sexta-feira, 15 de abril de 2011

Delfino da Graça Bento Amaro. O Chefe.


Frei Luca Pacioli (1495) de autor desconhecido




Naquela altura eu estava a trabalhar em Castelo Branco como chefe de vendas da Opel, um emprego ao qual tinha concorrido num ímpeto, ao responder a um anúncio de jornal, depois de saber que me tinham “feito a folha” num concurso para a Câmara Municipal de Marvão. Desiludido, mandei tudo às urtigas e fui.


Eram 80 km para lá, 80 km para cá, muitos kms por lá feitos em serviço… era levantar de madrugada, era chegar à noitinha, extenuado, deserto de cama… Era duro mas era melhor do que a humilhação “caseira” que me empurrou para esta travessia do deserto.



Isto até um feliz dia… em que a minha Cris ligou a dizer que me tinham chamado das Finanças. A aprovação no concurso feito dois anos antes produzia finalmente efeitos. Se me tivessem dito, no dia em que acabei o curso, cheio de sonhos e ilusões, que iria trabalhar nas Finanças… o mais certo era ter-me mandado para baixo do “15”, o eléctrico que passava lá na Junqueira mesmo em frente aos ISCSP mas… que fazer? Como eu costumo dizer… a vida é complicada demais para vir sem um livrinho de intruções e o dinheiro faz falta a toda a gente... Pelo menos era seguro (parecia então) e mais perto de casa... de forma que nem pensei duas vezes.



E se eu tinha a impressão mais cinzenta possível do que seria trabalhar nas Finanças… O funcionalismo público já por si me entediava. As Finanças então… Devia ser só gravatas e números e secretárias repletas de pilhas de papéis… Medo!



Mesmo assim rumei a Nisa, ao serviço onde tinha sido colocado como estagiário.



Se já ia com uma ideia pré-concebida, ao olhar para o edifício tudo se tornou cristal clear como dizem os ingleses. Aquilo era um caixote cor de papelão bordado com ninhos de andorinha. As escadas de granito conduziam a um 1º andar encimado por uma porta que rangia. Entrei. Atendeu-me o meu querido (na altura ainda não era) Marquês.



- Eu sou o estagiário, disse.



- Vou já chamar o Chefe. Um momento.



E do gabinete saiu o Chefe… uma figura de baixa estatura, meia idade, calça creme ligeiramente à boca de sino com um impecável vinco ao meio, camisa branca, gravata cinza, blazer azul, sapato castanho envernizado, cabelo farto e amanhado para a direita. Estendeu-me a mãe direita e disse-me: “Venha daí”.



E eu lá fui, atrás dele, atravessando a repartição que naquela altura me pareceu um pavilhão imenso polvilhado por olhares que me pareceram mirar de alto a baixo. Diga-se de passagem que o caso não era para menos. Eu, no lugar deles, faria o mesmo. E no trajecto lá me fui assoreganhando, fazendo o meu melhor sorriso em jeito de apresentação. A minha mania de querer agradar…



O Chefe foi do mais cordato e gentil possível. Quis, naturalmente, saber de mim e deu-me alguns conselhos de primeira hora que procurei seguir à risca. A empatia foi imediata. Era impossível resistir ao seu charme e graça natural.



- Sabe que hoje é dia de compadres? Tomamos um café à saúde disso?



- Ehhh… sim. Acho que sim. (Como se fosse possível recusar uma gentileza destas a um chefe logo o primeiro embate).



Atravessámos a estrada e entrámos na Colmeia que vim depois a saber que em Nisa era conhecida como a 2ª Repartição de Finanças. Ainda hoje não percebo porquê.



Ao balcão, ainda a estudar-me, fez-me uma pergunta que haveria de ficar para todo o sempre como a pergunta fetiche (repetida à exaustão) de uma private joke minha e do estagiário que haveria de chegar dias depois, o meu querido amigo (que adoro como irmão) Rui Miguel Caixado Pescada (já o era antes de o ser…) Ribeirinho Pinheiro:



- Então diga-me cá uma coisa, ó Pedro Alexandre (tratava-me sempre pelos dois nomes)… Sabe quem foi Frei Luca Pacioli?



- Não faço a mínima ideia, Sr. Delfino.



- Ah… (suspirou com ar de descanso por saber que eu não estava ao seu nível e disse sorrindo): Frei Luca Pacioli foi o inventor das “partidas dobradas” que é o princípio básico da contabilidade moderna: diz que quem deve tem a haver.



- Sim senhor…- , registei com agrado. Já não me esqueço (mal sabia eu…)



Depois… conquistou-me de uma forma que me deixou sem defesas. Apresentou-me aos colegas, convidou-me a almoçar em sua casa (onde iria voltar inúmeras vezes pelo mesmo motivo e onde conheci a encantadora Dona Antónia que nos tratou sempre como filhos), e… a cereja em cima do bolo… nessa tarde, levou-me aos serviços públicos de Nisa (tribunal, GNR. etc.) onde me apresentou pessoalmente a toda a gente. Uma coisa à antiga, à séria… que eu adorei.



O Chefe Delfino entrou muito novo para as Finanças e cedo chegou a chefe porque era inteligente, culto, bem falante e trabalhador. Era um homem encantador, com um charme natural incrível. Mas o Chefe Delfino era também um homem atormentado pelo passado e sobretudo pela guerra colonial, por tudo aquilo que por lá viveu. Por vezes parecia que apesar da sua natural boa disposição, havia uma nuvem negra por cima da sua cabeça e isso fazia com que fosse depressivo, com que atravessasse períodos menos bons e procurasse o pior refúgio para afogar a dor.



Eu acho que de certa forma, sempre foi incompreendido apesar do esforço titânico dos que lhe eram mais próximos e o amavam para o entenderem. Ele, que era muito crente e religioso, vivia numa espécie de permanente via sacra interior.



Quando o conheci já estava muito próximo de se aposentar e a sua dedicação à causa fiscal não tinha o mesmo fulgor do início da sua carreira. Nessa fase era apenas uma presença. Para mim e para o Rui, uma presença agradabilíssima.



A coisa mais extraordinária nele era o sentido de humor. Acho que nunca na vida me ri tanto com ninguém como me ri com ele. Talvez apenas com o meu pai… mas o Sr. Delfino fazia e dizia coisas que me levavam às lágrimas. Tantas vezes, diversas vezes durante o dia.



Ainda hoje, quando me junto com o Pescada nalguma patuscada somos capazes de estar horas só a recordar episódios, frases e tiradas do Chefe Delfino. Éramos fãs. Mesmo! Como nos estávamos sempre a rir com ele, por vezes até temia que pudessem pensar que estávamos a gozar mas nada poderia ser mais errado. O respeito era enorme.



Em Nisa a coisa resultou e eu acomodei-me porque ali encontrei o mais fantástico ambiente de trabalho que tive em toda a minha vida. Cada funcionário era uma personagem (eu incluído, claro!). Ríamos tanto uns com os outros que aquilo às vezes mais parecia o cenário de uma sitcom americana ao melhor estilo “The Office”.



Quando me chamavam ao telefone eu sabia ao que ia.



- Pedro… é o chefe…


- Tou? Sr. Delfino?


- Está a ouvir, ó Pedro Alexandre… É capaz de me vir buscar cá a casa?


- Claro que vou, chefe. Em 5 minutos estou aí.



E eu adorava quando desligava e começavam todos em coro a gozar: “Vai, Ambrósio, vai… Não te atrases… Leva o chapeuzinho de motorista…”.


Se aquilo para mim era uma festa…



Não resisto a contar duas histórias que ajudam a traçar o perfil…



O chefe chegava sempre mais tarde, a meio da manhã. Certo dia, por volta das 10h, depois de algum pessoal ter passado uma hora inteirinha a cortar-lhe na casaca por alguns acontecimentos do dia anterior… saiu do gabinete que continuava às escuras como se estivesse vazio, impávido e sereno, com o ar mais enxuto do mundo e sem ninguém esperar, disse com a maior das descontracções: “Ó estagiários… vamos beber um cafezinho?”. Tinha jogado na antecipação e estado a ouvir tudo. Nem um comentário...



Outra vez, numa noite por altura das festas de Verão de Nisa, teve uma discussão com o Sr. Carita, o nosso colega mais conhecido na vila pela alcunha de “Tonho Espanhol”. No dia seguinte chegou à repartição bem mais cedo do que era habitual para nos dar queixa da ocorrência. Irritado, disse: “Eu sou chefe e vou castigá-lo. Mesmo agora lhe vou tirar a máquina de escrever que ele tanto gosta por ter o teclado AZERT”. Pegou na máquina e a muito custo levou-a para o gabinete onde a confiscou no pequeno sofá que ali tinha. De seguida foi à casa de banho, com ar triunfante pelo feito. Nesse entretanto chegou o nosso colega Marquês, indisposto pela intensidade das festas e decidido a sentar-se um pouco no sofá do chefe, deu com a máquina do colega Carita que naturalmente repôs no local habitual. Agora imaginem a cara do chefe quando saiu da casa de banho e viu a máquina de regresso à secretária como por dotes de magia… Imperdível! “Já aqui está? Esta FDP?”.



A última vez que estivemos juntos foi há uns dois anos atrás, quando o convenci a vir almoçar comigo ao Sever, ele e a Dona Antónia. Passámos uma tarde muito agradável. Trouxe-os a minha casa. Estive para o ir visitar à Psiquiatria quando esteve internado há uns meses atrás mas preferi não ver naquela situação de debilidade. Ia ser duro para os dois. A esposa lembrou-me isso no dia do funeral: “Ainda bem que não o viram ultimamente quando ele estava mais em baixo. Ele gostava tanto de vocês que até lhe ia custar que o vissem assim…”.



De maneira que é dessa outra forma que eu o vou lembrar... como ele era... de Raybantes verdes, cigarro ao canto da boca, no seu impecável blazer azul com o alfinete do clube Lions, a beber um branco traçado natural com gasosa fresca… como se estivesse a dizer-me (como tanta vez o fez…), “Está a ouvir, ó Pedro Alexandre, sente-se aí e converse comigo”.



Saudades, chefe. Quem me dera ter conseguido arranjar tempo para ir ter consigo mas a vida é mesmo assim. Quem é que nos havia de dizer que partia tão cedo… Deixa-se andar mas nestas alturas… há sempre vagar. E eu lamento tanto...



Quanto ao frei Luca Pacioli, na chegada do meu colega estagiário, um ou dois dias depois de mim, ouvi precisamente no mesmo balcão, a tal pergunta da praxe:



“Ó Rui Miguel. Sabe quem foi Frei Luca Pacioli?”


“Não faço a mínima ideia, Sr. Delfino”.


E… virando-se para mim…


“E você sabe quem foi, ó Pedro Alexandre?”


“Se eu sei, chefe? Claro que sei! Foi um frade italiano que inventou as partidas dobradas, o princípio básico da contabilidade moderna. Como é que eu não ia saber isso?”.


E ele, boquiaberto, virou-se para o Rui e disse baixinho: “Está a ouvir? Este individuo tem uma cultura extraordinária!”.



Até sempre, amigo!



No baptizado do Dani, o filho do nosso amigo Jaquim da Colmeia.


Da esquerda para a direita: Binau, Professor, Paulinho Borrego, Chefe Delfino com os meus óculos de sol e numa pose insuperável, eu com os óculos dele, Carlinhos Ribeirinho e Carita (Tonho Espanhol)

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Numa festa dos meus anos na mercearia das minhas tias, há uns bons 10 anos atrás

Da esq. para dir.:

Sr. Manuel, Paulinho Borrego, João Alexandre, Manuel Coelho, Xico da Blúsia (Lourenço Costa), Miguel Sobreiro, Pedro Coelho, João Abelho Jr., Luís Barradas, Rui Pousadas, Carlos Pereira, Eu, João Manuel Lança, João Abelho Sr., Cremilde Sobreiro, Marquês (Meu Tonhe Jakim), Clarimundo Lança, Carlinhos Ribeirinho, Chefe Delfino, Joaquim da Colmeia, Ti Bia e Alzira Sobreiro... numa tarde memorável!

3 comentários:

VITOR disse...

Boas, sou o Mangerona, e fui estágiario no estágio que começou em Agosto de 1999. Comecei o meu estágio em NISA, juntamente com o Marquês, e era chefe o Srº. Delfino.
Revejo-me no texto acima e, apesar de só ter estado 3 semanas em Nisa (depois fui transferido para o Norte do Pais, onde resido), recordo ainda hoje com prazer aquele periodo. Para alem de ter sido muito bem recebido, quer pelo Chefe Delfino, quer pelos colegas, ocorrendo algumas boas historias que guardo com prazer.
Curiosamente, logo após conhecer o 1 Serviço de Nisa, fui tomar café ao "2ºServiço", o dito Colmeia.
Depois de ter saido de Nisa ainda visitei o Srº. Delfino algumas vezes, mesmo após a sua passagem á aposentação.
Até sempre Amigo Delfino.

Helena Barreta disse...

Recordamos sempre com saudade e carinho aqueles que, de uma maneira ou de outra, nos deixaram marcas, quando o relacionamento é ou foi bom, melhor ainda.

Também trabalhei numa repartição de finanças e tinha como chefe de secção um seu conterrâneo. Mas as histórias e tiradas mais divertidas vinham de um colega.

Um abraço

Pescada disse...

Grande chefe Delfino, atleta da caneta!
Um grande amigo, que vamos recordar com muita saudade!
Esteja lá ele onde estiver, um grande abraço por tudo o que fez por nós!
Bem-Haja e até já!