sábado, 31 de janeiro de 2026

Tó, o poeta, já foi na frente...

 

Curiosamente, uma das poucas imagens que tenho suas...

O meu Tó... O meu grande Amigo há décadas, o meu amado poeta quando ainda escrevia, quem agora subia a Marvão só para me ver, conversar, ter uns trocos para o café no Sr. Vítor (Malaquias de que ele tanto gostava de beber), umas bolachas no Supermercado Tapas, um extra... acabou. 


O Tó morreu-me, já não há mais, e deixa um vazio do seu tamanho em mim. Como é que nunca mais o vou ver?!? Como é que nunca mais vou ralhar com ele quando vinha a pé da Beirã à minha casa, à chuva, "e depois as pessoas gozam contigo e dizem que és maluco, e tu não és, e eu não gosto disso, porra pá!!!", para depois o ir levar a casa.


O Tó não é mais, e com ele vai parte de mim.


Há aqui um contrasenso, um amargo de boca, qualquer coisa muito estranha e rara que me atormenta e deixa atónito porque... não estava doente, aparentemente, tinha apenas 61, mais 9 que eu, muito longe dos 80as e 90as de esperança média de vida com o avanço da nossa medicina e sociedade, e parece que se está sempre à espera de um aviso, não é?!? 


"Bem podia eu ligar toda a manhã... que ele nunca haveria de me responder", contou-me a mãe, muito chocada e abatida, quando lhes liguei para a Santa Casa, onde vivem os pais, num quartinho, quando lhe quis dar as condolências, e me manifestar completamente disponível para tudo o que entendam. 


Choca sobretudo porque não estava gravemente doente para morrer. Vivia naquela sua forma tão peculiar de ver o mundo, completamente sem maldade e com alguma distância dos limites da sanidade, mas com um espírito, como hei-de dizer sem maldade: inócuo e sem ruins intenções. Era um bebê grande de metro e 80, com barbas que vinha aparar com frequência à minha vizinha Rosa, e  causava impacto visual mas não ia mais que isso.. 


A morte abraçou-o em casa, na sua caminha, onde me mostrou, por exemplo, o FMI do José Mário Branco, há muitos anos atrás, e eu nunca mais esqueci daquela forma poderosa de cantar e como a música pode ser trágica, visceral, e mudar a vida de uma pessoa. 

O manto negro foi sorrateiro, silencioso, mas clemente e piedoso. Cobriu-o e levou-o, sem o deixar a arrastar ou a sofrer.


Sabendo nós que 9 anos é uma eternidade que coloca dois jovens da mesma aldeia quase que em galáxias diferentes (quando cumpriu 18, e atingiu a maioridade, eu estava, aos, 9, numa de Heidi, Marco, Tom Sawyer e Abelha Maia, todos no Verão Azul), ou seja, passávamos na mesma rua e ele era capaz de olhar de soslaio perante o meu ar de fascínio.


Sim porque o Tó, dono de uma inteligência rara, foi muitas vezes apontado pelos pais beiranenses como um exemplo a seguir: "Mete os olhos no Tó..., como o Tó é que tu devias ser..." ecoava pelos quintais da minha aldeia.


As primeiras memórias vivas de convívio que tenho do Tó, foi num encontro de jovens promovido pelo Sr. Padre Fernando Farinha, uma figura apaixonante e muito influente por estas bandas, que aqui fez chegar um grupo chegado de fora, para creio eu, fortalecer laços cristãos/grupos de trabalho sobre Cristo e a Igreja, que eu era muito novo para perceber aquilo. Só ia aos almoços que eram balíssimos! Naquela altura, o Tó já estava em todo o seu esplendor! Cabelo encaracolado pelos ombros, camisa branca com colete de fazenda aberto, medalhinha de Taizé, jeans e sapatinhos pretos clássicos engraxados.


Como excelente aluno que sempre foi, entrou para Filosofia, creio que na Clássica, e era comum ver os pais mandarem-lhe encomendas pelos comboios que passavam na aldeia. Meses depois, em que fui com a minha família por aquelas paragens, encontrá-mo-lo, e recordo-me de ver a minha mãe chorar,  tal foi o choque ao constatar o estado de alienação daquele menino bonito, que agora vimos em Santa Apolónia, de calções desportivos, t-shirt e chanatos.


Segundo o que soube então, vim a saber depois e lhe perguntei a ele, o problema nunca foram as drogas mas sim o álcool. Muito, mas muito álcool e ele, figura carismática como sempre foi, diabolizou-se, e fez-se dono e senhor do Bairro Alto, com lugar cativo ao balcão do Arroz Doce, da tia Alice, famoso pelos "Pontapés na Con@", bebida composta por cerveja, café e um ingrediente X... do qual nunca se veio a saber muito bem qual era, mas pelo estaladão que se lhe seguia, era tudo menos fraco, e certamente, gasolina de avião.


Nesta fase de voragem alcoólica, que o envolveu com amigos de perdição, mas o distanciou da vida académica, da família, da vida afinal, acabou por o fazer regressar à terra, à casa de partida. Aqui protagonizou episódios caricatos com laivos de insanidade que envolveram desfiles menos próprios na Av.Pio XII em Portalegre, e relatos de violência que o levaram ao internamento compulsivo no nosso hospital, e até estadias no Hospital Júlio de Matos (Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa).

Dessa estadia não falava muito, nem gostava abordar, mas saiu de lá com vida.


Foi já na casa da Beirã, com o Amor imensurável dos pais como combustível emocional, que se conseguiu regenerar por completo (nunca mais o vi tocar numa gota de álcool que fosse!), voltar a ler, a escrever, a estudar!!!!, tendo até conseguido terminar o curso de Português - Inglês no Politécnico de Portalegre e chegado a dar aulas!, estando agora reformado dessa atividade.


Por ter estado sozinho quando a encarou de frente, mandam as leis, e a prudência, que tenha de ser autopsiado e aqui entramos no drama dos homens e das suas limitações, dos dias em que podem ser realizadas, e apenas na 3a feira, dia 3, quando terei de estar obrigatoriamente em Lisboa, e me será impossível estar presente cá, como tanto queria, sobretudo para amparar os pais...; o seu corpo será devolvido à terra, após autópsia, e câmara ardente na Capela Mortuária da Beirã, a partir das 9:30h, seguida das cerimónias religiosas que terão início às 11h, após exéquias fúnebres, seguindo o funeral para o cemitério local da sua Beirã.


Que a terra te seja leve, camarada... 

Descansa em paz...

domingo, 11 de janeiro de 2026

Assassinatos à queima roupa... na idade do gelo (ICE)

https://www.publico.pt/2026/01/08/video/como-ice-matou-renee-nicole-good-saiam-cidade-mayor-20260108-154044


Eu vi estas imagens, como todos vós, e fiquei estarrecido, de alma boquiaberta. A vertigem em que o nosso mundo se está a tornar, é um mergulho no vazio de quem ninguém está a salvo. Nada é certo, seguro, confiável. Os líderes das grandes nações, os todo-poderosos que crescemos a admirar por parecer que eram de outro domínio, outra dimensão para além da nossa, são hoje loucos que dispõe de um arsenal de calibre nuclear que à mínima podem despoletar um conflito à escala planetária capaz de devolver tudo à escuridão do cosmos.


Por ser assim, ignoram fronteiras e soberanias, põe e dispõe de líderes e territórios, como se não houvesse ordens, nem organismos que fossem capazes de o impedir.

O ICE nos Estados Unidos, Serviço de Imigração e Alfândegas, é a agência responsável pela identificação, detenção e deportação de imigrantes indocumentados, bem como pela investigação de crimes como o tráfico humano e o contrabando transnacional; que tem muito lamentavelmente estado na nas bocas do mundo por este feito relatado nas imagens.

Por não ter imediatamente parado, respeitando as ordens que lhe eram dadas, está cidadã AMERICANA, foi brutalmente assassinada à queima roupa, quando estava desarmada, e certamente consumida pelo susto.

Como se não pudesse ser pior ainda, o truculento do presidente, tratou-a como "desordeira” e “agitadora profissional”, tendo os abomináveis membros da Administração acusado-a de “um acto de terrorismo doméstico”, argumentando que os agentes responderam a uma ameaça de atropelamento, versão dada também pelas autoridades federais, que alegam que os tiros foram disparados em legítima defesa, acusando a mulher de ter tentado usar o seu veículo para atropelar agentes!!!!!! — versão veementemente contestada pelas autoridades locais e pelas imagens captadas por testemunhas.

Na verdade, tratava-se apenas de uma jovem mãe (37) de três filhos, de 15, 12 e 6 anos, licenciada em escrita criativa, vencedora de prémios de poesia, escritora ávida e mãe dedicada, que habitualmente fazia maratonas de filmes e criava arte com a filha e os dois filhos.

Renee Good, que vivia em Mineápolis, a pouco quarteirões do local do crime, com a companheira e o filho mais novo, já não é mais. A cegueira da brutalidade pôs termo a uma pessoa extremamente bondosa, amorosa, compreensiva e carinhosa. Na verdade, um ser humano incrível, segundo quem a conhecia.

“É tão estúpido”, continuou a mãe, depois de saber das circunstâncias da morte por um jornalista. “Provavelmente, estava aterrorizada”, acrescentou. Donna Ganger assegurou também que a filha “não estava envolvida em nada disto”, referindo-se aos manifestantes que protestavam contra os agentes do ICE.

“Este é mais um exemplo claro de que o medo e a violência, infelizmente, se tornaram comuns na nossa nação”, disse o presidente da Old Dominion, Brian O. Hemphill, em comunicado ao WP. “Que a vida de Renee seja um lembrete do que nos une: liberdade, amor e paz”, apelou.

O Conselho Municipal de Mineápolis descreve Renee Good como uma residente que “cuidava dos seus vizinhos”. Tina Smith, senadora democrata pelo Minnesota, disse estar “de coração partido e furiosa” com a morte da mulher, descrevendo-a como uma “cidadã norte-americana, mãe e residente nas Twin Cities”.

O presidente da câmara de Mineápolis, Jacob Frey (democrata), ressaltou que o vídeo do incidente mostra “um agente a usar o poder de forma imprudente, o que resultou na morte de alguém”, disse, citado pelo WP.

O governador do Minnesota, o democrata Tim Walz (que concorreu a vice-presidente de Kamala Harris), culpou a Casa Branca pelo incidente, ecoando a frustração dos residentes locais com o aumento das acções federais de imigração em Mineápolis. “Há semanas que alertamos que as operações perigosas da Administração Trump representam uma ameaça à segurança pública e que alguém iria ficar ferido”, declarou numa conferência de imprensa na tarde de quarta-feira.

Pesar...

😔