terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
No dia em que faz 10 anos
terça-feira, 13 de outubro de 2009
O GRITO (as eleições de Marvão à lupa)
O Grito (no original Skrik) é uma pintura do norueguês Edvard Munch, datada de 1893. A obra representa uma figura andrógina num momento de profunda angústia e desespero existencial. O pano de fundo é a doca de Oslofjord (em Oslo) ao pôr-do-Sol. O Grito é considerado como uma das obras mais importantes do movimento expressionista e adquiriu um estatuto de ícone cultural, a par da Mona Lisa de Leonardo da Vinci. (in Wikipedia)Até ao último domingo, data em que aconteceram as eleições nas quais os marvanenses escolheram o elenco que nos há-de governar nos próximos 4 anos, coibi-me de publicamente expor opiniões políticas concretas para além daquelas que diziam respeito à minha esfera pessoal.
Falei da política, mas sempre da minha política, da política em que eu estava envolvido, escusando-me de opinar sobre os demais candidatos, programas e candidaturas, por me parecer que era:
a) Pouco ético;
b) Passível de ser considerado oportunista;
c) De mau tom;
d) Todas as alíneas acima.
Agora que o sufrágio passou, que os novos responsáveis foram escolhidos, que o meu cordão umbilical autárquico foi finalmente cortado, sinto que entreguei o bastão do poder que me foi confiado nos últimos quatro anos mas recuperei finalmente a licença que me permite ser verdadeiramente livre e poder dizer tudo aquilo que quiser tendo de prestar contas única e somente à minha consciência.
Eles podem ter-se livrado de um vereador incómodo mas ganharam uma consciência sempre presente e sempre atenta. Investi aqui a minha vida. Jamais abdicarei do meu direito à opinião e por consequência, à indignação.
O povo decidiu e está decidido. Contra isto, nada a dizer. O povo é soberano. O povo de Marvão vai ter, no próximo quadriénio, o presidente que merece.
As eleições foram claras, inequívocas e expressivas. O vencedor foi só um. A vitória tem o rosto de Vítor Frutuoso.
Resta saber a que preço e aqui entro eu.
Cada um tem direito e até o dever de ter a sua visão mas Frutuoso sabe a que custo obteve este sucesso.
Esta não foi uma vitória óbvia. Foi preciso muita pressão, muita manipulação, muita promessa vã, muito uso de poder para se lá chegar.
Quem sabe ler os dados, os factos e o quotidiano, sabe que esta foi uma vitória alicerçada sobretudo no voto dos mais idosos, nos que estão mais desprotegidos, nos que mais facilmente caem no engodo, naqueles que basta uma lâmpada à porta de casa; uma passadeira na rua; uns metros de alcatrão de uma carrinha branca que esteve permanentemente ao serviço do partido e dos votos; uns minutos de graxa; ou um favor, por fortuito que fosse, para os convencer. Foram eles, a parte mais significativa da nossa pirâmide demográfica, a facção mais expressiva do eleitorado que lhe entregou de novo o poder. “Ele fazer… não faz… Mas fala-nos tão bem, é tão meiguinho… é como se fosse da família e a gente gosta tanto dele…”. E assim… seja!
Depois, nestes quatro anos à frente da câmara, Frutuoso soube criar e consolidar uma forte base social de apoio conseguida à custa de pessoas que se encontravam fragilizadas pelo desemprego e passaram a ter uma ocupação fixa gerada pela criação de novas empresas dependentes da autarquia e da vontade do presidente (Marvãorur e afins). Mesmo que nunca alguém saiba dizer onde é que termina a promiscuidade, onde começa a câmara e acabam as afiliadas, vale tudo desde que se garanta um tacho, mesmo que temporário. Os tentáculos estenderam-se à Anta, à nova Unidade de Cuidados Continuados e continuaram por todos os campos e territórios (chegando até a Portalegre!), todos onde pudesse fazer valer o seu raio de influência. Dizia-se a viva voz, nas conversas de bastidores que “o Senhor Presidente meteu…”, “o Senhor Presidente encaixou” e todos eles bem sabiam que atrás de um emprego, vêm no mínimo quatro votos. Mais uma jogada certeira.
A vitória foi clara, mas na sua génese está também a fineza fria de quem se soube alimentar de falsas solidariedades e do sofrimento alheio para alargar a sua base de apoiantes, que nunca são demais! Se alguém na família adoecia e precisava de apoio, lá aparecia ele oferecendo o cartão e os préstimos “para o que fizesse falta” e só quem nunca teve um familiar nessas condições é que não sabe o real valor que esse gesto tem num momento de fragilidade. Ficaram também célebres os seus raides aéreos de beijos e cumprimentos nos funerais e quem é que verdadeiramente se importava se conhecia ou não o(a) infeliz que levou caminho? Há melhor maneira de arrematar uma vida do que com um adeus com o selo da autarquia? Votem então!
A guerra dos votos é crua e dura e nestes domínios vale tudo nem que seja fazer propaganda utilizando os dinheiros da autarquia. Editar dois boletins informativos a escassos meses das eleições, utilizando os recursos e as verbas que são públicas, não é jogada para todos. É preciso ter saber e arte e não ter um pingo de dignidade ou escrúpulos. O culminar deste processo chegou aos funcionários por correio, a escassos dias das eleições, através de uma carta em papel timbrado da autarquia onde Frutuoso bateu no limite da humilhação, dizendo-se amigo de todos, disponível para tudo, sempre ao lado de quem trabalha. Haver pessoas que ainda hoje acham o acto justo e legítimo, é algo que está para além dos limites da minha compreensão.
Todas estas são pistas para uma imenso desfile que terminou em grande, com a sua reeleição.
Episódios e exemplos são coisas que não faltam. Tomemos o caso da Fonte da Portagem, obra polémica e que tanto deu que falar. Uns concordam, outros discordam mas numa coisa estamos todos certamente de acordo: demorou muuuuuito, muito tempo a ser concluída. Não houve pessoa que por ali passasse que não comentasse a lentidão do andamento dos trabalhos, sobretudo num sítio central onde todos os dias passam centenas de pessoas. Que a obra dos Currais Martins tenha demorado anos e anos, já ninguém estranha. No ermo onde estava localizada, do mal o menos… agora ali, na Portagem? Não houve quem não reparasse, incluindo os próprios funcionários… E que decidiu Vitor Frutuoso perante o exemplar desempenho dos trabalhadores? Nada mais simples: uma bruta almoçarada para todos, paga com verbas do erário público, que o que é falta é animar a malta.
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Os funcionários, por muito que o neguem como Pedro ao cantar do galo, também votaram Frutuoso. Já diz o povo: "Antes burro que me carregue que cavalo que me derrube". Certo?
Isto para não falar nas sondagens informais sobre tendência de voto familiar feitas à revelia… as promessas fosse do que fosse… casas, empregos, apoios… convém não esquecer que em tempo de guerra não se limpam armas.
Foi, de facto, uma grande vitória. Indiscutível na forma. Muito pouco verosímil na legitimidade.
Escreve movido a rancor, dirão uns. É uma vingançazinha rasteira, alvitrarão outros.
Nem uma coisa nem outra, respondo eu a todos de uma vez só. Apenas um homem que em democracia, dando a cara, defende aquilo em que acredita e está disposto a não calar. Jamais!
Vão ser 4 anos muito duros. A andar para trás…
Eu conheço o Presidente da Câmara. Fui um dos que ajudei a criar o mito e o monstro. Sei o que (não) vale e daquilo que é (in)capaz e de cada vez que penso nisto, digo-vos com sinceridade, mais feliz e aliviado fico por saber que vou virar as costas a tudo e ver-me livre da incompetência e da falta de rigor com a qual me vi obrigado a lidar. Lamento pelos funcionários, sobretudo pelos exemplares, os mais competentes, os que dão de si pelo bem da instituição. Esses sabem que não vai ser fácil. Mesmo!
E ao Presidente deixo, apesar de tudo, um conselho: um pouco mais de trabalho! Fazer Marvão andar para a frente não é compatível com o part-time de chauffeur que entra às 10h e sai às 16h. Uma votação destas merece, no mínimo, um pouco mais de dedicação e de trabalho. Há que se aplicar mais!
Por falar em trabalho, uma palavra especial de apreço para o novo Vice-Presidente, Luís Vitorino. Atendendo às suas capacidades e ao seu extraordinário percurso pessoal, profissional e social, somos todos de esperar o melhor. As gerações de homens e mulheres que tiveram o prazer de serem seus contemporâneos nos tempos de escola da Beirã, sabem que desde bem cedo se afirmou como uma figura emergente, como um líder nato, uma pessoa que parece talhada para o cargo. Sem margem de dúvidas…
Valeu ainda a vitória para a concelhia do PSD que ganhou créditos na distrital e ao nível nacional ao conseguir reafirmar o candidato pelo qual todos lutámos há 4 anos. Cada vez mais presa aos barões do costume, cada vez mais limitada e caciquista. Uma mágoa… ver o meu partido assim… descaracterizado. Uns por protagonismo, outros por claro interesse, todos juntos e blindados para que nada lhes escape. Cá estaremos no palanque, para quando as promessas começarem a ser cobradas. A ver vamos… Será que dá para todos?
Mudando o baile…
O Partido Socialista foi, sem sombra de dúvida, o grande derrotado destas eleições. O erro de casting do candidato pagou-se caro e a aposta falhada da direcção da concelhia liderada por Vitor Nicau deveria, no mínimo, custar também a cabeça da actual liderança. Nuno Lopes pode ser um excelente técnico, faculdade da qual penso que ninguém dúvida, mas isso não chega para Marvão. Faltou-lhe o carisma, a popularidade, o saber estar entre as nossas gentes. O Nuno não é natural concelho e por muito que seja actualmente do Porto da Espada, não consegue disfarçar a costela citadina que amputa a sua livre convivência com o povão. Nem nos cartazes conseguiu disfarçar o seu ar de boxeur destemido que afugenta a clientela e faltando-lhe a oratória, como ficou mais do que provado na sua desastrosa prestação no debate da Rádio Portalegre, deitou tudo a perder. Seria um Presidente esforçado e certamente valoroso, porque o vejo preocupado com o futuro do concelho onde também investiu e reconheço-lhe a dinâmica e a vontade de fazer mais, mais isso não chegou.
O sufrágio para o PS saldou-se ainda por um puxão de orelhas à contratação de um médio-centro que nem para apanha-bolas deu. Ao candidato Raposo, não restam mais partidos para onde fugir.
Quanto ao Luís Costa, percebeu da maneira mais sofrida que muitas vezes não basta a simpatia, a boa vontade e uma imagem para singrar.
Os louros da vitória foram inteirinhos para o Presidente da Junta de Santo António, o já consagrado José Luís que foi o único a safar-se e volta a brilhar como um oásis num deserto… laranja.
Os Juntos por Marvão de Madalena Tavares ficaram aquém das expectativas mas conseguiram, ainda assim, uma votação expressiva e que deve de ser levada em linha de conta. Madalena foi corajosa e teve o mérito de contra tudo e contra todos ter conseguido orientar a sua vontade própria e sua determinação em direcção a um sonho que passou a ser de muitos. Passo a passo, com ponderação, reuniu à sua volta um conjunto de ilustres figuras da nossa praça que certamente seriam desdenhados por muitas outras listas e partidos. Muitos amigos, muita gente de valor, muita crença e um movimento que me fez recordar o nosso de há quatro anos, sobretudo quando me chegaram relatos da forma como foi elaborado o programa, em assembleias abertas e participadas, de ouvidos colocados em todos. Acontece que os programas são importantes… mas não para Marvão. Aqui, valores mais altos se levantaram… A vida continua.
Duas notas finais de apreço…
Uma para o Fernando Gomes e os seus românticos (sem nenhum sentido pejorativo, antes pelo contrário) do Movimento com Marvão, a candidatura que apresentou, de longe, a melhor concepção gráfica e a melhor imagem. Revelaram uma dedicação à causa e ao concelho que me chegaram a emocionar. Sinceros nos projectos e nos relatos, foram o David que se sabia incapaz de derrotar o agora poderoso Golias mas foram tão puros e tão bravos que mereciam o “Prémio Consolação”. Conheço Gomes desde os tempos de ciclo e sei que sempre foi assim… um animal político. Aquilo está-lhe na massa do sangue e quando assim é, há que dar largas à paixão. Tem aprendido muito nos campeonatos sindicais por onde se move lá pela capital e está mais refinado e eloquente. Ele, mais do que ninguém, sabia o risco desta aventura, como sabia que só por ter ido às urnas já teve a sua própria vitória. Soube chamar a si jovens de grande valor e futuro e pontuou. Parabéns, meu caro!
Contudo, a esquerda de Marvão aprendeu a lição,
Só reunindo os filhos perdidos, pode chegar a ser opção.
A nota finalíssima vai para o Dr. Brites. Goste-se ou deteste-se, é um enfant terrible e uma figura que conquista pela galhardia e irreverência. Só um homem como ele seria capaz de ir às urnas apresentando uns cartazes em que mais parece ter saído de Alcoentre ou Pinheiro da Cruz. É o último dos aventureiros e uma personagem digna de romance. Pode-se questionar o estilo, a pose, os métodos, a linguagem e as tomadas de posição mas… a inteligência e sobretudo, o amor pelo concelho, não!
Ao deixar cair o pano, um abraço reconhecido a dois companheiros de luta que me marcaram pela sua forma de estar na política. O meu muito estimado Presidente da Assembleia, meu querido amigo Dr. Carlos Sequeira e o meu cunhado e amigo de longa data, Dr. Fernando Dias (que esquisito que isto soa assim, pá! Bonito é mais fácil!). Um elogio sincero pela elevação, pelo altíssimo nível de intervenção política e pela notável representação do concelho e das suas gentes. Os nossos antepassados estarão certamente orgulhosos do vosso trabalho. Merecem tudo! O concelho vai voltar a precisar dos vossos préstimos no futuro. Disso não duvido.
E prontos, meus amigos, assim se faz política em Portugal e no concelho e eu aqui vos deixo, que o relato já vai longo.
E perguntam-me: “Ó Pedrocas, não tens pena?”
“Tenho!”.
“Não te custa que tenha sido assim?”
“Muito!”.
“Não fica mais difícil respirar num concelho assim dirigido?”
“Fica! Sobretudo para um asmático…”.
Mas digo, “Ainda assim… há coisas piores. Vamos vivendo!”
A vontade era atar uns balões à casa e fazer como o outro que se marchou para a Patagónia mas que fazer? Os alicerces da minha são fundos que eu sei lá…
Há que gramar o “prato do dia” mas sempre… de olho vivo e língua afiada.
Um abraço, do vosso,
Pedro Sobreiro
domingo, 11 de outubro de 2009
As mil e uma noites (da Al Mossassa)
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E para terminar… a reportagem fotográfica inédita de Luís Barradas, um autêntico todo-o-terreno. Apesar das mil e uma tarefas que teve de desempenhar, ainda teve tempo para registar para a posteridade a sua visão da Al Mossassa. Espectáculos nocturnos, aves de rapina, amigos e conhecidos, artesãos a dormir na formatura, o incansável e imprescindível trabalho de limpeza e recolha de lixos, o carrossel e os desfiles, a inesquecível festa de anos da belíssima Sueli Shamsa e a saída em ombros do vereador, tudo cabe nestas belíssimas e exclusivas imagens. Imperdíveis!
terça-feira, 6 de outubro de 2009
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Os dias da Al Mossassa (2 a 5 de Outubro)

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sábado, 26 de setembro de 2009
Uma despedida

Caros(as) colegas, companheiros(as), amigos e amigas,
Está prestes a terminar este mandato em que assumi as funções de vereador e Vice-Presidente da Câmara do meu concelho, da terra que me viu nascer. Foi um desafio que aceitei com grande orgulho e uma missão que encarei com enorme sentido de responsabilidade. A minha consciência sabe que tudo fiz para não defraudar e para saber honrar as altas expectativas que os marvanenses depositaram no projecto de que fiz parte e sobretudo, no que me diz respeito, em mim mesmo.
Nestes últimos 4 anos, dei literalmente tudo o que tinha. Foram tempos de uma entrega total, de uma dádiva consciente e abnegada em prol da minha comunidade, tantas vezes com sacrifícios pessoais que acabaram por exigir um esforço acrescido da família e amigos mais próximos. Valores mais altos se levantaram e o nome de Marvão falou sempre mais alto.
Durante este período e apesar das contrariedades que são já sobejamente conhecidas, nunca virei costas a um desafio, nunca disse que não a mais um esforço, nunca cedi a pressões ou interesses, antes lutei sempre, com seriedade e profissionalismo, de forma isenta e férrea pelo bem do concelho e dos marvanenses.
Estou feliz por tudo aquilo que consegui e grato a quem tanto me ajudou. Nada do que alcancei teria sido possível sem a ajuda da minha equipa directa e dos funcionários da nossa autarquia. Juntos contribuímos para elevar a bitola e para provar que na Câmara de Marvão há excelentes profissionais, recursos de grande mérito que devemos enaltecer para que sirvam de exemplo aos que estão menos motivados e para as gerações futuras. Todos somos importantes. Todos podemos ser melhores se dermos o melhor de nós.
Sei que nem sempre deve ter sido fácil lidar comigo. Tenho real consciência de alguns dos meus muitos defeitos. Sei que sou exigente demais, por vezes cruel nas decisões e nos actos, algo intempestivo, talvez revolucionário, umas vezes exuberante, outras excêntrico, mas fui sempre, sempre autêntico, frontal, directo e verdadeiro nesta minha forma intensa e sôfrega de viver. Peço agora desculpa pelas vezes que errei e não fui capaz de reconhecer. Peço a quem ficou melindrado por um gesto ou comentário menos feliz que releve e me deixe fechar esta página de um duro mas muito bonito capítulo da minha vida, sem rancores.
Como forma de agradecimento a todos, pensei inovar: dar uma festa de despedida de Vereador. Aceitar a vida e os seus sinuosos caminhos com tenacidade e um sorriso nos lábios. Perder o amor ao dinheiro e a minhas expensas reunir todos os que comigo navegaram neste barco para uma grande festa. Juntarmo-nos. Comermos e bebermos. Rimos e se for preciso, chorarmos. Conversarmos, bailarmos, brincarmos. Convivermos. Celebrarmos a nossa condição humana de procura da felicidade.
A ideia surgiu numa conversa circunstancial com um grupo de camaradas e foi ganhando forma. Começou como uma brincadeira mas com a ajuda de todos foi-se corporizando. Uns disponibilizaram-se para isto, outros para aquilo, outros para apenas estarem presentes (o que já é uma grande coisa!) e decidi avançar. Assim, se Deus quiser, no dia 17 de Outubro, sábado, no Recinto das Festas da Abegoa (se o meu homónimo lá de cima deixar), ou na sede da Associação de Caçadores da Fonte da Viola, nos Cabeçudos (a quem agradeço também a amável cedência de instalações), se o dia estiver molhado, lá te espero para uma jornada juntos.
Não será festa de luxos, mas antes um convívio terra-a-terra, à minha maneira. Haverá logo uma fritada com café preto pela manhã, umas sopas de sarapatel ao almoço e dois porquinhos no espeto pela tarde e se durarem (o que eu duvido…), noite fora. A condição é ninguém passar fome, nem sede, nem ir zangado ou aborrecido. Alegria é a moeda de troca.
Todos os funcionários da câmara, pessoas e organizações que comigo colaboraram nestes últimos 4 anos, colegas de outras câmaras, familiares e amigos serão recebidos de braços abertos. Vamos passar um bom bocado!
Depois, nos 15 dias que seguintes, será altura para arrumar a trouxa e zarpar. Concretizar pendentes, preparar o gabinete e as pastas para quem me há-de substituir, dar o lugar a quem de direito segundo a vontade dos eleitores que são sempre soberanos.
Quanto a mim, retomarei o lugar que com tanto esforço pessoal conquistei no Serviço de Finanças de Marvão, usufruindo da passagem nos concursos tão difíceis e que em datas tão estratégicas me caíram (Feira da Castanha e Al Mossassa), reconquistando a minha vida antiga, da qual tenho saudades sinceras.
Aí poderei continuar a fazer aquilo que sempre mais gostei: ajudar o próximo, ser útil e servir a minha comunidade, a sociedade e o país.
É tempo para desacelerar, reflectir, dedicar mais tempo a mim e aos meus e sobretudo a esse projecto de vida que vem a caminho, com o qual tanto sonhámos.
Aceitar aquilo que a vida nos dá.
Quanto ao futuro, como diz o fado… o futuro (só) a Deus pertence…
No dia 17, lá vos espero!
Com um forte e sincero abraço,
Do Pedro Sobreiro
domingo, 20 de setembro de 2009
Informação Camarária - Subsídio ao Cant'Areias
Na qualidade de vereador responsável pelo Pelouro da Cultura, recebi, no passado dia 2 de Setembro, um e-mail de um dos responsáveis pelo grupo Cant’Areias que nele solicitava um subsídio à Câmara Municipal por forma a possibilitar a edição do seu segundo cd de originais.
Manifestei-lhe de imediato o meu apoio, a intenção de submeter este assunto à consideração da Câmara Municipal e perguntei-lhe se me podia dar uma indicação da ordem de valores envolvidos para que melhor pudéssemos ajuizar.
Respondeu-me no dia 15 de Setembro dizendo que para uma edição de 1.000 a 1.500 cds teriam de pagar valores na ordem dos 2.500 a 3.000 euros já com direitos de autor e legalização do fonograma na I.G.A.C..
Depois de ter reunido com a Secção de Contabilidade, ter apurado que existe verba disponível na rubrica “Apoio a organizações culturais do concelho” e atendendo, a que os Cant’Areias são:
- Um projecto musical de enorme qualidade artística composto em exclusividade por exímios músicos naturais ou residentes no concelho;
- Embaixadores de excelência que têm sabido levar o bom nome de Marvão aos quatro cantos do país, por onde quer que têm actuado;
- Produtores de temas originais que constituem um precioso repositório do sentir marvanense;
- Uma referência ímpar no panorama cultural do concelho, do distrito, do Alentejo e do país;
Proponho que a Câmara Municipal de Marvão assuma na íntegra os custos de produção desta obra com as únicas contrapartidas de que tal facto deve constar em cada um dos exemplares e que deve receber por esse apoio, 500 cds que não serão comercializados e antes se destinarão a oferta a outras entidades ou de cortesia.
Marvão, 16 de Setembro de 2009
O Vice-Presidente
(Pedro Alexandre Ereio Lopes Sobreiro)
Informação Camarária - Acessos e Estacionamentos na Vila
As acessibilidades e os estacionamentos são dois grandes problemas de sempre que limitam em muito a afluência a Marvão, sobretudo quando se organizam grandes eventos. Apenas se pode chegar à vila por uma única via e muitas vezes, quando se chega, não há lugar onde estacionar. A suposição deste cenário faz com que muita gente volte para trás e outros pura e simplesmente nem considerem a sua vinda.
Para grandes males, grandes remédios.
Apesar de saber que o tempo que me resta na vereação é escasso e sobretudo que a margem de manobra que me dão e a força que me concedem é reduzida, faço questão de que fique em acta que tenho propostas para resolver estes problemas.
No que diz respeito aos estacionamentos, sou da opinião que a Câmara Municipal deveria encetar uma acção no sentido de adquirir todos os terrenos situados na parte de baixo da estrada nacional junto à muralha, onde existem actualmente algumas hortas. Em primeiro lugar, deveria tentar negociar com os proprietários. Caso não fosse possível, seria considerada a expropriação por interesse público, por demais justificada. O Olival que se situa no final da muralha, por detrás do posto da GNR deveria ter o mesmo fim e o pedaço de terreno que se encontra no interior da curva da Santa Casa também deveria ser reaproveitado.
Para estes espaços deveria ser feito um projecto global, financiado se possível, caso contrário, avançar-se-ia a expensas próprias, destinado única e exclusivamente à requalificação destas áreas para estacionamento, com diversos níveis (em socalcos), com calcetamento e criação de sombras e espaços verdes. Resolveríamos assim, com estas centenas de novos lugares, grande parte dos nossos problemas de estacionamento. Para quem alegue que Parques Naturais e Igespares poderiam constituir obstáculos, a solução seria iniciar de imediato uma ronda de contactos e negociações para que a possibilidade fosse tentada até à exaustão. Com trabalho e bom senso, tudo se consegue.
No que diz respeito às acessibilidades defendo desde há muito que Marvão deveria de ter um teleférico. Um teleférico que partisse do Largo das Almas na Portagem, subisse a encosta, desse a volta a toda a muralha e terminasse numa pequena estação situada na zona da asa delta. Eu sei que a ideia pode parecer excêntrica ao primeiro embate mas estou convicto que seria uma enorme mais-valia.
Para além do óbvio interesse turístico (quem é que não acharia o máximo esta possibilidade de subir cá acima desta forma inovadora e ver o castelo de um prisma nunca antes imaginado?), há ainda o enorme interesse em termos de acessos. Pela experiência que tenho de outros casos, dependendo obviamente o número de cabines e da velocidade de deslocação das mesmas, calculo que pequenas unidades capazes de transportar 6 a 8 pessoas em movimento contínuo, seriam uma alternativa bem interessante à possibilidade das viaturas convencionais.
Já sei que mais uma vez teríamos de enfrentar mil e um obstáculos, Parque e entidades reguladoras do património, mas se nos Alpes, nos Pirinéus (ambas zonas protegidas) e até no Parque das Nações foi possível, porque não em Marvão? Mal daqueles que fogem sempre que lhe batem os pés. Se não houver quem sonhe, como é que a obra pode nascer?
Deixo estas propostas à consideração de quem de direito.
Seja qual for o desfecho, pelo menos a partir de hoje, sabem que têm um pai.
Marvão, 16 de Setembro de 2009
O Vice-Presidente
(Pedro Alexandre Ereio Lopes Sobreiro)
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Iª Feira do Café, uma reflexão

Tratou-se de um evento que não me pareceu oportuno e com o qual não concordei desde a primeira hora, razão pela qual optei por não me envolver, deixando o caminho livre para os mentores da iniciativa.
Discordei, em primeiro lugar, por me parecer que Marvão não necessita de mais um acontecimento desta índole, sobretudo neste período do ano em que se realizam os dois eventos mais mediáticos do nosso concelho: o festival islâmico Al Mossassa (dentro de 15 dias) e a Feira da Castanha (a 1 mês e meio de distância), isto para já não referir o facto de ter ocupado o fim-de-semana tradicionalmente destinado às festas de Marvão sempre que as da Escusa ocupam o primeiro do mês de Setembro.
Recordo aqui que a vereação da cultura foi durante este mandato, duramente castigada com cortes orçamentais justificados pela difícil situação financeira do Município. Só para mencionar um caso emblemático, a Castanha passou, logo desde o primeiro ano, a ter disponível apenas metade da verba da última edição organizada pelo executivo socialista.
Vejamos o caso do Al Mossassa: seria certamente muito mais fácil pegar em 30, 40, 50 ou 60 mil euros e fazer como 90% dos casos de recriação histórica que acontecem em solo luso, em que as autarquias contratam uma empresa num procedimento “chave na mão” e se livram assim de responsabilidades e chatices. Esse dinheiro nunca esteve disponível em Marvão, essa possibilidade nunca se colocou, mas não foi por isso que se deixou de realizar o festival com um nível qualitativo bem acima de algumas outras congéneres. Só com muita imaginação, criatividade e muito, muito trabalho, convencendo artistas caso a caso, percorrendo as feiras mais conceituadas e convidando os artesãos e os stands mais importantes se conseguiu um evento de projecção nacional, com uma média de 2.500 visitantes por dia, de que todos nos podemos orgulhar.
Também não foi por falta de verba que se deixaram de inventar e organizar Comidas d’Azeite; Carnavais Foliões de Marvão; Festivais de Teatro Amador (que poderiam ser profissionais, se mais euros houvesse); Quinzenas do Cabrito e do Borrego; Festas do Bacalhau; Dias da Criança; Feiras da Gastronomia; Dias da Juventude; Al Mossassas… Fizeram-se foi, isso sim, à medida da carteira, com o que era possível conseguir, sem grandes projecções ou aparatos, com os mínimos olímpicos.
Por falta de verba caiu um Rockfest para o qual tanto se trabalhou, deixando morrer o único grande evento destinado à juventude no concelho e aquele que ainda hoje acredito que poderia ser um evento de proa do calendário marvanense.
E é nesta linha de raciocínio que me questiono, para quê um café agora? É certo que Marvão tem tradição no contrabando deste produto que serviu de sustento em épocas bem difíceis. Bem sei que existiu em tempos uma considerável indústria de torrefacção no concelho. Mas serão estes argumentos suficientes para avançar com uma empreitada deste género? E porquê agora, a um mês de um sufrágio eleitoral?
Da experiência que tenho angariado enquanto programador cultural, aprendi que qualquer evento deve sempre ser avaliado por, pelo menos, dois prismas: do ponto de vista da organização interna e do ponto de vista da afluência que no fundo, funciona sempre como barómetro.
Analisemos pois, em primeiro lugar, o que se passou em Marvão do ponto de vista criativo e funcional no passado fim-de-semana. No meu entender, nada se ficou a dever à inventividade. Convidaram-se artesãos do concelho para exporem os seus produtos em espaços cedidos pelos habitantes da vila, tal e qual como se faz de há 25 anos a esta parte na Feira da Castanha; organizaram-se concursos de doçaria como os da Castanha, com uma mera alteração de produto; quinzenas gastronómicas “idem, idem, aspas, aspas”; conferências em que os benefícios divulgados não foram os da castanha mas os do café; cobraram-se entradas a 1 euro, a favor dos bombeiros, como na Feira da Castanha; convidaram-se os bares e as associações do concelho para virem vender os seus produtos, como na Castanha; as associações de caçadores apostaram nos grelhados e nas bebidas, como é hábito em outras edições da Castanha; contrataram-se grupos de animação de rua, uns já habituées da Castanha, outros do género dos então contratados; convidaram-se os três embaixadores culturais e musicais do concelho, Rancho Folclórico, Cantareias e Escola de Música, os habituais protagonistas musicais… isso mesmo, da Feira da Castanha, enfim…
A única inovação foi mais propriamente uma mutação, uma vez que os quatro magustos estrategicamente colocados na vila foram substituídos por uma super-tenda montada no Terreiro, onde diversas marcas de café promoveram os seus produtos. Mas até este espaço era incaracterístico, moderno demais, urbano, igual a tantos outros que nos acostumámos a ver nos grandes certames, que nada tem a ver com a nossa vila ou as nossas gentes. Curiosamente, a única torrefacção do concelho presente foi deslocada para o Posto de Turismo, facto que mereceu duras críticas por parte do herdeiro responsável, das quais a tempo me escusei, por não ter quota-parte na sua colocação.
Isto para não falar no absurdo distanciamento entre áreas (Largo do Pelourinho isolado, Largo do Espírito Santo sem actividade, dois ou 3 stands encalhados no Largo de Santa Maria); nas ultrapassadas exposições de desenhos sobre café das ludotecas, a fazerem lembrar certames de outros tempos; na pouca visibilidade e interpretação dada à exposição de trabalhos fotográficos e telas na Rua Dr. Matos Magalhães e num suposto “Desfile de bolos” importado directamente de Portalegre apenas “para encher”…
Mas será que em tudo isto não houve nada de novo, uma iniciativa a louvar? Claro que sim! A ideia de aproveitar a nobreza do castelo para funcionar esporadicamente como discoteca pareceu-me brilhante. Uma excelente proposta para algumas noites de Verão, com Djs conceituados e uma divulgação mais abrangente. A criação da área de insufláveis para as crianças, que cada vez influenciam mais e mais cedo na vontade dos pais, foi outra boa ideia… E o percurso pedestre do contrabando do café, apesar da infelicidade do apelido “romântico”, foi outra notável iniciativa que deveria não só ser explorada, como homologada pela Federação Portuguesa de Pedestrianismo e “vendida” do ponto de vista turístico. A todas essas “tiro o chapéu” e louvo mas infelizmente, esse casos foram a excepção e não a regra.
A organização caiu no erro que frequentemente apontamos a outros. Limitámo-nos a copiar de nós próprios, dando um tiro nos pés. O que se conseguiu fazer foi uma má e desapropriada réplica de um evento magnífico, que nos dá notoriedade à escala nacional, a um mês da sua realização, retirando-lhe originalidade, força e projecção.
Não teria sido muito mais oportuno enriquecê-la com bons artistas do agrado do público-alvo, aqueles que nunca houve dinheiro para contratar, dignificando-a, enobrecendo-a, em vez de a transvestir?
Não teria sido preferível proporcionar no feriado municipal, aos habitantes do concelho e aos visitantes, a oportunidade de assistirem ao espectáculo de um artista consagrado, coisa que as parcas posses de muitos infelizmente não permitem?
Quanto à distribuição de verbas, porquê tão pouco para uns e tanta fartura para outros?
Porquê sempre se terá considerado a Cultura um filho menor do executivo, um alvo a abater, uma actividade secundária e agora surge na linha da frente das intenções?
Porquê se criticou sempre “as festas a mais” e agora se inventam outras assim do nada?
Tenho por hábito, em todos os eventos que organizo, solicitar uma relação exaustiva de despesas e receitas para que as possa analisar e corrigir eventuais falhas e desajustes. Faço questão que aqui, em sede de Câmara Municipal, nos seja apresentada também uma relação referente a este evento que não se limite a bens e serviços adquiridos a terceiros (os 5 mil euros da tenda e stands, as centenas de refeições…) mas inclua também a horas de todos os funcionários camarários envolvidos, incluindo o trabalho hercúleo dos canalizadores que praticamente tiveram de criar um rede de águas e saneamento específica para tanta máquina de café.
Falando de todo esse montante investido, é hora de perguntar: que retorno se obteve? Pelo que me foi dado a conhecer, da absurda estimativa inicial de 30 mil visitantes, apenas 3 mil e quinhentas compareceram. Uma diferença de zeros, dirão certamente alguns. Um verdadeiro fracasso de bilheteira na opinião de muitos outros, nos quais obviamente me incluo.
Às 15 horas de Sábado, num período considerado de ponta em termos de afluência noutros eventos do género, subi até praticamente às Portas de Ródão, sem qualquer tipo de constrangimento de tráfego e sem ter usufruído da minha condição de Vereador. No domingo de manhã, percorri as ruas da vila de bicicleta e se não fosse todo o aparato montado, ninguém diria não se tratar de um normal domingo de Setembro.
Perante estes resultados, quem nos responde? Quem dá a cara? Não serão certamente os responsáveis pela Associação Industrial e Comercial do Café que nos deixaram nessa mesma noite em que terminou o evento, aqueles que segundo sei, tomaram a experiência de Marvão como o “ano zero”, de preparação para a deslocalização do evento para outros territórios mais profícuos.
A mim, bem me podem contar histórias, falar em entrevistas e reportagens porque eu vi com os meus próprios olhos como foi e o que foi, sei a profundidade do erro e a sua extensão. A mim não me dão a volta. A mim, não me enganam com falas mansas.
Oxalá quem vier a seguir saiba reconsiderar investidas do género. Oxalá ponderem datas e oportunidades. Oxalá respeitem o estatuto de alguns eventos que levaram muitos anos a construir e já atravessam décadas e gerações. Oxalá saibam inovar com sentido, “cabeça, tronco e membros”. Oxalá…
A bem de Marvão e de todos os que por ele têm trabalhado.
Marvão, 16 de Setembro de 2009
O Vice-Presidente
(Pedro Alexandre Ereio Lopes Sobreiro)
terça-feira, 15 de setembro de 2009
João Vidal - O homem e a obra

Quando me desloquei à sua casa para fazer esta recolha biográfica encontrei-o algo abatido e apreensivo mas bastou o convite para revisitar a sua vida, para lhe iluminar o rosto e encher o olhar de memórias. Transfigurou-se em segundos e parecia outra pessoa, alegre e faladora que se divertia e recriava com os episódios passados.
João Francisco Rosado Nunes Vidal, nasceu a 28 de Fevereiro de 1940, há 69 anos, no Jardim, freguesia de São Salvador da Aramenha. É filho de Manuel Nunes Vidal, canastreiro de profissão, e de Catarina Rosado Tapadinhas, doméstica. Deles herdou a veia artística que já antes se tinha manifestado na família nas figuras do avô paterno e da avó materna, ambos tocadores de harmónica. O pai era acordeonista e a mãe, uma cantadeira famosa. Juntos formaram uma dupla de sucesso que animou os bailes no concelho e na região. Com eles aprendeu a habituar-se às festas, a crescer entre as palmas, a conhecer o poder libertador da dança. Dormiu muitas vezes junto ao palco, enrolado num xaile. Por vezes acordava quando a bailação estava rija e dançava também. Conheceu muita gente, muitos sítios. Tornou-se popular.
Frequentou a escola primária da Portagem, onde hoje funciona a Sociedade Recreativa. Aos 12 anos partiu para a cidade e ingressou no Curso de Formação Geral de Comércio da Escola Comercial de Portalegre.
Quando terminou, o seu primeiro emprego foi no escritório dos “Cafés Guapa”, situados nos Olhos d’Água, propriedade do Sr. José Maria Pires Cardoso. O negócio ia de vento em popa e só o irrecusável convite para trabalhar no Banco Pinto e Sotto Mayor, o fez rumar a Lisboa. Não podendo estar longe da música e da acção, entrou para o coral da Casa do Alentejo que ajudou entretanto a reorganizar.
Anos depois surgiu a oportunidade de regressar e voltou a Portalegre, para a sucursal deste banco na cidade, perto do Café Alentejano, onde desempenhou as funções caixa e fazia de tudo um pouco. O Sr. Vivas da Beirã era cliente e ia lá com frequência depositar dinheiro e tratar de negócios. Como era Provedor da Santa Casa de Marvão e conhecia o gosto que Vidal nutria pela música, cultura e etnografia, falou-lhe na possibilidade de fazer um rancho da Misericórdia. Esta instituição tinha então dois asilos para jovens, um para rapazes (no edifício do Espírito Santo ao lado da Casa do Governador) e outro para raparigas que funcionava na própria sede. Neles estavam hospedados cerca de 60 rapazes e 60 raparigas chegados de todo o país e oriundos de famílias pobres. A ideia do rancho surgiu com o intuito de criar mais uma actividade para ocupar os tempos livres daqueles jovens. As intenções foram as melhores mas o resultado foi revolucionário para a época. Permitir que jovens de sexos diferentes se juntassem e passassem horas a ensaiar e a dançar agarrados não era propriamente do agrado das freiras e muito menos da Madre Saturnina que tudo fazia para não os ver juntos.
Vidal aceitou o convite de forma graciosa e passou a deslocar-se de Portalegre propositadamente para os ensaios. Não só não recebia qualquer tipo de pagamento como teve de fazer investimentos do seu próprio bolso. Comprou então um gravador que ainda hoje conserva, caríssimo para a altura, um luxo só ao alcance do ordenado de um bancário. Foi dos primeiros aparelhos que por aqui apareceram e revelou-se uma ferramenta indispensável para o trabalho de recolha de modas que iniciou então por todo o concelho. Os seus interlocutores de mais idade, aqueles que guardavam os saberes mais antigos, assustavam-se com o aparelho “que guardava a voz lá dentro” e muitas vezes teve de levar o gravador escondido. Fazia esquemas num papel com as danças que “não importavam se eram bonitas ou feias. O que importava era se eram autênticas”. As portas abriram-se-lhe com muita facilidade. A popularidade angariada nas digressões artísticas com os pais quando era criança foi-lhe então muito útil. Reuniu um total de 60 modas sendo algumas delas palacianas, aprendidas por pessoas que trabalharam em casas de pessoas abastadas.
Participou também activamente nos cortejos de oferendas que se realizavam sempre no dia 8 de Setembro, nos quais pessoas e instituições de todo o concelho se deslocavam a Marvão de carroça para levarem produtos que ofereciam à Misericórdia. Era uma manifestação muito importante que envolvia muita gente chegada de toda a parte e oferecia um pouco de tudo o que tinha.
Entretanto, a actividade do rancho que se prolongou por cerca de 3 anos, extinguiu-se quando o asilo para jovens terminou e estes se viram obrigados a regressar às suas terras.
Diz o povo que “sempre que se fecha uma porta, se abre uma janela”. O êxito da actividade inédita que desenvolveu no Rancho da Misericórdia granjeou-lhe uma fama que levou a que o convidassem a fundar um rancho na Boavista, em Portalegre. Nesse então, o “bichinho” do folclore já mandava muito na sua vontade e não pensou duas vezes. Encetou então uma intensa actividade de recolha das modas desse concelho, sobretudo nos Fortios, em São Julião e na Urra. Ali não faltavam pares e vontade. Já com fama de referência da etnografia à escala distrital, chegou a ensaiar quatro vezes por semana, as mais de 80 pessoas divididas em 3 escalões etários.
Esta actividade graciosa e mantida unicamente pelo gosto durou cerca de 4 anos, até ao momento em que saiu do banco e deixou Portalegre. Nesse momento, o rancho da Boavista já estava completamente formado, sedimentado e em plena actividade.
Entrou então para a Câmara de Marvão, numa fase em que tinha saído da presidência o Dr. Machado e entrado o Sr. Carita, num período em que os autarcas não era eleitos mas nomeados pelo Governador Civil. Aí fez de tudo. Recorda-se de um livro enorme onde se registavam as receitas e as despesas, cujo preenchimento era uma das suas incumbências.
Entretanto, em Castelo de Vide havia já um rancho mas que era muito fraquinho e funcionava mal. Decidiu dar uma ajuda e acabou por ficar quase por década e meia. Curiosamente, foi este projecto, o único que não começou de raiz, aquele que lhe deu mais trabalho. Desenvolveu uma intensa recolha etnográfica na vila e em Póvoa e Meadas, uma zona muito rica em modas e tradições, sempre acompanhado do seu inseparável gravador.
O Sr. Carita, sabendo-o conhecedor do concelho e das regiões limítrofes como ninguém, aconselhou o Director-Geral de Turismo a colocá-lo no Posto de Turismo da Fronteira de Galegos que tinha então um movimento extraordinário. Ali trabalhou durante cerca de 12 anos, numa área que o motivava imenso e achava muito estimulante.
Do Rancho de Castelo de Vide saiu para fundar o da Casa do Povo de Santo António das Areias, há cerca de 25 anos atrás. Nesta aldeia existia já um rancho que foi começado pelo Sr. Rui Sequeira que terminou. Decidiu deitar mão ao que restava desse grupo e organizou-o de forma diferente porque “o folclore não é só o que se canta e dança mas também o que se traja”. O rancho é da Casa do Povo porque na altura estas instituições tinham dinheiro para apoiar o folclore. É esse o motivo porque há tantos sob essa tutela espalhados por todo o país.
O rancho arrancou logo com muita gente, perto de 100 pessoas, o que permitiu fazer 3 escalões. Os ensaios, duas vezes por semana, começaram no Grupo Desportivo Arenense. Brilham-lhe os olhos ao recordar as gerações e gerações de arenenses que por lá passaram, sempre com ele como ensaiador. Nesses tempos nunca faltaram músicos para a tocata, como acontece agora. Lembrou o Sr. João Carrilho e o Manuel Rafael Carrilho, o Adelino Marmelo, o Barbas, o Vítor Conchinha (que fez a música da Sr.ª da Estrela partindo das quadras recolhidas por ele), o Abílio Baldeiras…
Fala também com orgulho do Festival de Folclore do concelho de Marvão que organizou pela primeira vez no tempo da presidência do Sargento Paz, ainda com um carácter regional.
Quando nasceu a Rádio “Ninho d’Águias”, de Marvão, durante o boom das rádios piratas em Portugal, divulgou o folclore no programa “De lés-a-Lés”, um dos mais apreciados pelos ouvintes.
Durante todo este tempo, nunca descurou o precioso trabalho de recolha. Só modas de saias tem cerca de 200 e ainda hoje conserva todas as cassetes de gravações desde o início (algumas delas certamente já desmagnetizadas), um espólio riquíssimo que convinha recuperar com urgência e preservar.
Ainda antes da abertura das fronteiras, quando as pessoas já paravam muito menos, o Posto foi encerrado. Entrou então para a secretaria da Escola Básica Integrada Dr. Manuel Magro Machado de onde se viria a reformar.
Decidiu abandonar o “seu” rancho há 3 anos por achar que já não havia verdade etnográfica. “O traje para mim é como se fosse um uniforme. Havia uma falta de respeito muito grande e foi melhor afastar-me”, disse, numa decisão solitária e irreversível. A sua esposa e filha continuam ainda hoje a colaborar em permanência. A princípio sofreu imenso com essa saída mas agora diz que “vai vivendo”. A paixão pelo folclore vai sendo alimentada em tardes e serões a ouvir as centenas de gravações que lhe foram oferecidas por ranchos de todo o país ao longo dos anos.
Delegado da Federação do Folclore Português, entidade encarregue de “separar o trigo do joio” apoiou ainda os ranchos de Nisa; de Vale de Maceiras, no concelho de Fronteira; de Gáfete; de Aldeia da Mata…
Graças a este amor de toda a vida conhece e é conhecido em todo o país que percorreu praticamente na íntegra.
A vida de João Nunes Vidal é uma vida dedicada à causa etnográfica. Milhares de quilómetros percorridos, milhares de horas de recolha, milhares de horas de ensaios, milhares de horas de actuações numa existência de autêntica militância que hoje, aqui e agora se homenageiam.
Perguntei-lhe se gostou do gesto, de decisão unânime que foi tomada pela Câmara Municipal de lhe entregar este galardão. Sorriu com ar de menino, arregalou os olhos, levou as mãos ao peito e disse: “Fiquei muito contente. Muito. Gostei muito. Lá estarei. Muito obrigado”.
Muito obrigado dizemos nós, a si, por tudo o que fez.
Em nome de Marvão,
Bem haja.
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
8 de Setembro - Feriado Municipal em imagens
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
O poder (suas voltas, manobras e cambiantes)
Depois de uns muito agradáveis seis dias de férias a três, longe daqui, longe de tudo… sinto, mais do que nunca que regressar é difícil.
Ainda pensei que estando isto de restos, tudo seria mais fácil. Mas o povo, sempre sábio nos seus dizeres, bem diz que “o rabo (que fica para o fim) é sempre o mais difícil de esfolar”.
Nessa manhã de regresso, converso comigo e tento encontrar, apesar de tudo, motivos para sorrir. Relembro-me de todas as coisas boas que prevejo que me voltem agora a acontecer, o que de melhor se me perfila no horizonte mas ainda assim…
O ambiente que encontro à chegada, de desagregação, de luta fratricida, de sonho perdido deixam-me sempre desolado.
Às Portas de Ródão encontro uma funcionária que segue tranquila, apesar do atraso. Penso para comigo que se fosse noutro tempo, a calma não seria tanta… Paro o carro, cumprimento-a e ofereço-lhe boleia. Na conversa de circunstância mantida no caminho, apercebo-me que o atraso se deve a motivos familiares e concedo apesar de nem sequer ter pedido explicações ou tocado no assunto. Chegados à Câmara, cada um prepara-se para seguir o seu caminho quando uma amiga comum, residente na vila, a interpela do outro lado da rua e convida para um café no Manuel Ventura.
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Eu estava de costas mas presumo que lhe deva ter feito um gesto apontando para o relógio ou para mim, indicando que não era apropriado devido às circunstâncias.
A outra interlocutora, com a naturalidade e graça espontânea que todos lhe reconhecem, reage com ar de graça e dispara no segundo seguinte: “este?! Ai… este já não manda nada!”.
Eu sorrio, certamente com ar triste e digo entre dentes: “nunca tu falaste tão certo…”.
Até ela certamente arrependida da estocada que acabara de desferir, diz-me ao longe, “Ai ó Pedro, não me leves a mal que eu não disse com intenção”.
Eu sei que não disse. Eu conheço-a. Ela apenas disse sem pensar aquilo que todos sentem, incluindo eu. Por isso sorri de novo de soslaio e entrei pela casa grande a dentro.
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Ele há coisas difíceis de se lidar…
Ele há recepções que não se esquecem…
Um dos meus grandes trunfos de vida foi tentar sempre aprender e tirar do mal que me acontece, as melhor ilações possíveis. Do mau tirar apenas o bom e crescer até com isso. De alguma coisa me há-de servir.





