quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Contrabando na(s) Periferia(s)


Era a sessão de abertura do “Periferias”, o Festival Internacional de Cinema de Marvão e, agora, o de Valência de Alcântara também (já na sua 4ª edição). Eu tinha de estar presente. Não para aparecer no Jet 7 da porcalhota, mas porque o documentário inaugural que teria a sua estreia nacional, versava uma temática muito nossa, e por isso também muito apelativa: o contrabando.


Uma vez que iria só, pensei em convidar a minha mãe, que adora estas temáticas e por certo alinharia. Rumamos assim bem cedo e logo após o jantar para evitar atrasos e constrangimentos diversos que poderiam obstar a que fosse uma noite bem passada, como por exemplo, não termos um sítio confortável para sentar, pensando sobretudo nela.


Chegámos quando faltavam 10 min para as 9 h e deu tempo para sondar o terreno, fazer os cumprimentos queridos; um ou outro circunstancial e tempo ainda para virar a cara (o que dá o tal prazer especial) a quem tudo beija, mesmo que seja num funeral, que em tempo de guerra não se limpam armas.

Antes de dar largas ao teclado e à minha verve escorreita, que louva sempre o que é bem e zurze no que é mal, tenho de começar por dar os parabéns à bela, simpatiquíssima e doce Paula Duque Giraldo porque é ela a mola que faz tudo girar em torno desta mostra cultural. Quando se está à frente seja do que for, de vez em quando as pessoas têm a sorte de sem saberem ler, nem escrever, nem nada terem feito para algo acontecer, lhe aparecerem assim estes diamantes como ela a pedirem que lhe possam dar alguma margem para que possam brilhar por nós todos.

Pelo que conheço da Paula, das poucas vezes que tivemos possibilidade de trocar algumas impressões, já me apercebi que tem um background imenso nesta área de cinema, sobretudo o tipo curtas/documentários e de cariz independente. Vai daí, com os seus conhecimentos da arte e da área, tudo tem remexido e esgravatado para levar avante esta sua ideia quase que Quixotesca de ter uma mostra deste tipo em Marvão. A ela e antes mais que a nada, nem ninguém, os meus muitos parabéns!


Notem bem que as observações que irei fazer não são para criticar objetivamente nada, nem ninguém mas são… observações. Isso mesmo. Observações. Daquelas que visam o melhoramento e não para deitar abaixo seja lá o que for.

O festival seria para começar às 9h. Nestas coisas há sempre um ou outro atraso, normal. Ora entre discursos circunstanciais e agradecimentos diversos, perdemos 1 hora. Leram bem. 59 longos e eeeeeeexxxxtttteeeeeeeeeennnnnnssssssooooooosssssss minutos, mais um. Falou o alcalde de Valência, um cachopo novo mas com óbvio treino político e pareceu-me que com menos sinceridade e veracidade do que aquela que eu gosto mesmo.
Falou também um rapaz que não me consegui aperceber muito bem quem era, mas creio que era alguém ligado ao cinema ou aos fundos que suportam a iniciativa e depois falou o presidente da câmara de Marvão que, com o seu estilo absolutamente marcante nos abrilhantou a sessão em cerca de 15/20 minutos de estilo livre, isto é, sem recurso a qualquer cábula ou guia orientadora. O que se traduziu numa brilhante viagem pela temática dos “Direitos Humanos” que é a linha que une todas as obras que serão envolvidas no festival. Ou seja, enquanto toda a gente se preocupa em devorar os filmes, este homem vai mais longe e na sua visão clarividente, mergulha no verdadeiramente fundamental, sem sequer passar cartão aos relógios que isso é coisa para os comuns mortais que se preocupam com tudo o que não interessa.

Falou a Paula, que estava visivelmente satisfeita por, tudo aquilo em que há tantos meses tem andado a trabalhar, se ter tornado finalmente realidade, e Paulo Vinhas Moreira, o jovem realizador da obra que não a deu como sendo algo que esteja fechado, confinado, concluído, mas sim como uma narrativa permanentemente em construção num país com fronteiras tão extensas, onde a interação entre estes dois povos que estão dos dois lados da fronteira está em permanente reconstrução.

A projeção aconteceu no edifício da Alfândega dos Galegos e aquele sítio é, para mim, um sítio muito especial. Carregado de memórias de tardes em que a ida a Valência com as tias e os pais, aos sábados à tarde, era uma garantia de felicidade, não foi fácil lá voltar. Dá sempre medo quando a gente regressa ao passado. Parece que aquilo tem vida própria e ganha mais, perante nós. Do contrabando, recordo sempre os ralhetes que o meu pai nos dava e os pedidos que nos fazia para não trazermos nada que não fosse permitido, tal era o medo que tinha dos seus amigos guardas (fiscais e civis, porque trabalhava com ambos os lados no seu serviço de ajudante de despachante) o apanhassem. Medo vão, digo eu agora que penso nisso, porque os espanhóis nunca revistavam nada e diziam sempre “Halá Juan! Hasta pronto!”, e os portugueses, igual.


Sobre o filme, o documentário… a recolha de imagens é belíssima, a poesia visual muito por causa da fotografia é um portento. O som… foi miserável. Execrável. Inexplicável como é que se permitiu que aquilo acontecesse. Mas será que ninguém testou os aparelhos para ver qual era a qualidade sonora? Aquilo foi ao ponto de grande parte dos 45 minutos da projeção não terem sido audíveis. O que me safou foram as legendas em inglês para ir apanhando a coisa, nunca com a graça que teria a audição do original.

Mesmo que dissessem “ai mas a sala cheia, muda muito o som e só agora se poderia testar com essas condições…”
Tudo bem. Mas é que não se percebia peva! O Ti Manel da Relva já tem uma forma de falar muito própria e antiga mas ali… zero.

Muito difícil. Aquele documentário num bom ecrã, uma boa sala escura e um bom sistema sonoro, deverá ser uma experiência bem diferente.




O destaque vai inteirinho para o Zé Manel pedreiro dos Galegos, o irmão do João pequeno, que deu um verdadeiro show de bola quando contou as histórias do seu pai, um industrial do contrabando! Tal era a dimensão e a prosápia! O som aí, creio que por indicações da Paula, melhorou bastante. Porque houve uma altura em que dialogavam, um português e um espanhol que, não se percebia um cacete.

Nas estradas onde corro... sempre a pensar nisso...

E foi este homem Zé Manuel que, para fechar o documentário, dizendo que nem sequer conseguia explicar isso, abordou, à sua maneira, o fim do contrabando e a abertura das fronteiras, como uma coisa que nem se consegue explicar…

Como o espaço Schengen e a abertura das fronteiras, acabou-se com tudo, com aqueles negóciozecos em que numa viagem os duas daquelas se conseguia tirar, o que não se conseguia tirar em todo o dia de trabalho da terra.

Viagens loucas naquele jogo do gato e do rato, tão bem contadas pelo bom do Zé Manuel, naquela altura “em que um gajo tinha de andar tanto em forma que nem sequer havia colesterol”.

Para terminar, o fim da fronteira e o fim de tudo. O fim da minha Beirã, com imagens dela a serem as últimas a serem projetadas, e o escritório do meu pai, o escritório da minha mãe, e o fim do Pedro pequenino que teve de crescer para ajudar; e eu a ver aquilo sem conseguir chorar.




Deveria aliviar.

1 comentário:

Henrique Batista disse...

Adorei! À medida que ia lendo as imagens formavam-se como se estivesse estado lá contigo… E por isso talvez a dispersão do som fosse o que mais me incomodou... Grande abraço