sábado, 4 de julho de 2020

Sair da vida



Escrevo sempre, apetece-me escrever, quando me deparo com situações que enquanto ser humano, ser (que se quer) pensante, mexem comigo.

 

Esta situação que se tem passado com amigos meus, a quem quero muito bem, tem mexido muito comigo. Um seu familiar muito próximo, com quem privava pouco mas do qual gostava bastante, encontra-se na fase terminal de uma doença prolongada, na fase final da vida, portanto, e encontra-se internada no 6º piso do Hospital Distrital Dr. José Maria Grande, em Portalegre, naquele que ninguém nunca quer, ou quererá estar, por ser o dedicado aos cuidados paliativos.

Naquele que é o mais alto, o mais perto do céu, todos sabem, tanto quem lá está, como quem lá vai de visita, que os internados não poderão voltar ao solo pelo seu pé.

 

Nenhum de nós sabe onde estava antes de ser concebido, e ganhar consciência. Os céticos certamente dirão que em lado nenhum. Eu opino que é para onde iremos voltar, no final de tudo, depois desta aprendizagem que é a vida.

 

Nascer não custa nada. É força motriz que nos arrasta para a luz, mas o mesmo não se poderá dizer do fim da vida, que tanto pode ser brusco e repentino, como longo e arrastado.

 

Uma das razões que me faz acreditar que tem de existir uma força superior que regule tudo isto, que consiga dar sentido a todo este processo da vida, e acredito que para tal tenha de existir mais de uma dimensão, são as tremendas injustiças que existem à partida:

Porque é que à nascença, uma alma tanto possa nascer numa criancinha da Faixa de Gaza que não conhece outra coisa senão bombardeamentos, fome, morte e destruição, como numa família de classe média que para nós, é alta, na Suécia, com tudo o que é do bom e do melhor?

Porque é tanto se poderia ter nascido num campo de concentração em Auschwitz, onde não se conhecia outras coisas senão horror, dor, e privação; como se poderia ter nascido numa família principesca monegasca qualquer, onde o luxo e a opulência eram tantos que até enjoavam?

Porque é que tanto se pode cair no seio de uma família refugiada síria, como numa família abastada dos Estados Unidos?

 

Eu sei que há a carga genética, que é o mapa de que somos feitos todos nós, que vai beber aos pais e antepassados, mas é de almas que estou a falar! Falo de saberes, de formas de sentir, de consciências!

Porquê tanta arbitrariedade, pergunto eu?!?

Os céticos responderão em coro e até parece que os estou a ouvir: olha, azar do c…! Ou tens sorte, ou não!, e com isto reduzem toda a possibilidade de haver algum sentido nesta misteriosa e complexa equação da vida, ao simplismo aleatório de um jogo de azar.

 

Pois eu posso ser mais parvo que os outros, o que até assumo com naturalidade, mas acredito mesmo com veemência, que após o último estertor, quando os pulmões se esvaziarem de ar pela última vez, não se seguirá apenas o nada, o fim, mas que a alma há-de abandonar o corpo que lhe serviu de casa, e levitar para outro lugar qualquer como é relatado nas experiências de pessoas que tiveram paragem cardíaca, mas obviamente não cerebral, e voltaram para testemunhar o que viveram, que tem assombrosas semelhanças em todos.

 

Com esta idade para ter juízo, sei que não acredito que existam tais coisas como o céu ou o inferno, mas acredito na reencarnação, e nem sequer tem de haver afinidade de espécies, vejam bem!

 

Uma morte repentina, que rasga a realidade e a vida de todos os que com ela se relacionavam, a chamada “morte santa”, é absolutamente arrasadora para quem cá fica, leva anos ou nunca mais se refaz, mas é seguramente muito menos sofrível para quem vai, que acredito que nem sequer se chega a aperceber ao certo do que lhe está a acontecer.


Não gosto, e a ninguém será agradável certamente, pensar na forma que terá o seu fim. Graças a Deus, o meu não foi dos fatídicos e repentinos, naquela noite de Verão de 2011, mas... como será? Esta é daquelas conversas que volta ao início, para concluirmos que o melhor, é nem sequer pensarmos nisso, com tantos problemas que temos para resolver na vida. 

 

Esta de que falo, não tem sido assim e á absolutamente demolidor só de imaginar a devastação de todo este processo, de um arrastar sem fim de dor e lamento. O que tem valido a todos tem sido o tremendo amor (de dar e receber) de quem a quer bem, e a tem rodeado ao longo deste penoso caminho, pois não existe sentimento mais forte, mais bonito e poderoso no mundo que esse.

 

E se há Amor com A maiúsculo, carinho e dedicação por parte dos seus que chega a ser comovente, é este. Para mim, não há maior prémio de vida.

 

Fazem parte das minhas orações há muito.

 

Que Deus vos ajude a todos...

 

Sem comentários: