
Eu sou um verdadeiro fã da minha mulher! Sempre fui, toda a vida!, mas agora, mais do que nunca, o que eu estou mesmo é capaz de fundar um clube de fãs da Cris(tina). É mais do que merecido. Fundava, mas reservava logo para mim o número 1 e garantia um estatuto especial, claro está! Ninguém se acredita em tudo naquilo que esta mulher é capaz! Eu sempre soube mas agora assim lesionado reparo mesmo em tudo o que ela faz e é capaz de fazer em casa. É impressionante! Ter um acidente destes, destas dimensões, é sempre coisa má e muito, muito ruim mas agora, com duas filhas pequeninas a nosso cargo e cuidado não podia vir na pior altura! A Alice ainda só agora vai fazer dois anos e quer toda a atenção, mexe em todo o lado, não pára por um segundo, é toda bébézinha. A Leonor com pouco mais de 10 anos já só pensa em ser grande e em ser mulher mas continua a comportar-se em casa como uma criança que é. Difícil! É uma dupla imparável! Quando a partir da 6 horas da tarde se juntam as duas em casa, fica tudo por conta delas. Eu sempre ajudei, nunca quis ser um pai ausente mas agora apercebo-me muito melhor e estou muito mais próximo de todo o trabalho que é desempenhado pela Cristina. Ela ajuda a fazer os trabalhos de casa, ajuda-as a comportarem-se, ajuda-as a comer na alimentação que ela faz maravilhosamente, ajuda-as em tudo! Excelente dona de casa, excelente cozinheira, excelente nas limpezas, nas arrumações, excelente em tudo! Enculturadora, formadora, educadora… Que sorte eu tive em tê-la sempre comigo do meu lado e elas, em terem uma mãe assim! É a estrela da família, não devem haver quaisquer dúvidas quanto a isso! Nós, secretamente sempre alimentamos aquele ego que nos permite querer ser, aquele ímpeto que não nos deixa ficar para trás… mas eu agora estou rendido. Desta vez fiquei completamente rendido. Eu nunca mais quero ser apresentado como o marido da Cristina. Eu sou um admirador que por acaso até tem a sorte de estar casado com ela!
Sempre soube que ela era muito forte, que ela é baixinha em tamanho mas gigante lá dentro mas agora, quanto mais sei dela e do que ela fez e foi capaz por mim, sinto um enorme orgulho e admiração. Quanto tive este estúpido e trágico acidente, ela foi para junto de mim para Lisboa. Deixou tudo, deixou as filhotas, deixou a casa, deixou a vida dela, o emprego… e foi por mim, foi a ver de mim, a lutar por mim em silêncio, a viver num mundo estranho, num hospital estranho e distante por amor, por acreditar no amor de um homem que nessa altura só estava em presença corporal, em coma, que não respondia a nada. Mas ainda assim ela nunca me deixou, ela continuou a incentivar-me a estar presente. De mão dada, fazia-me festas no peito e na cara, acariciava-me o cabelo… nunca deixou a vida abalar de mim. Esteve sempre vigia e de vigília, sempre atenta a tudo. Foi e é o meu anjo da guarda. Um dia comprou-me o meu perfume preferido e quando mo deu a cheirar, reagi de imediato e as máquinas começaram a entrar em frenesim. Aflita, porque não compreendia o que se estava a passar, pediu auxilio ao pessoal especializado que a tranquilizou e lhe disseram que tinha sido muito bom eu ter tido essa reacção porque o olfacto me trouxe recordações e tinha “mexido” comigo. Nunca me deixou… Longe, em Lisboa, num hospital estranho, a falar e a ouvir estranhos, nunca desistiu de mim. Isso é uma coisa preciosa que se guarda e fica connosco para toda a vida!
Quem é que me havia de dizer que haveria de ser assim? A nossa história de amor começou há muitos, muitos anos quando estudávamos no ciclo em Castelo de Vide. Ainda me lembro como se fosse hoje e eu, naquele intervalo entre duas aulas, reparei que aquela carinha linda que era irmã mais nova de uma colega minha de turma, tinha qualquer ”coisa” de especial. Sem eu lhe ter perguntado nada ela disse-me que ia pensar e ficou assim… Nunca mais despegou. É certo que a vida ainda havia de dar muitas voltas, nós teríamos ainda muita coisa por dizer e por fazer mas ficou sempre aquela sensação que aquele era o nosso porto de abrigo, o nosso local certo.
Juntámo-nos de vez quando eu estava na faculdade. Casámos (pelo civil primeiro e pela igreja depois), temos duas filhas e o Pedro Sobreiro só faz sentido se estiver junto da Cristina Lança que agora, para além de tudo, é a minha voz da consciência, é a minha médica em casa, a minha tutora. Eu tenho sempre de lhe perguntar antes porque só assim é que eu sei não só a sua opinião, como se a coisa está bem e é correcta.
A ultima que me fez (com muito espírito!) foi fotocopiar e colar no espelho da casa-de-banho, uma frase que a médica de São José me escreveu e à qual eu achei desde logo muita piada. Colou-a lá porque assim posso vê-la todos os dias e porque dali não há como fugir dela! Posso lê-la de manhã, de tarde, de noite, quando por ali passo e nela me fito. Estando escrita nunca mais me esqueço dela e tampouco a posso evitar. Diz: "Estou a recuperar bem mas a evolução é progressiva, lenta e isso chateia mas é bom sinal porque estou a recuperar e esta é mais uma fase transitória que estou a passar".
Cristina… Sou muito feliz por estar junto a ela, por a ter do meu lado, por a amar, por ter estas filhas maravilhosas.
Como ela diz muita vez (ao ponto de me deixar calado, embargado, sem ser capaz de dizer uma palavra), olhando para mim, sorrindo: “é muito bom ter-te”.
E eu? Que lhe posso dizer se lhe respondo sempre e me parece que o amor aqui não chega para o que quero dizer? Ela para mim é muito mais que isso, que tudo aquilo que posso dizer.
Sou fã!
(P.S. Ainda bem que pude escrever isto às escondidas e sem a autorização dela senão o mais provável é que não quisesse que o fizesse. Assim fica público e do conhecimento de todos!)








