segunda-feira, 22 de julho de 2019

De Marvão, vê-se a terra toda... e agora (6a edição)... o céu!



Todos nós que vivemos, temos a ideia que a nossa morte há-de ser assim algo de diferente, cinematográfico, épico. Ninguém espera morrer de uma miudeza, um azar, uma distração, um acaso. Todos nós, mesmo que não o digamos, acalentamos, em segredo e em suspenso, a ideia de que a nossa morte há-de ser algo de contornos especiais, assim num cenário… digno. Descartando ingenuamente a hipótese de tal fim suceder por motivos inesperados, sem sentido, todos achamos que merecemos um final apoteótico.

Em contraste com a entrada para o lado de lá (o reino dos céus, para os católicos; o Jannah, para os muçulmanos; ou o Tian, para o chineses tradicionais); a ideia de que pode tudo acabar aqui, torna, na minha opinião, a nossa existência na coisa mais redutora que consigo imaginar.

Posto isto, tenho de vos dizer que há momentos que se vivem na vida, dos quais já temos as maiores expetativas, mas que ainda assim, tudo superam; e acabam por se repetir sempre com a mesma intensidade (6ª, já!), que por muitas palavras, muita retórica que se tenha, não se conseguem explicar.

Ainda assim, tenho de tentar.


Se há alguns momentos de transcendência que se podem viver nesta nossa passagem terrena; a missa desta manhã, no Convento de Nossa Senhora da Estrela, no largo do Cubelo em Marvão, integrada na 6a edição do F.I.M.M.(Festival Internacional de Música de Marvão), foi qualquer coisa de... qualquer coisa.

A missa de Mozart, interpretada pela Orquestra de Câmara de Colónia, e pelo coro Ricercare, encheram a igreja, a alma e os corações de todos os presentes que acorreram em número suficiente para encher a nave central.
Aqui, tenho de fazer um agradecimento muito especial à minha mãe Alzira Sobreiro, que foi bastante cedo, ainda antes de encerrarem as portas para a posterior entrada geral, bem como às suas colegas de banco (amiga Gina e querida Sandra...), que se apertaram para me deixarem lá caber.


Foi uma posição absolutamente privilegiada para assistir a algo único!

A oração dos fiéis, proferida em diversas línguas foi um momento marcante, de como a música pode unir tantas visões do mundo.

A certo ponto, dei a mão à minha mãe e disse-lhe baixinho: fecha os olhos, como eu. 
Ela respondeu: já estava com eles fechados.


Na verdade, quando conseguimos resistir à natural tentação de abrirmos os olhos e contemplarmos o bailado da batuta do maestro, a brilhante execução dos intérpretes, as expressões do rosto dos sopranos, do tenor e demais cantores… fechávamos os olhos, sentíamo-nos levitar, e entrar naquilo que nós achamos que deve ser o Céu.

Notável e impagável!

Muitos parabéns!!! A todos os que tornaram isto possível!!! Todos!!!!





quinta-feira, 27 de junho de 2019

Em que nos estamos a tornar?




Eu tenho de começar por pedir desculpa aos meus leitores, e aqui faço o mea culpa, mas o tempo não tem estado para grandes escritas no meu blogue. As solicitações têm sido mais que muitas, graças a Deus, e entre exigências laborais que me consomem grande parte do tempo livre após o horário normal de trabalho; dedicação e entrega a causas cívicas, e comunitárias no restante tempo livre (leia-se Associação de Moradores dos Outeiros, que tive o prazer de ajudar a fundar, e aposta num Junho sempre em festa, relembrando a tertúlia do querido amigo Carlos Sequeira, ilustre presidente da Assembleia Municipal, com a celebração do Santo António, do São João, e já neste fim de semana, a festa dos Outeiros, ocupando-me em 3 fins de semanas seguidos de entrega total), não me tem sobrado grande tempo livre para me dedicar àquilo que realmente gosto de fazer, porque estas coisas das festas... também gosto mesmo de fazer!

Assim, tirando os habituais apontamentos no meu mural de facebook, quase diariamente, mais que uma vez; mais rápidos, bem à mão, bastando puxar do telemóvel; não me tem dado para muito mais.

Mas esta imagem de hoje… manda mais, e tem de ficar aqui registada, com a pergunta: em que nos estamos nós, humanos, a tornar-nos?

A notícia está toda aqui:






e dá que pensar... Que um pai é capaz de fazer tudo ao ver os filhos sofrer, para evitar a continuidade dessa dor, sempre eu soube e senti, embora peça a Deus que nunca me faça vivenciar esse drama na pele.

Que é capaz, numa situação limite, de desafiar as leis da natureza, a prudência, e tudo o que seria expectável, também sempre soube. Por isso esta desgraça, que emerge das muitas situações extremas que ocorrem no nosso planeta, é mais uma.

O que muda é esta imagem, a dureza dos corpos inertes tombados sob as águas, o choque brutal que representa para nós, seus pares, e nos faz sentir tão incómodos connosco mesmos.

O homem que tolera isto, o meu igual, o meu contemporâneo, o meu irmão, é o mesmo que apenas apareceria apenas nos instantes finais de um filme de duração média de pouco mais de duas horas, dedicado à vida na terra, mas que já a conseguiu poluir tanto que não consegue mais reconhecer as diferenças entre o que eram as estações do ano; que já deixou o plástico que inventou chegar às zonas mais recônditas das profundezas dos oceanos, ao ponto deste integrar a morfologia dos animais, e provocar metamorfoses na sua cartilagem; é o mesmo que ainda sonha com a lua, e com as explorações espaciais, mas assobia para o lado com a destruição do pulmão da terra na Amazónia; é o mesmo que mata o seu igual sem pestanejar por um reles metal que inventou para conseguir diferenciar-se entre si.

Um pai na casa dos 20 anos de El Salvador, morreu afogado com a sua filha da sua filha de 23 meses, quando tentavam atravessar clandestinamente a fronteira México-Estados Unidos (EUA), no rio Bravo.

Deram tudo de si na busca de um sonho, como milhares de seus semelhantes, e caíram para sempre.

Há notícias que não deveriam apenas de passar na televisão. Deveriam ficar dentro de nós, nas nossas orações, e para sabermos agradecer tudo aquilo que é tanto, que temos.


Paz à sua alma...

quarta-feira, 26 de junho de 2019

César Lopes... a homenagem aqui, no meu cantinho... para a galeria dos imortais


 



Foi, infelizmente, a notícia do dia 21 de Junho, como já tinha sido no dia anterior, quando tivemos conhecimento dela: o nosso César Lopes partiu, soube que de uma paragem cardio-respiratória, na sequência de uma intervenção cirúrgica.

Neste tempo das redes sociais, em que a internet está vulgarizada, e ainda bem, todos os que se sentem tocados metem a mão no bolso, puxam do telemóvel, e debitam o seu sentir, com maior ou menor eloquência, sentimento, ligação, verdade, nível, na esperança que seja vista por todos.

Para um jornalista, que é o que sempre hei-de ser, não quero, não posso, não devo, colar-me ao tanto que já foi dito, chovendo no que já está desafortunadamente molhado.

Apenas gostaria de dizer que o César e eu tínhamos, ou pelo menos eu assim a sentia, uma ligação muito forte, de amizade, sobretudo depois do que me sucedeu em 2011. No acidente que tive, também eu poderia ter ficado como ele, ou falecido, e isso apenas não aconteceu graças ao socorro rápido da Associação Humanitária dos Bombeiros de Marvão, a quem estarei toda a minha vida grato, e do INEM, que foi prontamente chamado. 

E porque Deus assim o quis.

Sou católico, crente, praticante, sobretudo depois do que me aconteceu, mas acredito que não há céu, inferno, ou demais criações mentais, feitas no passado, porque Deus não é cruel, Deus é amor. Acredito muito mais que as almas crescem, e têm diferentes estádios de evolução.

Quantas pessoas vi ontem na missa do Corpo de Deus, quando a notícia bateu com estrondo; rezarem a oração principal que Jesus nos ensinou, dizendo "perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido", quando eu já lhes pedi desculpa, por erros que me apontam, embora eu ache que não os cometi, num passado não muito distante, e me continuam a desprezar, como se faz a um leproso? Há bondade, perdão, e cristandade nestes corações?

Mas o César era superior a isso tudo, a todos nós, e conseguia, dentro das suas limitações óbvias, tentar ser feliz, fosse a acompanhar o nosso BENFICA (ainda há tempos, amigos comuns lhe prepararam uma ida ao estádio da luz para assistir a uma partida, com direito a visitar o Seixal, e o Museu Cosme Damião, tendo-me dado a honra de integrar a comitiva... embora tivesse sido cancelada à última da hora pelo nosso clube, quando estava prestes a sagrar-se campeão); ou quando ia no seu carrinho ao bar "O Castelo", do seu amigo Jorge Rosado, beber uma imperial, na sua caneca adaptada ao carro de rodas, pela sua palhinha.

Conheçi o César quando o padre Fernando Fatinha organizou por aqui uns torneios de futebol entre os miúdos das freguesias, tinha eu 10 anos, por aí; há 30 e tal, mais ou menos. Franzino, ultra rápido, era dono de um pé canhão impressionante, que quase experimentei, uns anos mais tarde, no futsal, quando a minha equipa da Beirã não tinha guarda-redes, e na falta de um, os meus colegas me incentivaram a ficar de pau de cabeleira. Todos os que lá iam dele, entravam, claro. Recordo-me bem que a dada altura, espetou com um na trave, que eu pensei " ainda bem que não meti lá a mão, senão nesta altura... apenas teria 9 

Hoje muitos o choram, e eu também, embora não consiga verter uma lágrima, por causa do tal acidente, que me deixou a sequela que me impede de emocionar a esse ponto. Antes pudesse. Pelo menos, limpava...

O César era um exemplo tremendo de vivacidade, amor à vida, tenacidade, alegria de viver, AMOR AO SEU MARVÃO, E AO NOSSO BENFICA!!! 

Sendo um Homem das redes sociais, tendo através delas conseguido fugir da solidão, tem de ser aqui mesmo LOUVADO, RECORDADO, SEMPRE ELOGIADO! O César era Marvão!

Senhor Presidente Luís Vitorino... Já foi, ou, será a título póstumo?

As minhas últimas palavras vão diretamente para uma Senhora que, perdoem-e as outras todas, é A MÃE!!! MÃE coragem, entrega, dedicação total e absoluta, A M O R... a minha querida Angélica, que me trata sempre por menino; e para o irmão que esteve sempre lá, o meu querido quinto Zani, Nuno Paz.

Esteja lá ele onde estiver, esteja ele no estado em que tiver, e sob a forma que estiver, que esteja BEM, LIVRE, FELIZ, longe daquela cama onde esteve agrilhoado os melhores anos da sua vida! Imagino-o a correr, e a sorrir, sob o mar...


Que Deus te proteja na sua glória, Amor.








sexta-feira, 24 de maio de 2019

Morrer de amor (a história do Tio Zé Brás...)

Com o "meu" crucifixo em frente, antes de vir a mim...

Epá… isto está a tomar uma dimensão que pelo andar da carruagem, este blogue ainda acaba patrocinado pela Funerária Santos, ou Trindade, ou uma outra qualquer cá da zona, que eu nem sei bem qual é a cá de Santo António. E ainda bem.


Mas já todos sabem que este é o meu lugarinho. O sítio onde posso dizer o que me dá na veneta, onde não tenho de pagar as alcavalas do psiquiatra (que isto só com psicólogo não vai lá, garanto-vos), onde realmente me ouvem, nem que seja eu a mim próprio. Aqui arrumo as ideias, e vou organizando a “casa”, enquanto teclo. A história de sempre. A minha, afinal: um gajo gosta mesmo é de escrever, vai trabalhar para os impostos para poder viver (condignamente), mas realiza-se sempre é quando desagua aqui ao final do dia, vencendo o cansaço do dia inteiro ao balcão, em frente ao ecrã.


O assunto: mais um amigo que se foi, e por ter “mexido” comigo durante a vida, por ter tido algo que em mim impactou, tenho de aqui o recordar, fazendo um processo de luto muito meu.


O Ti Zé Brás entrou na minha vida quando me casei, por também ele estar casado com uma tia-avó da minha Cristina. Sempre o conheci assim, velhote, já curvado, com uma espinha quase dobrada sobre si mesma, sendo-lhe praticamente impossível olhar de frente para a paisagem. Defensor acérrimo do seu Vale de Ródão, vivia num Marvão que liga já para a parte dos Barretos, de onde se avista Castelo de Vide. Dono de um sentido de humor muito seu, castiço, antigo, tinha piada. Para mim, era dono de um falar e um sentir antigo, daqueles que está acabar, que já não se fará mais.


Muito apegado à sua casa, ao seu pedaço de terra, e sabia bem da sua contra-vontade em ir para a Santa Casa, em Marvão, contrária à da sua esposa, que já sentia as forças de viver a abalarem-lhe; e dos seus descendentes que tinham partido, e ido ver de vida na vila. Isto porque o Ti Zé era muito daquele tipo de pessoas de Marvão que cresceram com a ideia de que quem ia para a Santa Casa, entrava assim para um corredor fundo sem retorno, onde o único destino é o inexorável de nós todos, que é o fim de tudo nesta terra.  Quis esse mesmo destino que tudo se viesse a confirmar como ele o tinha previsto.


A tia estava muito descaída, lá, e a sua terna amabilidade de cada vez que nos via quando a íamos visitar à sua casa, tinha-se desfeito numa apatia confrangedora. Sem o seu poupinho, e os cabelinhos pretos, parecia ter o dobro da idade, e não só não nos conhecia, como não reagia aos nossos estímulos, aos nossos carinhos. Antevia-se o pior. Que aconteceu, em pouco tempo.
Custa a perceber mas apesar do carinho de todos os funcionários, da higiene, do empenho, do amor que se respira naquela casa, e eu sou bem testemunha disso desde há cerca de 5 anos, desde que tenho lá a minha tia-mãe, dá a sensação que nalgumas pessoas, há algo que desliga quando se instalam ali, como se fosse uma antecâmara da morte. Não creio que tenha sido assim no caso da tia, mas seguramente que foi no caso do Ti Zé, que esteve sempre contrariado, sobretudo depois do desaparecimento da sua companheira.


Quando faço a visita semanal à minha tia, sempre culpabilizando-me por não ir lá todos os dias, que era o que ela faria se tivesse consciência, e estivesse eu no seu lugar, faço sempre o mesmo trajeto: entro pela parte superior onde estão as senhoras, e regresso pela dos homens, em baixo, como que querendo dar um sopro de vida a todos, dar-lhe vida naquele enclausuramento onde respiram.
As da primeira sala, quase sempre a dormir, com muitas, muito em baixo; a sala seguinte onde muitas, muitas vezes pintam, e está um senhor de óculos que me faz sempre adeus como se me tivesse visto pela primeira vez; as senhoras da sala do fundo, sempre de trabalhos manuais, muito ativas e dedicadas.
Depois da visita ao “hospital”, que é como se chama a parte onde ela está, saio pelo rés do chão, onde aproveito para me “meter” com os homens: o amigo Machado, sempre ultra-tecnológico, agarrado ao seu portátil onde vê a bola, e acompanha as redes sociais; o meu amigo Chico lá da Beirã, que está igualzinho àquele que conheci em criança, de olhos gigantes aumentados pelos óculos cú de copo  de toda a vida; um tontinho que eu não conhecia senão dali mas se ri sempre imenso quando o fito, e se escangalha todo quando lhe digo baixinho: foste tu… ai, ai….enquanto levo a mão à boca fingindo tapar um segredo: o Ti Manel, o pai do meu amigo César que não teve a minha sorte, e ficou paraplégico no acidente que teve; e tantos outros… onde estava também o Tio Zé Brás.


Encafuado no sofá, como se estivesse a ser engolido por ele, passou a ter um olhar ainda mais distante, sozinho, triste, desde eu partiu a sua mulher. Pela familiaridade que temos, tinha para com ele sempre um cumprimento especial. Chegava-me junto, tocava-o (e como eu percebi ali a importância do toque… Há muitas tardes em que apenas sorrio e encho de festas a minha tia, sem nunca tentar dizer sequer uma palavra), e perguntava-lhe:
- Então Tio, como é que está hoje?
- Eeeeeeehhhhhh…

- Já comeu?
- Já comi. Já comi… (Como se estivesse a despachar-me)


E a clássica: Então está tudo bem?
- Eh… práqui estou à espera…


À espera disto que aconteceu agora. Não creio que estivesse doente, e havia-os por lá seguramente bem piores, mas… foi-se.
Não dizem que os elefantes que morrem de ordem natural, sem serem chacinados, ou assassinados, vão todos morrer ao mesmo sítio? Deve ser o mesmo.


O Tio Zé Brás era um artista. Sempre conheci, e me apaixonei, desde que vi o primeiro, dos seus trabalhinhos em madeira. Com uma navalhinha, ia debulhando a peça em bruto, e dali nasciam alfaias agrícolas em miniatura, pequenos apetrechos da vida mundana que os seus olhos iam absorvendo e cristalizavam com o seu engenho. Isso ou bonecos sarrafeiros com grandes pilas, com mangalhos que arrastavam pelo cháo. Uma vez ofereceu-me uns sapatinhos de madeira do tamanho  de um dedal que têm estado sempre no meu carro. Gosto de olhar para eles e lembrar-me da nossa amizade.


A sua obra maior que eu adquiri foi no São Marcos de há 2 ou 3 anos, um cristo cruxificado absolutamente magnífico que dormiu imenso tempo por cima do nosso leito enquanto dormíamos, e agora deu lugar a uma reprodução de um Van Gogh lindíssimo, o meu pintor de eleição, que retrata um casal de agricultores que descansa sobre a palha, Muito apropriado, portanto.
Pediu-me já não sei bem se 10, 15, ou 20 euros. Muito menos que aquilo que eu sabia que valeria para mim sentimentalmente, e poderia vir a valer num futuro que é agora. Hoje, para mim, não tem preço.


No funeral da sua esposa, no cemitério de Marvão, recordo-me que o apanhei quando saia, após o corpo ter sido devolvido à terra, e quando lhe disse “sinto muito”, disse que sim com a cabeça, como se estivesse a fazer um esforço para perceber a minha solidariedade, mas como se já tivesse entrado num transe que o haveria de levar a deixar de estar neste mundo… em paz, respeitando a ordem natural das coisas.


Ontem, ao balcão das finanças, enquanto trabalhava, comentei a sua partida com o seu vizinho Michael Ibelings, da Quinta da Saimeira, que ele ternamente chamava por “Mgúúúel”. Sentindo-me próximo dele, mais ainda depois do nosso relacionamento no movimento político “Marvão para Todos”, das últimas eleições, abordei a partida trágica e súbita do Tio Zé, como por aqui descrevo. Apesar de saber que é estrangeiro, e não tão dado a mostrar as suas emoções quanto nós, portugas, o Miguel não conseguiu esconder a emoção que deixou transparecer no brilho dos olhos quando abordou os passeios que davam juntos, e aquilo que lhe conseguiu mostrar.


A vida… é dar, e receber.
E há algo que não se explica, mas se traduz numa paz de alma indescritível quando sentimos que fizemos o bem. Essa é a minha grande busca.


Que descanse em paz…


Ao neto André Babinha, à filha Dionísia, e ao genro Vicente Ribeiro, envio um beijo enorme e as maiores condolências.


Na dor, nunca se esqueçam: não é para sempre. Nós todos estamos em contagem decrescente. Vamos todos desfrutar do tempo que ainda temos. Esse fim está sempre certo.
 
Com o adorado neto André...

terça-feira, 14 de maio de 2019

No comboio-expresso da vida



Bem… o assunto é sério: há músicas que… assim que as ouvimos, sentimos que têm algo especial que faz com que as queiramos adotar para a banda sonora da nossa vida. Esta, em particular, parece que tem o mundo todo, todas as relações entre as pessoas, as paisagens todas que há dentro de nós, lá dentro.

Que tenha sido escrita por uma miúda que nasceu antes deste milénio, prova, entre muitas outras coisas imediatas: que estou a ficar velho, que o tempo passa a voar, como que a genialidade é tão natural e inexplicável que nos assombra. Que uma jovem de 21 anos consiga escrever este tratado sobre a vida e as relações humanas em forma de canção, é para mim algo tão inexplicável como o virtuosismo dos solos de guitarra do Jimmy Hendrix, completamente pedrado, cheio de cavalo naquelas veias; ou o groove frenético da voz da Janis Joplin, com toda a música negra a ser exorcizada naquela garganta branca de menos de 25 anos, cheia de heroína, também; ou o shamanismo poético, rockeiro, instigador à insurreição do Rei Morrison lagarto, todo dopado para não variar.

Não creio que na carreira insipiente agora começada da Ana Vilela, feita apenas de singles, sem um ainda longa duração, consiga estar ao nível da estreia. Mas um feito, é um feito. E este marco já não mais me largará.


AnaVilela - Trem-Bala
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Não é sobre ter todas pessoas do mundo p'ra si,                                  
É sobre saber que em algum lugar alguém zela por ti,
É sobre cantar e poder escutar mais do que a própria voz,
É sobre dançar na chuva de vida que cai sobre nós,
É saber se sentir infinito,
Num universo tão vasto e bonito, é saber sonhar…
Então, fazer valer a pena cada verso,
Daquele poema sobre acreditar.

Não é sobre chegar no topo do mundo e saber que venceu,
É sobre escalar e sentir que o caminho te fortaleceu,
É sobre ser abrigo, e também ter morada em outros corações,
E assim ter amigos contigo em todas as situações,
A gente não pode ter tudo,
Qual seria a graça do mundo se fosse assim?
Por isso, eu prefiro sorrisos,
E os presentes que a vida trouxe pra perto de mim.

Não é sobre tudo que o seu dinheiro é capaz de comprar,
E sim sobre cada momento sorriso a se compartilhar,
Também não é sobre correr contra o tempo pra ter sempre mais,
Porque quando menos se espera, a vida já ficou pra trás.

Segura teu filho no colo,
Sorria e abrace teus pais enquanto estão aqui.
Que a vida é trem-bala, parceiro,
E a gente é só passageiro prestes a partir.

Segura teu filho no colo,
Sorria e abrace teus pais enquanto estão aqui.
Que a vida é trem-bala, parceiro,
E a gente é só passageiro prestes a partir.



Bem, eu até compreendia e era capaz de aceitar se isto tivesse sido escrito por um monge no Tibete, que tivesse vivido largos anos sozinho no alto de um monte, e fizesse largas sessões diárias de yoga seguido de extensas terapias de hipnose. Agora, assim?!?!?

Há lá forma mais bonita de se definir o que é viver, que dizer:
“Abraça o teu filho quando ainda é bebé,
Sorri e abraça os teus pais porque, pela ordem da vida, partirão antes de ti, e ainda estão cá,
Porque a vida é um foguetão, do qual somos passageiros,
Prestes a partir…”

Ou, sobre o que é verdadeiramente importante, que:
“Não é sobre tudo que o seu dinheiro é capaz de comprar,
Mas sim sobre cada momento sorriso a se compartilhar…”

Ou sobre a forma contra-relógio como gerimos as nossas vidas que:
“Também não é sobre correr contra o tempo p'ra ter sempre mais,
Porque quando menos se espera, a vida já ficou pra trás.”

Ou sobre a forma desenfreada como nos atropelamos na competição das nossas vidas, que:
“Não é sobre chegar no topo do mundo e saber que venceu,
É sobre escalar e sentir que o caminho te fortaleceu.”

Sobre o segredo do amor, de dar, e saber receber:
“É sobre ser abrigo, e também ter morada em outros corações,
E assim ter amigos contigo em todas as situações”

Sobre o, na verdade, não sermos donos de nada, e as pessoas serem o mais importante desta nossa vida:
“A gente não pode ter tudo,
Qual seria a graça do mundo se fosse assim?
Por isso, eu prefiro sorrisos,
E os presentes que a vida trouxe pra perto de mim.”

Sobre Deus, "Não é sobre ter todas pessoas do mundo p'ra si,                                  

É sobre saber que em algum lugar alguém zela por ti..."


Há canções e canções, e esta, fica. Porque de entre as eleitas, há algumas que batem tão forte, que não nos largam mais.

Façam como eu, e fiquem de olho na miúda. Era sorte a mais se fosse um golpe único. Há muito sentido aqui.

Da próxima vez que passar no rádio, na tv, ou na net… absorvam.

É um tratado! Belíssimo, o vídeo.. 

Eu ouço isto de phones nos ouvidos, pc no colo, e só me dá vontade de chorar. Se eu fosse capaz… era capaz de me fazer bem.

Está lá tudo!

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Manhãs... (desfrutando da vida...)

Ramila

E tu, Pedro, onde é que passaste a manhã do sábado passado?
A dormir, feito lambão, enrolado nos lençóis; com a cabeça no mocho, a curar a ressaca da farra da última noite; no café a ler, o jornal dessa manhã, entre cafés e cigarros; ou…
(já nunca me desgato em nada disso…)

Ah… eu cá passei a manhã a VIVER!!!!!! A correr à volta do morro de Marvão, saindo da minha casa, por trás da A.P.P.A.C.D.M. de Portalegre, indo pela Ramila, Ponte Velha, sempre ao lado do Rio Sever, Portagem, Jardim, Fonte da Pipa, Abegoa, Santo António das Areias, a tempo de comprar tomates no Tapas, para o almocinho de salmão grelhado com a minha Leonor.

A vida é tão fantástica, e tão desaproveitada…

Eu agradeço, sempre, tanto…



O ponto que escolho? Quando correndo pelo meio da abusiva vegetação que impedia a vereda, junto ao rio, perto da Portagem, sem ver onde colocava os pés; tropecei na raíz de uma árvore, me esbardalhei, esfolei a perna, e o meu cão, tadinho, me lambeu de alto a baixo, como que a dizer: “amigo, anda!”    


Ponte Velha vista do Lost Valley of Ramila
Ponte Velha - Barros Cardos



Lá em cima.. Marvão



























Dono... estou cansado...













Gargarejanndo
























Bem haja à nossa querida fotógrafa, descoberta na hora, D. Luzia do Miradouro ❤️👏