sábado, 24 de setembro de 2016

A escola, o futuro e o 9 H


Vi completamente hipnotizado a extraordinária “Grande Reportagem” da passada quinta-feira, que a SIC passou no final do jornal da noite: “A escola, o futuro e o 9º H”.

Nela, a jornalista Miriam Alves deu um verdadeiro recital de categoria, numa peça de superior qualidade onde a câmara, a montagem, o próprio texto, a forma como intercalou as conversas que manteve com professores e alunos ao longo de todo um ano letivo, a tornam para mim, numa referência na nova forma de ver esta nobre peça jornalística.

Fiquei estarrecido por ver a forma como esta nova geração opina sobre quase tudo, a desenvoltura que têm e a nova forma de se relacionarem com o ensino que eu sempre conheci.

São 30 anos de diferença, 3 gerações, mas o hiato é abismal.

A reportagem, na íntegra, aqui, para os meus leitores. ;)


E a Dª Alice foi conhecer a casa de Jesus (pelo seu próprio pé)



O nosso novo amigo padre Marcelino tinha pedido na celebração do passado domingo, que hoje estivessem presentes as crianças que começassem o ano letivo, para que as pudesse conhecer e para lhes poder desejar um feliz ano, cheio de sucessos.

Compareceram duas: a minha Alice, de mão dada com o pai e a mãe; e o Tiago, o seu desejado. Os dois no altar da igreja. Deve ter sido cá uma emoção....


O pároco, revelando grande desenvoltura e tarimba no relacionamento com os petizes, fez—lhes algumas perguntas para quebrar o gelo, tipo o que querem ser quando forem grandes.


Se tudo correr bem, teremos ali um médico e uma veterinária.

Tou safo.


Ela chega—me.


"E o que é que vamos lá fazer, pai?", perguntou—me antes de sairmos de casa.

— Vamos aprender a ser bons cristãos, isto é, a viver segundo o exemplo de Jesus Cristo, que mesmo quem não acredita, sabe que existiu na história. Vamos a aprender a ser amigos dos outros, nossos irmãos, por muito que não gostemos deles. Vamos aprender a perdoar. A ajudar. A sermos melhores.

— Tá bem.

Na quarta, depois da eucaristia, reúne o conselho paroquial, para que possamos falar sobre algumas matérias de interesse da comunidade. Nomeadamente a catequese.

Eu sei que há uma ordem quase dinástica já há muitos anos, que eu sou um cristão novo (reconvertido no último ano); que o homem quer mudanças, mas eu não quero ir contra ninguém. Apenas gostava. E quarta vou lá. O não, está sempre certo e não desilude.


sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Há poucos gajos como eu...

dis·ser·ta·ção
(dissertar + -ção)
substantivo feminino
1. Acto de dissertar.
2. Exposição escrita ou oral sobre algum ponto literário ou científico.
Palavras relacionadas: dissertar, dissertativo, memoriar, memorista, exercitação, dissertador, diatribe.

dis·ser·tar - Conjugar
verbo transitivo
1. Fazer dissertação.
2. Discursar.
3. Tratar desenvolvidamente de um ponto doutrinário.
4. Discretear.
5. Produzir razões em favor da própria opinião (refutando a contrária).

"dissertação", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013,

I
Já habito à face deste mundo há 43 anos. Quatro décadas, mais 3 anos, é muito tempo. Muito tempo que eu nunca esperei viver… tanto. Vivi sempre numa família fustigada por duas mortes muito prematuras, uma menina bem pequenina e um menino que faleceu de repente, vítima de um problema cardíaco, com apenas 14 anos. A minha perspetiva de vida foi assim sempre muito condicionada por estas duas faltas que assombraram a minha existência inicial.

Mas por mais que viva, tenho sempre a noção que a cada dia que passa, estou a aprender. De facto, a vida é uma constante aprendizagem e até ao dia em que os olhos se encerrem de vez, temos sempre dados novos para esta nossa história.

Quando falo de conhecimento, não falo de saber muito seja de história, geografia, português, línguas estrangeiras ou qualquer outra disciplina; como de qualquer outra bagagem cultural que seja dada pelos livros, filmes, discos, peças de teatro ou até países visitados.

Falo (e, não falo mas escrevo, que é como se falasse) da natureza humana. Que cada vez mais me surpreende e isto já não deveria de acontecer porque já deveria ter calo para lidar com tudo isto, do tanto que já vivi.

Quando digo que há poucos gajos como eu, digo-o porquê?

Eu sou um homem que fico feliz a ver os outros felizes. A felicidade dos outros não me incomoda, pelo contrário: alegra-me ainda mais. Se um vizinho compra um carro novo, não corro para lhe dar os parabéns mas na primeira oportunidade que tenha, puxo a conversa para depois da “máquina nova, ãh?”, lhe desejar, do fundo do coração, que lhe faça muitos quilómetros de prazer ao seu volante.

Sei que a grande maioria, não digo todos mas, a maior parte, fica, entre dentes, a desejar lamentar que o risque ou não dure muito. Desejar lamentar porque as pessoas, regra geral, adoram ser complacentes com quem sofre.  É algo bizarro e macabro mas é verdade. As pessoas adoram ir fazer visitas ao hospital, para poderem ter pena perante a desgraça alheia, ou para irem velar um cadáver, assistindo e (palavra dura, mas verdade, creio) desfrutando, chorando com a dor alheia.

É por isso que sou incapaz de estar numa sala de um funeral. É um espetáculo atroz. Entra um que chora, mete tudo a chorar, como se fosse um filme ao vivo. Para isso prefiro as conversas sobre tudo e sobre nada dos homens cá fora, enquanto vão intercalando com um copo na tasca mais próxima, e me entretenho a imaginar como o meu será igual.

Esta conversa toda, a propósito das eleições autárquicas que se aproximam e da forma absolutamente surpreendente como duas ou três pessoas diferentes se me revelaram, não tendo manifestando verbalmente nada.

É por demais público, desde a minha rotura e saída pelo meu pé do executivo camarário que se mantém ainda em funções, que aquelas pessoas são seres dos quais não gosto. Nem das posturas, nem da forma como gerem as influências, nem da forma como governam, ou não governam. A bem dizer, não gosto de nada. Apenas me relaciono, trivialmente, com um que é oriundo da minha terra natal. Nada mais que isso.

Também é do conhecimento público que me integrei, juntamente com amigos, no movimento cívico “Marvão para Todos”, onde, como cidadãos conscientes, intervenientes e preocupados, procuramos encontrar uma alternativa, não nos preocupando apenas em dizer o que está mal, mas apresentando soluções para encontrar uma saída.

Ainda assim e apesar de tudo isto e eu ser como sou, livre, aberto, sem limites, a jogar com as peças todas em cima da mesa, senti que pessoas das quais me sentia próximo, não muito próximo, mas ainda assim, próximo, me passaram a tratar com alguma distância. Ao primeiro sinal, eu dei tolerância. Não me viu?!?!? Não viu a minha filha?!?!?!? Poderia ter sido um mal entendido meu. Mas não. Voltamos a cruzar-nos, voltámos a estar em espaços comuns onde dantes seria um tratamento quase que familiar, e… esse tratamento… esfumou-se.

Pensei bastante, não muito mas mais que o normal sobre o assunto e a raiz desse volte face delas para mim só pode ter sido algo que escrevi nos meus meios oficiais (aqui ou no mural do facebook) sobre algum assunto onde estivessem essas pessoas envolvidas.

E isso deixa-me triste. Verdadeiramente triste porque há um ciclo que se fecha e para mim, jamais se voltará a abrir. Quando eu me sinto assim próximo dessas pessoas, como acontecia mutuamente, há uma margem de tolerância maior que a dos outros. Não tão grande quanto a dos familiares, não tão grande quanto a dos amigos mesmo amigos cá do peito, mas maior que para a grande generalidade de pessoas.

Eu sei que estou muito longe de ser um homem perfeito. Tenho muitos defeitos, uns mais facilmente aceitáveis que outros mas quando falho, agradeço que as pessoas que considero me chamem a atenção e caso tenham razão, não tenho problema algum em pedir desculpa. É tão fácil reconhecer que se esteve mal e tentar emendar, que… não posso dizer que não me custa absolutamente nada, porque sou perfecionista e o erro traz sempre alguma mágoa, mas… faço-o.

Ora isto passou-se com um homem e duas mulheres que eu já conhecia há muitos anos e pensava que, tinham por mim a mesma deferência que tinha para com eles mas… já percebi que não. Lamento mas… é o que há. Há que se viver com aquilo que se tem.

Se eu tivesse sido confrontado com qualquer dado, poderia refutar, argumentar ou esgrimir o meu ponto de vista mas… não. Passaram a passar ao lado, a fingir que não viam, a ser indiferentes.

A mim, Pedro Sobreiro, não é qualquer um que faz isto e passa incólume. Para mim, mostraram o cú e ao fazê-lo, revelaram-se. Agora até podem vir com mil floreados, banhados em ouro e organdi, com mil bailados diplomáticos mas… estão apresentados.

Sou um cristão novo mas não sou capaz de dar a outra face como nos ensinou o nosso exemplo, Jesus Cristo. Ainda tenho muito a aprender e talvez não queira. Tenho o meu orgulho e amor próprio, que tantas vezes me tem valido, mas não o farei. Toda a gente quer ter o Pedro como amigo. Porque o Pedro é bom, não é só o meu Abel. Mas de certeza que ninguém gostará de me ter do outro lado, ou, pelo menos, a passar ao lado delas.

Deus deu-me acesso a uma família da qual muito me orgulho, o meu maior orgulho; amigos que estimo como se fossem do meu sangue; um trabalho exigente, condigno e respeitado; a possibilidade de ter bens terrenos que me garantam conforto nesta vida.

Eu continuarei a agradecer diariamente e a amar o próximo mas há realidades com as quais não posso pactuar.

II
No meu bairro, ou próximo do meu bairro, andava muitas vezes, um cão de raça que era o tormento para a vizinhança, segundo me manifestaram diversos vizinhos. Andava sempre à solta. Atirava-se aos carros. Atirava-se ao meu cão. Enrolava-se com o meu cão.  Impedia-me que desse passeios com o meu, porque vinha direito a ele e desorientava o animal que ficava deserto de brincadeira. Fazia cocó que ninguém limpava e sujava a relva junto ao miradouro onde há um café e muitas vezes as crianças se sujavam nos dejetos, segundo as mães me contaram.

Numa manhã fria de inverno fui dar a minha corrida ao Valongo pela Ranginha e esse cão foi a correr atrás de mim desde o bairro dos Outeiros. Fartei-me de lhe dizer que voltasse para trás, empurrei-o para casa mas o animal, brincalhão, manteve-se sempre atrás de mim. 11 quilómetros e ele não descolou. Uma maçada do catano. Metia-se à frente, atirava-se às minhas pernas, metia-se comigo, uma chatice muita chata. A dada altura, saltou uma vedação para beber água e ficou preso do outro lado da cerca com arame farpado. Desorientado, corrria para um lado e para o outro e olhava para mim com o ar… “já não consigo ir para aí para cima…”

Apesar dos nervos que trazia, não fui capaz de o deixar para trás e saltei a vedação para o ir buscar. Os remorsos se o cão se perdia ou morria, seriam muito maiores que a chatice de ter de continuar a levar com ele. Assim foi, numa hora e 15m de plena manhã desportiva e diversão total.

Passou um jipe da GNR por mim e eu informei-os do sucedido. Pedi-lhe para que não aplicassem coimas que a vida custa a todos, mas que avisassem os donos que o animal teria de estar preso porque, poderiam tentar informar-se, era um gerador de conflitos.

Continuou comigo até à sua casa e eu fui avisar a dona do sucedido. Tranquilamente expus-lhe o sucedido e mostrei-lhe o meu desagrado, chateado. Com elevação, com educação, mas dizendo aquilo que me ia cá dentro. O que eu fui foi, amigo das pessoas.

A paga? Deixaram praticamente de me falar. O miúdo, que tem a idade da minha Leonor, parece que não me conhece desde sempre; o pai, cumprimenta-me quase que por favor e a mãe, com a qual até já trabalhei quando fui vereador, e sempre tanto ajudei, finge que não me vê e passeia com grande petulância o Bobby de trela. Segundo sei, as fezes não são todas recolhidas mas a trela continua lá. Pelo menos isso.

Isto são dois quadros diferentes, mas que no fundo pintam a mesma cena: a natureza da pessoa humana é má, invejosa, egoísta, interesseira, cruel. Por vezes temos laivos em que parece que as coisas são melhores do que realmente são e andamos iludidos mas não passa disso.

A vida é uma selva e tirando aqueles que são mesmo nossos e dos quais somos mesmo, nada mais importa. Poderemos, por vezes, ser levados por objetivos mais altruístas e até pensarmos que vai tudo bem mas… não passa disso: uma ilusão.

Mas não creiam aqueles que assim atuaram para mim, que conseguem mudar o Pedro. Nada mais errado. O Pedro não muda. Nunca! Vai continuar a ajudar quem possa, quem consiga, semeando sorrisos para, por certeza, recolher abraços. Isso sempre, enquanto viver e lhe for possível. Mas os sorrisos… não irão mais para elas, como iam. Quando muito irá um amarelo, que eu também os sei fazer.

Perderam, por si, um amigo. Desmascararam-se. Agora ganharam no Pedro aquilo que ele sempre foi: justo, cerebral, acutilante, expressivo e comunicativo, implacável.


Havia pessoas nesta santa terrinha que, como eu, mal se davam com o atual presidente de câmara e o atacavam de alto a baixo sempre que havia oportunidade para isso. Ao ponto de alinharem em listas contrárias para o mesmo órgão. Agora a proximidade é por demais visível a olhos vistos e as eleições aproximam-se a passos largos. Vale uma aposta que vão haver surpresas? E há muito sapo que vai ser engolido? Ou talvez não… que isto de ter espinha dorsal, é uma excentricidade que não chega a todos.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Passar o sol pela lua







Pois isto diz um gajo que nem é o maior entendido do futebol (porque nunca estudou a matéria a fundo; nem nunca foi um praticante da modalidade até do ponto de vista amador) mas que ama o desporto rei, que… este foi um belíssimo partido.

O vosso Tio Sabi vê sempre as coisas pelo lado dele e tem opinião sobre tudo, embora na realidade não saiba quase nada. E conta sempre as cenas à sua maneira.

Na vida real, ninguém o leva muito a sério, muito porque é brincalhão. Nem sequer as três amazonas que vivem com ele, que muita gente apelida inocentemente de donzelas. Ah, ah… Se soubessem o que sofre…

Mas ele tem aqui este cantinho na internet que serve de confessionário, de psiquiatra, de bom ouvinte, onde vem vender jogo quando já tudo dorme e não está para perder tempo a consumir cultura, que adora.

Poderia estar a ler o jornal que está ali a rir-se para ele (Expresso); ou a ver o debate semanal que o entretém a sério, brincando com tudo de forma inteligente (Eixo do Mal); a ver aquele filme que tanto procurou até que caiu numa sessão inesperada no passado sábado (Django de Tarantino). Mas ele sente-se melhor aqui. Mais calmo. A deitar cá para fora, o que lhe vai lá dentro. E ainda por cima o ouvem. Isso é que é mágico. Que haja gente que continua a vir aqui. Bem hajam por isso.

Estes foram 90 minutos muita bem passados. Que belíssimo jogo de futebol. Perdi os primeiros e como disseram os manos da rádio, já tinham existido sei lá quantas oportunidades para um e o outro lado.

Daquilo que vi, foi muito disputado. O Benfica dominou e atacou em toda a linha. Ressaltou-me um Gonçalo Guedes de que gosto muito porque é um puto das escolas, hábil, ágil, rápido, embora tenha ainda muito a crescer, e o Andrézinho Horta que é um bebé nosso e está uma jóia linda.

Insistiu-se  muito (com uma ou outra oportunidade do Braga pelo meio) mas o golo surgiu de um bailado perfeito ainda antes da meia hora: Grimaldo para Pizzi, este para Guedes de calcanhar e dali para os pés do meu Barba de Chibo que desferiu uma bomba perfeita de força e colocação.

Um golinho que esteve a seco tempo a mais. A coisa ia adormecendo e o Braga, crescendo. Defendíamos bem e controlávamos o jogo mas faltava ali um golinho. Que caiu quase por obra e graça de um desgraçado do Braga que deixou a bola nos pés de Pizzi, que este aproveitou para mostrar porque é que joga nesta equipa. Obviamente não falhou.



Se assim já estávamos bem, chegava para os 3 pontos, Pizzi ainda centrou junto à linha, direitinho para a cabeça do grego que lhe deu uma penteadela lá para o buraco.

A coisa nunca fica bem, enquanto não deixamos cair a nódoa no melhor pano, já mesmo ao fechar do jogo, que muito chateou os meus colegas paisanos no Adro. Para mim foi um… “que se lixe! Ganhámos e já vamos em primeiro!”

Terminámos o jogo com 6 portugueses, 4 das escolinhas da Luz e este é o caminho que há a trilhar, para o meu cube.

Para terminar, uma palavra muito especial para felicitar o nosso imperador Júlio César, que esteve… demolidor; e o menino José Gomes de 17 (?!?!?) anos que ia marcando…




A verdade é que já passou o sol pela lua. O rei já está sentado no trono outra vez.

Tudo está bem, quando acaba bem.


domingo, 18 de setembro de 2016

Pela boca... morre o cação



Jesus: «Se a equipa está trabalhada por mim tem de ser a melhor»


E o que este homem sabe de bola? Zandinga!

Jorge Jesus (Sporting): «Vai ser mais difícil o Sporting ter a mesma qualidade de jogo que teve em Madrid. A equipa do Real Madrid defende uma maneira diferente do Rio Ave. Vamos ser muito mais apertados do que fomos com o Real Madrid. São histórias diferentes. Uma coisa foi o jogo de quarta-feira e outra é o jogo de amanhã com o Rio Ave. O nosso chip tem de estar completamente focado no jogo.»


Vídeo:

Jesus: «Se a equipa está trabalhada por mim tem de ser a melhor»
Técnico do Sporting não diz que tem o melhor plantel, mas destaca o seu papel.






Meteste-te a jeito, ou,

Deus escreve direito por linhas tortas, ou,

Quem cospe para o ar, geralmente leva com a própria escarreta em cima, ou,

Podes ser muita bom (que por certo não és porque se fosses, nunca terias perdido um campeonato por um golo fora de tempo, devido às tuas más escolhas que até te meteram de joelhos nas Antas) mas a mim não me serves porque és poucachinho, um baixo, um reles, um marialva de rulote.

Eu liguei a televisão do Inácio no computador, só para desejar mal, mas aquilo começou-me a aborrecer e a fazer mal ao fígado.

Fui passear o quatro patas e beber café. Quando cheguei ao “Cantinho do Miradouro”, os benfiquistas presentes perguntaram-me, “olha lá por quantos perde o Szeporten…”

Eu sentei-me para tomar café e disse: 
- Ah, não me acredito. Ainda agora estavam empatados.

- Então olha lá quantas bolinhas já há no resultado dos outros…



- ?!?!?!? 
Aquilo será verdade? Poderá o intergaláctico Szeporten, que empatou e quase venceu o Madrid em casa, estar a ser enxovalhado em Vila do Conde? A sofrer 3 golos?

Ainda por cima, com uma equipa dirigida por uma antiga glória do clube às riscas? (que se esta merda dos ex lhe começarem a fazer a folha pegar moda, depois do Ronaldo, vai ser um ver se te avias.)

Pois em apenas 14 minutos, ainda na primeira parte, três tiros mataram o super leão de Madrid. Claro que assim que me apercebi disto, vi o jogo todinho com enorme regalo, a rebolar-me de gozo a ver os touros de palanque. A carinha deles… 
O atordoado que estava o Adrien, na flash interview. 
O beicinho da Gorda. 
Os tiques às madeixas da Barbie dos 300. 
Um festim, de tão bom…



O quê?!?!? O risco de falar antes do Braga? Opá… um jogo é um jogo. Tudo pode acontecer. Eu tenho confiança nos meus homens e este prazer ninguém mo tira.

O meu irmão era para me ligar porque me fez um favor e não ligou. Mas não ligou... ?


sexta-feira, 16 de setembro de 2016

E a Alice... foi prá escola!

Os Sobreiros que foram juntos, os 4, unidos, amigos, levar a sua caçula à escolinha. A mãe Fernanda que aceitou na 1a reunião ser a representante dos pais (como de resto, tinha sido na sua outra filha Leonor, perante a mesma professora), essa mesma Leonor que muito me surpreendeu para se ter levantado cedo para levar a mana às aulas, e eu... tão feliz, tão feliz, mesmo tão feliz por poder viver este momento (e elas acederem ao meu fétiche fotográfico) que... nem consigo explicar. Eu agradeço. Reconhecido.


Chegou o dia e…


Xiiiiiiuuuuuuuu bebé! ;)

Ter um material didáticos que a gente gosta... faz ter mais vontade e estarmos mais...motivados.
A amazona dos caracóis foi com a diva de hoje às cavalitas. O que certamente lhe dava uma confiança do camandro.
O adeus à sala da Pré, e à professora amiga pela qual há—de sempre ter especial carinho, Teresa Maria Reis, extensivo à amiga Sílvia, que pedi que fosse cumprimentar sempre que possa. Saber amar quem nos amou. Semear sorrisos, faz colher abraços. :)




Escadas para a 1a classe. Escadas da vida, que há—de aprender a subir pelo seu pulso, pelo seu próprio mérito. Acordou de noite, ansiosa. Com medo do que haveria de vir. A responsabilidade começa aqui.



Conselhos de pai:

— Respeito pela professora acima de tudo (mais que ao pai e à mãe...), extensivo aos funcionários e colegas.

— Ser amiga de todos. Saber ajudar. Saber perdoar.

— Muita atenção. Quem está concentrado... aprende mais e é mais esperto. ;) 


Santo António das Areias: Regresso ao futuro XXI


Bem a hora... já começavas





O Município de Marvão apresentou há dias, na sede do GDA, as propostas de intervenção urbana previstas para Santo António das Areias e Marvão.

O vosso Tio Sabi... não podia faltar, claro está!

Se mexe com a minha terra, mexe com a minha vida e a dos meus, e eu quero estar dentro.

Este projeto urbano de acessibilidade e inclusão social da aldeia tem como principal objetivo melhorar a mobilidade pedonal do “espaço” constituído pela Av. 25 de Abril, Av. Dr. Manuel Magro Machado, Praça de S. Marcos, Largo Ricardo Vaz Monteiro, ao abrigo do Plano de Ação de Mobilidade Urbana Sustentável (PAMUS) e ainda, a intervenção ao abrigo do Plano de Ação de Regeneração Urbana (PARU), do Largo D. João da Câmara.

Com este projeto urbano de acessibilidade da vila de Marvão, diz o Município que pretende criar também percursos pedonais acessíveis, marcar meios auxiliares de deslocação para deficientes visuais, melhorar a acessibilidade aos miradouros e Castelo, requalificar os Largos do Pelourinho, Calvário e de Santa Maria, construir um elevador de acesso à Torre de Menagem, e reformular a rede de painéis/ mupis informativos, ao abrigo dos planos PAMUS e PARU.

O homem até brincou com o nome do projeto -"Marvão para Todos", gracejando que foi pioneiro e os que vieram a seguir lhe deveriam pagar direitos de autor. Brincalhão...

Mas eu, assim que vi a engenheira responsável pelo projeto falar, dei logo a minha iniciativa por feliz e o tempo por bem empregue. Ligada a projetos de sucesso no norte do país, quis trazer até nós a sua visão de mudança.

Aqui, permitam—me que vos traduza a minha visão, será um luta entre os velhos do Restelo, de Santo António dos anos 60, quando João Sequeira estava em estado de graça, e a SAA do Século XXI. Menos carros, sentido único, mais passeios, mais mobilidade, mais esplanadas, mais espaços verdes, menos alcatrão, menos monos e lixo urbano. Numa só palavra: melhor.

Os meus parabéns ao Município de Marvão, por ter tido a inteligência (!) de se ter rodeado dos, está mais que visto, melhores.

Faz—se assim um liffting à nossa aldeia, por mãos experientes e espíritos argutos que sabem tornar tudo mais habitável, sustentável a nível do desenvolvimento e assim, candidatável.

Vocês conhecem o vosso Tio Sabi, o pistoleiro insolente que elogia tudo o que acha bem, mas dispara sobretudo o que está mal; sem medos, sem pejos, de peito aberto!

Se a Câmara fez bem em pensar nisto, em quase tudo o resto de hoje... só fez asneira. Tiros nos pés que só me fizeram rir por dentro e dar graças a Deus por me ter dado o discernimento para abandonar a jangada conduzida por este sujeito, pelo meu próprio pé.

Não mandou colocar em teste os equipamentos de projeção a tempo (manhã/toda a tarde) e a equipa que agora o leva ao colo (Fortificar Marvão com a total anuência da Casa Do Povo Saa) teve de estar a ultimar tudo em cima da hora. Cima da hora não! Muito passada da meia hora...

Disse ele que o atraso era de meia hora académica, "muito usual nos acontecimentos por aqui", segundo avançou. Não sei se cursou a engenharia que diz que tem, na Universidade do Relvas e do Sócrates, mas a estes timings eu chamo... suicídio, displicência, bandalheira.

Marcar uma apresentação para as 6 e meia, deixar derrapar com os computadores e outros atrasos para as 7h, e depois dar largas ao seu natural discurso verborreico sobre tudo e sobre nada, como sempre de cada vez que tem umas dezenas de pares de olhos em cima dele... é obra!

E eu só pensava... que bem fiz! Já não aturava este tom monocórdico, sonolento, irritante, há anos! Por isso é que não frequento as assembleias municipais, que até me interessam muito e tanto lamento isso. 

Pensei para comigo que para se ser capaz de lidar com esta forma de viver e fazer política na equipa deste senhor, para se ser pactuante com toda esta forma tão desarticulada de comandar, um tem de ser:

a) um grande amante do € que lhe cai de mão beijada, sem suar muito para isso;

b) igual ou pior, porque isto deve envergonhar. E muito.

Por isso há os uns... e os outros.

Como dizia o bom do Orwell... os animais são todos iguais mas uns... são mais iguais que outros.

E como defendia sempre o meu jovem velho Dai: cada um... é como cada qual. 

Ah, Leonor fadista! (E a menina estreou-se na fadistagem)





Com quase 15 anos... e uma vez que não tem pilinha, nem sabe jogar à bola.... a ver se é por ela e aqui que me consigo fazer rico, porque está mais que visto que não é a trabalhar para arrecadar impostos que lá chego... 

E porra das cruzes do Euromilionário são tão fáceis de ver que são mesmo aquelas e não podiam ser outras... depois de sairem.


A estreia deu—se com o novo fado da Raquel Tavares, "Meu amor de longe". Ainda muito temerosa (aposto que assustada por ver aquela multidão de olhos postos nela), mostrou ter uma bonita voz, boa dicção e colocou (como lhe pedi), expressão em cada palavra que dizia.

A meu ver, não foi um sucesso mas não foi por sua culpa exclusiva. Denotou—se ali que, dos 3-executantes em palco, havia um que não conhecia o tema a fundo; e este também não foi o acompanhante da viola clássica que estava encarregue de fazer a métrica bater certo, e apenas ele com ela ensaiou.
Muito enrolar, enrolar e as notas que a permitiam soltar—se... que não entravam. 

Esteve... bem.


No segundo tema, aquele que o sei pai Sabi gostaria de ver como hino nacional, um outro novo fado, desta vez numa letra absolutamente brilhante do Deolinda, Pedro Silva Martins, celebrizado pela fadista Rock Star, Ana Moura: Desfado.

Esteve mais segura que no primeiro (o calo ganha—se, praticando), e o acompanhamento na guitarra portuguesa (mais que habituada aos clássicos de sempre) não esteve tão fora. Sim, porque a viola clássica esteve mais uma vez irrepreensível e ao mais alto nível. Dava gosto.

Para fechar, sem querer, fez—se a vontade ao homem e a piquena amandou—se à "Casa da Mariquinhas" da intocável diva, Amália. Aí, os guitarristas estiveram insuperáveis e ela... o meu amor, teve de levar um auxiliar de memória para nortear. 

Mas cabulou pouco e esteve com uma métrica, uma dição e uma entoação... muito boas.


Agora eu, como pai e uma vez que tem os atributos, gostaria que; como me ensinou o meu 1• Chefe de Finanças, Delfino da Graça Bento Amaro, de quem sempre me lembro e tenho muitas saudades; "criásse pé, para dar coice". Quer isto dizer, arranjar um bom tutor, estudar, desenvolver o ótimo instrumento que Deus lhe deu, e voar. Sempre olhando para cima, porque para os lados não se aprende nada.

Os meus humildes e respeitosos incumprimentos e agradecimentos à Sandra Paz, senhora presidente da freguesia de Santa Maria de Marvão, que se lembrou de nós; quando aproveito também para a parabenizar pela extraordinária noite de convívio que organizou na sua terra.

Agradecimentos fraternos que vão também direitinhos para o excelentíssimo presidente do Centro Cultural, meu caro Tiago Pereira, que muito felicito.

Muitos parabéns à minha querida Joana Vieira que está toda uma fadista! (Grande voz, muita simpatia, ENORME presença, muita rodagem, grande savoir faire); a esse docinho chamado Marisa Garção que todos nós vimos crescer para o fado e agora já impressiona e muito, que a vontade também se faz força e beleza.

Bem hajam os artistas, todos, os que vieram de fora mas permitam—me que abrace os nossos bebés.

Muita saúde e força para todos, sobretudo para o fadista que abriu o peito e nos falou, sentido, da débil saúde da sua esposa. Estará nas minhas orações e peço que Deus, pai, a ampare pelo melhor caminho.

Um grande abraço aos meus leitores .



quarta-feira, 31 de agosto de 2016

O meu amigo Tó Gordo, o crooner da Beirã

Definição de crooner (nome) – Um cantor, normalmente masculino, que canta numa voz doce, suave e baixa.


O Serviço estava cheio de contribuintes, habituados a subir a Marvão e verem ali esclarecidas todas as suas dúvidas, fossem elas relacionadas com rendimento, património, justiça tributária ou qualquer outra cobrança. Ali têm pela frente dois homens que têm de ser médicos de clínica geral, que têm de saber um pouco de todos os impostos e ali, de imediato, ao balcão, terem de ter uma resposta cabal, capaz de os satisfazer.

Só estou na casa há 16 anos, mas ainda me lembro bem do tempo em que em Marvão, éramos bem mais de 6 para conseguir chegar a todos os que se nos visitavam, mas agora os computadores… bem, mas isso é uma velha, profunda e longa questão que não a que me trouxe aqui hoje.

Dizia eu que a sala estava cheia de gente para atender, cobrar e o telefone não se calava. Até que numa dessas muitas chamadas, o meu chefe se virou para mim e disse: “Pedro, é para ti. É o Tó” (que já é por ele conhecido, por ser um cá dos meus).

“Vou já!, disse baixinho e algo aborrecido porque já lhe tinha explicado que ali era o meu lugar de trabalho e…”.

Depois de atender quem estava em mãos, aproximei-me já com a estratégia montada na cabeça que passaria por lhe explicar isso, que temos muito serviço, que somos poucos, mas antes que tivesse tempo para fosse o que fosse, do outro lado ouvi um…

- MAAAAAAAAAAANNNNNNNNNNNNNNNN! Estás fixe ? Ouve, tenho uma cena para te contar. Estou muuuuuiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiittttttaaaaaa bem. A vida corre-me 5 estrelas! O meu pai e a minha mãe estão a recuperar bem. (Ele de um AVC e ela de um problema qualquer também grande de saúde). Ele já vai a Santo António a conduzir, a comprar ao Rui Boto, o jornal desportivo para ler as notícias do Sporting e têm ido à fisioterapia. Estão aqui na Anta a receber apoio. Eu também como de lá. Sou muita bem servido e estou muita bem. Só como dieta.
(…)
- Caminho Muito. Todos os dias vou aos Barretos a beber café (1,5 km para cada lado).
(…)
- Não me falta tabaco. Tenho muito tabaco. O meu o pai compra-me uns pacotes no Rui Boto e tenho sempre que fumar.
(Tudo isto de uma assentada só, sem eu conseguir dizer fosse o que fosse e já mostrando algum comprometimento por não poder dar mais atenção às pessoas. 3 ou 4 minutos que pareciam horas.)
 - Ouve man, crooner, sabes porque é que te estou a ligar? Peciso que me arranjes uns cds. Não tenho música nova. E tu, de certeza que tens muita música.

- Ó Tó… essa cena dos cds já foi chão que deu uvas. Agora a malta não compra fisicamente os cds e ouve-os em aplicações da net ou em podcast. Eu tenho umas largas centenas de cds que comprei ao longo dos anos, mas estão no sótão, arquivados/encaixotados…

 - ERA ESSES! PARA EU OUVIR QUANDO ESTOU A ESTUDAR CIÊNCIA MODERNA!

- Ciência moderna?!?!?

- Ouve man! Tenho que te introduzir à ciência moderna. A ciência moderna tem um pouco de tudo: filosofia, psicologia, epistesmologia, estudo da razão pura.

- Mas…

- Eu sei que tu nunca tens tempo de ler. Nem para os filmes que tanto adoras tens tempo. É só família, as tuas cenas da internet, mas tens de ler isto! Ouve-me bem, estou nas 7 quintas. Acordo bem cedo, começo a estudar, vou andar aos Barretos e beber café e… vou lendo, tirano apontamentos e… só me falta a música! Quando é que me arranjas? Preciso mesmo!

- Eh Tó… eu levei os cds que colecionava todos para o sótão e tenho lá do rock ao clássico, coletâneas que fiz com o meu irmão, blues, pop, jazz, muito indie…

- Mas quando é que me trazes?!?!?!?

- Ó companheiro… assim que tiver tempo de lá ir procurar… Eu prometo. Vá Tó, fica bem e aquele abraço. (Senão nunca mais me desmarcava e não saia mais dali)

Pois tive mesmo de arranjar tempo e consegui selecionar 30, 40? cds que meti num saco de plástico forte e na bagageira do meu Kaguincha Twingo, para lhe ir levar á Beirã, assim que possível.

Ele bem perguntava quando seria, mas essa voragem dos tempos de que costumo falar, fez com que a semana ou os 15 dias que eu tinha imaginado, se tivesse prolongado por tempo a mais, mas nunca mais do dobro.
Eu gasto o tempo todo a viver. Sei que não o aplico mal, mas gasto-o. Família, Trabalho, Família, os meus hobbies (blogue, facebook, comunidade virtual), Família, sem cinema e pouco ou nenhum som.

E numa manhã destas, há duas semanas, maios ou menos, ia eu para cima, eram 8.35h/8.40h e depois da curva do infantário, sai-me uma aventesma muita grande, de barba, calções e t-shirt, a pedir boleia de braços abertos. Mandava parar todo e qualquer carro, mas… todos se desviavam.

“Cruzes! É o Tó!”, pensei.
Encostei de imediato e abri o vidro: -“foi o senhor que pediu uma limusine para Marvão?”

- PEDRO!!!! Meu grande amigo! Calha mesmo bem, man! Deixa aí entrar.

- Deixa-me adivinhar: tu pediste os discos na semana passada, eu disse que ia lá nesta semana. Sabia que não podia ir lá nesta quinta porque o enfermeiro ia lá dar-te a injeção para a bipolaridade, já hoje é sexta e tu pensaste: bom, passa-se a semana e aquele cabrão não me vem cá trazer o que me prometeu. Levantaste-te hoje e pensaste: vou-me a ver dele!

- Isso!

- Sou quase vidente. Se acabarem com as finanças e tiver de ir ver de vida, arranjo uma tenda dos marroquinos, vou comprar uma bola de cristal à feira da ladra, e faço-me à vida!

- “Tenho tudo orientado”, disse ele. “Quem me deu boleia até aqui a cima desde a Beirã, foi o Luís da Estrelinha (vice-presidente da câmara que nunca se livrou dessa alcunha entre as crianças que foram seus pares. Teria sido muito mais fácil para mim ter sido o filho do João Sobreiro, mas consegui sempre impor-me por mim). Como mora aqui, estou à boleia. Vou contigo para cima e calha mesmo bem. Mesmo bem. Era contigo que ia ter. Ouve, vou levar os discos…

- Epá, mas são muitos e pesados…

- Não faz mal. Não tenho presssa. Vou mesmo na minha. Se os carros pararem para me dar boleia (o que acho difícil. Muito difícil, digo eu), eu digo que não quero ir porque vou na minha. A minha mãe fez-me o almoço que trago aqui. Duas sandes impecáveis e está tudo a correr bem. Agora, se faz favor dás-me dois euros para beber café aqui e outro nos Barretos. Bom, vamos lá fazer a troca porque eu tenho aqui uns livros para te oferecer.

- Eh Tózinho, mas eu não ten…

- Lês só uma página antes de dormir. Vais ver que dormes melhor. Não é uma leitura assim séria, estudiosa, como se fosse um trabalho, como eu faço, mas é uma leitura.

Chegados ao alto, disse-lhe: “vamos lá acima ao serviço para fazermos a troca e não estarmos aqui como ciganos na rua. O meu chefe é um fixe e não há espiga.” Demoramos minutos. Assim foi.

Dei-lhe só um lamiré do som que lhe passava e ele deu-me os livros. Mas que não se pense que eram livros quaisquer. Obras recentes, de Junho de 2016, numa 1ª edição, com preço de amigo da FNAC. Juro que não sei onde é que esta alma vai buscar as referências. Mas irei certamente lê-los. Promessa a mim próprio.

“De Primatas a Astronautas”, de Leonard Mlodinow, com um chamariz de Stephen Hawking, esse mesmo, o génio encadeirado: “Mlodinow nunca falha na tarefa de tronar a ciência tão acessível quanto divertida.”
Hum… promete!



- “Cometa”, de Carl Sagan e Ann Druyan, 2ª edição de Abril de 2014.

Obras cheias de apontamentos, índices, notas e recortes. Mas onde é que este homem tem a cabeça? E onde é que a gente que pensa nele, se é que pensa, pensa que ele a tem?

Habitue-me a admirar o Tó Gordo, era assim que o conhecíamos, porque era mesmo anafado, desde que me lembro. Dono de uma inteligência rara, foi sempre idolatrado por todos os pais da pequena aldeia onde nasci, por ser um exemplo de filho.
“Mete os olhos no Tó!”, “Havias de ser assim” eram paragonas que se ouviam por toda a Beirã, um pouco por todas as casas.

Um par de anos mais velho que eu, um bom par de anos, uma década?, já ia distante quando eu comecei a ganhar consciência. Ele já fazia a barba, andava de colete e cabelo pelos ombros quando eu comecei a fazer xixi no urinol dos grandes.

Num nosso tempo onde os miúdos bons daqui, do concelho, de agora, arranjam empregos lá fora (Seguros, Miguel Miranda) e dão aulas no estrangeiro (Arquitetura, Rui Pinto), o Tó foi um dos primeiros a desbravar esse caminho para Lisboa. E logo para estudar Filosofia, creio que na Clássica.

Filho único de uma família tipo da Beirã (pai guarda-fiscal; mãe doméstica), sempre viveu num lar honrado, de pessoas muito respeitadas, honestas, trabalhadoras. Miúdo nada problemático, com uma forma de pensar muito alternativa, sempre foi muito católico e lembro-me da sua ida a Taizé. Eu também queria ter uma cruz daquelas, em forma de pomba. Eu também queria ter sido assim.

Em Lisboa, o Tó perdeu-se. Cortou-se o vínculo, sei lá como. Mas por deslumbre ou más influências, entrou na vida alternativa. O álcool e as drogas apoderaram-se dele. Deixei de ter notícias. Deixei de o ver e de saber dele.

Certo dia fui a Lisboa com os meus pais, de comboio e em Santa Apolónia encontrámo-lo. Fortuitamente. Recordo-me de ter visto a minha mãe chorar, pelo choque de o ter visto assim desarranjado. Não sei se estaria dentro de si e que discurso deu, mas estaria certamente muito longe do Tó da Beirã que todos conhecíamos.

Soube por amigos e vim a saber por ele depois também que o Tó chegou a ser uma figura do Bairro Alto, daquelas típicas, características, como a velha do “pontapé na cona!”

Só soube que estava de regresso quando me apercebi que se tinha passado completamente. Do tipo andar despido, ofender a mãe e todo nú a fugir em Portalegre, de uma vez que o levaram para o hospital.

Nesse entretanto, os anos também foram passando por mim. Casei-me, nasceu-me uma filha e comecei a ir frequentando o quarto do Tó. Sempre com um som de fundo, sempre com o seu hábito de escrita e com o seu bom trato e educação.

Li os poemas dele que adorava, e me maravilhavam pela arte da escrita por imagens, sempre com um Mário Cesarini e um Herberto Hélder como ídolos, por trás.

Noites em que ouvimos, dissecámos e escamoteámos o FMI do José Mário Branco. Quem nos haveria de dizer então que haveria de voltar…



“Vamos então beber o cafezinho?”, perguntou naquela manhã, em jeito de quem já estava a dever tempo à estrada, que havia-de caminhar a seguir.

Um café, um cigarro, dois homens a falar como rezava cada um a Deus à noite, e na importância de sabermos agradecer cada dia, como se fosse o último. Porque a vida é uma bênção e porque a sua consciência nos faz limpar de muitos artifícios nocivos que teimam em afastar-nos daquilo que é essencial e verdadeiramente importante.

Disse-me, seguro e confiante: "Estou muito mais magro. Só como dieta. Não se nota?"
- Porra Tó... Ainda bem que me dizes isso. Já temia que não estivesses bem de saúde"

Vi-o descer a calçada, com o saco com o farnel que a mamã lhe aviou e os discos que o amigo lhe emprestou. A vida é efémera. Na realidade, não valemos mais do que aquilo que somos, sentimos, respiramos, vivemos no momento.




Fui feliz naquela manhã, diferente de todas as outras.

E ele… sei que também foi.