sexta-feira, 24 de março de 2017

A matança do porco (12ª) na minha terra... em mais de 90 imagens (de hoje, de ontem, de sempre)

Como chegaram hoje as fotografias que mandei revelar em Portalegre, sai agora a publicação das imagens, do dia magnífico que passei com a minha Alice (as outras, uma trabalhava, outra estudava), naquela que há-de sempre ser a minha aldeia. É um texto que sai com uma dedicatória, do peito, para o meu querido António José, do Porto, que por aqui trabalhou com o Sr. Duarte de Almeida, quando eu era menino, garoto, há bem mais de 20 anos. Tanto marcou e ficou marcado que a sua filha, que nasceu quando aqui trabalhava, tem a naturalidade desta freguesia. Uma história tocante. 
Abrem-te o apetite para cá voltares, meu velho? Anda daí!

Bonito cartaz, meu Tonho Manuel, ilustre presidente da freguesia. Ficou digno. Uma categoria.

Ao chegar... permitiu a selfie, que fica para todó sempre

Eina bem... a tanta maltucha que não quis falhar às migas (deliciosas. Soberbas!), ao bom do tócinho (não é erro, é mesmo escrito assim) e ao cafézinho preto, da puchera. Tudo do mais saudável que há.

Este era o pratinho do dROCAS. Hummmm... mnham, mnham. Migas frias?!?!?!?
Nem as assopro!

Esta fotografia merece uma brochura de ouro! Eu e um mítico da minha infância, da minha aldeia, da minha vida: o menino Augusto (Forte). Pelo que sei, o pai tinha uma posses fortes e eles viviam na Broca, uma quinta de grande dimensões com animais, vacarias e um tanque maravilhoso onde a gente ia tomar banho quando íamos gamar melancias. Uma cena do outro mundo.

O menino Augusto olhou para mim, eu olhei para ele, e disse-me:

- Menino? Eina pá! Estás tão bom... Disseram-me que quase tinhas morrido!

- Eh, eh... olha, e a mim, disseram-me o mesmo de ti, Augusto. Mas estás igual! IMPECÁVEL!

Expliquei: Epá tive um acidente de mota, andei pelo outro lado cerca de 1 mês e meio e depois, mandaram-me de volta. Diz que ainda não era a minha altura e eu agradeço. Tanto, sempre, todos os  dias. E tu?

- Tive uns problemas (creio que um AVC). Mas estou bem melhor. (O irmão João Forte, mais velho, o Pêras, na foto de baixo, fartou-se de ralhar porque disse que toma montes de comprimidos, e na noite antes, apanhou uma bubadeira daquelas à antiga! Até tinha unhas!)


O Augusto era um poeta, um pensador livre, um bebedor fantasmagórico que dissertava sobre tudo e sobre nada. Uma das memórias que tenho da minha infância/juventude era ficar maravilhado, a ouvi-lo falar de olhos fechados em público, pouco a cagar-se se alguém o ouvia ou não.

Disse-lhe: (com ele sempre de sorrisinho enternecedor no rosto, o mesmo que tem na fotografia) "Eh Augusto, tanto que  me lembro das tuas histórias que ficaram para a vida.
Eu, Augusto da Mota Forte, plantei umas alface.
Veio o coelho, comeu a Alface.
Veio o caçador, matou o coelho.
Eu, Augusto da Mota Forte, tenho ou não tenho direito de uma pata desse coelho?"

Ora isto é filosofia pura, ciência política, demagogia e eloquência.
Pode perfeitamente ser aplicado ao caso Salgado/BES, ou ao descalabro na CGD e a implicância que nós, contribuintezinhos, ainda vamos ter para apagar estes incêndios, antes que Portugal arda todo como a Madeira.

Augusto Forte: EU AMO!




Na minha ponte, no meu ribeiro...

Em frente a um dos santuários do avô João Sobreiro: a casa Nicau. Ali passou muitas das horas, dias, meses por ano, se contabilizássemos o tempo todo. Eles habituaram-se a viver com ele, como se fosse de família. E ele sentia-os enquanto tal. Na taberna... faz-se o que se faz numa taberna. Mas fosse a ler o jornal, a jogar ao truco e à sueca, nos matraquilhos, ou nas flippers, o tempo voava.

Por falar em lugares de uma dimensão que extravasa os limites físicos...

- Pai... eu lembro-me muito de vir aqui comer laranjas com a Ti Bia; e da Cali. Elas eram muito minhas amigas.

Ainda bem (que te lembras. Eu fiz tanto para que as apanhasses, ainda...) 

,
Se tu sonhasses como era essa loja, essa aldeia, quando eu tinha o teu tamanho, filha...

É.
Esse era o meu trono, nos canchos em frente à escola. Podes sentar-te lá.
 O meu trono... 
Quer dizer... desde que não se quisesse sentar lá nenhum menino maior e mais velho que eu. Era tão pequenino e mimado... que só podia ser rei quando os outros não queriam/podiam.

E este recreio, Alice? Cheio de tantos meninos e meninas, cujos pais trabalhavam nos serviços ligados ao caminho de ferro, guardas, ajudantes-despachantes, alfandegários, ferroviários, com dinheiro, com saúde, com alegria, com espírito comunitário e hoje...
Era tão grande...

Isto não existia antes... e está tão bem...
O repuxo não tem água? Deixa lá. Bebemos lá em baixo.

Se eu fosse como os elefantes, se escolhesse o sítio onde viria a morrer de velhinho, cairia aqui.
Esta é a minha terra. Este é o me lugar.


Tudo isto, pai. <3





Aqui nesta casinha, vivi a minha vida quando tinha o teu tamanho, até ir viver com a mãe Cris para Marvão. Dentro do meu lugar que era a Beirã, este era o meu ninho.

Também espreitei pelo friso e o passado deu-me um empurrão que me fez estremecer. Tanta memória...
A minha rua. Será sempre...

Aindas te lembras da casa da Cali?


Se visses como isto estava tudo dantes... Tão limpinho, tão arrumadinho...


Ali dormiam as andorinhas que começavam agora a chegar, quando vinha o calor e só abalavam com o frio. Como era um beirado muito alto, faziam fila. É em memória delas, das duas andorinhas que cá viviam, das duas que me deram vida, das duas que eu gerei, que as tenho tatuadas no peito. 





Aqui, quando eu era um pouca mais velhinho que tu, vinha-me confessar, ao senhor padre.
Ele sentava-se aí, onde estás, e nós metiamo-nos de joelhos, do outro lado.
Contávamos o que fazíamos mal e pedíamos perdão.
Tipo tu agora, "ah, eu nunca quero vestir a roupinha linda que a mãe me escolhe, tás a ver?"
Depois ele dizia: "vá! Não faças isso. Não reepitas, está bem? Reza um pai-nosso, uma avé- maria e um ato de contrição. Vai em paz, e que o Senhor te acompanhe" 






Igreja da Graça
Évora
Castelo de Marvão

Praia de banhos
Nazaré
Mosteiro de Alcobaça

Alice: agora um quiz que nós fazíamos sempre, e aproveitávamos para impressionar as estrangeiras quando paravam 10, ou 15 minutos no TER e no Lusitânia Expresso, para conferirem passaportes:
Qual de todos estes azulejos está mal colocado? 

E ela sozinha... esperta!

Deu com qual era. Nem sequer consegue lá chegar.
"É aquele, pai!"

Convento de Santa Clara
Portalegre

Praia de Banhos
Figueira da Foz

Convento de Cristo
Tomar

Jardim de Santa Cruz
Coimbra

Sé da Guarda

Trajes regionais de Marvão

Torre de Belém

Templo de Diana
Évora

Pórtico e cruzeiro de Marvão

Este é o da Cali...

A estação... Não há 1000 palavras que consigam expressar tanta memória, tanta história, tanto sentir...



A casa Vivas, a mais nobre da terra. No final do jardim privado, a igreja que abriram à comunidade, em honra da santa em memória de Carmen Berenguel Vivas



<3

 Na portinha do meio, o escritório do Sr. Sobreiro

A nova encarnação do clube pelo milagre Trainspot







Com a Bê êfe êfe (B. F. F.), como elas se chamam: best friends forever, Laura.
Tinha medo porque ela, infuenciada pelo outra, mais velha, dizia-me que não gostava de sopas de sarapatel, nem de sopa de couves.
Para a grande, tudo que sai da dieta fast food, é intragável! Tudo o que não sejam pizzas, lasanhas, hamburguers, não é comestível. Até as folhas de legumes das sopas, mete de lado no prato! Eu hein...
Ora se eu já tinha visto esta comer tão de gosto estes acepipes... tinha de lhe conseguir dar a volta! Até lhe disse que lhe dava de colherzinha à boca.
Conclusão: não foi preciso. Papou 3 discos de sopa! Espetacular. ;)

Meteu muita gente. Aquilo é uma organização do comandro!
Ah granda Maria do Céu e suas muchachas, que fizeram comer para 1000?

Eu a olhar para isto, pareço o Homer Simpson a salivar quando vê um hamburguer





Ei-lo! Magnífico momento que gravei e tenho guardado comigo. Nele, faz uma apreciação sobre coisas diversas da vida, que dizem pouco mais que nada ao comum dos mortais, como eu. E bem que tento... Talvez daqui a uma geração, ou alguns anos luz.

O ar seguro de quem sabe bem o que está a dizer... 

Atente-se na certeza da mão no micro 

AHAH... trés bon

O organista, o chefe da Malta do Cabo D'Aço, e o Pronto a Vestir3 bonecas de Nova Iorque

Grande mestre Chico, a explanar toda a sua arte

A reinar entre o fumo das grelhas...

No lanchinho que orientei para as peques

Verdade Laura! Fui eu!


Até deu para jogar à larga! :)

quinta-feira, 23 de março de 2017

Carta a ti, Cali (Parabéns!)


Como tu eras, quando eras minha

Tenho bem presente que nunca poderás lê-la, ou sequer entendê-la, se porventura a lesse baixinho, devagarinho, para que te chegasse. Mas ainda assim, nem que seja para gáudio do meu egoísmo, sinto-me na obrigação, e no direito, de a escrever. Consola-me que, ao plasmá-la aqui, na minha janelinha virtual para o mundo, a eternizarei para memória futura, para as gerações vindouras. Não ficará num papel, numa gaveta, num dossier, num sítio onde se possa perder, ou esquecer, ou estragar. Aqui, ficará sempre… aqui. Quero assim que para os meus, para os nossos, para as gerações futuras que virão depois de nós, fique plasmada a nossa história de amor. A história de um sobrinho que amaste como um filho, que nunca pudeste ter; e te amou a ti, como uma segunda mãe, apesar da dele o preencher, o encher e estar sempre ao mais alto nível, nesse cargo.

Parabéns, minha querida… pelos teus 86 anos. Pelos tantos, tantos anos que já tens. Tantos quantos os da tua mãe (03.11.05 – 07.12.91), e os da Tia Bia (05.01.1928 – 11.07.2014), as recordistas. Hoje és, a matriarca da família Sobreiro. Por ironia do destino, uma matriarca vazia… de lembranças, de afetos, de memórias e vivências. Um corpo… apenas. Aquele mesmo corpo onde dantes vivia aquela senhora esmerada, cuidadosa, dedicada a tudo e todos onde se metia, minuciosa, impecável. E o que isso dói… Essa desmaterialização…

Agradeço à força que tudo rege e comanda, agradeço àquele que para mim é Deus, e para ti será também, que tanto gostavas de ir à missa, mas que hoje em dia, até essa devoção te passa ao lado. Agradeço por te ter, por neste dia te poder abraçar e poder estar contigo. Depois de sair do serviço, fui ter contigo à santa casa que te acolhe, onde tanto és querida e estimada. Estavas vestidinha com um dos melhores fatinhos que tens, aperaltada com esmero e o colar a preceito que a tia Bela da Idanha te tinha oferecido. Quem te arranjou, sabia que este dia era especial, mais para os que te amam que para ti, e preparou-te com amor. Com aquele que passa cá para fora, que se vê, se nota e se sente.

Eu sabia que um bolo de anos não seria uma boa escolha, porque a vossa alimentação está muito condicionada, é preparada com cuidado e tem de se levar com cautela; e sabia que as prendas são coisas que nada te dizem. Mas queria estar contigo, isso era o que eu queria. Na sala, disse às tuas colegas que te ia cantar os parabéns e perguntei se me ajudavam. Elas que “claro que sim”, e que bonito que foi. Com elas todas a levantarem-se, as que podiam, com um “ah, mas faz anos?!?!? E quantos faz? Dê cá um beijinho…”


Aquela senhora que é da família dos Casanova, que sempre me pareceu um pouco alheada, mas que agora percebi, tem o grande problema de ouvir muito mal (por isso vive quase à parte), que foi uma das que se surpreendeu com a efemeridade da data, dirigiu-se a mim (creio que das únicas vezes), para me dizer “ah, hoje esteve cá já aquela senhora que vem cá quase sempre, como você.”

- A minha mãe?
- Ai é sua mãe?!?!? Olhe, pensava que era sua irmã.
(Meus risos. Muitos) – Olhe, minha querida, das duas… uma: ou é ela que está muito nova, ou sou eu que estou muito usado (o que não deixa de ser verdade, e bem revelado pela careca).

A minha mãe sempre foi aquela cunhada que teve uma relação contigo de… irmãs. Difícil encontrar cunhadas que se dessem tão bem, que tu tanto nos ajudaste quando podias, mas que nunca te deixou, que nisso aí, saio bem a ela. Desta vez, a Dona Alzira creio que levou um miminho, não muito doce, para petisco da rapaziada. Perfumes, desodorizantes, aquele shampoo que te faz bem ao eczema que tens detrás das orelhas, atenções, relíquias, para mim, tesouros. Nunca te deixou a ti porque sabia que tu nunca, enquanto pudeste, a deixaste a ela, a nós todos.

Estou a aprender a envelhecer, sabes? Já tenho quase os 44, vê-me bem. Já não sou aquele puto traquina, terrível, sempre educado mas muito transgressor, em tudo. O que adorava meter o que fosse ao limite. A ver até onde é que dava. Sempre a caminhar na corda bamba entre o correto e o que poderia ser diferente. Já não sou o teu Pedro, o puto da Beirã, que tudo questionava e pensava. Agora sou um senhor de família com duas filhas, que tem um emprego de pessoas grandes, que tem se gerir um lar, ou melhor, co-gerir um lar. Como tive de aprender a viver, sem algumas pedras chave da minha vivência, que a vida me roubou num ápice; agora estou a aprender a envelhecer... a ter filhas já adolescentes, que amanhã vão ser mulheres, que seguirão o seu próprio caminho, ficando sempre eu no meu lugarinho, para trás.

O ir mantendo um contato regular, semanal, com a tua realidade, com o lugar onde vives, tem-me ajudado a ter uma verdadeira noção da efemeridade da vida. Tu, infelizmente, estás apanhada por essa maleita batizada com o nome de um médico estrangeiro, mas que na realidade é… demência. O cérebro é um computador que, quando berra, berrou. Nada há a fazer. Nem atualizações de software, nem placas adicionais, nem upgrades, nada lhe vale. É a vida, que é assim. Há pois que aceitá-la.


Se não estivesses assim, eu continuaria a fazer aquilo que fazia contigo ao início. Levar-te-ia a dar passeios para fora dali, iria mostrar-te e recordar-te o nosso mundo, levar-te-ia ao alto da torre de menagem do castelo de Marvão, à barragem da Apartadura, à Portagem para veres o restaurante Sever, onde me levavas tanta vez na infância, aos domingos com a restante família; ao Modelo, para veres como é uma mercearia de hoje, igual à que tu tinhas, só que muito maior.

Depois eu apercebi-me do vão que era isto tudo. Realizei, o nada que ficava. Consciencializei-me que o cansaço, era o que mais permanecia e, com muito custo meu, desliguei. Aceito-te hoje já como és, como estás, como tem de ser. E custa-me tanto ir ver-te, acredita, porque me apercebo de tanta gente que sofre de maleitas do físico, acossado pela idade; mas que vive com uma cabeça que pede tanto mais mas que… não tem. Porque não tem possibilidade. Porque as famílias, têm outras prioridades… onde elas não estão incluídas. Se fosses uma dessas…

E o que eu me lembro da Ti Bia, coitadinha, que partiu não na primeira noite, mas logo na outra a seguir. O tanto que ela ainda queria, sabia e podia. Mas apagou-se.

A vida, é mesmo um dar e receber. Não há nada mais valioso que a saúde, e nada é mais fundamental que o amor. O amor por ti, pela minha mulher, pelas minhas filhas, pela minha mãe, pelo meu irmão, pelos filhos deste e pela mulher, pela minha afilhada, pelos meus cunhados, pelos meus sogros, pelas minhas tias, pelos primos e primas, amigos e amigas verdadeiros. Verdadeiros. O amor ao próximo deve ser defendido mas… por vezes, é tão difícil de materializar. Que abandonamos. Os outros que não nos querem bem e só têm interesse em nós, seja porque motivo for, não merecem.

A vida é uma passagem. Se nada para cá trazemos, nada de cá levamos. Deveríamos pensar mais vezes nisso. Lembra-te que és pó, e em pó te hás-de tornar, ensinam eles.

Sei que me tenho esforçado para ser um bom rapaz, um bom cristão, um seguidor de Cristo, um menino à altura, que te haverias de orgulhar do teu Pedro ser assim. Não há ninguém no mundo, nem pode haver, que seja capaz de dizer assim: não gosto do Pedro porque o Pedro me fez isto de mal. Não pode! Se houver, que dê um passo em frente e abra a boca. Estou limpo, de costas seguras e nunca tentei prejudicar fosse quem fosse. Peco, por vezes, por me dar demais. Depois dói-me ter de tirar. Mas eu consigo suportar isso. Acho que é uma das maleitas do processo de crescimento. Crescer dói. Mas nisso aí também sou implacável: como quem não se sente, não é filho de boa gente… eu acredito que sou. E preso muito a minha memória.

Como queria estar a sós contigo, trouxe-te cá para fora e estivemos os dois ao solinho, tu com o meu casaco pelas costas. Soprava um vento frio. Parecia Inverno e não a Primavera que vem sempre com os teus anos, do tempo quente e das andorinhas no teu beirado de casa, que quis gravar no meu peito para sempre. Estivemos ali uns largos minutos, em que nos enfiámos numa máquina do tempo para a Beirã dos anos 70 e muitos, quase 80. Passou por nós a Dona Alzira, grávida do Miguel. Sentados ao sol nas escadarias da Rua Fernando Namora nº 1, tu coçavas-me a cabeça com os teus pentinhos com que ajeitavas o poupo, cá atrás. Olhei-te nos olhos e já não vi a luz, vida, vontade. Apenas uma claridade vaga e um fitar perdido, atordoado, sem saberes muito bem ao que ias e estavas.


Era capaz de estar ali tempos sem fim, assim encostado a ti, só a sentir-te. O teu calor na minha mão.

Fui-te levar à salinha para o jantar e passámos pela grande cá de cima, onde as coleguinhas se meteram contigo com um “ah, mas estou tão bonita hoje…”
- A minha tia faz hoje os anos!
- Ai sim?!?!?!? Então dê cá um beijinho de parabéns, e vieram todas, ou quase todas a beijá-la. Ela coitadinha, já nem isso sabe dar. Encosta a carinha.
- Então de quando é?
- Século passado, 31.Faz os 86.
- Então é minha quinta!!! Dá um beijinho.

Tão bom.

Foi a primeira a sentar-se. Ficou assim, no dia em que celebrou os 86 anos de vida. Sozinha. Assim chegamos, assim partimos, por muito acompanhados que estejamos. Não vale de nada a pergunta se: “valerá a pena, assim?”. Será conforme a vontade de Deus. A ele pedimos a força suficiente para conseguirmos aceitar a sua vontade. O mano João, meu pai, partiu com 35 anos menos. Nós nunca saberemos como é que será o nosso percurso de vida. Até ser.


Ao passar por algumas colegas, falavam entre si de voz baixa. A uma saiu-lhe um “ai… este sobrinho… vale ouro. Se não fosse ele…”

Sorri e fiquei a pensar que, não me interessa os outros todos, familiares, amigos, conterrâneos, mais ou menos próximos. Eu sei… de mim. E por mim, hei-de sempre estar e responder, até que Deus queira. Não há rankings aqui de afetos, não há pagamentos a serem feitos, não há aqui prestações de contas. É a consciência. O sentido do dever cumprido, ou não. Eu examino-a todas a noites, antes de me encostar, e deito-me sempre de paz com ela. Sei que sei pedir perdão, assim que me aperceba que falhei, porque falhar é humano. Mas fechar os olhos com a tranquilidade de ter estado bem, não tem preço.

Eu sei que a Cali foi feliz. Pedimos um de cada vez. Até que Ele queira.


Eu também fui feliz. Sou.

Obrigado

segunda-feira, 20 de março de 2017

O meu dia... (em 2017)

"Meu", porque me tenho que ir convencendo disso. Que já vai sendo mais meu... que teu. Que abalaste cedo demais. Quase há tantos anos... quantos os que pude desfrutar de ti.
Tempo a mais... de saudade.

No nosso "Cantinho do Miradouro", a comer o geladinho da ordem.
Fazendo o "lindo" para a nossa madrinha Luzia

Para aqui o Ti Drocas Sabi, o dia do pai, é sempre... o dia das filhas. Porque são elas, é o amor puro e autêntico que lhes tenho, que fazem tudo valer a pena. Amo—as tanto, que lhes tenho até de ralhar!, quando percebo que não é por ali que caminham, que lá chegam.

Sobre o dia, recebo uma mensagem comovente da minha mãe Alzira.

Respondo—lhe que não inventei nada. Apenas tento replicar o tanto, o tudo que aprendi dela e do meu pai.

As minhas filhas são o meu maior património. Ex—aequo com a Fernanda Sobreiro, diga—se de passagem. Fifty/Fifty. Isso está na cara (delas), não está?

Só faço votos que, no final dos meus dias, lhes possa dizer aquilo que lhes digo hoje: Obrigado.

Por serem crianças que querem ser inteligentes, preocupadas com os outros, dedicadas aos princípios e valores que lhes tento transmitir. Sempre a rir, e a fazerem rir, porque a vida, e a forma como isto tudo decorre e acontece, não merece senão um sorriso. "Ai é só isto?!?!?" Ou "é isto tudo?!?!?!?" Riso não de gozo. Antes saudável.

Feliz dia meu, filhas. Ainda bem que estou cá para vos ter. <3

Que Deus nos ajude sempre.


<3

Filha... Mas se nós nunca jogamos futebol?!?!?!?
- Deixa lá, pai! Eu quero assim... Nós a jogarmos à bola. 

Ao acordar...


... até à lua. (ficou a faltar na imagem)


You are my hero! ;)

Coooooooooool...
 2016

2017
"Fazeres de mim uma pessoa melhor" é muito bom.

A Leonor contou-me que, uma amiga muito amiga, tinha oferecido uma prenda ao pai com algum, ou muito, golpe de asa. Na sua opinião teria "deitado a escada" ao "pendant" que a peça que lhe deu, poderia fazer com uma que lhe agradava a ela...para ela. Eu sorri baixinho e pensei para comigo, que não me espantava em nada, pelo que conheço dela.

Mas a páginas tantas, lembrei-me e perguntei: "ó Leonor... falaste da tua amiga... que tinha comprado uma prenda para se meter a jeito, mas... tu não me deste nada a mim, ou deste?"

"Pai, não querias que te desse um desenhinho daqueles da escola primária, pois não? É que eu não tenho dinheiro (mentira), e não sabia o que te comprar (mentira 2).

Leonor no seu melhor. 28 anos de distância de mim, mas com um fosso de décadas, nestes anos da adolescência. Tenho que lhe dar uma lição até ao dia da mãe. Para que o seu erro, que o é, não se repita. Eu fui criado assim. Nunca a vangloriar-me do que é (sempre vão), antes sempre a olhar para o que poderia ser (e fazer) melhor. Não me considero melhor que ninguém, que isso é coisa que não se mede. Apenos quero ser diferente. Sempre será esta a minha busca incesssante. 

Na rádio, peguntaram às crianças da escolinha para que definissem o pai numa palavra. As minhas disseram, sem estarem à espera, do nada:

O meu pai é:

Alice: "Amigo"

Leonor: "échatomasémeuamigo", tudo numa palavra só.

Amigo para as duas é um balanço... bom.

Nem cómico, nem excêntrico, nem engraçado, nem maluco. Amigo é bom. É, na realidade, o que mais quero ser para elas ao longo da vida.

Crazy horse in Santo António das Areias (since 2014)

Olha o que o senhor facebook me lembrou agora, Alice. 

Há 3 anos atrás... 

Tinhas tu 4 apenas. :) 



E quando for daqui a 30? :D 
Que bom ele é ter ele aqui... <3

(Para que nos possa recordar o felizes que somos, a curtir-nos uns aos outros)

Composição do dia: Que raio de pai serei eu?, por dROCAS SABI.


As mais velhinhas já tinham saído de casa muito cedo, para o estudo e uma ação benemérita de dádiva de sangue / despiste de compatibilidade de medula óssea. Quando a ajuda é preciosa e a nós, não nos custa nada, é nosso dever ajudar.

Eu tinha à minha responsabilidade, a entrega do catraio mais novo, fardada, a tempo e horas na escola.

Acordou bem cedo, contente e a todos cumprimentou, deixando antever o melhor cenário. Lavou—se, escovou os dentes, vestiu—se, só não calçou os sapatos porque "a mãe dá cá cada nózorro!!!". A culpa é sempre dos outros. É minha filha.

Desatei, calcei, apertei, não sem antes engraxar de branco, que o esmero é de ir aos pormenores. É mesmo minha filha.

Com os minutos a avançarem e as coisas que ainda faltavam fazer, o complicómetro ia apertando. O andar sempre tareca, a perguntar tudo, e a mexer em tudo, não ajudavam nada.

"Mas onde é que está o raio do spray para te meter no cabelo, por causa dos caracóis?!?!?! Sem isso não fica nada de jeito. :(

A mãe diz que já não é preciso. É só dar um jeitinho e meter este gancho aqui.

Só bebe leite e leva um lanchinho. Não dá para lhe conseguir dar mais.

Lavou os dentes e apresentou—se na cozinha, de lábios pintados de vermelho vivo.

— O quê?!?!?!?! É que nem penses!!!!! Achas que te vou deixar, com 7 anos, ir para a escola de lábios pintados? Nem sonhes...

— A MÃE DEEEEEIIIIXXXXXAAAAAAAAA!!!

— Deixa como?!?!

— Eu já lhe pedi e ela deixa—me.

— Mas eu não deixo!!!

Aí começou a dar—se um choro triste, fundo, de incompreensão que eu tive de mandar parar!

— Vou acreditar em ti, pequena. Vou falar com a professora Vina e perguntar—lhe o que é que ela...

— Ela gosta!!!! Ela adora...

— E ela diz...

— Que fico linda!


Deixa cá tirar uma fotografia para mandar à tua mãe.

Os livros que tu andas a ler...

O meu bairro sem esta rede de fios deveria ficar... supimpa!

Acordei e estava a dar os bons dias ao dia, quando ela chegou à varanda, com uns binóculos da ex—União Soviética.

— Experimenta lá, pai...

Mesmo de óculos, espreitei pelos buraquinhos.

— Eina... São fixes! Vê—se muita bem Marvão.

— Pois é!

— Onde é que os arranjaste?

— Encontrei—os no sótão.

Com estes, vê—se da porta do Tapas, o Putin a correr em tronco nú, no dorso de um cavalo, na Sibéria

Tenho ideia, não de os ter comprado, mas de ter sido um artefato qualquer que sobrou de uma limpeza à loja, ou à casa da Cali.

— São fines!, disse.

— Mas agora são meus!!!

Eu sorri para dentro e pensei... ahah

O mais certo é isso acontecer com a minha casa, que tanto me custa a pagar agora. Paizinho... tu vais bem é para a Santa Casa... Estão lá os teus amigos todos... Agora a casa é minha!

Mas... a tarde de ontem, tranquilizou—me. A Leonor, veio de visita a Marvão com os coleguinhas, e tive o prazer de conhecer e privar com um professor seu. Deu—me os parabéns. Porque é inteligente, dedicada, trabalhadora, muito boa colega e solidária.

A minha alma estava parva e o queixo, deveria estar quase a bater no chão.

— Então? (disse ele, estranhando)

— Ó professor, tirando o ter uma boa matriz, o ser boa e genuína, essa Leonor que me pinta é diametralmente oposta à que vive lá em casa, comigo.

— Não, mas fique seguro que é assim. É encantadora. Todos a adoram e eu também gosto muito dela.

Eu sei que as notas da Leonor têm sido boas, altas, fruto do seu trabalho. Isso tem sido uma agradável surpresa e certeza, para mim, que temia o choque com a cidade e o namorico madrugador.

Não tem vintes, nem dezoitos tanto assim, não se mata a estudar, mas leva a sua, na boa.

— Professor, obrigado, disse—lhe. Nem sabe como são importantes para mim, as suas palavras. Não as trocava por prémio algum. Sei que ela é inteligente, mas fico tão feliz por a saber trabalhadora, esforçada, e sobretudo, amiga dos demais e por eles respeitada, que até fico sem palavras. Bem haja por esta sua atitude, completamente inusitada.

Isto tudo será para ela. Como lhe digo sempre: até aos 22, fará a cama onde se irá deitar o resto da vida.

Tenho muito orgulho em ti, filha.

Tu és eu, numa versão mulher.

Os livros que andas a ler... isso! fui eu que os escrevi. ;)


Beijo do Papi.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Nos anos do (Marquinho) Campeão

- Nível! Não se compra. Não se aprende. Ou se nasce com ele... ou não!

Quando a data é importante para mim, o meu telemóvel está ensinado a apitar. E aquele dia, era uma dessas datas. Porque ele mo disse. Tanta vez. Tanta que eu acho que já a sabia de ginjeira.

9 de Março = anos do meu amigo Marco da APPACDM (Associação de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental de Portalegre. Os meus vizinhos de bairro.)

O maior performer e entertainer chegado a esta terra. Eu acho que era capaz de estar um dia inteiro, só a vê—lo dançar. A curtir o som. Amo.



Segundo aquilo que sei, o Marco tem um passado algo complicado, com um pai que, sem o saber muito bem, explorava (não sei se com real consciência disso) o seu entendimento das coisas. Passava o dia a guardar rebanhos, ou gado e por companhia... a inseparável Rádio Contestável, a sua favorita.

Sempre a ouvir som, como eu, nas finanças. Temos isso tanto em comum, de não conseguirmos imaginar a nossa vida sem música.

— Dia 9... de Março... FAÇO OS ANOS!

— Ai sim, meu amor? E que queres tu de prenda de anos, que o teu Tio Sabi compra—te?

— UNS ÓCULOS ESCUROS!

— ESSES SERÃO!

De vez em quando, via—o, e dizia—lhe:

— Marquinho, campeão, JÁ LÁ ESTÃO EM CASA!

— Eh Nina... dás um abraço ao Marco?

E ele: EEEEEEEEEHHHHHHHH!

Claro que já cá estavam. Não que os tivesse comprado de propósito na Multióticas, mas seriam uns dos mais de 10 óculos baratos que tenho comprado por aí na retambana, em dias/noites/tardes de folia.

Expliquei a situação à minha Alice, e no bem que nos sentimos quando temos demais, sem darmos real valor, e damos a quem nada tem.

— Estes óculos, Alice, estão guardados numa caixa no sótão, e nós nem nos lembramos que os temos. Mas para o Marco, podem ser uma prenda especial, que lhe poder tornar o dia tão melhor.

Marco e a "Nina"

Escolhemos os que haveriam de ser e optámos por uns Raybantes vermelhos, do Benfica, porque também acho que ele grita pelo Benfica quando passa por mim.

— Pai: eu também quero ir lá contigo, oferecer—lhos.

Chegámos às 9h em ponto, quando já os iam deitar. A alegria quando me viu:

— Amigo! É os óculos!

— É sim, Marco.

— Eu faço os 37! E... São liiiiiindos. Obrigadinho ... Obrigado... Obrigadinho...


No caminho para casa, perguntei—lhe: não é tão bom, Alice?

“Sai um fixe para o Marco?
Fixxxxxxxxeeeeee!"
Foto de Alice Sobreiro.


Nota do após: contaram-me algumas auxiliares que conheço, e são minhas contribuintezinhas do serviço onde trabalho, que passa os serões de óculos escuros, a curtir. Como sabem que todos me adoram, brincaram: "qualquer dia és a mascote deles todos, e ainda te nomeiam o padroeiro da instituição."

Respondi que eu também os adoro a eles. São puros. Quanto ao que me dizem... não poderia ter maior elogio.