quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Y en España les dicimos: OLÉ!! (por dos veces)

Colchoneros: cero  BENFICA - 2

Foi um Benfica maduro, sólido, com personalidade, a jogar num dos palcos de topo da Europa frente a um dos seus grandes, recheado de craques e com o treinador com mais estilo de todos, um gigolo sul-americano que mais parece um capo da cosa nostra. Foi um Benfica feliz que honrou o seu passado glorioso e nunca se intimidou, antes se soube afirmar.

Ma che cosa!
Tu consegues, miúdo!
Quanto não vale um sorriso destes?
Os comentadores elogiaram os miúdos que se portaram como veteranos (grande Nélson Semedo! Mas qual Maxi qual quê?; soberbo Gonçalo Amaral, com uma postura assombrosa de craque maduro) e mostraram o brilho que têm no maior palco da Europa, a deixarem antever o assédio global quando os mercados reabrirem. Eles é que o disseram mas eu acrescento a prestação do imperador Júlio César; a dos gigantes Luisão e Jardel que estiveram implacáveis lá atrás; a da feliz volta a Espanha do mágico Jonas e a do regressado a casa Jiménez; e o sempre e cada vez mais estrela da companhia, soberbo Gaitán.
 



Em grande destaque esteve também o grande Rui Vitória que a cada jogo que passa vai conseguindo estabelecer o seu percurso depois do atabalhoado arranque da pré temporada. Tranquilo, conhecedor, calmo, soube lançar Mitroglou na frente para os abrigar a recuar; Fejsa para dar consistência ao meio campo e Pizzi, no final, para uma lufada de ar fresco.

Longe vão os tempos da loucura da chiclete e das madeixas risco ao meio, que entrávamos na Xamopionze sempre a perder, em prestações lamentáveis em que nunca estivemos à altura do passado. Foi a finais, é certo, mas não ganhámos nenhuma e nisto aqui, o segundo é sempre o primeiro dos últimos.

Hoje Vitória e os seus homens reergueram o grande Benfica, e assumiram o auspicioso primeiro lugar do grupo, que deixa o peixinho em Setúbal e o regresso à Luz a calendarizar em breve.



Quanto mais não seja, o prestígio e 1 milhão no bolso, já ninguém nos tira.

Não rezes Rui! Deixa-o arder sozinho.
Como será que ficaram na Xampionze nesta jornada?

Eu perdi a cabeça antes e joguei 1 euro no placard, onde apostei a vitória do meu Benfica. O prognóstico nunca poderia ser outro. Como é que eu poderia estar a ver um jogo e a torcer contra o meu dinheiro ou contra o clube do coração? A sorte protege os audazes: ganhei 6 euros e meio! Já disse à patroa para não aviar o farnel para amanhã, porque o repasto vai ser no Castelo do primo Jorge, que de tão maravilhoso que sempre é, amanhã vai ter mousse de chocolate e saber a pato!




sexta-feira, 25 de setembro de 2015

O medo do passado (que condicionará o futuro)

 

O meu professor Basílio Horta, que me fez uma das poucas orais a que tive de comparecer, (no caso de Ciência Política no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas); e me deu, quase que sem querer, uma lição de vida ao ensinar que o homem é um ser gregário e que vivendo em sociedade, tem de fazer escolhas, para as quais é necessário que hajam os melhores para decidir qual é o melhor caminho; surgiu-me hoje nas notícias como se fosse um assombro. 

Esse homem, esse fundador do CDS juntamente com o prof. Freitas do Amaral, que me apontou e argumentou, legitimando, a necessidade de se fazer política (e acabou por influenciar as minhas escolhas de vida que me levaram a vice-presidente da câmara de Marvão), surgiu-me hoje completamente transvestido enquanto presidente da Câmara de Sintra criticando as sondagens, avisando a populaça para não irem nas cantigas "deles" e acreditarem sempre no Partido Socialista. 
Sempre?!?! E o senhor fundou um, ainda por cima de direita?
Se foi este um dos principais influenciadores para eu ter decidido como decidi, e deu o infeliz desfecho que deu, ao ter que virar as costas àquela "roupa" toda... Se foi este... vou ali já venho. 
tongue emoticon

O Portugal à Frente está cada vez mais mesmo à frente e muito provavelmente vai acabar por ficar. Nem que seja pelo número de deputados eleitos e porque a cantiga do "tenham medo do passado" foi muita bem cantada. A novela Socrática, com a romaria bizarra dos notáveis que nos meteram no buraco de onde estes no tiraram a Évora fez saltar do armário os esqueletos que ninguém quer ver. E no próximo dia 4, ou muito eu me engano ou a prova dos 9 vai ser clara.




quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Dois homens bons


Com 42 e dois anos, tão feliz por viver num mundo que, apesar de tão injusto, duro e difícil; ter ainda assim, dois homens desta natureza em dois pontos de maior destaque.

Tão feliz.

Na atual visita do Papa Francisco aos Estados Unidos, Obama disse: acredito que o entusiasmo em torno da sua visita, santo padre, não se deve apenas ao cargo que desempenha, mas às suas qualidades únicas enquanto ser humano. Na sua humildade, na adoção da simplicidade, na gentileza das suas palavras, na generosidade do seu espírito; vemos um exemplo vivo dos ensinamentos de Jesus; um líder cuja autoridade moral, provém não só das suas palavras, mas também das ações.












E neste contexto, não resisto a partilhar convosco, clientes da minha taberna virtual ou do meu quiosque no facebook, a entrevista à Renascença que o meu querido caríssimo Amigo, irmão, João André Escarameia, me enviou pelo correio eletrónico. Bem sei que ele é muito mais recatado e introspetivo que eu, mas não levará certamente a mal a minha divulgação deste texto. Que o veja como um apregoar da palavra de Deus. J Do bem estar.
Bem hajas, sempre, meu querido.


Para um Papa que vem do “fim do mundo”, como olha para Portugal e para os portugueses?
Em Portugal, só estive uma vez no aeroporto, há anos, quando vinha para Roma, num avião da Varig que fazia escala em Lisboa, por isso, só conheço o aeroporto. Mas conheço muitos portugueses. E, no Seminário de Buenos Aires, havia muitos empregados, emigrantes portugueses, gente boa, que tinha muita familiaridade com os seminaristas. E o meu pai tinha um colega de trabalho português. Lembro-me do seu nome, Adelino, bom homem. E uma vez conheci uma senhora portuguesa, com mais de 80 anos, que me deixou boa impressão. Quer dizer, nunca conheci um português mau.

No seu discurso aos bispos portugueses, além de elogiar o povo português e olhar para a Igreja com serenidade, o Santo Padre manifesta duas preocupações: uma em relação aos jovens e outra em relação à catequese. O Santo Padre usa uma imagem, dizendo que “os vestidos da primeira comunhão já não servem aos jovens”, mas que há “certas comunidades que insistem em vestir-lhos”. Qual é o problema?
É uma maneira de dizer. Os jovens são mais informais e têm o seu próprio ritmo. Temos de deixar que o jovem cresça, temos de o acompanhar, não o deixar sozinho, mas acompanhá-lo. E saber acompanhá-lo com prudência, saber falar no momento oportuno, saber escutar muito. Um jovem é inquieto. Não quer que o incomodem e, nesse sentido, pode-se dizer que “o vestido da primeira comunhão não lhes serve”. As crianças, pelo contrário, quando vão comungar, gostam do vestido da primeira comunhão. É uma ilusão. Os jovens têm outras ilusões que, muitas vezes, são muito boas, mas há que respeitar, porque eles mesmos não se entendem, porque estão a mudar, estão a crescer, estão à procura, não é? Por isso, é preciso deixar o jovem crescer, há que o acompanhar, respeitar e falar-lhe muito paternalmente.

Porque, ao mesmo tempo, há uma exigência a propor, mas essa exigência, muitas vezes, não é atractiva!
Por isso, há que procurar aquilo que atrai um jovem e exigir-lho. Por exemplo, um caso concreto: se você propõe a um jovem – e vemos isto por todo o lado – fazer uma caminhada, um acampamento ou fazer missão para outro sítio, ou por vezes ir a um “cotolengo” [obra fundada por sacerdote italiano de acolhimento de doentes com grave deficiência  múltiplas, abandonadas pelas famílias e em situação de risco] para cuidar dos doentes, durante uma semana ou quinze dias, entusiasma-se porque quer fazer algo pelos outros. Está envolvido.

“Involucrado”?
Sim, fica por dentro, compromete-se. Não olha a partir de fora. Envolve-se, ou seja, compromete-se.

Então, porque é que não fica?
Porque está a caminhar.

E qual é o desafio que a Igreja, então, deve enfrentar? O Santo Padre também falou de uma catequese, que muitas vezes permanece teórica e onde falta esta capacidade de propor o encontro…
Pois é importante que a catequese não seja puramente teórica. Isso não serve. A catequese é dar-lhes doutrina para a vida e, portanto, tem de incluir três linguagens, três idiomas: o idioma da cabeça, o idioma do coração e o idioma das mãos. E a catequese deve entrar nesses três idiomas: que o jovem pense e saiba qual é a fé, mas que, por sua vez, sinta com o seu coração o que é a fé e, por sua vez, faça coisas. Se falta à catequese uma destas três línguas, destes três idiomas, não avança. Três linguagens: pensar o que se sente e o que se faz, sentir o que se pensa e o que se faz, fazer o que se sente e o que se pensa.

Escutando vossa Santidade, isto parece óbvio, mas, olhando à volta – sobretudo na velha Europa, na velha cristandade – não é assim. O que é que falta? Mudar a mentalidade? Como se faz?
Mudar a mentalidade, não sei, porque não conheço tudo, não é? Mas é verdade que, a metodologia catequética, às vezes, não é completa. Há que procurar uma metodologia da catequese que junte as três coisas: as verdades que se devem crer, o que se deve sentir e o que se faz, o que se deve fazer, tudo junto.

Santidade, para o centenário das aparições de Nossa Senhora de Fátima, nós esperamos por si em Portugal. Três Papas já nos visitaram (João Paulo II por três vezes). O Senhor, que ama muito a Virgem, o que espera da sua visita em 2017?
Bom, vamos lá esclarecer as coisas. Eu tenho vontade de ir a Portugal para o centenário. Em 2017 também se cumprem 300 anos do encontro da Imagem da Virgem de Aparecida.

…. uma data estereofónica, em dois lados! (risos)
... por isso, também estou com vontade de lá ir e já prometi  lá ir. Quanto a Portugal, disse que tenho vontade de ir e gostaria de ir. É mais fácil ir a Portugal, porque podemos ir e voltar num só dia, um dia inteiro, ou, quanto muito, ir um dia e meio ou dois dias. Ir ter com a Virgem. A Virgem é mãe, é muito mãe, e a sua presença acompanha o povo de Deus. Por isso, gostaria de ir a Portugal, que é privilegiado.

E o que espera de nós, portugueses? Como podemos preparar-nos para o receber e também para seguir os pedidos de Nossa Senhora?
O que a Virgem pede sempre é que rezemos, que cuidemos da família e dos mandamentos. Não pede coisas estranhas. Pede que rezemos pelos que andam desorientados, pelos que se dizem pecadores – todos o somos, eu sou o primeiro. Mas a Virgem pede e há que se preparar através desses pedidos da Virgem, através dessas mensagens tão maternais, tão maternais... e manifestando-se às crianças. É curioso, Ela procura sempre almas muito simples, não é? Muito simples.

Esta entrevista acontece em plena crise dos refugiados. Santo Padre, como está a viver esta situação?
É a ponta de um icebergue. Vemos estes refugiados, esta pobre gente que escapa da guerra, que escapa da fome, mas essa é a ponta do icebergue. Porque debaixo dele, está a causa. E a causa é um sistema socioeconómico mau e injusto, porque dentro de um sistema económico (dentro do mundo, falando do problema ecológico, da sociedade socioeconómica, da política) o centro tem de ser sempre a pessoa. E o sistema económico dominante, hoje em dia, descentrou a pessoa, colocando no centro o deus dinheiro, que é o ídolo da moda. Ou seja, há estatísticas, não me recordo bem (isto não é exacto e posso equivocar-me), mas 17% da população mundial detém 80% das riquezas.

E esta exploração das riquezas dos países mais pobres, a médio prazo traz esta consequência: a de estes todos que agora querem vir para a Europa…
E o mesmo acontece nas grandes cidades. Por que surgem as favelas nas grandes cidades?
O critério é o mesmo…
É o mesmo; é gente que vem do campo, porque o desflorestaram, porque fizeram monocultivo, não têm trabalho e vão para as grandes cidades.

Em África, também é igual…
Em África... ou seja, é o mesmo fenómeno. Então, esta gente emigrada que vem para a Europa – é a mesma coisa – à procura de um sítio. E, claro, para a Europa neste momento, é uma surpresa, porque até custa a crer que isto esteja a acontecer, não é? Mas acontece.

Mas o Santo Padre, quando foi a Estrasburgo, disse que era “necessário actuar sobre as causas e não apenas sobre os efeitos”. Mas parece que ninguém ouviu e, agora, os efeitos estão à vista…
Temos de ir às causas.

E ninguém o ouviu, muito provavelmente…
Onde as causas são a fome, há que criar fontes de trabalho, investimentos. Onde a causa é a guerra, procurar a paz, trabalhar pela paz. Hoje em dia, o mundo está em guerra contra si mesmo, ou seja, o mundo está em guerra, como digo, uma guerra em folhetins, aos pedaços, mas também está em guerra contra a Terra, porque está a destruir a Terra, ou seja, a nossa casa comum, o ambiente. Os glaciares estão a derreter-se, no Árctico, o urso branco vai cada vez mais para o norte para poder sobreviver.

E a preocupação pelo homem e pelo seu destino, parece ignorada. Como vê a reacção da Europa à vaga de refugiados? Uns constroem muros, outros escolhem os refugiados consoante a sua religião, outros aproveitam esta situação para fazer discursos populistas.
Cada um faz uma interpretação da sua cultura. E, por vezes, a interpretação ideológica, ou das ideias, é mais fácil do que fazer as coisas, que é a realidade. Mais longe da Europa, há um outro fenómeno que também me doeu muito: os “rohingya” [grupo étnico muçulmano, provavelmente, com origem na antiga Birmânia. Marginalizados por razões étnicas e religiosas, foram apontados pela ONU como uma das minorias mais perseguidas do mundo], que foram expulsos do seu país e que entram num barco e partem. Chegam a um porto ou a uma praia, dão-lhes água, dão-lhes de comer e depois, mandam-nos outra vez para o mar e não os acolhem. Ou seja, falta a capacidade de acolhimento da humanidade.

Porque não é tolerar; é mais do que tolerância: é acolhimento.
Acolher, acolher as pessoas, e acolher tal como vêm. Eu sou filho de emigrantes e pertenço à onda migrante do ano 1929. Mas na Argentina, desde o ano 1884, começaram a chegar italianos, espanhóis... portugueses, não sei quando chegou a primeira onda portuguesa; vinham sobretudo destes três países. E quando chegavam lá, alguns tinham dinheiro, outros iam para o hotel de emigrantes e daí eram enviados para as cidades. Iam trabalhar ou procurar trabalho. É verdade que, naquela época, havia trabalho, mas, os da minha família – que tinham trabalho quando chegaram, em 29 –, no ano 32, com a crise económica de 30, ficaram na rua, sem nada. O meu avô comprou um armazém com dois mil pesos que lhe emprestaram e o meu pai, que era contabilista, andava a fazer distribuição com a canasta; ou seja, tinham vontade de lutar, de vencer... Eu sei o que é a migração! E depois, vieram as migrações da Segunda Guerra, sobretudo do centro da Europa, muitos polacos, eslovacos, croatas, eslovenos e também da Síria e do Líbano. E sempre nos demos bem por lá. Na Argentina, não houve xenofobia. E agora, há migração interna na América, vêm de outros países da América para a Argentina, apesar de ter diminuído nos últimos anos, por falta de trabalho na Argentina.

E também do México para os Estados Unidos. Há todo um fenómeno…
O fenómeno migratório é uma realidade. Mas eu queria abordar o tema, sem censurar ninguém. Quando há um espaço vazio, a gente procura preenchê-lo. Se um país não tem filhos, vêm os emigrantes ocupar o lugar. Penso no nível dos nascimentos de Itália, Portugal e Espanha. Creio que é quase 0%. Então, se não há filhos, há espaços vazios. Ou seja, o não querer ter filhos, em parte, – e isto é uma interpretação minha, não sei se está correcta – é um pouco o resultado da cultura do bem-estar, não é? Eu ouvi, dentro da minha própria família, cá, há uns anos, por parte dos meus primos italianos dizer: “Não, crianças, não; preferimos viajar nas férias, ou comprar uma ‘villa’, ou isto ou aquilo”... e os idosos vão ficando sozinhos. Creio que o grande desafio da Europa é voltar a ser a mãe Europa...

E não a…
... a avó Europa. Perdão, há países da Europa que são jovens, por exemplo, a Albânia. A Albânia impressionou-me, gente com 40 anos, 45 anos... e a Bósnia-Herzegovina, ou seja, países que se refizeram depois de uma guerra, não é?

Por isso, o Santo Padre os visitou…
Ah sim, claro. É um sinal para a Europa.

Mas este desafio do acolhimento a estes refugiados que estão a entrar, na sua perspectiva, pode ser muito positivo para a Europa? É um benefício, uma provocação? Finalmente, de algum modo, a Europa pode despertar, mudar de rumo?
Pode ser. É verdade e reconheço que, hoje em dia, as condições de segurança territorial não são as mesmas de outra época porque, na verdade, temos, a 400 quilómetros da Sicília, uma guerrilha terrorista sumamente cruel, não é? Então, existe o perigo da infiltração, isso é verdade.

E que pode chegar até Roma.
Ah sim, ninguém assegurou que Roma seja imune a isto, não é? Mas podem-se tomar precauções e pôr toda a gente que vem a trabalhar. Mas também há outro problema, é que a Europa atravessa uma crise laboral muito grande. Há um país, melhor, vou falar de três países, mas que não vou nomear, dos mais importantes da Europa, em que o desemprego juvenil dos jovens com menos de 25 anos, num país é de 40%, noutro país é de 47% e noutro é de 50%. Há uma crise laboral, o jovem não encontra trabalho. Ou seja, misturam-se muitas coisas. Nisto, não podemos ser simplistas. Evidentemente, se chega um refugiado, com as medidas de segurança de todo o tipo, há que recebê-lo, porque é um mandamento da Bíblia. Moisés disse ao seu povo: “Recebei o forasteiro porque não esqueçais que vós fostes forasteiros no Egipto”.

Mas o ideal era que eles não tivessem fugido, que ficassem nas suas terras, não?
Isso, sim.

No Angelus de 6 de Setembro, lançou o desafio às paróquias para que acolham refugiados. Já houve reacções? O que espera em concreto?
O que eu pedi foi isto: que cada paróquia, cada instituto religioso, cada mosteiro, acolha uma família. Uma família, não uma pessoa. Uma família dá mais segurança de contenção, um pouco para evitar que haja infiltrações de outro tipo. Quando digo que uma paróquia deve acolher uma família, não digo que tenham de ir viver para a casa do padre, para a casa paroquial, mas que toda a comunidade paroquial veja se há um lugar, um canto num colégio para aí se fazer um pequeno apartamento ou, na pior das hipóteses, que arrendem um modesto apartamento para essa família; mas que tenham um tecto, que sejam acolhidos e que se integrem na comunidade. Já tive muitas reacções, muitas, muitas. Há conventos que estão quase vazios.

Há dois anos, o Santo Padre já fez esse apelo e que resultados é que houve?
Só quatro. Um deles, dos jesuítas (risos); muito bem, os jesuítas! Mas o assunto é sério, porque aí também há a tentação do deus dinheiro. Algumas congregações dizem “Não, agora que o convento está vazio, vamos fazer um hotel e podemos receber pessoas e, com isso, sustentamo-nos ou ganhamos dinheiro”. Pois bem, se quereis fazer isso, pagai os impostos! Um colégio religioso, por ser religioso está isento de impostos, mas se funciona como hotel, então, que pague os impostos como qualquer vizinho do lado. Senão, o negócio não é limpo.

E o Santo Padre já disse que, aqui no Vaticano, acolhe duas famílias.
Sim, duas famílias. Já me disseram ontem que as famílias já estavam localizadas e as duas paróquias do Vaticano encarregaram-se de as procurar.

Já estão identificadas?
Sim, sim, sim, já estão. Quem o fez foi o cardeal Comastri, que é o meu vigário-geral para o Vaticano, juntamente com o encarregado da Esmolaria Apostólica, monsenhor Konrad Krajewski, que trabalha com os sem-abrigo e foi quem fez os duches debaixo da colunata, o serviço de barbearia – realmente, uma maravilha – é o que leva os que vivem na rua a ver os museus e a Capela Sistina.

E estas famílias ficam até quando?
Até quando o Senhor quiser. Não se sabe como isto vai acabar, não é? De todas as maneiras, quero dizer que a Europa tomou consciência, e eu agradeço-lhe. Agradeço aos países da Europa que tomaram consciência disto.

A Renascença aderiu em Portugal a uma iniciativa, que reúne instituições cristãs e também de outras religiões, para acolher e movimentar-se a favor dos refugiados. Pode dizer algumas palavras a quem participa nesta plataforma?
Felicito-vos e agradeço-vos pelo que estão a fazer e dou-vos um conselho: no dia do Juízo Final, já sabemos sobre o que vamos ser julgados, está escrito no capítulo 25 de São Mateus. Quando Jesus vos disser “Estive com fome, deste-me de comer?”, vocês vão dizer “Sim. “E quando estive sem refúgio, como refugiado, ajudaste-me?”, “Sim”. Pois, felicito-vos: vão passar no exame! E também queria dizer uma coisa sobre o trabalho com jovens desocupados. Creio que aqui é urgente, sobretudo para as congregações religiosas que têm como carisma a educação, mas também os leigos, os educadores leigos, que inventem cursos, pequenas escolas de emergência. Então, para um jovem que está desocupado, se estudar, durante seis meses, para ser cozinheiro ou canalizador, para fazer pequenas reparações – há sempre um tecto para arranjar - ou para pintor, com esse ofício, terá mais possibilidade de encontrar um trabalho, ainda que parcial ou temporário. Fazer o que nós chamamos de “biscate”, um trabalho ocasional e com isso não está totalmente desocupado. Mas hoje é o tempo da educação de emergência. Foi o que fez Dom Bosco. Dom Bosco, quando viu a quantidade de crianças que havia na rua, disse “tem de haver educação”, mas não mandou as crianças para a escola média ou secundária, sim aprender ofícios. Então, preparou carpinteiros, canalizadores, que os ensinavam a trabalhar e, assim, já tinham com que ganhar o pão. Dom Bosco fez isso. E agora gostava de contar um episódio sobre Dom Bosco. Aqui em Roma, perto do Trastevere, onde...

Era uma zona pobre.
Sim, era uma zona muito pobre, mas que agora é zona da moda para os jovens, para a “movida”, não é? Pois Dom Bosco passou por ali, ia de carruagem – ou de carro, não sei – e atiraram-lhe uma pedrada que partiu o vidro. Ele mandou parar e disse: “Este é o lugar que onde vamos ficar!”. Ou seja, perante uma agressão, não a viveu como agressão, viveu-a como um desafio para ajudar aquela gente, as crianças, os jovens que só sabiam agredir. E hoje, existe ali uma paróquia salesiana que forma jovens e crianças, com as suas escolas e as suas coisas. Assim, volto ao tema dos jovens: o importante é que hoje se dê, aos jovens que não têm trabalho, uma educação de emergência sobre algum ofício que lhes permita ganhar a vida.

É muito crítico também sobre o estilo de vida ocidental e da Europa, o chamado primeiro mundo, muito centrado no bem-estar. O que é que o incomoda mais?
Bem, quer dizer, também nas grandes cidades americanas, quer da América do Norte, quer da América do Sul, existe este mesmo problema, não é só na Europa...

...é o chamado primeiro mundo.
Sim, nas grandes cidades... Em Buenos Aires há um grande sector da cultura do bem-estar e, por isso, também há esses cordões à volta das cidades, as favelas e todas essas coisas, não é? Eu, em relação à Europa, hoje, não lhe atiraria à cara este tipo de coisas. Há que reconhecer que a Europa tem uma cultura excepcional. Realmente, são séculos de cultura e isso também dá um bem-estar intelectual. Em todo o caso, o que eu diria da Europa, é a sua capacidade de retomar uma liderança no concerto das nações. Ou seja, que volte a ser a Europa que define rumos, pois tem cultura para o fazer.

Mas mantém a identidade, hoje em dia, a Europa? Está em condições de afirmar a sua identidade?
O que eu disse em Estrasburgo, pensei muito antes de o dizer. Ou seja, volto a repetir um pouco isso: a Europa ainda não morreu. Está meia-avozinha [risos], mas pode voltar a ser mãe. E eu tenho confiança nos políticos jovens. Os políticos jovens tocam outra música. Há um problema mundial, que afecta não só a Europa, mas o mundo inteiro, que é o problema da corrupção. A corrupção a todos os níveis... e isso também revela um baixo nível moral, não é?

O Santo Padre fala disso na sua última encíclica e pede para as populações estarem mais conscientes. No entanto, verifica-se muita abstenção. Se vemos os resultados das eleições, a abstenção é quase maior do que um partido…
Porque a gente está desiludida. Em parte, por causa da corrupção, em parte pela ineficácia, em parte pelos compromissos assumidos anteriormente. E, no entanto, a Europa – volto a dizer o que disse em Estrasburgo – tem que desempenhar o seu papel, ou seja, recuperar a sua identidade. É verdade que a Europa se enganou – não estou a criticar, mas só a recordar –, quando quis falar da sua identidade sem querer reconhecer o mais profundo da sua identidade, que é a sua raiz cristã, não foi? Aí enganou-se. Bom, mas todos nos enganamos na vida... está a tempo de recuperar a sua fé.

O que é que pode tocar a liberdade de alguém que “faz o que quer” e que foi educado desde pequeno com um conceito de felicidade para quem “a felicidade é não ter problemas”? Em geral, educam-se as crianças com este desejo de que a felicidade é “não ter problemas e fazer o que se quer”.
Uma vida sem problemas é aborrecida. É um tédio. O homem tem, dentro de si, a necessidade de enfrentar e de resolver conflitos e problemas. Evidentemente, uma educação para não ter problemas, é uma educação asséptica. Faça você mesma a experiência: pegue num copo de água mineral, de água comum, da torneira, e depois pegue num copo com água destilada. Mete nojo, mas a água destilada não tem problemas... (risos) é como educar as crianças no laboratório, não é? Por favor!

Arriscar é importante?
Correr o risco, propor sempre metas! Para educar, faz falta usar os pés. Para educar bem, há que ter um pé bem apoiado no chão e o outro pé levantado mais à frente e ver onde o posso apoiar. E quando tenho apoiado o outro, levanto este [faz o gesto com os pés] e... isso é educar: apoiar-se sobre algo seguro, mas tentar dar um passo em frente até que o tenha firme e, depois, dar outro passo.

Dá mais trabalho educar assim…
É arriscar! Porquê? Porque talvez piso mal e caio... pois bem, levantas-te e segues em frente!

Na onda individualista em que vivemos – falou nisso em Estrasburgo – parece um capricho exigir direitos, sempre mais direitos separados da busca da verdade. Crê que isto é também um problema na maneira de viver a fé?
Pode ser... sempre com mais exigências, sem a generosidade de dar. Ou seja, é exigir só os meus direitos e não os meus deveres perante a sociedade, não é? Eu creio que direitos e deveres caminham juntos. Senão, isso, cria a educação do espelho; porque a educação do espelho é o narcisismo e hoje estamos numa civilização narcisista.

E como é que se a vence, como se combate?
Com a educação, por exemplo, com direitos e deveres, com a educação dos riscos razoáveis, procurando metas, avançando e não ficando quieto ou a olhar ao espelho... não vá acontecer-nos como aconteceu ao Narciso que, de tanto se olhar espelhado na água e se achar tão lindo, tão lindo, “blup”, afogou-se. [risos]

Diz que prefere uma igreja acidentada a uma igreja estagnada. O que entende por “igreja acidentada”?
Sim, eu explico: é uma imagem de vida. Se uma pessoa tem em sua casa uma divisão, um quarto, fechado durante muito tempo, surge a humidade, o mofo e o mau cheiro. Se uma igreja, uma paróquia, uma diocese, um instituto, vive fechada em si mesmo, adoece (acontece o mesmo com o quarto fechado) e ficamos com uma Igreja raquítica, com normas rígidas, sem criatividade, segura, mais que segura, assegurada por uma companhia de seguros, mas não segura! Pelo contrário, se sai – se uma igreja, uma paróquia saem – lá para fora, a evangelizar, pode acontecer-lhe o mesmo que acontece a qualquer pessoa que sai para a rua: ter um acidente. Então, entre uma igreja doente e uma Igreja acidentada, prefiro uma acidentada porque, pelo menos, saiu para a rua.
E aqui, quero repetir uma coisa que já disse noutra ocasião: na Bíblia, no Apocalipse, há uma coisa linda de Jesus, creio que no segundo capítulo (no final do primeiro ou no segundo), em que está a falar a uma Igreja e diz: “Estou à porta e chamo” - Jesus está a bater – “Se me abres a porta, entro e vou comer contigo”. Mas eu pergunto: quantas vezes, na Igreja, Jesus bate à porta do lado de dentro para que O deixemos sair, a anunciar o reino? Por vezes, apropriamo-nos de Jesus só para nós, e esquecemo-nos que uma Igreja que não está em saída, uma Igreja que não sai, mantém Jesus preso, aprisionado.

Foi por causa disso que foi eleito Papa?
Isso pergunte ao Espírito Santo! [risos]

Desde que é Papa, considera que a Igreja está mais acidentada?
Não sei. Sei que, pelo que me dizem, Deus está a abençoar muito a sua Igreja. É um momento que não depende da minha pessoa, mas da bênção que Deus quis dar à sua Igreja, neste momento. E agora, com este Jubileu da Misericórdia, espero que muita gente sinta a Igreja como mãe. Porque pode acontecer à Igreja o mesmo que aconteceu à Europa, não é? Ficar demasiadamente avó, em vez de mãe, incapaz de gerar vida.

É este é o motivo do Jubileu da Misericórdia?
Que venham todos! Que venham e sintam o amor e o perdão de Deus. Conheci, em Buenos Aires, um frade capuchinho, um pouco mais novo do que eu, que é um grande confessor. Tem sempre uma grande fila, com muita gente, está todo o dia a confessar. Ele é um grande “perdoador”, perdoa muito. E, às vezes, tem escrúpulos por ter perdoado muito. Então, uma vez, em conversa, disse-me: “Às vezes, tenho escrúpulos”. E eu perguntei-lhe: “E o que fazes, quando tens esses escrúpulos?”. “Vou diante do sacrário, olho para o Senhor e digo-lhe: Senhor, perdoai-me, hoje perdoei muito, mas que fique bem claro que a culpa é toda vossa, porque fostes Vós a dar-me o mau exemplo!"

Por isso o Santo Padre, neste sentido, também decidiu, nesta carta [a monsenhor Rino Fisichella sobre o Jubileu da Misericórdia] propor o perdão às situações mais difíceis e agora mesmo publicou estas cartas [de “motu proprio”, iniciativas do Papa que têm normalmente a forma de decreto] que aceleram os processos de nulidade. Isto também tem a ver com o Jubileu?
Sim, simplificar... Facilitar a fé às pessoas. E que a Igreja seja mãe...

A razão destas cartas “motu proprio” para a nulidade qual é, exactamente, é agilizar?
Agilizar, agilizar os processos nas mãos do bispo. Um juiz, um defensor do vínculo, só uma sentença, porque até agora havia duas sentenças. Não, agora, é só uma. Se não houver apelo, já está. Se houver apelo, vai para o metropolita, mas agilizar. E também a gratuidade dos processos.

O Santo Padre fez isto a pensar também no Sínodo e no Jubileu?
Está tudo relacionado.

Já sei que não quer falar do Sínodo, mas, no seu coração de pastor universal, o que pede?
Peço que rezem muito. Sobre o Sínodo, vocês os jornalistas, já conhecem o “Instrumentum Laboris”. Vai-se falar disso, do que lá está. São três semanas, um tema, um capítulo, para cada semana. E esperam-se muitas coisas, porque, evidentemente, a família está em crise. Os jovens não se casam. Não se casam. Ou então, com esta cultura do provisório, dizem “ou vivo junto ou me caso, mas só enquanto dura o amor, depois, tchau...”

E que diz a quem vive uma moral contrária à indicação da Igreja e que tem esta ansiedade de perdão?
Lá no Sínodo vai-se falar de todas as possibilidades de ajudar estas famílias. Que uma coisa fique clara – e que o Papa Bento o deixou bem esclarecido: as pessoas que vivem uma segunda união não estão excomungadas e têm de ser integradas na vida da Igreja. Isso ficou claríssimo. E eu, no outro dia na catequese, também o disse claramente: aproximar-se da missa, da catequese, na educação dos filhos, nas obras de caridade... há mil coisas, não é?

Santidade, gostaria de terminar com perguntas sobre a sua vocação. No início de Março de 2013, preparava-se para ir para a “reforma”. Já tinha decidido onde ia ficar a viver, etc.. No entanto, tornou-se um dos homens mais famosos a nível mundial. Como vive esta circunstância?
Não perdi a paz. É um dom... a paz é um dom de Deus. É um dom que Deus me deu, algo que eu não imaginava, pela idade que tenho e por tudo isso. E, mais ainda, eu até já tinha previsto o meu regresso, pensando que nenhum Papa seria escolhido na Semana Santa. Então, se demorássemos a elegê-lo, teríamos de nos despachar até sábado, antes do Domingo de Ramos. E comprei um bilhete de regresso, para poder celebrar Missa no Domingo de Ramos e até deixei preparada, na minha escrivaninha, a homilia. Foi uma coisa que eu não esperava e, em Dezembro, deixaria o cargo para o qual ia ser nomeado um sucessor. Assim...

…há toda uma aventura, agora, à sua frente.
Tudo... mas não perdi a paz. Não perdi a paz.

O Papa Francisco é amado em todo o mundo, a sua popularidade cresce, como revelam as sondagens, e tantos querem vê-lo candidato ao prémio Nobel. Mas Jesus avisou os seus: ”Sereis odiados por causa do meu nome”. Como é que se sente, Santidade?
Muitas vezes me pergunto como será a minha cruz, como é a minha cruz... As cruzes existem. Não se vêem, mas estão lá. E também Jesus, num certo momento, foi muito popular e, depois, acabou como acabou. Ou seja, ninguém tem garantida a felicidade mundana. A única coisa que eu peço, é que me conserve a paz do coração e que me conserve na sua Graça, porque, até ao último momento, somos pecadores e podemos renegar a sua Graça. Consola-me uma coisa: que São Pedro cometeu um pecado muito grave – renegar Jesus – e, depois, fizeram-no Papa... Se com este pecado o fizeram Papa, com todos os que eu tenho, consolo-me, pois o Senhor cuidará de mim como cuidou de Pedro. Mas Pedro morreu crucificado, enquanto eu não sei como vou terminar. Que Ele decida, desde que me dê a paz, que Ele faça o que quiser.

Como é que vive a sua liberdade sendo Papa? Apareceu de surpresa numa missa em S. Pedro, de manhã cedo, foi ao oculista arranjar os óculos… Precisa do contacto com as pessoas?
Sim, tenho necessidade de sair, mas ainda não chegou a altura certa... mas, pouco a pouco, vou tendo contacto com as pessoas às quartas-feiras e isso ajuda-me muito. Sim, a única coisa que estranho em relação a Buenos Aires é sair a “callejear”, andar na rua.

E terminamos com umas perguntas rápidas: o que lhe tira o sono?
Posso dizer-lhe a verdade? Durmo como uma pedra! [risos]

E o que o faz correr?
Sempre que há muito trabalho.

O que nunca é urgente, que pode esperar?
O que não é urgente? As pequenas coisas que podem esperar até amanhã ou depois. Há coisas que são muito urgentes e outras que não são urgentes... mas não saberei dizer-lhe, em concreto, que isto é mais urgente do que aquilo.

Com que frequência se confessa?
Todos os 15 dias, 20 dias. Confesso-me a um padre franciscano, o padre Blanco, que tem a bondade de vir cá confessar-me. E nunca tive de chamar uma ambulância para o levar de regresso, assustado com os meus pecados! [risos]

Como e onde gostaria de morrer?
Onde Deus quiser. A sério... onde Deus quiser...

A última: como imagina a eternidade?
Quando era mais novo, imaginava-a muito aborrecida [risos]. Agora, penso que é um Mistério de encontro. É quase inimaginável, mas deve ser algo muito bonito e maravilhoso encontrar-se com o Senhor.

Obrigada, Santo Padre.
Obrigado eu, e uma grande saudação a todos os ouvintes desta rádio. E, por favor, peço-vos que rezem por mim. Que Deus vos abençoe e que a Virgem de Fátima vos proteja.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

O primeiro dia do resto da sua vida

(quando ainda bem me lembro do primeiro dia em que a fui levar à Primária)


Foi o primeiro dia na cidade grande. Escola nova, novos colegas, e como eram os professores?
Depois, os conselhos de sempre, agora dados por quem quase nunca lhes ligava e preferia bater coma cabeça.
Estando longe, quis saber. Por muito que se saiba, nunca chega.


- O que é que estás a ouvir, Leonor? (no quarto alto e em bom som, ao entardecer)
- Sex Pistols! ( “God save the queen”)
- E quem é que te arranjou?
- Saquei do Youtube.
Os tempos mudam mas a massa é sempre a mesma. Ficou por dizer : -Ah… eu também curtia muito esse som. Nessa idade…


Esse poderia ser o som para ilustrar esta crónica. Mas este pareceu-me mais certeiro. Porque é o dela.



Por cá, ainda não houve arranques mas já se desenham mudanças. Novos cartões para “não andares sempre com as moedinhas às voltas”.
-E quantos dias faltam?

- Está quase, Alice.


Participar no orçamento. Então não?!? Bora lá!


Se a nossa câmar… ai! Se o nosso município nos convida a participar no orçamento, então a gente vai. Entre as propostas, há algumas que fazem verdadeiramente sentido e, na minha opinião, manda o bom senso que se vote na opção 10 - uma ambulância de socorro com um desfibrilhador automático externo (DAE), que serve para prestar socorro a toda a população. Fará certamente mais sentido que a proposta 9 - Reconstrução da Ponte Cavalete na Portagem ou na proposta 2 - Saneamento da Azinhaga na Beirã; que são propostas que pelo montante envolvido e importância que têm, quando comparadas com a proposta 10, são um bocadinho como comparar uma coisa que todos sabemos porque nascemos do trabalho dela e a feira das Galveias. É que não têm mesmo nada a ver.

Como a Associação Bombeiros de Marvão tem estado a fazer uma ótima campanha a favor desta proposta, para o bem de todos nós e será certamente a vencedora; eu optei por cumprir a minha palavra e dar a mão ao Eduardo Salvador e minha querida Lina Paz, o casal maravilha que recém contratámos a Lisboa e tem com o seu fantástico Train Spot ajudado a reerguer a minha Beirã. Votei neles porque achei fantástica a proposta nº 1 da criação de um “ciclo-rail”, vulgo bicicletas sobre carris, no ramal de Cáceres, entre Castelo de Vide, Beirã e Valência de Alcântara, redinamizando a estação de comboios de Marvão. Acreditei porque este é um projeto que dinamizaria muito o que antes tinha tanto movimento que fazia a minha estação à hora do TER parecer um aeroporto internacional. Acredito porque esta é uma proposta de futuro e porque sábado, se tudo correr bem, lá estarei para comprovar como pode ser bom.

Depois, a coisa está explicada mas não está assim tão bem explicada, que esta câmara não põe o preto no branco. É acinzentado. Para o escuro. Há quem diga que apenas uma proposta será a escolhida; outros defendem que desde que ainda haja montante disponível, outras poderão avançar e é nessa medida que eu apoio a proposta nº 1, para que caso seja possível, seja repescada ou considerada por quem lá está no poleiro.



Eles chamaram… eu cumpri. Cidadania á assim. Dever cumprido! ;)





sexta-feira, 11 de setembro de 2015

O meu 8 de Setembro (ou como eu o vi)

  
O pessoal do Centro Cultural de Marvão que recusou receber a medalha das mãos de quem se absteve em bloco e com uma declaração de voto inenarrável, foi de negro. De luto. Toda a triste história esta disponível na página do facebook do meu primo Jorge Rosado, clicando aqui.
Eu, solidário com eles, porque me contataram, aderi ao protesto porque defendo que foi notável o trabalho que fizeram para que o nosso castelo fosse um sítio com vida, e tornaram em realidade o que sempre defendi de a jóia de Marvão ser cobrada nem que seja para manutenção do espaço e algumas atividades lúdicas; para que mereça ser ainda mais visitada. Custa ir de negro num dia de festa mas enquanto se mantiverem estas pessoas aos comandos do nosso concelho, é a cor que se adequa e acreditem que mitiga a dor.

Há quanto não vinha aqui… Lamento e peço desculpa por isso aos frequentadores desta taberna virtual mas os tempos mudaram e vão surgindo novas formas de comunicar com o mundo, para mim tão importante como respirar, e vamos evoluindo, por ser de mais fácil e cómodo acesso. Tem prós e contras mas o tempo, que é a nossa maior riqueza (a par com a saúde e o amor), obriga-me a ser mais ágil. Escreverei em breve aqui sobre isso.

Mas o que me trouxe hoje aqui até vós foi opinar sobre o 8 de Setembro, o feriado municipal, um dia sempre vivido com tanta intensidade e tão importante para mim. Eu sei que sou nada, nem ninguém mas também sei que há pessoas que me seguem, umas de forma mais aberta, outras no segredo e querendo menos bem mas, das que gostam de ouvir a minha forma de ver o mundo, de várias idades, extratos sociais e graus de relacionamento, comentaram comigo no dia 8: “a gente vai ver o que é que o Pedro escreve na crónica…”

Então… cá vai!

Como nesta minha nova encarnação detesto chegar atrasado, (dantes era muito difícil chegar à hora em ponto, sempre uns minutinhos de delay…), rumei a Marvão bem cedinho, muito antes das 9 horas da manhã. Como queria assistira a tudo, e sabia que antes das 9h não haveria nada a perder, não me guiei pelos diversos cartazes alusivos à data que tinham sido espalhados pela câmara municipal em que nuns, estava à hora certa e nos outros, na hora a seguir. No Sr. João do Bento estava à hora X e na Pastelaria Caldeira, à hora Y. Mostraram-me os cartazes, quando comentaram comigo e percebi. O desnorte lá da casa alta chega a esse ponto e por isso, não facilitando, avancei convicto a uma hora que me garantia que não perderia nada.

Quando cheguei ao lajeado em frente do município, já a cena estava bem composta com muitos homenageados presentes. As cadeiras de madeira montadas e tudo muito bem mas… mal pensado. Como toda a gente podia avançar para onde e quando quisesse, deu-se o inusitado que o hastear da bandeira fosse visto pela larga maioria presente com os eleitos locais... de costas viradas para eles (nós). Sintomático. Até nesse dia.

Ainda assim as cadeiras chegaram e as poucas e mal colocadas sombras, sempre resguardaram algo do sol. Do mal, o menos. Foi uma boa medida. Veem que não digo só mal? Consegui!

A autarquia decidiu neste ano medalhar as instituições que estão ligadas ao apoio social todas em barda. Não é que não façam um trabalho que não mereça esta distinção, antes pelo contrário!, a ver se me faço entender. Têm uma importância estratégica e muitas vezes, quase sempre, estão na primeira linha, não só da ajuda ao próximo, mas gerando “vida” nas aldeias onde se integram, criando emprego e bem estar. A questão não vai por aí. Estas medalhas, (às quais estou muito ligado porque fui eu que estudei regulamentos de exemplos de diversos municípios do país e as propus à gestão da câmara para aprovação), foram criadas para distinguir por um ou outro facto ou uma carreira que justificasse a atribuição, e não para serem dadas assim ao monte, sem critério, tratando todas por igual, o que sendo muitas, gerou aquilo que acabou por se tornar para quem, como eu, quis assistir à cerimónia. Se aquilo foram uns óscares! cuja cerimónia derrapou no tempo e o pior é que porque sendo muitos, nenhum poderia brilhar convenientemente. Cada um que subia ao pedestal queria dar uma apresentação da sua instituição, o que é mais do que legítimo, mas nem todos tinham o mesmo desembaraço a falar e eram capazes de transmitir de forma eloquente e não maçadora, o seu historial e feitos.

Medalharam-se a Santa Casa, o Lar de São Salvador, o do Porto da Espada, a Anta da Beirã, a Casa do Povo de Santo António… and so on, and so on. Todos porque sim e também porque 2017 está quase aí e quem semeia bonança, espera sempre colher o melhor. Eu dou-te a ti, para te lembrares de mim. Elementar, meu caro Sabi.



Por falar em discursos... houve melhorias sim. Porque já lê e porque sendo assim, nunca mais teremos a reedição daqueles monólogos à Fidel Castro que se fossem editados em vinil, dava para aí um disco triplo. Já são escritos, o que augura bons prenúncios, mas o tom de voz… a entoação com que mal se percebe o que manuscreveu… fez tudo parecer um embaraço. Uma aulas de representação do teatro (que começou comigo, gerou diversos potenciais atores (grande Eduardo!), desenvolveu imenso a nossa Dulce, teve inclusivamente uma aluna que seguiu a carreira da representação!) e acabou quando eu saí! Isso sim, seria aconselhável! Colocação de voz e, já agora, do olhar; capacidade de tornar inteligível o que se pretende transmitir… depois não digam que não dou dicas. A professora Susaninha que meteu a marchar daqui para fora é que é capaz de andar em trabalhos e não ter tempo. L


O melhor discurso, como sempre, foi o do representante dos membros da Assembleia Municipal, um enfermeiro que costumo ver ali por cima da Fonte da Celorica. Parafraseou Camões e fez um apanhado/resenha histórica da génese do nosso 8 de Setembro que, ficou. O que é sempre o melhor discursador, vai em representação do presidente da Assembleia que foi saudado num dos discursos mas que não compareceu, como sempre. No 25 de Abril não se estranha porque dizem que é contra, que eu não conheço o senhor; mas nos outros também… não costuma ver-se.

Neste ano, com proposta do Partido Socialista, foram homenageados homens que desempenharam o cargo de presidente de câmara: o Sr. João Dinis Carita (a título póstumo), o Sr. Manuel Pedro da Paz (idem) e o Sr. António Moura Andrade. Neste último caso foi uma ideia bonita e atempada porque esta homenagens, de quem tanto deu para todos nós, devem ser sempre que possível, realizadas em vida, como foi no último caso. O meu caríssimo João Bugalhão levantou a lebre aqui, de se terem esquecido do Dr. Bugalho mas o PS, em comentário, justificou o porquê. E bem. Bem aqui e bem na proposta. Mas o João também respondeu muito bem: é que o Dr. Bugalho já não é propriamente um rapazola em idade para tirar o cartão jovem e não sabendo nós nunca o dia de amanhã, se há um potencial homenageado ainda vivo, não seria de menosprezar. 

Se tivesse havido o nível que todos sabemos que não há, teria havido um convite formal ao Partido Socialista para que a entrega dessas medalhas em conjunto, numa perspectiva unitária do concelho. Se foram os senhores que propuseram e nós somos quem está em cargo, partilhemos a entrega que será realizada sob a vossa proposta. Chegou-se assim ao caricato do presidente eleito pelo PSD, entregar ao homem que fez toda a sua vasta e reconhecida carreira autárquica pelo PSD, a entregar uma medalha de mérito... proposta pelo PS! O sr. Andrade chamou a isto de ironia e levou a leitura deste fenómeno pelo lado cavalheiresco. Ridículo também rimava.

A filha do Sr. Paz, muito emocionada pelo gesto e como não deve estar muito habituada a falar em público, agradeceu muito e teceu algumas breves palavras sobre a figura do homem que foi seu pai.

A neta do Sr. Carita, a minha prima Ana Isabel, fez um discurso tão certeiro que para quem é de Matemáticas, que até foi de estranhar. Ao parabeniza-la pela belíssimas palavras, confidenciou-me que foram escritas com a supervisão e em co-autoria com a mana, essa sim jornalista com carteira. Esteve muito bem na sua leitura e mais que justificou o galardão, mesmo para quem não conhecesse a tão vasta e importante obra do seu avô em Marvão, antes do 25 de Abril.


A homenagem do Sr. Andrade foi a que mais me tocou por diversos motivos. Porque tenho a graça de poder contar com a sua amizade, porque foi o “meu” presidente de Câmara e porque sempre acompanhei o seu percurso, sendo ele uma pessoa por quem tenho uma enorme estima e admiração. A sua apresentação, em que foi realçado também o seu papel de funcionário no serviço de finanças onde trabalho hoje, foi realizada pelo amigo António Silvério, hoje provedor da Santa Casa da Misericórdia e também colega aposentado do mesmo serviço. Uma apresentação de grande categoria e bastante emotiva que embalou para o momento seguinte e para as palavras sempre certeiras do grande, permitam-me, Sr. Andrade que agradeceu ao Partido Socialista o facto de se ter lembrado dele e ter realizado a proposta. Como homem de grande nível que é, justificou essa posição com a abertura que sempre teve no relacionamento com os outros partidos e pela deferência com que a todos sempre tratou. Dedicou o prémio à D.ª Deolinda, sua querida esposa, num discurso muito emotivo também, em que recordou os tempos (que já parecem tão longínquos!) em que não existiam telemóveis, muito tinha de viajar pelo país fora e a sua companheira nunca o deixou e nunca descansou enquanto não o tivesse junto a si. Pessoas de uma tal veracidade e um nível que acho que nos meus tempos já não se fabricam.


Foi também homenageado o Sr. João Maria Mena Antunes, um craque do desporto nado no nosso concelho com um nível que eu lamento nunca ter conhecido. Grande figura nacional do atletismo e grande benfiquista, clube ao qual continua ligado, foi por diversas vezes e anos campeão dos 400 metros barreiras e provavelmente, das maiores figuras do nosso concelho no mundo do desporto. Um medalha justificada e muito bem entregue.

Neste enorme rol de nomeados, não faltou a justa homenagem a D.ª Elvira da Silva (cujas referências e feitos procurei na página oficial do município mas nada encontrei... Só esta foto abaixo); à Fundação Cidade da Ammaia (tão merecida e injustiçada) e a Pablo Carrilho, ex-alcaide de Valência de Alcântara e um homem de trato fantástico, tão humilde e boa gente que pelos laços que sempre tentou estreitar ainda mais com Marvão, mais que merece este galardão.

Foto de família retirada do site do município com todos os homenageados e... um extra que se colou. Não ficaria melhor o presidente aqui? Ou o vice?

Seguiu-se o convívio aberto a todos os marvanenses e foi tempo para um aperitivo e um copo antes da missa de Nossa Senhora da Estrela que, para quem é devoto como eu, é sempre um marco no ano e uma prova de agradecimento, por tudo o vivido.





Termino a minha abordagem dizendo a todos, porque sei que vêm ler, que há pessoas que quando passam por mim e fingem que não me veem, virando a cara, é como se me estivessem a bater palmas, ou melhor, a baixar a cabeça quando passo. A grande vantagem e proeza de se viver em democracia é que somos livres de dizer o que nos vai na alma, sem termos medo que nos afrontem. Desde que haja respeito (de não achincalhar) e lisura de procedimentos, não sou capaz de não dizer que não gosto. E não gosto mesmo!

Também respeito que não gostem de mim. Jesus que foi quem foi e tinha a cunha do Pai, que era quem era, com menos 9 anos que eu já estava cravado no barrote. O mundo nunca vai cair para o lado porque há sempre quem puxe de um lado e quem pressione do outro.

Eu, que sou filho da esperança, nunca a perco que o nosso concelho volte a ter um dia na sua condução, um homem ou uma equipa de homens que pratiquem e façam o bem, às claras, abnegadamente, em prol do bem comum.

Tenho dito!

Ass: Pedro Alexandre, 42 (já?!?) anos


As fantásticas manas Garcia, a quem eu pedi licença para captar esta imagem que ficou muito bem!
Bem hajam. É o momento revista Caras do blogue! Belíssimas! Muito merci!