segunda-feira, 6 de abril de 2015

A menina (partiu...)


As notícias terríveis, porque súbitas e sempre inesperadas, voam mais rápido que o vento. Soube à porta do meu serviço assim que saí, pela Gracinha que passeava o seu Bóris, que um terrível acidente tinha vitimado a D.ª Glória. “Eu não sei se é verdade mas estavam a comentar e… quando é assim… não digas nada…“

A Dona Glória era a menina Glória, uma figura de sempre de Santo António das Areias. Sempre a conheci assim e sempre assim continuou ao longo dos anos em que a vida tanto foi mudando para mim e para todos os que estavam à volta, minha e sua. Sempre com o mesmo ar, a mesma forma de vestir, o mesmo comércio…

Nunca tivemos grande proximidade, apenas um tratamento circunstacial de quem vive na mesma terra e se conhece de sempre mas o acontecimento choca porque é o partir sem se estar à espera de alguém que não estava doente para partir. Ainda era uma senhora jovem. Para a sociedade moderna e a esperança média de vida ainda era expectável que tivesse mais vida pela frente, que não fosse ainda agora a altura de ir, ainda por cima, num trágico acidente.

É um choque que se estende a toda a aldeia porque um safanão destes da vida, que nos recorda a todos quanto tudo é súbito, assusta. Quando assim é, é natural que sintamos a nossa condição de mortais e vendo o fim assim agigantar-se à nossa frente, é provável que durmamos mais agarrados uns aos outros. É provável que falemos mais com a Força que regula tudo isto. É natural que aspiremos às rápidas melhoras dos familiares que seguiam no mesmo carro, seu marido e neta, que recuperam de ferimentos, ao que sei e oxalá, ligeiros. É natural que peçamos por ela, que partiu e rezemos por ela e por todos os que se viram assim, num terrível piscar de olhos, privados da sua companhia para sempre. Um abraço extensivo a todos na pessoa da filha mais velha Natália Batista.


Paz, à sua alma. Que esteja em descanso.

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