava.
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As causas da sua morte ainda não são conhecidas, nem as razões pelas quais só foi divulgada mais de um mês depois. Em Setembro, terá escrito um email ao seu amigo Vincent Bigler, cantor suíço, informando que tinha estado hospitalizada durante 15 dias devido a uma grave doença respiratória. Sabe-se que esteve a trabalhar em Tóquio antes de morrer, em França.
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Quando o italiano Oliviero Toscani (que fez várias campanhas polémicas para a Benetton) decidiu fotografá-la para um cartaz antianorexia da marca de lingerie Nolita, em 2007, Isabelle pesava apenas 27 quilos, espalhados pelo seu 1,65 metros de altura. Decorria a Semana da Moda de Milão e o cartaz da modelo francesa nua, só pele e osso, peito descaído e feridas na pele à vista, provocou o efeito pretendido: um profundo choque.
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Isabelle Caro sofria de anorexia des- de os 13 anos. Um ano antes da campanha de Toscani pesava 25 quilos e entrou em coma. Na autobiografia A Menina Que Não Queria Engordar, publicada em 2008, falou da sua batalha contra a morte. E denunciava sites "Pró-Ana" (anorexia). No seu blogue descrevia-se como "um floco de neve invisível num nevão, que está a lutar, a lutar para viver, apesar de anos de sofrimento, e que está a gritar a todo o mundo para dizer que a anorexia é um inferno do qual é preciso escapar enquanto há tempo".
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Uma doença genética
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A anorexia nervosa é uma disfunção alimentar (caracterizada por uma dieta insuficiente) que está descrita desde o século XIX. O facto de ser bastante mediatizada faz por vezes esquecer que pertence à lista das doenças raras.
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Pode ser-se extremamente magro, mas não é anoréctico quem quer. O psiquiatra Daniel Sampaio, um dos responsáveis pela consulta de doenças do comportamento alimentar do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, explica ao PÚBLICO que "a anorexia é uma doença de base genética". O emagrecimento "só por si não leva à anorexia nervosa", é preciso que haja uma "vulnerabilidade genética".
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É possível viver toda a vida sem descobrir essa propensão, mas também pode bastar apenas um acontecimento traumático para que a anorexia nervosa se desencadeie. No caso de Isabelle Caro poderá ter sido o facto de lhe terem dito, aos 12 anos, que teria de emagrecer dez quilos caso quisesse fazer carreira como modelo. Pesava então 40 quilos. Daí para a frente começou uma luta contra a alimentação.
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Por muito que emagrecesse, nunca era o suficiente. "Empanturram-nos com comida horrível como um pato gordo. Somos obrigados a ganhar peso [no hospital]. E, assim que nos libertam, voltamos a perder peso. Pelo menos foi o que me aconteceu", escreveu na sua biografia.
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Com uma reduzida taxa de incidência (0,4 por cento) - Daniel Sampaio entende que não fazem falta campanhas de sensibilização: "Falar pode levar a imitações dos comportamentos", diz. É no entanto necessário "salientar a importância da alimentação saudável e de nunca fazer dieta sem um controlo médico".
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Apesar de reconhecer que a anorexia é invulgar, Maria Adelaide Braga, presidente da Associação de Familiares e Amigos dos Anorécticos e Bulímicos, salienta que "a doença tem continuado a progredir" e "há sempre casos novos e graves". Em 2009, a associação fez um estudo em que concluía que em Portugal aparece um novo doente a cada dia que passa.
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Heroin chic passou de moda
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"Quando a foto [de Isabelle Caro para a campanha] apareceu, causou um impacto grande, mas não evitou que a doença continuasse a progredir", afirma Maria Adelaide Braga. Faltam medidas de sensibilização ou até de "proibição de alguns sites que favorecem e dão um relevo positivo à doença". Os jovens acham que a anorexia lhes vai "dar o corpo que querem, esguio e falso". A generalização do conceito de beleza ligado ao peso baixo não ajuda, acusa Maria Adelaide Braga.
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Mas, para o produtor de moda Pau- lo Gomes, a magreza excessiva publicitada ao longo dos anos 1990, do chamado heroin chic, já passou de moda. "Hoje em dia voltaram as curvas. Não se faz a apologia desse tipo de corpos."
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Paulo Gomes realça que as modelos anorécticas aparecem em "casos muito, muito pontuais" - "trabalho há 25 anos e apenas tive um caso de bulimia", outra disfunção alimentar.
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Os actuais símbolos de elegância reflectem "uma mulher saudável", apon- ta Paulo Gomes. Às vezes, a moda surge como "refúgio e é usada como desculpa

Crise?!?!? Mas qual crise?


Só o Alberto João abrasou 19 toneladas e meia de fogo de artifício. Coisa pouca… 1 milhão de euros? Isso não é nada…

Governo Regional da Madeira gasta 5,2 milhões de euros com as festas
Por Tolentino de Nóbrega
In Público de 31.12.2010
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Hotelaria com a mais baixa taxa de ocupação de sempre no Natal e na passagem do ano. Governo diz que a situação é "satisfatória"
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O Governo Regional da Madeira está a gastar cerca de 5,2 milhões de euros nas festas de Natal e de fim do ano, que constituem o maior cartaz turístico da ilha. A verba investida, apesar da crise, é idêntica à que foi gasta em 2009 nos mesmos festejos.Só na queima de fogo-de-artifício na próxima noite, o executivo de Alberto João Jardim vai despender mais de um milhão de euros. A impugnação do concurso de adjudicação do espectáculo pirotécnico foi requerida junto do Tribunal Administrativo do Funchal pela empresa Minhota, preterida em favor Macedos Pirotecnia, vencedora com uma proposta de 1,06 milhões de euros, superior em 40 mil euros à da outra concorrente.
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Este ano, o fogo-de-artifício movimentará 38.486 peças pirotécnicas com um peso total de 19,5 toneladas, que equivalem a 87.250 disparos, mais 10 por cento do que no ano passado. Segundo a Macedo Pirotecnia, este será o maior espectáculo de sempre, no género, e será subordinado ao tema Sentir a Madeira, tendo a duração de oito minutos. Os 40 postos de fogo, incluindo um na ilha de Porto Santo, movimentam mais de 500 pessoas, das quais 276 são seguranças e 98 pirotécnicos.
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Com a capital madeirense iluminada por mais de 400 mil lâmpadas, o programa inclui animação musical com bandas e grupos de folclore a percorrerem as ruas do Funchal, exposições e concertos em várias igrejas. Os festejos prolongam-se até 6 de Janeiro, dia em que haverá actuações de bandas e o desfile das romarias no centro da cidade.
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Na noite de hoje, de acordo com as previsões meteorológicas, o céu estará um pouco nublado no Funchal, estando temporariamente muito nublado no Norte e nas zonas montanhosas, onde podem ocorrer aguaceiros fracos até ao fim da manhã.
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Hotéis com menos procura
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A taxa de ocupação nos hotéis madeirenses na passagem do ano situa-se nos 77 por cento, revelou ontem a secretária regional dos Transportes e Turismo. Conceição Estudante considerou esta percentagem "satisfatória", apesar de ser inferior aos 90 por cento atingidos em 2009 e nos anos anteriores.
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"Ao fim de oito meses de uma grande tragédia ocorrida num destino tu- rístico, é um excelente resultado, porque ao nível de organizações internacionais a constatação que se faz em termos de recuperação de locais afectados é que só acontece ao fim de um ano, pelo que a Madeira regista uma ocupação satisfatória", frisou. A governante traçou como grande objectivo para o próximo ano "a recuperação da imagem da Madeira como destino recuperado".
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Com a sua mais baixa taxa de ocupação hoteleira de sempre nesta quadra, a ilha deverá registar no final do ano uma quebra recorde na sua principal actividade económica. Só entre 1 e 27 de Dezembro, o aeroporto da Madeira perdeu cerca de 10.700 passageiros (em relação ao ano passado), uma perda a que não será alheio o mau tempo registado na Europa.
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Ao contrário das restantes regiões do país, a Madeira não conseguiu inverter as perdas dos primeiros meses de 2010. Em Setembro, voltou a ser a única excepção no retrato de recuperação do turismo nacional, apresentando uma quebra de 3,1 por cento nas dormidas e de 1,2 por cento nos proveitos hoteleiros, num mês em que os indicadores globais apontaram para subidas de 7,8 e 6,6 por cento, respectivamente.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

As 2010 goes by...

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Este desenho foi feito ontem pela minha Leonor. A amiguinha que estava cá em casa a passar a tarde com ela, pintou uma princesa gótica, o que até é mais apropriado para a idade, diga-se de passagem. O desenho não tem muito a ver com o ano novo mas é, sem dúvida alguma, um grande começo. Se todos pensássemos assim... de certeza que 2011 seria beeeem melhor.
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Não sou daqueles gajos com uma memória prodigiosa, que se lembram de tudo e mais alguma coisa. Não sou. A minha memória é uma amálgama de sentimentos e sensações que se mesclam sem qualquer respeito cronológico. Faço o filme à minha maneira. Quando vejo os balanços do ano nos jornais ou na televisão fico sempre surpreendido. A minha memória e o calendário vivem em ritmos diferentes.

É por isso que tenho sempre alguma dificuldade em fazer balanços (sem recorrer a arquivos, porque isso é batota. É fazer um exame com cábula.) sobretudo quando abrangem períodos mais longos. Mas posso tentar…

Este foi o ano em que o meu Deus e o destino me deram a graça de ter outra filha e isso é quanto basta para ofuscar todas as outras memórias. Não há nada na vida de uma pessoa que supere isso. É o sentimento maior. A chegada da Alice (cheia de garra e genica…) foi o acontecimento de 2010.

Este foi o ano em que o Benfica foi campeão e aqui tenho outra magnífica desculpa para não me lembrar de mais nada.

Foi um ano complicado em termos de saúde. O ano abriu com a operação da minha mãe e terminou com duas minhas. Eu, que raramente faço as coisas bem à primeira, tive de repetir “a dose”. Não foi fácil mas tudo está bem quando acaba bem e isso é o que interessa. Quando se está com os costados enfiados na cama de um hospital é quando melhor se percebe o fácil que é ser-se feliz. Tão simples… Porque será que temos tendência para complicar?

A nível nacional foi o ano da crise, com muito desemprego, muita gente a passar mal. Fechamos o ano com o país num buraco. Somos um barco à deriva e olhando a tripulação, não vejo, com sinceridade, quem possa deitar mão ao leme. Esperemos que venham dias melhores mas acho que vai demorar…

A nível internacional, o cardápio não foi muito diferente do de anos anteriores: crise, guerras, fomes, catástrofes naturais para todos os gostos… o habitual para gente que não se respeita, num planeta que não é respeitado. De mal a pior…

Foi um ano marcado pela internet, sem a qual já não sabemos viver. Para mim é A invenção da humanidade, de sempre, e a história ainda agora vai no início. A extensão das suas possibilidades é inimaginável. Basta dizer que os dois acontecimentos maiores de 2010: o boom do Facebook e o escândalo do Wikileaks não seriam possíveis sem ela, e com isto diz-se tudo. Na nossa Europa há já quem questione os Estados… A ver vamos…

Eu chego ao fim do ano e penso que eu e todos os meus estamos vivos e de saúde e já não peço mais nada. Eu sei que é um pouco egoísta but… who cares? O resto a gente arranja…

E assim, caríssimos leitores, olhamos 2011 cheios de esperança renovada neste novo ano, à excepção do âmbito desportivo mas não falemos em coisas tristes que a última coisa que quero é estragar-vos a derradeira ceia do ano.

Assim fecho o 2010 agradecendo-vos A TODOS a vossa fidelidade e desejando-vos que este 2011 que entra vos traga tudo o que mais desejam.

Sejam felizes.

Um abraço do vosso

Tio Sabi
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PS: Ser homem é complicado. A gente quer arranjar-se para uma noite especial e não há por onde inventar… As mulheres fazem penteados, metem brincos, sombras nos olhos, dão um jeitinho com o lápis, usam adornos, usam decotes, calçam saltos… Já um já um gajo como eu, ainda por cima meio careca… tem as hipóteses tão limitadas que quase dá vontade de ir nú. Quanto mais não fosse… chocava. Feliz ano novo!!!!

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Porquê? Porquê? Porquê?



Eu também me lembro de ter tido a minha idade dos "porquês", de passar ao dias a fazer perguntas sobre tudo o que mexia, mas quem é que está preparado para um “ó pai, o que é que é um gato esterilizado”? (no seguimento de um anúncio televisivo) quando está prestes a iniciar uma refeição? Ainda bem que não tinha começado a sopa. Era “engasganço” certo...

Agora que já desistiu de reclamar por desenhos animados de cada vez que nos sentamos à mesa, por saber que a hora dos noticiários é sagrada (e lamentavelmente coincidente com a das refeições), adoptou uma postura do tipo “se não os consegues vencer, junta-te a eles”.

Vai daí… entra num debitar de perguntas que jamais parece ter fim…

“O que é o Dia de Acção de Graças?” e no seguimento da explicação… “porque é que os Estados Unidos são um país tão novo e nós somos tão antigos?”, “Porque é que os colonos e os índios combatiam uns com os outros?” e por aí fora… so on and so on até ao “mais infinito”.

Eu até lhe expliquei que hoje em dia, as crianças da idade dela que têm muitos “porquês”, o que é natural e desejável, têm a vida muito mais facilitada do que as crianças do meu tempo. Nós perguntávamos e tínhamos obrigatoriamente de fazer fé nos pais e professores. A contra-prova só podia ser feita numa biblioteca e isso era coisa que ou estava longe (em Castelo de Vide) ou demorava (no caso da ambulante da Gulbenkian). Os poucos que tínhamos sorte de ter enciclopédia daquelas de dezenas de calhamaços também sabíamos que não respondiam a tudo.

Hoje em dia, uma criança como ela tem tudo à distância de um clique. É tão simples como sentar-se no sofá, ligar o Magalhães, ir à net, digitar a palavra-chave num motor de busca e deixar-se espantar à medida que se vai abrindo um mundo de respostas. “Surfar” até ao limite do conhecimento. Neste caso, imagino eu que possa, para além de saber tudo sobre o “Thanksgiving Day”, fazer deste marco um portal para onde quiser, seja na história dos Estados Unidos, na cultura dos nativos americanos… enfim… Devem existir centenas de livros, filmes, documentários disponíveis on line sobre o tema, de borla! (o que ainda é o melhor de tudo).

Hoje em dia é fácil, muito fácil saber-se muito desde que haja curiosidade e alguma acutilância.
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Diz o sábio ditado que “não me dês um peixe, ensina-me a pescar” mas neste caso, até fico feliz que pergunte. Foi a tecnologia que fez com a que os idosos deixassem de ser o repositório último do conhecimento para passarem a ser adultos fora de prazo. Só espero que a net não antecipe as coisas e faça o mesmo aos pais. Ia custar…
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E eu até gosto que ela entre de rompante (como hoje) pela cozinha adentro e pergunte com indignação (perante a notícia): “Mas quem é que é o parvalhão que anda sempre a aumentar o IVA?”.

“Quem é que tu achas, Leonor?”, perguntou-lhe a mãe, num tom de voz conformado.

“O SÓCRATES, CLARO! Só podia!”.

Perdidamente

Numa manobra de zapping, “pesquei” isto na RTP 2. Foi um flash. Um arrepio boquiaberto.




O poema da Florbela Espanca é arrebatador. Um verdadeiro sopro de divindade. Poderia ser a Declaração Universal dos Direitos do Poeta (caso tivesse sido escrita em França. Ninguém aceita uma Declaração Universal seja do que for escrita em Portugal).

A encarnação musical dos Trovante tem toque de génio apesar de ter de vos confessar que nunca fui fã da banda e que prestei muito pouca atenção quando este êxito galgou os tops nos anos 90.

Esta versão “nua e crua” com o João Gil à guitarra, interpretada desta forma tão especial, por pessoas tão diferentes… eleva o tema ao expoente máximo.

Alguém disse “pão para a alma”?
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PS: E deve ser tão bom rapazinho. Tem mesmo pinta de ser “bom tipo”. Tenho tanta pena que aquilo com a Catarina Furtado tenha corrido mal. Onde é que aquela cachopa tinha a cabeça quando “embarcou”com aquele “mal enjorcado” do João Reis. Realmente… Viram-na no Circo de Natal? Xiiiiiiii…. Poderosa! Está como o vinho do Porto…

Este homem não está bom…



Toda a gente viu a mensagem de Natal do nosso Primeiro?

E fui só eu… ou também acharam que o homem está assim… estranho, vá lá?

1. O cabelo está enorme e “mal amanhado”. Dá-lhe um ar mais velho. Desgastado.
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2. Está com os olhos pequeninos e fundos. Aquilo, ou é Xanax a mais ou são os danos colaterais dos excessos etílicos da noite anterior. No dia 25, eu também tinha aquele ar (precisamente) mas eu não tinha que falar à nação (isto presumindo que foi directo. Se não foi… pior!).
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3. Está pálido. Esbranquiçado, mesmo.
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4. A forma como olha fixamente para o teletexto, situado ao lado da câmara, dá-lhe um ar bizarro, um misto de estrábico e lunático.
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5. Aquela de ter uma gravata da cor das luzes da árvore de Natal, não lembra ao susto.
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6. Falar com as mãos é feio. Ajuda a dar expressividade ao que diz, mas…

Quem é que ainda quer ouvir o que o homem diz?

Eu só vi porque a minha filha Alice tinha raptado o comando do Meo.

E já agora… Onde é que andam os assessores de imagem do PS??? Maus!

domingo, 26 de dezembro de 2010

O fenómeno (Tony Carreira)



Por estranho que (me e vos) pareça, eu vi o concerto do Tony Carreira no Pavilhão Atlântico que a RTP transmitiu neste domingo de Natal. Eu tinha de ver. Tinha mesmo de saber como era.

Conhecer, para poder opinar.

E o que vos posso dizer é que o que vi explica o fenómeno e me deixou deveras impressionado.

Em primeiro lugar, fiquei impressionado com a devoção das fãs que lotaram o espaço por completo. Fãs de todas as idades e de todos os extractos sociais que cantaram cada um dos temas em uníssono e sempre com igual fervor. Havia ali mulherio para todos os gostos e mais algum… Altas, baixas, gordas, magras, novas, velhas, havia-as bonitas e feias, mais expansivas ou sofisticadas… mas todas elas em delírio e total entrega e é por isso que eu não compreendo o que é que tanto homem (até de bigode!) lá estava a fazer, Deus meu… Vamos lá ver se eu me consigo explicar…

Eu não via tanta mulher ao rubro desde que vi um dos últimos concertos do Elvis em Las Vegas, já na derradeira fase “barbitúricos /cabedal branco com lantejoulas”. Nesses tempos, o Rei já passava os dias drogadíssimo, bebedíssimo e “completamente fora” mas continuava a ser um músico e um performer absolutamente genial, capaz de comandar músicos e espectadoras com a destreza de um domador numa jaula gigante pejada de leões famintos. No final do show, o Elvis saltou-me do palco e começou a distribuir “beijo na boca” e até alguns “linguados” às meninas e senhoras da plateia que se levantavam religiosamente para o saudar à sua passagem, como que hipnotizadas pelo carisma incontestável. Ao seu lado estavam os namorados/maridos que ou sorriam ou davam umas “passas” no charuto para dissimular o embaraço mas ficavam quedos e mudos. E porquê? Porque um homem sabe reconhecer que perante uma força da natureza daquela ordem, não havia nada a fazer. Qualquer um se rendia e eu, que já pensei no caso, juro-vos que no seu lugar, reagiria tal e qual como eles e até seria capaz de fazer muita força para não cair de joelhos, adorando logo ali o mito. Ora, o Tony Carreira não tem nada disto.

O Tony Carreira não é um homem bonito como era o Elvis e olhem que eu sei apreciar homens! O Tony tem um rosto simpático mas tem um penteado pindérico, umas “entradas” no cabelo que lhe chegam às orelhas, um nariz adunco (ao estilo do meu), uma dentição muito mal “encavada” e depois… não é fisicamente “mal apessoado” para um homem da sua idade mas aquele crucifixo de ouro a reluzir entre os pêlos do peito… a camisa aberta até ao umbigo… as fatiocas… Enfim… Já o seu filho Mickael e até o mais novito são bonitos dentro do género “carinha laroca”.

O Tony Carreira não tem uma grande voz como tinha o Elvis, ou o Sinatra, ou como tem o Marco Paulo, por exemplo. Tem um espectro vocal muito limitado (a distância entre o grave mais baixo e o agudo mais alto que alcança é curtíssima) e o seu repertório nunca sai dessas balizas castradoras.

O Tony Carreira não é um grande músico/compositor. O Tony sabe que deve 90% (ou mais!) dos seus êxitos ao Ricardo Landum, o verdadeiro Rei Midas da música ligeira portuguesa que, esse sim!, cria êxitos garantidos em tudo o que toca. Os pimbas de sucesso deste país devem-lhe quase tudo. O Tony não é excepção.

É impressão minha ou as músicas do Tony são sempre “mais do mesmo” limitadas à fórmula do “deixaste-me-e-nunca-mais-fui-o-mesmo-e-estou-aqui-a-sofrer-tanto-ai-coitadinho-de-mim”? Atentem nos títulos… “Ai destino”, “Se acordo e tu não estás”, “ Esta falta de ti”, “Depois de mim”, “Sabes onde estou”, “Vagabundo por amor”, “É melhor dizer adeus”, “O que vai ser de mim quando fores embora”, “Tu levaste a minha vida”, “Quem esqueceu não chora”… Se tiverem dúvidas consultem as letras ou ouçam as músicas. De certo que ficarão esclarecidos.

E é este o preciso ponto do texto em que a leitora que é fã pergunta para os seus botões (já irritada…): Mas… se tem tanta coisa má… que raio tem então o Tony Carreira (e já nem falo na piroseira do nome artístico) para triunfar desta forma faraónica?

O Tony é humilde e generoso
. Durante a actuação, rendeu homenagem ao tal Landum, o génio por trás da “máquina”, quando o chamou ao palco e pediu uma ovação para o, cito, “maior compositor da música portuguesa”. Aquela dos “Sonhos de Menino” é de conquistar até as pedras da calçada.

O Tony é sensível e sincero e só Deus (e todas as mulheres do mundo) sabem o fascínio que um homem com estas características pode ter no universo feminino (desde que não seja gay. Se for, jamais passará de amigo).

O Tony sabe estar. Foi notável a forma como evitou a lamechice ao cantar com os dois filhos em palco. Seria fácil agradar por aí mas ele evitou o simples e o óbvio. Ponto a favor. Vantagem e set.

O Tony sabe-se rodear dos melhores. Tinha atrás de si uma “super-banda” repleta de super-músicos capazes de “segurar” até uma marioneta em palco. Das guitarras aos metais, da percussão aos coros, ali ninguém brinca em serviço. Na segunda parte do espectáculo nem sequer faltou uma secção de cordas ao jeito orquestra de suporte. Muito bom.

O Tony tem uma noção perfeita de espectáculo. O tema “Obrigado”, que dedica às fãs, foi o penúltimo do espectáculo e nem sequer faltou uma lágrima que foi disfarçada na perfeição, ao ponto de se deixar ver de soslaio nos ecrãs gigantes. Sabe alternar entre o intimista e o acelerado, os momentos de tensão com os de relax, sabe que está ali para agradar, para dar prazer, para dar espectáculo. Nem sequer faltou um palco no meio do pavilhão onde interpretou dois temas enquanto a segurança ia seleccionando as fãs que podiam subir para o beijinho da praxe. Nível!

O Tony sabe ao que vai, é profissional, é competente, acertou na mouche e sabe repetir a formula para que jamais falhe.

O Tony é grande (para o nosso país), viva o Tony!

Mas eu, se me permitem, no que diz respeito a pimba, gosto mais é da Rute Marlene. E da irmã.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Um conto de Natal

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Acendeu a última beata que apanhara do chão minutos antes e aspirou lentamente o fumo que lhe adormeceu os pulmões. Ajeitou a cabeça na sua cama de papelão, abrigada por uma varanda a escassos metros de uma vitrina chique e fitou as luzes da rua que anunciavam o Natal. A noite caíra há instantes. Com ela veio o frio e uma chuva miudinha que fez acelerar o passo às gentes que procuravam os presentes de última hora. Os presentes de última hora…

Já não se conseguia lembrar da sensação de abrir um, de descobrir uma prenda, de dar… de ter uma só para si.

Por mais dias que passassem, e já tinham passado tantos, não conseguia deixar de perguntar a si próprio como foi possível ter descido tão baixo, tão fundo, como se a força do destino tivesse sido mais forte que tudo por só ela ser capaz de o arrastar para ali. De vez em quando ainda olhava as mãos encardidas, as unhas negras… e mal se reconhecia no vulto barbudo, de cabelo desgrenhado e mal amanhado que lhe respondia num assombro quando olhava as montras da Baixa.

Ao caminhar por entre a multidão, sentia-se sempre como se fosse um barco perdido que remava contra uma maré sem rosto. Eles… certos do seu destino. Ele… desgovernado na bruma, mergulhado em oceanos infernais. Já não prestava. Tinha sido cuspido da “máquina” e por ela esquecido como uma sobra que ficou por apanhar. À margem da vida. À margem de tudo.

Mas houve dias em que também ele foi assim… jovem, com vida, com família, trabalho, futuro e ideais. Também ele desfilava por aquelas calçadas, impecável nos seus fatos de corte à medida, sem reparar na legião de desafortunados que se anichavam aos pés dos edifícios centenários. Mas a sorte tinha-o esquecido e bastou um clique, um imprevisto seguido de uma impressionante sucessão de azares para o deixarem naquele estado. No dia em que a tragédia lhe bateu à porta, todos partiram. Uns nesse preciso instante, outros nos tempos que se seguiram… ninguém quis ser testemunha da sua queda e fugiram dele como se de uma epidemia mortífera se tratasse.

Tinham passado anos e sabia agora, melhor do que nunca antes, que só poderia contar consigo. Na rua não há amigos. Na rua vive-se no limiar básico de sobrevivência, luta-se por existir a cada dia que passa. Sabe sempre bem a solidariedade dos que chegam com uma sopa, um prato quente, uma palavra amiga mas só isso é pouco até para quem nada tem. Eles dão… mas recebem o conforto de se saberem úteis. Até aí… há um retorno.

Já estava cansado de tanto gritar em silêncio. Por mais estridentes que fossem os seus lamentos… ninguém jamais o iria ouvir.

Os seus dias eram tão escuros como a mais negra das noites. Arrastava-se por eles como um vegetal e por incrível que parecesse… só o álcool, que a tantos derruba, o conseguia manter de pé.

Mas naquela noite de Natal, decidiu que não queria uma que fosse como as outras antes. Não queria a “fatia” de bacalhau num prato de plástico, não queria a mesa comprida onde teria por companhia outros mortos-vivos como ele, não queria a compaixão alheia, não queria luzes, nem os sorrisos, nem um daqueles barretes idiotas que lhe enfiavam pela cabeça abaixo para a fotografia. Não queria.

Se não podia ter a sua casa cheia, a mesa farta, o calor da lareira, a árvore plantada num monte de presentes, tudo o que mais desejava dentro de uma sala… não queria ter nada. E assim disse que não à insistência dos outros. Que não! Que queria ficar ali por sua conta, sozinho com a sua cruz, agarrado às suas convicções como aqueles idosos que preferem enfrentar sozinhos o fogo no sopé da montanha, defendendo a sua casinha de sempre, a serem levados pelos braços jovens de um bombeiro salvador. Havia nele uma réstia de dignidade que ainda não tinha sucumbido. A ela se agarrou nessa noite.

Do sobretudo rasgado que lhe servia de pele retirou a garrafa de absinto que tinha encontrado dias antes, numa casa abandonada, e meia caixa de calmantes passada da validade. Deitou-se e foi emborcando a mistura em tragos lentos, enquanto quadros vivos do seu passado lhe passavam à frente dos olhos rasos até que por fim, adormeceu.

“Está aqui! É ele! É ele…”, ouviu a quilómetros. Uma mão pequenina pousou no seu rosto empedernido.

“Paizinho… Somos nós! Viemos buscá-lo… Temos saudades…”.

Esforçou-se por abrir os olhos. Envoltos numa névoa, reconheceu dois rostos que lhe pareceram familiares, a sorrir. “A mãe quero-o de volta… Já temos uma casa… Começámos de novo mas já podemos ajudar. Sabemos onde o podem salvar… Venha connosco…”.

Deixou cair a cabeça num regaço e sorriu.

Fosse o que fosse… para ele… era Natal.
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Feliz Natal a todos. Saibam agradecer pelo que têm.
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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Pessoa... digital e universal

«Fernando Pessoa em flagrante delitro»: dedicatória na fotografia que ofereceu à namorada Ophélia Queiroz em 1929.


Já não é notícia (estão online desde 21 de Outubro) mas é sem dúvida uma excelente novidade saber que os 1140 volumes que constituíam a Biblioteca Particular de Fernando Pessoa, provavelmente o artífice-mor da Língua Portuguesa (e quase sempre em vinha d’ alho… gostava tanto d’um bagacinho…), estão disponíveis na internet e podem ser consultados de forma totalmente gratuita. Um tratado!

Em formato Pdf ou Jpeg, arrumadinhos por autores, datas, títulos ou classes… tudo à mão de semear.

Para aceder a este verdadeiro tesouro, repleto de anotações manuscritas que muito revelam sobre o universo deste génio basta clicar aqui.

O feito deve-se a Jerónimo Pizarro, investigador e estudioso da obra do poeta; a Inês Pedrosa, directora da Casa Pessoa e à Fundação Vodafone Portugal, que entrou com o “guito”. Pretendeu-se com esta iniciativa “tornar Pessoa ainda mais universal e ter a sua biblioteca aberta ao mundo inteiro”.

Notável!

Se ele fosse vivo, mesmo agora íamos ali ao Martinho da Arcada provar o morangueiro…

Para quem lê o retrato possível de Fernando Pessoa, é impossível não ficar rendido…
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“Era um homem magro, com uma figura esguia e franzina, media 1,73 m de altura. Tinha o tronco meio corcovado. O tórax era pouco desenvolvido, bastante metido para dentro, apesar da ginástica sueca que praticava. As pernas eram altas, não muito musculadas e as mãos delgadas e pouco expressivas. Um andar desconjuntado e o passo rápido, embora irregular, identificavam a sua presença à distância. “Vestia habitualmente fatos de tons escuros, cinzentos, pretos ou azuis, às vezes curtos. Usava também chapéu, vulgarmente amachucado, e um pouco tombado para o lado direito. “O rosto era comprido e seco. Por detrás de uns pequenos óculos redondos, com lentes grossas, muitas vezes embaciadas, escondiam-se uns olhos castanhos míopes. O seu olhar quando se fixava em alguém era atento e observador, às vezes mesmo misterioso. A boca era muito pequena, de lábios finos, e quase sempre semicerrados. Usava um bigode à americana que lhe conferia um charme especial. Quando falava durante algum tempo e esforçava as cordas vocais, um dos seus pontos sensíveis, o timbre de voz alterava-se, tornando-se mais agudo e um pouco monocórdico. A modulação da passagem de um tom para o outro acabava por reduzir o seu volume vocal natural e o som então emitido ficava mais baixo e um pouco gutural, tornando-se menos audível. “Nos últimos dez anos de vida, talvez provocado pelo fumo dos oitenta cigarros diários, adquiriu um pigarrear característico, seguido de uma tosse seca. “Embora não muito dado ao riso, Fernando Pessoa tinha uma certa ironia e algum humor, sobretudo se estava bem disposto, o que acontecia algumas vezes quando os amigos mais próximos o desafiavam para jantares. Curiosamente libertava-se então da sua timidez e gesticulava de um modo mecânico e repetitivo, deixando escapar um riso nervoso, às vezes irritante.“Apesar de conviver com os amigos, no fundo nunca deixou de ser um homem neurasténico, solitário e reservado, pouco dado a conversar com estranhos. No final da sua vida, a melancolia e uma exagerada angústia existencial predominavam. Daí a tendência para se isolar dos mais próximos e dos próprios familiares. O seu temperamento ansioso foi interpretado por alguns dos seus biógrafos como uma personalidade do tipo emotivo não activa. No fundo, era um tímido introvertido, dado a fortes instabilidades de sentimentos e de emoções. “Dotado de um carácter bastante complexo, era, apesar de tudo, um homem simples com uma grande inteligência e de uma extrema sensibilidade... era reservado e não gostava falar de si nem dos seus problemas, protegendo o mais possível a sua privacidade. Terrivelmente supersticioso, tinha momentos em que se comportava de uma forma enigmática e misteriosa, a que decerto não seria alheia a sua velha atracção pelo oculto, o esotérico e a própria relação metafísica que tinha com a vida.”
[…]
“Sabe-se, também, que Pessoa tinha algumas fobias: não suportava que lhe tirassem fotografias, não gostava de falar ao telefone e tinha terror às trovoadas.”
[…]
“Sabe-se que coleccionava postais e que era filatelista. Para além de gostar de ler, e a sua biblioteca comprova os muitos livros que “devorou”, apreciava música clássica: Beethoven, Chopin, Mozart, Verdi e Wagner foram seguramente alguns dos seus compositores favoritos.”
“Apesar da sua vida retirada, monástica quase, Pessoa teve amigos. Tal facto não é de estranhar porque era um homem bondoso, de uma grande nobreza de carácter, sempre disponível para ajudar os outros.”

Morreu de cirrose hepática. Tinha 47 anos.