
Tempo estimado de leitura (tendo como referência a capacidade de um jovem licenciado em engenharia, com um curso de inglês técnico tirado nas Novas Oportunidades): 10 minutos.
Bem…
Já que tanta gente (felizmente) se preocupa e pergunta…
Já que assumi, ao expor-me publicamente neste blogue, um estatuto de semi-figura pública (isto numa micro-escala, claro está!);
Já que já passaram quase 15 dias da intervenção, já se foram os pontos, já se ultrapassou a fase crítica…
E já agora… só porque sim, falemos então desta segunda operação.
Uma operação, sobretudo quando envolve anestesia geral (e atenção que isto é um leigo a opinar!), nunca é um acontecimento inócuo, sobretudo para os estreantes. Envolve tanta gente, tanto medicamento, tanto aparelhómetro, tanto químico, tanta perícia, tanto corte, tanta coisa que há sempre uma dose de risco... de algo que pode correr menos bem.
A intervenção a que fui sujeito no dia 20 de Outubro, para eliminar uma hérnia discal de proporções assinaláveis que me estava a esmagar a raiz do nervo ciático, correu bem. Na sala de operações tudo se passou conforme o guião e a recuperação parecia encaminhada. Logo no dia seguinte, consegui levantar-me e tomar banho sozinho. Assim que me ergui da cama, percebi de imediato (com grande alegria e alívio) que a dor tinha desaparecido. Tive alta no dia seguinte e assim rumei a casa, amassado mas ilusionado.
Passei bem a Sexta, o Sábado e no Domingo, ao final do dia, notei uma dor momentânea mas intensa que disparou ao longo da perna esquerda, precisamente a que era mais castigada pela hérnia. Ainda pensei que fosse uma inflamação num tendão ou um dano colateral da cirurgia, ou talvez até, o resultado de algum movimento mais esforçado (as operações a esta secção da coluna obrigam a que o acto de levantar e deitar sejam autênticos exercícios de ginástica, em que nos temos de “empinar” como se fossemos uma tábua de passar para a proteger, com recurso a muita força de braços e alguma agilidade).
Os dias sucederam-se, mais tristes do que o esperado. A dor não só persistia como aumentava à medida que o tempo passava. Como tinha consulta marcada em Portalegre na sexta-feira seguinte para retirar os pontos, decidi aguentar até então para falar com a médica e procurar explicações. As dores atingiram o limite máximo do suportável nessa tarde. Quando me tentei vestir, percebi que não era capaz de dar passo. Eram de tal forma insuportáveis que assim que tocava com o pé no chão tinha a sensação que tinha acabado de pisar um cabo de alta tensão que me desferia uma descarga pela perna acima e demorava minutos a desaparecer. Era o tipo de dores que eu imaginava que ser poderiam sentir com uma fractura exposta e com isto acho que digo tudo.
Arrastei-me literalmente até ao carro e dali até ao consultório. Não me lembro de ter sequer conseguido abrir os olhos durante a viagem. Senti, a cada curva do percurso, que a perna iria explodir a qualquer momento. As dores eram cem vezes piores que antes da cirurgia.
Se mal ia, pior fiquei quando percebi o ar de espanto da médica ao ver-me. O seu “mas Pedro?!?! O que é que se passa? Isto é tudo tão estranho… tão inédito...” não me animou por aí além. Saí de lá directo para uma injecção “de cavalo”, com acertos na medicação, indicação de repouso total e uma guia de marcha para nova ressonância magnética, o mais preciso dos exames a este nível.
Uma ressonância não é fácil. A ideia de ter de me enfiar de novo dentro daquele aspirador gigante, apenas vestido com uma bata e uns auriculares para me protegerem dos ruídos (imaginem…), durante meia hora sem me poder mexer, sob pena de se caso isso acontecesse, ter de começar tudo de princípio… não era animadora.
Assim que de lá saí, não podia ter tido “melhores” notícias. Disse-me o técnico: “ foi operado mas a perna ainda lhe dói, não é? É natural… há ali “algo” a comprimir o nervo. Vai ter de ser operado de novo!”.
Não me disse nada que não esperasse já, sinceramente, atendendo a tudo o que aqui vos descrevo, mas “levar” com a notícia assim de chofre… É dose!
A comparação com os exames anteriores confirmaram a necessidade de nova intervenção. Tenho, mais uma vez, de agradecer à minha médica, a Dr.ª Anabela Nabais, o cuidado e a preocupação que teve comigo, bem como a prontidão com que marcou a nova cirurgia.
“Quanto mais cedo, melhor” e assim regressei aos Lusíadas, disposto ao que quer que fosse. Dentro de mim, não conseguia deixar de ouvir em repeat, uma frase que ouvi na primeira consulta e que foi determinante para a minha opção pela cirurgia: “com a sua idade, peso, altura, físico e massa muscular, as possibilidades de ficar completamente bom são de 99,9%”. E eu só pensava: “Onde raio fui cair… logo no 0,1%”. Isto é tão típico em mim… para o bem e para o mal. “One in a million? That’s me!”.
E prontos… assim foi. No passado dia 17, foi mais uma anestesia geral e depois de quase 3 horas de operação, já estava cá fora, à espera de melhores dias.
Depois de aberto, e só então, lá se descobriu que afinal tinha sido um osso. Um osso?!?!? Sim, um osso com 1 centímetro (não é propriamente despiciendo) que se libertou sabe-se lá de onde e se foi alojar no espaço onde antes estava a hérnia, estando agora a castigar o nervo já magoado que, coitado, entretanto desenvolveu uma fibrose que o relatório de alta classificou de “exuberante”. Nem aqui me safo da excentricidade que alguns me catalogam…
Desde então aqui estou, desta vez já sem dores, rezando e esperando que este upgrade tenha sido o definitivo. Receitaram-me, pelo menos, mais 1 mês de cama (a juntar ao mês e meio que já cá canta), com levantes muito curtos e períodos sentado nunca superiores a 15/20 minutos. Por mais que mudem os lençóis, por mais banhos que tome e pijaminhas lavados que vista… acho que já estou a ganhar musgo. Com esta cacimba gelada que vai caindo pela manhã, já só falta que me comecem a nascer cogumelos selvagens detrás das orelhas.
Tenho tantas saudades da minha vida… de ser independente, de poder ir para onde quero, fazer o que quero, às horas que quero sem ter de incomodar ninguém… poder conduzir (saudades!)… estrear a minha bichinha… correr, nadar, andar de bicicleta, caminhar… estar com a minha família… com os meus amigos, cozinhar… até trabalhar… Quero!
Alguns (breves apontamentos) sobre mais esta experiência:
1) Nestes dias tenho pensado imenso. Não há como não. E foi assim que descobri que acho que a doença é um mecanismo que foi inventado por quem inventou o mundo (seja Deus, Alá, Buda, ou ninguém… de acordo com a confissão) com o objectivo de nos trazer de volta à nossa mera humanidade, à condição de reles seres mortais. É sempre um banho de humildade. Quem está doente sente-se sempre diminuído, esquecido pela sorte, deixado para trás (por mais carinho que tenha à sua volta). Porquê eu?, pergunta-se. E isso traz-nos de volta à estaca zero. Limpa-nos de algumas ideias e conceitos, de algumas impurezas que se vão colando a nós (tantas vezes inconscientemente..) e nos conduzem a uma imagem errada de nós, dos outros e do que nos rodeia. Eu acredito que nada acontece por acaso e espero, sinceramente, sair daqui como uma pessoa melhor.
2) Quero fazer um agradecimento que será sempre especial para todos os que trataram de mim, muitos deles ao quais nem sequer vi o rosto, tão somente os olhos, mas que tanto me estimaram e acarinharam. Do enfermeiro benfiquista que me foi chamar para a operação com um “atão pá, mas ainda não te vestiste? Olha que o gajo já tem a motosserra ligada e está-se quase a acabar a gasolina!”, à enfermeira que me acordou de mansinho já no recobro, passando, claro está, pela médica responsável. BEM HAJAM! Eu sei que é o vosso serviço, mas os serviços têm muitas formas de serem feitos.
3) Eu sei, porque se passou comigo, que um dos grandes medos de quem é operado está relacionado com a operação em si, com a anestesia, com o momento em que a luz se apaga e a gente vai para sei lá onde… “E se eu não acordo? E se me dói? E se desperto durante a coisa? E se acordo dentro de um caixão? E se acordo com o Malkovich e o Clooney à briga por um punhado de cápsulas Nespresso numa nuvem à nossa frente? E se acordo num caixão? E se, pura e simplesmente, não acordo?”. O medo da morte, sempre ele... o medo do nada, do deixar de existir, do deixar de ser… Vou-vos ensinar uma coisa: não se preocupem. Apenas deixem-se ir. Que será, será…
Da outra vez, como vos contei, já devo ter ido drogadíssimo para o “banco de ensaio” porque toda a gente à minha volta só se ria com as tarequices que eu dizia. Desta vez não! Entrei completamente lúcido para a sala das operações. Até pude comprovar, deitadinho na maca, que naquele trajecto é mesmo tudo como dá na televisão, nas séries do costume. Só vemos as luzes do tecto a passar, os caixilhos das portas e um ou outro olhar complacente que se cruza com o nosso por um segundo. Estranhei a lucidez e comentei com um camarada que por ali andava a passear de bata: “Veja lá… não se estão a esquecer de mim? Não falta darem-me qualquer coisinha? É que eu, da outra vez, a esta altura do campeonato já estava bem “do lado lá” e hoje estou aqui fresquinho da Silva. Vejam lá… não me abram para aí a sangue frio, ãh?”. Nisto surge-me por cima da cabeça, só que ao contrário, um senhor muito educado e bem falante, que se apresentou dizendo o nome todo e me disse com ar de prestidigitador e voz de João Chaves (o tal do Oceano Pacífico): “Agora esteja calmo, muito calminho... porque eu vou-lhe dar uma coisa que o vai acalmar muitooooo…” e nisto, vejo uma máscara amarela vir em direcção a mim e à primeira sorvidela… marchei para Morfeu. Coisa poderosa, aquela! Ainda senti o ar, uma dormência a entrar por mim adentro mas no segundo seguinte já tinham passado 3 horas, já tínhamos espetado 4 “secos” nos espanhóis sem eu ter sequer ajudado, e já me estavam a acordar.
Não temam. Não temam mesmo. Seja o que for que esteja para vir… é um ar que nos dá. Custam mais as dores que se seguem, o sentirmo-nos mexidos por dentro, mas isso são outras conversas…
E as últimas palavras vão para:
Os meus amigos, os meus leitores, quem me estima. Pelas visitas, pelos telefonemas, mails, sms, pensamentos e orações. Obrigado!
Os que me querem, os que me têm amado e amparado… a minha gente, a minha família, por me tomarem ao colo mais uma vez. Tenho poucas certezas mas uma delas, estou certo que bem certa será: sem vocês, nada seria.
E o último abraço vai para o meu primo Carlos que prontamente (mais uma vez…), se disponibilizou para abandonar tudo e ser meu chauffeur privado, e confidente nestes momentos sempre difíceis. Obrigado pela companhia, pelas conversas, pelos jornais e revistas que garantiste que nunca me faltassem, por tudo o que fizeste e te levou a que, por mim, estivesses longe no momento em que Deus chamou a tua mãe. Que esteja em descanso e em paz. A ti te digo que há favores que nunca se pagam.
A todos… um abraço!
Do vosso,
Tio Sabi