terça-feira, 25 de outubro de 2016

Caly (e/ou como o tempo passa por nós)

O antes (e a assinatura)

O hoje (e a assinatura)

Quando entro naquela sala, elas estão sempre nos mesmos sítios, na mesma posição.


Sei que ali, comprovo de cada vez que lá vou, há muita higiene, respeito, amor.
Ali estão bem.
Bem agasalhadas, com uma temperatura ambiente controlada e mais que devidamente climatizada, estão como os ovos numa incubadora. Só que em vez desses, que estão à espera de eclodir para a vida, aqui aguarda-se o movimento inverso, de saída.


Eu sei que têm o dia-a-dia ocupado com atividades triviais, comuns aos demais mortais, que as preenchem. Sei que têm animações culturais diversas, para ocuparem os tempos livres com técnicos especializados, mas sei que muitas; como a minha tia Cremilde (que será sempre a Cali, ou Caly; como ela escrevia, para dar um toque inglês e mais moderno ao anexim), isso passa-lhe ao lado. O Alzheimer foi o vírus malévolo que lhe assaltou o processador do computador central e nada nunca mais nada será como dantes. Aquela Dona Cremilde, aquela menina Cremilde que nunca conheceu um marido, esmerada, dedicada, sempre prestável, sempre simpática, sempre apaixonada por crianças, é hoje um escombro que vive no habitáculo corporal que nos habituámos a amar. Está lá o Cadillac dos nossos sonhos… mas sem motor.  



Por mais estranho, estrangeiro e difícil de dizer que seja o nome, a tradução é bem nossa e percetível, por muito que nos doa: aquilo é demência.


E naquela sala em que ela nunca está sozinha, também neste sofrimento não está só, que não há médicos que valham perante as leis da vida.


São 7 ou 8 colegas que estão num autêntico hotel (Santa Casa da Misericórdia de Marvão), e olham sempre para o eterno programa da tarde que lhes faz companhia. Cumprimento cada uma delas com um aperto de mão, um toque pessoal, um aconchego. Sorrio e olho-as nos olhos. Por vezes não me escapo ao beijo e ao abraço apertado, a quem se agarra a mim como se fosse um guindaste capaz de as tirar dali para fora, lhes pudesse devolver a força anímica e a vida que deixaram para trás com os anos, sem quererem. Cada uma tem a sua história de vida, a sua maleita, a sua consciência mais ou menos clarividente, o seu estado físico mais ou menos debilitado. Conheço-as pela posição que ocupam. Como as crianças na escola e o eterno retrocesso à meninice.


As que ladeiam a minha tia são as mais conscientes e por isso mesmo, as que mais sofrem com   a falta de condição física. Querem mas… não são já capazes. Pergunto-lhes, “e a minha menina? Como é que tem passado?”
E elas contam.
-Ui, ui… tem passado bem mas é muito teimosinha.
- (Isso eu sabia)
- Quando a querem levantar e ela não quer… parece que pesa chumbo e ninguém a consegue mover daqui.
- E de resto?
- Dorme bem, come bem, não chateia ninguém. É um doce.
- (Sempre foi.)



Lá a da ponta é muito engraçada. É uma autêntica grafonola sempre com um tema antigo que trauteia sem parar, noite e dia. Modas dos bailes de Santo António, da Ranginha, dos Barretos ou da Beirã, que deve ter visto nascer enquanto freguesia, com o comboio.
- Minha querida? Então qual é a moda de hoje, meu amor?
Ela ri-se muito e diz “vou bem, vou bem”. Rindo-se reforça, olhando para mim, quando me vê dançar à rancheiro perante as suas músicas, fazendo de palhaço (que eu adoro quando é de vontade. Detesto é que me façam quando não quero. Ai temos porras.) “ai que engraçado… ai que engraçado…”, que se transforma num “ai tão linda, ainda tão linda, ai tão querida”, quando faz festinhas na minha Alice.


Ao lado, em frente, está uma senhora de um extrato social que parece ser diferente, mais 
alto, com outros tiques, conversas e trejeitos. Deveria de estar numa casa com outros hábitos, porque lhe dá sempre muita lida quem é que vai fazer o comer para tanta gente (as colegas que ali estão.)


Há uma senhora que me trata muito bem e diz sempre que se lembra de mim quando eu era pequenino, na Beirã, e que eu ia muita vez para a sua casa. Não me recordo de nada, nem nunca vi ninguém da sua família que me pudesse fazer a “ponte” com esse passado; mas sorrio sempre e digo-lhe que sim.


Muitas de negro, de desgosto por terem perdido os seus maridos, que eram quem bebia e fumava lá em casa, na maior parte dos casos; nunca elas, gostam sempre de me ver, do meu trato. E eu fico feliz. Saio sempre a sentir-me rico.


Uma outra, já com a visão algo “apanhada” pela idade, está sempre com um olhito cerrado e é de poucas conversas. De vez em quando ralham entre si, ou porque uma se esticou nos comentários, ou porque a cantora se cansou do disco e ralhou com uma qualquer que lhe quis meter travão à matinée. Tão engraçadas de se ver. Aquilo é como uma turma de cachopinhas da escola primária, ou de mulheres presidiárias, porque têm entre si a sua hierarquia e cada uma goza de um status muito seu. Não a minha, coitadinha, que se ri para todas e fala para dentro uma língua imperceptível, que é oficial lá no mundo onde ela vive.


Tem dias que vou lá e venho escuro como a noite. De olhos baços, tristes, sem vida, olha para nós como nós para o abismo. Sem conseguir ver o que seja. Anteontem, escondi-me na porta e surgi de rompante, em frente à televisão, para onde olhava com atenção. Num momento de rara lucidez, riu-se para mim e disse: “ Olhó! Então?”
- Então… fui trabalhar! Saí agora. E tu? Está boa? Tudo em cima? Tudo legau?
Ela riu-se e disse que sim. Riu-se mesmo. Riu-se com aquele ar: “agora aparece-me aqui este gajo”. E foi bom. Estivemos de mão dada e fomos passear.


À primeira tentativa fez-se mula e fez força para baixo.
- Então?!?! Não queres vir comigo passear? Anda, senão qualquer dia, as pernocas não querem nada contigo. Anda daí…


As amigas ajudaram. “Vá, vá com o seu… é filho? (algumas ainda procuram)
- Não! É sobrinho, respondem outras. Mas é como se fosse filho. É muito amigo dela.


“Pois sou. Nessa altura não havia infantários. Os meus pais tinham de trabalhar e deixavam-me com ela, a minha avózinha (sua mãe), e a minha tia (que então ficou viúva).


Depois, por vezes, ao final do dia, com a noite, com o frio, dava-lhes pena levarem-me para a rua, e deixavam-me lá ficar a dormir com ela. Tão bem que eu me lembro disso…
Fui o filho que ela nunca teve (porque sempre foi solteira).
Habituou-se a ver-me enquanto tal e eu a ela, como mãe.

Por isso somos tão próximos. Não consegue dizer o meu nome mas, nem precisa. Eu sei que ela sabe quem eu sou. E isso chega-me.”


Como poder beijá-la tanto. Na testa. Quente. Com vida.

Junto do seu altar, da rainha Santa Isabel, na igreja de Nossa Senhora do Carmo, na Beirã,
que arranjavam com tanto esmero

domingo, 16 de outubro de 2016

O começo da viagem (na casa do Pai... à qual, pela vida, regressei)


Na quarta-feira, dia 12 passado, via facebook, escrevi assim:


Deus move—se em caminhos sinuosos, extraordinários e insondáveis. Hoje mesmo, superando todas as minhas melhores expetativas, ficou acordado numa reunião depois da missa, que assumirei as funções de catequista do 1° ano, em Santo António. Se em 2011, antes de ter tido o solavanco na vida que tive, me tivessem dito que isto poderia ser possível...

Quer assim isto dizer que ajudarei a minha Alice e mais dois coleguinhas, a aprenderem a viver segundo o exemplo de Cristo: a amarem os demais, a serem tolerantes, a aprenderem a dar (para receberem), a fazerem o bem, sem olharem a quem.


Quero sobretudo incutir—lhes que ser cristão, nos dias de hoje, é exemplo enorme de bravura, de coragem. O cristão não é um queque, um larilas, um filhinho da manhã. Dizer que se ama Jesus, Deus feito homem, é não ter medo de ser bom, é querer amar o próximo, neste mundo tão descaracterizado e violento.

Há muitos milhares de homens e mulheres no mundo inteiro que são mortos todos os dias por acreditarem em Deus. Por alguma coisa isto será e temos de ter fé que há algo mais que esta vivência curta, trágica e limitada, de algumas décadas na terra (quando temos a sorte de chegar a isso).


Eu sou mais feliz porque vivo com Cristo dentro de mim. Quero ensinar—lhes a eles (e sobretudo à minha), o feliz que é poder viver—se assim. Isto já que a mais velha deixei—a fugir e pensa que sou o Ned Flanders. Vou fazer como o meu pai fez: não deixar que no segundo filho, se cometam os erros do primeiro. Eu gostava de ter sido do Sporting. Por ele.



Se nesse dia, eu radiava por dentro, por ter conseguido aquilo que me pareceu impossível a muitos pontos do processo; hoje era o dia. O dia.

A equipa de catequistas da paróquia do ano 2016: A Joaquina Coelho que acompanhará o 1º ano na Beirã; este menino que fica com os petizes de cá, a Deolinda (os dois da nova geração), a D.ª Gina, a D.ª Emília Ribeiro e D.ª Maria José (guardiãs da fé há muito tempo) faltando ainda a D.ª Inês Mota, que estava em funções no coro.
Créditos fotográficos: Dona Carla Ramilo. Muito bem haja.
Ontem mandei sms ao padre Marcelino, cheios de cenas mesmo minhas, mesmo do Drocas, do Sabizito. Diziam (claro que noutros termos), então mas a gente não ensaia? Não fazemos assim uma pré-cerimónia como se faz nos casamentos, para cada um saber aquilo que tem a dizer e quando entra, e mais não sei o quê? Ele respondeu-me (claro que noutros termos): tem calma, bebé. Sossega-te que vai tudo correr bem.

Eu confiei. E bem.

Como me ensinou um grande professor meu de muita coisa, que por acaso até trabalha no mesmo edifício, “quem por Deus anda, Deus ajuda”.

Correu tudo na perfeição. Nem que se tivéssemos feito mil ensaios antes, sairia assim tão bem. A igreja estava cheia, pelo início do ano catequético e por serem rezadas diversas intenções por familiares de presentes que adormeceram na esperança da ressureição (que expressão tão bonita para traduzir, o fim óbvio de todos). Passei toda a eucaristia de pé, mas tão feliz.

As mães dos meus meninos, a Eva e o António, estavam lá com eles e acertámos qual a melhor hora e dia, para a palavra de Cristo lhes ser passada.

Estamos em sintonia. O que é bom. O que é ótimo. O que é sinal que a terra para a sementeira está trabalhada, adubada, bem ajeitada.

Falava há dias com um querido meu, não daqueles muitos que me gozam “Olha lá vem o catequista”… (essa Velhaca é terrível e eu sei que ela vem aqui habitualmente ler o pasquim… ÉS MÀ!), e ele pediu-me para não martirizar as crianças com padres nossos. Contava-me que quando ele era pequeno, vivaço, rabito, tinha muitas vezes, o táxi do Zé Maria para o levar a ele e aos seus colegas a casa, à espera que ele acabasse de rezar as avés-marias que o obrigavam a saber por castigo.

Nada disso, meu caro! O que eu quero é que os meus meninos (a Eva, o António e a Alice), num ambiente descontraído, acolhedor (sempre na igreja, que é a casa do pai; que comigo não há lanchinhos em casa, porque nem só de pão vive o homem), aprendam a viver com o exemplo de Jesus Cristo, nosso irmão, filho de Deus. Quero que aprendam, brincando, jogando, desanuviando da exigência das aulas, a amarem o próximo, a serem tolerantes, a serem obedientes, a serem responsáveis, a saberem perdoar, e a aprenderem as coisas dos grandes mas a nunca crescerem.

Não haverá ali testes, apertos e pressões. Antes haverá companheirismo, amizade e alegria. Eu serei o professor que sempre quis ser, embora nunca o tenha percebido, e vamos todos enriquecer-nos com a vivência uns dos outros.

Prometeram-me um kit fabuloso que está… esgotado. Mas virá a caminho. Os catequistas de hoje são ministros com pasta que contêm cds, fichas ilustradas de aprendizagem; um caderno da catequese do 1º ano e um guia do catequista, este últimos que já tenho em meu poder.

Vai ser toda uma viagem! Mesmo agora a minha Cris me veio aqui trazer dois livros que encontrou no sótão e que podem ajudar. E muito! Se Deus quiser, vamos ser felizes.






Vamos aprender... Juntos... Vamos aprender...

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

A Disneylândia do idoso

As fotos públicas da página do facebook do Município de Marvão, que me envergonham em vez de alegrarem,estão no álbum deste link https://www.facebook.com/cmmarvao/photos/?tab=album&album_id=371709976493736

A coutada do voto
Se praticamente não passam ali carros, para quê tanta segurança?
Seria para manter os intrusos afastados?
Aí entrei eu

A festa do idoso é uma festa linda, uma festa respeitável, uma festa de tributo e homenagem a quem se encontra a viver o seu último período de vida, muitas vezes já sem a saúde, a dignidade e a prosperidade que o levaram até aí.


A forma como o homem, esse ser mais malévolo de entre todos os que habitam a face da terra, que entraria apenas nos segundos finais de um filme da história do planeta; (tal é a diferença de grandezas entre ambos) se tem relacionado com os seus pares neste últimos anos é sintomática do estado atual da humanidade.


Nas sociedades primitivas (e escreve-vos o Pedro que cursou os dois primeiros anos da faculdade em Antropologia), os velhos, os anciãos, eram os que mais sabiam, os que tinham mais experiência e vivências, os que com o passar dos anos iam ganhando um estatuto venerado por todos que nele e a ele iam beber.


Nos nossos tempos, no século XXI, em que as crianças se habituam a com a pontinha dos dedos conseguirem quase tudo o que querem para além do abrigo, comida e vestuário que têm garantidos, os velhos são velhos como os trapos e cada vez deitados fora mais cedo. Falo do que vejo. Do que me entristece e deixa em baixo.


Nesta nossa sociedade, em que o parecer vale muito mais que o ser, em que o que tens vale muito mais que o que és, os velhos são quase sempre um transtorno, um empecilho que os filhos vão muitas vezes aguentando à semana na casa de cada um, e vice-versa que agora vai para ti, ora vem para mim, como um fardo pesado, uma tocha que arde e apoquenta, uma granada prestes a implodir de vez.


Tenho um respeito enorme pelos idosos. Sempre tive. Desde criança. Sempre fui um amante daquelas gentes genuínas, marcadas por rugas que lhe têm tatuada a idade no rosto, que marcam nelas cada cume de vida, cada momento de sabedoria que nelas se depositou.


Neste fim de semana, no dia 9 de Outubro, o Município de Marvão organizou a festa do idoso. Aquilo foi, para quem lá está a mandar na casa grande, na mais alta do cabeço de Marvão; como o que é para mim, uma viagem à Disneylândia, a terra dos sonhos. Conhecendo-o eu como conheço, aquilo foi puro prazer e um deleite imenso. Ter todos os velhinhos e velhinhas reunidos num único espaço, tanto beijinho para dar a cara (como ele mete), tanto abracinho, tanto miminho… meu Deus! Tanto voto mesmo ali à mão de semear… Tudo garantido, tudo dele e aí vem mais uma maioria absoluta que esta gente é coitadinha, pensa pouco, preocupa-se pouco e desde que andemos dois ou três na procura diária do que querem e a fazerem o servicinho à porta… isto está limpo!


Houve muita comida, muita bubida, dança e os habituais homens e mulheres do regime estavam nos seus postos a servirem, a fotografarem, a ajudarem à dança, a dançarem e a fazerem a festa também. Está tudo impecavelmente montado e a máquina a faturar. Quem precisa, porque a vida deu as voltas que deu e ficou à mercê; precisa e gosta de receber. Eu até compreendo. Até compreendo de verdade. Mas há uma coisa dentro de nós que devemos de ouvir e que se chama consciência. Essa tal coisa de consciência é construída pelos valores e princípios que aprendemos dos pais e dos demais colegas, pela nossa experiência de vida, da espiritualidade e do acompanhamento religioso que tenhamos (seja ele de que natureza for), por coisas que a nossa própria natureza nos dizem que está bem e está mal.


Se não te passava cartão quando andavas a estudar no mesmo tempo que eu e te achava um labrego e um verbo de encher, porque raio te glorifico agora? Valho assim tão pouco? 


Há uma grande diferença entre um homem que dá e um homem que dá… mas quer algo em troca. Este bem que foi feito aos idosos, sei bem do que falo porque conheço, não é abnegado, desprovido de interesse, de quem quer mesmo que se divirta e que passe bem porque já merece neste final de caminhada da vida, passar nem que seja um dia longe de preocupações, lidas e doenças. Esta mão que embala, não o berço (que ainda não vota e pouco importa), mas a urna (que acompanha sempre porque quem está à volta, gosta muito de ver) quer uma coisa que pode parecer de somenos importância, um pormenor: um X. Um simples X num papel que lhe hão-de entregar, para meter num sítio onde há-de ir em carrinhas da câmara que o/a/os/as irão buscar à terra ou a casa, com instruções convenientemente esclarecidas, relembradas, treinadas em papéis iguais aos que vão encontrar nesse dias para que não se caia no erro. Um X que quase abre os portões da bonança na terra.


O evento é montado com um ar enganador refinado. A festa é pública, aberta ao público, feita com o dinheiro de todos mas… é o senhor presidente que a dá, coitadinho, que é tão bom, que é tão amigo, porque parece que se ele se for embora, que vai!, ou melhor, se o que vem a seguir (que parece que não tem assim tanto jeito e tanta palavra para lidar connosco) não continuar, isto acaba tudo! Deixa de haver festa do idoso, deixa de haver Feira da Castanha, Festival de Música… prontos! Acaba tudo e o castelo vem por aí abaixo aos trambolhões. Que parvoíce, que lamechice, que pena.


Pois como quero sempre ver pelos meus olhos para que seja eu a interpretar o que vejo, depois de ter feito o almoço para mim e para as pequenas que a grande trabalhava, arrumei a cozinha, e saí para beber café na minha velhaca favorita com o 4 patas, já com ideia de passar pelo pavilhão gimnodesportivo, onde o encontro se dava.


No caminho fui pensando que a porra do pavilhão pode ter sido um erro de engenharia tremendo, onde quem está sentado nas bancadas não vê o jogo (quem é que deu a licenciatura a esta besta que eu nem faço ideia quem foi, mas que é um 0 à esquerda, é!), mas para isto, pelo menos uma vez no ano, serve na perfeição. Olaré!


Ia pensando também, porque eu penso muito, sempre, até consigo fazê-lo quando estou a andar!, da última vez em que estive ali naquele sítio com aquele que é hoje o “paizinho” daquela gente toda, na altura em que nos candidatámos à Câmara de Marvão (hoje é Município e em vez do castelo, tem uma guarita). Estávamos nesse ido ano da graça do senhor de 2005 e nós, um pouco contra natura e despernados, andávamos a espalhar aquela que eu sonhava que fosse a boa nova de um concelho mais próximo das pessoas, mais presente, mais cara a cara, mais mão na mão, mais integrado e integrante. O todo poderoso PS do Dr. Manuel Bugalho brilhava em todo o seu esplendor, com grandes obras muito recentes (o Centro de Lazer da Portagem e a Piscina Municipal de Santo António ainda tinham a pintura fresca), a cultura estava em velocidade cruzeiro e o património mundial era o santo graal que parecia mesmo ali à mão de semear. As eleições e a campanha metiam medo e nós, sem nada a perder, com alguns bravos combatentes que como eu, caíram fora assim que se aperceberam da podridão do não sistema por dentro e agora estão comigo renascidos no movimento “Marvão Para Todos”, fomos à luta. Nesse dia, o Dr. Bugalho apadrinhava o Dia do Idoso e nós queríamos lá ir, não provocar, não causar distúrbios, mas apenas ver, como eu fui agora.


Ele tinha medo do que poderia suceder. Muitos tinham medo mas ele sobretudo, porque trabalhava lá em cima na Secção de Obras e não queria afrontar quem o chefiava. Recordo-me bem que na altura, dei o primeiro passo em frente, seguro e assertivo, dizendo que uma vez que ali estávamos em Santo António, iríamos. Dizia eu que se aquela era uma festa feita com dinheiros públicos, com o dinheiro de quem paga os seus impostos e não era exclusiva de quem mandava, ninguém nos poderia barrar à entrada, como se fazia nas discotecas de Lisboa quando não se tinha uma beldade feminina a segurar-nos a mão. Não posso dizer que nesse então, as altas patentes de cá foram antipáticas mas os olhares de esguelha, enviusados, assim ao longe, e um cumprimento amarelo de circunstância, mostraram-nos que não éramos bem vindos. Nós sabíamos porque vimos quem queríamos e fomos vistos, que foi a maior das conquistas, o olhar dos olhos e o dizer que não tínhamos medo.


Eu, desta vez, quis fazer o mesmo. Fui só, é certo, mas a coisa não estava programada para ter acontecido. Fiz porque eu, cidadão livre, esclarecido, que entra em todo o lado, todo, desde que queria, fiz questão.


À chegada, altas patentes do regime esfumaçavam enquanto mandavam a piada fácil, simples e circunstancial para um dos lacaios de serviço, que inevitavelmente, sorria.


Deixei o Lulu cá fora e entrei por ali a dentro. Eu imagino as caretas que aquela alma deve ter feito: “Então mas este?!?!?!!?!?!?!”


Ah pois é, bebé! Ainda não sei como é que a vais montar, mas tens de saber que neste concelho, não somos todos tão parvos como tu pensas que são os que aqui vivem. Nem tudo são velhinhos caquéticos, tontos, dependentes das instituições dedicadas ao apoio da terceira idade que pensas controlar, pelas tuas mãos ou por cabeças que te colocavam, a ti e aos teus, pelas ruas da amargura e agora, pelo deslumbre, pela ganância do poder e também do nada fazer, venderam a sua alma ao diabo.


Quem pensa como eu penso, respeita e tenta elucidar. Vocês manipulam e vão ao osso. Mas nós estamos preparados para isso. Temos do nosso lado, a boa fé e a inteligência, que faz falta e dá sempre jeito.


Pois te digo a ti e a todos, que esses e a essas, ao menino Pedro não enganam mais. Tenho por escola de vida que de cada vez que começo uma relação humana, de amizade ou companheirismo, seja com um homem ou uma mulher desconhecida, dou sempre tudo. À partida, abro o jogo todo, sem nada esconder. Depois, à medida que os tempos vão passando e se vai revelando, ou reforço, ou vou retirando (confiança, gosto, querer). Depois por vezes caem em desgraça e mostram o cú. Revelam uma parte de si que me mostram o seu verdadeiro eu. E aí, o Pedro é pouco cristão, é pouco de perdoar, é cruel como o seu homónimo que mandou arrancar o coração aos assassinos que roubaram a vida à sua Inês. Depois de o mal estar feito, e eles e elas sabem do que falo, podem vir vestidos de oiro e apregoar maravilhas do que quer que seja que eu… não faço intenções de me mexer um metro por eles ou elas. Tenho de aprender a ser cínico. Mais ainda. Acho que já consigo, o que matou um pouco da criança em mim, mas até me faz bem crescer. Dói menos.


Aqui nesta santa terrinha há gente que é mesmo de cá, nascida e criada, que tem aqui os seus investimentos de vida, os seus enterrados e não vive tranquilo, sem sentir desgosto, quando olha para o tão lindo monte de Ibn Marúan e sente que ele está a ser dominado por um Califa que ajudou a meter lá, enganado, e ele por inveja, por se sentir menorizado, por ter medo da sua própria sombra, quis passar a dominar e a ter a seu lado quem o não incomode, quem mame sem muito barulho fazer, quem lhe estique a alcatifa sempre que ele quer passar, devagarinho, deslizando, para não fazer muito pó.


Uma coisa te prometo, a ti que te conheço muito bem (por o estilo ser clássico) e a quem te conhece ainda melhor: neste ano vim só. Mas para o ano vamos ser mais. Da minha parte e de outras, mais. Vai vir gente que pode não ganhar, mas que vai. Com garra, força e convição porque se não for, de certeza que nada se consegue. E seja o que for que se consiga, será para fazer mossa, para vos beliscar, para saberem que não somos carneiros, que temos o nosso orgulho e muito orgulho em ser assim. Sempre lisos, sempre justos, sempre honestos, sempre fazendo tudo o que possa ser feito para que isto mude.


E diz-me tu, porque eu quero saber, aqui que ninguém nos ouve… Vai o 2º em 1º para o 1º poder mandar na sombra como o Rondão fez em Elvas, sabendo de antemão que este 2º jamais terá força suficiente para bater o pé como o outro fez ao paizinho? Chegaste tu à frente? Isso é que era muito engraçado.


Aqui vai estar o Sabi, o Sobreiro, sempre no seu posto de vigia altaneiro (lembraste do jornal? Quem escrevia, quem dirigia, quem mandava? Quem só aplaudia e… ameaçava trabalhar?), a aplaudir o que acha bem e azurzir no que está mal.


Uma pedrinha orgulhosamente incómoda no sapato de quem está, ou a pedra que faz falta para a mó do novo moinho, mexer.


Cá estaremos para ver.


O tempo… tudo traz, tudo cura e tudo revela.


O que eu, Pedro Alexandre Ereio Lopes Sobreiro, licenciado em Comunicação Social pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade Técnica de Lisboa; Pós-Graduado em Gestão Autárquica pelo Instituto de Línguas de Santarém, viajante pelo mundo com bolsas de estudo em Küsamo, na Finlândia; ou em castelo o Piaui, no Brasil, em representação do Município onde fiz a geminação com o castelo de Marvão de lá; digo é que: O LIVRO QUE ANDAM A LER, FUI EU QUE O ESCREVI.

Tenho dito.


terça-feira, 11 de outubro de 2016

Fizeremos a folha aos faraós! (TUGAS 6 - Pirâmides 0)



Epá… o que eu não sabia mesmo era que se a gente queria ser campeões do mundo de futebol, como o Brasil, como a Itália, como a Argentina, a Alemanha e essa seleções de países grandes que sabem jogar muita bem, tínhamos de ganhar a essa coisa que é a ilha dos Faraós!


O puto do FêCêPê é barra. Oxalá o Jorge Jesus e a Maga Patológica não o comprem. Eles que não tinham dinheiro nem para comprar desodorizantes e agora se banham em leite de cabra (ão)...


Ilha que, ainda por cima, se situa acima de nós, perto da Islândia e da Noruega, onde as águas devem estar frias como ó carapau e cheias de bacalhauzorros.


Depois de espetarmos meia dúzia de pastelinhos de Belém a Andorra; repetimos a dose frente aos faraós e diziam os nossos que o jogo era difícil, os brincalhões. Então se os bacanos nem a porra de um relvado de relva de verdade tinham e era um sintético certamente de 3ª linha, bem atrás do “FIFA 5 estrelas de Santo António das Areias”... Olaré! Que coisa! Detesto gente pobre.

O arquipélago, esse conjunto de ilhas como nos temos nos Açores, tem assim 18 pedacinhos mai grandinhos e outros mai piquaninos que metem nos 1500 km2 que têm acima da água, à volta de 50.000 mânfios (duas Portalegres cheias de gente que há lá agora). Alguns sabem jogar à bola. Dá para nos estorvarem mas não para nos ganharem.

Essas ilhas são pixotes a jogar mas mandam nelas desde a 2ª guerra. Nunca quisera aderir à Europa.

Hoje, 6 marradas...



Ganhámos! Estas já estão. Próximos…


segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Um dia aberto a...


O "Dia aberto da Celtex" foi mais uma operação de charme do alcaide Frutuoso, que quis assim, piscar o olho à população de Santo António das Areias, de caráter de matriz urbana, e tendencialmente avessa aos seus elencos, o que é bem visível pela natureza da freguesia, uma das duas que foge ao seu monopólio totalitarista.


Para poder opinar, fui ver. Sempre com os meus olhos. O Município de Marvão anunciava "uma visita guiada ao edifício, projeção de vídeos e fotografias da Fábrica em funcionamento, e apresentação do projeto de reabilitação do espaço. Prometia uma tarde a recordar uma importante época da aldeia de Santo António das Areias e do concelho de Marvão, onde seria possível partilhar memórias, histórias e testemunhos, acerca da CELTEX, com o Sr. João Serrano Sequeira, outrora sócio da Fábrica, e com antigos funcionários desta indústria, que chegou a empregar centenas de pessoas."

Na realidade, a montanha pariu um rato. Não houve visita guiada ao edifício e ficámos—nos apenas pela sala de entrada; foram projetados uns slides muito antigos e mal tratados do acervo do Sr. João; a projeção do video não foi convenientemente testada e mal se ouvia a locução; o projeto foi apresentado mas não devidamente... esmiuçado.

Os detalhes não foram, como é hábito, conferidos. O Sr. João Sequeira, fez o favor de fazer uma preleção sobre a história daquela casa e das empresas que albergou, de pé, apesar da sua idade já avançada, e teve de pedir água... que não havia.


Apesar dos muitos presentes, a partilha de memórias, histórias e testemunhos, acerca da fábrica não foi assim tanta. Alguns recordaram com saudade os tempos que ali passaram, outros quiseram desabafar algum mau estar sob forma como tudo se processou e os lesou do ponto de vista económico, mas foram... abafados pelo silêncio.


Não sou de todo contra a reabilitação e refuncionalização da antiga unidade fabril, para Parque de Máquinas Municipal, o que vai permitir, como eles dizem, "a recuperação de um património edificado que se encontrava abandonado, melhorar o ambiente e a imagem urbana, proporcionar melhores condições de trabalho e aumentar a eficiência na prestação dos serviços à população."

E até concordo muito que o Arquivo Municipal, agora incorretamente acomodado no Armazém da Beirã, seja reinstalado e organizado, de forma condigna e segura. Fiquei bastante bem impressionado com o trabalho da Dra Patrícia Marques, que me pareceu muito proativa e esclarecida.

Compreendo que tenha que ser assim. Mas a nossa sede de concelho, vai ficando cada vez 
mais só.

Qualquer dia só restarão lá em cima as "minhas" finanças...

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Um português no topo do mundo







O homem, já com filhos bem mais velhos que eu, um cristão convicto, daqueles que não tem vergonha de dizer que segue o exemplo de Cristo, em quem acredita como eu, habituado a comentar consigo o seu Sporting e o meu Benfica, cordato, interessado, calmo, perguntou-me ontem à noite, à hora do café:

- Então o que é que me diz disto do Guterres na ONU?

- O que lhe digo disto? Epá… que é uma honra enorme. Uma honra para o meu país como nunca me lembro de ter tido na minha vida. Uma coisa grandiosa e tenho nele uma vaidade enorme. Se pensarmos que desde os anos 70 que o cargo não é desempenhado por um europeu, na forma limpa como foi eleito e na lição de democracia que podemos daqui extrair… é um orgulho. Todo um orgulho.

O mundo está perigoso de se viver. Oxalá Deus o acompanhe e ajude a ajudar os oprimidos e os que vivem sob o medo que paira sobre o nosso mundo, os nossos dias.

- É muito bom, não é?, perguntou.

- Bom?!?! É demais! Isto é como se… o papa fosse um bispo português eleito pelos seus pares, ou se fossemos campeões do mundo. Isto é Portugal a jogar na Liga dos Campeões.

Meto o link mas não resisto a transcrição:

“ À sexta votação, o candidato português recebeu 13 votos favoráveis e duas abstenções dos 15 membros do Conselho de Segurança da ONU.

António Guterres aclamado como novo secretário-geral da ONU

O português vai suceder a Ban Ki-moon e entra em funções a 1 de Janeiro.


Guterres foi indicado por unanimidade

“O Conselho de Segurança das Nações Unidas indicou formalmente o nome de António Guterres para o cargo de secretário-geral da ONU. O anúncio foi feito nesta quinta-feira, em Nova Iorque.

Depois da conferência de imprensa de quarta-feira, em que os membros do conselho demonstraram o seu apoio unânime à candidatura do português, não é propriamente uma novidade, mas é certamente um momento histórico.

A Assembleia Geral da ONU deverá, segundo a Reuters, reunir-se na próxima semana para ratificar o nome do português.

No encontro com a imprensa a seguir à reunião à porta fechada desta quinta-feira em que o Conselho de Segurança da ONU formalizou a escolha de António Guterres, o embaixador russo nas Nações Unidas, Vitaly Churkin, quis destacar “o processo muito claro de unanimidade” dentro daquele órgão.

“O mais importante é este sentido de unanimidade e unidade do conselho, que espero que seja também veiculado pela Assembleia Geral da ONU”, afirmou o responsável russo, que ocupa neste momento a presidência do conselho.

Questionado pela imprensa sobre qual espera que seja o eixo da actuação de António Guterres, Churkin foi taxativo: “Trata-se de um homem muito empenhado e inteligente, não posso falar por ele.”

Sem querer adiantar qual o impulso que espera de Guterres em dossiers específicos como a Síria ou a Ucrânia, o embaixador russo prosseguiu no elogio ao novo líder da ONU, um homem de “muitas qualidades”: “Tem grandes credenciais ao nível da ONU, viajou por todo o mundo, e viu as coisas mais horríveis; é um político de alto nível, que fala com toda a gente e escuta toda a gente e expressa francamente a sua opinião, é uma excelente escolha.” Momentos antes desta votação decisiva já o embaixador da França nas Nações Unidas, François Delattre, tinha afirmado que Guterres era “o líder certo” e o homem capaz de “juntar a comunidade de nações”.

Mas desde quarta-feira que os elogios e felicitações a António Guterres vinham surgindo de dentro do Conselho de Segurança.

Guterres vai trazer “a liderança, a visão e o sentido de missão de que as Nações Unidas precisam”, afirmou na quarta-feira no Twitter o embaixador do Reino Unido na ONU, Matthew Rycroft. O Reino Unido, tal como a China, França, Rússia e Estados Unidos fazem parte do grupo de cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. Nenhum destes países vetou a candidatura de António Guterres.

“Foi um dia de união, um dia em que nos unimos em torno de alguém que se apresentou como o mais qualificado, o mais experiente e a melhor pessoa para o cargo”, afirmou, por seu turno, a embaixadora norte-americana nas Nações Unidas, Samantha Power, a seguir ao anúncio da recomendação de Guterres pela voz do embaixador russo, Vitaly Churkin.

À sexta votação, o candidato português recebeu 13 votos favoráveis e duas abstenções dos 15 membros do Conselho de Segurança da ONU.


“Conheço muito bem Guterres e considero-o uma escolha excelente”, afirmou esta quinta-feira o actual secretário-geral, Ban Ki-moon, depois de um encontro em Roma com o Presidente italiano. “A sua experiência como primeiro-ministro português, o seu vasto conhecimento do mundo e o seu intelecto brilhante vão servi-lo bem na liderança das Nações Unidas neste período decisivo”, realçou o sul-coreano, citado pela Reuters.


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Miudezas...

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terça-feira, 4 de outubro de 2016

E o Sizzle foi à(s) gaija(s)



Toda a gente me diz quando sabe que vivo com 3 mulheres, que sou um sortudo. Mas ninguém sonha como é viver com 3 mulheres. Apenas digo que não é fácil. Não é nada fácil e mais não digo porque como avisa a polícia nos States quando prende um meliante: “tem direito a ficar calado porque tudo o que disser, pode ser usado contra si no tribunal”.

Toda a vida vivi numa casa onde os machos éramos 3, e imagino hoje o difícil que pode ter sido para quem estava do outro lado. Solidariedade, mamacita.

Estar em minoria, nestes ambientes (o nosso!), não é fácil, garanto.

As pessoas sorriem para mim e dizem entre dentes, “sortudo! Um menino entre as mulheres…”

Eu rio, agradecido e murmuro, “nem imaginam o quanto…”

Todos já sabem e é do domínio público a minha devoção pelo género feminino, que acho de longe, mais evoluído que o masculino. Qualquer homem, seja ele qual for, e o extrato social a que pertencer, inclina inatamente a cabeça quando vê um decote que o deixa ver demais sem querer, ou mete a cabeça de lado para poder ver as pernas qua a saia distraída à frente deixa à sua mercê. Podem dizer que não, mas eu sei que mentem porque a natureza é mais forte que nós. Quando muito podem ser fortes, dizer que nunca, mas será sempre um reforço contranatura.

Depois, as mulheres podem dar à luz, podem gerar vida dentro delas, têm o sexto sentido, parece que nos despem a cabeça e nos leem cá dentro e ainda por cima, poderiam assegurar a continuidade da espécie humana com o apoio da medicina.

O que nos vai valendo é a anatomia que lhes dá prazer e este gosto que têm de ter um animal de estimação.

Isto tudo para vos dizer que quem manda em mim é o triunvirato que pinta os lábios cá em casa. Manda em mim, e manda no Sizzle, o meu bebé, o macho companheiro. Não quero, porque sei que perco, ir contra este muro de amazonas.

Elas por força, que lhe queriam mandar cortar os tintins, os apêndices, a masculinidade, vá!, chamemos-lhe assim. Isso era uma coisa que me revoltava e me deixava mesmo muito em baixo. Era uma ideia que me assustava e derrotava. Não sei muito bem como e como não, mas a coisa foi passando. Foram deixando, deixando, fez 1 ano, um ano e meses e eu andava desertinho de o levar às gajas, cotadinho. Solidariedade masculina, pode-se mesmo dizer.


Olhava para ele e pensava, “cãozinho, cãozinho… tão lindo e sem saberes o bom que a vida dá. Vão-te tirar o KIT sem sequer lhe dares uso”.

Queria levá-lo ao bem bom mas não queria que fosse com uma cadela de vida qualquer, que o meu menino é d’oiro. Uma vizinha aqui do bairro comprou, creio que perto de Santarém, uma cadelinha de luxo, labradora também, de uma tonalidade de pêlo mesmo idêntica ao Sizzle, chamada Quica. Com garota nova no pedaço, não havia vez nenhuma que o meu Suíço passasse nas redondezas e não se eriçasse todo. Muito macho, sempre que avistava alguma dama, dava sinal de si. Com esta… sobremaneira.

Eu e a dona, boa menina que conheço desde miúda, apalavramos o encontro romântico entre as mascotes, que já estava apalavrado há muito.

- Quando é que pode ser?, perguntei.

- Ah…  quando ela se sair.

- E quando é isso? (do estar saída, que eu não parçebo nadinha)

- Depende da altura… Umas duas vezes por ano.

Mas a boneca nunca mais se saía e o meu castanhinho… aguardando.

Até que há dias, recebi uma mensagem pelo facebook, uma cena assim muito high tech, muito queca de cão à século XXI: “Hoje à tarde está em casa?”

“Estou.” Mas que seria? Fiquei na mesma e a aguardar um contacto prévio para alguma confirmação.

Estava eu a lavar os meus carrinhos, numa tarde bem passada de limpezas ao sol, quando mãe e filha me aparecem no portão da frente com a menina.

Eu… a bem dizer… fiquei sem jeito.

- “Está aqui”, disseram elas.

- “Sim, já vi e…”, deixei no ar à espera de uma deixa para se saber o que fazer a seguir. “O meu está aqui, mas…”

- “Pois…”

- “Pois…”, respondi. “é que eu não faço a ideia como é que isto se processa”, disse. Não sabia se havia um cortejo antes, preliminares,  se se mete um drink, ou se se fecham os dois na garagem para terem alguma privacidade. Não sabia, prontos.

- “Não sei se quer aqui ou no nosso quintal”…, disseram.

-“É… na vossa casa é capaz dela estar mais à vontade. Não sei. É que aqui… (com a Cris a ajudar nas limpezas de casa, a Leonor a estudar e sobretudo a Alice a poder aparecer a qualquer momento e a apanhar uma imagem de choque daquelas que não desaparecem assim tão depressa…) é capaz de não ser assim lá muito boa ideia.”


Assim saímos. O meu animal entrou num estado de desvario tal que não tem explicação. Parecia que a dita cadelinha tinha um íman gigante entre as pernas e o gajo parecia que bebeu 30 RedBulls de empreitada. Deu-me um esticão na trela que parecia que me ia desconjuntar o braço que fiquei de recordação do acidente como se fosse um osso único. Que coisa, pá!

Na realidade, eu não sabia, ou já me tinha esquecido porque é que o povo diz que uma cadela está saída. Está saída porque o amojo literalmente parece que lhe salta para fora do corpo. No sítio da crica, fica com uma bolsa… saída. Daí o nome.


Lá fomos então todos 3: as duas senhoras, mãe e filha, com a cadelinha; e eu com o Alexandre Frota canino doido por fazer o gosto ao “dedo”. Que o gajo estava com um poder, e fazia uma força… brutal. Os 100 metros que distam entre as duas casas, pareceram quilómetros. Nunca mais lá chegávamos.


Lá chegados, nem uma zona mais recolhida, nem uma sombra, nem um sonzinho ambiente… nada! O gajo saltou-lhe para a arreata e… prontos. Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhh.

A carinha dele… tão satisfeito, o meu amor… Que regalo.

Depois ficaram os dois engatados. Parece que a natureza é mesmo assim. Têm de ficar ali a assegurar que a conceção é bem sucedida.

Eu recordo-me de em puto os ver assim, pela minha Beirã fora. Mas não fazia a mais menor ideia porque é que os cães ficavam colados de costas e muito menos reparava que era um cão e uma cadela. Apenas lhe atirava água para cima porque era engraçado ver a aflição dos dois a correrem cada um para seu lado sem conseguirem ir para lado algum.

Não ouve cigarros after game, nem um biscoito canino. Não houve um tchau, uma troca de telefones, uma carícia no leito.

Vamos lá ver ao fim de dois meses no que dá.

- Então quantos quer?

- Ó minha querida, eu sei que o dono do macho tem direito a alguns mas não faço ideia de quantos estaremos a falar. De qualquer das formas, agora não preciso de nenhum e tu, que tiveste de pagar pela tua, aproveita para conseguires fazer algum. O meu foi dado e por isso. Está tudo bem. Não tenho assim nenhum amigo que me tenha pedido um. Pode ser que um dia… dás-me então.

- Ah, mas eu não quero fazer muitas ninhadas, sabe? Quero 2 ou 3, porque faz falta às cadelas para estarem bem. Depois começam a desenvolver doenças e é melhor não.

- Tu é que sabes. Nós cá estaremos. E como se dá a casualidade de terem a mesma cor de pêlo.

Enquanto vinha com ele, pisquei-lhe o olho e fiz-lhe uma festa na cabeçorra tão larga que tem:

“- Elas dão muito mimo, muito mimo… mas quem é que te traz às maganas, ó parceiro?”

Solidariedade masculina