terça-feira, 1 de outubro de 2019

Era uma vez em… Lisboa (d’aprés Tarantino)



Foi uma semana de formação nos Mártires da Pátria, perto de S. José, para determinados funcionários de Autoridade Tributária detentores de uma licenciatura não específica, ou seja, não direcionada em concreto para a área (contabilidade, fiscalidade, economia…); mas que têm a ambição de chegarem à categoria em que deixam de ser adjuntos e chegam ao posto efetivo, principal. Mas foi também uma semana para ajudar a minha filha Leonor a encaixar-se na grande capital; e tomar eu, aquilo a que chamo, um banhinho de civilização.


Toda a gente já sabe de ginjeira que o bicho Sabi não é animal que se dê em grandes urbes. Se forem daquelas que tenham uma aldeia lá dentro, como o bairro onde a minha pequena ficará, daqueles que dá para dizer bom dia a toda a gente, de conhecermos o padeiro, o sapateiro, o homem do talho, a senhora da peixaria, e o barbeiro, que também há lá! embora eu saiba, e ele também, que não era gajo para o ajudar a enriquecer; ainda vá que não vá! Mas, quem me tira o cheiro a campo, a vaquinhas nas estradas onde corro, a ovelhinhas na tapada aqui ao lado da minha casa à noite, ao meu bar onde tomo a cerveja de glória ao final do dia, aos meus 5 minutos para o trabalho sem trânsito, tira-me tudo!

Mas… de quando, em quando… gosto muito de ir ver as montras, de ir andar de metro, de viajar de pé nos autocarros, de ver gente e o que não vejo por aqui. Assim, foram 5 dias, 5 noites, de concentração e estudo, mas também para laurear a pevide.




Há muitas fotos, muitos momentos lindos a dois, muita coisinha que fica nos nossos telemóveis, nos nossos discos rígidos, até e sobretudo nos corações, mas há aqui impressões que gostaria de trocar com os meus leitores, com vocês, a quem sempre agradeço que me queiram ouvir. Quem é que gosta de estar a falar para uma parede?

Esta é uma publicação de muito entretém, que dá direito a muita hora de qualidade, se forem aproveitados todos os brindes multimédia, séries e documentários.

A primeira impressão daquela cidade e que gostaria mesmo de partilhar é que esta Lisboa de hoje em dia, está a anos-luz daquela em que estudei e conheci no início dos anos 90, quase há 30 anos atrás. Bem, desta vez, eu sai do cinema no Amoreiras, era meia-noite, e, como não vinha nenhum autocarro… como me farto de correr por aqui… e aquilo é tudo perto… desci a avenida para o Marquês, e deste para o quarto que tinha ali por cima dos Restauradores, sem qualquer tipo de insegurança, sem qualquer vacilação, sempre a cruzar-me com polícias, municipais e dos outros, turistas nipónicos, americanos e ingleses com sacos cheiros de compras, e por aí fora. Se fosse no meu tempo… o aqueduto das águas livres é ali tão perchinho, o Casal Ventoso morava logo na encosta que dá para a Avenida de Ceuta e… sabem como é que era… desciam para o “56” que me levava para as Olaias como se fossem figurantes da série Walking Dead, com os braços magrinhos todos furados, como se tivessem estado a fazer de tapete numa turma da creche de pontilhado, cheios de caminhos para o tesouro do prazer. Ar esgazeado, olhos baços, calças velhas cheias de linhas de sangue, totalmente alienados, enfim…
Já passou.

Depois, os alfacinhas deixaram de ser como o namorado da minha antiga senhoria, o senhor Rogério, o terceiro depois de dois que tinham morrido lá em casa, nas Janelas Verdes, perto de Alcântara: cabelo curtinho às ondinhas penteadas para trás, nariz bem vermelhinho e redondinho assim pró inchado, a deixar perceber que sempre que ia à tasca da esquina não deixava de fazer gasto, e não era bem em Laranjina C; calça vincada, camisinha de manga curta de malha, palito ao canto da boca, não fosse estar para comer um petisco qualquer sem se estar à espera.
  


 Os habitantes de Lisboa agora são de todo o mundo, desembarcam aos magotes de barcos enormes que estacionam do cais das colunas para Santa Apolónia, e invadem tudo o que é rua, numa busca desenfreada por souvenirs, sejam eles poscards, ímanes para o refrigerator, ou uma tisherte de Lisabona. Enchem e inflacionam tudo, ao ponto de me ter sentado numa esplanada no Terreiro do Paço de um estabelecimento com o sugestivo nome “Catedral da Cerveja”, mas ter esperado tanto, ter chamado de igual forma, e ter passado tão despercebido, que me levantei e sai sem escusas para… ir beber uma imperial no “Martinho da Arcada” onde costumava penar um outro ser confuso, mas bem mais esclarecido, genial e visionário, também homem mas como se fosse Deus… para desta vez ali beber não um absinto como ele tanto gostava, mas uma imperial por 2 euros, ou seja, 400 paus! Livra! E eu e esta minha mania de me estar a lembrar sempre dos escudos, onde é que eles já vão…! Depois a baixa é sempre a baixa e tem ali uma mistura de história que está nas catacumbas debaixo dos pés de quem lá anda, e tragédia que ainda paira no ar desde que a terra tremeu em 1755, e ainda apor ali suspende em todos aqueles espaços ordenados às patas do cavalo de D. José, sendo a direita, a da esquerda. Pergunta para queijo no Trivial Pursuit.


Pois de dia, deu sala de aula, voltámos ao tempo de estudantes, e sobretudo ouvimos. Assim que deu ordem de largueza, da parte depois das 18h, cada um se moscou para onde queria e eu, que fui ter com o piquena assim que pude, fiz com que o banho de civilização fosse de imersão com bolhinhas coloridas e aproveitei para tentar fazer, e ter acesso a tudo o que me está vedado, na simplicidade bucólica do sítio onde tenho a graça de viver.

Na segunda fui aos filmes, coisa que tanto adoro, e faria parte do meu serão tantas vezes, se tivesse um por perto. Pois se o cinema é paixão, e o Burton, o Lynch, o Kubrick, são dos maiores profetas; Tarantino é o Midas e se há um novo por perto, a via encontrada para a sala tem de ser a mais rápida. Qualquer título da sua obra é uma aula de cinema, e desde as câmaras à história, dos atores escolhidos aos diálogos, da BANDA SONORA sempre suprema, tudo ali é perdição. Amo, adoro, quero e espero. Desta vez, a fasquia subiu e já não conta apenas com os atores de fim de catálogo como o esfuziante Steve Buscemi, ou o já infelizmente desaparecido Chris Penn, como no início; mas dispõe de duas estrelas de 1ª água de Hollywood, das mais altas que nenhuma outra desta vez, para encherem uma história que não é rocambolescamente genial como em “Reservoir Dogs”, ”Pulp Fiction”, “Kill Bill”, “Jackie Brown”, “Os oito odiados” e “Django libertado”, mas que é um mergulho profundo na meca do cinema, e num dos episódios mais estranhos e macabros da sua história, o assassinato da Sharon Tate, a coqueluche de luxo que estava grávida de Polanski. Tarantino, vale sempre a pena! Nem que seja para ver um belíssimo Di Caprio com ar lunático a queimar bacanos numa piscina com um lança chamas industrial. Muito bom.


Isto em excelente companhia! Ai se eu os pudesse casar como fazem os meus primes ciganes...
Os filhos haveriam de parecer bonequinhos da Benetton, de tão bonitinhos... Mas enfim...

Olhem, H3O me gusta! É assim que se diz?!?

Há lá idas a Roma sem tentar ver sua santidade, o Papa?!?!?!? Pode um gajo ser feliz a passar uns dias na capital sem ir assistir a uma “missa” do glorioso na catedral?!?!? Impossible! Aqui tenho de agradecer ao meu mano João Carlos Anselmo, o se ter recordado deste jogo nesse dia, e tudo ter conseguido fazer, o meu amor, para com o meu santo sogro terem esticado a passadeira que nos levou aos dois, ao piso 1, num lugar central, para uma noite de sonho. Dirão os más línguas e inbajosos que perdemos, que foi um tropeção, uma cabeçada. Pois digo eu que de cada vez que ali vou, nem sequer é só o resultado que não interessa, como a própria exibição da equipa é o que menos conta. Opáh! Aquilo ali é lindo, é sempre uma emoção, é sempre algo grandioso e uma noite enorme na minha vida! Os alemãos (escrito mesmo assim) ganharam? Olha, que se Volskswagen pelo rabo acima! Eu cá fui muita feliz. Chupem!!!



O mais complicado da noite foi a piquena que nunca mais chegava ao pé de mim, e eu já a salivar com as imperiais a jorrarem da rulote do Alto dos Moinhos;- e o cheiro a belíssima sande de leitão de ficar jantado de uma assentada só, por 5 paus, a desorientarem-me (a melhor parte para um pré-jogo, meu querido Rui Felino! Quem é que depois de conhecer aquilo pela tua mão, quer outra vez as bancas debaixo do viaduto? Nunca!). Liguei, liguei e ela… nada. Até que me atendeu e tinha-se enganado. Estava na Buraca, ou noutro sítio de desterro qualquer e eu, enquanto a aconselhava para perguntar sempre ao condutor que não custa nada e eles sabem sempre tudo, antes de embarcar, influenciei-a a meter-se mas é num uber ou num drone qualquer que a trouxesse para ao pé de mim, e me deixasse ver aquela coisa que queria tanto.


Olha, entrámos a tempo, correu tudo bem e eu, claro, fiz merda ao tentar encontrar a cadeira certa, e fui-me sentar junto ao relvado onde não se via nada bem, e… era o lugar de outros que chegaram logo depois com ar sorumbático.
- “Na, na”, disse-lhe eu, “olha aqui o número no meu bilhetinho, bébé!”!
- “Ahhhh… esse é no piso de cima, amor”, disse o gajão. “AA, não é aqui”, ou o contrário.
- PARIU!!!! Ehhhhhh… Epá. A gente ajeita-se agora aqui, senão vou a estorvar essa gente toda, estás a ver? Queres o meu colinho, ou fazes um jeitinho?”
Depois, foi-se a ver, o nosso lugar era mesmo no sítio mais espetacular, ali ao meio, a meia altura. 5 estrelas! Tão bom que só faltou… ganhar!






Perderamos...
Os macacos dos meus amigos do Puorto...

Dia sim, dia não. Depois de variarmos o peixinho para não comermos sempre carne, já pude ir descobrir se o tremendo hype que há à volta do filme Variações, é apenas o reflexo de uma paixão assolapada de um povo inteiro por um menino que vivia anos-luz à sua frente, que lhe foi roubado pela mais terrível doença do século XX; ou um filme, enquanto obra, que vale algo mais. E vale. Vale cada cêntimo pago em cada bilhete, porque tem um realizador apaixonado que tem a perspetiva certa de dar arte ao público, para que este a consuma e caso queira, admire, venere; e não se esgota na imagem de culto dele próprio como quase todos os portugueses da área sofrem, e por essa mesma razão, é que jamais sairá do casulo.






A propósito deste cometa encantador, e no seguimento da conversa de hoje com o meu amigo Dr. Vitoriano de Sanvimed, sai este documentário mágico que passou há muito, mas estará como a sua música, sempre atual.







E a homenagem a António Variações


A banda a seguir, a que quis dar nova vida à alma das músicas que o génio tinha depositado em cassete, é esta: “Os humanos”, uma superbanda com alguns dos mais geniais dos jovens artistas da música portuguesa, com a grande Manuela Azevedo dos Clã (a seguir, também), o grande Camané (gigante do fado em baixa estatura), ou o querido David Fonseca (um multi-instrumentista multi-facetado).

  
Para fechar a semana com chave de ouro, apesar de tanta insistência, fui só, assistir ao deslumbrante espetáculo “A Severa”, que conta a história desta icónica figura do fado. Após a magnífica francesinha na Tasca Pombalina do Rossio, segui só, depois de a ter deixado no autocarro que a levaria até casa. Enquanto admirava aquilo, só agradecia em silêncio, a sorte que temos de podermos contar com este La Feria em vida. Que nível absolutamente “a la” Brodway, de deixar qualquer um rendido.












Por tudo isto e muito mais, agradeço, peço, e agradeço outra vez.
Era uma vez… uma bela viagem.



Graças a Deus...

Recordando... quando a fomos lá levar...


















sábado, 7 de setembro de 2019

Quando partes... para já não voltares…


Voltar, como és... hoje. Porque esta casa será sempre a tua, e há-de-te sempre aguardar de braços bem abertos, com um sorriso feliz, aconteça o que acontecer.

(ou quando a escrita chama por mim, e preciso de ir a ela, como respirar…)





A pena que tenho de não conseguir chorar ao escrever isto. Mas cá dentro, é assim que me sinto, a chorar. Não de dor, mas já de saudade, e de lamento por ver como o tempo passa tão depressa.

Eu sei que tu sabes que eu sei, que és a minha maior obra de vida. Tu, e a Alice. Mas tu foste a primeira, e isso não esquece.

Já não tenho tanta certeza que consigas compreender a imensidão infinita do meu amor por ti, porque os anos que separam a irreverência e a distância da tua adolescência, chocam com a minha perceção de que estou quase nos cinquenta, e continuo a aprender a ser pai, quando ainda ontem era apenas filho.

Este é um momento, nas vésperas de saberes se entras para o curso de Inglês da Universidade Nova de Lisboa, como tanto queres e sonhas (e parece que assim vai ser, atendendo às tuas médias), para te escrever.

Faço-o aqui no meu cantinho virtual, e não numa carta fechada, porque tenho muito orgulho em ti, e tu conheces-me, sou um homem de comunicação. Sabes que acho que a internet vai durar por muitos anos, muitas gerações, até para outros povos e raças que possam vir habitar o planeta terra. Não consigo evitar ter assim esta esperança vã, de jornalista que nunca chegou a sê-lo, que o que está escrito lá, vai ficar. Como os escritos apócrifos que passados tantos séculos, ainda recordam o que foi, e como foi a criação do mundo e de tudo.

Como tenho andado debilitado da perna esquerda, que sofreu uma mazela/inflamação da minha integração frustrada no mundo futebolístico, fui nadar de manhã, porque aquele, ainda é o único desporto, que tanta falta me faz à cabeça, que  me é permitido fazer sem dor. Querendo chegar mais cedo, entretive-me, como sempre, com os meus colegas habituais, e cheguei um pouco antes, mas já quase em cima da hora do almoço (desculpa).
Fiquei tão feliz por ver como tu já tinhas grelhado de forma notável o salmão (nem cru, nem queimado. Mesmo no ponto!), e conseguido dar a volta ao gás que se acabou, cozinhando as batatas no microondas, como a mãe faz com as batatas doces; que nem te consigo explicar. O lema dos escuteiros é mesmo é esse, desenrascar, dando um pontapé no prefixo im da palavra possível, tornando-a assim.

Depois de comermos, enquanto arrumava a cozinha e lavava a loiça, fizeste um daqueles teus bonecos que adoro tanto, e já não fazia há muito, imitando os mananana dos Marretas. Até a Alice veio a correr, e o Sr. Sizzle ladrou, como sempre faz quando pressente festa cá em casa.


E era tão bom ter conseguido chorar. Já te tinha aqui publicado este video, mas agora estou tão sentimentalão, que se aplica na perfeição.


Com todo este processo da candidatura, apercebi-me na realidade como os tempos estão mudados. Quando fiz a minha, em 1991, há 28 anos atrás (!!!!!! MEEEEEEEEDOOOOO!!!!!!!), tenho ideia que me desloquei a uma escola fazê-la, com tudo muito cheio de papeladas e salamaleques.  Como soube que tinhas de fazer a tua naquela noite, e te vi esparramada na cama, agarrada ao telemóvel, como sempre, disse: LEONOR! MAS NÃO FAZES A CANDIDATURA?!?!?

Resposta da mãe, sempre a tua advogada nestas divergências (chamemos-lhe assim, para utilizar a linguagem da minha Autoridade Tributária): ela está a fazê-la. (chupa e embrulha! Isto sou eu que digo…)

Todos sabemos que o teres um valor muito superior ao último aluno que entrou no ano passado no curso que pretendes, indica que vais mesmo conseguir ficar na Nova. Mas tudo isto me faz recordar a forma atribulada como entrei no ensino superior. Tinha uma média muito boa e confortável, mas também eu sonhei entrar na Nova, que sempre quis que fosse a minha faculdade, mas fiquei áquem. Dessa, e de todas as outras faculdades que meti na candidatura, nas quais não entrei por escassas décimas, e por a ordem ser aquela e não outra! Ao ponto de a senhora que me ajudou a rever a candidatura ter ficado espantada com tanto infortúnio. Se a ordem tivesse sido outra, as majorações também assim seriam outras e daria para ter entrado. Ora isto não aconteceu e por isso mesmo tive de entrar na terceira vaga (a segunda era para os não ocupados na primeira), que dizia respeito aos lugares que não foram preenchidos por quem entrou, e aqui, muito tenho a agradecer aos meus primos Carita, que me apoiaram e ajudaram a ir concorrer ao curso de Antropologia do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, pertencente à da Universidade Técnica de Lisboa, que tinha as cadeiras comuns ao curso de Comunicação Social nos dois primeiros anos, e para esse pedi transferência no 3º ano. Maneira que não consegui entrar pela porta grande para aquela que tu agora queres, mas entrei, pela porta ao lado.

Tivesse sido outro o meu percurso, e hoje provavelmente não estaria aqui, a trabalhar para a AT. Mas a minha mágoa é cilindrada com o pensamento que se assim não tivesse sido, não teria a tua mãe a dormir ao meu lado todas as noites, e sobretudo, não te teria a ti, à tua irmã, e assim percebo que a vida, não é como nós queremos, mas sim como Deus nos-a-dá.

Ninguém te exige metas, ninguém te pressiona para que faças, ou tenhas, ou consigas o céu. O que sim te pedimos é que tu faças desse, o teu trabalho, que sejas profissional, competente, que estudes, e sejas igual a ti própria: linda, inteligente, já culta, bem disposta, amiga, feliz e tomes cuidado, porque agora tem de ser todo e redobrado. Lisboa não é Santo António.

Esforcei-me para te conseguir uma casa do Cofre de Previdência. Graças a Deus consegui-a, bem perto da Universidade, mas… não passou no crivo familiar, que te fez rumar a uma família de uma terra que me é muito querida na vida, e junto da qual te sentirás certamente mais acompanhada, concedo.

Hoje acordei às 6 da manhã a pensar que tinha de te escrever isto, por estar a sentir já saudades do barulho que fazias todas as manhãs, das gavetas que continuavas a bater e arrastar apesar de eu te pedir tanto para que tirasses a roupa de noite, para que deixasses tudo pronto, para eu não acordar às 6.20h quando me fazia tanta falta dormir as 7 horas até ás 7.20h. Saudades disso e do barulho que fazias com as botifarras a descer as escadas, como se estivesses no tanque das uvas em plena vindima. Saudades de te ver dar montanhas de beijos repenicados ao Sizzle que me enchiam de ciúmes por os dares ao bicho e não a mim.
Não te zangues mais comigo pelos comentários parvos e desadequados que possa ter feito informalmente, numa conversa privada na net que apanhaste sobre o teu namorado atual, porque não sabes quanto tempo mais vais querer estar com ele, e ele contigo; enquanto eu serei teu pai para toda a vida.

Saudades de ti, querida filha.

Nunca deixes de ser minha.

Se Deus quiser, terça vamos levar-te a Lisboa, a apadrinhar a tua chegada à cidade, mas ali terás muitos familiares, muitos pontos de abrigo, e um lar à tua espera. 

Mas, voltando ao início, o teu estará sempre aqui.

Que Deus te proteja... Sempre...

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

No 7º céu das 7 Quintas



Vocês já sabem que não gosto de falar do que não sei. Por princípio, é sempre assim. É certo que por vezes sou um bocado expansivo, destemperado, concedo, até talvez um pouco destrambelhado, mas nunca falo (escrevendo) do que não conheço.

Posto isto, tenho de dizer que fomos às “7 Quintas”. Quem tem facebook já sabe. Quem não tem, pode saber agora.

O mano (emigrado em terras dos Al Gharbs) estava cá, a Mãe convidou toda a família para jantar, e nós, fomos.

Já tenho acompanhado à distância, o que por lá se foi passando. Certa vez, num passeio de bicicleta à volta de Marvão, parei-me junto à placa de financiamento, colocada bem à entrada do empreendimento, e por lá vi que rondava algo como os 2 mlhões de euros, tendo a boa da Europa financiado cerca de 80 %, para recuperar uma série de casinhas de campo nas redondezas, e o lagar junto à Fonte da Celorica, que sempre conheci decrépito, abandonado, sem atividade; para ali instalar um restaurante de referência da parte norte do concelho.

De facto, enquanto circulava pela vila, e tomava café, por exemplo; fui acompanhando como um pequeno exército de profissionais dos ramos elétrico, de refrigeração, de trabalhos de maçonaria, e carpintaria, se ia cruzando, por lá. Mas nunca fiz ideia do que ali estaria de facto.

O que eu sim fui vendo à distância, e até apreciando, confesso, foi a notável campanha publicitária que se foi corporizando na página oficial do projeto, e na aplicação do facebook, que a cada publicação, abria ainda mais o apetite, e a vontade de ver e conhecer.



O povo, que é sábio, diz que os olhos são os que comem primeiro, e neste caso, não só se confirma, como não poderia ter melhor auspicio.

Tendo tido conhecimento da enorme procura, sobretudo de comensais chegados do lado de lá da raia, liguei com antecedência para marcar mesa. Procurei o número na net, e do lado de lá, atendeu-me uma voz masculina, muito simpática e agradável, que quebrou o gelo quando lhe disse o nome em que poderia ficar marcada.

- “Não estás a ver quem é que te está a falar deste lado, não?”, perguntou.

- ?

- (risos baixos)

- Eh… Conheço? (voz, e a delicadeza sobretudo, não me eram nada familiares)

- (mais risos) Quem está sempre ligado a isto…?

- (Incrédulo!) Paulo?!?!?!?

- Ehehe… Podes vir à vontade que eu guardo-te cá a mesa…
Mas estás a estranhar porque…

O Paulo Mena, filho de um dos manos Mena, um irmão do Brito, do Dr. Mena Antunes, que foi atleta de corridas do Benfica; é um individuo e uma figura que não se adequava, de todo, ao tom do meu interlocutor nesse então. Um par de anos mais velho que eu, já dentro da casa dos 50, é dono de uma pose e uma postura que não deixam ninguém indiferente. Homenzarrão que aparenta metro e oitentas e muitos, com uma gramagem, que aparenta passar dos 90, e rondar mesmo os 100, tem também mantido uma forma de lidar com os demais ao longo dos anos, que fala por si. Esse ar de lutador de Wrestling não se coadunava com quem estava do lado de lá da linha.
Mas era.

- Então?

- Epá, nada. É uma surpresa!, confessei.


Depois a conversa fluiu para caminhos que nos levaram, pelas muitas pressões que sofreu até ter conseguido levar este barco a bom porto, pelas dificuldades que se lhe atravessaram no caminho, pelo sítio onde trabalho e o relacionamento que tivemos entretanto, mas… tudo está bem, quando acaba bem.

Nessa tarde, por volta das 19.30h subimos a encosta, com vontade de chegar com calma e ir apreciando tudo com tempo. Os acessos, o estacionamento, as entradas, as salas, as mesas, o sítio onde iriamos ficar, e tudo à volta (que pode ser apreciado nas publicações que fazem na intenet)…


Claro que a mesa pensada, na esplanada visível da estrada, seria o local mais aprazível, apesar da temperatura que refrescava com o entardecer. Ali sentados, todos nos deslumbrámos com o que se desenhava à nossa frente: o cair da noite, não no lado mais bonito de Marvão, mas naquele que me diz mais, e é mais “meu”.

Entradas diversas de grande categoria e qualidade, e uma carta que depois de apreciada, revelava muito do que se vai ali passar: uma listagem não muito extensa, mas recheada com pratos muito típicos, nossos, com preços muito em conta, que independentemente de ainda não se saber muito bem se será estratégia de entrada no mercado, ou ser será política a seguir, irá certamente marcar posição no panorama da restauração municipal, para que quem venha por aqui a comer, saiba que do lado de cá do concelho, também se trabalha muito bem a este nível. É certo que existem por aqui referências indiscutíveis de belíssima gastronomia, como o restaurante “Pau de Canela”, o já extinto “Sabores de Marvão”, a inovadora “Mó” ou até outros especializados na dita cozinha tradicional de Marvão como a Casa “Saúl”, ou o café “Costa”, na Ramila; mas toda a gente sabe que o leque forte da gastronomia de Marvão é do lado sul, da Portagem, com os clássicos “O Sever” e a “Churrasqueira do Sever”, a “Casa Mil-Homens”, o “Calha”, e os mais recentes, “J.J. Videira”, “O Tachinho”, “A Tapada do Poejo”, o “Café do Prado – Petiscos da Olga”, “ A Adega” do Porto da Espada, entre outros que eu adoro-os a todos e se me esqueci de algum não foi por intenção e peço desculpa.

O que eu digo é que estas “7 Quintas” vão fazer mossa.

E já estão a fazer! Entre o staff comentava-se entre dentes, o enorme sucesso que o bacalao ha tenido ente nuestros hermanos, que se han quedado de chuparse los dedos. Diz que esgotaram-se sei lá quantas doses, ó valha-me Deus!

Pois a minha rapaziada foi para espetadas, bitoques (a pequenada ainda está a aprender a comer…), e eu rolei de cabeça para o coelhinho com castanhas e arroz com passas… absolutamente maravilhoso (cuja dose rondava os 10 paus e dava perfeitamente para duas pessoas comerem. Como só eu quis, e apesar de não gostar de comer muito à noite, barbeei-o todo, o brrruto!)

A minha mãe reclamou com algum desgosto, senti eu, “pois, só lá em casa é que não comias coelho.”

- O teu mãe… (pensei mas não disse, para não ser indelicado.)

Este… estava magistral!



Os cozinheiros são a filha do Jeremias Marques, o agricultor e produtor que é o meu homem da lenha; e o seu companheiro. Não sei se é ela, se são os dois, mas curiosamente, encontrámo-los fortuitamente no parque de estacionamento quando saíamos, após o Paulo ter tido a delicadeza de nos mostrar os espaços lá dentro, e inclusivamente ajudado a minha mãe a descer as escadas, dando-lhe a mão. As pessoas… com mudam… ou então sou eu que sou ainda mais aparvalhado do que penso!
Pois já que falava com os pequenos, parabenizei-os pela excelsa refeição e sobretudo o coelho que estava… demais!

- Onde é que aprendeste? (perguntei eu à pequena, na esperança de me dar uma resposta que tivesse a ver com a sua estadia no estrangeiro, depois do estudo, ou emigrada…)

- Aprendi com a minha avó!, disse ela, com ar infantil, de netinha que se comportou muito bem, porque caso ela o tivesse provado, teria adorado.

Olhem, o que eu vos digo, é que aconselho o restaurante, e a julgar o resto por esta parte, tudo deve ser maravilhosos e 5 estrelas.

O Paulo disse-me muitas vezes que isto fazia falta a ele que lhe corresse bem, mas que fazia falta a Marvão, e a todos nós.
Eu respondi-lhe que o ter podido jantar, com aquela qualidade, naquele local que toda a vida conheci abandonado, era um bálsamo para o meu orgulho marvanense, e me deixava de peito cheio, como se tivesse muitas ações no investimento!







É de facto deste Marvão que todos precisamos: cuidado, requintado, virado para o futuro, a dar cartas largas e passos de gigante no panorama da oferta turística. Até eu, quando passo por lá de manhã antes de ir trabalhar, paro na Celorica para encher um garrafão de água fresquinha que brota da nascente interna da serra de Ibn Maruan, olho para lá, e regozijo.

Boa sorte, companheiro. Toda a sorte do mundo. É todo um prazer poder ter-te assim.

E um prazer ter podido ter uma noite assim.
  
Convocados pela matriarca Alzira Sobreiro, (a parte possível) do núcleo duro dos Sobreiros, em 2019, somos isto. ♥️ Felizes. Muito felizes... (por estarmos juntos!)

sábado, 24 de agosto de 2019

O regresso do ovni (Variações ressuscitado em bobine)


Epá, bem... eu ontem apanhei isto de relance numa passagem pelos canais, e dei com a Dona Manuela Azevedo dos Clã, a cantar o "Anjo da Guarda" do GRANDE VARIAÇÕES, com uma orquestra sinfónica por detrás, com arranjos do Luís Varatojo, segundo a Selma Uamusse. Possa... isto é coisa de uma beleza tal, que é capaz de cortar a respiração.

                                                      Aqui captada em filmagem do público

E escrevi: "Ai, meu António, meu António... Tanto que nos deste em tão pouco tempo... Tanto nos poderias ter dado ao longo destes anos todos...
Porque a tua leitura visionária de tudo o que te rodeava, de Portugal, da religião, do sexo e do desejo, das relações entre os seres vivos, do mundo, e sobretudo, da música, morreu contigo.


Foste o MAIOR, e para mim, serás sempre eterno! ♥️

Na verdade, embora não me sinta gay, nem nada que se pareça, tenho na sua figura, um ídolo e uma paixão, pela inteligência, pela classe, pela musicalidade, pela rebeldia, pelo amor à nossa terra e às nossas gentes, pela humildade desconcertante, pelo brilhantismo! Foi o maior em Portugal!

Estou mesmo com muita vontade de ver isto...


E é um delírio poder recordar tudo, como os vídeos originais, a entrevista à sua Dona Deolinda de Jesus e aos seu irmão.

Génio!








Desaparecido aos 40, com menos 6 anos que eu, na noite de Santo António de Lisboa, até aí adensou o mito, e uma saudade imensa...

Quem é que não gostaria dele?

A ferida aberta (no meio de nós)

Foto terrível e duríssima, partilhada pelo grande Eduardo Madeira.
Como percebemos pela dor lancinante, como descendemos deles...
O uivo da mãe, qual pietá informal e natural, ouve-se aqui... 


Que mundo este tenho eu pela frente (a sério que nunca pensei), vou deixar para as minhas filhas, e para o que lhes há-de seguir...
As nações gigantes são lideradas por loucos, déspotas, inconscientes, tresloucados, que não conseguem perceber que há valores supremos como o clima e a natureza, que Deus nos emprestou para que estimássemos, e não para que os explorássemos, ou destruíssemos, sob pena de irmos nós a seguir, porque planeta TERRA há só um.
Triste. Tão triste com isto tudo (e preocupado... Muito preocupado)





segunda-feira, 22 de julho de 2019

De Marvão, vê-se a terra toda... e agora (6a edição)... o céu!



Todos nós que vivemos, temos a ideia que a nossa morte há-de ser assim algo de diferente, cinematográfico, épico. Ninguém espera morrer de uma miudeza, um azar, uma distração, um acaso. Todos nós, mesmo que não o digamos, acalentamos, em segredo e em suspenso, a ideia de que a nossa morte há-de ser algo de contornos especiais, assim num cenário… digno. Descartando ingenuamente a hipótese de tal fim suceder por motivos inesperados, sem sentido, todos achamos que merecemos um final apoteótico.

Em contraste com a entrada para o lado de lá (o reino dos céus, para os católicos; o Jannah, para os muçulmanos; ou o Tian, para o chineses tradicionais); a ideia de que pode tudo acabar aqui, torna, na minha opinião, a nossa existência na coisa mais redutora que consigo imaginar.

Posto isto, tenho de vos dizer que há momentos que se vivem na vida, dos quais já temos as maiores expetativas, mas que ainda assim, tudo superam; e acabam por se repetir sempre com a mesma intensidade (6ª, já!), que por muitas palavras, muita retórica que se tenha, não se conseguem explicar.

Ainda assim, tenho de tentar.


Se há alguns momentos de transcendência que se podem viver nesta nossa passagem terrena; a missa desta manhã, no Convento de Nossa Senhora da Estrela, no largo do Cubelo em Marvão, integrada na 6a edição do F.I.M.M.(Festival Internacional de Música de Marvão), foi qualquer coisa de... qualquer coisa.

A missa de Mozart, interpretada pela Orquestra de Câmara de Colónia, e pelo coro Ricercare, encheram a igreja, a alma e os corações de todos os presentes que acorreram em número suficiente para encher a nave central.
Aqui, tenho de fazer um agradecimento muito especial à minha mãe Alzira Sobreiro, que foi bastante cedo, ainda antes de encerrarem as portas para a posterior entrada geral, bem como às suas colegas de banco (amiga Gina e querida Sandra...), que se apertaram para me deixarem lá caber.


Foi uma posição absolutamente privilegiada para assistir a algo único!

A oração dos fiéis, proferida em diversas línguas foi um momento marcante, de como a música pode unir tantas visões do mundo.

A certo ponto, dei a mão à minha mãe e disse-lhe baixinho: fecha os olhos, como eu. 
Ela respondeu: já estava com eles fechados.


Na verdade, quando conseguimos resistir à natural tentação de abrirmos os olhos e contemplarmos o bailado da batuta do maestro, a brilhante execução dos intérpretes, as expressões do rosto dos sopranos, do tenor e demais cantores… fechávamos os olhos, sentíamo-nos levitar, e entrar naquilo que nós achamos que deve ser o Céu.

Notável e impagável!

Muitos parabéns!!! A todos os que tornaram isto possível!!! Todos!!!!